{"id":11881,"date":"2019-11-01T13:11:17","date_gmt":"2019-11-01T16:11:17","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11881"},"modified":"2019-10-31T16:13:28","modified_gmt":"2019-10-31T19:13:28","slug":"por-que-o-libano-tambem-diz-basta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/11\/01\/por-que-o-libano-tambem-diz-basta\/","title":{"rendered":"Por que o L\u00edbano tamb\u00e9m diz basta!"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nizar Hassan<\/strong> &#8211; Primeiro ministro renunciou ontem, mas gesto n\u00e3o parece capaz de encerrar revolta. Popula\u00e7\u00e3o reage contra imposto regressivo, cortes nos servi\u00e7os p\u00fablicos e sistema pol\u00edtico que aliena os cidad\u00e3os, ao dividir poder entre partidos religiosos.<\/p>\n<p>O L\u00edbano passou a viver, na \u00faltima semana, uma revolta sem precedentes \u2013 tanto em escala como em intensidade \u2013 contra a classe governante do pa\u00eds. O que teve in\u00edcio como um modesto protesto na quinta-feira, 17 de outubro, transformou-se rapidamente em grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massa. Nos \u00faltimos dias, elas cresceram e se transformaram no maior movimento de protesto na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Estimativas sobre n\u00famero de pessoas que sa\u00edram \u00e0s ruas no domingo seguinte (27\/10) em todo o pa\u00eds variam de 1,2 a 2 milh\u00f5es de pessoas, numa na\u00e7\u00e3o com 6 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>A magnitude do movimento decorre principalmente do envolvimento popular maci\u00e7o e espont\u00e2neo. O povo n\u00e3o s\u00f3 encheu as grandes pra\u00e7as do centro de Beirute, retomando-as depois de terem sido transformadas, nos \u00faltimos 30 anos, em espa\u00e7os gentrificados exclusivos para os ricos, mas tamb\u00e9m se mobilizou localmente. A certa altura, os protestos estavam acontecendo simultaneamente em mais de 60 lugares diferentes, incluindo a maior parte das grandes cidades.<\/p>\n<p><strong>O poder dessas mobiliza\u00e7\u00f5es tem sido arrebatador<\/strong><\/p>\n<p>Uma greve geral \u2013 embora n\u00e3o abrangente, j\u00e1 que muitos empregadores n\u00e3o permitem que seus funcion\u00e1rios participem \u2013 vem abalando a economia e as institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds desde a \u00faltima sexta-feira (25\/10). Contudo, n\u00e3o \u00e9 uma greve liderada por sindicatos, como se poderia esperar. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 imposta por manifestantes que bloqueiam as principais estradas do pa\u00eds, impedindo a maioria das atividades econ\u00f4micas e dando aos trabalhadores uma desculpa para juntar-se \u00e0 greve e \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como se poderia esperar, as demandas s\u00e3o variadas; no final das contas, trata-se de uma revolta popular em que a participa\u00e7\u00e3o, em sua maior parte, \u00e9 motivada pela iniciativa espont\u00e2nea de cidad\u00e3os, e n\u00e3o por qualquer esfor\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o. No entanto, todos os manifestantes parecem concordar com algumas exig\u00eancias b\u00e1sicas: a ren\u00fancia do atual Conselho de Ministros, a forma\u00e7\u00e3o de um governo independente dos partidos que est\u00e3o no poder, de modo a evitar um colapso econ\u00f4mico iminente, e elei\u00e7\u00f5es antecipadas.<\/p>\n<p>A classe pol\u00edtica tem lutado para frustrar a revolta. Primeiro, os partidos tentaram minimizar sua import\u00e2ncia. Depois alguns deles tentaram cooptar o movimento, encorajando seus filiados a participar dos protestos e influenciar em sua narrativa, especialmente fora de Beirute, mas tamb\u00e9m na emblem\u00e1tica pra\u00e7a Riad al-Solh, na capital.<\/p>\n<p>Embora o governo logo tenha desistido de tentar conter o levante por meio de repress\u00e3o policial, ele destacou o ex\u00e9rcito na tentativa de acabar com os numerosos bloqueios de estradas. Seu racioc\u00ednio \u00e9 que mesmo um milh\u00e3o de manifestantes no centro de Beirute n\u00e3o atrapalham tanto a governan\u00e7a e a acumula\u00e7\u00e3o de capital quanto a obstru\u00e7\u00e3o do fluxo de mercadorias e trabalhadores pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Qual a raz\u00e3o para o levante ocorrer agora?<\/strong><\/p>\n<p>A revolta come\u00e7ou na tarde de quinta-feira com uma chamada para o protesto por LiHaqqi \u2013 um movimento pol\u00edtico progressista e estruturado horizontalmente com origem numa campanha popular nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2018 \u2013 e por alguns indiv\u00edduos. O pa\u00eds havia tomado conhecimento de que o Conselho de Ministros aprovara uma s\u00e9rie de tributos regressivos, especialmente uma estranha taxa equivalente a US$ 0,20 em cada primeira liga\u00e7\u00e3o di\u00e1ria pelo WhatsApp, que poderia chegar no m\u00e1ximo a seis d\u00f3lares mensais.<\/p>\n<p>Os ministros n\u00e3o poderiam ter aprovado um tributo mais regressivo, pois os libaneses, em especial as pessoas da classe trabalhadora, contam com o whatsapp como um meio acess\u00edvel de comunica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que os servi\u00e7os de telecomunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito caros e pouco confi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Duas horas ap\u00f3s o primeiro chamado, o protesto havia reunido apenas umas poucas centenas de participantes, mas o bloqueio da principal ponte de Beirute despertou o interesse da m\u00eddia e as not\u00edcias da a\u00e7\u00e3o espalharam-se rapidamente pelas esquinas do pa\u00eds. Depois de marchar por v\u00e1rios bairros de Beirute, o protesto voltou a seu ponto inicial, a pra\u00e7a Riad al-Solh, agora com a ades\u00e3o de outros milhares de manifestantes.<\/p>\n<p>Contudo, este n\u00e3o \u00e9 um levante contra a tributa\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00f5es por whatsapp; isso foi s\u00f3 a gota d\u2019\u00e1gua. O imposto permitiu expor a verdadeira face da elite pol\u00edtica do pa\u00eds e sua guerra de classes de cima pra baixo. Al\u00e9m disso, os dias anteriores ao protesto j\u00e1 haviam demonstrado a profunda incompet\u00eancia da elite no governo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quatro dias antes de a revolta come\u00e7ar, inc\u00eandios haviam tomado v\u00e1rias regi\u00f5es do L\u00edbano, acabando por destruir em dois dias mais \u00e1reas florestais do que as que s\u00e3o perdidas em queimadas num ano inteiro. O Estado liban\u00eas correu atr\u00e1s do apoio do Chipre, da Jord\u00e2nia e da Gr\u00e9cia, que enviaram avi\u00f5es de combate a queimadas \u2013 enquanto os helic\u00f3pteros libaneses antiinc\u00eandio vinham sendo mantidos no solo por anos, em raz\u00e3o da incompet\u00eancia das autoridades para conseguir recursos para sua manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto as pessoas se reuniam em iniciativas espont\u00e2neas de solidariedade e enviavam apoio aos bombeiros volunt\u00e1rios, alguns pol\u00edticos viram uma oportunidade para incitar a divis\u00e3o. Um membro do partido pol\u00edtico de direita Movimento Patri\u00f3tico Livre, o maior no parlamento e no minist\u00e9rio e conhecido por uma ret\u00f3rica sect\u00e1ria que usa imigrantes e refugiados como bodes expiat\u00f3rios, popularizou uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o que tem como alvo a popula\u00e7\u00e3o crist\u00e3 no distrito de Chouf, localizado prov\u00edncia de Monte L\u00edbano.<\/p>\n<p>O fracasso ao lidar com os inc\u00eandios, combinado com a aprova\u00e7\u00e3o dos impostos regressivas fez explodir a frustra\u00e7\u00e3o que muitas pessoas sentiam com o governo. Lembrou \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que vive num pa\u00eds governado por elites incompetentes que n\u00e3o s\u00f3 fracassam na condu\u00e7\u00e3o do governo, mas principalmente procuram ativamente dividir e empobrecer o povo. A semana trouxe \u00e0 tona o pior da pol\u00edtica libanesa e o melhor de seu povo.<\/p>\n<p><strong>A ascens\u00e3o dos protestos anti-establishment<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos oito anos, o pa\u00eds viu surgirem muitos movimentos anti-establishment, a come\u00e7ar pela participa\u00e7\u00e3o libanesa na Primavera \u00c1rabe, o movimento de 2011 para \u201cderrubar o sistema sect\u00e1rio\u201d cuja principal conquista foi popularizar a percep\u00e7\u00e3o e a ret\u00f3rica de que os v\u00e1rios partidos libaneses no governo s\u00e3o s\u00f3cios no crime; e que o povo pode tomar posi\u00e7\u00f5es coletivas contra todos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Antes disso, o pa\u00eds havia testemunhado em 2005 a denominada \u201cRevolu\u00e7\u00e3o do Cedro\u201d, que levou ao fim do regime s\u00edrio de ocupa\u00e7\u00e3o do L\u00edbano depois do assassinato do ex-primeiro ministro Rafik Hariri. Ao inv\u00e9s de unir o povo, contudo, a Revolu\u00e7\u00e3o do Cedro dividiu o pa\u00eds em dois campos: um pr\u00f3-S\u00edria e outro pr\u00f3-Ocidente.<\/p>\n<p>O movimento de 2011 foi talvez o primeiro a colocar claramente num s\u00f3 cesto a elite governante de ambos os campos, e qualific\u00e1-los de inimigos do povo. Movimentos contra a prorroga\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios mandatos pelos parlamentares, em 2013 e 2014, refor\u00e7aram essa ret\u00f3rica. Ent\u00e3o explodiu, em 2015, num movimento anti-establishment alimentado pela incompet\u00eancia do governo, desta vez na gest\u00e3o de res\u00edduos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 2015, o ativismo anti-establishment tornou-se mais naturalizado, e gente de todo o pa\u00eds aderiu ao que \u00e9 entendido como \u201csociedade civil\u201d. Essa sociedade civil foi testada regularmente nos tr\u00eas anos que se seguiram; das elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016 \u00e0s elei\u00e7\u00f5es da Ordem dos Engenheiros em 2017 e, mais importante, nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares finalmente realizadas em 2018.<\/p>\n<p>Grupos e candidatos que se op\u00f5em \u00e0 elite pol\u00edtica fizeram campanha na maioria dos distritos, mas apenas uma cadeira parlamentar foi conquistada: a deputada Paula Yaacoubian est\u00e1 em Beirute. Este foi o primeiro momento em que essa luta anti-establishment foi levada \u00e0 esfera eleitoral nacional, e nada expressa e define melhor o estado da pol\u00edtica nacional libanesa do que as elei\u00e7\u00f5es parlamentares.<\/p>\n<p>Tendo esses fatos cumulativos como pano de fundo, 2019 come\u00e7ou com protestos contra os or\u00e7amentos de \u201causteridade\u201d propostos pelo governo. Foram liderados por grupos de esquerda e categorias diretamente afetadas pelos cortes salariais do setor p\u00fablico. Nos meses seguintes, Beirute testemunhou uma s\u00e9rie de protestos, frequentemente organizados por grupos de ativistas e outras vezes por influenciadores das m\u00eddias sociais.<\/p>\n<p>A essa altura, todas as desculpas que os apoiadores dos partidos sect\u00e1rios apresentaram em favor de seus l\u00edderes haviam perdido a validade. Enquanto o Movimento Nabih Berri\u2019s Amal, o Partido Socialista Progressista Walid Jumblatt e o Movimento do Futuro Saad Hariri s\u00e3o considerados os chef\u00f5es da megacorrup\u00e7\u00e3o que caracteriza o sistema p\u00f3s-guerra civil, o Hezbollah e o Movimento Patriota Livre afirmam-se rec\u00e9m-chegados ao palcoo pol\u00edtico e, portanto, n\u00e3o ser culpados pela situa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>Contudo, esses dois partidos mostraram nos \u00faltimos anos que, a despeito de suas justificativas, n\u00e3o est\u00e3o seriamente empenhados em acabar com a corrup\u00e7\u00e3o e m\u00e1s pr\u00e1ticas pol\u00edticas. Os partid\u00e1rios de todos esses grupos est\u00e3o agora procurando justificativas.<\/p>\n<p>Paralelamente \u00e0 desilus\u00e3o e \u00e0 escalada do sentimento anti-establishment, os \u00faltimos anos caracterizaram-se tamb\u00e9m por uma s\u00e9ria crise decorrente de um modelo econ\u00f4mico improdutivo, injusto e insustent\u00e1vel. As reservas de moedas fortes do pa\u00eds, elemento chave para a manuten\u00e7\u00e3o do modelo, v\u00eam se deteriorando.<\/p>\n<p>O crescimento da economia tamb\u00e9m estagnou, e os sal\u00e1rios \u2013 especialmente os do setor privado \u2013 est\u00e3o paralisados em n\u00edveis que impedem a maioria de manter uma vida segura e com algum conforto. A desigualdade econ\u00f4mica tamb\u00e9m atingiu novos extremos, fazendo do L\u00edbano um dos pa\u00edses mais desiguais em termos da distribui\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio e renda.<\/p>\n<p>Um quarto da renda nacional foi, entre 2004 e 2005, para o 1% mais rico, e 0,1% das contas banc\u00e1rias soma 20% do total de dep\u00f3sitos. Na aus\u00eancia de qualquer pol\u00edtica progressista de redistribui\u00e7\u00e3o, isso foi traduzido como os ricos ficando mais ricos e os pobres se tornando mais pobres, e uma autodenominada \u201cclasse m\u00e9dia\u201d colocada numa situa\u00e7\u00e3o de extrema precariedade.<\/p>\n<p>A crise s\u00f3 se tornou not\u00edcia nos \u00faltimos dois anos, quando ficou claro que o aumento da d\u00edvida p\u00fablica havia se tornado insustent\u00e1vel, em raz\u00e3o dos altos d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios causados principalmente pelo peso dos juros.<\/p>\n<p>O governo optou pela cl\u00e1ssica solu\u00e7\u00e3o neoliberal. Ao inv\u00e9s de reformar o sistema tribut\u00e1rio e as pol\u00edticas monet\u00e1rias que atualmente favorecem setores rentistas, \u00e0s expensas de seus pares produtivos, escolheu colocar o peso nas fam\u00edlias dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Enquanto o or\u00e7amento de 2019 criou uma nova faixa tribut\u00e1ria, taxando em 25% as empresas e indiv\u00edduos com ganhos acima de 150 mil d\u00f3lares por ano, o imposto sobre bancos e empresas financeiras foi mantido em 17%. Isso significa que um banco que gera 4.000 vezes mais receita do que uma pequena f\u00e1brica paga atualmente 8% menos de imposto de renda.<\/p>\n<p>Os impostos regressivos propostos para o or\u00e7amento de 2020 expuseram ainda mais o governo e deixaram claro quem a elite serve e quem ela visa atingir.<\/p>\n<p><strong>O significado da revolta<\/strong><\/p>\n<p>O levante atual deveria ser levado a s\u00e9rio por v\u00e1rias raz\u00f5es. Primeiro e mais importante, porque gerou uma coaliz\u00e3o de fam\u00edlias pobres, de classe m\u00e9dia e mesmo de classe alta \u2013 em termos de nivel de renda \u2013 num \u00fanico movimento contra o establishment.<\/p>\n<p>Membros desses grupos sociais, que antes raramente interagiam, est\u00e3o agora lado a lado cantando slogans e levantando os punhos; est\u00e3o juntos em seus v\u00e1rios modos de expressar-se e encontrando maneiras de administrar as quest\u00f5es em torno das t\u00e1ticas de conten\u00e7\u00e3o que antes dividiam os protestos, como por exemplo os tumultos, a viol\u00eancia antipolicial e o bloqueio das estradas.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, o bloqueio de estradas foi percebido por muitos como um m\u00e9todo de protesto agressivo, usado principalmente pelos pobres ou pessoas percebidas como \u201cbandidos\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o aos ativistas anti-establishment \u2013 em sua maioria com educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, que evitavam essa t\u00e1tica na tentativa de n\u00e3o perder o apoio das pessoas que queriam chegar a seus destinos.<\/p>\n<p>Hoje, contudo, o bloqueio de estradas \u00e9 a a\u00e7\u00e3o que est\u00e1 mantendo o poder dessa revolta. Trata-se de um m\u00e9todo extremamente poderoso para desestabilizar o sistema econ\u00f4mico, na falta de a\u00e7\u00e3o dos sindicatos. O movimento sindical foi submetido a repress\u00e3o e coopta\u00e7\u00e3o durante d\u00e9cadas, a ponto de as organiza\u00e7\u00f5es sindicais, tanto do setor p\u00fablico quanto do privado, serem neutralizadas e, em alguns casos, voltarem-se contra os pr\u00f3prios trabalhadores.<\/p>\n<p>Isso, junto com a transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que enfraqueceu os direitos trabalhistas e a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o na ordem do p\u00f3s-guerra civl, criou um v\u00e1cuo na sociedade civil que debilitou o poder dos movimentos de protesto e limitou suas estrat\u00e9gias. O levante atual encontrou uma resposta para essa fraqueza por meio do bloqueio de estradas.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de os pr\u00f3prios trabalhadores se arriscarem em greves sem o apoio dos sindicatos, num pa\u00eds com quase nenhuma prote\u00e7\u00e3o ao trabalho, o bloqueio das estradas est\u00e1 oferecendo a justificativa necess\u00e1ria para a maioria ir \u00e0s ruas. \u00c9 de se esperar que esse m\u00e9todo desempenhe um papel chave nos movimentos de protesto de massa do futuro no pa\u00eds. Seus organizadores est\u00e3o aprendendo sobre o que parece ser um caminho t\u00e1tico mais poderoso que outras ferramentas de e advocacy e campanhas\u2026<\/p>\n<p>A revolta \u00e9 tamb\u00e9m altamente significativa por ter criado uma situa\u00e7\u00e3o que tem sido chamada \u201co fim da guerra civil\u201d, na qual as v\u00e1rias comunidades religiosas participam do levante e demonstram profundo desprezo pelo sectarismo.<\/p>\n<p>A guerra civil libanesa durou 15 anos e acabou em 1990, mas seu sistema pol\u00edtico ainda \u00e9 dominante. Partidos pol\u00edticos baseados em filia\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria controlam a pol\u00edtica e mant\u00eam um sistema clientelista profudamente enraizado, no qual os direitos dos cidad\u00e3os ao trabalho e aos servi\u00e7os tornou-se um privil\u00e9gio de acesso garantido em troca de lealdade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os v\u00e1rios partidos sect\u00e1rios tentam maximizar sua parcela de recursos do Estado e canaliz\u00e1-la para seu pr\u00f3prio povo, seus aliados comerciais e, em menor grau, a seus eleitores. Num modelo de \u201cdemocracia de sociedade\u201d, de compartilhamento do poder, isso criou um sistema extremamente resistente em termos de adaptabilidade e abertura a mudan\u00e7as. Implica tamb\u00e9m uma administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica profundamente corrupta e um modo de governan\u00e7a econ\u00f4mica tendencioso, voltado para a elite econ\u00f4mica de cada grupo religioso.<\/p>\n<p>As linhas do conflito pol\u00edtico s\u00e3o, portanto, tra\u00e7adas verticalmente entre grupos sect\u00e1rios, ocultando o real conflito de interesses existente entre os membros de cada grupo com base em sua origem de classe. O sectarismo tem sido a melhor vacina do sistema contra o surgimento de pol\u00edticas de classe; e a oposi\u00e7\u00e3o a ele pode oferecer uma oportunidade de trazer de volta o interesse material e de classe como principais fatores na divis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As linhas do conflito pol\u00edtico giraram agora em 90 graus, mostrando em todos os grupos religiosos um descontentamento semelhante com seus pr\u00f3prios representantes no poder. Ou seja, oponto os que est\u00e3o na base aos que est\u00e3o no topo. A participa\u00e7\u00e3o maci\u00e7a no levante, assim como as hist\u00f3rias compartilhadas pelos manifestantes sobre o desafio a suas pr\u00f3prias afilia\u00e7\u00f5es religiosas, provam que quem votou nos partidos pol\u00edticos do establishment em 2018 est\u00e1 agora exigindo sua sa\u00edda.<\/p>\n<p>O envolvimento popular nas manifesta\u00e7\u00f5es, bem como sua natureza altamente descentralizada, oferecem tamb\u00e9m uma enorme oportunidade para a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas progressistas no futuro.<\/p>\n<p>As redes de pessoas que se mobilizam explodiram as bolhas de ativistas \u201cprofissionais\u201d e envolveram os chamados \u201ccidad\u00e3os comuns\u201d, isto \u00e9, as multid\u00f5es que foram alienadas da pol\u00edtica pela combina\u00e7\u00e3o de um sistema pol\u00edtico podre e uma economia capitalista clientelista. Movimentos e grupos que se organizam hoje \u2013 incluindo o LiHaqqi, que procurou adotar um modelo de envolvimento popular e horizontal baseado na democracia direta \u2013 n\u00e3o poderiam ter oportunidade melhor para expandir seu alcance, um objetivo extremamente necess\u00e1rio para qualquer contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00e9ria no futuro pr\u00f3ximo e no longo prazo.<\/p>\n<p>O sucesso desta revolta e suas consequ\u00eancias pol\u00edticas s\u00e3o altamente dependentes da coordena\u00e7\u00e3o desses movimentos e seu apoio a a\u00e7\u00f5es populares e espont\u00e2neas.<\/p>\n<p>Uma vit\u00f3ria do povo, que viria por meio da ren\u00fancia do Conselho de Ministros, eliminaria o sentimento de desesperan\u00e7a pol\u00edtica que domina a popula\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo \u2013 e mais intensamente desde que as elei\u00e7\u00f5es de 2018 trouxeram de volta ao poder os mesmos partidos. \u00c9 t\u00e3o necess\u00e1ria para a psicologia pol\u00edtica quanto para poupar as pessoas da mis\u00e9ria de lidar com o custo da crise econ\u00f4mica, e romper as barreiras para uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente.<\/p>\n<p>Por outro lado, o enfraquecimento da classe dominante nesta era de crise econ\u00f4mica n\u00e3o significa que novos monstros n\u00e3o venham a surgir. Os populistas neoliberais e de direita ir\u00e3o tentar concentrar-se na corrup\u00e7\u00e3o, nos imigrantes ou na pr\u00f3pria democracia como a fonte de todo mal, procurando distrair as pessoas da guerra de classes que os poucos est\u00e3o travando contra os muitos.<\/p>\n<p>Esses grupos tendem com frequ\u00eancia a deter os maiores recursos, e s\u00e3o os capit\u00e3es que dirigem as popula\u00e7\u00f5es raivosas lentamente em dire\u00e7\u00e3o ao precip\u00edcio.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a raz\u00e3o por que grupos progressistas e de esquerda precisam usar o momento atual para levar aos ouvidos das pessoas uma narrativa concentrada em justi\u00e7a econ\u00f4mica, social e ambiental, e canalizar a raiva em dire\u00e7\u00e3o \u00e0queles que deixaram o pa\u00eds afundar em d\u00edvida e sofrimento sob um capitalismo clientelista e a divis\u00e3o sect\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00d1\u00e3o s\u00e3o apenas os cidad\u00e3os libaneses e a classe trabalhadora que seriam beneficiados por uma virada, mas tamb\u00e9m todos os grupos marginalizados, inclusive os trabalhadores refugiados e imigrantes. O destino de tantos depende daqueles que podem aproveitar este momento para dar um salto revolucion\u00e1rio na natureza da pol\u00edtica libanesa.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"WkgbS6xZT6\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/por-que-o-libano-tambem-diz-basta\/\">Por que o L\u00edbano tamb\u00e9m diz basta!<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Por que o L\u00edbano tamb\u00e9m diz &lt;i&gt;basta&lt;\/i&gt;!&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/por-que-o-libano-tambem-diz-basta\/embed\/#?secret=gqeg3fcO9o#?secret=WkgbS6xZT6\" data-secret=\"WkgbS6xZT6\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nizar Hassan &#8211; Primeiro ministro renunciou ontem, mas gesto n\u00e3o parece capaz de encerrar revolta. 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