{"id":11972,"date":"2019-11-10T18:44:57","date_gmt":"2019-11-10T21:44:57","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11972"},"modified":"2019-11-07T17:53:21","modified_gmt":"2019-11-07T20:53:21","slug":"a-emergencia-da-inversao-menos-glorificacao-dos-bilionarios-e-mais-bem-estar-das-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/11\/10\/a-emergencia-da-inversao-menos-glorificacao-dos-bilionarios-e-mais-bem-estar-das-familias\/","title":{"rendered":"A emerg\u00eancia da invers\u00e3o: menos glorifica\u00e7\u00e3o dos bilion\u00e1rios e mais bem-estar das fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor Santos e Wagner Fernandes de Azevedo<\/strong> &#8211; Ladislau Dowbor acredita que j\u00e1 dispomos de recursos financeiros e tecnol\u00f3gicos para assegurar uma reconvers\u00e3o econ\u00f4mica. Falta apenas capital pol\u00edtico para fazer frente \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 em tamanha transforma\u00e7\u00e3o que tudo parece ter um novo modo de ser, um novo lugar. Nem mesmo o capitalista de hoje \u00e9 como foi o de antigamente, aquele que \u201cexplorava os trabalhadores, mas produzia, gerava produto e pagava impostos\u201d. A assertiva do economista Ladislau Dowbor parece ir\u00f4nica, mas \u00e9 real. As transforma\u00e7\u00f5es t\u00eam descentrado at\u00e9 l\u00f3gicas econ\u00f4micas que, por mais perversas que pareciam ser, ainda tinham um m\u00ednimo de gera\u00e7\u00e3o de bem-estar social. \u201cA fragilidade do atual sistema dominante consiste precisamente no fato de ser economicamente, socialmente e ambientalmente disfuncional\u201d, observa.<\/p>\n<p>Na entrevista concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line, Dowbor detalha que, na atualidade, o grande vil\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem mesmo o capitalismo em si, mas o capitalismo rentista, pois o patr\u00e3o \u201cde m\u00e3o no bolso, v\u00ea o seu dinheiro crescer de maneira exponencial. Ele ganha com juros altos, pois os recebe. Mas a massa da popula\u00e7\u00e3o, a pequena e m\u00e9dia empresa e o Estado pagam juros sobre a d\u00edvida. Pagam esses juros, precisamente, para os que vivem de aplica\u00e7\u00f5es financeiras\u201d. O resultado \u00e9 que \u201ca popula\u00e7\u00e3o perde capacidade de compra, a empresa capacidade de investir, e o Estado capacidade de prover pol\u00edticas p\u00fablicas e infraestruturas\u201d. Por isso, defende uma invers\u00e3o: \u201ca economia precisa se recentrar no bem-estar das fam\u00edlias e na sustentabilidade do planeta. A vis\u00e3o de sucesso econ\u00f4mico precisa se deslocar da glorifica\u00e7\u00e3o dos bilion\u00e1rios, que souberam como arrancar um peda\u00e7o maior, para o reconhecimento de quem mais contribui\u201d.<\/p>\n<p>Dowbor ainda destaca que j\u00e1 h\u00e1 sa\u00edda para essa situa\u00e7\u00e3o. \u201cTrata-se, de um lado, de reduzir os impactos destrutivos. Por outro lado, trata-se de promover o acesso gratuito, p\u00fablico e universal a um conjunto de bens essenciais\u201d. A\u00e7\u00f5es que, nesse nosso tempo de avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, j\u00e1 t\u00eam a possibilidade de implementar essa reconvers\u00e3o. \u201cMas n\u00e3o temos poder pol\u00edtico sobre as corpora\u00e7\u00f5es que geram o desastre\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Podemos afirmar que a economia do nosso tempo assumiu tamanha centralidade a ponto de p\u00f4r a sociedade a seu servi\u00e7o, invertendo a l\u00f3gica para a qual o campo econ\u00f4mico foi concebido? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0No mundo, a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os aumenta em m\u00e9dia 2% ao ano. \u00c9 que produzir \u00e9 trabalhoso. Mas as aplica\u00e7\u00f5es financeiras rendem em m\u00e9dia, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, entre 7% e 9% ao ano. O dinheiro \u2013 n\u00e3o o nosso, que serve para pagar as contas, mas o dos ricos \u2013 vai para onde rende mais.<\/p>\n<p>Isso gera as fant\u00e1sticas fortunas financeiras de quem n\u00e3o produz, mas drena os processos produtivos em seu proveito. Hoje o 1% mais rico tem mais do que os 99% seguintes, o que deformou radicalmente a economia. O PIB cai, e os lucros dos bancos e dos rentistas se expande. A economia real, que \u00e9 o que nos interessa, perde espa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma o mercado e, consequentemente, as corpora\u00e7\u00f5es assumem a capacidade de drenar recursos e esvaziar o papel das pol\u00edticas p\u00fablicas?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0O mecanismo \u00e9 o que se chama de efeito bola de neve. Um bilion\u00e1rio que aplica o seu bilh\u00e3o em pap\u00e9is que rendem modestos 5% ao ano est\u00e1 ganhando 137 mil por dia. No dia seguinte o seu rendimento ser\u00e1 sobre o bilh\u00e3o mais 137 mil e assim por diante. De m\u00e3o no bolso, v\u00ea o seu dinheiro crescer de maneira exponencial. Ele ganha com juros altos, pois os recebe.<\/p>\n<p>Mas a massa da popula\u00e7\u00e3o, a pequena e m\u00e9dia empresa e o Estado pagam juros sobre a d\u00edvida. Pagam esses juros, precisamente, para os que vivem de aplica\u00e7\u00f5es financeiras. A popula\u00e7\u00e3o perde capacidade de compra, a empresa capacidade de investir, e o Estado capacidade de prover pol\u00edticas p\u00fablicas e infraestruturas. O volume dos nossos impostos transferidos para os bancos e a classe m\u00e9dia alta rentista foi de 310 bilh\u00f5es de reais em 2018, \u00e9 tanto a menos para pol\u00edticas p\u00fablicas. Equivalem a 10 vezes o Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o relat\u00f3rio do Roosevelt Institute , divulgado recentemente, p\u00f5e em xeque a perspectiva de que faltam recursos para financiar pol\u00edticas p\u00fablicas? E que outra economia se pode conceber a partir do que revela o relat\u00f3rio?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0O relat\u00f3rio est\u00e1 centrado em dois conjuntos de medidas: restringir o poder das corpora\u00e7\u00f5es e recuperar a capacidade de a\u00e7\u00e3o do Estado. Hoje, temos essencialmente um Estado apropriado por grandes corpora\u00e7\u00f5es, que ditam pol\u00edticas como, por exemplo, a lei do teto de gastos, a apropria\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia pelos bancos, a libera\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos proibidos em outros pa\u00edses, o desmatamento da Amaz\u00f4nia, a entrega da Embraer, a venda de terras aos grupos internacionais, a entrega do petr\u00f3leo e assim por diante.<\/p>\n<p>Assim, as corpora\u00e7\u00f5es agem indiretamente, por meio do Estado, que perdeu a sua fun\u00e7\u00e3o de defesa dos interesses p\u00fablicos. Trata-se de enquadrar as corpora\u00e7\u00f5es e de promover a\u00e7\u00f5es diretas do Estado, em particular no fornecimento de bens p\u00fablicos como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e semelhantes.\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2JNCCoR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Clique para acessar as principais propostas<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O esvaziamento da perspectiva pol\u00edtica da economia pode ter contribu\u00eddo para a resigna\u00e7\u00e3o do campo a l\u00f3gicas tecnocr\u00e1ticas? Por qu\u00ea? E de que forma a economia pol\u00edtica \u00e9 capaz de frear a centralidade do mercado e a imposi\u00e7\u00e3o de suas l\u00f3gicas ao campo da economia?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o se trata de l\u00f3gicas tecnocr\u00e1ticas, mas de narrativas pseudot\u00e9cnicas destinadas a obscurecer os mecanismos de apropria\u00e7\u00e3o de dinheiro por meio de sistemas financeiros deformados. Agiotagem, na maioria dos pa\u00edses, \u00e9 crime. Mas os caminhos para se recolocar a economia nos rumos construtivos s\u00e3o evidentes e bem conhecidos. O dinheiro que vai para a base social dinamiza a demanda, o que estimula a produ\u00e7\u00e3o, o que por sua vez amplia o emprego, gerando mais demanda e um ciclo ascendente de desenvolvimento. N\u00e3o gera infla\u00e7\u00e3o, pois temos uma grande capacidade ociosa das empresas.<\/p>\n<p>O aumento da produ\u00e7\u00e3o e do consumo de massa tamb\u00e9m amplia a receita tribut\u00e1ria, o que permite financiar as pol\u00edticas governamentais e ampliar o outro eixo de bem-estar da popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 o acesso aos bens e servi\u00e7os p\u00fablicos, como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, gerando uma prosperidade que se amplia. Assim temos desenvolvimento sem gerar d\u00e9ficit. O Estado, pela sua capacidade de dinamizar a demanda na base da sociedade, precisa ter um papel central na promo\u00e7\u00e3o dessa din\u00e2mica. Inversamente, o dinheiro no topo da sociedade gera especula\u00e7\u00e3o financeira, evas\u00e3o fiscal e d\u00e9ficit nas contas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica pode impactar a concep\u00e7\u00e3o de novas formas de trabalho e, consequentemente, de uma outra economia?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0Sabemos o que deve ser feito, e os 17 objetivos da Agenda 2030 constituem um caminho que n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 claro como aprovado pela quase totalidade dos pa\u00edses, Brasil inclusive. Trata-se, de um lado, de reduzir os impactos destrutivos, como o aquecimento global, a perda de biodiversidade, a perda de solo f\u00e9rtil, a contamina\u00e7\u00e3o generalizada da \u00e1gua, a liquida\u00e7\u00e3o da vida nos mares e assim por diante. Envolve reconvers\u00e3o energ\u00e9tica, agricultura de precis\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es e assim por diante. Temos os recursos financeiros e tecnol\u00f3gicos para assegurar esta reconvers\u00e3o, mas n\u00e3o temos poder pol\u00edtico sobre as corpora\u00e7\u00f5es que geram o desastre.<\/p>\n<p>Por outro lado, trata-se de promover o acesso gratuito, p\u00fablico e universal a um conjunto de bens essenciais, e em particular \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, \u00e1gua segura e semelhantes, bens e servi\u00e7os que constituem bens p\u00fablicos e de consumo coletivo, exigindo gest\u00e3o p\u00fablica. Melhoram radicalmente o bem-estar das fam\u00edlias e geram muito pouco impacto ambiental, pelo contr\u00e1rio, em geral melhoram o nosso conv\u00edvio com a natureza, al\u00e9m de gerar mais empregos. N\u00e3o s\u00e3o \u201cgastos\u201d, como gosta de afirmar o governo, s\u00e3o investimentos nas pessoas. Um real investido em saneamento b\u00e1sico, por exemplo, reduz em quatro reais os gastos com doen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Ao longo dos \u00faltimos anos, o capitalismo tem revelado uma grande capacidade de transforma\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o das crises geradas por ele mesmo. Como compreender essa capacidade de transforma\u00e7\u00e3o? E \u00e9 poss\u00edvel conceber um sistema econ\u00f4mico que opere a partir das bases do capitalismo, mas que aja no sentido contr\u00e1rio?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0O capitalismo est\u00e1 vivendo uma din\u00e2mica profunda de transforma\u00e7\u00e3o, que resulta em grande parte das din\u00e2micas tecnol\u00f3gicas. O que surge tem sido caracterizado de capitalismo global, financeiro, parasit\u00e1rio, imaterial e outros qualificativos que tentam captar que tipo de deforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 em curso. Eu trabalho com a hip\u00f3tese de que estamos vivendo uma revolu\u00e7\u00e3o digital que \u00e9 t\u00e3o profunda quanto foi a transforma\u00e7\u00e3o dos sistemas agr\u00e1rios pela revolu\u00e7\u00e3o industrial. N\u00e3o \u00e9 uma ind\u00fastria 4.0. \u00c9 muito mais do que isso. Temos de parar de analisar apenas como o passado est\u00e1 se deformando, e pensar que novo sistema est\u00e1 se formando.<\/p>\n<p>Apresento os principais eixos de mudan\u00e7a num ensaio, Al\u00e9m do Capitalismo: a revolu\u00e7\u00e3o digital . A borboleta \u00e9 uma continuidade da lagarta, mas a natureza \u00e9 qualitativamente diferente. As mudan\u00e7as s\u00e3o sist\u00eamicas. Precisamos deslocar o racioc\u00ednio. \u00c9 a sociedade do conhecimento que precisa de outras regras.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O papa Francisco est\u00e1 conclamando economistas a pensar noutras formas de economia. O que est\u00e1 na g\u00eanese dessa proposta do pont\u00edfice? Quais os desafios para se levar essas quest\u00f5es de fundo de suas reflex\u00f5es para a pr\u00e1tica do campo da economia?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0O papa Francisco est\u00e1 rigorosamente sintonizado com o que h\u00e1 de mais moderno nas propostas, em particular na Agenda 2030. A economia precisa se recentrar no bem-estar das fam\u00edlias e na sustentabilidade do planeta. A vis\u00e3o de sucesso econ\u00f4mico precisa se deslocar da glorifica\u00e7\u00e3o dos bilion\u00e1rios, que souberam como arrancar um peda\u00e7o maior, para o reconhecimento de quem mais contribui. Pasteur n\u00e3o precisou ser bilion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na mensagem do Papa, eu vejo um profundo resgate de valores. Em termos econ\u00f4micos, os caminhos s\u00e3o claros. O bem-estar das fam\u00edlias, ao ser generalizado \u2013 como, por exemplo, no New Deal do Roosevelt, no Well-Fare State da Europa, ou nas pol\u00edticas de 2003 a 2013 no Brasil, que o Banco Mundial qualificou de Golden Decade of Brazil \u2013, gera uma maior demanda de massa, que por sua vez dinamiza as atividades empresariais. Ambas geram, al\u00e9m de empregos, mais receitas para o Estado, o que lhe permite financiar a outra dimens\u00e3o do bem-estar das fam\u00edlias, que \u00e9 o acesso aos bens de consumo coletivo que mencionamos acima.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Hoje, no Brasil e no mundo, vivemos o \u00e1pice do liberalismo? E de que ordem \u00e9 esse liberalismo?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0Vivemos essencialmente uma desordem econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social. A economia, e em particular o sistema financeiro, tem como palco o planeta. O dinheiro hoje \u00e9 imaterial, dinheiro-papel representa apenas 3% da chamada liquidez. E dinheiro imaterial viaja pelo mundo em tempo real por meio dos computadores. Mas os governos que tentam regular o sistema financeiro est\u00e3o fragmentados em 193 pa\u00edses membros da ONU, cada um puxando para o seu lado. H\u00e1 um desajuste sist\u00eamico entre a dimens\u00e3o global da economia e a dimens\u00e3o nacional dos governos.<\/p>\n<p>Com isso se gerou a impot\u00eancia das pol\u00edticas p\u00fablicas e o vale-tudo econ\u00f4mico que vemos nas fraudes dos bancos, de empresas do porte da Volkswagen, de empresas farmac\u00eauticas, de empresas energ\u00e9ticas, do agroneg\u00f3cio, nos desastres como em Mariana e Brumadinho. No meu livro A Era do Capital Improdutivo , dispon\u00edvel gratuitamente online, analiso essas transforma\u00e7\u00f5es, inclusive com pequenos v\u00eddeos para cada cap\u00edtulo. Acho vital que mais pessoas entendam os mecanismos de opress\u00e3o que est\u00e3o sendo gerados, bem como os caminhos que temos pela frente. Estamos funcionando no s\u00e9culo 21 com regras do jogo de outra era. \u00c9 s\u00f3 observar o caos pol\u00edtico mundial que se expande.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O socialismo ainda \u00e9 uma perspectiva pol\u00edtica e econ\u00f4mica que pode fazer frente ao liberalismo? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0Temos de requalificar o que entendemos por socialismo. Em particular, sair da simplifica\u00e7\u00e3o de que a esquerda quer estatizar e a direita privatizar. Somos sociedades demasiado complexas para simplifica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas deste tipo. Mas os objetivos s\u00e3o claros: temos de assegurar uma sociedade economicamente vi\u00e1vel, socialmente justa e ambientalmente sustent\u00e1vel. Assim, temos um \u201cnorte\u201d. O vale-tudo das corpora\u00e7\u00f5es, e a opress\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es, que \u00e9 o que vivemos, n\u00e3o pode continuar a se cobrir de legitimidade cient\u00edfica com termos como liberalismo ou neoliberalismo.<\/p>\n<p>Wolfgang Streeck diz que n\u00e3o \u00e9 o fim do capitalismo, mas o fim do capitalismo democr\u00e1tico. O conceito de socialismo \u00e9 forte no que associamos de dec\u00eancia no comportamento pol\u00edtico, de vis\u00e3o humanista, de redu\u00e7\u00e3o das desigualdades, de resgate do meio ambiente. \u00c9 o tal do \u201coutro mundo poss\u00edvel\u201d. Mas precisamos mostrar que uma outra forma de gest\u00e3o da sociedade \u00e9 poss\u00edvel. Trata-se de formas concretas de organiza\u00e7\u00e3o do processo decis\u00f3rio da sociedade. Para mim, socialismo democr\u00e1tico parece \u00f3timo como horizonte pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O socialismo se construiu em diferentes sociedades, em diferentes momentos (como a R\u00fassia de 1917 e a China de 1949). A partir desse dado, pode-se afirmar que o socialismo \u00e9 um modelo que, como o capitalismo, possui uma grande capacidade de adapta\u00e7\u00e3o? Em que medida o(s) socialismo(s) se adapta(m) ao s\u00e9culo XXI, atravessado pelas mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e culturais?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0Eu trabalho com o conceito de economia mista. Produzir sapatos, carros e cosm\u00e9ticos pode perfeitamente ficar no \u00e2mbito da economia privada, mas com regula\u00e7\u00e3o, em particular pelos impactos ambientais. Mas as grandes infraestruturas de transporte, de energia, de comunica\u00e7\u00e3o e de \u00e1gua\/saneamento precisam ser planejadas e geridas em fun\u00e7\u00e3o do bem comum, na l\u00f3gica de um desenvolvimento equilibrado. Aqui, o Estado e o planejamento t\u00eam de exercer papel dominante.<\/p>\n<p>J\u00e1 as pol\u00edticas sociais, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e semelhantes, onde funcionam bem, s\u00e3o p\u00fablicas, gratuitas e de acesso universal. Sai muito mais barato e \u00e9 muito mais eficiente do que a ind\u00fastria da doen\u00e7a, a ind\u00fastria do diploma, sem falar das mil\u00edcias privadas. Aqui o Estado \u00e9 fundamental, e de forma descentralizada, com l\u00f3gicas diferenciadas segundo as condi\u00e7\u00f5es. Em outra \u00e1rea, temos de exercer rigoroso controle sobre os grandes sistemas de intermedia\u00e7\u00e3o financeira, que hoje deformam todo o processo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Isso porque as finan\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o um setor, s\u00e3o uma dimens\u00e3o de todas as nossas atividades. Se reduzimos as pol\u00edticas sociais p\u00fablicas, por exemplo com o teto de gastos, as fam\u00edlias s\u00e3o empurradas para os planos privados de sa\u00fade, hoje mecanismos de extors\u00e3o. A intermedia\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 atividade meio, ningu\u00e9m come dinheiro. S\u00f3 \u00e9 leg\u00edtima quando canaliza os recursos para o que n\u00f3s como sociedade queremos priorizar. Apresento estas novas articula\u00e7\u00f5es num pequeno estudo, O p\u00e3o nosso de cada dia: processos produtivos no Brasil .<\/p>\n<p>A economia n\u00e3o \u00e9 misteriosa, \u00e9 s\u00f3 seguir o bom senso. Mas quando est\u00e3o nos ferrando, querem demonstrar que \u00e9 para o nosso bem, o que exige an\u00e1lises econom\u00e9tricas que realmente ningu\u00e9m entende. E o objetivo deles \u00e9 esse mesmo. Se voc\u00ea n\u00e3o entendeu, desconfie.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A constru\u00e7\u00e3o do socialismo pressup\u00f5e m\u00e9todo e disciplina por parte da classe trabalhadora. Levando em conta a caracter\u00edstica dos movimentos de hoje, que se d\u00e3o de forma descentralizada e ef\u00eamera, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que, nesse contexto, podem emergir \u201coutros socialismos\u201d?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong>\u00a0Os desafios hoje se tornaram mais complexos. N\u00e3o estamos mais no tempo em que havia a burguesia, o proletariado e o campesinato, e a luta de classes. H\u00e1 uma profunda fragmenta\u00e7\u00e3o social, formas muito diferenciadas de inser\u00e7\u00e3o que dificultam as identidades e solidariedades sociais. Hoje est\u00e3o se tornando mais fortes eixos de identidade em torno do g\u00eanero, ra\u00e7a, religi\u00e3o, regionalismos. E as formas de constru\u00e7\u00e3o de la\u00e7os mudam profundamente com as redes sociais e as novas tecnologias.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 grandes eixos de unifica\u00e7\u00e3o de lutas. O que estamos enfrentando \u00e9 um sistema que est\u00e1 destruindo o nosso futuro no planeta, e no mundo todo as pessoas est\u00e3o despertando e se mobilizando. E a desigualdade est\u00e1 atingindo bilh\u00f5es de pessoas, que hoje est\u00e3o conscientes de que deveriam poder ter acesso a uma sa\u00fade decente, a escolas decentes. N\u00e3o h\u00e1 mais pobres como antigamente, eternamente conformados. O saco cheio est\u00e1 se generalizando, como inclusive vemos no aproveitamento eleitoral de uma direita que navega no \u00f3dio. E em particular, est\u00e1 cada vez mais evidente que este duplo drama ambiental e social \u00e9 gerado por uma minoria rica, poderosa e improdutiva. O que temos em para\u00edsos fiscais, entre 21 e 32 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, equivale a um ter\u00e7o do PIB mundial. Evas\u00e3o fiscal, corrup\u00e7\u00e3o, lavagem de dinheiro, especula\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>O capitalista de antigamente explorava os trabalhadores mas produzia, gerava produto e pagava impostos. A destrui\u00e7\u00e3o do planeta \u00e9 obra de uma minoria planet\u00e1ria que \u00e9 improdutiva, desvia os recursos necess\u00e1rios para a reconvers\u00e3o das nossas economias para a sustentabilidade ambiental e a inclus\u00e3o social. A fragilidade do atual sistema dominante consiste precisamente no fato de ser economicamente, socialmente e ambientalmente disfuncional. Como muitos economistas importantes que nada t\u00eam de esquerda hoje proclamam, de Joseph Stiglitz no Roosevelt Institute at\u00e9 Martin Wolf no Financial Times, este sistema perdeu a sua legitimidade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor \u2013<\/strong> Sugiro fortemente que as pessoas peguem a minha an\u00e1lise nos 15 v\u00eddeos de 10 minutos que acompanham o livro A Era do Capital Improdutivo. N\u00e3o precisamos ser economistas para entender como nos ferram, e como nos defender.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7590-a-emergencia-da-inversao-menos-glorificacao-dos-bilionarios-e-mais-bem-estar-das-familias<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Vitor Santos e Wagner Fernandes de Azevedo &#8211; Ladislau Dowbor acredita que j\u00e1 dispomos de recursos financeiros e tecnol\u00f3gicos para assegurar uma reconvers\u00e3o econ\u00f4mica. 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