{"id":11991,"date":"2019-11-13T18:58:17","date_gmt":"2019-11-13T21:58:17","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11991"},"modified":"2019-11-11T21:01:26","modified_gmt":"2019-11-12T00:01:26","slug":"o-bicentenario-de-frederick-douglass","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/11\/13\/o-bicentenario-de-frederick-douglass\/","title":{"rendered":"O bicenten\u00e1rio de Frederick Douglass"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fred Mazelis<\/strong> &#8211;\u00a0Neste ano comemorou-se o bicenten\u00e1rio do nascimento de Frederick Douglass (1818-1895), uma das maiores figuras dos Estados Unidos do s\u00e9culo XIX, cuja orat\u00f3ria eloquente, escritos e agita\u00e7\u00e3o ajudaram enormemente na luta pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o na Guerra Civil, a Segunda Revolu\u00e7\u00e3o dos EUA.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/2af2773d-8ead-41b9-9416-adecdcbcaa9L\/image.jpg?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/2af2773d-8ead-41b9-9416-adecdcbcaa9L\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>Frederick Douglass by George Kendall Warren (c.1879)<\/em><\/div>\n<p>Nascido escravo pr\u00f3ximo \u00e0 costa do estado de Maryland, o mesti\u00e7o Frederick Bailey mal conheceu sua m\u00e3e, e foi separado de sua av\u00f3 aos seis anos de idade. Ele nunca conheceu a identidade de seu pai, mas posteriormente escreveu que se \u201csussurrava [que era] meu senhor\u201d.<\/p>\n<p>Demonstrando tanto curiosidade intelectual quanto determina\u00e7\u00e3o desde cedo, o jovem rapaz come\u00e7ou a aprender o alfabeto atrav\u00e9s da esposa do irm\u00e3o de seu senhor, com quem ele viveu em Baltimore. A vida em uma cidade grande deu a ele certas oportunidades para se educar, por mais limitadas que fossem. Frederick conseguiu brincar nas ruas com outros garotos. Quando o chefe da fam\u00edlia impediu que continuasse aprendendo, ele continuou estudando em segredo, especialmente sobre o significado da escravid\u00e3o. Dentro de algumas d\u00e9cadas, o jovem escravo se tornaria um dos maiores autodidatas na hist\u00f3ria estadunidense.<\/p>\n<p>Frederick reagiu contra um brutal capataz com sucesso aos 16 anos de idade. Depois de v\u00e1rias tentativas fracassadas, ele conseguiu escapar da escravid\u00e3o em 1838 aos 20 anos de idade, mudando depois seu nome para Frederick Douglass (o sobrenome sugerido por um amigo que o lembrou de uma personagem de\u00a0<em>A Dama do Lago<\/em>, de Sir Walter Scott). Ele logo se encontrou com Anna Murray, que o havia ajudado a preparar sua fuga para o norte. Eles se casaram na cidade de Nova York e se estabeleceram em New Bedford, mudando-se depois para Lynn, no estado de Massachusetts.<\/p>\n<p>Desde 1839, Douglas passou a falar em encontros na igreja, contando a hist\u00f3ria de como fugiu da escravid\u00e3o e sobre a luta pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Um grande discurso em um encontro da Sociedade Abolicionista de Massachusetts, em 16 de agosto de 1841, com apenas 23 anos de idade, fez com que Douglass chamasse a aten\u00e7\u00e3o de importantes abolicionistas, incluindo William Lloyd Garrison e Wendell Phililips. Garrison, cerca de 13 anos mais velho do que Douglass, havia lan\u00e7ado\u00a0<em>O Libertador<\/em>\u00a0em 1831, e era o reconhecido l\u00edder da luta contra a escravid\u00e3o. Douglass logo dedicou-se em tempo integral \u00e0 luta contra a escravid\u00e3o, como palestrante e ativista.<\/p>\n<p>Esse trabalho o mantinha longe de casa por longos per\u00edodos de tempo, mesmo quando ele e sua esposa se tornaram pais de cinco filhos. Rosetta, Lewis, Charles e Frederick Jr. sobreviveram at\u00e9 a idade adulta. Uma segunda filha, Annie, morreu aos 10 anos. Anna Douglass morreu em 1882, depois de 44 anos de casamento.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/8d107530-546e-4963-b708-b298e75051fK\/image.jpg?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/8d107530-546e-4963-b708-b298e75051fK\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>Anna Murray-Douglass, Douglass&#8217;s wife for 44 years, c.1860<\/em><\/div>\n<p>A primeira de tr\u00eas autobiografias,\u00a0<em>A Narrativa da Vida de Frederick Douglass, um Escravo Estadunidense<\/em>, foi publicada em 1845 e alcan\u00e7ou dezenas de milhares de leitores rapidamente. Douglass escreveu duas outras autobiografias, incluindo\u00a0<em>Minha Escravid\u00e3o e Minha Liberdade<\/em>, em 1855, e\u00a0<em>A Vida e os Tempos de Frederick Douglass<\/em>, em 1881, que ele revisou e atualizou em 1892. Na maior parte de sua vida, Douglass tamb\u00e9m foi editor de jornais defendendo seus pontos de vista. Entre os bi\u00f3grafos de Douglass est\u00e3o William McFeely, que publicou sua biografia em 1991, e David Blight, cuja incr\u00edvel e completa descri\u00e7\u00e3o apareceu neste bicenten\u00e1rio.<\/p>\n<p>Escrevendo e falando muito antes do advento das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o modernas, Douglass se tornou conhecido por milh\u00f5es atrav\u00e9s do enorme poder de sua orat\u00f3ria e de sua mensagem de oposi\u00e7\u00e3o intransigente e revolucion\u00e1ria \u00e0 escravid\u00e3o. A for\u00e7a de seus discursos combinava-se ao seu conte\u00fado, \u00e0 luta apaixonada pela liberdade e contra a escravid\u00e3o e a opress\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Na trajet\u00f3ria de sua longa vida, Douglass conheceu ou colaborou com todas as principais figuras da luta contra a escravid\u00e3o e com outras figuras radicais do per\u00edodo, incluindo, al\u00e9m de Garrison e Phillips, Harriet Beecher Stowe, Harriet Tubman, Ida B. Wells, as l\u00edderes do sufr\u00e1gio feminino Elizabeth Cady Stanton e Susan B. Anthony, e muitas outras, como Mark Twain. Douglass conheceu oito presidentes dos EUA, servindo nas administra\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios deles quando mais velho. Sua rela\u00e7\u00e3o com o primeiro deles, Abraham Lincoln, com quem ele se encontrou duas vezes ao longo da Guerra Civil, foi de longe a mais importante.<\/p>\n<p>Uma longa viagem \u00e0 Irlanda e \u00e0 Inglaterra entre 1845 e 1847 teve um importante papel na evolu\u00e7\u00e3o de Douglass como l\u00edder abolicionista. Ele passou parte do tempo com Garrison em Londres. Douglass, desenvolvendo uma vis\u00e3o internacional mais ampla, identificou-se com a luta irlandesa pela independ\u00eancia e se admirou com a diferen\u00e7a de tratamento que recebeu: \u201cSem insultos a encontrar \u2013 sem preconceitos a encontrar, tudo \u00e9 tranquilo. Eu sou tratado como um homem e irm\u00e3o igual\u201d. Tamb\u00e9m foi durante sua viagem que simpatizantes brit\u00e2nicos se juntaram para comprar a liberdade do escravo que tinha fugido de seu senhor em Maryland, de maneira que Douglass n\u00e3o precisasse temer ser capturado quando retornasse para a luta contra a escravid\u00e3o nos EUA.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/144503b4-21c0-4dfb-8f4d-d4c9c5d29f5L\/image.jpg?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/144503b4-21c0-4dfb-8f4d-d4c9c5d29f5L\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>Frederick Douglass, c.1840s, in his 20s<\/em><\/div>\n<p>De volta aos Estados Unidos, Douglass foi morar em Rochester, em Nova York, onde ele viveria pelos pr\u00f3ximos 25 anos. Ele logo lan\u00e7ou o\u00a0<em>North Star<\/em>\u00a0(Estrela do Norte), o primeiro dos jornais que comandou, conhecido por sua oposi\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel aos planos de coloniza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica como uma maneira de acabar com a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o fim da Guerra do M\u00e9xico \u2013contra a qual Douglass se op\u00f4s intensamente, caracterizando-a corretamente como um meio de ampliar o sistema escravista \u2013, as tempestuosas nuvens que precipitariam na guerra civil continuaram a se acumular. Esse foi um per\u00edodo em que a vida de Douglass, mais de uma vez, foi amea\u00e7ada por elementos pr\u00f3-escravistas no norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que se tornava um importante abolicionista, e, al\u00e9m disso, o mais famoso abolicionista negro, Douglass viu-se cada vez mais disposto a contrariar velhos aliados sobre quest\u00f5es de estrat\u00e9gia e t\u00e1tica. Isso o levou a uma intensa e longa disputa com seu mentor e professor, William Lloyd Garrison.<\/p>\n<p>Um ponto importante na disputa entre Garrison e Douglass foi a atitude a ser adotada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA. Garrison a considerava um documento puramente pr\u00f3-escravista, enquanto Douglass reconheceu sua conex\u00e3o com os ideais revolucion\u00e1rios do Iluminismo e a necessidade de defensores antiescravistas utilizarem a Constitui\u00e7\u00e3o e defenderem a extens\u00e3o de suas promessas e garantias para os estadunidenses de ascend\u00eancia africana.<\/p>\n<div class=\"imageFull\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/e54ce96f-5de1-47c9-8b60-39363f90b60F\/image.jpg?w=480&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/e54ce96f-5de1-47c9-8b60-39363f90b60F\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageFull\"><em>54th Massachusetts Regiment charging toward Fort Wagner, South Carolina, 1863<\/em><\/div>\n<p>A defesa por Douglass do Iluminismo e sua associa\u00e7\u00e3o com a heran\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o do EUA \u00e9 especialmente importante hoje, em que atuais p\u00f3s-modernistas e defensores da estreita e reacion\u00e1ria pol\u00edtica de identidade realizam ataques vulgares e ahist\u00f3ricos contra figuras como Thomas Jefferson. Um exemplo emocionante da vis\u00e3o de Douglass pode ser encontrado em seu famoso discurso para a Sociedade Antiescravista das Mulheres de Rochester um dia depois do Dia da Independ\u00eancia em 1852. \u201cO significado do 4 de julho para o negro\u201d viria a ser conhecido como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-60892017000200009\">O Discurso de 5 de Julho<\/a>. Esse discurso tanto condena a escravid\u00e3o quanto o compromisso com ela na Constitui\u00e7\u00e3o, e, ao mesmo tempo, faz uma defesa contundente dessa Constitui\u00e7\u00e3o e da luta revolucion\u00e1ria que a originou e que inspirou in\u00fameras lutas contra o absolutismo e o despotismo ao redor do mundo.<\/p>\n<p>A homenagem de Douglass aos Pais Fundadores dos Estados Unidos nesse discurso \u00e9 uma passagem particularmente eloquente e, ao mesmo tempo, uma condena\u00e7\u00e3o devastadora dos porta-vozes pol\u00edticos do capitalismo estadunidense de hoje. \u201cEram homens de paz; mas preferiam a revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 submiss\u00e3o pac\u00edfica [e] \u00e0 servid\u00e3o. Eram homens calados; mas n\u00e3o se recusaram a agitar-se contra a opress\u00e3o. Eles mostraram toler\u00e2ncia; e que conheciam seus limites. Acreditavam na ordem; mas n\u00e3o na ordem da tirania. Com eles, nada foi \u2018<em>resolvido<\/em>\u2019 que n\u00e3o estava certo. Com eles, justi\u00e7a, liberdade e humanidade eram \u201c<em>finais<\/em>\u201d; n\u00e3o escravid\u00e3o e opress\u00e3o. Voc\u00eas podem muito bem apreciar a mem\u00f3ria de tais homens. Eram grandes em seus dias e em sua gera\u00e7\u00e3o. Sua humanidade s\u00f3lida se destaca tanto quanto mais contrastamos com esses tempos degenerados.\u201d<\/p>\n<p>A ferida entre Garrison e Douglass n\u00e3o foi completamente curada at\u00e9 1873. Quando o mais velho morreu em 1879, Douglass fez um elogioso discurso em seu funeral em Washington, DC: \u201cFoi a gl\u00f3ria deste homem sustentar-se sozinho com a verdade, e esperar calmamente o resultado\u201d.<\/p>\n<p>Douglass estava entre os poucos abolicionistas que deram total apoio \u00e0 luta pelos direitos das mulheres. Ele participou da conven\u00e7\u00e3o pelos direitos das mulheres em Seneca Falls, em Nova York, em 1848, mas, 21 anos depois, ap\u00f3s a Guerra Civil, Douglass e Susan B. Anthony se afastaram quando ela se recusou a apoiar a 15a Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, promulgada em 3 de fevereiro de 1870. Ela se op\u00f4s a ampliar o direito de voto a ex-escravos enquanto \u00e0s mulheres ainda fosse negado acesso \u00e0s urnas. Como William McFeely aponta, Anthony, \u201cque havia sido firme em sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o, cruzou a linha do racismo quando disse que mulheres eram mais inteligentes do que homens negros que, ela agora enxergava, estavam competindo com ela e suas companheiras pelo voto\u201d.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/cd702a1e-6c33-400f-ac13-88fcf4a40d7K\/image.png?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/cd702a1e-6c33-400f-ac13-88fcf4a40d7K\/image.png?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>John Brown, 1856<\/em><\/div>\n<p>A quest\u00e3o de os EUA continuarem a ser meio-escravistas e meio-livres foi colocada com urg\u00eancia crescente nos anos 1850. Essa d\u00e9cada assistiu a alguns dos grandes ganhos pol\u00edticos para os defensores da escravid\u00e3o, come\u00e7ando com a Lei do Escravo Fugitivo, parte do Compromisso de 1850, que obrigou o governo federal a auxiliar ativamente na devolu\u00e7\u00e3o de escravos fugitivos para seus senhores. A Lei Kansas-Nebraska de 1854 criou o fundamento para a extens\u00e3o da escravid\u00e3o aos territ\u00f3rios dos EUA, estipulando que os colonos, e n\u00e3o as autoridades federais, tomariam a decis\u00e3o sobre a quest\u00e3o. E, finalmente, em 1857, a Suprema Corte dos EUA expediu sua infame decis\u00e3o sobre o caso Dred Scott, negando cidadania para todos os escravos ou ex-escravos, e decretando que o Congresso n\u00e3o poderia proibir a extens\u00e3o da escravid\u00e3o nos territ\u00f3rios estadunidenses.<\/p>\n<p>Aqueles que buscaram resolver a quest\u00e3o da escravid\u00e3o atrav\u00e9s da aboli\u00e7\u00e3o gradual, ou de alguma outra forma de compromisso, olhavam para esses acontecimentos com grande preocupa\u00e7\u00e3o e pessimismo. Entretanto, Douglass n\u00e3o foi fundamentalmente desencorajado. Mais intransigente do que nunca, ele sentiu que as a\u00e7\u00f5es das for\u00e7as pr\u00f3-escravistas refletiam fraqueza, n\u00e3o for\u00e7a. Ele reconheceu a necessidade de uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional. Ao mesmo tempo que n\u00e3o saudava a viol\u00eancia, nem tampouco a descartava.<\/p>\n<p>Foi na d\u00e9cada de 1850 que Douglass atingiu sua maior eloqu\u00eancia como orador p\u00fablico. Duas datas se destacam em particular \u2013 o Discurso de 5 de Julho, citado anteriormente, e o discurso de \u201c<a href=\"https:\/\/rbscp.lib.rochester.edu\/4398\">Emancipa\u00e7\u00e3o da \u00cdndia Ocidental<\/a>\u201d, de 3 de agosto de 1857, quando se completaram 23 anos da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o naquele territ\u00f3rio brit\u00e2nico. Esse discurso, dado apenas meses depois da decis\u00e3o Dred Scott, \u00e9 talvez mais famoso do que o anterior. As palavras de Douglass ressoam t\u00e3o poderosamente hoje quanto no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSe n\u00e3o h\u00e1 luta n\u00e3o h\u00e1 progresso\u201d, ele disse. \u201cAqueles que dizem lutar pela liberdade e que, ainda assim, desprezam a agita\u00e7\u00e3o, s\u00e3o homens que querem colheitas sem arar a terra; eles querem chuva sem raios e trov\u00f5es. Eles querem o oceano sem o rugido terr\u00edvel das suas \u00e1guas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEssa luta pode ser moral, ou pode ser f\u00edsica, e pode ser ambas, mas precisa ser uma luta. O poder n\u00e3o concede nada sem uma exig\u00eancia. Ele nunca o fez e nunca o far\u00e1. Descubra a que as pessoas est\u00e3o dispostas a se submeter e voc\u00ea encontrar\u00e1 a medida exata da injusti\u00e7a e do erro que ser\u00e3o impostos sobre elas, e esses continuar\u00e3o at\u00e9 que sofram resist\u00eancia de palavras ou golpes, ou ambos.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Foi com essa mentalidade revolucion\u00e1ria que Douglass se encontrou com John Brown, um impetuoso abolicionista que posteriormente liderou um fracassado ataque contra o arsenal dos EUA em Harpers Ferry, em outubro de 1859. Douglass foi atra\u00eddo para a figura hipnotizante de Brown, mas quando ouviu os detalhes do ataque planejado, recusou-se a participar, advertindo Brown que era imprudente e suicida. Ele se encontrou com Brown, entretanto, e tamb\u00e9m ajudou a levantar os fundos para as suas atividades. Diante do perigo de ser preso e condenado, Douglass foi para o Canad\u00e1 dias ap\u00f3s a invas\u00e3o em Harpers Ferry, escapando por pouco de ser apreendido por agentes federais.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/1c03cafc-93d3-4ec1-945e-e6d92cb4ebcK\/image.jpg?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/1c03cafc-93d3-4ec1-945e-e6d92cb4ebcK\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>Abraham Lincoln, 1861<\/em><\/div>\n<p>Ele logo foi para a Inglaterra, em uma viagem anteriormente planejada. Nesse momento, atrav\u00e9s da combina\u00e7\u00e3o de seus escritos e discursos, assim como com suas viagens para a Europa, Douglass j\u00e1 havia se tornado o homem negro mais importante dos Estados Unidos. Ele permaneceu na Inglaterra por cerca de quatro meses, retornando depois da morte tr\u00e1gica de sua jovem filha Annie, apesar de ainda correr algum risco de ser preso por sua rela\u00e7\u00e3o com John Brown. Enquanto agiu com a maior cautela por v\u00e1rias semanas, em agosto de 1860, nas palavras do bi\u00f3grafo McFeely, \u201cele descobriu, pela primeira vez em sua vida, que estava presente nos c\u00edrculos dominantes da pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>O Partido Republicano, formado apenas alguns anos antes, moveu-se na dire\u00e7\u00e3o de Douglass, adotando uma plataforma que se opunha militantemente \u00e0 extens\u00e3o da escravid\u00e3o. O abolicionista negro discordou daqueles que consideravam Abraham Lincoln muito moderado em suas opini\u00f5es para merecer apoio cr\u00edtico na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1860. Ele fez a seguinte avalia\u00e7\u00e3o: \u201cEnquanto eu vejo &#8230; que o Partido Republicano est\u00e1 longe de ser um partido da aboli\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o posso deixar de ver tamb\u00e9m que carrega com ele o sentimento antiescravista do norte, e que uma vit\u00f3ria conquistada por ele, no quadro atual, ser\u00e1 uma vit\u00f3ria conquistada &#8230; sobre o sentimento perversamente agressivo pr\u00f3-escravid\u00e3o do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Douglas foi confirmada de maneira um tanto tortuosa ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Lincoln em novembro. A vit\u00f3ria pela qual Douglass esperava n\u00e3o foi seguida pelo recuo das for\u00e7as pr\u00f3-escravid\u00e3o, mas pela forma\u00e7\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o. Foi isso, por sua vez, que tornou inevit\u00e1vel a Guerra Civil, e, eventualmente, a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. A imagem de John Brown se tornou aquela de um profeta abolicionista, n\u00e3o de um lun\u00e1tico, como se imaginava anteriormente. Como citado por David Blight em um discurso no come\u00e7o da Guerra Civil, Douglass declarou: \u201cO bom e velho John Brown era um louco em Harpers Ferry. Dois anos se passaram, e a na\u00e7\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o louca quanto ele\u201d.<\/p>\n<p>Quando Douglass tornou-se o defensor mais eloquente da vit\u00f3ria incondicional sobre a escravocracia, Blight o compara a Walt Whitman, \u201cmas com pontas mais suaves\u201d. \u201cO grito \u00e9 agora pela guerra, vigorosa guerra, guerra at\u00e9 o amargo fim, e guerra at\u00e9 que os traidores sejam efetivamente e permanentemente derrubados\u201d, escreveu Douglass. Em palavras que prenunciavam as campanhas dos l\u00edderes militares da Uni\u00e3o, Sherman e Sheridan, Douglass trovejou: \u201cDeixem que os portos do sul sejam bloqueados, deixem que os neg\u00f3cios l\u00e1 cessem; que as provis\u00f5es, armas e muni\u00e7\u00e3o n\u00e3o sejam mais enviadas para l\u00e1; que o rosto sombrio do ex\u00e9rcito do norte os confronte em uma dire\u00e7\u00e3o, uma furiosa insurrei\u00e7\u00e3o de escravos os encontre em outra, e a fome os ameace ainda em outra\u201d.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/f92ad8c9-0fc8-4b76-aef1-66b3656840bE\/image.png?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/f92ad8c9-0fc8-4b76-aef1-66b3656840bE\/image.png?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>Civil War (1863) broadside listing Frederick Douglass as a speaker calling -men of color- to arms<\/em><\/div>\n<p>Mas Douglass tamb\u00e9m trovejou contra Lincoln, que, por definidas raz\u00f5es pol\u00edticas, insistia que neste momento a guerra tinha o objetivo de preservar a Uni\u00e3o, e n\u00e3o acabar com a escravid\u00e3o. O presidente, Douglass disse, \u201c\u00e9 alto e forte, mas n\u00e3o terminou de crescer\u201d. Ele exigiu uma mudan\u00e7a imediata nos objetivos da guerra. Denunciou ainda a devolu\u00e7\u00e3o de escravos fugitivos pelo governo, e a rescis\u00e3o de Lincoln da emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos no estado do Missouri pelo General John C. Fremont.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o conflito se aprofundava, entretanto, a guerra para preservar a Uni\u00e3o tornava-se uma guerra para acabar com a escravid\u00e3o. Lincoln come\u00e7ou a ouvir as exig\u00eancias de Douglass e outros. A Proclama\u00e7\u00e3o da Emancipa\u00e7\u00e3o de 1\u02da de janeiro de 1863, seguida do esfor\u00e7o para recrutar negros e escravos livres para o ex\u00e9rcito da Uni\u00e3o, foi um momento crucial. Douglass prontamente se jogou no \u00edmpeto pelo recrutamento de soldados negros, que tiveram um importante papel na derrota da Confedera\u00e7\u00e3o. Dois de seus filhos se juntaram ao famoso 54o Regimento de Infantaria de Massachusetts, que atraiu afro-americanos de todo o norte.<\/p>\n<p>Douglass encontrou-se com Lincoln duas vezes. A primeira ocasi\u00e3o foi em agosto de 1863. \u201cEu fui diretamente para a Casa Branca e vi pela primeira vez o Presidente dos Estados Unidos\u201d, ele escreveu. \u201cFui recebido cordialmente e pude perceber a justi\u00e7a da estima popular de suas qualidades expressas no prefixo\u00a0<em>Honesto<\/em>\u00a0ao nome de Abraham Lincoln\u201d.<\/p>\n<p>Douglass agradeceu a Lincoln pela recente ordem em resposta \u00e0 amea\u00e7a da Confedera\u00e7\u00e3o em tratar todos os soldados negros da Uni\u00e3o como escravos rebeldes. Foi decretado que \u201cpara todo soldado dos Estados Unidos morto em viola\u00e7\u00e3o \u00e0s leis de guerra, um soldado rebelde ser\u00e1 executado\u201d.<\/p>\n<div class=\"imageFull\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/28a67e78-a4c1-480a-be38-ce179cdf08eE\/image.jpg?w=480&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/28a67e78-a4c1-480a-be38-ce179cdf08eE\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageFull\"><em>First Reading of the Emancipation Proclamation of President Lincoln, by Francis Bicknell Carpenter<\/em><\/div>\n<p>Lincoln \u201cposteriormente negou que fosse culpado de \u2018vacila\u00e7\u00e3o\u2019 e sugeriu que o que Douglass estava vendo era um progresso cont\u00ednuo, talvez lento, e n\u00e3o qualquer indecis\u00e3o de sua parte\u201d, explica McFeely. \u201cDouglass convenceu-se de que, uma vez que Lincoln tivesse tomado uma posi\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 causa negra, poder-se-ia contar com ele para defend\u00ea-la\u201d.<\/p>\n<p>Essa era uma rela\u00e7\u00e3o, e um papel para cada uma dessas figuras, que dificilmente seria imaginada 25 anos antes, quando Douglass havia acabado de fugir para a liberdade e Lincoln era um jovem advogado e membro da Assembleia Geral de Illinois.<\/p>\n<p>A Guerra Civil havia terminado, mas a luta pela igualdade racial continuava. A 13a Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, abolindo a escravid\u00e3o, foi ratificada e promulgada em 1865. Douglass dedicou suas energias \u00e0 luta que levaria \u00e0 promulga\u00e7\u00e3o da 14a e da 15a Emendas, garantindo, respectivamente, igual prote\u00e7\u00e3o sob a lei e estendendo o direito de voto aos afro-estadunidenses. Em um discurso em Baltimore em 29 de setembro de 1865, ele deu voz a grandes esperan\u00e7as com o fim da vit\u00f3ria contra a escravid\u00e3o e o \u201crenascimento da liberdade\u201d. Dirigindo-se ao p\u00fablico, como McFeely explica, \u201ccom uma imagem que Langston Hughes usaria no que \u00e9 talvez o maior de seus poemas\u201d [O Negro Fala de Rios], Douglass disse que \u201ca mais sublime e melhor eloqu\u00eancia que o pa\u00eds produziu, seja anglo-sax\u00e3 ou de descend\u00eancia africana, fluir\u00e1 como um rio, enriquecendo, enobrecendo, fortalecendo e purificando todos os que se lavarem em suas \u00e1guas\u201d.<\/p>\n<p>Com o assassinato de Lincoln, entretanto, Andrew Johnson, o democrata do Tennessee que fora eleito vice-presidente de Lincoln apenas meses antes, chegou \u00e0 Casa Branca. Douglass fez parte de uma delega\u00e7\u00e3o negra que se encontrou com Johnson em 1866, que indicou a hostilidade de Johnson em defender os direitos dos escravos libertos no sul.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/996ec92e-286b-4637-add6-8ca5d90ba59E\/image.jpg?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/996ec92e-286b-4637-add6-8ca5d90ba59E\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>President Ulysses S. Grant, by Matthew Brady, c.1870<\/em><\/div>\n<p>Douglass apoiou o candidato republicano e her\u00f3i da Guerra Civil, Ulysses S. Grant, em 1868. Grant, que serviu dois mandatos, defendeu os direitos dos escravos libertos enquanto o per\u00edodo da Reconstru\u00e7\u00e3o continuava. At\u00e9 entre o in\u00edcio e meados dos anos 1870, entretanto, a burguesia ascendente no norte estava claramente perdendo interesse em defender a igualdade racial que havia se colocado com tanta import\u00e2ncia com a Proclama\u00e7\u00e3o da Emancipa\u00e7\u00e3o e nos primeiros anos da Reconstru\u00e7\u00e3o. A mudan\u00e7a foi refletida na ina\u00e7\u00e3o das autoridades federais.<\/p>\n<p>Douglass, cada vez mais, acomodou-se a este recuo, trabalhando para conquistar votos aos candidatos republicanos \u201cacenando a camisa ensanguentada\u201d, apelando ao patriotismo e ao imenso sofrimento da Guerra Civil. O homem que havia ajudado a inspirar uma revolu\u00e7\u00e3o para acabar com a escravid\u00e3o agora se tornava o encarregado de v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es federais menores, al\u00e9m de um ativista por todos os candidatos republicanos \u00e0 presid\u00eancia, muito depois de o partido de Lincoln ter se transformado em instrumento corrupto dos grandes neg\u00f3cios. Douglass chegou ao ponto de defender o Compromisso de 1877, o s\u00f3rdido acordo n\u00e3o escrito pelo qual o candidato republicano Rutherford B. Hayers chegou \u00e0 Casa Branca depois de uma disputada elei\u00e7\u00e3o, com o governo federal retirando, em troca, suas \u00faltimas tropas dos estados da ex-Confedera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/058528d8-d196-46b3-b6a2-3ca4b61c8bdF\/image.png?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/058528d8-d196-46b3-b6a2-3ca4b61c8bdF\/image.png?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>Susan B. Anthony, c.1855<\/em><\/div>\n<p>Isso abriu o caminho para a era Jim Crow, que duraria d\u00e9cadas. Quando alguns ex-escravos do sul desesperados, chamados \u201cExodusters\u201d, tentaram fugir para o Kansas e para o oeste, Douglass se op\u00f4s a eles, alegando, em 1879, que \u201cas condi\u00e7\u00f5es &#8230; nos estados sulistas est\u00e3o melhorando continuamente\u201d. \u201cPela primeira vez em sua vida, ele percebeu-se repudiado por um p\u00fablico negro\u201d, relata McFeely.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a da perspectiva de Douglass pode ser observada comparando suas posi\u00e7\u00f5es de antes e depois da Guerra Civil. Em\u00a0<em>Minha Escravid\u00e3o e Minha Liberdade<\/em>, Douglass escreveu: \u201cOs propriet\u00e1rios de escravos, com uma ast\u00facia peculiar a si mesmos, encorajando a animosidade do homem branco, pobre e trabalhador contra os negros, s\u00e3o bem-sucedidos em tornar o dito homem branco quase tanto um escravo quanto o pr\u00f3prio escravo negro. A diferen\u00e7a entre o escravo branco e o escravo negro \u00e9 esta: o \u00faltimo pertence \u00e0\u00a0<em>um<\/em>\u00a0propriet\u00e1rio de escravos, e o primeiro pertence a\u00a0<em>todos<\/em>\u00a0os propriet\u00e1rios de escravos, coletivamente.\u201d (\u00eanfase no original).<\/p>\n<p>Na Inglaterra nos anos 1840, como McFeely relata, Douglass e Garrison se encontraram com alguns dos l\u00edderes cartistas que posteriormente viriam a colaboram com Marx e Engels. Segundo ele, \u201cEm Londres, Douglas e Harrison iniciaram a forma\u00e7\u00e3o de um elo que Karl Marx sempre pensou ser natural \u2013 entre as classes trabalhadoras na Europa, na Gr\u00e3-Bretanha e no norte dos EUA, por um lado, e trabalhadores no sul dos EUA, por outro. \u00c9 uma das grandes oportunidades perdidas da vida de Douglass e da hist\u00f3ria dos estadunidenses negros que esse esfor\u00e7o promissor de coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o levou a um verdadeiro movimento internacional da classe trabalhadora\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto Douglass quase viu o potencial da classe trabalhadora quando jovem, ele posteriormente deixou isso para tr\u00e1s, especialmente na atmosfera da Era Dourada estadunidense. Em 1880, ele fez campanha para o candidato republicano James A. Garfield como \u201cum homem de orgulho do partido\u201d, relata Blight. Isso aconteceu depois da onda de greves de 1877, mas Douglass \u201cn\u00e3o tinha qualquer problema com posi\u00e7\u00f5es republicanas antitrabalhistas &#8230; Dada a destacada supremacia branca dos democratas, Douglass ainda via os republicanos como seu \u00fanico lar pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/f09c297f-2779-4a6c-b649-9392c98de63C\/image.jpg?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/f09c297f-2779-4a6c-b649-9392c98de63C\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>Title page of the 1845 edition of Narrative of the Life of Frederick Douglass, An American Slave<\/em><\/div>\n<p>Em seus \u00faltimos anos, Douglass viveu a vida de um idoso estadista negro em Anacostia, em Washington D.C. Depois da morte de Anna Murray Douglass, ele se casou novamente com Helen Pitts, uma mulher branca aproximadamente 20 anos mais jovem, de uma importante fam\u00edlia abolicionista, que ele conhecera quando ela trabalhava como secret\u00e1ria em seu escrit\u00f3rio de registro de t\u00edtulos e propriedades. O casamento encontrou alguma oposi\u00e7\u00e3o tanto dos filhos de Douglass quanto da fam\u00edlia de sua nova esposa. Douglass j\u00e1 havia suportado anos de fofocas por conta de estreitas rela\u00e7\u00f5es emocionais e intelectuais com duas outras mulheres \u2013 a reformista social brit\u00e2nica Julia Griffiths, que passou a primeira metade dos anos 1850 trabalhando de maneira pr\u00f3xima a Douglass em Rochester; e a jornalista judaico-alem\u00e3 Ottilie Assing, que passou mais de 20 anos nos EUA, incluindo meses pr\u00f3xima ou na pr\u00f3pria resid\u00eancia de Douglass. De acordo com Blight, elas eram provavelmente amantes dele.<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada da vida de Douglass, ele aumentou seus ataques contra a supremacia branca que estava em ascens\u00e3o. No in\u00edcio dos anos 1890, inspirado em parte pela jovem ativista Ida B. Wells, o velho homem, agora nos seus 70 anos, denunciou os horrores do linchamento.<\/p>\n<p>Douglass morreu subitamente em 20 de fevereiro de 1895, logo ap\u00f3s retornar para casa de um encontro sobre direitos das mulheres. Seu funeral na capital recebeu dignit\u00e1rios que inclu\u00edram o juiz da Suprema Corte, John Marshall Harlan. O caix\u00e3o foi levado para Rochester, onde Douglass foi enterrado no Cemit\u00e9rio Mount Hope. No caminho, ele permaneceu por duas horas na prefeitura de Nova York.<\/p>\n<p>Muitos tributos se seguiram. Um dos mais not\u00e1veis foi de W. E. B. Dubois, um ent\u00e3o professor universit\u00e1rio de 27 anos em Ohio. Como descrito por David Blight, \u201cDu Bois pediu aos estudantes e \u00e0 faculdade para que n\u00e3o clamassem em \u2018tristeza semi-triunfante\u2019 pela morte de seu l\u00edder, mas se empenhassem em \u2018cuidadosa e trabalhosa emula\u00e7\u00e3o\u2019. Du Bois relembrou a lideran\u00e7a de Douglass no abolicionismo, no recrutamento de soldados negros na guerra, na conquista do sufr\u00e1gio negro masculino e nos direitos civis. Como um l\u00edder, Douglass havia alcan\u00e7ado os objetivos considerados \u2018perigosos\u2019 e praticamente \u2018imposs\u00edveis\u2019. Ele n\u00e3o temia o \u2018experimento de cidadania\u2019 estadunidense. Douglass havia mostrado ser um \u2018construtor do estado\u2019 em grande medida fora dos c\u00edrculos de poder tradicionais. \u2018Nosso Douglass\u2019, afirmou o jovem intelectual, era o homem da ra\u00e7a, mas ele tamb\u00e9m havia \u2018se erguido fora de meras linhas raciais &#8230; sobre a ampla base da humanidade\u2019.\u201d<\/p>\n<div class=\"imageLeft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/f780921b-1f65-4b91-ad74-3d12a750341J\/image.jpg?w=200&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/f780921b-1f65-4b91-ad74-3d12a750341J\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageLeft\"><em>William Lloyd Garrison, c.1870<\/em><\/div>\n<p>Sustentando-se \u201csobre a ampla base da humanidade\u201d, Douglass, um opositor, ao longo de toda a sua vida, da coloniza\u00e7\u00e3o e do separatismo, fundamentou-se nos ideais democr\u00e1ticos incorporados na Declara\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia e no Discurso de Gettysburg. Ele chegou a um ponto, entretanto, em que seu objetivo de igualdade racial se defrontou com a realidade do capitalismo estadunidense e com o conflito crescente entre a burguesia ascendente e a classe trabalhadora que ela pr\u00f3pria estava criando. O movimento da classe trabalhadora estadunidense era, em si, ainda embrion\u00e1rio. \u00c0 medida que as conquistas da Guerra Civil estavam sendo deterioradas pelo crescimento da segrega\u00e7\u00e3o racial atrav\u00e9s das leis de Jim Crow e do movimento de supremacia branca, Douglass enfrentou um beco sem sa\u00edda pol\u00edtico. Seus ideais, como vimos, haviam se tornado parte dos c\u00edrculos de poder durante a Guerra Civil, mas isso havia mudado nos anos 1890.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o cl\u00e1ssica fora abolida, mas ent\u00e3o substitu\u00edda pelo crescimento da ind\u00fastria e das grandes cidades, e pela predomin\u00e2ncia da escravid\u00e3o assalariada. A defesa da igualdade racial s\u00f3 seria poss\u00edvel unindo a classe trabalhadora em uma luta comum contra o capitalismo. Douglass n\u00e3o conseguiu entender ou se fundamentar nas for\u00e7as sociais exigidas para aprofundar a luta pela igualdade. Elas viriam a emergir mais poderosamente no s\u00e9culo seguinte com as lutas da classe trabalhadora estadunidense e internacional, e, acima de tudo, com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica-mundial.<\/p>\n<p>Setenta anos se passaram entre a morte de Frederick Douglass e a vit\u00f3ria contra Jim Crow. Isso n\u00e3o aconteceu pela aus\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o ao racismo, mas porque s\u00f3 poderia ser superada atrav\u00e9s das lutas da classe trabalhadora, que foram realizadas ao longo de d\u00e9cadas e foram marcadas por enormes contradi\u00e7\u00f5es e dificuldades. O movimento em massa por direitos civis dos anos 1950 e 1960 se sustentou nos ombros das lutas e das conquistas do movimento oper\u00e1rio dos anos 1930 e 1940.<\/p>\n<div class=\"imageFull\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wsws.org\/asset\/5f84e151-6558-4b76-b9fd-8ae51193ffeN\/image.jpg?w=480&#038;ssl=1\" srcset=\"\/asset\/5f84e151-6558-4b76-b9fd-8ae51193ffeN\/image.jpg?rendition=image960 2x\"  \/><\/div>\n<div class=\"imageFull\"><em>Gravestone of Frederick Douglass in Mount Hope Cemetery, Rochester, New York<\/em><\/div>\n<p>Os esfor\u00e7os no sul foram inspirados em parte pelas experi\u00eancias de milh\u00f5es de trabalhadores, tanto negros quanto brancos, que haviam constru\u00eddo liga\u00e7\u00f5es durante a organiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos industriais, e que haviam passado pela experi\u00eancia da Segunda Guerra Mundial. Afro-estadunidenses que participaram da Grande Migra\u00e7\u00e3o do sul para o norte industrial transmitiram uma nova confian\u00e7a e milit\u00e2ncia de volta ao movimento no sul, que, inicialmente, assumiu a forma das lutas em massa a partir das igrejas, lideradas por Martin Luther King, Jr.<\/p>\n<p>O capitalismo estadunidense h\u00e1 muito tempo repudia sua heran\u00e7a revolucion\u00e1ria. Duzentos anos depois do nascimento de Douglass e mais de um s\u00e9culo depois de sua morte, a causa do progresso social est\u00e1, mais inseparavelmente do que nunca, ligada \u00e0 uni\u00e3o da classe trabalhadora contra o capitalismo, o sistema de escravid\u00e3o assalariado. As tentativas hoje em dia de alimentar o racismo s\u00f3 podem ser derrotadas como parte dessa luta. O legado revolucion\u00e1rio de Douglass tem muito a ensinar nesse aspecto, e gera\u00e7\u00f5es futuras v\u00e3o se lembrar de suas enormes contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>https:\/\/www.wsws.org\/pt\/articles\/2019\/09\/10\/fred-s10.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fred Mazelis &#8211;\u00a0Neste ano comemorou-se o bicenten\u00e1rio do nascimento de Frederick Douglass (1818-1895), uma das maiores figuras dos Estados Unidos do s\u00e9culo XIX, cuja orat\u00f3ria eloquente, escritos e agita\u00e7\u00e3o ajudaram enormemente na luta pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o na Guerra Civil, a Segunda Revolu\u00e7\u00e3o dos EUA. 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