{"id":11957,"date":"2019-11-07T13:38:05","date_gmt":"2019-11-07T16:38:05","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11957"},"modified":"2019-11-06T21:40:55","modified_gmt":"2019-11-07T00:40:55","slug":"a-colonizacao-da-realidade-nao-ha-alternativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/11\/07\/a-colonizacao-da-realidade-nao-ha-alternativa\/","title":{"rendered":"A coloniza\u00e7\u00e3o da realidade: n\u00e3o h\u00e1 alternativa?"},"content":{"rendered":"<p><strong>RUBENS R.R. CASARA &#8211; <\/strong>Existe um conjunto de imagens que se t\u00eam do mundo, do Estado, da sociedade, dos indiv\u00edduos, das rela\u00e7\u00f5es sociais, da economia etc. Hoje, esse conjunto de imagens pode ser chamado de \u201cneoliberal\u201d, na medida em que leva o Estado, a sociedade e o indiv\u00edduo a se colocarem a servi\u00e7o do mercado e dos interesses dos detentores do poder econ\u00f4mico. Esse \u201cimagin\u00e1rio\u201d, que faz com que o indiv\u00edduo se perceba como uma empresa em busca de lucros, e que pouco a pouco foi naturalizada, refor\u00e7a um modo de pensar e atuar no mundo a partir de categorias como \u201cinteresse\u201d, \u201clucro\u201d, \u201cconcorr\u00eancia\u201d, \u201cinimigo\u201d etc. Assim, por exemplo, a imagem que o homem neoliberal tem dos outros indiv\u00edduos \u00e9 que n\u00e3o passam de objetos potencialmente danosos ou, mais precisamente, a imagem de empresas concorrentes que precisam ser derrotadas ou destru\u00eddas.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio (a imagem que se tem) e o simb\u00f3lico (a linguagem e os limites \u00e0 representa\u00e7\u00e3o) formam a \u201crealidade\u201d. Se percebo uma determinada \u201crealidade\u201d \u00e9 porque um conjunto de imagens passa a se apresentar como coerentes e a produzir um m\u00ednimo sentido a partir da linguagem e seus limites. Mas essa rela\u00e7\u00e3o entre o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico na constru\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 sempre din\u00e2mica e sujeita a condicionantes e varia\u00e7\u00f5es. O empobrecimento da linguagem (e o correlato enfraquecimento do simb\u00f3lico) promovido pela racionalidade neoliberal, por exemplo, leva ao fortalecimento do registro imagin\u00e1rio. A busca por lucros sem limites e o \u201cvale tudo\u201d para a satisfa\u00e7\u00e3o de interesses pessoais, que caracterizam a racionalidade neoliberal, s\u00e3o sintomas desse processo de desaparecimento dos valores e enfraquecimento dos limites \u00e9ticos e jur\u00eddicos que se percebem nas a\u00e7\u00f5es tanto dos agentes do Estado quanto dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio neoliberal pode ser descrito, ainda que provisoriamente, como um conjunto de imagens que representam e, em certo sentido, criam a era neoliberal. \u00c9 justamente em raz\u00e3o da natureza criativa e constitutiva da realidade que emerge a funcionalidade pol\u00edtica do imagin\u00e1rio. \u00c9 do registro do imagin\u00e1rio que, por exemplo, surgem as ideologias, as paix\u00f5es e as racionalidades que disputam hegemonia. \u00c9 no campo do imagin\u00e1rio que se disputa a supremacia de uma vis\u00e3o de mundo sobre as demais, bem como se desenvolvem as tentativas de consenso e de domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de uns sobre os outros.<\/p>\n<p>A \u201crealidade neoliberal\u201d foi constru\u00edda a partir do enfraquecimento do simb\u00f3lico (empobrecimento da linguagem e desaparecimento\/relativiza\u00e7\u00e3o dos limites). Em um mecanismo, que a psican\u00e1lise costuma identificar como t\u00edpico de um quadro paranoico, o indiv\u00edduo subjetivado a partir do neoliberalismo retira-se do la\u00e7o social na medida em que s\u00f3 se relaciona com objetos e, ao mesmo tempo, passa a desconsiderar a lei simb\u00f3lica (a lei imposta por um terceiro, o conhecimento j\u00e1 produzido, a \u201cverdade\u201d etc.) para fabricar a pr\u00f3pria \u201clei\u201d: uma lei imagin\u00e1ria, que ele pretende impor aos outros, a partir de seus interesses e da imagem que faz do que \u00e9 certo, belo ou justo.<\/p>\n<p>O mundo \u00e9 constitu\u00eddo a partir de constru\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias. Assim, \u201co mercado e a concorr\u00eancia, o lucro e o sal\u00e1rio, o capital e a d\u00edvida, o trabalho qualificado e o trabalho n\u00e3o-qualificado, os nacionais e os estrangeiros, os para\u00edsos fiscais e a competitividade n\u00e3o existem enquanto tais, isto \u00e9, s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais e hist\u00f3ricas que dependem inteiramente do sistema legal, fiscal, educativo e pol\u00edtico que se escolhe colocar em a\u00e7\u00e3o\u201d. E essa \u201cescolha\u201d do que \u201ccolocar em a\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m se d\u00e1 a partir do imagin\u00e1rio. O imagin\u00e1rio liberal, por exemplo, permitiu o surgimento da \u201csociedade de consumo\u201d e da \u201ccultura de massa\u201d, que levaram a uma in\u00e9dita uniformiza\u00e7\u00e3o dos modos de vida (uma uniformiza\u00e7\u00e3o das imagens produzidas). Por sua vez, \u00e9 o imagin\u00e1rio neoliberal que faz com que, em pleno s\u00e9culo 21, a desigualdade seja naturalizada e a responsabilidade pela pobreza acabe atribu\u00edda ao pobre.<\/p>\n<p><strong>As for\u00e7as finitas e o fim do humanismo<\/strong><\/p>\n<p>A perspectiva da \u201cilimita\u00e7\u00e3o\u201d, ligada inicialmente ao religioso e ao sublime, mas que foi resgatada em meio \u00e0 \u201csociedade de consumo\u201d (que aparece nos EUA no in\u00edcio dos anos 1920) com seus imperativos voltados ao indiv\u00edduo (\u201cConsuma!\u201d) e \u00e0 sociedade (\u201ccres\u00e7a sem parar!\u201d) \u2013 e acabou potencializada pela muta\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico (relativiza\u00e7\u00e3o e\/ou desaparecimento dos limites \u00e0 a\u00e7\u00e3o) levada a cabo pelo neoliberalismo \u2013 s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em raz\u00e3o de mudan\u00e7as no imagin\u00e1rio que fazem com que a maioria das pessoas n\u00e3o perceba a contradi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre a cren\u00e7a na ilimita\u00e7\u00e3o e a constata\u00e7\u00e3o da finitude do planeta.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse a dimens\u00e3o ideol\u00f3gica do imagin\u00e1rio, bastaria recorrer a conhecimentos m\u00ednimos das bases de c\u00e1lculo exponencial para se perceber o absurdo que \u00e9 subordinar o modo de agir na sociedade e o futuro da humanidade \u00e0 ideia de um crescimento e de um consumo infinito em um planeta finito.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio neoliberal, as for\u00e7as finitas com as quais o sujeito entra em contato (vida, trabalho e linguagem), e que serviam de base ao desenvolvimento do humanismo, sofrem muta\u00e7\u00f5es, ou melhor, passam a ser percebidas de maneira diferente: surgem novas imagens da vida, do trabalho e da linguagem.<\/p>\n<p>H\u00e1, diante da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, um ressurgimento da pretens\u00e3o de imortalidade. O pl\u00e1stico e o silicone s\u00e3o apresentados como substitutos da imagem de \u201cfinitude\u201d e \u201cfragilidade\u201d do corpo. O homem, subjetivado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de uma empresa, passa a acreditar que tamb\u00e9m pode ser infinito. A vida \u00e9 apreendida pela racionalidade neoliberal e transformada em mercadoria.<\/p>\n<p>O trabalho perde import\u00e2ncia diante do ideal de acumula\u00e7\u00e3o infinita, com a ideia de lucrar sem o esfor\u00e7o de produzir (rentismo). D\u00e1-se, tamb\u00e9m, a fragmenta\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o coletiva do trabalho (correlata \u00e0 externaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 desagrega\u00e7\u00e3o \u2013 inclusive, pol\u00edtica \u2013 da comunidade produtiva) e a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es do trabalhador, que passa a preferir a auto-imagem do \u201cempres\u00e1rio-de-si\u201d.<\/p>\n<p>A linguagem, por sua vez, sofre um processo de empobrecimento, uma simplifica\u00e7\u00e3o mistificadora da realidade. Atrav\u00e9s da linguagem, que exterioriza as imagens neoliberais, os valores e os objetivos do projeto neoliberal foram impregnados no mais \u00edntimo do pensamento. H\u00e1 uma manipula\u00e7\u00e3o da linguagem para exercer uma esp\u00e9cie de \u201cencantamento\u201d sobre os indiv\u00edduos gra\u00e7as \u00e0 sacraliza\u00e7\u00e3o de determinados termos e a concomitante produ\u00e7\u00e3o de imagens positivas sobre eles. Aparece o jarg\u00e3o neoliberal (\u201cempreendedorismo\u201d, \u201cmeritocracia\u201d etc.) para ocultar a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e o desmonte das pol\u00edticas sociais. A linguagem empresarial, t\u00edpica do mercado, ao ser empregada, desprezando a realidade social, \u00e9 um meio de se apropriar e transformar o objeto, as coisas, as pessoas e o mundo.<\/p>\n<p>Pode-se, ent\u00e3o, reconhecer a funcionalidade pol\u00edtica do empobrecimento dos conceitos e das ideias de \u201ctrabalho\u201d e \u201clinguagem\u201d, bem como da nova mistifica\u00e7\u00e3o da vida (na figura do p\u00f3s-humano), a partir daquilo de Walter Benjamin chamou de \u201cdesenvolvimento monstruoso da t\u00e9cnica\u201d, uma das causas (ou, ao menos, um potencializador) de uma nova barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>\u00c9 o imagin\u00e1rio que constr\u00f3i a ideia de \u201csujeito\u201d, na realidade, \u201cum conceito hist\u00f3rico e constru\u00eddo, pertencente a um certo regime discursivo, e n\u00e3o a uma evid\u00eancia intertemporal capaz de fundar direitos ou uma \u00e9tica universal\u201d \u2013 e, portanto, tamb\u00e9m dependem do imagin\u00e1rio as ideias de \u00e9tica e de direitos, que se originam de imagens, constru\u00eddas em um determinado contexto e a partir de uma determinada necessidade, do que \u00e9 ser \u00e9tico e do que \u00e9 adequado \u00e0 normatividade estatal.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 o nascimento (a constru\u00e7\u00e3o do conceito), mas tamb\u00e9m a morte do Sujeito (a desconstru\u00e7\u00e3o da ideia) s\u00e3o obras que n\u00e3o se realizariam sem a contribui\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio. O imagin\u00e1rio neoliberal apropria-se da \u201cmorte do homem\u201d e da \u201cmorte de Deus\u201d, substituindo-os pelo mercado (forma-mercado). O mercado torna-se um \u201cDeus an\u00f4nimo que reduz os homens a escravos\u201d, instrumentalizados em aten\u00e7\u00e3o ao funcionamento do sistema de explora\u00e7\u00e3o e dos interesses dos detentores do poder econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio neoliberal, o que seria da ess\u00eancia humana (a verdade, o belo e o justo) s\u00e3o abandonados em raz\u00e3o da ilus\u00e3o criada pela promessa de ilimita\u00e7\u00e3o do consumo e da acumula\u00e7\u00e3o de bens, o que leva ao enfraquecimento do desejo e, em consequ\u00eancia, da \u00e9tica (entendida no sentido lacaniano de \u201cn\u00e3o ceder sobre o seu desejo\u201d). O desejo s\u00f3 existe em raz\u00e3o de limites, \u00e9 a falta (e a cren\u00e7a na impossibilidade) que gera o ato de desejar, por isso a \u201cilimita\u00e7\u00e3o\u201d presente no imagin\u00e1rio neoliberal leva ao desaparecimento do desejo e, em consequ\u00eancia, da pr\u00f3pria raz\u00e3o de viver.<\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 algo de niilismo nas imagens criadas pelo neoliberalismo, algo que \u00e9 um efeito do empobrecimento subjetivo e do processo de dessimboliza\u00e7\u00e3o (desaparecimento dos valores e limites) produzido pela racionalidade neoliberal.<\/p>\n<p><strong>A neutraliza\u00e7\u00e3o do pensamento e a demoniza\u00e7\u00e3o do \u201ccomum\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de um imagin\u00e1rio que leva \u00e0 neutraliza\u00e7\u00e3o do imperativo de pensar. O que se d\u00e1, por exemplo, atrav\u00e9s tanto da promessa de uma simplifica\u00e7\u00e3o do mundo quanto das falsifica\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria. A demoniza\u00e7\u00e3o das imagens da \u201cpol\u00edtica\u2019, do \u201ccomum\u201d e do \u201cespa\u00e7o p\u00fablico\u201d ligam-se a essa tentativa de construir uma imagem em que o pensamento \u00e9 desnecess\u00e1rio, a capacidade de reflex\u00e3o reduzida e qualquer mudan\u00e7a imposs\u00edvel. A equipara\u00e7\u00e3o entre o nazismo e o comunismo, com a finalidade de construir a imagem de que n\u00e3o h\u00e1 alternativas ao capitalismo, \u00e9 um bom exemplo dessa tentativa de simplifica\u00e7\u00e3o, que busca neutralizar o pensamento, e da correlata falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria: mesmo a exist\u00eancia de tra\u00e7os semelhantes (despotismo do partido \u00fanico, papel da pol\u00edcia pol\u00edtica, imagin\u00e1rio militar, recurso ao terror contra os opositores\/indesej\u00e1veis etc.) n\u00e3o permite equiparar esses dois fen\u00f4menos, que aparecem como respostas radicalmente diferentes para uma mesma crise (a crise dos \u201cparlamentarismo imperiais\u201d, da \u201cdemocracia\u201d parlamentar): comunismo e nazismo em tudo diferem sobre o aspecto dos valores mobilizados, das subjetividades presentes e do significado internacional dos projetos.<\/p>\n<p>A imagem-mestra da produ\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria neoliberal \u00e9 a do Mercado, com o espa\u00e7o em que tudo \u00e9 permitido na busca por lucros ou vantagens, que vai servir de modelo para todas as demais imagens e rela\u00e7\u00f5es. Por outro lado, a grande imagem ausente ou prec\u00e1ria no imagin\u00e1rio neoliberal \u00e9 a do \u201ccomum\u201d. \u00c9 a imagem do mercado, que em muito se aproxima da imagem de um Deus da antiguidade, que vai permitir a ideia de inexist\u00eancia de limites ligados ao poder, ao mercado, ao consumo e ao enriquecimento. A pr\u00f3pria ideia de ilimita\u00e7\u00e3o, que antes se relacionava ao sublime, \u00e9 colonizada pelo neoliberalismo e reduzida ao campo do consumo em um mundo em que tudo e todos s\u00e3o percebidos como objetos a serem consumidos.<\/p>\n<p>As escolhas pol\u00edticas, da mesma maneira que os julgamentos pelo sistema de justi\u00e7a, se fazem a partir das imagens que cada sociedade e cada indiv\u00edduo que exerce poder fazem do que seja \u201cjusti\u00e7a social\u201d ou \u201ceconomia justa\u201d. Por evidente, a relativiza\u00e7\u00e3o do valor \u201cjusti\u00e7a\u201d e a \u201ccoisifica\u00e7\u00e3o\u201d da vida, imagens t\u00edpicas do neoliberalismo, repercutem sobre essas escolhas. As escolhas pol\u00edticas e econ\u00f4micas sempre partem das imagens e ideias que se tem sobre o Estado, a sociedade, as coisas e as pessoas.<\/p>\n<p><strong>A naturaliza\u00e7\u00e3o das opress\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Existem tamb\u00e9m imagens que naturalizam as opress\u00f5es e o processo de domina\u00e7\u00e3o de uns pelos outros. A China imperial, a Europa do Ancien R\u00e9gime e a \u00cdndia pr\u00e9-colonial, por exemplo, foram sedimentadas a partir de imagens de \u201cclasses\u201d de pessoas que detinham papeis espec\u00edficos, naturais, a serem desenvolvidos na sociedade. Em apertada s\u00edntese, existia uma classe de \u201cguerreiros\u201d, que garantiria o respeito \u00e0 ordem e \u00e0 seguran\u00e7a (domina\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a), uma classe de religiosos e\/ou intelectuais, que definem o que \u00e9 digno de \u201cdeus\u201d ou da \u201craz\u00e3o\u2019 (domina\u00e7\u00e3o pelas ideias), uma classe de trabalhadores, que assumem a fun\u00e7\u00e3o de produzir para a sociedade (alimenta\u00e7\u00e3o, vestimentos, etc.) e uma classe de pessoas rotuladas como \u201cindesej\u00e1veis\u201d, sem uma fun\u00e7\u00e3o \u00fatil \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>Essa divis\u00e3o da sociedade a partir de imagens de pessoas divididas em \u201cclasses\u201d (no neoliberalismo, ter-se-ia tamb\u00e9m a classe dos gerentes\/<em>managements<\/em>), com fun\u00e7\u00f5es bem definidas, esbarra na dificuldade de encontrar um equil\u00edbrio entre as classes dominantes (guerreiros e religiosos\/intelectuais) que pretendem se impor (e lucrar mais do que a outra) sobre as classes dominadas (trabalhadores e indesej\u00e1veis). Busca-se com essa imagem de \u201cclasses\u201d hierarquicamente superiores (pela pr\u00f3pria natureza ou por escolha divina) \u00e0s demais, criar um modelo de estabilidade e de prote\u00e7\u00e3o dos interesses de parcela da sociedade suficientemente convincente para que a domina\u00e7\u00e3o seja aceita e naturalizada por aqueles que n\u00e3o s\u00e3o diretamente favorecidos pelo arranjo social.<\/p>\n<p>Todavia, a partir da \u201cmodernidade\u201d, ou mais precisamente da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, h\u00e1 uma substitui\u00e7\u00e3o dessas imagens e desse modelo de sociedade hierarquizada, por vontade divina ou pela pr\u00f3pria natureza das coisas, pelo que se convencionou chamar de \u201csociedade de propriet\u00e1rios\u201d. H\u00e1 uma nova \u201cideia\u201d do que deve ser uma sociedade e do que deve aspirar um indiv\u00edduo. Em outras palavras, cria-se a imagem do \u201cpropriet\u00e1rio\u201d como aquele que, por \u201cter\u201d, merece um tratamento diferenciado dento da sociedade. Muda-se o imagin\u00e1rio e com ele a ideologia. N\u00e3o mais a imagem de uma estabilidade nascida de uma complementariedade de papeis sociais a serem exercidos por classes distintas, que produziria uma esp\u00e9cie de \u201chierarquia harm\u00f4nica\u201d, mas a imagem de que a \u201cpropriedade\u201d era algo, uma posi\u00e7\u00e3o ou vantagem, a que todos podiam aspirar, cabendo ao Estado a prote\u00e7\u00e3o desse \u201cdireito\u201d. Por isso, no s\u00e9culo 19, d\u00e1-se uma esp\u00e9cie de sacraliza\u00e7\u00e3o do \u201cdireito de propriedade\u201d, o que serviu para regularizar e justificar os quadros de injusti\u00e7a e desigualdade. Tem-se, a partir da ideia de que existia a \u201cpropriedade\u201d como elemento diferenciador entre as pessoas, todo um novo imagin\u00e1rio encorajado e ao mesmo tempo funcional aos fen\u00f4menos da expans\u00e3o colonial e da concorr\u00eancia entre as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O neoliberalismo tamb\u00e9m pode ser descrito como uma realidade fundada em imagens que levam tanto a uma esp\u00e9cie de \u201cneoproprietarismo\u201d quanto \u00e0 ideia de que \u00e9 necess\u00e1rio reduzir o tamanho do Estado para melhorar a economia. O imagin\u00e1rio neoliberal leva \u00e0 cren\u00e7a de que o desenvolvimento do Estado Providencia (Estado do Bem-Estar Social) prejudicava o empreendedorismo, o livre desenvolvimento das for\u00e7as do mercado e, portanto, a economia e a vida dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Mas, como se viu, as imagens n\u00e3o se identificam com as coisas que elas buscam reproduzir. O neoliberalismo, ali\u00e1s, serve de exemplo para demonstrar a diferen\u00e7a entre a \u201cimagem que se tem\u201d (no caso, a imagem do neoliberalismo econ\u00f4mico) e a \u201ccoisa\u201d (o neoliberalismo econ\u00f4mico) a partir da qual a imagem \u00e9 produzida: diversas pesquisas apontam tanto o crescimento da desigualdade no per\u00edodo de 1990-2020 (hegemonia do neoliberalismo econ\u00f4mico) em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo de 1950-1980 (per\u00edodo em que se prestigiavam interven\u00e7\u00f5es estatais voltadas \u00e0 \u00e1rea social), quanto a queda do crescimento econ\u00f4mico no per\u00edodo de 1990-2020 (1,1%) em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo de 1950-1990 (2,2%). F\u00e1cil, portanto, demonstrar que durante a hegemonia da racionalidade neoliberal, os efeitos das medidas econ\u00f4micas neoliberais colocadas em pr\u00e1tica n\u00e3o correspondiam aos efeitos prometidos no respectivo discurso, muito embora o imagin\u00e1rio neoliberal tenha continuado a produzir imagens positivas desse modelo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>Imagin\u00e1rio e disputas pol\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p>Da mesma maneira, \u00e9 no campo do imagin\u00e1rio, respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o das imagens dominantes tanto na sociedade quanto na economia ps\u00edquica de cada um, que se desenvolvem as disputas pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas (que depois ir\u00e3o se exteriorizar em manifesta\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e discursos). Como j\u00e1 se viu, as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o apenas materiais, mas sobretudo ideol\u00f3gicas,ou seja, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio recorrer \u00e0 viol\u00eancia contra o corpo de uma pessoa para poder exercer a domina\u00e7\u00e3o sobre ela. Ao contr\u00e1rio, os atos de for\u00e7a n\u00e3o passam de exce\u00e7\u00f5es, at\u00e9 porque constituem meios menos eficazes de se exercer poder sobre o outro. H\u00e1 imagens capazes de manipular vontades, imagens capazes de dominar e imagens capazes de naturalizar diferentes formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>O que hoje se entende por \u201cpsicopoder\u201d, por exemplo, se exerce atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de imagens e, em consequ\u00eancia, da produ\u00e7\u00e3o de ideias que produzem direcionamentos (e, por vezes, verdadeiros condicionamentos) na vontade e no corpo dos indiv\u00edduos. Se uma pessoa acredita na ideia neoliberal de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d ou de que \u201cum outro mundo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d, resta a ela a in\u00e9rcia. Pense-se na pr\u00f3pria ideia de \u201cliberdade\u201d aceita no neoliberalismo, \u201co ponto de partida do imagin\u00e1rio neoliberal\u201d: uma liberdade quase pr\u00e9-reflexiva, em um quadro no qual as pessoas acreditam ter consci\u00eancia de suas a\u00e7\u00f5es, mas ignoram as causas que as determinam; uma liberdade que, em concreto, se limita \u00e0 possibilidade de contratar, empreender e, para poucas pessoas, acumular riquezas. Uma determinada ideia de liberdade, portanto, pode ser constru\u00edda para aprisionar corpos e almas.<\/p>\n<p>Tanto as ideologias quanto a percep\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es materiais s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias. \u00c9 gra\u00e7as ao imagin\u00e1rio que se torna poss\u00edvel pensar em um mundo novo ou em uma sociedade diferente, isso porque a afirma\u00e7\u00e3o ou a nega\u00e7\u00e3o de uma perspectiva transformadora s\u00e3o constru\u00eddos atrav\u00e9s das imagens que se tem do Estado, da sociedade e do indiv\u00edduo. O imagin\u00e1rio controla o poss\u00edvel e o imposs\u00edvel. O neoliberalismo, em sua dimens\u00e3o de governo, por exemplo, se utiliza de t\u00e9cnicas para organizar o poss\u00edvel, enquanto o imagin\u00e1rio neoliberal se apresenta como o detentor do monop\u00f3lio do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O abandono da hip\u00f3tese revolucion\u00e1ria, que desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa animava as pol\u00edticas de emancipa\u00e7\u00e3o (um abandono que \u00e9 um imperativo do projeto de manuten\u00e7\u00e3o do status quo), \u00e9 o resultado de um imagin\u00e1rio conformista e conservador, ou seja, de imagens negativas relacionadas \u00e0s tentativas hist\u00f3ricas de construir um mundo melhor. A cren\u00e7a, por exemplo, de que a \u201cutopia comunista\u201d \u00e9 um fracasso, de que o comunismo e o socialismo s\u00e3o demon\u00edacos, de que a busca por um \u201ccomum\u201d sempre resulta em totalitarismos ou mesmo a representa\u00e7\u00e3o de que o \u201cbem\u201d se reduz \u00e0 luta contra o \u201cmal\u201d (o bem como \u201cv\u00edtima\u201d do mal) s\u00e3o efeitos de um imagin\u00e1rio \u201cpositivo\u201d do capitalismo e da ideia de que n\u00e3o h\u00e1 alternativas a ele (uma imagem, na era Thatcher, se eternizou atrav\u00e9s do acr\u00f3nimo TINA \u2013 There Is No Alternative).<\/p>\n<p>Tanto o fatalismo, a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 o que fazer, quanto a imagem que se tem das derrotas e dos fracassos dependem do imagin\u00e1rio. Uma derrota pode ter uma imagem exclusivamente negativa e levar \u00e0 ideia de que n\u00e3o h\u00e1 nada o que aprender e nem o que se fazer diante dela. Diante de um imagin\u00e1rio conservador, a sucess\u00e3o de imagens de fracasso, por vezes sangrentas e terr\u00edveis, que s\u00e3o produzidas sobre um determinado evento ou movimento hist\u00f3rico tendem a levar ao abandono dos princ\u00edpios e teses que ainda poderiam servir como instrumentos \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o social. Dito de outra forma: uma derrota no campo do \u201cimagin\u00e1rio\u201d, com o desaparecimento das imagens positivas ligadas ao fen\u00f4meno e a forma\u00e7\u00e3o de imagens \u201cfatalistas\u201d (de que n\u00e3o h\u00e1 outro mundo poss\u00edvel), leva ao abandono radical de qualquer esperan\u00e7a relacionada \u00e0s imagens que foram derrotadas, como aconteceu, por exemplo, com a hip\u00f3tese comunista.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio conservador (e o imagin\u00e1rio neoliberal \u00e9 conservador) produz imagens simplistas das derrotas dos movimentos emancipat\u00f3rios que levam \u00e0 ideia de que n\u00e3o h\u00e1 escolha ou op\u00e7\u00e3o ao mundo em que se vive. Todavia, o real n\u00e3o \u00e9 conservador e a realidade pode ser alterada a partir de mudan\u00e7as no simb\u00f3lico e no imagin\u00e1rio. \u00c9 poss\u00edvel construir imagens\/significa\u00e7\u00f5es positivas das derrotas e mesmo dos eventos mais abomin\u00e1veis. Imagens de derrotas e do horror podem servir de li\u00e7\u00f5es. Uma derrota pode significar apenas um \u201cainda n\u00e3o\u201d ou um \u201cmelhor de outra forma\u201d.<\/p>\n<p>O exemplo do \u201cTeorema de Fermat\u201d, trazido por Alain Badiou, \u00e9 esclarecedor. Entre Fermat, que formulou a hip\u00f3tese matem\u00e1tica, e Wiles, que finalmente conseguiu demonstr\u00e1-la, passaram-se muitos anos e v\u00e1rias tentativas fracassadas (inclusive a do pr\u00f3prio Fermat). Cada fracasso produzia novas imagens favor\u00e1veis ao desenvolvimento da matem\u00e1tica e, diante da fecundidade das derrotas, tamb\u00e9m servia de est\u00edmulo aos matem\u00e1ticos. H\u00e1 uma dimens\u00e3o dial\u00e9tica (e uma imagem positiva) no fracasso (por vezes, apenas aparente ou provis\u00f3rio). Um imagin\u00e1rio conservador ou reacion\u00e1rio leva \u00e0s ideias de \u201cfracasso\u201d ou da \u201cderrota\u201d como sin\u00f4nimos de \u201cru\u00edna\u201d e \u201cimpossibilidade\u201d, enquanto um imagin\u00e1rio progressista ou dial\u00e9tico, aprende com os fracassos e n\u00e3o se deixa paralisar diante das derrotas.<\/p>\n<p>Uma imagem \u201csimplista\u201d de uma derrota como o \u201cfim do jogo\u201d, t\u00edpica do imagin\u00e1rio conservador, mostra-se adequada a um determinado regime de \u201cverdade\u201d e a uma vis\u00e3o hist\u00f3rica em que a complexidade dos fen\u00f4menos \u00e9 esvaziada. N\u00e3o h\u00e1 neutralidade na simplifica\u00e7\u00e3o do mundo. Imagens simplificadas das coisas levam ao empobrecimento subjetivo. O empobrecimento subjetivo \u00e9 pol\u00edtico: \u00e9 sempre uma op\u00e7\u00e3o. Esse empobrecimento se caracteriza pelo esquecimento\/velamento de pontos importantes \u00e0 compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos. Um ponto, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 o momento de um procedimento de busca da verdade ou de um processo hist\u00f3rico em que uma escolha (fazer \u201cisso\u201d ou \u201caquilo\u201d) decide o futuro do processo como um todo. A op\u00e7\u00e3o por uma imagem ou uma ideia em detrimento de outra imagem ou ideia leva ao fracasso e \u00e0 derrota. Como percebe Badiou, \u201ctodo fracasso \u00e9 localizado em um ponto\u201d, portanto, na op\u00e7\u00e3o por uma imagem, uma ideia e um caminho, que se afastam de maneira irreconcili\u00e1vel da \u201cverdade\u201d, que definem o resultado. Omitir o ponto, e as imagens em disputa no momento da op\u00e7\u00e3o equivocada, significa produzir o esquecimento e o velamento da exist\u00eancia de outros caminhos que deveriam ter sido seguidos para se alcan\u00e7ar uma vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tanto a ideia de que o socialismo \u00e9 for\u00e7osamente um \u201ctotalitarismo\u201d quanto a de que o \u201cbem\u201d n\u00e3o \u00e9 algo que se deve buscar construir (bastando apostar em mecanismos que impe\u00e7am o \u201cmal\u201d) s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es do imagin\u00e1rio capitalista. A cria\u00e7\u00e3o de uma imagem exclusivamente negativa do socialismo e do comunismo, no sentido de que \u201ca norma de todo empreendimento coletivo \u00e9 o n\u00famero de mortos\u201d, leva ao \u201capagamento\u201d dos genoc\u00eddios e dos assassinatos em massa coloniais, bem como dos milh\u00f5es de mortos das guerras civis, golpes de Estado e guerras mundiais atrav\u00e9s dos quais o \u201cOcidente\u201d capitalista e seus grupos dirigentes (econ\u00f4micos e pol\u00edticos) adquiriram poder e enriqueceram. O imagin\u00e1rio, como se v\u00ea, \u00e9 sempre pol\u00edtico. As constru\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias t\u00eam uma funcionalidade pol\u00edtica. O imagin\u00e1rio neoliberal, em particular, desde que se tornou hegem\u00f4nico, produz imagens conservadoras: imagens ligadas a um passado idealizado e a um futuro terr\u00edvel; imagens positivas da in\u00e9rcia e imagens negativas de tudo aquilo que possa representar uma tentativa de supera\u00e7\u00e3o da racionalidade neoliberal.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o constru\u00edda no campo do imagin\u00e1rio, entre a \u201cbondade\u201d (imagem positiva) da democracia ocidental e a \u201cmaldade\u201d (imagem negativa) do comunismo no s\u00e9culo 20, parte de imagens que tinham, e ainda t\u00eam, uma determinada funcionalidade pol\u00edtico-econ\u00f4mica, a saber: defender o capitalismo, ou seja, justificar o \u201clivre mercado\u201d, a concorr\u00eancia, a propriedade privada, a desigualdade e a acumula\u00e7\u00e3o tendencialmente ilimitada. \u00c9 essa funcionalidade pol\u00edtico-econ\u00f4mica que explica a import\u00e2ncia que os detentores do poder pol\u00edtico e do poder econ\u00f4mico d\u00e3o \u00e0s tentativas de influenciar a forma\u00e7\u00e3o das imagens que as pessoas t\u00eam dos fen\u00f4menos, das coisas e das pessoas.<\/p>\n<p><strong>A de-civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Pode-se, hoje em dia, reconhecer uma nova imagem da civiliza\u00e7\u00e3o, que para muitos \u00e9, na verdade, um sintoma de um processo de \u201cde-civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. O processo civilizat\u00f3rio costuma ser definido como uma tend\u00eancia de longo termo feita da interdepend\u00eancia e do entrela\u00e7amento social \u00e9 que conduz progressivamente ao controle dos afetos e ao controle-de-si. O imagin\u00e1rio neoliberal, em que ganham destaque as imagens ligadas \u00e0 \u201cconcorr\u00eancia\u201d, ao \u201cinimigo\u201d e \u00e0 \u201cempresa\u201d, dificulta o entrela\u00e7amento social e a consci\u00eancia da interdepend\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, o imagin\u00e1rio neoliberal faz surgir uma tend\u00eancia \u00e0 desagrega\u00e7\u00e3o e ao descontrole dos afetos. A tend\u00eancia \u00e0 ilimita\u00e7\u00e3o neoliberal, por exemplo, \u00e9 um movimento em sentido contr\u00e1rio ao do \u201cautocontrole\u201d. O sujeito-neur\u00f3tico, pensado por Freud para dar conta do homem-m\u00e9dio da sociedade moderna, acaba substitu\u00eddo pelo \u201csujeito-perverso\u201d (aquele que conhece os limites, mas goza ao viol\u00e1-los) ou pelo sujeito-psic\u00f3tico (aquele que n\u00e3o chegou a introjetar a exist\u00eancia de limites).<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio neoliberal, em especial a imagem da concorr\u00eancia, faz com que a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades seja percebida como a causa de novas desigualdades ou de preju\u00edzos. Em outras palavras, uma imagem negativa \u00e9 constru\u00edda a partir de um fen\u00f4meno que, em termos civilizat\u00f3rios, tenderia a ser considerado algo positivo. Essa distor\u00e7\u00e3o produzida no registro imagin\u00e1rio, mais precisamente na \u201cimagem que se tem da vida\u201d, foi demonstrada em pesquisa realizada nos Estados Unidos: a esperan\u00e7a de vida dos norte-americanos cresceu em seu conjunto, mas, paradoxalmente, reduziu substancialmente a \u201cesperan\u00e7a de vida\u201d dos oper\u00e1rios brancos.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o da desigualdade racial, a diminui\u00e7\u00e3o da invisibilidade social dos negros, em especial o fato de negros e negras passarem a ocupar lugares e alcan\u00e7arem prest\u00edgio antes reservados aos brancos, produz, a partir do imagin\u00e1rio neoliberal do oper\u00e1rio branco, a ideia de uma vit\u00f3ria do concorrente\/inimigo com a diminui\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o de vantagem (o \u201cprivil\u00e9gio branco\u201d). A imagem da perda desse \u201cprivil\u00e9gio\u201d \u00e9, para muitos, percebida como uma declara\u00e7\u00e3o de guerra, na medida em que essa posi\u00e7\u00e3o de vantagem era imaginada como o patrim\u00f4nio que restou diante das v\u00e1rias precariza\u00e7\u00f5es a que esse indiv\u00edduo foi submetido.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, uma das causas que costuma ser apontada para o processo de de-civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o conflito e a concorr\u00eancia entre grupos dominantes, ou que se acreditam superiores, e seus rivais potenciais, ainda que imagin\u00e1rios. N\u00e3o se trata apenas de um grupo suportar perdas econ\u00f4micas, essas amea\u00e7as \u00e0 imagem que esses grupos t\u00eam de si, leva \u00e0 nostalgia da imagem anterior e ao desejo de restaurar a antiga ordem, mesmo que esse desejo n\u00e3o guarde qualquer rela\u00e7\u00e3o com o real. Os movimentos de de-civiliza\u00e7\u00e3o, que se direcionam ao abandono dos limites democr\u00e1ticos, ligam-se \u00e0 ideia de que esses limites s\u00e3o respons\u00e1veis pelo sentimento de ser rebaixado, de ser humilhado.<\/p>\n<p>A imagem que as pessoas t\u00eam de si, diante do aumento da concorr\u00eancia, da perda de seguran\u00e7a e da sensa\u00e7\u00e3o de rebaixamento, que s\u00e3o efeitos das pol\u00edticas e da racionalidade neoliberal, torna-se \u201cnegativa\u201d. Para mudar essa \u201cnegatividade\u201d, esses grupos, essas pessoas, passam a acreditar na necessidade de romper o pacto civilizat\u00f3rio que favoreceu aos concorrentes\/inimigos. Para esses grupos dominantes, e mesmo para os detentores de poucos privil\u00e9gios (como, por exemplo, o privil\u00e9gio de ser \u201chomem\u201d ou \u201cbranco\u201d), os valores, princ\u00edpios, regras e crit\u00e9rios de comportamentos civilizados perdem frequentemente seu significado e se tornam disfuncionais se o respeito a esses limites puder representar um risco aos seus poderes ou privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>A de-civiliza\u00e7\u00e3o, em certo sentido, pode ser tida como a express\u00e3o de um combate por determinadas posi\u00e7\u00f5es de superioridade, valores e privil\u00e9gios. Em nome de vantagens, da vit\u00f3ria na luta concorrencial entre pessoas que se acreditam empresas, os antigos defensores da civiliza\u00e7\u00e3o (inclusive aqueles que se tornaram \u201cdominantes\u201d em raz\u00e3o das regras civilizat\u00f3rias) tornam-se b\u00e1rbaros. O devir b\u00e1rbaro, portanto, liga-se intimamente \u00e0 l\u00f3gica da concorr\u00eancia e ao imagin\u00e1rio neoliberal. O neob\u00e1rbaro \u00e9 a pessoa que t\u00eam de si a imagem de uma pessoa amea\u00e7ada, depreciada e explorada pelo outro (por exemplo, o benefici\u00e1rio de um programa social, o negro que ascendeu socialmente, etc.).<\/p>\n<p>A distor\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria fica ainda mais evidente, quando se percebe que a imagem da assimila\u00e7\u00e3o neoliberal dos negros, como das pautas feministas, \u00e9 tamb\u00e9m uma constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria (ideol\u00f3gica). O encarceramento em massa da popula\u00e7\u00e3o negra, a domina\u00e7\u00e3o patriarcal, a estigmatiza\u00e7\u00e3o tanto dos negros quanto das mulheres, s\u00e3o sintomas de que a amea\u00e7a \u00e0 \u201chegemonia branca\u201d n\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o. Na realidade, o imagin\u00e1rio neoliberal produz um velamento sobre a responsabilidade das pol\u00edticas neoliberais na precariza\u00e7\u00e3o da vida de todos, brancos e negros.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio neoliberal produz tamb\u00e9m o esquecimento (a aus\u00eancia de imagens) das consequ\u00eancias das pol\u00edticas neoliberais, bem como do fato de que a regress\u00e3o civilizat\u00f3ria \u00e9 uma consequ\u00eancia necess\u00e1ria de um projeto comprometido com a ilimita\u00e7\u00e3o na busca por lucros e outras vantagens. O \u201cprogresso\u201d neoliberal tr\u00e1s em si uma regress\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o. Cria-se uma \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o regressiva\u201d, que se mostra compat\u00edvel com a assimila\u00e7\u00e3o de pautas identit\u00e1rias, mas que necessita da manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade para ampliar as margens de lucro. D\u00e1-se, ent\u00e3o, a apropria\u00e7\u00e3o neoliberal da igualdade cultural e jur\u00eddica das minorias sexuais e \u00e9tnicas, reduzindo a maioria dos militantes dessas causas a meros consumidores \u201csatisfeitos\u201d, enquanto os direitos sociais s\u00e3o fragmentados, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o precarizadas e o mercado \u00e9 desregulamentado. Como explica Oliver Nachtwey, essa \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o regressiva\u201d se traduz, normalmente, atrav\u00e9s da imagem de \u201cuma igualdade horizontal de grupos com tra\u00e7os caracter\u00edsticos diferentes (pertencimento sexual ou \u00e9tnico, por exemplo) e, simultaneamente, por novas desigualdades e discrimina\u00e7\u00f5es verticais\u201d, com repercuss\u00f5es no campo da normatividade neoliberal.<\/p>\n<p>Tem-se, ent\u00e3o, que reconhecer o imagin\u00e1rio neoliberal como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para compreender a muta\u00e7\u00e3o da ideia moderna de civiliza\u00e7\u00e3o para a imagem neoliberal de civiliza\u00e7\u00e3o (o que, em realidade, poderia ser chamada de de-civiliza\u00e7\u00e3o). A imagem da sociedade \u201ccomo uma empresa constitu\u00edda de empresas\u201d d\u00e1 ensejo a uma nova normatividade e leva a uma nova ideia de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, uma vez que a ideia hegem\u00f4nica at\u00e9 meados do s\u00e9culo 20\u00a0 n\u00e3o interessava ao projeto de acumula\u00e7\u00e3o ilimitada e de explora\u00e7\u00e3o a que aderiram os detentores do poder econ\u00f4mico. Se a ideia de civiliza\u00e7\u00e3o foi constru\u00edda em raz\u00e3o de uma muta\u00e7\u00e3o do conjunto das estruturas sociais e da imagem-de-si do indiv\u00edduo, com a constata\u00e7\u00e3o de que a exist\u00eancia de limites s\u00e3o importantes para a vida em sociedade (uma vida em \u201ccomum\u201d), o que acabou gerando uma nova economia ps\u00edquica, um novo habitus ps\u00edquico que exigia a ren\u00fancia da satisfa\u00e7\u00e3o imediata dos desejos e interesses de cada um, o imagin\u00e1rio neoliberal (a imagem da sociedade como um empresa formada por outras empresas) faz desaparecer essa auto-regulamenta\u00e7\u00e3o individual. O \u201cn\u00e3o\u201d, como o significante do limite, por ser um obst\u00e1culo ao lucro, perde pot\u00eancia em meio aos c\u00e1lculos de interesse.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o dos limites civilizat\u00f3rios, certos grupos perderam parte de seus privil\u00e9gios e os detentores do poder econ\u00f4mico passaram a encontrar novos obst\u00e1culos e uma redu\u00e7\u00e3o da margem de lucro. A partir do imagin\u00e1rio neoliberal, contudo, surge uma autoriza\u00e7\u00e3o para afastar qualquer limite. Os constrangimentos sist\u00eamicos neoliberais passam a substituir os constrangimentos civilizat\u00f3rios: instaura-se um verdadeiro processo de destrui\u00e7\u00e3o da cultura em favor da realiza\u00e7\u00e3o dos interesses. O ego\u00edsmo passa progressivamente a substituir a solidariedade no campo social. A imagem positiva do \u201cindividualismo\u201d, ligada \u00e0 autonomia do sujeito, gerada no curso do processo civilizat\u00f3rio, d\u00e1 lugar ao ego\u00edsmo (agora, transformado em virtude) que \u00e9 um dos efeitos da desconstru\u00e7\u00e3o tanto da imagem positiva do Estado Social quanto das reservas de solidariedade.<\/p>\n<p>Com isso, o medo, ligado ao risco de decad\u00eancia social, e o ressentimento, relacionado \u00e0 perda concreta de \u201cprivil\u00e9gios\u201d, que antes eram relativizados diante da imagem positiva dos avan\u00e7os civilizat\u00f3rios, hoje, passam a pautar as a\u00e7\u00f5es individuais e as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Crescem, assim, as vers\u00f5es hiper-autorit\u00e1rias do neoliberalismo e intensifica-se o processo de-civiliza\u00e7\u00e3o, isso porque o indiv\u00edduo neoliberal, que se percebe abandonado, n\u00e3o encontra compensa\u00e7\u00f5es a esses riscos de perdas materiais e simb\u00f3licas em seus c\u00e1lculos de interesse.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o processo de de-civiliza\u00e7\u00e3o torna-se atrativo do ponto de vista de quem lucra com o neoliberalismo: os detentores do poder econ\u00f4mico. Mesmos as crises financeiras geradas pela ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais tornam-se fonte de lucros para as elites. Mesmo as perdas financeiras e as precariza\u00e7\u00f5es vivenciadas pelos indiv\u00edduos s\u00e3o incapazes de modificar a racionalidade neoliberal ou alterar o respectivo imagin\u00e1rio. Em meio ao ressentimento, \u00e0 c\u00f3lera, ao medo e \u00e0s perdas materiais, o mercado continua a ser a imagem de refer\u00eancia para todos os dom\u00ednios da vida, enquanto os indiv\u00edduos s\u00e3o constrangidos a performatizar como empresas, participar do jogo da concorr\u00eancia\/competi\u00e7\u00e3o, superar os concorrentes\/inimigos, otimizar suas compet\u00eancias, sublimar suas emo\u00e7\u00f5es, etc. O imagin\u00e1rio neoliberal potencializa os efeitos dos constrangimentos sist\u00eamicos ao produzir a imagem de que as perdas, os aviltamentos, as humilha\u00e7\u00f5es e os fracassos devem ser imputados exclusivamente \u00e0 pr\u00f3pria pessoa (a uma falha da gest\u00e3o do empres\u00e1rio-de-si).<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"yNwdNGoFFs\"><p><a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/a-colonizacao-da-realidade-nao-ha-alternativa\/\">A coloniza\u00e7\u00e3o da realidade: n\u00e3o h\u00e1 alternativa?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A coloniza\u00e7\u00e3o da realidade: n\u00e3o h\u00e1 alternativa?&#8221; &#8212; Revista Cult\" src=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/a-colonizacao-da-realidade-nao-ha-alternativa\/embed\/#?secret=yNwdNGoFFs\" data-secret=\"yNwdNGoFFs\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RUBENS R.R. 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