{"id":12196,"date":"2019-12-13T16:51:45","date_gmt":"2019-12-13T19:51:45","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12196"},"modified":"2019-12-11T21:54:18","modified_gmt":"2019-12-12T00:54:18","slug":"contagem-regressiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/12\/13\/contagem-regressiva\/","title":{"rendered":"CONTAGEM REGRESSIVA"},"content":{"rendered":"<p><strong>MARCOS NOBRE<\/strong> &#8211; A responsabilidade do campo democr\u00e1tico para evitar a cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro sempre teve clareza de que chegou ao poder por uma conflu\u00eancia \u00fanica de circunst\u00e2ncias, uma janela no tempo dif\u00edcil de se repetir. Desde que se elegeu, tem apenas duas preocupa\u00e7\u00f5es: evitar o impeachment e se reeleger. A t\u00e1tica para atingir suas metas \u00e9 a mesma: manter o s\u00f3lido apoio de uma parcela do eleitorado que n\u00e3o \u00e9 maioria, mas que \u00e9 grande o suficiente tanto para resistir a um impeachment como para chegar ao segundo turno em 2022.<\/p>\n<p>A partir do terceiro m\u00eas de mandato, a parcela que apoia o atual presidente se estabilizou em torno de um ter\u00e7o do eleitorado. Mesmo que o apoio venha a cair para um quarto dos eleitores, ainda assim Bolsonaro tem boas chances de ser bem-sucedido. O sinal vermelho para seu projeto s\u00f3 acender\u00e1 caso caia abaixo desse patamar.<\/p>\n<p>A grande amea\u00e7a est\u00e1 no fato de que o duplo objetivo \u2013 evitar o impeachment e conseguir a reelei\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo. \u00c9 apenas um meio. O objetivo real de Bolsonaro \u00e9 destruir a democracia. Manter-se no poder e vencer a elei\u00e7\u00e3o em 2022 s\u00e3o apenas requisitos para alcan\u00e7ar esse objetivo maior.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que esse roteiro pode mudar. Bolsonaro pode tentar um golpe antes de 2022. Mesmo que seja uma tarefa ainda mais dif\u00edcil neste momento de dispers\u00e3o e de fragmenta\u00e7\u00e3o, as for\u00e7as democr\u00e1ticas t\u00eam de se preparar como puderem tamb\u00e9m para isso. Este texto \u00e9 otimista. Acredito que, pelo menos por enquanto, as condi\u00e7\u00f5es para um golpe n\u00e3o est\u00e3o dadas e que est\u00e1 mantido o roteiro de destrui\u00e7\u00e3o da democracia pela via eleitoral.<\/p>\n<p>Apesar de todas as indica\u00e7\u00f5es, tem muita gente que ainda duvida de que o objetivo de Bolsonaro seja destruir a democracia. Os atos e palavras antidemocr\u00e1ticos do atual presidente n\u00e3o passariam, segundo essas pessoas, de \u201carroubos\u201d. Outra parcela da sociedade acha que \u201cas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d ir\u00e3o mant\u00ea-lo na linha. Porque, afinal, Bolsonaro continua apostando em elei\u00e7\u00f5es. E est\u00e1 realizando o que prometeu durante a campanha de 2018.<\/p>\n<p>Mas o que Bolsonaro prometeu em 2018 foi exatamente isso \u2013 destruir as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Na campanha, as \u201cinstitui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d eram \u201co sistema\u201d. E o sistema \u00e9 \u201cde esquerda\u201d. O liberalismo que ele abra\u00e7ou \u00e9 meramente econ\u00f4mico \u2013 Bolsonaro tem ojeriza ao liberalismo pol\u00edtico. Entre outras raz\u00f5es, \u00e9 por isso que n\u00e3o passa de conversa fiada dizer que se trata de um governo \u201cliberal na economia e conservador nos costumes\u201d. \u00c9 um governo liberal na economia e antiliberal em pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No mundo todo, movimentos antidemocr\u00e1ticos destroem a democracia pela via eleitoral. Para isso, reduzem a democracia \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es, justamente. Insistem que a democracia n\u00e3o depende de institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e de uma cultura pol\u00edtica democr\u00e1tica para existir, precisa apenas de elei\u00e7\u00f5es e de consultas populares. Pelo contr\u00e1rio, as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e a conviv\u00eancia democr\u00e1tica na vida cotidiana s\u00e3o \u201cideol\u00f3gicas\u201d, \u201cde esquerda\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 um liberalismo autorit\u00e1rio, um Frankenstein pol\u00edtico. Para que cada pessoa possa fazer o que bem entende em sua vida privada, deve ter sua vida pol\u00edtica reduzida a votar. Uma democracia reduzida ao voto n\u00e3o precisa de imprensa livre, Judici\u00e1rio independente, escola que fomente a toler\u00e2ncia, Legislativo que fiscalize, movimentos sociais de contesta\u00e7\u00e3o, autocontrole democr\u00e1tico da burocracia estatal.<\/p>\n<p>Quando Eduardo Bolsonaro falou em \u201cum novo AI-5\u201d, a repulsa foi de tal ordem que n\u00e3o se prestou a devida aten\u00e7\u00e3o ao que ele disse em seguida: \u201cSe a esquerda radicalizar a esse ponto, vamos precisar dar uma resposta. E essa resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legisla\u00e7\u00e3o aprovada por plebiscito, como ocorreu na It\u00e1lia.\u201d \u00c9 claro que quem define o \u201cponto\u201d da \u201cradicaliza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 quem fala. Especialmente se estiver no poder. O primeiro caminho escolhido por Eduardo Bolsonaro \u00e9 usar a Presid\u00eancia para decretar um novo AI-5, assim como o pai falou em invocar a Lei de Seguran\u00e7a Nacional contra Lula.<\/p>\n<p>O outro caminho imaginado por Eduardo Bolsonaro foi o de um \u201cplebiscito\u201d. Quando a democracia \u00e9 reduzida ao ato de votar, a realiza\u00e7\u00e3o de plebiscitos ou referendos d\u00e1 a apar\u00eancia de tornar o processo pol\u00edtico \u201cmais democr\u00e1tico\u201d, j\u00e1 que \u201cse vota mais\u201d. E a refer\u00eancia \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o aprovada na It\u00e1lia pode ser \u00e0 Lei de Leg\u00edtima Defesa, cuja c\u00f3pia foi entregue em m\u00e3os a Eduardo Bolsonaro pelo ent\u00e3o homem forte do governo, o l\u00edder da extrema direita italiana, Matteo Salvini. Mas pode ser tamb\u00e9m uma refer\u00eancia a qualquer plebiscito da It\u00e1lia de Mussolini, sempre lembrado veladamente por Salvini de maneira elogiosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">P<\/span>ara realizar seu projeto autorit\u00e1rio, Bolsonaro precisa investir em duas frentes simult\u00e2neas. Precisa manter as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas existentes no mesmo estado de colapso em que j\u00e1 se encontravam desde as manifesta\u00e7\u00f5es de Junho de 2013 \u2013 uma das raz\u00f5es decisivas para explicar sua elei\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s. Com isso, ele pretende eliminar entraves ao seu projeto que possam vir da pr\u00f3pria burocracia de Estado, pretende eliminar a diversidade no fomento \u00e0 cultura e os controles institucionais penosamente conquistados ao longo da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, Bolsonaro quer introduzir uma nova cultura institucional, aparelhando o Estado com o m\u00e1ximo de adeptos do autoritarismo que conseguir. \u00c9 marcante como aposta na forma\u00e7\u00e3o de quadros jovens em seu governo. \u00c9 vis\u00edvel a tentativa de construir um dispositivo cultural de extrema direita para chamar de seu. Com isso, tornar\u00e1 o aparelho de Estado o quanto poss\u00edvel uma arma eleitoral em 2020 e em 2022.<\/p>\n<p>Na outra frente, Bolsonaro espera tornar mais org\u00e2nica sua base de apoio, convencendo-a paulatinamente de que a sa\u00edda autorit\u00e1ria \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 a melhor, mas a \u00fanica poss\u00edvel. Foi o que pretendi dizer h\u00e1 um ano, logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o, aqui mesmo na\u00a0<strong>piau\u00ed<\/strong>\u00a0(\u201cA revolta conservadora\u201d, edi\u00e7\u00e3o 147, dezembro de 2018): \u201cComo venceu a elei\u00e7\u00e3o com muita mobiliza\u00e7\u00e3o, mas sem nenhuma organiza\u00e7\u00e3o, Bolsonaro tem de convencer seu eleitorado mais fiel de que a revolu\u00e7\u00e3o conservadora apenas come\u00e7ou. Precisa pedir tempo e paci\u00eancia para desmontar de uma vez por todas o sistema pol\u00edtico. Precisa conseguir que as pessoas de sua rede se engajem e se candidatem na elei\u00e7\u00e3o de 2020 para preparar uma renova\u00e7\u00e3o geral que prometer\u00e1 completar apenas em 2022. A t\u00e1tica de identificar tudo que n\u00e3o \u00e9 o seu governo \u2013 ou seja, a \u2018esquerda\u2019 \u2013 com o \u2018sistema pol\u00edtico\u2019 o impede de utilizar os mecanismos cl\u00e1ssicos do mesmo sistema para atingir esse objetivo.\u201d<\/p>\n<p>No mundo todo, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, elei\u00e7\u00f5es est\u00e3o produzindo impasses. O exemplo mais recente \u00e9 o da Espanha, um pa\u00eds de regime parlamentarista que realizou quatro elei\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos quatro anos. Por toda a parte, as for\u00e7as pol\u00edticas adotaram posi\u00e7\u00f5es meramente defensivas. Empenham-se em manter as bases eleitorais que t\u00eam, sem qualquer pretens\u00e3o de amplia\u00e7\u00e3o ou de solapamento das bases de advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas, apesar do travamento e do impasse, o Brasil n\u00e3o \u00e9 a Espanha. \u00c9 um pa\u00eds governado por um presidente de extrema direita que sinaliza o tempo todo sua inten\u00e7\u00e3o de instaurar um governo autorit\u00e1rio na primeira oportunidade. O atual presidente tem clareza de que propostas autorit\u00e1rias t\u00eam tanto mais chance de vingar quando se apresentam em situa\u00e7\u00f5es de travamento e de impasse como a nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">M<\/span>esmo quem considera que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grav\u00edssima age como se estiv\u00e9ssemos diante de um governo normal. H\u00e1 um descolamento flagrante entre repetir \u00e0 exaust\u00e3o que a democracia est\u00e1 em risco e a aus\u00eancia do sentido de urg\u00eancia que deveria acompanhar essa constata\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 uma paralisia da a\u00e7\u00e3o que pode colocar tudo a perder.<\/p>\n<p>Bolsonaro \u00e9 agora presidente e n\u00e3o mais um candidato\u00a0<em>outsider<\/em>. Mas, paradoxalmente, continua a ser tratado como candidato e como se ainda\u00a0<em>outsider<\/em>\u00a0fosse. O paradoxo tem sua raz\u00e3o de ser: ele se p\u00f5e de fato como um presidente\u00a0<em>outsider<\/em>; e \u00e9 de fato candidato. Lan\u00e7ou-se \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o com menos de seis meses no cargo. E ent\u00e3o a imprensa cobre seu governo como se fosse campanha eleitoral. Mais do que isso, tanto as m\u00eddias sociais como as for\u00e7as pol\u00edticas lidam com o governo como se estiv\u00e9ssemos em campanha eleitoral.<\/p>\n<p>Continuamos a subestimar o atual presidente e as chances que tem de realizar seu projeto autorit\u00e1rio. Como todo\u00a0<em>outsider<\/em>\u00a0que se preze, Bolsonaro age sempre como se estivesse acuado, encurralado. E acreditamos. Acreditamos que o presidente da Rep\u00fablica est\u00e1 sempre na defensiva, perdendo. O presidente da Rep\u00fablica!<\/p>\n<p>Tratamos Bolsonaro como se ele ainda fosse um candidato azar\u00e3o e n\u00e3o o presidente do pa\u00eds. Como se fosse algo \u00f3bvio que seu projeto fracassar\u00e1. Afinal, \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que um sujeito tosco como esse, que n\u00e3o faz articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d possa chegar a 2022 com qualquer chance \u2013 \u00e9 o que ouvimos dia sim, outro tamb\u00e9m. Mesmo porque \u2013 assim continuam os mantras da pregui\u00e7a mental que tomou conta de n\u00f3s nos \u00faltimos tempos \u2013 \u201ca economia n\u00e3o vai decolar\u201d e Bolsonaro pagar\u00e1 o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>S\u00e9rio? Vamos agora acreditar em unic\u00f3rnios em lugar de fazer pol\u00edtica? Vamos colocar em risco a democracia brasileira com base em palpites de botequim?<\/p>\n<p>O efeito dessa pregui\u00e7a pol\u00edtica generalizada \u00e9 favor\u00e1vel a Bolsonaro em pelo menos tr\u00eas sentidos. Entra no ritmo eleitoral em que ele se sente confort\u00e1vel. Acredita no show de um presidente acuado, nas cordas, sem margem de a\u00e7\u00e3o. E, paradoxalmente, trata seu governo como se fosse um governo normal. A prova mais cabal dessa normalidade \u00e9 que todas as for\u00e7as pol\u00edticas continuam a fazer c\u00e1lculos meramente eleitorais, sem levar em conta que \u00e9 a pr\u00f3pria democracia que est\u00e1 em risco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>campanha midi\u00e1tica de normaliza\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro como um governo democr\u00e1tico ficou delegada sobretudo ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Na semana em que a\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0foi frontalmente atacada por Bolsonaro, Guedes concedeu uma entrevista ao jornal, em 3 de novembro \u00faltimo. A entrevista pretendeu mandar o recado de que o governo continua contando com gente esclarecida, ciosa das liberdades democr\u00e1ticas, verdadeiramente liberal no sentido pol\u00edtico da express\u00e3o. A normalidade foi expressa com perfei\u00e7\u00e3o j\u00e1 na chamada da entrevista, que reproduziu a seguinte fala de Guedes: \u201cD\u00e1 para esperar quatro aninhos de um liberal-democrata ap\u00f3s trinta anos de centro-esquerda?\u201d Como se estiv\u00e9ssemos diante de uma simples \u201caltern\u00e2ncia no poder\u201d. Como aconteceu em outra ocasi\u00e3o, quando Guedes afirmou que iria \u201centerrar o modelo econ\u00f4mico social-democrata\u201d dos governos do PSDB e PT.<\/p>\n<p>E, no entanto, ao identificar PSDB e PT como farinha do mesmo saco social-democrata, Guedes ecoa Bolsonaro, que identifica todas as for\u00e7as pol\u00edticas que n\u00e3o a sua ao \u201csistema\u201d, \u00e0 \u201cesquerda\u201d. O ministro fala como se integrasse um governo liberal sem mais. Ao mesmo tempo, deixou claro na entrevista que seu horizonte n\u00e3o se restringe a apenas \u201cquatro aninhos\u201d. Perguntado sobre a inclus\u00e3o da Petrobras na lista de empresas a serem privatizadas, Guedes respondeu assim \u00e0 jornalista Alexa Salom\u00e3o: \u201cN\u00e3o agora. Num segundo mandato o presidente vai considerar as grandes [<em>empresas estatais<\/em>]. N\u00f3s, da equipe econ\u00f4mica, quer\u00edamos tudo agora.\u201d<\/p>\n<p>Para n\u00e3o deixar d\u00favidas de que se trata de um governo revolucion\u00e1rio, que vai muito al\u00e9m da ades\u00e3o incondicional ao projeto reeleitoral dos \u201coito aninhos\u201d, Paulo Guedes tamb\u00e9m entrou de cabe\u00e7a no discurso apocal\u00edptico-salvacionista dos m\u00e1rtires. No an\u00fancio de sua proposta de refundar o Estado e a sociedade no Brasil, em 5 de novembro, usava uma pulseira com os dizeres \u201cApocalipse 12:11\u201d.<\/p>\n<p>O texto b\u00edblico do vers\u00edculo 11 do cap\u00edtulo 12 do livro do\u00a0<em>Apocalipse<\/em>\u00a0(o \u201clivro da revela\u00e7\u00e3o\u201d) diz: \u201cEles, pois, o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra que testemunharam, pois desprezaram a pr\u00f3pria vida at\u00e9 a morte.\u201d Trata-se do cap\u00edtulo b\u00edblico que introduz o t\u00f3pico das batalhas com o Diabo, que foi jogado para fora do C\u00e9u, para a Terra. O cap\u00edtulo narra nada menos do que o conflito c\u00f3smico entre o bem e o mal: o m\u00e1rtir vence, mas morre; e morre para vencer.<\/p>\n<p>A pulseira b\u00edblica indica o que est\u00e1 por tr\u00e1s da vers\u00e3o liberal-tecnocr\u00e1tica do caos como m\u00e9todo implantado por Bolsonaro como estilo de governo. Guedes prop\u00f5e tanta mudan\u00e7a radical ao mesmo tempo que \u00e9 imposs\u00edvel debater com alguma seriedade. O discurso nacionalista, o religioso e o tecnocrata se uniram para abolir de uma tacada o lento trabalho constituinte e constitucional realizado nos \u00faltimos 31 anos pela sociedade e pelos tr\u00eas poderes.<\/p>\n<p>Sem nem entrar no m\u00e9rito das in\u00fameras propostas e de suas muitas incoer\u00eancias e iniquidades, o ministro age como se jogasse no colo do Congresso uma Constituinte espec\u00edfica. Isso, com elei\u00e7\u00f5es municipais pela frente, sem qualquer prepara\u00e7\u00e3o anterior. Trata-se, al\u00e9m disso, de um pacote de medidas que poderia ter sido debatido de maneira escalonada, em uma s\u00e9rie coerente.<\/p>\n<p>Vai passar pelo Congresso? De que maneira? Essas s\u00e3o as perguntas que miram o alvo errado. O pacota\u00e7o de Guedes vai na contram\u00e3o do consenso que se formou na elite do capitalismo global. Todas as pol\u00edticas adotadas para enfrentar a crise econ\u00f4mica mundial iniciada em 2008 salvaram os sistemas financeiros, mas apenas empurraram o real problema com a barriga. O ciclo de revoltas de 2011 a 2013, que mirou essa primeira gambiarra, est\u00e1 sendo agora retomado em diferentes partes do planeta em novo patamar. Duas coisas j\u00e1 est\u00e3o claras para a elite do capitalismo global: a desigualdade chegou a n\u00edveis inadministr\u00e1veis; estamos efetivamente em estado de emerg\u00eancia ambiental.<\/p>\n<p>O plano Guedes quer introduzir com trinta anos de atraso as mesmas pol\u00edticas que levaram \u00e0 crise de 2008. Somada \u00e0 pol\u00edtica de vale-tudo ambiental do governo Bolsonaro e ao estado deplor\u00e1vel das institui\u00e7\u00f5es, caminhamos para um acirramento das nossas crises superpostas. \u00c9 nesse contexto que deve ser compreendida a declara\u00e7\u00e3o de Guedes durante entrevista coletiva em Washington, no \u00faltimo dia 25 de novembro: \u201cSejam respons\u00e1veis, pratiquem democracia. Ou democracia \u00e9 s\u00f3 quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses voc\u00ea j\u00e1 chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade \u00e9 essa? N\u00e3o se assustem, ent\u00e3o, se algu\u00e9m pedir o AI-5. J\u00e1 n\u00e3o aconteceu uma vez? Ou foi diferente?\u201d N\u00e3o h\u00e1 democrata que tenha o direito de permanecer indiferente a um ataque dessa magnitude \u00e0 democracia. N\u00e3o h\u00e1 democrata que tenha o direito de continuar a acreditar que Paulo Guedes \u00e9 um democrata depois de uma declara\u00e7\u00e3o como essa.<\/p>\n<p>Do pacota\u00e7o de Guedes o que de fato importa para o projeto de poder do atual presidente \u00e9 culpar \u201co sistema\u201d pelo resultado \u201cdistorcido\u201d que vier do Congresso. Seja l\u00e1 qual for. A narrativa oficial j\u00e1 est\u00e1 preparada de antem\u00e3o: Bolsonaro apresentou um projeto de reformula\u00e7\u00e3o de cima abaixo do pa\u00eds e n\u00e3o foi ouvido pelo \u201csistema\u201d. Como quer\u00edamos demonstrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">C<\/span>om alguma varia\u00e7\u00e3o, as pesquisas de opini\u00e3o sobre o presidente mostram que o eleitorado se divide em tr\u00eas ter\u00e7os: aprova\u00e7\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o, nem aprova\u00e7\u00e3o nem rejei\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m os principais nomes colocados para 2022 se organizam segundo essa divis\u00e3o: Bolsonaro, Lula, Jo\u00e3o Doria\/Luciano Huck. N\u00e3o importa aqui se o eleitorado se divide exatamente em tr\u00eas ter\u00e7os. O que importa \u00e9 que se consolidou na pol\u00edtica institucional uma t\u00e1tica de organiza\u00e7\u00e3o que se baseia na divis\u00e3o em tr\u00eas partes, seja l\u00e1 o tamanho que tenha cada uma. Para a manuten\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica, o que n\u00e3o pode acontecer \u00e9 alguma das partes cair para um patamar abaixo de um quinto do eleitorado.<\/p>\n<p>A t\u00e1tica de cada ter\u00e7o \u00e9 a mesma: fidelizar o eleitorado que acredita ser seu. N\u00e3o h\u00e1 empenho de ningu\u00e9m em minar a base das outras for\u00e7as ou em estender a sua pr\u00f3pria para al\u00e9m de seu ter\u00e7o.Por paradoxal que possa parecer, \u00e9 confort\u00e1vel para todas as demais for\u00e7as pol\u00edticas dar por certo, por exemplo, que a parcela do eleitorado que est\u00e1 com Bolsonaro n\u00e3o pode ser reconquistada para a democracia. A t\u00e1tica de cada um dos tr\u00eas ter\u00e7os refor\u00e7a a dos demais.<\/p>\n<p>Desapareceu do horizonte a lucidez do discurso de Mano Brown no \u00faltimo com\u00edcio no Rio de Janeiro do ent\u00e3o candidato Fernando Haddad, em 2018: \u201cN\u00e3o sou pessimista, sou realista. Eu n\u00e3o consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, pessoas que me respeitavam, me amavam, que serviam o caf\u00e9 de manh\u00e3, que lavavam meu carro, que atendiam meu filho no hospital se transformaram em monstros. Eu n\u00e3o posso acreditar nisso. N\u00e3o posso acreditar que\u2026 Essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o m\u00e1s assim.\u201d<\/p>\n<p>Uma importante figura de refer\u00eancia do ter\u00e7o do meio, por exemplo, considera que n\u00e3o vale a pena perder tempo em solapar a base de apoio de Bolsonaro. Em entrevista a Igor Gielow publicada pela\u00a0<em>Folha\u00a0<\/em>em 24 de outubro, Jorge Bornhausen avaliou que o \u201ccentro dever\u00e1 apoiar Luciano Huck na disputa com o PT para enfrentar Jair Bolsonaro no segundo turno em 2022, deixando Jo\u00e3o Doria de lado\u201d. Para o ex-governador, ex-ministro e ex-senador, \u201cHuck e um nome do PT ir\u00e3o disputar a vaga no segundo turno contra Bolsonaro (PSL). O presidente manter\u00e1 seus 25%, 30% de apoio, apesar de tudo\u201d. O pol\u00edtico de 82 anos, que j\u00e1 pertenceu \u00e0 Arena, ao PDS, ao PFL, ao DEM e ao PSD, deixou claro que n\u00e3o quer conversa com o ter\u00e7o \u00e0 esquerda. Diz ter votado em Bolsonaro no segundo turno de 2018 \u201cpor exclus\u00e3o, porque n\u00e3o voto no PT\u201d. Bornhausen faz do partido de Lula, e n\u00e3o de Bolsonaro, o advers\u00e1rio a ser primeiramente batido em 2022.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Lula, j\u00e1 livre, aposta fundo na fideliza\u00e7\u00e3o de seu ter\u00e7o do eleitorado. Em reuni\u00e3o da Executiva Nacional do PT em Salvador, em 14 de novembro, disse: \u201cVoc\u00eas j\u00e1 viram algu\u00e9m pedir para FHC fazer autocr\u00edtica? [\u2026] Quem quiser que o PT fa\u00e7a autocr\u00edtica, que fa\u00e7a a cr\u00edtica voc\u00ea. Quem \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o que critica, ela existe para isso. [\u2026] Na d\u00favida, a gente defende nosso companheiro.\u201d \u00c9 claro que exigir autocr\u00edtica de outra pessoa ou outra institui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o em termos. Se \u00e9\u00a0<em>auto<\/em>cr\u00edtica, n\u00e3o cabe exigir que outra pessoa a fa\u00e7a. Lula tem raz\u00e3o, quem quer criticar, que critique.<\/p>\n<p>Mas por que mirar em FHC quando \u00e9 Bolsonaro o presidente? Lula fala de \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d como se ainda estivesse na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e como se o PSDB ainda tivesse for\u00e7a para liderar a oposi\u00e7\u00e3o a seu governo. Como se ainda estiv\u00e9ssemos na Rep\u00fablica do Real, encerrada definitivamente com a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. Como se o advers\u00e1rio a derrotar fosse o ter\u00e7o \u201cnem nem\u201d \u2013 que nem apoia nem rejeita Bolsonaro \u2013 e n\u00e3o o pr\u00f3prio Bolsonaro.<\/p>\n<p>Sobretudo, Lula fala como se a t\u00e1tica do PT na elei\u00e7\u00e3o de 2018 tivesse sido sem m\u00e1cula. Como se a total aus\u00eancia de empenho efetivo em trazer o eleitorado \u201cnem nem\u201d para a candidatura Haddad n\u00e3o tivesse qualquer rela\u00e7\u00e3o com o resultado. Em seu discurso na abertura do Congresso Nacional do PT em S\u00e3o Paulo, em 22 de novembro, Lula disse: \u201cN\u00e3o fomos n\u00f3s os respons\u00e1veis, ativos ou omissos, pela elei\u00e7\u00e3o de um candidato que tem ojeriza \u00e0 democracia.\u201d O que mais se ouve na parte mais mobilizada do ter\u00e7o fiel ao PT \u00e9 que quem n\u00e3o votou em Haddad n\u00e3o passa de canalha sem remiss\u00e3o. Trabalham com a convic\u00e7\u00e3o de que repetindo o mesmo erro de 2018 ter\u00e3o um resultado completamente diferente em 2022. Porque o PT j\u00e1 estar\u00e1 preparado para enfrentar as\u00a0<em>fake news<\/em>. E porque n\u00e3o haver\u00e1 a facada que garantiu Bolsonaro no segundo turno em 2018. Ent\u00e3o t\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O<\/span>que \u00e9 necess\u00e1rio para que um acordo m\u00ednimo entre as for\u00e7as que n\u00e3o apoiam Bolsonaro possa acontecer? O que \u00e9 necess\u00e1rio para que uma agenda p\u00fablica alternativa \u00e0 l\u00f3gica de campanha eleitoral mantida por Bolsonaro consiga se impor? Menos do que isso ainda: o que \u00e9 necess\u00e1rio para dar o primeiro passo para evitar a cat\u00e1strofe, para que for\u00e7as pol\u00edticas advers\u00e1rias, mas dispostas a manter a democracia, aceitem simplesmente sentar para conversar?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma montanha de desconfian\u00e7as acumuladas de lado a lado. Mas, se a converg\u00eancia em torno de um acordo m\u00ednimo em defesa da democracia n\u00e3o come\u00e7ar a ser constru\u00edda desde j\u00e1, a democracia j\u00e1 perdeu. Porque a constru\u00e7\u00e3o de um acordo desse tipo tem de elaborar anos de golpes dur\u00edssimos, de m\u00e1goas e de acusa\u00e7\u00f5es graves. E isso leva tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente da continuidade dessa desconfian\u00e7a generalizada no campo democr\u00e1tico que se alimenta Bolsonaro. O atual presidente conta com a divis\u00e3o no interior do campo democr\u00e1tico, aposta que continuar\u00e3o dinamitadas todas as pontes entre as for\u00e7as desse campo. Bolsonaro ainda n\u00e3o disp\u00f5e de uma maioria de extrema direita para chamar de sua. S\u00f3 tem chance de realizar seu projeto autorit\u00e1rio se as for\u00e7as democr\u00e1ticas n\u00e3o forem capazes de chegar a um acordo para isol\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O eleitorado \u201cnem nem\u201d \u00e9 uma realidade. Mas o \u201ccentro\u201d de Jorge Bornhausen \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O que se costuma chamar de centro \u00e9 um estacionamento composto por aquela parte do eleitorado que n\u00e3o quer ser obrigada a escolher previamente se votar\u00e1 mais \u00e0 esquerda ou mais \u00e0 direita na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o. Foi sempre o sonho de parte da direita e de parte da esquerda tornar o centro algo org\u00e2nico, uma for\u00e7a pol\u00edtica com identidade pr\u00f3pria. Funciona como recurso ret\u00f3rico. Mas s\u00f3.<\/p>\n<p>\u00c9 enorme a responsabilidade de uma direita comprometida com a democracia. Mesmo que n\u00e3o exclusivamente, ela tem o papel de roubar votos de Bolsonaro, de minar sua base de apoio, de disputar a s\u00e9rio a representa\u00e7\u00e3o \u00e0 direita para isolar a extrema direita. Em setembro \u00faltimo, o Datafolha tentou medir o efetivo apoio a Bolsonaro e chegou ao resultado de que o \u201cn\u00facleo duro de entusiastas\u201d do atual presidente \u00e9 de cerca de 12% da popula\u00e7\u00e3o, sendo algo como 22% os \u201centusiastas m\u00e9dios\u201d do bolsonarismo. Ou seja, h\u00e1 muito apoio a Bolsonaro a ser roubado se houver um esfor\u00e7o real nessa dire\u00e7\u00e3o. Parte desse esfor\u00e7o ter\u00e1 de ser feito pela esquerda, mas a responsabilidade da centro-direita \u00e9 ainda maior. O \u00fanico que tentou isso at\u00e9 agora foi Jo\u00e3o Doria \u2013 o mesmo que Bornhausen achou por bem tirar do jogo sucess\u00f3rio. Foi atr\u00e1s de Alexandre Frota e de Joice Hasselmann, por exemplo. Mas Doria continua restrito a S\u00e3o Paulo, n\u00e3o tem capacidade de articula\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Isolar Bolsonaro requer ainda outro passo: a centro-direita precisa parar de fazer o jogo \u201cme engana que eu gosto\u201d, como se estivesse \u201cusando\u201d o atual governo para passar as mudan\u00e7as legislativas com que sonha h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas. Quem usa os outros \u00e9 quem est\u00e1 no poder. E quem est\u00e1 no poder \u00e9 a extrema direita.<\/p>\n<p>Em suma, Rodrigo Maia n\u00e3o preside o pa\u00eds, preside a C\u00e2mara dos Deputados. E seu mandato acaba bem antes do de Bolsonaro, em fevereiro de 2021. Os candidatos a substitu\u00ed-lo nada t\u00eam a ver com o projeto do \u201cnovo centro\u201d. \u00c9 bom come\u00e7arem a pensar nisso desde j\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">P<\/span>or fim, para que o movimento de ataque \u00e0 base de apoio de Bolsonaro seja bem-sucedido, \u00e9 necess\u00e1rio um cessar-fogo de parte a parte entre a centro-direita e Lula. O \u201ccentro\u201d precisa parar de tratar Lula e o PT como inimigos preferenciais e passar a consider\u00e1-los como advers\u00e1rios com os quais \u00e9 necess\u00e1rio se entender sobre o que ser\u00e1 a democracia brasileira. Porque, como se sabe, na democracia h\u00e1 apenas advers\u00e1rios, e n\u00e3o inimigos.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, o \u00fanico inimigo de fato \u00e9 Bolsonaro. Porque \u00e9 inimigo da democracia. Diante da amea\u00e7a autorit\u00e1ria representada pelo atual presidente, \u00e9 politicamente irrespons\u00e1vel agir como se a polariza\u00e7\u00e3o ainda fosse entre PT e PSDB. Irresponsabilidade, ali\u00e1s, que \u00e9 um presente para Bolsonaro.<\/p>\n<p>A centro-esquerda alternativa ao PT desejada por Ciro Gomes e pelo PSB \u00e9 um espa\u00e7o ainda mais imagin\u00e1rio do que o \u201ccentro\u201d de Bornhausen. Ciro quer abrir um espa\u00e7o onde espa\u00e7o n\u00e3o h\u00e1, quer fazer pol\u00edtica entre Lula e Luciano Huck. Para isso, resolveu hostilizar Lula e o PT de maneira permanente. Mais um presente para Bolsonaro.<\/p>\n<p>Se uma candidatura de esquerda chegar ao segundo turno contra Bolsonaro em 2022, \u00e9 evidente que vai precisar do eleitorado \u201cnem nem\u201d para vencer a elei\u00e7\u00e3o. Ainda mais se for um candidato do PT, um partido que registra hoje taxa de rejei\u00e7\u00e3o por volta de 43% no eleitorado. A parcela \u201cnem nem\u201d n\u00e3o vir\u00e1 para uma candidatura de esquerda \u201cpor gravidade\u201d, por \u201cn\u00e3o ter para onde ir\u201d, como muita gente insiste em fantasiar.<\/p>\n<p>O eleitorado \u201cnem nem\u201d s\u00f3 poder\u00e1 vir a apoiar um candidato da esquerda contra Bolsonaro se sentir que novas regras de disputa pol\u00edtica foram acordadas, se acreditar que um novo solo democr\u00e1tico para o exerc\u00edcio da diverg\u00eancia foi constru\u00eddo entre os advers\u00e1rios de ontem. N\u00e3o para apagar as diferen\u00e7as, muito pelo contr\u00e1rio. Como escrevi no texto de dezembro de 2018 aqui na\u00a0<strong>piau\u00ed<\/strong>: \u201cUma concerta\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica como essa teria ao mesmo tempo de defender institui\u00e7\u00f5es indefens\u00e1veis na sua forma atual e propor uma renova\u00e7\u00e3o radical dessas mesmas institui\u00e7\u00f5es. Cada for\u00e7a pol\u00edtica de oposi\u00e7\u00e3o teria de ter garantido o espa\u00e7o de fazer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 sua maneira e como bem entender, ao mesmo tempo que se perfilaria ao lado de todas as outras for\u00e7as de defesa das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e de sua reforma.\u201d O eleitorado \u201cnem nem\u201d s\u00f3 poder\u00e1 apoiar uma candidatura da esquerda contra Bolsonaro se tiver a seguran\u00e7a de que n\u00e3o ser\u00e1 hostilizado, de que sua posi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 respeitada. Hostilizar essa parcela do eleitorado por n\u00e3o ter votado em Haddad em 2018 \u00e9 o mais vistoso dos presentes para Bolsonaro.<\/p>\n<p>Ao sair da cadeia, em 1945, ap\u00f3s nove anos de pris\u00e3o, Luiz Carlos Prestes apoiou o ditador que tinha mandado prend\u00ea-lo. Elegeu-se senador e viu seu partido, o PCB, ser posto na clandestinidade dois anos depois. Independentemente da montanha de equ\u00edvocos de sua posi\u00e7\u00e3o, o que Prestes fez ao apoiar Get\u00falio Vargas em 1945 foi pol\u00edtica. Mesmo perseguido, mesmo na clandestinidade, aquele PCB -stalinista fez mais pela fr\u00e1gil democracia da Constitui\u00e7\u00e3o de 1946 do que muito autoproclamado democrata hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Lula e o PT ocupam hoje um lugar hist\u00f3rico ainda mais importante do que ocuparam Prestes e o antigo PCB em 1946. O PT governou por treze dos 22 anos da Rep\u00fablica do Real, tem a maior bancada na C\u00e2mara dos Deputados. \u00c9 enorme a responsabilidade pol\u00edtica de Lula e do PT na sustenta\u00e7\u00e3o da democracia em seu momento de maior fragilidade desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">\u201cS<\/span>istema\u201d \u00e9 o lugar que o vencedor da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2018 atribuiu a quem perdeu. Quem hoje defende a democracia faz parte do \u201csistema\u201d. Bolsonaro conseguiu transformar em \u201csistema\u201d at\u00e9 mesmo o pr\u00f3prio partido pelo qual se elegeu. Essa \u00e9 a l\u00f3gica da pol\u00edtica atual. Mostra a hegemonia de Bolsonaro no debate p\u00fablico, mesmo sendo apoiado por apenas um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se as for\u00e7as democr\u00e1ticas entrarem em concerta\u00e7\u00e3o (expl\u00edcita ou impl\u00edcita, n\u00e3o importa) para tentar encontrar uma converg\u00eancia m\u00ednima que permita salvar a democracia, com certeza receber\u00e3o o carimbo de \u201csistema\u201d, dar\u00e3o raz\u00e3o \u00e0 t\u00e1tica antissistema de Bolsonaro. Mas a atual t\u00e1tica meramente defensiva dos grupos n\u00e3o bolsonaristas tamb\u00e9m n\u00e3o se mostrou at\u00e9 agora capaz de escapar dessa consequ\u00eancia. Pelo contr\u00e1rio, apenas refor\u00e7ou a posi\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. Porque o impasse dos tr\u00eas ter\u00e7os mant\u00e9m tudo como est\u00e1 sem apontar para nenhuma sa\u00edda, sem apontar para nada al\u00e9m da perman\u00eancia do atual estado de crise da democracia. Se alguma das for\u00e7as pol\u00edticas n\u00e3o bolsonaristas vier a vencer o atual presidente em 2022 mantendo sua t\u00e1tica de hoje, apenas adiar\u00e1 a crise. Apenas produzir\u00e1 novos Bolsonaros.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso tamb\u00e9m que uma converg\u00eancia m\u00ednima das for\u00e7as n\u00e3o bolsonaristas n\u00e3o pode se resumir a restaurar o que foi a democracia brasileira. Tem de ir al\u00e9m de seu importante primeiro passo de um cessar-fogo nos bombardeios m\u00fatuos e permanentes. Tem de ser uma concerta\u00e7\u00e3o que aponte para o futuro, para a constru\u00e7\u00e3o de um novo espa\u00e7o comum de diverg\u00eancia democr\u00e1tica, para reformas significativas das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pode ser pura miragem o encontro entre Lula e Rodrigo Maia anunciado pelo colunista do UOL Tales Faria, em 19 de novembro \u00faltimo. Mas, mesmo sendo uma luz ainda fraca demais para o tamanho do t\u00fanel em que nos metemos, seria j\u00e1 um sinal alentador. Vai no mesmo sentido a tese da corrente majorit\u00e1ria do PT apresentada no \u00faltimo congresso nacional do partido, em novembro: \u201cN\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre consolidar a unidade dos progressistas e, ao mesmo tempo, buscar alian\u00e7as mais amplas, at\u00e9 com personalidade e setores de centro, em prol do Estado de Direito.\u201d J\u00e1 o discurso de Lula na abertura do mesmo congresso do PT vai em sentido contr\u00e1rio, segue na mesma linha dos pronunciamentos em Curitiba e no Recife, feitos ap\u00f3s a sua liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os canais de di\u00e1logo e de concerta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e3o hoje entupidos e enferrujados. Uma verdadeira DR [<em>discuss\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o<\/em>] do campo democr\u00e1tico vai exigir disposi\u00e7\u00e3o, paci\u00eancia e tempo. Um tempo que parece curto para o tanto de conversa que ainda precisa acontecer. Na melhor das hip\u00f3teses, o campo democr\u00e1tico tem menos de tr\u00eas anos para encontrar um acordo m\u00ednimo, tem menos de tr\u00eas anos para evitar a cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Se o projeto autorit\u00e1rio em curso ainda mantiver seu roteiro eleitoral, o imperativo categ\u00f3rico da pol\u00edtica brasileira \u00e9 derrotar Jair Bolsonaro na elei\u00e7\u00e3o de 2022. Dar prioridade a qualquer outro objetivo em rela\u00e7\u00e3o a esse significa arriscar tudo. Significa arriscar a pouca democracia que ainda temos.<\/p>\n<p>https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/contagem-regressiva\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCOS NOBRE &#8211; A responsabilidade do campo democr\u00e1tico para evitar a cat\u00e1strofe. Jair Bolsonaro sempre teve clareza de que chegou ao poder por uma conflu\u00eancia \u00fanica de circunst\u00e2ncias, uma janela no tempo dif\u00edcil de se repetir. 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