{"id":12136,"date":"2019-12-04T10:22:52","date_gmt":"2019-12-04T13:22:52","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12136"},"modified":"2019-12-03T17:25:18","modified_gmt":"2019-12-03T20:25:18","slug":"viva-a-ignorancia-como-rir-chorar-e-enriquecer-no-mercado-da-miseria-intelectual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/12\/04\/viva-a-ignorancia-como-rir-chorar-e-enriquecer-no-mercado-da-miseria-intelectual\/","title":{"rendered":"Viva a ignor\u00e2ncia! Como rir, chorar e enriquecer no mercado da mis\u00e9ria intelectual"},"content":{"rendered":"<p><strong>RUBENS R.R. CASARA &#8211; <\/strong>Ignor\u00e2ncia como mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n<p>Ignor\u00e2ncia, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 o estado de quem n\u00e3o tem conhecimento ou cultura: um desconhecimento por falta de estudo, experi\u00eancia ou pr\u00e1tica. Todos nascem ignorantes e, em certo sentido, essa \u00e9 a nossa identidade original. Mudar esse estado, ou n\u00e3o, sempre foi uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tanto quanto o resultado de um esfor\u00e7o pessoal.<\/p>\n<p>Por muito tempo, havia consenso de que era necess\u00e1rio superar a ignor\u00e2ncia para desenvolver as potencialidades de cada indiv\u00edduo e fortalecer a sociedade. Mesmo a abstra\u00e7\u00e3o do \u201chomem econ\u00f4mico\u201d, transformado em modelo do \u201cindiv\u00edduo desej\u00e1vel\u201d tanto no liberalismo cl\u00e1ssico quanto no neoliberalismo, sup\u00f5e uma pessoa que superou a ignor\u00e2ncia para se tornar capaz de calcular as vantagens pessoais que possa obter a partir de suas decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es. Em apertada s\u00edntese, a ignor\u00e2ncia, at\u00e9 bem pouco tempo, era vista como uma negatividade. Mesmo as pessoas mais ignorantes procuravam fingir algum tipo de conhecimento diferenciado ou de erudi\u00e7\u00e3o. Hoje, ao contr\u00e1rio, passou a ser percebida como uma positividade e tratada como uma mercadoria.<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia \u00e9 um estado que possui valor porque pode ser explorada tanto no plano econ\u00f4mico quanto no plano pol\u00edtico. \u00c9 a mat\u00e9ria prima para um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o enfrentar\u00e1 resist\u00eancia de valores como a \u201cverdade\u201d, a \u201csolidariedade\u201d, a \u201cintelig\u00eancia\u201d, a \u201cl\u00f3gica\u201d etc. A partir da ignor\u00e2ncia \u00e9 poss\u00edvel potencializar tanto o mercado quanto a ades\u00e3o acr\u00edtica a um regime pol\u00edtico. Manter a ignor\u00e2ncia tornou-se, ent\u00e3o, uma das principais metas da \u201carte de governar\u201d.<\/p>\n<p>Diante da valoriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da ignor\u00e2ncia, o \u201chomem ignorante\u201d \u00e9 ressignificado e passa a ser percebido como o tipo-ideal de cidad\u00e3o: aquela pessoa que se caracteriza pela simplicidade com que todos podem se identificar. A \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201ccultura\u201d, por sua vez, come\u00e7am a ser tratadas como amea\u00e7as que precisam ser afastadas. Instaura-se, assim, um novo modo de governo, mais eficaz e barato: o governo para e pela ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Com a demoniza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e da cultura (percebidas como atividades degeneradas e \u201cideol\u00f3gicas\u201d), aparece o indiv\u00edduo com orgulho de ser ignorante, como demonstra a ades\u00e3o sem reflex\u00e3o \u00e0s posturas anti-intelectualistas em voga na sociedade. Em uma curiosa invers\u00e3o valorativa (e, com toda manifesta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, n\u00e3o percebida enquanto tal), o intelectual (aquele que se diferencia por um saber espec\u00edfico) torna-se objeto de reprova\u00e7\u00e3o social, enquanto aumenta a ode \u00e0 ignor\u00e2ncia e a espetaculariza\u00e7\u00e3o do desconhecimento.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, cada vez mais pessoas buscam se expressar a partir de uma linguagem empobrecida, com o recurso a slogans, frases feitas, chav\u00f5es, jarg\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es gramaticalmente pobres, com o objetivo de serem compreendidas e contarem com a simpatia de interlocutores que eles sup\u00f5em serem ignorantes. A orienta\u00e7\u00e3o para os governantes, a oposi\u00e7\u00e3o, os jornalistas, os gerentes e diretores de grandes empresas \u00e9 a de se limitar a formula\u00e7\u00f5es simples (sujeito-verbo-complemento) e utilizar um vocabul\u00e1rio pobre para conseguir a aten\u00e7\u00e3o de um audit\u00f3rio que eles acreditam (e agem para tornar) cada vez mais inculto.<\/p>\n<p>Revisitar um discurso ou uma confer\u00eancia de imprensa dos principais pol\u00edticos do s\u00e9culo passado, e compar\u00e1-los com os eleitos de hoje, gera profundo inc\u00f4modo. A quest\u00e3o ultrapassa limites territoriais ou ideol\u00f3gicos: para n\u00e3o falar do Brasil, basta comparar as manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do General De Gaulle ou de Fran\u00e7ois Mitterand com as de Nicolas Sarkosy e Fran\u00e7ois Hollande. A redu\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>standards<\/em>\u00a0de conhecimento e educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios para chegar ao poder s\u00e3o evidentes (como demonstram as manifesta\u00e7\u00f5es do presidente brasileiro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistacult.com.br\/home\/tag\/jair-bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0sobre a mulher do presidente franc\u00eas Emmanuel Macron e o \u201cboicote\u201d \u00e0 marca de canetas Bic).<\/p>\n<p>Hoje, as refer\u00eancias culturais da grande maioria dos pol\u00edticos n\u00e3o ultrapassam cita\u00e7\u00f5es a Chaves (n\u00e3o o pol\u00edtico venezuelano, mas o personagem infantil mexicano) ou, na melhor das hip\u00f3teses, a Valdemort (da saga Harry Poter). Os d\u00e9ficits culturais s\u00e3o evidentes tanto entre os eleitos quanto entre os eleitores: O desconhecimento de Jean Valjean e dos irm\u00e3os Karamazov \u00e9 proporcional ao crescimento do capital pol\u00edtico de atores porn\u00f4s fracassados, cantores de qualidade duvidosa e jovens dirigentes de mil\u00edcias virtuais especializados em ofender e divulgar fake news. As mesmas pessoas que desconhecem a Il\u00edada de Homero s\u00e3o os que gritam \u201cmito\u201d e \u201cher\u00f3i\u201d para defensores da tortura, de ilegalidades e das ditaduras militares latino-americanas.<\/p>\n<p>Em um clima de indig\u00eancia intelectual, qualquer personagem sa\u00eddo de um circo de horrores ou de um programa de audit\u00f3rio brasileiro (igualmente horroroso, por explorar a pobreza e a desgra\u00e7a) pode chegar \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Basta pensar que a cada campanha eleitoral diminuem o n\u00famero de palavras e verbos utilizados nos debates e nos programas de governo. Os debates televisivos entre os candidatos, com suas regras que inviabilizam a formula\u00e7\u00e3o de ideias e a exposi\u00e7\u00e3o de argumentos com alguma profundidade, s\u00e3o outros exemplos que sinalizam a desimport\u00e2ncia do conhecimento, tanto \u00e0 direita quanto \u00e0 esquerda, no campo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Nas grandes empresas, n\u00e3o \u00e9 diferente. M\u00e9todos de \u201cger\u00eancia\u201d importados dos Estados Unidos buscam bloquear a reflex\u00e3o e otimizar a aliena\u00e7\u00e3o para fazer dos trabalhadores meros aut\u00f4matos. Alguns sintomas desse incentivo \u00e0 ignor\u00e2ncia no ambiente das grandes empresas s\u00e3o facilmente percebidos, tais como o abuso do PowerPoint para orientar as formas de atua\u00e7\u00e3o dos empregados a partir de imagens pensadas para pessoas incapazes de interpretar um texto; a contrata\u00e7\u00e3o de consultores externos, diante do reconhecimento da incapacidade do pensamento no ambiente da empresa etc.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no campo do jornalismo a perda da qualidade intelectual \u00e9 percept\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 uma obra do acaso: para a manuten\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia \u00e9 necess\u00e1rio atacar tanto a educa\u00e7\u00e3o quanto a liberdade de express\u00e3o. A\u00a0<em>stardardiza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e a uniformiza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados jornal\u00edsticos somadas \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o de jornalista e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de poder nos blocos midi\u00e1ticos (dominados por empres\u00e1rios sem preocupa\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas), fen\u00f4menos t\u00edpicos a partir da racionalidade neoliberal, s\u00e3o o retrato da derrocada do jornalismo em todo o mundo.<\/p>\n<p>A necessidade de manter o emprego e o desejo de atender aos detentores do poder econ\u00f4mico comprometem a qualidade da informa\u00e7\u00e3o e impossibilitam que determinados assuntos, not\u00edcias ou reflex\u00f5es que n\u00e3o interessem aos patr\u00f5es sejam veiculados. Cada vez mais s\u00e3o \u201cfabricados\u201d jornalistas ignorantes para produzir desinforma\u00e7\u00e3o e, assim, divulgar\/produzir ignor\u00e2ncia. A op\u00e7\u00e3o por oferecer informa\u00e7\u00f5es e discursos simplificados, de priorizar o f\u00fatil e o insignificante em lugar da informa\u00e7\u00e3o e da reflex\u00e3o, tamb\u00e9m s\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tanto dos empres\u00e1rios que controlam os meios de comunica\u00e7\u00e3o quanto da pequena casta de jornalistas que exercem postos chaves no mercado de produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias.<\/p>\n<p>O exemplo do tratamento jornal\u00edstico dado pelo Grupo Globo \u00e0 chamada\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/vaza-jato-e-os-projetos-autoritarios\/\">Vaza Jato<\/a>, conte\u00fado informativo que atinge a imagem de \u201cher\u00f3i\u201d do atual Ministro da Justi\u00e7a brasileiro, \u00e9 um exemplo bem evidente de como op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas das empresas apostam na ignor\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o e comprometem a qualidade da atividade jornal\u00edstica. Trata-se de uma quest\u00e3o exclusivamente econ\u00f4mica: not\u00edcias de evidente interesse p\u00fablico n\u00e3o s\u00e3o divulgadas (ou s\u00e3o desqualificadas) para que n\u00e3o se perca o investimento na constru\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica do her\u00f3i Moro.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese deste pequeno artigo \u00e9 a de que \u00e9 preciso reconhecer a vit\u00f3ria da ignor\u00e2ncia. O reconhecimento da derrota da intelig\u00eancia e a identifica\u00e7\u00e3o dos mecanismos e funcionalidades da gest\u00e3o da ignor\u00e2ncia s\u00e3o os antecedentes l\u00f3gicos da reflex\u00e3o e da cria\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias que recuperem a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o e da cultura na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade menos injusta (e, portanto, mais inteligente).<\/p>\n<p><strong>Ignor\u00e2ncia e identidade<\/strong><\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia \u00e9 um dado natural. Basta n\u00e3o educar ou educar precariamente para conseguir essa mat\u00e9ria-prima. Mant\u00ea-la, incentiv\u00e1-la e explor\u00e1-la passam a ser objetivos estrat\u00e9gicos (e biopol\u00edticos) tanto de governantes quanto de empres\u00e1rios. Isso porque a ignor\u00e2ncia permite uma nova e mais produtiva forma de reifica\u00e7\u00e3o, uma radical impossibilidade de \u201creconhecimento\u201d (que n\u00e3o se resume \u00e0 mera identifica\u00e7\u00e3o): o desconhecimento a respeito dos outros seres humanos, dos mecanismos de exclus\u00e3o, das t\u00e9cnicas e dispositivos de opress\u00e3o e do como se interage com outras pessoas.<\/p>\n<p>O valor pol\u00edtico da \u201cignor\u00e2ncia\u201d, que facilita a introje\u00e7\u00e3o de uma normatividade adequada aos interesses dos detentores do poder pol\u00edtico e do poder econ\u00f4mico, est\u00e1 ligado \u00e0 ideia de identidade. \u00c9 a ignor\u00e2ncia que permite uma identifica\u00e7\u00e3o direta com ampla parcela da popula\u00e7\u00e3o, uma identifica\u00e7\u00e3o a partir da falta de conhecimento\/informa\u00e7\u00e3o e da mis\u00e9ria intelectual.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo atrav\u00e9s do qual tanto a identidade pessoal quanto as rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o constru\u00eddas. Todavia, em um quadro de empobrecimento da linguagem e de pobreza intelectual, a \u201cidentifica\u00e7\u00e3o\u201d leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos que se submetem aos mandamentos daqueles com os quais se identifica e, ao mesmo tempo, \u00e0 exclus\u00e3o de todos os que n\u00e3o se adaptam a eles, em um fen\u00f4meno tendencialmente violento. Essa viol\u00eancia, n\u00e3o raro, adquire uma forma institucionalizada na medida em que \u00e9 organizada e passa a contar com o apoio tanto do governo quanto dos grupos de interesse que controlam as m\u00e1quinas de produ\u00e7\u00e3o de subjetividades (televis\u00e3o, smartphones, redes sociais, etc.). A divis\u00e3o da sociedade entre os \u201cdesej\u00e1veis\u201d e os \u201cindesej\u00e1veis\u201d \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica facilitada pela ignor\u00e2ncia que permite fazer com que criminosos recebam o tratamento de \u201cher\u00f3is\u201d, ao mesmo tempo em que todos aqueles que n\u00e3o interessam aos detentores do poder s\u00e3o criminalizados\/demonizados.<\/p>\n<p>Note-se que a identidade pela ignor\u00e2ncia \u00e9 um fen\u00f4meno correlato ao da ascens\u00e3o de ignorantes ao poder econ\u00f4mico e ao poder pol\u00edtico, ou mesmo \u00e0 tentativa de parecer cada vez mais ignorante para conseguir enganar e explorar pessoas rotuladas como ignorantes. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de capta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e o surgimento de uma nova figura de autoridade que se caracteriza tanto pela ignor\u00e2ncia quanto pelo sucesso pol\u00edtico e\/ou econ\u00f4mico. A mensagem do detentor do poder poderia ser traduzida nos seguintes termos: \u201csou t\u00e3o ignorante quanto voc\u00ea, mas cheguei ao poder, voc\u00ea tamb\u00e9m consegue, basta me seguir e\/ou copiar\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, ao detentor do poder pol\u00edtico ou do poder econ\u00f4mico basta repetir f\u00f3rmulas prontas, slogans, piadas preconceituosas e outras manifesta\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 ignor\u00e2ncia, ao preconceito ou \u00e0 burrice para angariar o apoio e a simpatia de pessoas que foram levadas a acreditar que o desconhecimento n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Pol\u00edticos, empres\u00e1rios, jornalistas e funcion\u00e1rios p\u00fablicos disputam a imagem do ignorante para retirar proveito e lucrar.<\/p>\n<p><strong>Ignor\u00e2ncia e autoritarismo<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como manter um regime autorit\u00e1rio sem \u201cinvestir\u201d na ignor\u00e2ncia. Um povo ignorante pode n\u00e3o s\u00f3 ficar ap\u00e1tico diante do autoritarismo como verdadeiramente desej\u00e1-lo, na tentativa de suprir o medo que deriva do desconhecimento sobre fen\u00f4menos e valores democr\u00e1ticos como a liberdade e a verdade.<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia adquire assim um car\u00e1ter funcional para o autoritarismo. \u00c9 o elemento que, ao mesmo tempo, faz a liga\u00e7\u00e3o entre o governante e grande parcela da popula\u00e7\u00e3o, bem como permite a manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica na constru\u00e7\u00e3o de consensos antidemocr\u00e1ticos. \u00c9 a ignor\u00e2ncia que fomenta a base social que naturaliza o absurdo.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo ignorante acredita que ele e suas limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o o retrato do mundo. Incapaz de operar a distin\u00e7\u00e3o entre discurso e realidade, entre o essencial e o superficial, torna-se facilmente massa de manobra. N\u00e3o por acaso, a ignor\u00e2ncia \u00e9 a mat\u00e9ria prima para as mais variadas formas de populismo, nas quais a emo\u00e7\u00e3o e os sentimentos manipulados substituem a reflex\u00e3o cr\u00edtica, os argumentos racionais e as demonstra\u00e7\u00f5es emp\u00edricas. O desconhecimento da complexidade da sociedade, e a inseguran\u00e7a gerada por essa ignor\u00e2ncia, favorecem o surgimento de tend\u00eancias psicopol\u00edticas e movimentos de massa reacion\u00e1rios, que buscam em um passado idealizado a seguran\u00e7a perdida e o sentido da vida.<\/p>\n<p>No lugar do convencimento por argumentos racionais, o governo pela ignor\u00e2ncia atua a partir do refor\u00e7o de preconceitos, da explora\u00e7\u00e3o das confus\u00f5es conceituais e do preenchimento dos vazios cognitivos com as \u201ccertezas\u201d do governante, visto como um igual (ignorante) que deu certo (e aqui reside uma contradi\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica que a cegueira da ignor\u00e2ncia impede que seja percebida).<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia por regimes autorit\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 uma novidade.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistacult.com.br\/home\/tag\/theodor-adorno\">Theodor Adorno<\/a>, nos anos 1940 e 1950, durante suas pesquisas sobre a personalidade autorit\u00e1ria, j\u00e1 apontava que \u201ctodos os movimentos fascistas modernos, inclusive os praticados por demagogos americanos contempor\u00e2neos, tem visado os ignorantes\u201d. O que mudou, hoje, \u00e9 que a ignor\u00e2ncia deixou de ser velada para se tornar celebrada.<\/p>\n<p><strong>Festival de besteiras que assolam o Brasil e o mundo<\/strong><\/p>\n<p>Em todo mundo, o uso pol\u00edtico da ignor\u00e2ncia (<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/marcia-tiburi-a-ridicularizacao-da-politica\/\">naquilo que Marcia Tiburi, ainda em 2017, chamou de \u201crid\u00edculo pol\u00edtico\u201d<\/a>) se faz cada vez mais frequente.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, o pa\u00eds das \u201cLuzes\u201d, n\u00e3o \u00e9 diferente. Em 2011, Fr\u00e9deric Lefebvre, secret\u00e1rio de Estado do governo Sarkozy, disse que o livro que mais o marcou foi \u201cZadig &amp;Voltaire\u201d, confundindo a obra \u201cZadig\u201d de Voltaire com a famosa marca de\u00a0<em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em>\u00a0de luxo quase hom\u00f4nima. O pr\u00f3prio Nicolas Sarkozy, tamb\u00e9m em 2011, confundiu o nome do filosofo Roland Barthes com o do campe\u00e3o de futebol Fabien Barthez e acabou homenageando o pensador \u201cRoland Barthesse\u201d. Por sua vez, a ministra de Emmanuel Macron, Muriel P\u00e9nicaud, por ocasi\u00e3o da morte da escritora Toni Morrison, declarou que foi a partir dessa autora afro-americana que os negros finamente entraram para os \u201cgrandes nomes da literatura\u201d, ignorando a exist\u00eancia de Aim\u00e9 C\u00e9sarie, L\u00e9opold Sedar Senghor e v\u00e1rios outros brilhantes e conceituados escritores negros que surgiram antes de 1970.<\/p>\n<p>A era Trump tamb\u00e9m \u00e9 famosa pela instrumentaliza\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia. O pr\u00f3prio Trump chegou a declarar que o conceito de aquecimento global \u201cfoi criado por chineses para as f\u00e1bricas americanas n\u00e3o conseguirem competir\u201d. O Brasil, por\u00e9m, encontra-se em um outro patamar na arte de governar pela ignor\u00e2ncia. Apenas nos \u00faltimos seis meses, os exemplos do \u201cfestivas de besteiras que assola o pa\u00eds\u201d comprovam que a ignor\u00e2ncia virou tanto m\u00e9todo quanto objetivo de governo. Dentre os muitos exemplos que poderiam ser citados, vale mencionar a declara\u00e7\u00e3o do chanceler brasileiro Ernesto Ara\u00fajo associando o aumento da temperatura global com o \u201casfalto quente\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser esquecidas tanto a afirma\u00e7\u00e3o da ministra da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento de que as pessoas n\u00e3o passam fome no Brasil \u201cporque tem mangas nas cidades\u201d quanto as\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/o-espelho-de-damares-alves\/\">\u201cden\u00fancias\u201d da ministra Damares Alves<\/a>\u00a0de que a viola\u00e7\u00e3o sexual de meninas estaria ligada \u00e0 \u201cfalta de calcinhas\u201d em determinadas localidades. Ou de que a personagem Elza do filme Frozen, dos Est\u00fadios Disney, seria l\u00e9sbica. Tamb\u00e9m n\u00e3o poderiam ficar de fora\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/abraham-weintraub-balburdia\/\">o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Abraham Weintraub<\/a>, que tentou explicar o corte de verbas nas universidades p\u00fablicas usando \u201cchocolates\u201d para simbolizar os valores e errou o c\u00e1lculo (com o presidente da Rep\u00fablica se aproveitando da \u201cdemonstra\u00e7\u00e3o\u201d para comer um dos chocolates), e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que disse que a nuvem de fuma\u00e7a que cobriu o c\u00e9u brasileiro em raz\u00e3o dos inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia (vale lembrar que s\u00f3 os desmatamento em agosto deste ano subiram 222% em rela\u00e7\u00e3o a agosto de 2018) era uma fake news.<\/p>\n<p><strong>Ignor\u00e2ncia: uma hist\u00f3ria de sucesso<\/strong><\/p>\n<p>Para encerrar, e comprovar a hip\u00f3tese de que a ignor\u00e2ncia no Brasil faz sucesso, vale lembrar de duas p\u00e9rolas de\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/olavo-de-carvalho-ideologia-do-medo\/\">Olavo de Carvalho<\/a>, o guru intelectual do governo de Jair Bolsonaro, de muitos militantes de direita e de parcela das for\u00e7as armadas brasileiras (que ainda acredita estar em meio a uma guerra contra o \u201cmarxismo cultural\u201d e a amea\u00e7a comunista). Para ele (e seus seguidores), \u00e9 cr\u00edvel a tese de que as m\u00fasicas dos Beatles teriam sido compostas pelo fil\u00f3sofo alem\u00e3o Theodor Adorno, como parte de uma grande conspira\u00e7\u00e3o para destruir a sociedade, bem como muito prov\u00e1vel a liga\u00e7\u00e3o entre o Papa Francisco, a KGB e George Soros em uma esp\u00e9cie de \u201cplano infal\u00edvel\u201d para dominar o mundo da esquerda mundial.<\/p>\n<p>O fato de Olavo de Carvalho ocupar o espa\u00e7o de \u201cintelectual\u201d da extrema-direita precisa ser objeto de aten\u00e7\u00e3o. Trata-se de um fil\u00f3sofo que divulga certezas delirantes enquanto projeta uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o cultural obscurantista\u201d a partir da tese de que se deve lutar contra a \u201crevolu\u00e7\u00e3o cultural marxista\u201d (em um interessante caso de apropria\u00e7\u00e3o das li\u00e7\u00f5es de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistacult.com.br\/home\/tag\/antonio-gramsci\">Gramsci<\/a>). Pessoas como Olavo de Carvalho costumam ser desprezadas pela \u201cintelig\u00eancia\u201d brasileira: n\u00e3o deveriam. Vale lembrar que ele foi capaz de construir uma obra (escreveu mais do que muitos \u201cintelectuais\u201d de esquerda que se mant\u00e9m escondidos do debate p\u00fablico) a partir de teses que propagam a desinforma\u00e7\u00e3o e contam com a ignor\u00e2ncia (a \u201ccabe\u00e7a vazia\u201d) dos leitores. Pode-se dizer que com ele nasce o \u201cintelectual org\u00e2nico\u201d da ignor\u00e2ncia. No lugar do \u201cmarxismo cultural\u201d, Olavo faz surgir o ox\u00edmoro \u201cignor\u00e2ncia cultural\u201d.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"dEj3bOa3Hm\"><p><a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/ignorancia-alem-da-lei\/\">Viva a ignor\u00e2ncia! 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