{"id":11852,"date":"2019-10-28T18:34:14","date_gmt":"2019-10-28T21:34:14","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11852"},"modified":"2019-10-27T14:40:41","modified_gmt":"2019-10-27T17:40:41","slug":"se-o-termo-feminismo-barra-a-discussao-e-hora-de-troca-lo-diz-patricia-hill-collins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/10\/28\/se-o-termo-feminismo-barra-a-discussao-e-hora-de-troca-lo-diz-patricia-hill-collins\/","title":{"rendered":"Se o termo feminismo barra a discuss\u00e3o, \u00e9 hora de troc\u00e1-lo\u2019, diz Patricia Hill Collins"},"content":{"rendered":"<p><strong>Bruna de Lara e <\/strong><span data-reactid=\"152\"><strong>Juliana Gon\u00e7alves<\/strong> &#8211; &#8220;A liberdade de uma pessoa <\/span>n\u00e3o pode ser baseada na subordina\u00e7\u00e3o de outra&#8221;, afirmou Patricia Hill Collins ao p\u00fablico que a assistiu no \u00faltimo domingo, no Rio de Janeiro. A autora do cl\u00e1ssico \u2018Pensamento feminista negro\u2019\u00a0protagonizou uma mesa da\u00a0Feira Liter\u00e1ria das Periferias, a Flup\u00a0e, cuidadosa, perguntava de quando em quando se todos acompanhavam seu racioc\u00ednio firme. Encantada, Collins autografou livros, posou para fotos e assistiu empolgada a uma\u00a0batalha de slam\u00a0e \u00e0 ciranda de\u00a0Lia de Itamarac\u00e1. Por fim, encerrou a noite do jeito que escreve seus livros: absorvendo as experi\u00eancias dos locais e das pessoas que encontra.<\/p>\n<p>No livro lan\u00e7ado em 1990, Collins desperta o olhar para a natureza interligada das opress\u00f5es que desumanizam as mulheres negras e as coloca como protagonistas. Ela d\u00e1 voz a mulheres comuns que, no geral, n\u00e3o teriam sua intelectualidade reconhecida. Isso tornou a obra um dos t\u00edtulos mais importantes da teoria do feminismo negro, trabalhando os conceitos de\u00a0<a data-tooltip=\"Conceito originalmente criado por feministas negras para tratar do fortalecimento coletivo e estrutural das mulheres e da comunidade negra.\">empoderamento<\/a>\u00a0e\u00a0<a data-tooltip=\"Termo criado por feministas negras para nomear uma perspectiva que analisa opress\u00f5es distintas de forma interligada. O feminismo interseccional se atenta a ra\u00e7a e classe, por exemplo, n\u00e3o s\u00f3 a g\u00eanero.\">interseccionalidade<\/a> \u2013 sequestrados pela pauta neoliberal. A chegada da obra ao Brasil, em julho, mostra a relev\u00e2ncia desse trabalho. Ao mesmo tempo, as tr\u00eas d\u00e9cadas de atraso na publica\u00e7\u00e3o ilustram a dificuldade da inser\u00e7\u00e3o de autores negros num mundo que os silencia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"426\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/10\/WhatsApp-Image-2019-10-21-at-23.49.58-1571713456-1024x682.jpeg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" alt=\"A autora autografou exemplares de seu livro 'Pensamento feminista negro', lan\u00e7ado em julho deste ano pela Editora Boitempo.\" data-reactid=\"191\" \/><\/p>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\"192\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"426\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/10\/WhatsApp-Image-2019-10-22-at-00.02.42-1571713459-1024x682.jpeg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" alt=\"Collins assistindo ao final da batalha de slam na Feira Liter\u00e1ria das Periferias, no Rio de Janeiro.\" data-reactid=\"193\" \/><\/div>\n<p class=\"PhotoGrid-description\" data-reactid=\"194\"><em><span class=\"PhotoGrid-description-caption\" data-reactid=\"195\">\u00c0 esquerda\/Acima: A autora autografando exemplares de seu livro &#8216;Pensamento feminista negro&#8217;, lan\u00e7ado em julho deste ano pela Editora Boitempo, ao lado da artista Lia de Itamarac\u00e1. \u00c0 direita\/abaixo: Collins assistindo ao final da batalha de slam na Feira Liter\u00e1ria das Periferias, no Rio de Janeiro<\/span><\/em><\/p>\n<div data-reactid=\"197\">\n<p>\u2018Pensamento feminista negro\u2019 \u00e9, como Collins, um livro p\u00e9 no ch\u00e3o. Com o mesmo entusiasmo que mostrou ao acompanhar as atividades da Flup, a soci\u00f3loga nos contou a hist\u00f3ria por tr\u00e1s do cl\u00e1ssico. \u201cEu n\u00e3o estava olhando para os poderes do al\u00e9m ou para a ideologia\u201d, nos explicou a escritora na \u00faltima sexta-feira, dois dias depois de quase mil pessoas assistirem \u00e0 sua palestra no\u00a0<a href=\"https:\/\/democraciaemcolapso.wordpress.com\/\">Semin\u00e1rio Democracia em Colapso?<\/a>, em S\u00e3o Paulo. \u201cO livro era sobre o que as pessoas tinham me dito, o que tinham trazido, o que tinham feito.\u201d<\/p>\n<p>Sempre espont\u00e2nea, ela\u00a0conversou sobre as novas formas de cativeiro da popula\u00e7\u00e3o negra, os desafios enfrentados pela educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e o medo da palavra feminismo \u2013 e, em especial, do feminismo negro. De tempos em tempos, a entrevista era interrompida pela risada contagiante de Collins, que falou com uma dose extra de anima\u00e7\u00e3o ao relembrar o processo de cria\u00e7\u00e3o de seu livro. O entusiasmo daquela tarde seria marcado numa parede do Sesc algumas horas depois: \u201cO futuro \u00e9 nosso!\u201d, escreveu a pensadora. \u201cPermane\u00e7am fortes!\u201d<\/p>\n<p>Confira os principais trechos da conversa:<\/p>\n<p><strong>Intercept \u2013\u00a0Voc\u00ea mencionou durante sua palestra que o encarceramento em massa \u00e9 uma nova forma de manter\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/atividade-legislativa\/comissoes\/comissoes-permanentes\/cdhm\/noticias\/sistema-carcerario-brasileiro-negros-e-pobres-na-prisao\"><strong>pessoas negras em cativeiro<\/strong><\/a><strong>. Ao mesmo tempo, argumentou que a\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/www.fundosocialelas.org\/falesemmedo\/noticia\/violencia-domestica-contra-as-mulheres-negras-cresce-no-pais\/15913\/\"><strong>viol\u00eancia dom\u00e9stica<\/strong><\/a><strong>\u00a0tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de cativeiro \u2013 e, aqui, as\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/noticias\/geral,75-das-vitimas-de-homicidio-no-pais-sao-negras-aponta-atlas-da-violencia,70002856665\"><strong>mulheres negras s\u00e3o as maiores v\u00edtimas<\/strong><\/a><strong>. O estado costuma apresentar a elas, como \u00fanica forma de sa\u00edda da viol\u00eancia, a den\u00fancia criminal. Como lutar simultaneamente contra essas duas formas de cativeiro da popula\u00e7\u00e3o negra?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patricia Hill Collins \u2013\u00a0<\/strong>Precisamos de uma an\u00e1lise que conecte as duas coisas, para n\u00e3o pensarmos nisso como dois temas separados. A popula\u00e7\u00e3o prisional \u00e9 uma boa forma de tocar no ponto do cativeiro, mas eu tamb\u00e9m me referia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de guetos, \u00e0 no\u00e7\u00e3o de ser preso contra sua vontade em categorias em que voc\u00ea n\u00e3o quer ser enquadrado. Voc\u00ea passa por viol\u00eancia na pris\u00e3o, porque os homens te atacam, mesmo que seja uma pris\u00e3o totalmente masculina.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, [\u00e9 preciso] repensar a masculinidade nessa situa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia que \u00e9 cometida contra os homens, da viol\u00eancia que homens cometem contra outros homens e da que eles cometem contra as mulheres. Cruzar tudo isso. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de eliminar uma coisa, como se uma fosse mais importante do que a outra. \u00c9 ver as conex\u00f5es e procurar os espa\u00e7os em que isso pode ser revertido.<\/p>\n<\/div>\n<blockquote class=\"Pullquote Pullquote--right\" data-reactid=\"198\">\n<div data-reactid=\"199\">\u201cHomens e mulheres ainda t\u00eam que desenvolver empatia suficiente pelas experi\u00eancias uns dos outros.\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<div data-reactid=\"200\">\n<p>A hierarquia de g\u00eanero com frequ\u00eancia diz \u00e0s mulheres: \u201cvoc\u00ea \u00e9 menor, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 importante e \u00e9 por isso que ele te agride. Voc\u00ea deveria ficar feliz de estar com ele\u201d. Ent\u00e3o, voc\u00ea come\u00e7a com esse problema social da viol\u00eancia e como ela afeta de formas diferentes homens e mulheres e come\u00e7a a pensar nas maneiras em que as aspira\u00e7\u00f5es deles e delas s\u00e3o mantidas em cativeiro. As mulheres est\u00e3o dispostas a se acomodar, porque acham que n\u00e3o t\u00eam outras op\u00e7\u00f5es. Vou usar o cativeiro agora como uma met\u00e1fora \u2013\u00a0aquilo em que voc\u00ea acredita est\u00e1 te restringindo. Mas, se voc\u00ea est\u00e1 tentando sobreviver com seus filhos, estamos falando de cativeiros de verdade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\" data-reactid=\"201\">\n<div data-reactid=\"202\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"640\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-273831\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/10\/IMG_1501_1-1571687622.jpg?fit=640%2C640&#038;ssl=1\" alt=\"Patricia Hill Collins fala durante mesa realizada em 16 de outubro como parte da programa\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio Democracia em Colapso?, organizado pela Editora Boitempo no Sesc Pinheiros, em S\u00e3o Paulo.\" \/><\/p>\n<p class=\"caption\"><em>Patricia Hill Collins fala durante mesa realizada em 16 de outubro como parte da programa\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio Democracia em Colapso?, organizado pela Editora Boitempo no Sesc Pinheiros, em S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"203\">\n<p>Homens e mulheres ainda t\u00eam que desenvolver empatia suficiente pelas experi\u00eancias uns dos outros. Uma an\u00e1lise feminista negra baseada na interseccionalidade pode apresentar essas conex\u00f5es. H\u00e1 estudos, como os da\u00a0<a data-tooltip=\"Chefe do departamento de Criminologia, Legisla\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da Universidade de Illinois, EUA. Pesquisa encarceramento em massa e viol\u00eancia dom\u00e9stica.\">Beth Richie<\/a>, que fazem isso. Esses campos de an\u00e1lise s\u00e3o frequentemente vistos como coisas separadas. Uni-los numa mesma an\u00e1lise seria, para mim, a forma de lidar com isso.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea estudou em escolas p\u00fablicas, como boa parte dos estudantes negros brasileiros. A educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica tem sido\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/educador.brasilescola.uol.com.br\/trabalho-docente\/o-apagao-na-educacao.htm\"><strong>sucateada<\/strong><\/a><strong>\u00a0e\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QCuwK4eFjz4\"><strong>est\u00e1 sob ataque<\/strong><\/a><strong>\u00a0neste governo, que acusa os professores de doutrinarem estudantes. Os ataques \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica s\u00e3o parte da estrutura de uma sociedade racista?<\/strong><\/p>\n<p>Ah, sim. O que precisamos fazer \u00e9 elaborar isso e dizer: \u201cque tipo de mudan\u00e7as professores e estudantes precisam fazer para encarar isso?\u201d. A primeira coisa \u00e9 criar um movimento de resist\u00eancia a essas pol\u00edticas para tentar revert\u00ea-las. \u00c9 claro que o Bolsonaro e muitos outros [atores pol\u00edticos] n\u00e3o querem que os jovens \u2013\u00a0particularmente os negros \u2013\u00a0sejam pensadores cr\u00edticos. Os professores talvez tenham que fingir ensinar s\u00f3 outras coisas [as disciplinas formais], mas de um jeito que fa\u00e7a os jovens enxergarem o que aprendem de forma cr\u00edtica.<\/p>\n<\/div>\n<blockquote class=\"Pullquote Pullquote--left\" data-reactid=\"204\">\n<div data-reactid=\"205\">\u201cSentimos que temos que dizer: \u2018Voc\u00ea tem que ser cr\u00edtico!\u2019. Mas quando um professor age assim, ganha um alvo nas costas.\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<div data-reactid=\"206\">\n<p>Eu tive professores que eram muito bons nesse tipo de sinaliza\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea devia ter um olhar cr\u00edtico sobre o que eles acabaram de ensinar. A gente pensava: \u201cEspera, acho que n\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s acreditarmos nisso\u201d. Sentimos que temos que ser muito literais e dizer: \u201cVoc\u00ea tem que ser cr\u00edtico!\u201d. Mas quando voc\u00ea age assim como professor, ganha um grande alvo nas costas e te perseguem. H\u00e1 v\u00e1rias formas de se chegar ao mesmo resultado.<\/p>\n<p>Os jovens veem a mensagem que est\u00e1 sendo passada [pelo governo] e sabem que n\u00e3o \u00e9 o que querem. \u00c9 preciso pensar sobre quais s\u00e3o as possibilidades a que voc\u00ea n\u00e3o recorre por presumir que vai ter acesso a uma escola. Que coisas os professores e os jovens realmente valorizam? E como voc\u00ea pensa em formas de dar continuidade a elas, especialmente se algu\u00e9m est\u00e1 tentando te dizer que voc\u00ea n\u00e3o pode t\u00ea-las? A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 vital e \u00e9 por isso que governos que temem mudan\u00e7as, com frequ\u00eancia, come\u00e7am atacando a educa\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Existe no Brasil uma cr\u00edtica ao feminismo negro dentro da comunidade negra que diz que n\u00e3o se pode enegrecer algo que foi criado por brancos. Tamb\u00e9m existe uma cr\u00edtica a uma poss\u00edvel exclus\u00e3o dos homens negros pelo feminismo. Como a senhora enxerga essas ideias?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira parte da pergunta \u00e9 simplesmente errada. Eu n\u00e3o vou discutir isso, porque acredito que \u00e9 um resultado de simplesmente n\u00e3o se saber o que \u00e9 o feminismo negro. Quando \u2018Pensamento feminista negro\u2019 foi lan\u00e7ado, a primeira edi\u00e7\u00e3o tinha essas tr\u00eas palavras bem grandes na capa, e uma aluna descreveu como era carregar o livro no \u00f4nibus. As pessoas iam at\u00e9 ela e falavam: \u201cEu n\u00e3o gosto disso!\u201d, e ela respondia: \u201cComo voc\u00ea sabe o que \u00e9 se n\u00e3o leu?\u201d. [Risos] Existe um ponto em que a gente simplesmente n\u00e3o pode se submeter \u00e0 ignor\u00e2ncia e pode s\u00f3 dizer: \u201cH\u00e1 diversas oportunidades para voc\u00ea aprender o que \u00e9 o feminismo negro\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-bleed full-bleed width-auto\" data-reactid=\"207\">\n<div data-reactid=\"208\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"640\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-large wp-image-273909\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/10\/DSC_2717-1571712452.jpg?fit=640%2C640&#038;ssl=1\" alt=\"A escritora Ana Maria Gon\u00e7alves, a jornalista Fl\u00e1via Oliveira e a artista Roberta Estrela D'Alva, que compuseram a mesa 'Seu lugar \u00e9 l\u00e1' com Patricia Hill Collins, aplaudem a soci\u00f3loga na Flup.\" \/><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\"><em>A escritora Ana Maria Gon\u00e7alves, a jornalista Fl\u00e1via Oliveira e a artista Roberta Estrela D\u2019Alva, que compuseram a mesa \u2018Seu lugar \u00e9 l\u00e1\u2019 com Patricia Hill Collins, aplaudem a soci\u00f3loga na Flup<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<blockquote class=\"Pullquote Pullquote--right\" data-reactid=\"209\">\n<div data-reactid=\"210\">\u201cH\u00e1 um conceito da fragilidade branca que estamos discutindo nos Estados Unidos, mas h\u00e1 uma masculinidade fr\u00e1gil entre muitos homens negros.\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<div data-reactid=\"211\">\n<p>A quest\u00e3o dos homens negros \u00e9 muito importante. H\u00e1 formas em que as mulheres negras e o feminismo negro est\u00e3o aliados aos homens negros. E h\u00e1 quest\u00f5es em que \u00e9 preciso haver uma organiza\u00e7\u00e3o independente em rela\u00e7\u00e3o a eles. Mas se voc\u00ea v\u00ea seu mundo restrito a essas duas op\u00e7\u00f5es, voc\u00ea poderia facilmente dizer que o feminismo \u00e9 terr\u00edvel e anti-homem, ou dizer que os homens s\u00e3o t\u00e3o incorrig\u00edveis e que voc\u00ea vai ficar com o feminismo negro, em vez de pensar que esses s\u00e3o dois projetos\u00a0<a data-tooltip=\"Rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia m\u00fatua.\">interdependentes.<\/a><\/p>\n<p>Eu gostaria de dar cr\u00e9dito aos homens. Muitos foram al\u00e9m desse referencial de que \u201cse a mulher avan\u00e7a, isso \u00e9 um problema para mim, porque eu deveria sempre ser o l\u00edder, dominar, estar no topo\u201d. Quem pensa assim s\u00e3o os homens fr\u00e1geis. H\u00e1 um conceito da fragilidade branca que estamos discutindo nos Estados Unidos, mas h\u00e1 uma masculinidade fr\u00e1gil entre muitos homens negros. Tantas coisas foram feitas contra eles que \u00e9 quase insultante que uma mulher possa se sentir empoderada, se posicionar ou ter algo pr\u00f3prio dela que n\u00e3o o envolva. Isso \u00e9 muito amea\u00e7ador. Os homens t\u00eam que melhorar. E eles conseguem fazer isso. Eu sei que conseguem. [Risos]<\/p>\n<p><strong>A palavra \u201cfeminismo\u201d ainda assusta muitas mulheres. Devemos tentar ressignific\u00e1-la ou deixarmos ela de lado e acharmos outra forma de nos comunicar?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu pergunto: \u201cpor que voc\u00ea tem medo de uma palavra?\u201d. [Risos] \u201cO que numa palavra te assusta, a quais interesses voc\u00ea est\u00e1 servindo ao n\u00e3o us\u00e1-la e a quais est\u00e1 servindo com o uso da palavra, em termos de como voc\u00ea a entende?\u201d Se a palavra atrapalha ao ponto de voc\u00ea n\u00e3o conseguir chegar nas quest\u00f5es que ela deveria invocar, significa que o ataque da m\u00eddia ao termo feminismo\u00a0foi bem-sucedido, e \u00e9 hora de usar outra palavra que descreva aquilo sobre o que voc\u00ea quer conversar.<\/p>\n<\/div>\n<blockquote class=\"Pullquote Pullquote--left\" data-reactid=\"212\">\n<div data-reactid=\"213\">\u201cSe a palavra atrapalha ao ponto de voc\u00ea n\u00e3o conseguir chegar nas quest\u00f5es que ela deveria invocar, \u00e9 hora de usar outra.\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<div data-reactid=\"214\">\n<p>Eu quero poder falar sobre o empoderamento das mulheres, seus direitos reprodutivos, os direitos sobre seus corpos. Que os homens tamb\u00e9m podem ter direitos sobre seus corpos sem ter que dominar as mulheres. Que todo relacionamento ruim em que os homens estiveram, em que voc\u00ea esteve, \u00e9 carregado para seu relacionamento atual. H\u00e1 muitas discuss\u00f5es que acontecem a partir da palavra feminismo, mas colocar tudo ao redor dela e ficar discutindo essa coisa de \u201cbom, eu n\u00e3o sou feminista, voc\u00ea \u00e9 feminista?\u201d \u00e9 in\u00fatil. Outra discuss\u00e3o in\u00fatil \u00e9: \u201cExiste mesmo essa coisa de feminista negra ou voc\u00ea est\u00e1 comprometendo a si mesma [ao se identificar assim]?\u201d. O que realmente precisa ser discutido \u00e9 o que est\u00e1 no \u00e2mago do feminismo, se essa palavra facilita essa discuss\u00e3o e os poss\u00edveis benef\u00edcios de as mulheres largarem o termo. O que funciona em seu melhor interesse?<\/p>\n<p><strong>A Juliana Gon\u00e7alves, que montou a entrevista comigo, faz parte do coletivo feminista Minas da Baixada que atua na\u00a0<a data-tooltip=\"\u00c1rea da regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro com 13 munic\u00edpios, com as mais altas taxas de viol\u00eancia contra a mulher do estado.\">Baixada Fluminense<\/a>. Elas evitam usar a palavra feminismo em algumas atividades, porque isso afasta as mulheres. Para al\u00e9m disso, como podemos nos comunicar melhor?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu estava escrevendo o livro, estava enfrentando um problema parecido. Eu estava dando uma disciplina chamada \u2018Mulheres negras contempor\u00e2neas\u2019. Isso \u00e9 bem neutro, certo? E a forma de ensinar era que cada tema, que correspondia a cada um dos cap\u00edtulos do livro, dizia respeito a mulheres negras. Todo mundo concordava comigo, mulheres e homens negros. O t\u00edtulo da \u00faltima aula era \u2018Feminismo negro\u2019, e todos ficaram esperando por aquele dia. Seguimos at\u00e9 a \u00faltima aula e eu disse: \u201cOk, voc\u00eas todos queriam falar sobre feminismo durante o semestre. Agora vamos falar sobre feminismo negro. Como voc\u00eas se sentem a respeito de tudo que conversamos na disciplina? Quest\u00f5es de viol\u00eancia dom\u00e9stica, de fam\u00edlia, de reprodu\u00e7\u00e3o, todas essas coisas que as mulheres negras enfrentam?\u201d Muitas alunas estavam se dando conta de que enfrentavam esses problemas, e os homens estavam entendendo melhor a vida das mulheres. Como resultado disso, eu falei: \u201cVou dizer o que \u00e9 o feminismo negro:\u00a0<em>isso\u00a0<\/em>\u00e9 feminismo negro.\u201d [Risos]<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\" data-reactid=\"215\">\n<div data-reactid=\"216\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"640\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-273832\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/10\/low-img_9928-1571687705.jpg?fit=640%2C640&#038;ssl=1\" alt=\"Exemplares do livro 'Pensamento feminista negro', lan\u00e7ado em 1990 nos Estados Unidos e publicado no Brasil pela primeira vez em julho deste ano.\" \/><\/p>\n<p class=\"caption\"><em>Exemplares do livro \u2018Pensamento feminista negro\u2019, lan\u00e7ado em 1990 nos Estados Unidos e publicado no Brasil pela primeira vez em julho deste ano<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"217\">\n<p>N\u00e3o havia nenhum prop\u00f3sito em discutir a palavra o semestre todo, porque ela atrapalha. Eles falaram [em tom de quem caiu numa pegadinha]: \u201cVoc\u00ea \u00e9 t\u00e3o sagaz, Dra. Collins!\u201d. E eu: \u201cEu sei que sou sagaz. Agora voc\u00eas t\u00eam que dar um passo atr\u00e1s e se perguntarem: qual era a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas com essa palavra e com esse discurso antes de saber o que eram? De onde isso vinha e os interesses de quem voc\u00eas estavam servindo ao chegar com essas perspectivas?\u201d. Eles repetiram: \u201cVoc\u00ea \u00e9 t\u00e3o sagaz, Dra. Collins!\u201d, e eu s\u00f3 falei: \u201cQuer saber, essa disciplina acabou e vou deixar voc\u00eas com essas perguntas. Dispensados.\u201d [Risos]<\/p>\n<\/div>\n<blockquote class=\"Pullquote Pullquote--right\" data-reactid=\"218\">\n<div data-reactid=\"219\">\u201cUma aluna leu o livro e disse: \u2018Essa parte \u00e9 muito minha av\u00f3. Eu a entendo melhor agora\u2019. A\u00ed que eu soube que tinha acertado.\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<div data-reactid=\"220\">\n<p>\u00c9 por isso que o livro \u00e9 assimilado desse jeito. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria dele. Eu n\u00e3o cheguei falando: \u201cIsso \u00e9 pensamento feminista negro, essa \u00e9 a disciplina e n\u00f3s vamos recrutar\u2026!\u201d. Eu estava desenvolvendo os argumentos a partir da vida deles, certo? E dizendo mentalmente: \u201cIsso \u00e9 feminismo negro ou que o ele deveria ser\u201d. Eu amei essa pergunta, porque \u00e9 fundamentalmente sobre como temos que pensar fora da caixa a respeito da forma que fazemos nosso trabalho. Na verdade, foi da\u00ed que veio o livro. Deu para ver o peso daquilo, ent\u00e3o eu pedi quatro universit\u00e1rios da aula para lerem ele para mim.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a rea\u00e7\u00e3o deles?<\/strong><\/p>\n<p>Foi muito legal. Quando cheguei nas partes em que n\u00e3o estava muito segura, eu falei: \u201cQuero saber sobre o que esse livro faz voc\u00eas pensarem. Quando voc\u00ea chega na p\u00e1gina tal, no que voc\u00eas pensam? Apontem para mim as partes que fazem voc\u00eas refletirem.\u201d Eles indicavam as partes em que eu estava insegura, e uma jovem disse: \u201cEssa parte \u00e9 muito minha av\u00f3. Eu entendo totalmente isso e entendo minha av\u00f3 melhor agora\u201d. Foi a\u00ed que soube que tinha acertado. Eu n\u00e3o estava olhando para os poderes do al\u00e9m ou para a ideologia. Era muito p\u00e9 no ch\u00e3o, sobre o que as pessoas tinham me dito, o que tinham trazido, o que tinham feito.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-right width-fixed\" data-reactid=\"221\">\n<div data-reactid=\"222\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"size-thumbnail wp-image-273904 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/10\/WhatsApp-Image-2019-10-21-at-21.57.45-1571705947.jpeg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"Patricia Hill Collins refor\u00e7a mensagem que deixou na parede do Sesc Pinheiros em 18 de outubro: &quot;O futuro \u00e9 nosso! Permane\u00e7am fortes!&quot;.\" \/><\/p>\n<p class=\"caption\"><em>Patricia Hill Collins refor\u00e7a mensagem que deixou na parede do Sesc Pinheiros em 18 de outubro: \u201cO futuro \u00e9 nosso! Permane\u00e7am fortes!\u201d<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"223\">\n<p>Falando em encarceramento em massa, eu dei uma palestra numa pris\u00e3o. Existia um grupo de leitura l\u00e1 e eles organizavam os homens, que estavam lendo meu livro. Chegou um jovem que tinha lido cada p\u00e1gina de \u2018Pensamento feminista negro\u2019. Ele tinha um monte de post-its despontando do livro. Foi t\u00e3o incr\u00edvel. Um desses homens veio e disse: \u201cEu realmente consigo entender bem melhor o que eu tenho feito com a minha vida. Eu vejo isso agora\u201d.<\/p>\n<p>Eles estavam usando sua experi\u00eancia de encarceramento de forma diferente, para se reabilitarem. Eu realmente acredito em possibilidades para todas as pessoas, se elas estiverem abertas \u00e0 mudan\u00e7a. Esses pobres homens que est\u00e3o andando por a\u00ed dizendo: \u201cO feminismo negro \u00e9 ruim, n\u00e3o entra nessa\u201d s\u00e3o os que est\u00e3o feridos.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"third-party--article-bottom\" class=\"InlineDonationPromo-container\" data-reactid=\"224\">\n<div class=\"InlineDonationPromo\" data-reactid=\"225\">\n<div class=\"InlineDonationPromo-inner\" data-reactid=\"226\">\n<div class=\"InlineDonationPromo-body\" data-reactid=\"227\"><span class=\"InlineDonationPromo-intro-text\" data-reactid=\"228\">ANTES QUE VOC\u00ca SAIA\u2026\u00a0<\/span><span class=\"InlineDonationPromo-text\" data-reactid=\"229\">Quando Jair Bolsonaro foi eleito, sab\u00edamos que seria preciso ampliar nossa cobertura, fazer reportagens ainda mais contundentes e financiar investiga\u00e7\u00f5es mais profundas. Essa foi a miss\u00e3o que abra\u00e7amos com o objetivo de enfrentar esse per\u00edodo marcado por constantes amea\u00e7as \u00e0 liberdade de imprensa e \u00e0 democracia. Para isso, fizemos um chamado aos nossos leitores e a resposta foi imediata. Se voc\u00ea acompanha a cobertura do TIB, sabe o que conseguimos publicar gra\u00e7as \u00e0 incr\u00edvel generosidade de mais de 11 mil apoiadores. Sem a ajuda deles n\u00e3o ter\u00edamos investigado o governo ou exposto a corrup\u00e7\u00e3o do judici\u00e1rio. Quantas pr\u00e1ticas ilegais, injustas e violentas permaneceriam ocultas sem o trabalho dos nossos jornalistas? Este \u00e9 um agradecimento \u00e0 comunidade do Intercept Brasil e um convite para que voc\u00ea se junte a ela hoje. Seu apoio \u00e9 muito importante neste momento cr\u00edtico. N\u00f3s precisamos fazer ainda mais e prometemos n\u00e3o te decepcionar.<\/span><\/div>\n<div data-reactid=\"227\"><\/div>\n<div data-reactid=\"227\">https:\/\/theintercept.com\/2019\/10\/21\/entrevista-feminismo-patricia-hill-collins\/<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruna de Lara e Juliana Gon\u00e7alves &#8211; &#8220;A liberdade de uma pessoa n\u00e3o pode ser baseada na subordina\u00e7\u00e3o de outra&#8221;, afirmou Patricia Hill Collins ao p\u00fablico que a assistiu no \u00faltimo domingo, no Rio de Janeiro. 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