{"id":11980,"date":"2019-11-11T14:24:53","date_gmt":"2019-11-11T17:24:53","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11980"},"modified":"2019-11-10T10:27:26","modified_gmt":"2019-11-10T13:27:26","slug":"eliane-brum-a-esperanca-tem-sido-manipulada-virou-mais-uma-mercadoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/11\/11\/eliane-brum-a-esperanca-tem-sido-manipulada-virou-mais-uma-mercadoria\/","title":{"rendered":"Eliane Brum: A esperan\u00e7a tem sido manipulada, virou mais uma mercadoria"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rodrigo Casarin<\/strong> &#8211; Em 1998 que a jornalista Eliane Brum viajou pela primeira vez \u00e0 Amaz\u00f4nia, para escrever uma reportagem sobre a Transamaz\u00f4nica para o jornal ga\u00facho Zero Hora. Depois, em 2000, colaborando com a revista \u00c9poca, realizou diversas viagens para diferentes lugares da floresta. Em 2004 que descobriu uma das regi\u00f5es, a seu ver, mais extraordin\u00e1rias do lugar: a Terra do Meio, no Par\u00e1, onde s\u00f3 chegou ap\u00f3s cinco dias cortando rios sobre uma voadeira \u2013 hist\u00f3ria que est\u00e1 contada no livro &#8220;O Olho da Rua&#8221; e que, por mostrar como grileiros amea\u00e7avam os beiradeiros, foi decisiva para a cria\u00e7\u00e3o da Reserva Extrativista do Riozinho do Anfr\u00edsio. &#8220;Era um Brasil que o Brasil oficial ignorava&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com a floresta, com os povos e com os rios da bacia do Xingu se aprofundou. Em 2011, passou a acompanhar de perto a constru\u00e7\u00e3o da usina de Belo Monte, &#8220;uma cat\u00e1strofe que os povos origin\u00e1rios e os movimentos sociais tinham conseguido evitar por d\u00e9cadas&#8221;. Em 2016, finalmente, andando pelas ruas de Altamira, percebeu que era hora de deixar os centros urbanos do sul ou do sudeste e se mudar para a regi\u00e3o.\u00a0Logo passou a ter a pr\u00f3pria Altamira como base. \u00c9 a partir dessa cidade \u2013 o maior munic\u00edpio em extens\u00e3o do Brasil e tamb\u00e9m o mais violento, segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada) \u2013 que busca retratar e iluminar os conflitos e contradi\u00e7\u00f5es que imperam pelo Brasil.<\/p>\n<p>Essa tentativa de interpretar o pa\u00eds virou livro. Eliane acaba de publicar &#8220;Brasil, Construtor de Ru\u00ednas \u2013 Um Olhar Sobre o Pa\u00eds, de Lula a Bolsonaro&#8221; (Arquip\u00e9lago, mesma casa dos outros t\u00edtulos aqui citados), no qual analisa o que\u00a0vivemos nas duas primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo, per\u00edodo em que &#8220;nos amamos tanto para em seguida nos odiarmos tanto&#8221;, como escreve. Tra\u00e7o fundamental de sua obra, a jornalista tece suas an\u00e1lises a partir da perspectiva dos menos favorecidos, dos povos das periferias, das florestas, dos que vivem sendo acossados no cotidiano. Tamb\u00e9m se preocupa em reestabelecer a verdade, conceito que, para muita gente, parece ter se tornado completamente abstrato.<\/p>\n<p>Autora de t\u00edtulos como &#8220;A Vida que Ningu\u00e9m V\u00ea&#8221;, que levou o Jabuti de livro-reportagem de 2007, o memorial\u00edstico &#8220;Meus Desacontecimentos&#8221; e o romance &#8220;Uma Duas&#8221;, a autora hoje colabora com reportagens para o The Guardian e \u00e9 colunista do El Pa\u00eds. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, pensa na ascens\u00e3o da extrema direita no Brasil, comenta o que chama em seu novo livro de &#8220;bo\u00e7alidade do mal&#8221; e conta o que mudou na Amaz\u00f4nia \u2013 ou nas Amaz\u00f4nias, como prefere dizer \u2013 desde que Jair Bolsonaro se tornou presidente. Tamb\u00e9m dispensa discursos esperan\u00e7osos \u2013 &#8220;Ao contr\u00e1rio da maioria, eu n\u00e3o tenho grande apre\u00e7o pela esperan\u00e7a. Acho que ela \u00e9 supervalorizada e tem sido manipulada por pol\u00edticos \u00e0 esquerda e \u00e0 direita&#8221; \u2013 e conta o que aprendeu convivendo com povos que j\u00e1 presenciaram, da sua forma, o fim do mundo:<\/p>\n<p>&#8220;Viver numa das Amaz\u00f4nias, a do M\u00e9dio Xingu, me deu uma outra compreens\u00e3o da vida. Como convivo com povos cujos ancestrais j\u00e1 viveram o fim do mundo antes, caso dos ind\u00edgenas, e com povos que acabaram de viver o fim do mundo de novo, caso dos ind\u00edgenas e dos beiradeiros atingidos pela usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte, tenho testemunhado como eles lutam. Nunca tinha visto ningu\u00e9m lutar assim antes. Usam a alegria como &#8216;pot\u00eancia de agir&#8217;. A alegria de estar junto e de compartilhar a vida, mesmo na cat\u00e1strofe. Riem por desaforo diante dos d\u00e9spotas do mundo&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/construtor-de-ruinas-e1573189813669.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/construtor-de-ruinas-e1573189813669.jpg?resize=281%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"281\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Consequ\u00eancia de erros da esquerda, especialmente do PT, apoio de nossa elite empresarial e econ\u00f4mica, reflexo do que pensa parte consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o de nosso pa\u00eds, oportunismo com o desgaste do meio pol\u00edtico, conson\u00e2ncia com um movimento conservador, reacion\u00e1rio ou retr\u00f3grado global\u2026. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, o que causou a ascens\u00e3o da extrema direita por aqui?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso que voc\u00ea citou e mais algumas coisas. O que acontece no Brasil se inscreve na crise global das democracias. Vivemos o fen\u00f4meno dos &#8220;d\u00e9spotas eleitos&#8221;. Al\u00e9m do Brasil, em diferentes n\u00edveis, os mais not\u00f3rios s\u00e3o Estados Unidos, Hungria, Filipinas, Turquia, \u00cdndia e R\u00fassia. Temos tamb\u00e9m o Reino Unido vivendo um momento pat\u00e9tico com o Brexit. Mas, se o Brasil se inscreve num fen\u00f4meno global, h\u00e1 tamb\u00e9m as particularidades da crise brasileira. Primeiro, \u00e9 preciso lembrar que, caso o judici\u00e1rio n\u00e3o tivesse intervindo, as pesquisas mostravam que Lula poderia ter ganhado a elei\u00e7\u00e3o de 2018. Assim, a extrema direita venceu porque o candidato em primeiro lugar nas pesquisas estava preso por um processo povoado por abusos do poder judici\u00e1rio e despovoado de provas. Lula foi preso para n\u00e3o ser presidente, o que \u00e9 totalmente arbitr\u00e1rio. Antes disso, Dilma Rousseff havia sido tirada do poder por um impeachment sem consist\u00eancia. No dia da vota\u00e7\u00e3o do impeachment, Bolsonaro, ent\u00e3o deputado federal, homenageou um torturador reconhecido pela justi\u00e7a como torturador. Fez apologia ao crime literalmente diante das c\u00e2meras do mundo inteiro. N\u00e3o foi responsabilizado. Naquele momento, a fragilidade e\/ou omiss\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es ficou expl\u00edcita. N\u00e3o sab\u00edamos, mas aquele foi o lan\u00e7amento da campanha de extrema direita. Seus protagonistas perceberam claramente que havia espa\u00e7o para avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>O bolsonarismo representa uma parcela dos brasileiros. Sem Lula, Bolsonaro venceu a elei\u00e7\u00e3o. Dedico grande parte do meu livro analisando esse processo, o peso de cada um dos fatores e as responsabilidades de cada um dos protagonistas. O que me parece importante destacar \u00e9 que a vota\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia em Bolsonaro foi uma rea\u00e7\u00e3o, em grande parte, \u00e0s cotas raciais e \u00e0 PEC das dom\u00e9sticas. N\u00e3o h\u00e1 como compreender nenhum momento da hist\u00f3ria do Brasil sem compreender que o racismo estrutura o pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 por acaso que bolsonaristas dizem que &#8220;o PT inventou o racismo&#8221; ou que &#8220;o PT inventou a luta de classes&#8221;. Para uma parcela da esquerda, o PT fez muito pouco no poder porque n\u00e3o fez mudan\u00e7as estruturais. N\u00e3o tocou na distribui\u00e7\u00e3o de renda, por exemplo, nem fez a reforma agr\u00e1ria. Mas, para uma parcela significativa da classe m\u00e9dia brasileira, a ocupa\u00e7\u00e3o pelos negros de espa\u00e7os de poder at\u00e9 ent\u00e3o reservados aos brancos, como as universidades, atingiu privil\u00e9gios que eram considerados direitos. Da mesma forma, no momento em que as empregadas dom\u00e9sticas passam a ter seus direitos (quase) igualados ao dos demais trabalhadores, interfere naquilo que tamb\u00e9m era compreendido como um direito das fam\u00edlias de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>A possibilidade de as mulheres de classe m\u00e9dia terem uma carreira no Brasil e passarem a somar sua renda para sustentar a fam\u00edlia n\u00e3o foi assegurada por pol\u00edticas p\u00fablicas como creches, por exemplo, mas pela exist\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o de uma categoria de mulheres trabalhadoras exploradas, que eram exauridas numa rotina com escassos direitos, na qual eram obrigadas a abrir m\u00e3o do cuidado de seus pr\u00f3prios filhos. A maioria das dom\u00e9sticas \u00e9 composta por negras. O pouco que foi feito, e com tanto atraso, na forma de a\u00e7\u00f5es afirmativas como cotas raciais e na amplia\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas b\u00e1sicos atingiu profundamente a classe m\u00e9dia brasileira \u2013 e a &#8220;paz&#8221; que pressup\u00f5e manter os negros com as piores condi\u00e7\u00f5es gerais de vida e as maiores probabilidades de morte por viol\u00eancia e por doen\u00e7a. Esta \u00e9 a &#8220;pacifica\u00e7\u00e3o&#8221; que as elites econ\u00f4micas, pol\u00edticas e \u00e0s vezes tamb\u00e9m intelectuais costumam propor quando se sentem amea\u00e7adas, ainda que apenas pela perda de privil\u00e9gios como o de falar sozinha. A paz de a maioria da popula\u00e7\u00e3o se submeter passivamente a uma vida de precariedades e consumi\u00e7\u00e3o de seus corpos.<\/p>\n<p><strong>Em certo momento de &#8220;Brasil: Construtor de Ru\u00ednas&#8221; voc\u00ea lembra de Hannah Arendt e do conceito de &#8220;banalidade do mal&#8221; para dar um passo al\u00e9m e constatar a &#8220;bo\u00e7alidade do mal&#8221;, que emerge das redes sociais. Estas &#8220;abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente o seu &#8216;eu mais profundo&#8217;, a sua &#8216;verdade mais intr\u00ednseca&#8221;&#8216;, permitindo que descobr\u00edssemos a &#8220;extens\u00e3o da cloaca humana&#8221;. \u00c9 poss\u00edvel reverter esse processo? Al\u00e9m disso, essa cloaca humana exposta levou a grandes rachas n\u00e3o s\u00f3 na sociedade, mas tamb\u00e9m entre familiares, amigos\u2026 Como lidar com pessoas eventualmente queridas \u2013 ou outrora queridas \u2013 que passaram revelar e se orgulhar cotidianamente de ideias e posicionamentos cru\u00e9is, autorit\u00e1rios, elitistas, racistas, machistas, homof\u00f3bicos\u2026?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Acredito que as pessoas precisam se responsabilizar pelo que falam. Sempre defendi a necessidade de escutar e de conviver com as diferen\u00e7as. Acredito que as diferen\u00e7as s\u00e3o uma for\u00e7a, n\u00e3o um problema. Mas ser diferente n\u00e3o \u00e9 defender crimes e fazer apologia a crimes. Isso \u00e9 crime tamb\u00e9m. Se algu\u00e9m defende o racismo, \u00e9 racista, se algu\u00e9m faz piadas de LGBTIs, est\u00e1 sendo homof\u00f3bico. Se algu\u00e9m discrimina ou humilha mulheres, est\u00e1 sendo mis\u00f3gino e estimulando a viol\u00eancia contra mulheres. N\u00e3o acredito que se possa criar uma sociedade em que todos possam viver suas diferen\u00e7as com dignidade tolerando a viol\u00eancia. A viol\u00eancia \u00e9 intoler\u00e1vel. E isso vale para as rela\u00e7\u00f5es pessoais. Uma pessoa n\u00e3o pode ser querida para mim se ela \u00e9 racista ou mis\u00f3gina ou homof\u00f3bica, por exemplo. Tento fazer essas pessoas entenderem que a piada delas, que acham que \u00e9 indolor, mata gente. H\u00e1 uma longa cadeia de acontecimentos entre a naturaliza\u00e7\u00e3o da piadinha racista e a naturaliza\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio da juventude negra, mas a conex\u00e3o existe, \u00e9 real. Se a pessoa que eu gosto n\u00e3o percebe isso e mant\u00e9m seu comportamento violento, ela n\u00e3o \u00e9 mais querida para mim. Lamento, mas n\u00e3o pode ser. Posso entrevistar, como jornalista, mas n\u00e3o convivo na minha vida pessoal com racistas, mis\u00f3ginos e homof\u00f3bicos. N\u00e3o frequento suas casas.<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam direito \u00e0 sua opini\u00e3o, mas n\u00e3o a incentivar o crime e a viol\u00eancia. Acho que h\u00e1 uma certa confus\u00e3o sobre isso na sociedade brasileira hoje. Fazer apologia ao crime n\u00e3o \u00e9 ter opini\u00e3o diferente. \u00c9 fazer apologia ao crime. E isso n\u00e3o pode ser tolerado. \u00c9 uma l\u00f3gica semelhante \u00e0s pessoas acharem que defender que a Terra \u00e9 plana \u00e9 uma opini\u00e3o. N\u00e3o \u00e9. A Terra \u00e9 redonda. \u00c9 um fato. Defender que a Terra \u00e9 plana \u00e9 s\u00f3 difundir uma mentira, \u00e9 s\u00f3 expor a sua ignor\u00e2ncia. E isso n\u00e3o podemos permitir, j\u00e1 que parte da ci\u00eancia que movimenta nosso cotidiano \u2013 e tamb\u00e9m o cotidiano dos terraplanistas \u2013 \u00e9 baseada neste fato. Temos que combater enfaticamente a ignor\u00e2ncia, porque ela destr\u00f3i, e destr\u00f3i principalmente o corpo dos mais fr\u00e1geis. Pegando emprestada a frase do senador americano Daniel Patrick Moynihan, &#8220;as pessoas t\u00eam direito a sua opini\u00e3o, mas n\u00e3o a seus pr\u00f3prios fatos&#8221;.<\/p>\n<div id=\"attachment_7100\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/desmatamento-bacia-xingu-e1573189853349.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/desmatamento-bacia-xingu-e1573189853349.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Desmatamento na Bacia do Xingu<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>&#8220;Em 2009, eu tamb\u00e9m acreditava que o pa\u00eds havia finalmente chegado ao futuro, embora com uma boa dose de passado exposta pelo &#8216;mensal\u00e3o&#8217; e pela decis\u00e3o do governo do PT de materializar a hidrel\u00e9trica de Belo Monte no amaz\u00f4nico Xingu&#8221;, voc\u00ea escreve na introdu\u00e7\u00e3o o livro. Isso me faz lembrar de um trecho de &#8220;\u00cdndios&#8221;, m\u00fasica da Legi\u00e3o Urbana: &#8220;Que o que aconteceu ainda est\u00e1 por vir\/ E o futuro n\u00e3o \u00e9 mais como era antigamente&#8221;. Qual \u00e9 o futuro que voc\u00ea vislumbra para o Brasil a curto e m\u00e9dio prazo?<\/strong><\/p>\n<p>Fazer futurologia \u00e9 o contr\u00e1rio do jornalismo, como voc\u00ea sabe. Mas h\u00e1 fatos, indicadores e modelagens que nos permitem fazer algumas afirma\u00e7\u00f5es. A mais importante delas \u00e9 que o futuro n\u00e3o s\u00f3 do Brasil, mas do planeta, ser\u00e1 pior. O que disputamos hoje \u00e9 a diferen\u00e7a \u2013 bastante grande \u2013 entre um futuro ruim e um futuro hostil para a esp\u00e9cie humana e para muitas outras esp\u00e9cies. \u00c9 a diferen\u00e7a entre o aquecimento do planeta ficar em 1,5 graus ou atingir 2 graus. Este meio grau j\u00e1 faz muita diferen\u00e7a. Com 2 graus, por exemplo, quase certamente todos os corais desaparecem. Viveremos num mundo sem corais, uma das maiores belezas deste planeta, algo vivo que se extinguir\u00e1.<\/p>\n<p>Hoje pa\u00edses estrat\u00e9gicos para o enfrentamento da emerg\u00eancia clim\u00e1tica, como Estados Unidos e Brasil, est\u00e3o sendo governados por negacionistas do clima. Na minha opini\u00e3o, o governante que nega uma evid\u00eancia cient\u00edfica indiscut\u00edvel como a emerg\u00eancia clim\u00e1tica provocada por a\u00e7\u00e3o humana \u00e9 um criminoso que deve ser responsabilizado, porque est\u00e1 condenando a humanidade inteira e tamb\u00e9m outras esp\u00e9cies a uma vida muito pior ao n\u00e3o fazer as pol\u00edticas p\u00fablicas necess\u00e1rias. Como temos estes negacionistas no poder, que negam o colapso clim\u00e1tico por raz\u00f5es de lucros privados imediatos, n\u00e3o por ignor\u00e2ncia, o que os torna ainda mais asquerosos, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que at\u00e9 o final deste s\u00e9culo, ou mesmo antes, teremos um superaquecimento de 3 ou 4 graus. \u00c9 a previs\u00e3o se o ritmo atual se mantiver. Isso significa dizer que nossos filhos e netos ter\u00e3o uma vida muito pior.<\/p>\n<p>Essa piora j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, s\u00f3 que as pessoas n\u00e3o conseguem relacionar. O ambiente est\u00e1 corro\u00eddo e as pessoas sentem isso no seu cotidiano, mas n\u00e3o conseguem nomear o que sentem como consequ\u00eancia da crise clim\u00e1tica. O antrop\u00f3logo Eduardo Viveiros de Castro, que na minha opini\u00e3o \u00e9 um dos mais incr\u00edveis pensadores vivos hoje no mundo, fez uma compara\u00e7\u00e3o muito interessante numa entrevista que fiz com ele alguns anos atr\u00e1s. A partir do fil\u00f3sofo alem\u00e3o G\u00fcnther Anders, que afirmava que a bomba at\u00f4mica foi o momento em que os humanos criaram algo cujas consequ\u00eancias n\u00e3o poderiam prever, Viveiros de Castro faz uma alegoria com o colapso clim\u00e1tico. Existem aqueles fen\u00f4menos subliminares, que est\u00e3o acontecendo o tempo todo, dentro e fora do nosso corpo, e que n\u00e3o podemos ver. A emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u00e9 um fen\u00f4meno supraliminar. \u00c9 t\u00e3o grande que tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos ver. Mas tenho certeza que sentimos. E cada vez mais detectamos. Precisamos come\u00e7ar a nome\u00e1-lo. Para os ind\u00edgenas, beiradeiros e quilombolas da Amaz\u00f4nia e outros biomas isso \u00e9 muito claro h\u00e1 d\u00e9cadas. Mas acho que os n\u00e3o ind\u00edgenas, como n\u00f3s, mesmo vivendo numa parte do planeta engessada pelo concreto, j\u00e1 podem sentir claramente os efeitos na sua vida.<\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica atravessa todas as grandes quest\u00f5es do nosso tempo. \u00c9 tanto causada pela desigualdade, j\u00e1 que uma pequena parte da humanidade \u00e9 a maior respons\u00e1vel pelo superaquecimento global, como tamb\u00e9m \u00e9 tamb\u00e9m uma grande produtora de desigualdades, j\u00e1 que os que est\u00e3o pagando primeiro e com menos condi\u00e7\u00f5es de se proteger, porque dependem de pol\u00edticas p\u00fablicas que n\u00e3o s\u00e3o tomadas, s\u00e3o os mais pobres, as mulheres e os negros. \u00c9 claro que todos ser\u00e3o radicalmente afetados, porque estamos falando de um planeta que muda. Mas h\u00e1 os que s\u00e3o afetados primeiro e com mais for\u00e7a, o que podemos perceber nas migra\u00e7\u00f5es e nos levantes populares que j\u00e1 est\u00e3o ocorrendo. A \u00e1gua claramente vem se tornando a quest\u00e3o mais importante do nosso tempo. Tenho 53 anos. E sei que viverei num planeta pior ainda durante a minha exist\u00eancia. J\u00e1 estou vivendo. Este futuro j\u00e1 \u00e9 presente, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, \u00e9 um futuro logo aqui. Se o futuro ser\u00e1 apenas ruim ou francamente hostil vai depender de a popula\u00e7\u00e3o acordar e passar a pressionar os governantes. Acordar n\u00e3o amanh\u00e3, mas ontem. Acordar j\u00e1 em p\u00e9.<\/p>\n<div id=\"attachment_7098\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/Altamira_Valter-Campanato_ABr-e1573189899317.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/Altamira_Valter-Campanato_ABr-e1573189899317.jpg?resize=640%2C335&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"335\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 uma jornalista que est\u00e1 em campo, em contato permanente com os problemas do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m com suas virtudes. De tudo o que voc\u00ea presencia andando pelo Brasil e constata ao refletir sobre o pa\u00eds, quais s\u00e3o os elementos que lhe d\u00e3o a esperan\u00e7a de dias melhores, se \u00e9 que eles existem? E como seriam esses dias melhores?<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da maioria, eu n\u00e3o tenho grande apre\u00e7o pela esperan\u00e7a. Acho que ela \u00e9 supervalorizada e tem sido manipulada por pol\u00edticos \u00e0 esquerda e \u00e0 direita. Acho tamb\u00e9m que esperan\u00e7a \u00e9 um luxo que j\u00e1 n\u00e3o temos. N\u00e3o digo isso para criar uma frase de efeito, digo isso porque a esperan\u00e7a tem sido manipulada hoje como a felicidade foi manipulada anos atr\u00e1s, virando mais uma mercadoria. A esperan\u00e7a hoje n\u00e3o est\u00e1 movendo, mas paralisando. \u00c9 esperan\u00e7a para esperar. E n\u00e3o podemos esperar. Em tempos de emerg\u00eancia, temos que agir. Adoro quando a ativista Greta Thunberg diz: &#8220;Nossa casa est\u00e1 em chamas. Eu n\u00e3o quero a sua esperan\u00e7a. Eu quero que voc\u00eas entrem em p\u00e2nico&#8221;. Ela tem toda raz\u00e3o. N\u00e3o temos esse luxo de s\u00f3 agirmos se tivermos esperan\u00e7a. Temos que nos mover por imperativo \u00e9tico, inclusive porque ferramos o planeta em que nossos filhos e netos viver\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para ser mimado e ficar exigindo esperan\u00e7a para nos mexer. N\u00e3o tenho muita paci\u00eancia com gente mimada quando o mundo est\u00e1 ruindo. Voc\u00ea precisa de motiva\u00e7\u00e3o, precisa ter sua alma encerada pela esperan\u00e7a? \u00c9 o seguinte. Se voc\u00ea n\u00e3o se mover, logo vai ter muita dificuldade para beber \u00e1gua n\u00e3o contaminada, como j\u00e1 acontece com alguns povos do mundo.<\/p>\n<p>Prefiro responder ao que me d\u00e1 alegria. Viver numa das Amaz\u00f4nias, a do M\u00e9dio Xingu, me deu uma outra compreens\u00e3o da vida. Como convivo com povos cujos ancestrais j\u00e1 viveram o fim do mundo antes, caso dos ind\u00edgenas, e com povos que acabaram de viver o fim do mundo de novo, caso dos ind\u00edgenas e dos beiradeiros atingidos pela usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte, tenho testemunhado como eles lutam. Nunca tinha visto ningu\u00e9m lutar assim antes. Usam a alegria como &#8220;pot\u00eancia de agir&#8221;. A alegria de estar junto e de compartilhar a vida, mesmo na cat\u00e1strofe. Riem por desaforo diante dos d\u00e9spotas do mundo. Para os n\u00e3o ind\u00edgenas e os n\u00e3o beiradeiros \u00e9 dif\u00edcil compreender essa for\u00e7a da alegria, que n\u00e3o tem nada a ver com a esperan\u00e7a. Uns tempos atr\u00e1s um novo procurador da Rep\u00fablica, que se mudou recentemente para Altamira, me disse que s\u00f3 tinha entendido a pot\u00eancia da alegria depois de ouvir um homem rec\u00e9m-libertado de um processo de escravid\u00e3o contempor\u00e2nea. Ao escut\u00e1-lo, deparou-se com um riso que era dignidade e resist\u00eancia. Tenho chamado esse movimento de &#8220;vida feroz&#8221;. A vida feroz \u00e9 muito potente.<\/p>\n<p>Tenho convic\u00e7\u00e3o de que o movimento que pode criar um futuro onde possamos viver, mesmo com todas as dificuldades da crise clim\u00e1tica, vem da nossa capacidade de recolocar as periferias, as urbanas e as da floresta, no lugar ao qual pertencem: o de centro. Temos de deslocar as vis\u00f5es hegem\u00f4nicas, brancas, do que \u00e9 centro e do que \u00e9 periferia. Temos de conseguir tecer uma alian\u00e7a entre os negros das periferias urbanas e os povos da floresta, entre os sem-teto, os sem-terra e os que n\u00e3o querem virar os sem-floresta. Esse movimento de insurrei\u00e7\u00e3o, que vem tomando os Brasis pelas bases nos \u00faltimos anos, \u00e9 o movimento que as elites que colocaram Michel Temer no poder e tamb\u00e9m o bolsonarismo tentam barrar. \u00c9 neste movimento \u2013 e ele est\u00e1 em curso \u2013 que podemos criar um Brasil outro.<\/p>\n<p>Tenho tamb\u00e9m testemunhado (e convivido com) essa nov\u00edssima gera\u00e7\u00e3o maravilhosa que est\u00e1 emergindo. Sou muito f\u00e3 destes jovens. N\u00e3o os mimados filhos das classes altas e m\u00e9dias que acham que consumir \u00e9 viver e que s\u00e3o merecedores de privil\u00e9gios apenas porque respiram. Mas estes que recusam esse lugar e est\u00e3o se contrapondo ao consumo e tecendo um movimento de solidariedade global. Essa gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 derrubando todo o tipo de muros criados pelos d\u00e9spotas que nos governam. Para mim s\u00f3 faz sentido lutar ao lado deles. Quero que eles se sirvam de mim, do que sei, do que aprendi e do que ainda aprenderei. Estamos junt@s.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas que voc\u00ea frequenta a Amaz\u00f4nia. Hoje mora na em Altamira, inclusive. Indo al\u00e9m do que a m\u00eddia retrata, como a quest\u00e3o das queimadas, quais as diferen\u00e7as que voc\u00ea notou na regi\u00e3o e quais problemas ou melhorias voc\u00ea vivenciou por a\u00ed desde que Jair Bolsonaro foi eleito presidente?<\/strong><\/p>\n<p>Numa \u00e9poca de emerg\u00eancia clim\u00e1tica, a Amaz\u00f4nia \u00e9 o centro do mundo. Se eu afirmo isso, se eu defendo isso, por que ent\u00e3o eu n\u00e3o estava no centro do mundo? Levei um ano para organizar minha mudan\u00e7a. Inverti ent\u00e3o o ponto de vista desde onde eu olhava para o Brasil. Me mudei em 2017 para Altamira para um projeto de um ano. E fiquei. N\u00e3o se faz um gesto deste tamanho sem que a gente mude muito profundamente. Eu mudei. E sigo mudando. Isso causou v\u00e1rios rompimentos na minha vida. E mudou o meu olhar para o Brasil e para o mundo.<\/p>\n<p>O que a gente percebe, vivendo numa regi\u00e3o como a de Altamira, \u00e9 a literalidade. Quando Bolsonaro ou outra pessoa com autoridade em Bras\u00edlia diz algo, a repercuss\u00e3o aqui na Amaz\u00f4nia \u00e9 imediata. Palavras l\u00e1 em Bras\u00edlia, mortes aqui na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 consigo responder qualquer coisa contando o processo. N\u00e3o d\u00e1 para isolar os fatos. Dizem que fa\u00e7o text\u00e3o. Fa\u00e7o mesmo. Alegremente. Por responsabilidade com contexto e processo. Por respeito \u00e0 mem\u00f3ria. Assim, preciso responder \u00e0 tua pergunta recuperando o que \u00e9 continuidade, apontando o que \u00e9 ruptura, que \u00e9 o que fa\u00e7o no meu livro. A constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o dos governos do PT-PMDB. A usina foi toda constru\u00edda como se o Brasil estivesse vivendo um regime de exce\u00e7\u00e3o. A lei simplesmente n\u00e3o era aplicada. O Estado servia \u00e0 empresa. Foi uma experi\u00eancia aterrorizante para quem a viveu, principalmente, mas tamb\u00e9m para quem a testemunhou. E testemunha, porque os impactos mal come\u00e7aram.<\/p>\n<div id=\"attachment_7101\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/Dia-do-Fogo-e1573189931281.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/137\/files\/2019\/11\/Dia-do-Fogo-e1573189931281.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Amaz\u00f4nia em chamas<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Com Lula, pelo menos havia uma preocupa\u00e7\u00e3o com as apar\u00eancias, com simular um di\u00e1logo. Lula conversou com as lideran\u00e7as contra Belo Monte, em Bras\u00edlia. S\u00f3 que n\u00e3o as escutou. Conversou apenas para dizer que conversava. J\u00e1 estava tudo decidido. Dilma n\u00e3o se preocupava com apar\u00eancias. Para al\u00e9m de Belo Monte, por\u00e9m, at\u00e9 perto do impeachment havia algumas inst\u00e2ncias democr\u00e1ticas que funcionavam na regi\u00e3o durante os governos do PT. Ainda que os governos do PT tenham se aproximado cada vez mais dos ruralistas, a ponto de Katia Abreu ter se tornado ministra da Agricultura do governo de Dilma Rousseff, restavam alguns compromissos com pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0s comunidades. J\u00e1 no processo de impeachment, a viol\u00eancia se acirrou e era poss\u00edvel sentir claramente a crescente desenvoltura dos grileiros.<\/p>\n<p>Com Michel Temer, o ambiente se corroeu muito rapidamente. Isso aparece nas amea\u00e7as contra pequenos agricultores, ind\u00edgenas, ribeirinhos e quilombolas, que se multiplicaram. A viol\u00eancia \u00e9 algo que se pode sentir at\u00e9 na postura corporal de quem passa a se sentir respaldado. Tudo na Amaz\u00f4nia \u00e9 imediato. Quando a reforma trabalhista passou a valer, alguns empres\u00e1rios de cidades da regi\u00e3o demitiram seus empregados no dia seguinte. De um dia para o outro eles perderam todos os benef\u00edcios legais e entraram na informalidade. Passaram a trabalhar para as mesmas empresas, sem limite de hor\u00e1rio, sem benef\u00edcios e por uma di\u00e1ria de fome. \u00c9 assim que funciona o Brasil real, enquanto na sala de jantar os engravatados ficam regurgitando que &#8220;\u00e9 preciso modernizar as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas&#8221;. Estas pessoas precarizadas v\u00e3o reclamar dos donos da cidade para quem? Se reclamarem, ter\u00e3o que migrar. Em alguns lugares da Amaz\u00f4nia, como se sabe, as reclama\u00e7\u00f5es trabalhistas s\u00e3o enterradas junto com os corpos dos escravos modernos. Ningu\u00e9m vive pior e tem seu corpo mais esgotado do que aqueles que foram arrancados da floresta para virar pobres nas periferias urbanas das cidades amaz\u00f4nicas. Essa convers\u00e3o de povos tradicionais em pobres urbanos \u00e9 um crime hediondo.<\/p>\n<p>Dito isso, \u00e9 preciso afirmar muito claramente que, desde o fim da ditadura militar, n\u00e3o h\u00e1 precedentes para o que acontece na Amaz\u00f4nia com Bolsonaro no poder. Desde antes da elei\u00e7\u00e3o eu escrevo que o principal projeto do bolsonarismo \u00e9 abrir a floresta para a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria: boi, soja, minera\u00e7\u00e3o e grandes obras. Enquanto seguem as tentativas de deformar a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, no Congresso e na Justi\u00e7a, o projeto bolsonarista avan\u00e7a rapidamente. E como? Primeiro, todas as demarca\u00e7\u00f5es de terras ind\u00edgenas foram suspensas. Ou seja. N\u00e3o se avan\u00e7ar\u00e1 na prote\u00e7\u00e3o da floresta e de outros biomas.<\/p>\n<p>Segundo, todo o sistema de prote\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo desmontado e os \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo enfraquecidos. Bolsonaro e seu ministro contra o meio ambiente, Ricardo Salles, d\u00e3o recados clar\u00edssimos de que est\u00e1 tudo liberado, ao mesmo tempo em que desautorizam a fiscaliza\u00e7\u00e3o, colocando funcion\u00e1rios p\u00fablicos em risco de morte. Enquanto isso, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, liberou e segue liberando um n\u00famero recorde de agrot\u00f3xicos: 490 desde janeiro. N\u00e3o \u00e9 apenas o ambiente do pa\u00eds que est\u00e1 envenenado por \u00f3dios. Este governo est\u00e1 literalmente envenenando o Brasil com pesticidas que est\u00e3o na nossa comida, na nossa \u00e1gua e no nosso ar. Fico sempre pensando como essa gente dorme, que tipo de explica\u00e7\u00f5es d\u00e3o para si mesmos para conseguir se manter no pr\u00f3prio corpo envenenando milh\u00f5es de pessoas para lucros e vantagens privadas, matando gente com suas palavras e canetadas. Mas aparentemente eles dormem.<\/p>\n<p>A express\u00e3o mais exata de como agem os grupos que destroem a floresta \u00e9 o Dia do Fogo, ocorrido em 10 de agosto. Grileiros e fazendeiros da regi\u00e3o de Novo Progresso entenderam que Bolsonaro pedia uma declara\u00e7\u00e3o de lealdade e uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a para respaldar a sua pol\u00edtica contra a floresta. Entenderam corretamente, porque Bolsonaro n\u00e3o se cansa de deixar clara a sua escolha. Anunciaram ent\u00e3o o Dia do Fogo. Saiu no jornal cinco dias antes de acontecer. No jornal! Nenhuma provid\u00eancia foi tomada pelo governo. E a floresta queimou.<\/p>\n<p>Se as pessoas do Centro-Sul do Brasil n\u00e3o compreenderem que, sem a floresta, a vida delas ser\u00e1 muito ruim e se unirem pelo objetivo comum de salvar a Amaz\u00f4nia, a floresta poder\u00e1 chegar ao ponto de n\u00e3o retorno com Bolsonaro. Lutar pela Amaz\u00f4nia hoje significa n\u00e3o s\u00f3 zerar o desmatamento, mas reflorestar a floresta. Infelizmente, parece que a popula\u00e7\u00e3o segue paralisada e achando que a floresta \u00e9 longe, sem entender que tudo o que acontece na Amaz\u00f4nia j\u00e1 est\u00e1 corroendo a sua vida cotidiana, mesmo vivendo numa grande cidade como S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>https:\/\/paginacinco.blogosfera.uol.com.br\/2019\/11\/08\/eliane-brum-a-esperanca-tem-sido-manipulada-virou-mais-uma-mercadoria\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Casarin &#8211; Em 1998 que a jornalista Eliane Brum viajou pela primeira vez \u00e0 Amaz\u00f4nia, para escrever uma reportagem sobre a Transamaz\u00f4nica para o jornal ga\u00facho Zero Hora. Depois, em 2000, colaborando com a revista \u00c9poca, realizou diversas viagens para diferentes lugares da floresta. 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