{"id":11919,"date":"2019-11-06T10:57:49","date_gmt":"2019-11-06T13:57:49","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11919"},"modified":"2019-11-06T10:57:49","modified_gmt":"2019-11-06T13:57:49","slug":"o-porao-do-mundo-a-inacreditavel-historia-de-uma-fabrica-de-corpos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/11\/06\/o-porao-do-mundo-a-inacreditavel-historia-de-uma-fabrica-de-corpos-humanos\/","title":{"rendered":"O por\u00e3o do mundo: a inacredit\u00e1vel hist\u00f3ria de uma f\u00e1brica de corpos humanos"},"content":{"rendered":"<p><strong>J\u00falia Rocha<\/strong> &#8211; H\u00e1 dois dias estou remoendo e tentando digerir a hist\u00f3ria de um holocausto. Pude ver, ouvir e sentir o cheiro de uma trag\u00e9dia humana t\u00e3o dram\u00e1tica, longa e intensa quanto pouco conhecida.<\/p>\n<p>A causa deste impacto ainda pouco assimilado pelos meus sentidos e menos ainda pela minha raz\u00e3o foi a visita a um pequeno museu erguido no complexo hospitalar estadual em Barbacena, Minas Gerais. O Museu da Loucura.<\/p>\n<p>J\u00e1 passava das 9. Eu e meu companheiro tom\u00e1vamos o f\u00f4lego que alguns amigos nos disseram para tomar antes de iniciar a visita. N\u00e3o seria suficiente. O que viria ao nosso encontro era forte demais.<\/p>\n<p>Barbacena j\u00e1 foi conhecida como a &#8220;cidade dos loucos&#8221;. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, institui\u00e7\u00f5es para tratamento de pessoas com sofrimento mental se instalaram na cidade. Com o passar dos anos, a cidade virou um verdadeiro dep\u00f3sito de indesej\u00e1veis. Qualquer desvio de uma suposta normalidade era motivo suficiente para que delegados, prefeitos, maridos, pais, filhos enviassem pessoas para os por\u00f5es assustadores do hospital psiqui\u00e1trico de Barbacena. A unidade tinha sua pr\u00f3pria esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria. L\u00e1 chegavam os &#8220;trens de doido&#8221; com vag\u00f5es apinhados de gente de todo o canto.<\/p>\n<p>Mo\u00e7as que engravidavam solteiras, mulheres &#8220;namoradeiras&#8221;, andarilhos, mendigos, usu\u00e1rios de \u00e1lcool, homossexuais, epil\u00e9ticos, esquizofr\u00eanicos, mulheres com depress\u00e3o, mulheres cujos maridos queriam um pretexto para poderem se casar com outras mulheres, crian\u00e7as agitadas, com d\u00e9ficits de aprendizagem, crian\u00e7as autistas, crian\u00e7as com defici\u00eancias f\u00edsicas, crian\u00e7as com sequelas neurol\u00f3gicas graves rejeitadas por suas fam\u00edlias. N\u00e3o havia qualquer crit\u00e9rio m\u00e9dico para justificar as interna\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como era de se esperar, em poucos anos, os pavilh\u00f5es se tornaram amontoados de gente. N\u00e3o havia qualquer proposta terap\u00eautica que buscasse dar dignidade \u00e0quelas pessoas. Cada mulher e cada homem daquele lugar era massacrado em sua individualidade e humanidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 na entrada da institui\u00e7\u00e3o, eram despidos de suas roupas, documentos, adornos, tinham seus cabelos cortados da mesma forma e passavam a vestir o azul\u00e3o. Um uniforme azul que os impedia de tentar fugir. Os que ousavam eram identificados pela roupa e logo levados de volta.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es eram t\u00e3o desumanas e a descren\u00e7a em uma melhora do estado dos pacientes era tamanha que a institui\u00e7\u00e3o chegou a ter o seu pr\u00f3prio cemit\u00e9rio. A mortalidade era t\u00e3o alta que funcion\u00e1rios chegavam a passar turnos de 24 horas a contar quase duas dezenas de mortos. N\u00e3o havia estrutura f\u00edsica que suportasse a superlota\u00e7\u00e3o. A unidade chegou a comportar mais de cinco mil pacientes, em locais que n\u00e3o suportariam dignamente nem mil.<\/p>\n<p>Camas eram retiradas e substitu\u00eddas por capim para otimizar o espa\u00e7o dos pavilh\u00f5es. No rigoroso inverno de Barbacena, era comum que muitos morressem de frio. Estupros eram uma realidade e mulheres se habituaram a passar suas pr\u00f3prias fezes no corpo na tentativa de desestimular os agressores que tanto podiam ser pacientes como funcion\u00e1rios. As que engravidavam eram separadas de seus filhos de forma precoce e as crian\u00e7as eram entregues a orfanatos ou adotadas sem respeito a nenhum tr\u00e2mite burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>A nudez era comum. Fosse pela falta de roupa, pela falta de higiene das pe\u00e7as, ou pelas condi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas de algumas pessoas. Registros da \u00e9poca mostram as imagens de completo abandono. Centenas e centenas de pessoas deitadas nos p\u00e1tios, impregnadas pelo uso inadequado de medica\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas que eram distribu\u00eddas sem qualquer crit\u00e9rio por funcion\u00e1rios da limpeza, da seguran\u00e7a, da administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos pacientes foram utilizados como m\u00e3o de obra escrava por prefeituras ou por funcion\u00e1rios que os levavam para obras particulares em suas pr\u00f3prias casas.<\/p>\n<p>A eletroconvulsoterapia, o popular choque el\u00e9trico, procedimento que deveria ser realizado exclusivamente por m\u00e9dicos e sob seda\u00e7\u00e3o, era realizado por um n\u00famero enorme de funcion\u00e1rios sem qualquer preparo para faz\u00ea-lo, em pacientes que n\u00e3o receberam qualquer tipo de anestesia, na presen\u00e7a de outros pacientes, inclusive como forma de puni\u00e7\u00e3o e tortura.<\/p>\n<p>O ato final desta exist\u00eancia desumana era a venda de seus corpos \u00e0 faculdades de medicina do pa\u00eds inteiro. Um neg\u00f3cio genuinamente fascista. A perversidade se dissipava em todo o processo. O marido que enviou a esposa com depress\u00e3o p\u00f3s-parto, separando-a do filho de apenas dois meses de vida, n\u00e3o se sentia o assassino nem o vendedor de seu corpo. Pelo contr\u00e1rio, recebia a chancela do pai zeloso, cumpridor dos seus deveres. Ele s\u00f3 havia enviado a m\u00e3e de seu filho para ser cuidada por m\u00e9dicos e freiras. Ou seja, o melhor da ci\u00eancia e da religi\u00e3o. Por outro lado, os profissionais ali envolvidos n\u00e3o se sentiam explorando aquelas pessoas. Estavam promovendo uma esp\u00e9cie de terapia. Afinal, sair um pouco dos pavilh\u00f5es e trabalhar o dia todo fazendo a rede de esgoto da cidade sem remunera\u00e7\u00e3o era uma forma de se distrair.<\/p>\n<p>Algumas freiras eram respons\u00e1veis por atrocidades igualmente escabrosas. Desde a separa\u00e7\u00e3o de m\u00e3es e seus beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos \u00e0s amea\u00e7as e condena\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias a sess\u00f5es de tortura com choques el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>As fotos na parede revelavam a cor daqueles corpos. Eram homens e mulheres negros e pobres, em sua maioria. O racismo se mostrava em uma de suas faces mais cru\u00e9is.<\/p>\n<p>Foi somente no final da d\u00e9cada de 70, ap\u00f3s mais de 4 d\u00e9cadas de atrocidades, que a realidade sobre o Hospital Psiqui\u00e1trico de Barbacena come\u00e7ou a ser conhecida. Com a luta antimanicomial que se seguiu por in\u00fameros locais do pa\u00eds, institui\u00e7\u00f5es como estas foram fechadas e os pacientes foram avaliados e reinseridos conforme a possibilidade individual em suas fam\u00edlias, na sociedade ou em comunidades constru\u00eddas especialmente para este fim.<\/p>\n<p>Este foi o resultado de uma luta incans\u00e1vel da sociedade civil pelo respeito aos direitos destes pacientes. Sa\u00ed desta visita revirada. Foram tantas as sensa\u00e7\u00f5es que o corpo sentiu o impacto.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos psiquiatras que ousaram questionar o que viram acontecer nos pavilh\u00f5es foram criticados e receberam amea\u00e7as de puni\u00e7\u00e3o por parte de seus conselhos de classe. Funcion\u00e1rios que buscavam levar o m\u00ednimo de humaniza\u00e7\u00e3o para os atendimentos dentro da unidade eram punidos. Familiares que questionavam a conduta dos maus profissionais eram desencorajados.<\/p>\n<p>Jesse Souza, um soci\u00f3logo que leio e admiro, sempre me lembra que a opress\u00e3o n\u00e3o se finda. Ela muda de roupa, torna-se mais sofisticada para continuar existindo. Foi com esta reflex\u00e3o que sa\u00ed de Barbacena e por ela me sinto torturada at\u00e9 agora. Onde estamos entulhando nossos indesej\u00e1veis? Aqueles corpos adoecidos pelas desigualdades sociais, pela falta de acesso a tratamentos de sa\u00fade decentes, pela falta de comida, pela falta de assist\u00eancia ao pr\u00e9-natal, ao parto, pelo desest\u00edmulo ao aleitamento e a uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, pela sujei\u00e7\u00e3o a uma rotina de trabalho adoecedora e uma renda familiar que os priva de direitos e confortos m\u00ednimos?<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o nossos indesejados? Nos orfanatos, nos pres\u00eddios, nas comunidades mais violentas e vulner\u00e1veis, nos lix\u00f5es? Como estamos encontrando justificativas supostamente racionais, cient\u00edficas e \u00e9ticas que aplaquem nossa consci\u00eancia para assim mantermos nossos privil\u00e9gios sobre eles?<\/p>\n<p>Uma resposta eu j\u00e1 tenho. A cor da pele dos nossos indesejados segue sendo a mesma.<\/p>\n<p>https:\/\/juliarocha.blogosfera.uol.com.br\/2019\/11\/01\/o-porao-do-mundo-a-inacreditavel-historia-de-uma-fabrica-de-corpos-humanos\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falia Rocha &#8211; H\u00e1 dois dias estou remoendo e tentando digerir a hist\u00f3ria de um holocausto. Pude ver, ouvir e sentir o cheiro de uma trag\u00e9dia humana t\u00e3o dram\u00e1tica, longa e intensa quanto pouco conhecida. 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