{"id":11729,"date":"2019-10-13T14:06:11","date_gmt":"2019-10-13T17:06:11","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11729"},"modified":"2019-10-13T14:06:11","modified_gmt":"2019-10-13T17:06:11","slug":"brecht-era-um-revolucionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/10\/13\/brecht-era-um-revolucionario\/","title":{"rendered":"Brecht era um revolucion\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marc Silberman<\/strong> &#8211; Brecht n\u00e3o transformou apenas o teatro alem\u00e3o; seu trabalho capturou seu compromisso radical com a pol\u00edtica socialista e a emancipa\u00e7\u00e3o do povo trabalhador.<\/p>\n<p>Bertolt Brecht foi um dos mais importantes dramaturgos, poetas e pensadores do s\u00e9culo 20. Um marxista n\u00e3o ortodoxo que buscou novas maneiras de unir arte e pol\u00edtica, durante sua vida ele foi frequentemente considerado um espinho por te\u00f3ricos comunistas mais tradicionais, mas tamb\u00e9m um dos escritores modernos mais inovadores.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua morte em 1956, a divis\u00e3o da Guerra Fria que dividiu a Alemanha tamb\u00e9m op\u00f4s linhas ideol\u00f3gicas, repercutindo na recep\u00e7\u00e3o de suas obras. O in\u00edcio das tradu\u00e7\u00f5es dos textos te\u00f3ricos e liter\u00e1rios de Brecht para o franc\u00eas, o ingl\u00eas e o espanhol, entre 1950 e 1960, introduziu novos problemas, especialmente devido ao estilo denso e aos neologismos do autor. Sua reputa\u00e7\u00e3o internacional, baseada \u00e0s vezes em escolhas estranhas e erros de tradu\u00e7\u00e3o, gerou controv\u00e9rsias e confus\u00f5es. Mas quem \u00e9 o Brecht que se conhece hoje?<\/p>\n<p>Em 1964, o proeminente escritor su\u00ed\u00e7o Max Frisch expressou provavelmente pela primeira vez a frustrada acusa\u00e7\u00e3o de \u201cesgotamento de Brecht\u201d, ao falar da \u201cinefic\u00e1cia not\u00e1vel de um cl\u00e1ssico liter\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Frisch n\u00e3o se referia \u00e0s obras de Brecht, mas \u00e0 recep\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona de sua obra. Ele est\u00e1 entre os cr\u00edticos de teatro e a resist\u00eancia contra suas inova\u00e7\u00f5es dramat\u00fargicas. Assim, resumiu a atitude daqueles que tratavam Brecht como se fosse um escritor cl\u00e1ssico, ignorando suas sugest\u00f5es para um novo teatro e transformando suas pe\u00e7as em insosso entretenimento.<\/p>\n<p>Se em 1964 Frisch falou em certo esgotamento de Brecht, trinta anos depois um proeminente cr\u00edtico liter\u00e1rio alem\u00e3o declarou Brecht \u201cmorto\u201d e mumificado, enquanto seu status como cl\u00e1ssico liter\u00e1rio avan\u00e7ou a um ponto em que o pol\u00eamico bi\u00f3grafo de Brecht John Fuegi \u2013 que alegou que Brecht \u201cobteve texto para sexo\u201d de suas colaboradoras \u2013 dizer que ele poderia ser criticado como um \u201cprofanador de monumentos\u201d.<\/p>\n<p>No 40\u00ba anivers\u00e1rio de sua morte, em 1996, e novamente em 1998 (no centen\u00e1rio de seu nascimento), n\u00e3o havia d\u00favida de que Brecht se tornara definitivamente um cl\u00e1ssico. A repeti\u00e7\u00e3o compulsiva desses julgamentos sugere at\u00e9 que ponto ainda estamos envolvidos com Brecht \u2013 n\u00e3o sua pessoa real, mas sim como a soma de uma obra contradit\u00f3ria e sua recep\u00e7\u00e3o pela cr\u00edtica.<\/p>\n<p>A seguir, exploro alguns dos mitos sobre a obsolesc\u00eancia de Brecht e por que seus escritos hoje ainda oferecem um modelo valioso para unir pol\u00edtica e cultura na esfera p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Tornando-se um cl\u00e1ssico<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Hoje, Brecht pode realmente impressionar como um cl\u00e1ssico no sentido tradicional, no que diz respeito \u00e0 popularidade. Durante anos, suas pe\u00e7as foram as mais encenadas na Alemanha e no mundo angl\u00f3fono. Ele \u00e9 citado juntamente com os tr\u00e1gicos gregos cl\u00e1ssicos, Moli\u00e9re, Ibsen e Tchekhov, entre os autores mais frequentemente encenados. Isso \u00e9 not\u00e1vel, dado o car\u00e1ter intelectualmente ambicioso do teatro de Brecht, que visa minar a rela\u00e7\u00e3o entre um p\u00fablico complacente e uma tradi\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica baseada no entretenimento.<\/p>\n<p>Sua influ\u00eancia se estende ainda mais. As t\u00e9cnicas brechtianas de estranhamento (<em>Verfremdung<\/em>), a ruptura das ilus\u00f5es realistas que se assistem no palco e a no\u00e7\u00e3o de \u201cgestus social\u201d, ou gestos f\u00edsicos, que podem revelar as contradi\u00e7\u00f5es das a\u00e7\u00f5es de uma figura, tornaram-se elementos familiares n\u00e3o s\u00f3 na realidade do teatro, mas na est\u00e9tica do cinema, da televis\u00e3o e at\u00e9 mesmo da publicidade, ainda que sem o objetivo pol\u00edtico de pensamento capaz de \u201ctransformar o mundo: ele precisa\u201d (veja-se a can\u00e7\u00e3o com este t\u00edtulo na pe\u00e7a did\u00e1tica de Brecht, \u201cA Decis\u00e3o\u201d, de 1930, can\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m conhecida como \u201cAs medidas tomadas\u201d).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 Brecht essencial a ser extra\u00eddo de seus escritos cr\u00edticos ou a ser esculpido em suas pr\u00e1ticas criativas, que eram, de qualquer forma, um trabalho em progresso. A pessoa e seus escritos foram, no entanto, instrumentalizados para v\u00e1rias agendas. A hist\u00f3ria p\u00f3s-guerra do Brecht erudito e da pr\u00e1tica teatral brechtiana \u00e9 marcada por compromissos ideol\u00f3gicos identific\u00e1veis, mudan\u00e7as e revis\u00f5es.<\/p>\n<p>Na Alemanha dividida, essa recep\u00e7\u00e3o seguiu padr\u00f5es claros mas antag\u00f4nicos. Seu retorno a Berlim Oriental em 1948 e o estabelecimento de seu pr\u00f3prio teatro (o Berliner Ensemble) foram celebrados pelo governo da Alemanha Oriental como um grande ato de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, j\u00e1 que ele representava uma forte linha de continuidade cultural com os intelectuais esquerdistas da Rep\u00fablica de Weimar.<\/p>\n<p>No entanto, no decorrer da d\u00e9cada de 1950, at\u00e9 sua morte em 1956, a pol\u00edtica e a est\u00e9tica de Brecht foram tratadas com desconfian\u00e7a pelos funcion\u00e1rios culturais do governo da Alemanha Oriental, porque seu \u201cformalismo\u201d n\u00e3o se ajustava \u00e0 imagem ortodoxa do realismo socialista. Ap\u00f3s o sucesso internacional das turn\u00eas do Ensemble para Paris (1954) e Londres (1956) e da pr\u00f3pria morte de Brecht (1956), seu trabalho tornou-se aceit\u00e1vel como modelo de teatro pol\u00edtico quando aplicado ao passado fascista e ao capitalismo, mas n\u00e3o s\u00f3 socialismo existente.<\/p>\n<p>Nisto podemos ver sementes da separa\u00e7\u00e3o entre o pol\u00edtico Brecht e seus textos art\u00edsticos. Grande parte de sua recep\u00e7\u00e3o posterior no Ocidente e nos pa\u00edses socialistas sofreu com essa defini\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica de \u201co pol\u00edtico\u201d, que sustenta posi\u00e7\u00f5es estreitas e pol\u00eamicas a favor ou contra a pr\u00f3pria pol\u00edtica do dramaturgo. Essas posi\u00e7\u00f5es tendem a fechar a energia inovadora e experimental do projeto de Brecht antes mesmo de come\u00e7ar a se desenvolver.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no impasse da Guerra Fria, a recep\u00e7\u00e3o de Brecht no Ocidente tomou um rumo diferente. Estimada ou at\u00e9 mesmo venerada por alguns poucos na d\u00e9cada de 1950 \u2013 mais frequentemente em pa\u00edses como It\u00e1lia, Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha do que na Alemanha Ocidental -, a escolha de Brecht pela \u201coutra\u201d Alemanha socialista levou a um virtual boicote em todos os teatros subsidiados pelos governos. Em meados da d\u00e9cada de 1960, sua imagem foi engessada nos pa\u00edses socialistas como um \u00edcone oficial do realismo socialista, enquanto no Ocidente estava prestes a ser descoberto pela gera\u00e7\u00e3o jovem politicamente motivada como uma alternativa \u00e0 heran\u00e7a abafada e dominante do humanismo pseudointelectual.<\/p>\n<p>Para alguns, ele se tornou o trampolim para uma forma alternativa e cr\u00edtica de pensar; para outros, uma arma nas batalhas ideol\u00f3gicas. A d\u00e9cada de 1970 foi renovadora: uma gera\u00e7\u00e3o de jovens escritores da Alemanha Oriental, que estudavam o pensamento dial\u00e9tico e a linguagem de Brecht, trouxe seu legado ao presente (por exemplo, escritores como Heiner M\u00fcller e Volker Braun). Na Alemanha Ocidental, o entusiasmo inicial pelo Brecht \u201cestabelecido\u201d, do Berliner Ensemble, empalideceu, e o in\u00edcio de Brecht e suas pe\u00e7as did\u00e1ticas \u2013 amplamente ignoradas nos pa\u00edses socialistas \u2013 passaram a dominar a aten\u00e7\u00e3o de teatros e estudiosos progressistas.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, Brecht se tornou parte de cada um dos diferentes c\u00e2nones da Alemanha, num trabalho que se tornou profissionalizado, institucionalizado e especializado, e ironicamente parte de um sistema de autoriza\u00e7\u00e3o legitima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nas universidades e nos teatros que subsidiavam. Suas hist\u00f3rias, poemas e pe\u00e7as foram antologizadas. Foram incorporadas a um contexto de discursos concorrentes e contradit\u00f3rios. Uma imagem siamesa de Brecht floresceu nas tens\u00f5es entre o Ocidente e os pa\u00edses socialistas. Uma ret\u00f3rica \u00e0s vezes agressiva de acusa\u00e7\u00f5es e hipocrisia marcava cada um dos oponentes: de um lado, o pol\u00edtico Brecht; do outro, o poeta Brecht; aqui o rebelde Brecht, l\u00e1 o stalinista Brecht; aqui o antiquado Brecht, ali sua cr\u00edtica totalizadora do\u00a0<em>status quo<\/em>.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00f5es em todos os principais idiomas e o magnetismo de um pensador n\u00e3o dogm\u00e1tico fizeram de Brecht um objeto a ser desconstru\u00eddo a uma dist\u00e2ncia cr\u00edtica por estudiosos e artistas de outros pa\u00edses. Na Am\u00e9rica Central e do Sul, \u00c1sia e \u00c1frica, seu trabalho desempenhou e continua desempenhando um papel vital na articula\u00e7\u00e3o do processo emancipat\u00f3rio de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Da mesma forma, teatros underground, alternativos e de vanguarda \u201cliam\u201d Brecht na contram\u00e3o, atrav\u00e9s de v\u00e1rios filtros: feminismo, teoria da performance, corpo, humor, etc. Depois do fim da Guerra Fria, artistas, cr\u00edticos e intelectuais descobriram textos de Brecht para abordar velhas e novas quest\u00f5es que ressoam com seus p\u00fablicos: o surgimento de neonazistas, de l\u00edderes autocr\u00e1ticos, a constante amea\u00e7a da guerra.<\/p>\n<p><strong>Pensamento intervencionista<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Qual, ent\u00e3o, \u00e9 a relev\u00e2ncia de Brecht hoje? As for\u00e7as sempre em expans\u00e3o do capitalismo global, a hegemonia dos mecanismos do mercado, o crescimento das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e a tend\u00eancia de mudar da pol\u00edtica de classe para a identit\u00e1ria exigem novas ferramentas conceituais e anal\u00edticas quando se pretende entender onde e como o terreno cultural pode ser debatido. Enquanto isso, categorias conceituais tradicionais, como esclarecimento, pedagogia, progresso, raz\u00e3o e hist\u00f3ria \u2013 todos princ\u00edpios fundamentais na vis\u00e3o de Brecht de transformar a sociedade \u2013 t\u00eam sido questionadas como os valores de \u201chomens brancos ultrapassados\u201d a servi\u00e7o das elites dominantes.<\/p>\n<p>Tudo isso relega a obra de Brecht a um per\u00edodo de modernismo historicamente determinado, mas tamb\u00e9m ecoa a crise na representa\u00e7\u00e3o que fundamenta a sua est\u00e9tica. As ilus\u00f5es hist\u00f3ricas do modernismo tornaram-se agora um problema de posicionamento do sujeito em realidades radicalmente descont\u00ednuas. As importantes mudan\u00e7as no mapa da Europa na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado sugerem que esse problema de posicionamento tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o de pol\u00edtica pr\u00e1tica, j\u00e1 que se pode ver que as demandas interconectadas levantadas por entidades locais, nacionais e internacionais produzem tens\u00f5es crescentes no espa\u00e7o multinacional em que se vive hoje.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as alternativas que substituem as utopias desintegradas do modernismo (nacionalismo, regionalismo, ecologia, uma renovada consci\u00eancia da tradi\u00e7\u00e3o, etc.) ainda precisam se provar mais do que desculpas por uma nova hierarquia de rela\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias ou totalit\u00e1rias entre o particular e o geral. Dada a nossa dist\u00e2ncia de Brecht e seu sistema de refer\u00eancia pol\u00edtica, deveria ser poss\u00edvel ler seus textos sem vi\u00e9s ideol\u00f3gicos, e assim descobrir como ele usou e transformou o material com que construiu representa\u00e7\u00f5es da realidade.<\/p>\n<p>De fato, responder \u00e0 quest\u00e3o de saber se Brecht \u00e9 relevante \u00e9 considerar se a arte pol\u00edtica \u00e9 (ainda) poss\u00edvel. Para este fim, \u00e9 \u00fatil explicar o que Brecht quis dizer com pensamento intervencionista (\u201ceingreifendes Denken\u201d), uma categoria central em sua convic\u00e7\u00e3o de que o mundo precisa ser mudado. N\u00e3o \u00e9 de surpreender que essa n\u00e3o seja uma tarefa simples porque, como tantas coisas no pensamento desse pragm\u00e1tico, suas sugest\u00f5es foram orientadas para condi\u00e7\u00f5es e situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas concretas.<\/p>\n<p>O pensamento intervencionista \u2013 um conceito que surgiu no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, durante o que talvez fosse a fase de trabalho mais produtiva de Brecht \u2013 foi algo que ele realizou de v\u00e1rias formas e com objetivos diferentes no ex\u00edlio (1933-1948) e ap\u00f3s a volta \u00e0 Alemanha Oriental. Primeiro, \u00e9 importante estabelecer a conex\u00e3o entre \u201cinterven\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpensamento\u201d. O pensamento descreve uma rela\u00e7\u00e3o contemplativa com um objeto, com um evento ou com o mundo; marca acima de tudo um processo de distanciamento entre o sujeito e o objeto. Pensar em algo desencadeia a an\u00e1lise e a l\u00f3gica, que desconstroem e depois reconstroem esse \u201calgo\u201d. A interven\u00e7\u00e3o \u00e9 o oposto do pensamento, pois descreve um ato. Do ponto de vista do sujeito, a interven\u00e7\u00e3o se refere \u00e0 mudan\u00e7a do objeto, o curso de um evento ou a condi\u00e7\u00e3o do mundo. Em suma, o pensamento intervencionista \u00e9 t\u00edpico da vis\u00e3o de mundo antag\u00f4nica de Brecht.<\/p>\n<p>Sua criatividade viveu de crises e encontrou sua inspira\u00e7\u00e3o mais produtiva a partir da intensifica\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es. Para isso, ele concebeu formas po\u00e9ticas e est\u00e9ticas sempre novas e din\u00e2micas. O conceito de pensamento intervencionista abstrai essa din\u00e2mica; significa uma atitude que exige n\u00e3o apenas contempla\u00e7\u00e3o e cogni\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m aplica\u00e7\u00e3o e efeito. O pensamento intervencionista \u00e9, ent\u00e3o, o resultado de formas est\u00e9ticas espec\u00edficas que colocam o destinat\u00e1rio (por exemplo, o leitor, o p\u00fablico, o participante) em movimento atrav\u00e9s de um processo anal\u00edtico de distanciamento.<\/p>\n<p>Muitas ou mesmo todas as pe\u00e7as de Brecht s\u00e3o diretamente pol\u00edticas, abordando temas pol\u00edticos espec\u00edficos. No entanto, os seus interesses iam para al\u00e9m das especificidades hist\u00f3ricas, para procurar formas de apresentar problemas que revelassem o contexto e as rela\u00e7\u00f5es de poder, despertando assim o desejo de mudar as coisas. Em um sentido mais largo sua \u201cpol\u00edtica\u201d foi de encontro \u00e0 institui\u00e7\u00e3o da arte que era, para ele, essencialmente conservador. O trabalho pr\u00e1tico de Brecht consistiu em produzir contradi\u00e7\u00f5es, revisar textos e romper a passividade consumista do p\u00fablico. Como abstra\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, o conceito de pensamento intervencionista ainda \u00e9 vi\u00e1vel, mas torna-se problem\u00e1tico quando se tenta definir seu conte\u00fado. Que formas est\u00e9ticas s\u00e3o hoje ainda utiliz\u00e1veis? Existe um conjunto de \u201ct\u00e9cnicas brechtianas\u201d ou elementos estil\u00edsticos concebidos por Brecht para situa\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas e institui\u00e7\u00f5es da d\u00e9cada de 1930, 1940, ou 1950, que ainda hoje s\u00e3o v\u00e1lidos? Tais perguntas n\u00e3o podem ser respondidas abstratamente e universalmente. O pensamento intervencionista seria engajado diferentemente em v\u00e1rios momentos e lugares, pois n\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula, mas uma atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia e \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui vale a pena considerar o utopismo de Brecht. Pois \u00e9 aqui que a pr\u00f3pria capacidade de imaginar a mudan\u00e7a revela seus limites hist\u00f3ricos e repress\u00f5es sist\u00eamicas. As utopias do modernismo procuraram reabilitar o sujeito de sua anomia e aliena\u00e7\u00e3o, imaginando um n\u00e3o lugar, fora do espa\u00e7o e do tempo, no qual o ideal de unidade entre trabalho e vida, indiv\u00edduo e coletivo, arte e pol\u00edtica, economia e moralidade, reinaria. Brecht criou tais \u201cn\u00e3o lugares\u201d em seu trabalho, deslocando as configura\u00e7\u00f5es de suas pe\u00e7as de uma Chicago m\u00edtica para o C\u00e1ucaso ou para a China e brincando com anacronismo em pe\u00e7as como\u00a0<em>M\u00e3e Coragem<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>Santa Joana dos Matadouros<\/em>. No entanto, ele insiste precisamente na diferen\u00e7a, a fim de produzir novos insights sobre as rela\u00e7\u00f5es estruturais e entre especificidades historicamente mediadas.<\/p>\n<p><em>Verfremdung<\/em>\u00a0(por exemplo, estranhamento) \u00e9 o principal meio de percep\u00e7\u00e3o historicizante de Brecht, de demonstrar que o passado era diferente do presente e que, como o passado mudou, o presente \u00e9 mut\u00e1vel. Sem d\u00favida, isso est\u00e1 relacionado a uma profunda empatia pela luta para sobreviver, que ele enfrentou existencialmente como o ex\u00edlio durante o Terceiro Reich. As pe\u00e7as de Brecht, em especial as par\u00e1bolas maduras, tocam em \u00e9pocas e lugares distantes, mas refletem sobre os dilemas pol\u00edticos e morais de seu presente, constroem situa\u00e7\u00f5es que evidenciam as contradi\u00e7\u00f5es entre o comportamento antigo ainda funcional e as novas situa\u00e7\u00f5es. Esta disjun\u00e7\u00e3o entre o tempo hist\u00f3rico e o tempo do sujeito \u00e9 mediada pela utopia. A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de reformar um sistema opressivo, mas de transform\u00e1-lo, de capacitar as pessoas a compreenderem o seu presente, a fim de mud\u00e1-lo. Esta \u00e9 a dial\u00e9tica materialista de Brecht \u2013 seu esfor\u00e7o para imaginar algo que ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas j\u00e1 \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Comprometido com a vanguarda pol\u00edtica, Brecht buscou uma utopia que integrasse arte e pr\u00e1xis social. Naturalmente, essa vis\u00e3o emergiu de uma situa\u00e7\u00e3o social particular e foi sujeita \u00e0s mudan\u00e7as importantes na \u00eanfase sobre o tempo. Testemunhando o colapso da antiga ordem e a problem\u00e1tica constitui\u00e7\u00e3o de uma nova cada vez mais inaceit\u00e1vel na Alemanha de 1920, ele foi atra\u00eddo pela id\u00e9ia de reden\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da nega\u00e7\u00e3o de si mesmo. O excesso e isolamento dos anti-her\u00f3is associais das primeiras pe\u00e7as na d\u00e9cada de 1920 expressam sua cr\u00edtica ao sujeito burgu\u00eas sem escorregar para a solu\u00e7\u00e3o modernista de fugir das massas atrav\u00e9s do hiperindividualismo. No final dos anos 20 e, em particular, com a aprendizagem experimental (<em>Lehrst\u00fccke<\/em>) do in\u00edcio dos anos 30, Brecht procurou formular uma alternativa a esta postura subjetivista, antiburguesa. Assume a forma de uma coletividade que deriva da consci\u00eancia dos sujeitos individuais transformados em uma identidade de classe na din\u00e2mica da luta de massa. O caos social e o desenraizamento individual d\u00e3o forma a um modelo do consenso da obedi\u00eancia ao coletivo (<em>einverst\u00e4ndnis<\/em>) e a um indiv\u00edduo novo que seja definido n\u00e3o na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s massas mas atrav\u00e9s delas.<\/p>\n<p><strong>Desmistifica\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Esta coletividade n\u00e3o teve apenas consequ\u00eancias est\u00e9ticas, mas tamb\u00e9m biogr\u00e1ficas, na pr\u00e1tica colaborativa de Brecht. Uma das caracter\u00edsticas distintivas da crise modernista na Alemanha durante a Rep\u00fablica de Weimar foi uma r\u00e1pida mudan\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o cultural. A crescente comercializa\u00e7\u00e3o da atividade de lazer com o surgimento do entretenimento popular (cinema, esportes, dan\u00e7a, jazz, etc.) e a mercantiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es culturais que a acompanharam marcaram uma crise social em fun\u00e7\u00e3o das tradicionais institui\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<p>O p\u00fablico burgu\u00eas educado estava se dissolvendo, e seu lugar era tomado por um p\u00fablico muito mais amplo de consumidores com novas demandas de atividade imaginativa e recreacional. Essa tend\u00eancia para a democratiza\u00e7\u00e3o cultural tamb\u00e9m afetou o papel e a autoidentidade do escritor. Por um lado, os vanguardistas, assim como os tradicionalistas, procuraram novas formas de afirmar o seu elitismo; por outro, escritores como Brecht abra\u00e7aram a tend\u00eancia da modernidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o social e \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o como emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p>As restri\u00e7\u00f5es do individualismo burgu\u00eas estavam sendo abandonadas. Brecht come\u00e7ou a desenvolver uma abordagem \u00e0 produ\u00e7\u00e3o que submergiu a subjetividade do autor num coletivo. A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de atividade est\u00e9tica como \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d (em vez de cria\u00e7\u00e3o), teorizada por Brecht desde 1932 indica esta mudan\u00e7a fundamental. De fato, seu homem \u00e9 igual ao homem de um modelo sociol\u00f3gico de constitui\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria baseada no protagonismo no processo socioecon\u00f4mico. A desmistifica\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o burguesa do indiv\u00edduo \u00e9 igualmente pertinente para a desmistifica\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o burguesa de autor. Com o crescimento de novas formas de domina\u00e7\u00e3o e, especificamente, a ascens\u00e3o do fascismo na d\u00e9cada de 1930, a vis\u00e3o de Brecht de uma sociedade mais humana tornou-se mais e mais dif\u00edcil, enquanto suas tentativas de representar uma ordem alternativa convincente ao fascismo contempor\u00e2neo falharam em grande parte. For\u00e7ado ao ex\u00edlio e confrontado com os horrores do nazismo, Brecht centrou-se em novas possibilidades de representar o velho, em vez de construir uma nova ordem.<\/p>\n<p>Por um lado, o reducionismo formal que suas par\u00e1bolas desempenham a partir deste per\u00edodo parece funcionar como uma esp\u00e9cie de escudo protetor contra as contradi\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis da realidade, mas, por outro, a mudan\u00e7a no sujeito e t\u00e9cnica para formas mais deliberadas de distanciamento desvia a rela\u00e7\u00e3o texto-audi\u00eancia transferindo a imagina\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica para os pr\u00f3prios espectadores. O pr\u00f3logo para o\u00a0<em>C\u00edrculo de Giz Caucasiano<\/em>\u00a0(escrita em 1944, publicada pela primeira vez em 1949) oferece uma sugest\u00e3o sucinta da utopia pol\u00edtica e po\u00e9tica que ele imaginou em suas pe\u00e7as maduras.<\/p>\n<p>No jogo, o \u201cconflito de instinto materno versus la\u00e7os de sangue\u201d se desdobra contra o pano de fundo da desigualdade e injusti\u00e7a quando, durante uma guerra, uma dama nobre abandona seu filho, que acaba sendo criado por uma criada at\u00e9 que a paz retorna e a crian\u00e7a acaba sendo herdeira de uma fortuna. O pr\u00f3logo levanta a quest\u00e3o de como uma sociedade pode ser reconstru\u00edda ap\u00f3s a cat\u00e1strofe nazista. O cen\u00e1rio do pr\u00f3logo, na Ge\u00f3rgia Sovi\u00e9tica, a primeira regi\u00e3o de onde o ex\u00e9rcito nazista invasor foi expulso, traz o di\u00e1logo de dois grupos de agricultores (pastores de cabras e cultivadores de frutas), que competem pelo controle da terra f\u00e9rtil. Projetando seus pr\u00f3prios medos de uma recorr\u00eancia da ideologia nazista, nacionalista e racista, Brecht mostra como uma atitude iluminada em rela\u00e7\u00e3o ao argumento fundamentado poderia ser um modelo para a Europa p\u00f3s-guerra. O destino coletivo que os dois grupos de agricultores antecipam chegam a uma resolu\u00e7\u00e3o de seu conflito atrav\u00e9s da narra\u00e7\u00e3o da cantora que, na parte principal da pe\u00e7a, demonstra como a arte (a narra\u00e7\u00e3o do cantor) e o trabalho (o projeto da fazenda coletiva) s\u00e3o formas de produ\u00e7\u00e3o igualmente valiosas para os sujeitos livres.<br \/>\nA representa\u00e7\u00e3o, a est\u00e9tica e o trabalho da imagina\u00e7\u00e3o tornam-se atos pol\u00edticos com um valor de uso compar\u00e1vel ao trabalho.<\/p>\n<p>Em seus escritos te\u00f3ricos dos anos 40, Brecht caracterizou essa coletividade como a forma como as pessoas vivem juntas (\u201c<em>das menschliche Zusammenleben<\/em>\u201d) \u2013 e, ap\u00f3s a guerra, seus empreendimentos no Berliner Ensemble compuseram, no teatro, o modelo pr\u00e1tico para tal coletivo, pelo menos em uma forma \u00e1spera, imperfeita.<\/p>\n<p><strong>Brecht, o marxista<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Brecht tornou-se marxista no final da d\u00e9cada de 1920. Como o Marx dos primeiros tempos, sua cr\u00edtica ao capitalismo n\u00e3o foi anticapitalista, mas, sim, a postulou como uma for\u00e7a material, como um motor para rela\u00e7\u00f5es cada vez mais complexas de produ\u00e7\u00e3o. No entanto, h\u00e1 uma continuidade idealista nesse pensamento marxista ut\u00f3pico ao qual Brecht adere. Presume-se que todos compartilham os interesses do coletivo imaginado por causa de uma identidade de classe fundamental, enquanto as intera\u00e7\u00f5es altamente diferenciadas em tal constela\u00e7\u00e3o social sugerem uma interse\u00e7\u00e3o muito mais complexa de necessidades, demandas, medos e desejos.<\/p>\n<p>Brecht tamb\u00e9m insistiu em uma defini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sociol\u00f3gica de classe como a articula\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria ou hegem\u00f4nica da identidade do sujeito. Mas ele n\u00e3o estava alheio a outros elementos da complexidade do sujeito. Todo seu modelo po\u00e9tico, por exemplo, tem base na forte tradi\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o marxista da dial\u00e9tica como um movimento para a resolu\u00e7\u00e3o de contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sua defini\u00e7\u00e3o evolutiva do teatro \u00e9pico na d\u00e9cada de 1930 \u2013 com sua separa\u00e7\u00e3o de elementos teatrais como m\u00fasica, texto e sets e seu estresse sobre a qualidade interruptiva do fragmento ou montagem devido \u00e0 sua abertura ao p\u00fablico \u2013, bem como suas mais recentes revis\u00f5es da \u201cconfabula\u00e7\u00e3o\u201d do p\u00fablico (1950), no que chamou teatro dial\u00e9tico s\u00e3o exemplos de sua vis\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o como um momento produtivo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a reformula\u00e7\u00e3o de Brecht do coletivo como uma comunidade intersubjetiva \u201cvivendo juntos\u201d enfatiza a posicionalidade dos sujeitos que est\u00e3o constantemente produzindo-se como sujeitos por meio de conflitos e contradi\u00e7\u00f5es uns com os outros. Claramente, compreendeu a id\u00e9ia do tema como constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Brecht n\u00e3o era ut\u00f3pico de olhar r\u00f3seo, mas um artista-intelectual que desenvolveu suas faculdades cr\u00edticas atrav\u00e9s da experi\u00eancia de revers\u00f5es pol\u00edticas e rupturas hist\u00f3ricas. O colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do socialismo ossificado identificado com ela \u00e9 um ind\u00edcio poderoso do utopismo da esquerda tradicional. Mas o projeto de Brecht de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria nunca procurou dar respostas sobre como tornar o mundo melhor. Em vez disso, seus escritos s\u00e3o roteiros de como fazer perguntas \u2013 como formular as perguntas certas para uma determinada situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel que, portanto, deve ser mudada.<\/p>\n<p>Enquanto Brecht acreditava no poder da raz\u00e3o que permite \u00e0s pessoas reconhecer os problemas e resolv\u00ea-los, ele n\u00e3o era nem um racionalista de mente estreita, nem um crente ing\u00eanuo na inevitabilidade do progresso e da emancipa\u00e7\u00e3o humana. Assim, sua cr\u00edtica \u00e0s emo\u00e7\u00f5es, que \u00e9 frequentemente mal compreendida ou implantada como uma dramaturgia da \u201cfrieza\u201d, n\u00e3o foi dirigida contra o sentimento ou a espontaneidade como tal, mas sim contra a fun\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es no teatro tradicional. Como o pensamento intervencionista, a cren\u00e7a de Brecht na raz\u00e3o \u00e9 um conceito funcional que permite que os indiv\u00edduos determinem seu interesse e atuem por eles, ou seja, um princ\u00edpio de a\u00e7\u00e3o fundamentada, n\u00e3o excluindo nem paix\u00e3o nem emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Areia nas engrenagens<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Nossa imagem de Brecht \u00e9 mediada, constru\u00edda a partir de fatos biogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos, leituras interpretativas e especula\u00e7\u00f5es pol\u00eamicas, necessidades instrumentalizadas e desejos ut\u00f3picos. Este Brecht-em-processo, cuja imagem nunca \u00e9 finalmente estabelecida, contribui precisamente para a sua qualidade ainda capaz de provocar. Sim, Brecht \u00e9 um cl\u00e1ssico hoje, reconhecido como um artista can\u00f4nico e pensador na modernista tradi\u00e7\u00e3o iluminadora sobre a qual refletiu e escreveu, sobre algumas das grandes cat\u00e1strofes no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Em um mundo regido por meios de comunica\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas, a voz de Brecht soa estranhamente antiquada, enquanto simultaneamente pr\u00e1ticas brechtianas \u2013como a vandaliza\u00e7\u00e3o da literatura mundial, misturando poesia e kitsch, usando a cultura de massa positivamente na apresenta\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o da arte \u2013 n\u00e3o s\u00f3 foram cooptados pela economia de mercado, mas foram integrados em suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias de funcionamento.<\/p>\n<p>Na era da transmiss\u00e3o pela televis\u00e3o e das identidades virtuais da internet, mesmo o efeito do estranhamento (o famoso V-effekt de Brecht) pode ser usado eficientemente para vender commodities. No entanto, esse tipo de pessimismo assume uma parte do em um sistema que levanta imagens na m\u00eddia para as experi\u00eancias definitivas no capitalismo avan\u00e7ado. Para aqueles que compartilham o projeto cr\u00edtico de Brecht, o objetivo \u00e9 buscar formas de instru\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o que, em vez disso, incentivem o pensamento, e n\u00e3o apenas as atitudes contemplativas.<\/p>\n<p>Brecht era um mestre astuto em jogar \u201careia nas engrenagens\u201d de hierarquias institucionais. A esse respeito, \u00e9 um exemplo particularmente relevante para o intelectual p\u00fablico de hoje. Viveu numa \u00e9poca em que a autoimagem do artista e pensador como pessoa socialmente e politicamente engajada correspondia \u00e0s expectativas do p\u00fablico; hoje, por\u00e9m, a autonomia e a autopreserva\u00e7\u00e3o dos artistas e pensadores parece mais importante. Em uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que amea\u00e7a pensadores cr\u00edticos e desvaloriza estrat\u00e9gias de cr\u00edtica, precisa-se de modelos de vozes opostas, para que n\u00e3o se esque\u00e7a da necessidade de protesto. Brecht \u00e9 um modelo vinculado a um partido, independente de institui\u00e7\u00f5es oficiais ainda experientes em sobreviver dentro de institui\u00e7\u00f5es, novamente e novamente preparados para entreter os riscos e empreender tentativas n\u00e3o convencionais: foi assim que Brecht acomodou um mundo que viu como mut\u00e1vel. Em nossos tempos, quando a m\u00eddia social cria os valores da opini\u00e3o p\u00fablica, tentativas e estrat\u00e9gias para jogar \u201careia nas engrenagens\u201d s\u00e3o novamente \u00fateis, e os escritos de Brecht oferecem exemplos convincentes de como faz\u00ea-lo. Como testemunhas de como as novas tecnologias descolocam t\u00edtulos e identidades familiares, precisamos de ferramentas que possam fortalecer a percep\u00e7\u00e3o, tornar as rela\u00e7\u00f5es humanas vis\u00edveis e desestabilizar os h\u00e1bitos comuns.<\/p>\n<p>A principal contribui\u00e7\u00e3o de Brecht, ent\u00e3o, pode ser encontrada nas formas inovadoras que ele planejou para examinar a hist\u00f3ria e tornar vis\u00edvel a alterabilidade dos processos da hist\u00f3ria. Inscrito com as colis\u00f5es e rupturas do s\u00e9culo em que viveu, o significado de Brecht como um artista e um pensador se tornar\u00e1 relevante sempre que sua vis\u00e3o se torna necess\u00e1ria, sempre que uma situa\u00e7\u00e3o conducente \u00e0 imprevisibilidade ideol\u00f3gica possibilite que as ideias sejam criticadas, radicalmente, sem a preocupa\u00e7\u00e3o de restabelecer certezas. Em suma, o impacto de Brecht n\u00e3o \u00e9 ter encontrado quaisquer receitas que tenha proposto, mas, sim, na capacidade de seus escritos para alimentar a nossa pr\u00f3pria criatividade de pensar sobre as verdades e os processos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"bwhhfnAMIU\"><p><a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/10\/brecht-era-um-revolucionario\/\">Brecht era um revolucion\u00e1rio<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Brecht era um revolucion\u00e1rio&#8221; &#8212; Jacobin Brasil\" src=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/10\/brecht-era-um-revolucionario\/embed\/#?secret=nY0HQNBtSq#?secret=bwhhfnAMIU\" data-secret=\"bwhhfnAMIU\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marc Silberman &#8211; Brecht n\u00e3o transformou apenas o teatro alem\u00e3o; seu trabalho capturou seu compromisso radical com a pol\u00edtica socialista e a emancipa\u00e7\u00e3o do povo trabalhador. 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