{"id":11722,"date":"2019-10-11T13:29:33","date_gmt":"2019-10-11T16:29:33","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11722"},"modified":"2019-10-11T09:31:22","modified_gmt":"2019-10-11T12:31:22","slug":"marilena-chaui-o-que-e-a-nova-ultradireita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/10\/11\/marilena-chaui-o-que-e-a-nova-ultradireita\/","title":{"rendered":"Marilena Chau\u00ed: o que \u00e9 a \u201cnova\u201d ultradireita?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marilena Chau\u00ed<\/strong> &#8211; Ela flerta com o fascismo, mas submete a na\u00e7\u00e3o aos poderes globais. \u00c9 totalit\u00e1ria\u00a0\u2013 mas n\u00e3o imp\u00f5e a l\u00f3gica do Estado, e sim a da Mercadoria, da Empresa, da Meritocracia, do Investidor. Contra tal distopia, a ideia de\u00a0revolu\u00e7\u00e3o social<\/p>\n<p>Tornou-se corrente nas esquerdas o uso de termos fascismo e neofascismo para descrever criticamente nosso presente.<\/p>\n<p>Estamos acostumados a identificar o fascismo com a presen\u00e7a do l\u00edder de massas como autocrata. \u00c9 verdade que, hoje, embora os governantes n\u00e3o se alcem \u00e0 figura do autocrata, operam com um dos instrumentos caracter\u00edstico do l\u00edder fascista, qual seja, a rela\u00e7\u00e3o direta com \u201co povo\u201d, sem media\u00e7\u00f5es institucionais e mesmo contra elas. Tamb\u00e9m, hoje, se encontram presentes outros elementos pr\u00f3prios do fascismo: o discurso de \u00f3dio ao outro \u2013 racismo, homofobia, misoginia; o uso das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o que levam a n\u00edveis impens\u00e1veis as pr\u00e1ticas de vigil\u00e2ncia, controle e censura; e o cinismo ou a recusa da distin\u00e7\u00e3o entre verdade e mentira como forma can\u00f4nica da arte de governar.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o emprego esse termo por tr\u00eas motivos: (a) porque o fascismo tem um cunho militarista que, apesar das amea\u00e7as de Trump \u00e0 Venezuela ou ao Ir\u00e3,\u00a0 as a\u00e7\u00f5es de Nathanayu sobre a faixa de Gaza, ou a exibi\u00e7\u00e3o da valentia do homem armado pelo governo Bolsonaro e suas liga\u00e7\u00f5es com as mil\u00edcias de exterm\u00ednio, n\u00e3o podem ser identificados com a ideia fascista do povo armado; (b) porque o fascismo prop\u00f5e um nacionalismo extremado, por\u00e9m a globaliza\u00e7\u00e3o, ao enfraquecer a ideia do Estado-na\u00e7\u00e3o como enclave territorial do capital, retira do nacionalismo o lugar de centro mobilizador da pol\u00edtica e da sociedade; (c) porque o fascismo pratica o imperialismo sob a forma do colonialismo, mas a economia neoliberal dispensa esse procedimento usando a estrat\u00e9gia de ocupa\u00e7\u00e3o militar de um espa\u00e7o delimitado por um tempo delimitado para devasta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica desse territ\u00f3rio, que \u00e9 abandonado depois de completada a espolia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em vez de fascismo, denomino o neoliberalismo com o termo\u00a0<em>totalitarismo<\/em>, tomando como refer\u00eancia as an\u00e1lises da Escola de Frankfurt sobre os efeitos do surgimento da ideia de\u00a0<em>sociedade administrada.<\/em><\/p>\n<p>O movimento do capital transforma toda e qualquer realidade em objeto do e para o capital, convertendo tudo em mercadoria, instituindo um sistema universal de equival\u00eancias pr\u00f3prio de uma forma\u00e7\u00e3o social baseada na troca pela media\u00e7\u00e3o de uma mercadoria universal abstrata, o dinheiro.<\/p>\n<p>A isso corresponde o surgimento de uma pr\u00e1tica, a da\u00a0<em>administra\u00e7\u00e3o<\/em>, que se sustenta sobre dois pilares: o de que toda dimens\u00e3o da realidade social \u00e9 equivalente a qualquer outra e por esse motivo \u00e9 administr\u00e1vel de fato e de direito, e o de que os princ\u00edpios administrativos s\u00e3o os mesmos em toda parte porque todas as manifesta\u00e7\u00f5es sociais, sendo equivalentes, s\u00e3o regidas pelas mesmas regras. A administra\u00e7\u00e3o \u00e9 concebida e praticada segundo um conjunto de normas gerais desprovidas de conte\u00fado particular e que, por seu formalismo, s\u00e3o aplic\u00e1veis a todas as manifesta\u00e7\u00f5es sociais. A pr\u00e1tica administrada transforma uma\u00a0<em>institui\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0social numa\u00a0<em>organiza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Uma institui\u00e7\u00e3o social \u00e9 uma pr\u00e1tica social fundada no reconhecimento p\u00fablico de sua legitimidade e de suas atribui\u00e7\u00f5es, num princ\u00edpio de diferencia\u00e7\u00e3o que lhe confere autonomia perante outras institui\u00e7\u00f5es sociais, sendo estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos. Sua a\u00e7\u00e3o se realiza numa temporalidade aberta ou hist\u00f3rica porque sua pr\u00e1tica a transforma segundo as circunst\u00e2ncias e suas rela\u00e7\u00f5es com outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em contrapartida, uma organiza\u00e7\u00e3o se define por sua instrumentalidade, fundada nos pressupostos administrativos da equival\u00eancia. Est\u00e1 referida ao conjunto de meios particulares para obten\u00e7\u00e3o de um objetivo particular, ou seja, n\u00e3o est\u00e1 referida a a\u00e7\u00f5es articuladas \u00e0s ideias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a\u00a0<em>opera\u00e7\u00f5es<\/em>, isto \u00e9, estrat\u00e9gias balizadas pelas ideias de efic\u00e1cia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcan\u00e7ar o objetivo particular que a define. \u00c9 regida pelas ideias de gest\u00e3o, planejamento, previs\u00e3o, controle e \u00eaxito, por isso sua temporalidade \u00e9 ef\u00eamera e n\u00e3o constitui uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Por que designar o neoliberalismo como o novo totalitarismo?<\/strong><\/p>\n<p><em>Totalitarismo:<\/em>\u00a0por que em seu n\u00facleo encontra-se o princ\u00edpio fundamental da forma\u00e7\u00e3o social totalit\u00e1ria, qual seja, a recusa da especificidade das diferentes institui\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas que s\u00e3o consideradas homog\u00eaneas e indiferenciadas porque s\u00e3o concebidas como organiza\u00e7\u00f5es. O totalitarismo \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da imagem de uma sociedade homog\u00eanea e, portanto, a recusa da heterogeneidade social, da exist\u00eancia de classes sociais, da pluralidade de modos de vida, de comportamentos, de cren\u00e7as e opini\u00f5es, costumes, gostos e valores.<\/p>\n<p><em>Novo:<\/em>\u00a0por que, em lugar da forma do Estado absorver a sociedade, como acontecia nas formas totalit\u00e1rias anteriores, vemos ocorrer o contr\u00e1rio, isto \u00e9, a forma da sociedade absorve o Estado. Nos totalitarismos anteriores, o Estado era o espelho e o modelo da sociedade, isto \u00e9, institu\u00edam a estatiza\u00e7\u00e3o da sociedade; o totalitarismo neoliberal faz o inverso: a sociedade se torna o espelho para o Estado, definindo todas as esferas sociais e pol\u00edticas n\u00e3o apenas como organiza\u00e7\u00f5es, mas, tendo como refer\u00eancia central o mercado, como um tipo determinado de organiza\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>a empresa<\/em>\u00a0\u2013 a escola \u00e9 uma empresa, o hospital \u00e9 uma empresa, o centro cultural \u00e9 uma empresa, uma igreja \u00e9 uma empresa e, evidentemente, o Estado \u00e9 uma empresa.<\/p>\n<p>Deixando de ser considerada uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica regida pelos princ\u00edpios e valores republicano-democr\u00e1ticos, passa a ser considerado homog\u00eaneo ao mercado. Isto explica porque a pol\u00edtica neoliberal se define pela elimina\u00e7\u00e3o de direitos econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos garantidos pelo poder p\u00fablico, em proveito dos interesses privados, transformando-os em servi\u00e7os definidos pela l\u00f3gica do mercado, isto \u00e9, a privatiza\u00e7\u00e3o dos direitos, que aumenta todas as formas de desigualdade e exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O neoliberalismo vai al\u00e9m: encobre o desemprego estrutural por meio da chamada\u00a0<em>uberiza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0do trabalho e por isso define o indiv\u00edduo n\u00e3o como membro de uma classe social, mas como um empreendimento, uma empresa individual ou \u201ccapital humano\u201d, ou como\u00a0<em>empres\u00e1rio de si mesmo<\/em>, destinado \u00e0 competi\u00e7\u00e3o mortal em todas as organiza\u00e7\u00f5es, dominado pelo princ\u00edpio universal da concorr\u00eancia disfar\u00e7ada sob o nome de meritocracia.<\/p>\n<p>O sal\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 visto como tal e sim como renda individual e a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada um investimento para que a crian\u00e7a e o jovem aprendam a desempenhar comportamentos competitivos. O indiv\u00edduo \u00e9 treinado para ser um investimento bem sucedido e para interiorizar a culpa quando n\u00e3o vencer a competi\u00e7\u00e3o, desencadeando \u00f3dios, ressentimentos e viol\u00eancias de todo tipo, destro\u00e7ando a percep\u00e7\u00e3o de si como membro ou parte de uma classe social e de uma comunidade, destruindo formas de solidariedade e desencadeando pr\u00e1ticas de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias do novo totalitarismo?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 social e economicamente, ao introduzir o desemprego estrutural e a terceiriza\u00e7\u00e3o toyotista do trabalho, d\u00e1 origem a uma nova classe trabalhadora denominada por alguns estudiosos com o nome de\u00a0<em>precariado<\/em>\u00a0para indicar um novo trabalhador sem emprego est\u00e1vel, sem contrato de trabalho, sem sindicaliza\u00e7\u00e3o, sem seguridade social, e que n\u00e3o \u00e9 simplesmente o trabalhador pobre, pois\u00a0 sua identidade social n\u00e3o \u00e9 dada pelo trabalho nem pela ocupa\u00e7\u00e3o, e que, por n\u00e3o ser cidad\u00e3o pleno, tem a mente alimentada e motivada pelo medo, pela perda da autoestima e da dignidade, pela inseguran\u00e7a;<\/p>\n<p>\u2013 politicamente p\u00f5e fim \u00e0s duas formas democr\u00e1ticas existentes no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista: (a) p\u00f5e fim \u00e0 social-democracia, com a privatiza\u00e7\u00e3o dos direitos sociais, o aumento da desigualdade e da exclus\u00e3o; (b) p\u00f5e fim \u00e0 democracia liberal representativa, definindo a pol\u00edtica como\u00a0<em>gest\u00e3o<\/em>\u00a0e n\u00e3o mais como discuss\u00e3o e decis\u00e3o p\u00fablicas da vontade dos representados por seus representantes eleitos; os gestores criam a imagem de que s\u00e3o os representantes do verdadeiro povo, da maioria silenciosa com a qual se relacionam ininterruptamente e diretamente por meio do twitter, de blogs e redes sociais \u2013 isto \u00e9, por meio do\u00a0<em>digital party<\/em>\u00a0\u2013, operando sem media\u00e7\u00e3o institucional,pondo em d\u00favida a validade dos parlamentos pol\u00edticos e das institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, promovendo manifesta\u00e7\u00f5es contra eles; (c) introduz a judicializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, pois, numa empresa e entre empresas, os conflitos s\u00e3o resolvidos pela via jur\u00eddica e n\u00e3o pela via pol\u00edtica propriamente dita. Em outras palavras, sendo o Estado uma empresa, os conflitos n\u00e3o s\u00e3o tratados\u00a0 como quest\u00e3o p\u00fablica e sim como quest\u00e3o jur\u00eddica, no melhor dos casos, e como quest\u00e3o de pol\u00edcia, no pior dos casos; (d) os gestores operam como\u00a0<em>gangsters<\/em>\u00a0mafiosos que institucionalizam a corrup\u00e7\u00e3o, alimentam o clientelismo e for\u00e7am lealdades. Como o fazem? Por meio do medo. A gest\u00e3o mafiosa opera por amea\u00e7a e oferece \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d aos amea\u00e7ados em troca de lealdades para manter todos em depend\u00eancia m\u00fatua. Como os chefes mafiosos, os governantes tamb\u00e9m t\u00eam os\u00a0<em>consiglieri<\/em>, conselheiros, isto \u00e9, supostos intelectuais que orientam ideologicamente as decis\u00f5es e os discursos dos governantes, estimulando o \u00f3dio ao outro, ao diferente, aos socialmente vulner\u00e1veis (imigrantes, migrantes, refugiados, lgbtq+, sofredores mentais, negros, pobres, mulheres, idosos) e esse est\u00edmulo ideol\u00f3gico torna-se justificativa para pr\u00e1ticas de exterm\u00ednio; (e)transformam todos os advers\u00e1rios pol\u00edticos em corruptos, embora a corrup\u00e7\u00e3o mafiosa seja, praticamente, a \u00fanica regra de governo; (f) t\u00eam controle total sobre o judici\u00e1rio por meio de dossi\u00eas sobre problemas pessoais, familiares e profissionais de magistrados aos quais oferecem \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d em troca de lealdade completa (e quando o magistrado n\u00e3o aceita o trato, sabe-se o que lhe acontece);<\/p>\n<p>\u2013 ideologicamente, com a express\u00e3o \u201cmarxismo cultural\u201d, os gestores perseguem todas as formas e express\u00f5es do pensamento cr\u00edtico e inventam a divis\u00e3o da sociedade entre o bom povo, que os apoia, e os diab\u00f3licos, que os contestam. Por orienta\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>consiglieri,<\/em>\u00a0pretendem fazer uma\u00a0<em>limpeza\u00a0<\/em>ideol\u00f3gica, social e pol\u00edtica e para isso desenvolvem uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o comunista, que seria liderada por intelectuais e artistas de esquerda. Os conselheiros s\u00e3o autodidatas que se formaram lendo manuais e odeiam cientistas, intelectuais e artistas, aproveitando-se do ressentimento que a extrema direita tem por essas figuras. Como tais conselheiros est\u00e3o desprovidos de conhecimentos cient\u00edficos, filos\u00f3ficos e art\u00edsticos, empregam a palavra \u201ccomunista\u201d sem qualquer sentido preciso: comunista significa todo pensamento e toda a\u00e7\u00e3o que questionem o status quo e o senso comum (por exemplo: que a terra \u00e9 plana; que n\u00e3o h\u00e1 evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies; que a defesa do meio ambiente \u00e9 mentirosa; que a teoria da relatividade n\u00e3o tem fundamento, etc.). S\u00e3o esses conselheiros que oferecem aos governantes os argumentos racistas, homof\u00f3bicos, machistas, religiosos, etc., isto \u00e9, transformam medos, ressentimentos e \u00f3dios sociais silenciosos em discurso do poder e justificativa para pr\u00e1ticas de censura e de exterm\u00ednio;<\/p>\n<p>\u2013 a dimens\u00e3o planet\u00e1ria da forma econ\u00f4mica neoliberal faz com que n\u00e3o exista um \u201cfora\u201d do capitalismo, uma alteridade poss\u00edvel, levando \u00e0 ideia de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, portanto \u00e0 perda da ideia de transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e de um horizonte ut\u00f3pico. A cren\u00e7a na inexist\u00eancia da alteridade \u00e9 fortalecida pelas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o, que reduzem o espa\u00e7o ao\u00a0<em>aqui<\/em>, sem geografia e sem topologia (tudo se passa na tela plana como se fosse o mundo) e ao\u00a0<em>agora<\/em>, sem passado e sem futuro, portanto sem hist\u00f3ria (tudo se reduz a um presente sem profundidade). Vol\u00e1til e ef\u00eamera, nossa experi\u00eancia desconhece qualquer sentido de continuidade e se esgota num presente vivido como instante fugaz;<\/p>\n<p>\u2013 a fugacidade do presente, a aus\u00eancia de la\u00e7os com o passado objetivo e de esperan\u00e7a em um futuro emancipado, suscitam o reaparecimento de um imagin\u00e1rio da transcend\u00eancia. Assim, a figura do empres\u00e1rio de si mesmo \u00e9 sustentada e refor\u00e7ada pela chamada teologia da prosperidade, desenvolvida pelo neopentecostalismo. Mais do que isso. Os fundamentalismos religiosos e a busca da autoridade decisionista na pol\u00edtica s\u00e3o os casos que melhor ilustram o mergulho na conting\u00eancia bruta e a constru\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio que n\u00e3o a enfrenta nem a compreende, mas simplesmente se esfor\u00e7a por contorn\u00e1-la apelando para duas formas insepar\u00e1veis de transcend\u00eancia: a divina (\u00e0 qual apela o fundamentalismo religioso) e a do governante (\u00e0 qual apela o elogio da autoridade forte).<\/p>\n<p>Diante dessa realidade, muitos afirmam que vivemos num mundo dist\u00f3pico, no qual as distopias s\u00e3o concebidas sob a forma da cat\u00e1strofe planet\u00e1ria e do medo. Vale a pena, entretanto, mencionar brevemente a diferen\u00e7a entre utopia e distopia.<\/p>\n<p>A utopia \u00e9 a busca de uma sociedade totalmente outra que negue todos os aspectos da sociedade existente. \u00c9 a vis\u00e3o do presente sob o modo da ang\u00fastia, da crise, da injusti\u00e7a, do mal, da corrup\u00e7\u00e3o e da rapina, do pauperismo e da fome, da for\u00e7a dos privil\u00e9gios e das car\u00eancias, ou seja, o presente como viol\u00eancia nua. Por isso mesmo \u00e9 radical, buscando a liberdade, a fraternidade, a igualdade, a justi\u00e7a e a felicidade individual e coletiva gra\u00e7as \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o entre homem e natureza, indiv\u00edduo e sociedade, sociedade e poder, cultura e humanidade. Uma utopia n\u00e3o \u00e9 um programa de a\u00e7\u00e3o, mas um projeto de futuro que pode inspirar a\u00e7\u00f5es que assumem o risco da hist\u00f3ria, fundando-se na a\u00e7\u00e3o humana como pot\u00eancia para transformar a realidade, tornando-se imanentes \u00e0 hist\u00f3ria, gra\u00e7as \u00e0 ideia de\u00a0<em>revolu\u00e7\u00e3o social<\/em>.<\/p>\n<p>A distopia tem um significado cr\u00edtico ineg\u00e1vel ao descrever o presente como um mundo intoler\u00e1vel, por\u00e9m corre o risco de transform\u00e1-lo em fantasma e rumar para o fatalismo, a imobilidade e\u00a0 o desalento do fim da hist\u00f3ria. A utopia tamb\u00e9m parte da constata\u00e7\u00e3o de um mundo intoler\u00e1vel, mas em lugar de curvar-se a ele, trabalha para coloc\u00e1-lo em tens\u00e3o consigo mesmo para que dessa tens\u00e3o surjam contradi\u00e7\u00f5es que possam ser trabalhadas pela pr\u00e1xis humana. A imobilidade dist\u00f3pica decorre de sua estrutura fantasm\u00e1tica: nela, o intoler\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 o ponto de partida e sim o ponto de chegada. Ao contr\u00e1rio, a mobilidade ut\u00f3pica prov\u00e9m de sua energia como projeto e pr\u00e1xis, como trabalho do pensamento, da imagina\u00e7\u00e3o e da vontade para destruir o intoler\u00e1vel: o intoler\u00e1vel \u00e9 seu ponto de partida e n\u00e3o o de chegada.<\/p>\n<p>Se a utopia \u00e9 a vis\u00e3o do presente sob o modo da ang\u00fastia, da crise, da injusti\u00e7a, do mal, da corrup\u00e7\u00e3o e da rapina, do pauperismo e da fome, da for\u00e7a dos privil\u00e9gios e das car\u00eancias, do presente como viol\u00eancia intoler\u00e1vel, n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o da perspectiva ut\u00f3pica nas condi\u00e7\u00f5es de nosso presente.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"rr9BtULHGK\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/marilena-chaui-o-que-e-a-nova-ultradireita\/\">Marilena Chau\u00ed: o que \u00e9 a \u201cnova\u201d ultradireita?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Marilena Chau\u00ed: o que \u00e9 a \u201cnova\u201d ultradireita?&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/marilena-chaui-o-que-e-a-nova-ultradireita\/embed\/#?secret=5zjQXxGzAH#?secret=rr9BtULHGK\" data-secret=\"rr9BtULHGK\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marilena Chau\u00ed &#8211; Ela flerta com o fascismo, mas submete a na\u00e7\u00e3o aos poderes globais. \u00c9 totalit\u00e1ria\u00a0\u2013 mas n\u00e3o imp\u00f5e a l\u00f3gica do Estado, e sim a da Mercadoria, da Empresa, da Meritocracia, do Investidor. 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