{"id":1214,"date":"2016-07-24T09:33:09","date_gmt":"2016-07-24T12:33:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1214"},"modified":"2016-07-15T10:36:32","modified_gmt":"2016-07-15T13:36:32","slug":"rumo-a-uma-era-da-desintegracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/24\/rumo-a-uma-era-da-desintegracao\/","title":{"rendered":"Rumo a uma Era da Desintegra\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Patrick Cockburn &#8211; <\/strong>No Oriente M\u00e9dio, Estados independentes desmoronam. Guerras, pol\u00edticas neoliberais e desigualdade extrema aceleram o processo. Mas e se o fen\u00f4meno tornar-se global?<\/p>\n<p>Vivemos numa era de desintegra\u00e7\u00e3o. Em nenhum lugar isso \u00e9 mais evidente do que no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1frica. De lado a lado da vasta faixa de territ\u00f3rio entre o Paquist\u00e3o e a Nig\u00e9ria, h\u00e1 pelo menos sete guerras acontecendo \u2013 no Afeganist\u00e3o, Iraque, S\u00edria, I\u00eamen, L\u00edbia, Som\u00e1lia e Sud\u00e3o do Sul. Esses conflitos s\u00e3o extraordinariamente destrutivos. Despeda\u00e7am os pa\u00edses onde est\u00e3o ocorrendo, a ponto que \u00e9 de se duvidar se algum dia poder\u00e3o recuperar-se. Cidades como Aleppo, na S\u00edria; Ramadi, no Iraque; Taiz, no I\u00eamen; e Benghazi, na L\u00edbia, foram reduzidas a ru\u00ednas, em parte ou totalmente. H\u00e1 tamb\u00e9m pelo menos tr\u00eas outras s\u00e9rias conflagra\u00e7\u00f5es: no sudeste da Turquia, onde as guerrilhas curdas est\u00e3o combatendo o ex\u00e9rcito turco; na pen\u00ednsula do Sinai, no Egito, onde atua uma guerrilha pouco divulgada, por\u00e9m feroz; e no nordeste da Nig\u00e9ria e pa\u00edses vizinhos, onde o Boko Haram continua a fazer ataques assassinos.<\/p>\n<p>Todos t\u00eam algumas coisas em comum: s\u00e3o intermin\u00e1veis, e parecem nunca produzir vencedores ou perdedores definitivos. (O Afeganist\u00e3o est\u00e1 em guerra desde 1979 e a Som\u00e1lia, desde 1991). Envolvem a destrui\u00e7\u00e3o ou o desmembramento de na\u00e7\u00f5es unificadas, sua divis\u00e3o <em>de facto<\/em> entre movimentos de massa da popula\u00e7\u00e3o e insurrei\u00e7\u00f5es \u2013 bem\u00a0<a href=\"http:\/\/reliefweb.int\/report\/south-sudan\/unicef-south-sudan-humanitarian-situation-report-87-20-may-2-june-2016\" target=\"_blank\">divulgados<\/a> no caso da S\u00edria e do Iraque, e menos em lugares como o Sud\u00e3o do Sul, onde mais de 2,4 milh\u00f5es de pessoas foram deslocadas nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Some-se a isso mais uma semelhan\u00e7a, n\u00e3o menos crucial, embora \u00f3bvia: na maioria desses pa\u00edses, nos quais o Isl\u00e3 \u00e9 a religi\u00e3o dominante, movimentos salafistas extremistas, entre eles o Estado Isl\u00e2mico (ISIS), a Al-Qaeda e o Talib\u00e3, s\u00e3o essencialmente os \u00fanicos canais dispon\u00edveis para protestos e rebeli\u00f5es. No momento, substitu\u00edram inteiramente os movimentos socialistas e nacionalistas que predominaram no s\u00e9culo 20. Os \u00faltimos anos viram um significativo retorno \u00e0 identidade religiosa, \u00e9tnica e tribal, por movimentos que buscam estabelecer seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio exclusivo pela persegui\u00e7\u00e3o e expuls\u00e3o de minorias.<\/p>\n<p>No processo, e sob press\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o militar externa, uma vasta regi\u00e3o do planeta parece estar sendo cindida. H\u00e1 muito pouco entendimento desses processos em Washington. Um bom exemplo disso foi o recente protesto de 51 diplomatas do departamento de Estado, contr\u00e1rios \u00e0 pol\u00edtica do presidente Barack Obama para a S\u00edria e a sugest\u00e3o de que sejam lan\u00e7ados ataques a\u00e9reos contra as for\u00e7as do regime s\u00edrio, acreditando que o presidente Bashar al-Assad iria assim cooperar com um cessar fogo. A abordagem dos diplomatas mant\u00e9m-se tipicamente simpl\u00f3ria, num conflito extremamente complexo, ao acreditar que o bombardeio de \u00e1reas civis e outros atos impiedosos do governo s\u00edrio s\u00e3o a \u201ccausa raiz da instabilidade que continua a sufocar a S\u00edria e a regi\u00e3o mais ampla\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 como se a mente desses diplomatas estivesse ainda na era da Guera Fria, como se eles ainda estivessem lutando contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e seus aliados. Contra todas as evid\u00eancias dos \u00faltimos cinco anos, assume-se que uma oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria moderada, que mal sobrevive, seria beneficiada pela queda de Assad. Falta entender que a oposi\u00e7\u00e3o armada na S\u00edria \u00e9 inteiramente dominada pelos clones do Estado Isl\u00e2mico e da al-Qaeda.<\/p>\n<p>Embora admita-se amplamente, hoje, que a invas\u00e3o do Iraque em 2003 foi um erro (mesmo por aqueles que a apoiaram \u00e0 \u00e9poca), n\u00e3o se aprenderam as verdadeiras li\u00e7\u00f5es. Por que todas as interven\u00e7\u00f5es militares, diretas ou indiretas, dos EUA e seus aliados no Oriente M\u00e9dio, no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo, apenas exacerbaram a viol\u00eancia e aceleraram a fal\u00eancia do Estado?<\/p>\n<p><strong>Extin\u00e7\u00e3o em massa de estados independentes<\/strong><\/p>\n<p>O Estado Isl\u00e2mico (ISIS), que acaba de comemorar seu segundo anivers\u00e1rio, \u00e9 o resultado grotesco desta era de caos e conflitos. A simples exist\u00eancia dessa seita hedionda \u00e9 um sintoma do profundo deslocamento sofrido pelas sociedades de toda a regi\u00e3o, governada por elites corruptas e desacreditadas. O crescimento do ISIS \u2013 e o de v\u00e1rios clones do estilo Talib\u00e3 e Al-Qaeda \u2013 \u00e9 uma medida da fraqueza de seus opositores.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito e for\u00e7as de seguran\u00e7a do Iraque, por exemplo, tinham 350 mil soldados e 660 mil policiais, segundo os registros, em junho de 2014, quando alguns poucos milhares de combatentes do Estado Isl\u00e2mico <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2014\/jun\/11\/mosul-isis-gunmen-middle-east-states\" target=\"_blank\">capturaram<\/a> Mossul, segunda maior cidade do pa\u00eds, que ainda dominam. Hoje, o ex\u00e9rcito iraquiano, os servi\u00e7os de seguran\u00e7a e cerca de 20 mil paramilitares xiitas, apoiados pelo poder de fogo maci\u00e7o dos Estados Unidos e for\u00e7as a\u00e9reas aliadas, <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2016\/06\/23\/world\/middleeast\/a-tour-of-falluja-reveals-grim-remnants-of-life-under-isis.html?_r=0\" target=\"_blank\">abriram<\/a> caminho a bala at\u00e9 a cidade de Faluja, cerca de 60 quil\u00f4metros a oeste de Bagd\u00e1, contra a resist\u00eancia de n\u00e3o mais que 900 combatentes do ISIS. No Afeganist\u00e3o, o ressurgimento do Talib\u00e3, supostamente derrotado em definitivo em 2001, aconteceu menos em raz\u00e3o da popularidade do movimento do que pelo descaso com que os afeg\u00e3os viam o governo corrupto de Cabul.<\/p>\n<div id=\"attachment_241160\" class=\"wp-caption alignright\"><\/div>\n<p>Os estados-na\u00e7\u00e3o est\u00e3o depauperados ou desmoronando em todos os lugares, enquanto l\u00edderes autorit\u00e1rios lutam pela sobreviv\u00eancia frente a crescentes press\u00f5es, externas e internas. Esse n\u00e3o \u00e9, de modo algum, o modo como se esperava que se desse o desenvolvimento da regi\u00e3o. Os pa\u00edses que escaparam do dom\u00ednio colonial na segunda metade do s\u00e9culo 20, com o passar do tempo, deveriam tornar-se mais e n\u00e3o menos unificados.<\/p>\n<p>Entre 1950 e 1975, l\u00edderes nacionalistas assumiram o poder em grande parte do mundo anteriormente colonizado. Prometeram alcan\u00e7ar autodetermina\u00e7\u00e3o nacional criando estados independentes poderosos, por meio da concentra\u00e7\u00e3o de todos os recursos pol\u00edticos, militares e econ\u00f4micos dispon\u00edveis. Em vez disso, no decorrer das d\u00e9cadas muitos desses regimes transformaram-se em estados policiais controlados por um pequeno n\u00famero de fam\u00edlias surpreendentemente ricas, e uma camarilha de empres\u00e1rios dependentes de suas conex\u00f5es com l\u00edderes como Hosni Mubarak, no Egito, ou Bashar al-Assad, na S\u00edria.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, esses pa\u00edses foram tamb\u00e9m abertos ao furac\u00e3o do neoliberalismo, que destruiu qualquer contrato social rudimentar que existia entre os governantes e os governados. Veja a S\u00edria. L\u00e1, vilas e cidades rurais que em algum momento apoiaram o regime do partido Baath da fam\u00edlia al-Assad, porque proporcionou empregos e manteve baixos os pre\u00e7os dos produtos b\u00e1sicos, foram depois de 2000 abandonados \u00e0s for\u00e7as do mercado, distorcidas em favor daqueles que est\u00e3o no poder. Esses lugares foram a espinha dorsal da rebeli\u00e3o p\u00f3s 2011. Ao mesmo tempo, institui\u00e7\u00f5es como a Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo (OPEP), que tanto fez para aumentar a riqueza e o poder dos produtores de petr\u00f3leo da regi\u00e3o nos anos 1970, perderam a capacidade de agir unificadamente.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do momento \u00e9: por que uma \u201cextin\u00e7\u00e3o em massa\u201d de estados independentes est\u00e1 acontecendo no Oriente M\u00e9dio, no Norte da \u00c1frica e regi\u00e3o? Os pol\u00edticos e a m\u00eddia ocidentais referem-se frequentemente a esses pa\u00edses como \u201cestados fracassados\u201d. O sentido que esse termo implica \u00e9 que o processo \u00e9 autodestrutivo. Mas v\u00e1rios estados agora rotulados de fracassados, como a L\u00edbia, reduziram-se a isso somente depois que movimentos de oposi\u00e7\u00e3o, apoiados pelo Ocidente, tomaram o poder com o apoio e a interven\u00e7\u00e3o militar de Washington e da OTAN, e mostraram-se muito fracos para impor seus pr\u00f3prios governos centrais e o monop\u00f3lio da viol\u00eancia no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>O processo come\u00e7ou, em v\u00e1rios sentidos, com a interven\u00e7\u00e3o no Iraque pela coaliz\u00e3o liderada pelos EUA, em 2003, que levou \u00e0 queda de Saddam Hussein, ao fechamento do Partido Baath e \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o de seu ex\u00e9rcito. Qualquer que sejam seus erros, Saddam e o autocr\u00e1tico governante da L\u00edbia, Muammar Gaddafi, foram claramente demonizados e acusados pelas diferen\u00e7as \u00e9tnicas, sect\u00e1rias e regionais dos pa\u00edses que governavam \u2014 for\u00e7as estas que foram, na verdade, liberadas de modo cruel depois de suas mortes.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, uma pergunta que n\u00e3o quer calar: por que a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 autocracia e \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Ocidente assumiu a forma isl\u00e2mica, e por que os movimentos isl\u00e2micos que acabaram por dominar a resist\u00eancia armada no Iraque e na S\u00edria, em particular, toram t\u00e3o violentos, regressivos e sect\u00e1rios? Colocado de outra forma, como poderiam esses grupos encontrar tantas pessoas querendo morrer por suas causas, enquanto seus opositores encontraram t\u00e3o poucas? Quando os grupos de combate do ISIS estavam varrendo o norte do Iraque, no ver\u00e3o de 2014, soldados que haviam jogado fora suas armas e uniformes, e desertaram daquelas cidades do norte do pa\u00eds, justificaram sua revoada dizendo com desd\u00e9m: \u201cMorrer pelo [ent\u00e3o primeiro ministro Nouri] al-Maliki? Jamais!\u201d<\/p>\n<p>Uma explica\u00e7\u00e3o usual para o crescimento dos movimentos de resist\u00eancia isl\u00e2mica \u00e9 que a oposi\u00e7\u00e3o socialista, secular e nacionalista foi esmagada pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a dos velhos regimes, ao contr\u00e1rio dos isl\u00e2micos. Em pa\u00edses como a L\u00edbia e a S\u00edria, contudo, os isl\u00e2micos tamb\u00e9m foram perseguidos com selvageria, e apesar disso dominaram a oposi\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, embora esses movimentos religiosos tenham sido suficientemente fortes para opor-se aos governos, eles geralmente n\u00e3o se mostraram fortes o suficiente para substitu\u00ed-los.<\/p>\n<p><strong>Muito fracos para vencer, muito fortes para perder<\/strong><\/p>\n<p>Embora haja, claramente, muitas raz\u00f5es para a desintegra\u00e7\u00e3o atual dos estados, e elas sejam de alguma forma diferentes de lugar para lugar, uma coisa \u00e9 certa: o fen\u00f4meno est\u00e1 se tornando uma regra em vastas regi\u00f5es do planeta.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea est\u00e1 procurando as causas da fal\u00eancia do estado nos dias que correm, deve sem d\u00favida come\u00e7ar pelo fim da Guerra Fria, um quarto de s\u00e9culo atr\u00e1s. Uma vez encerrada, nem os EUA, nem a nova R\u00fassia que emergiu da implos\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tinham interesse significativo em continuar apoiando \u201cestados fracassados\u201d, como fizeram durante tanto tempo, por medo de que o superpoder rival e seus aliados locais pudessem, ent\u00e3o, tomar o poder. Antes, l\u00edderes nacionais de regi\u00f5es como o Oriente M\u00e9dio eram capazes de manter seus pa\u00edses com certa independ\u00eancia, equilibrando-se entre Moscou e Washington. Com a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, isso n\u00e3o foi mais poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, na esteira do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o triunfo da economia neoliberal de livre mercado somou a esse mix um elemento cr\u00edtico. O neoliberalismo iria se mostrar muito mais desestabilizador do que parecia \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Veja a S\u00edria, de novo. A expans\u00e3o do livre mercado, num pa\u00eds onde n\u00e3o havia nem legitimidade democr\u00e1tica, nem o dom\u00ednio da lei, significou acima de tudo uma coisa: plutocratas ligados \u00e0s fam\u00edlias que governavam as na\u00e7\u00f5es tomaram para si tudo o que parecia potencialmente lucrativo. No processo, tornaram-se assustadoramente ricos, enquanto os habitantes empobrecidos das vilas, das cidades e das favelas urbanas, que antes contavam com o estado para conseguir emprego e comida barata, sofreram. Ningu\u00e9m deveria surpreender-se pelo fato de que esses lugares tenham se tornado redutos das rebeli\u00f5es s\u00edrias, depois de 2011. Na capital, Damasco, \u00e0 medida em que se expandia o reino do neoliberalismo, at\u00e9 mesmo os membros menos importantes do <em>mukhabarat<\/em>, a pol\u00edcia secreta, passaram a viver com apenas 200 a 300 d\u00f3lares mensais, enquanto o estado tornava-se uma m\u00e1quina de ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse tipo de saque e leil\u00e3o do patrim\u00f4nio nacional espalhou-se por toda a regi\u00e3o nestes anos. O novo governo eg\u00edpcio, comandado pelo general Abdel Fattah al-Sisi, impiedoso em rela\u00e7\u00e3o a qualquer sinal de dissid\u00eancia interna, foi emblem\u00e1tico. Em um pa\u00eds que tinha sido refer\u00eancia para regimes nacionalistas em todo mundo, ele n\u00e3o hesitou, em abril deste ano, em abrir m\u00e3o de duas ilhas no Mar Vermelho para Ar\u00e1bia Saudita, de cujo financiamento e \u201cajuda\u201d seu regime \u00e9 dependente. (Para a surpresa de todos, o Tribunal Superior do Egito suspendeu recentemente a decis\u00e3o de Sisi).<\/p>\n<p>Esse gesto, profundamente impopular entre eg\u00edpcios cada vez mais pobres, foi o s\u00edmbolo de uma mudan\u00e7a mais vasta\u00a0 no equil\u00edbrio do poder no Oriente M\u00e9dio. Os estados mais poderosos da regi\u00e3o \u2013 Egito, S\u00edria e Iraque \u2013 eram regimes seculares nacionalistas, e foram um contrapeso genuino \u00e0s monarquias da Ar\u00e1bia Saudita e do Golfo P\u00e9rsico. No momento em que o poder destas ditaduras seculares enfraqueceu, a influ\u00eancia das monarquias fundamentalistas sunitas s\u00f3 aumentou. Se em 2011 vimos a rebeli\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o espalharem-se por todo Oriente M\u00e9dio, com o breve florescimento da Primavera \u00c1rabe, tamb\u00e9m vimos a contrarrevolu\u00e7\u00e3o ressurgir, financiada pelas milion\u00e1rias petromonarquias do Golfo, que nunca tolerariam uma mudan\u00e7a para um regime democr\u00e1tico secular na S\u00edria ou L\u00edbia.<\/p>\n<p>Adiciona-se a isso novos processos em curso que fragilizaram estes estados: a produ\u00e7\u00e3o e venda de recursos naturais \u2013 petr\u00f3leo, g\u00e1s e min\u00e9rio \u2013 e a cleptomania que o acompanha. Esses pa\u00edses sofrem frequentemente com algo que se tornou conhecido como \u201ca maldi\u00e7\u00e3o dos recursos\u201d: estados cada vez mais dependentes das receitas advindas da venda dos recursos naturais \u2013 o suficiente para fornecer para toda popula\u00e7\u00e3o, teoricamente, um patamar razo\u00e1vel de vida digna \u2013 tornando-se ditaduras grotescamente corruptas. Nelas, iates dos bilion\u00e1rios locais, com conex\u00f5es cruciais para os regimes, vivem cercados por favelas com esgoto a c\u00e9u aberto. Nesses pa\u00edses, a pol\u00edtica tende a concentrar-se entre as elites, batalhando e manobrando para roubar as receitas do Estado e desvi\u00e1-la o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Este tem sindo o padr\u00e3o da vida econ\u00f4mica e pol\u00edtica em grande parte da \u00c1frica subsariana, de Angola \u00e0 Nig\u00e9ria. No Oriente M\u00e9dio e \u00c1frica do Norte, no entanto, existe um sistema diferente, em geral mal entendido mundo afora. H\u00e1 similarmente grandes desigualdades no Iraque ou na Ar\u00e1bia Saudita, com elites cleptocr\u00e1ticas semelhantes. Entretanto, eles governam seus estados com parte significativa da popula\u00e7\u00e3o, patrocinando oferta de trabalhos no setor p\u00fablico em troca da passividade pol\u00edtica ou apoio a seus regimes cleptocr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>O Iraque tem uma popula\u00e7\u00e3o de 33 milh\u00f5es de pessoas. No momento, nada menos que 7 milh\u00f5es est\u00e3o na folha de pagamento do governo, gra\u00e7as a sal\u00e1rios e pens\u00f5es que custam US$ 4 bilh\u00f5es por m\u00eas. Esta forma rude de distribuir as receitas do petr\u00f3leo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sempre foi denunciada como corrupta pelos comentaristas e economistas ocidentais. Eles, por sua vez, geralmente recomendam o corte desses trabalhos, mas isso significaria que toda a receita advinda dos recursos naturais, em vez de uma parte, seria roubada pela elite. Isso, de fato, \u00e9 cada vez mais o caso nessas terras, onde o pre\u00e7o do petr\u00f3leo despenca e at\u00e9 mesmo a realeza saudita come\u00e7a a cortar o suporte estatal para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por algum tempo, acreditou-se que o neoliberalismo seria o caminho para democracias seculares e economias de livre mercado. Na pr\u00e1tica, tem sido tudo, menos isso. Ao contr\u00e1rio: junto com a maldi\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, e as repetidas interven\u00e7\u00f5es militares de Washington e seus aliados, as economias do \u201clivre\u201d mercado desestabilizaram profundamente o Oriente M\u00e9dio. Encorajado por Washington e Bruxelas [sede da Uni\u00e3o Europeia], o neoliberalismo do s\u00e9culo 21 tem feito sociedade desiguais ainda mais desiguais e ajudado transformar regimes j\u00e1 corruptos em m\u00e1quinas de saques. Esta \u00e9 tamb\u00e9m, obviamente, a f\u00f3rmula para o sucesso do Estado Isl\u00e2mico ou qualquer alternativa radical para o status quo. Tais movimentos encontram facilmente apoio em regi\u00f5es empobrecidas e negligenciadas, como o leste da S\u00edria ou o leste da L\u00edbia.<\/p>\n<p>Note, contudo, que este processo de desestabiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma peculiaridade do Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica. Estamos certamente na era da desestabiliza\u00e7\u00e3o, um fen\u00f4meno que est\u00e1 crescendo globalmente, espalhando-se para os B\u00e1lc\u00e3s e Leste Europeu (com a Uni\u00e3o Europeia cada vez menos capaz de influenciar os acontecimentos na regi\u00e3o). N\u00e3o se fala mais de integra\u00e7\u00e3o europeia, mas de como prevenir a completa dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia na esteira do supet\u00e3o dado pelo Brexit na Inglaterra.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es pelas quais uma estreita maioria dos brit\u00e2nicos votou no Brexit tem paralelos com o Oriente M\u00e9dio. As politicas econ\u00f4micas de livre mercado perseguidas pelos governos, desde que Margaret Thatcher foi primeira-ministra, aprofundaram o fosso entre ricos e pobres e entre cidades ricas e boa parte do resto do pa\u00eds. A Gr\u00e3-Bretanha pode estar indo bem, mas milh\u00f5es de brit\u00e2nicos n\u00e3o compartilham da mesma prosperidade. O referendo sobre permanecer como membro da Uni\u00e3o Europeia, op\u00e7\u00e3o quase universalmente defendida pelo <em>establishment<\/em> brit\u00e2nico, tornou-se o catalisador para o protesto contra o status quo. A f\u00faria dos que votaram a favor da sa\u00edda tem muito em comum com a dos apoiadores do Donald Trump nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Os EUA continuam a ser uma superpot\u00eancia, mas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o forte como antes. Eles, tamb\u00e9m, est\u00e3o sentindo a tens\u00e3o deste momento global, em que eles e seus aliados locais s\u00e3o suficientemente poderosos para imaginar que podem se livrar dos regimes de que n\u00e3o gostam \u2014 mesmo sem ter sucesso, como na S\u00edria, ou tendo sucesso, mas sem poder substituir o que eles destru\u00edram, como na L\u00edbia. Um pol\u00edtico iraquiano disse uma vez que o problema em seu pa\u00eds \u00e9 que os partidos e movimentos eram \u201cmuito fracos para ganhar, mas muitos fortes para perder\u201d. Este \u00e9 cada vez mais o padr\u00e3o de toda a regi\u00e3o e est\u00e1 se espalhando para outros lugares. Isto traz consigo uma possibilidade de um ciclo intermin\u00e1vel de guerras indecisas e uma era de instabilidade que j\u00e1 come\u00e7ou.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"9YF0E9VM8S\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/rumo-a-uma-era-da-desintegracao\/\">Rumo a uma Era da Desintegra\u00e7\u00e3o?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Rumo a uma Era da Desintegra\u00e7\u00e3o?&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/rumo-a-uma-era-da-desintegracao\/embed\/#?secret=sawHjDuort#?secret=9YF0E9VM8S\" data-secret=\"9YF0E9VM8S\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patrick Cockburn &#8211; No Oriente M\u00e9dio, Estados independentes desmoronam. 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