{"id":11715,"date":"2019-10-10T13:02:17","date_gmt":"2019-10-10T16:02:17","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11715"},"modified":"2019-10-10T09:05:32","modified_gmt":"2019-10-10T12:05:32","slug":"erik-olin-wright-como-ser-anticapitalista-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/10\/10\/erik-olin-wright-como-ser-anticapitalista-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Erik Olin Wright: como ser anticapitalista no s\u00e9culo XXI?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Erik Olin Wright<\/strong> &#8211; Abaixo, um trecho de <em>Como ser anticapitalista no s\u00e9culo XXI?<\/em>, do soci\u00f3logo estadunidense Erik Olin Wright (1947-2019), a ser publicado em breve pela Boitempo Editorial. A obra \u00e9 escrita em linguagem acess\u00edvel e foca na vis\u00e3o do autor sobre problemas pr\u00e1ticos da milit\u00e2ncia anticapitalista. Wright foi um intelectual alinhado ao socialismo e\u00a0<em>Como ser anticapitalista no s\u00e9culo XXI?\u00a0<\/em>foi sua \u00faltima obra.<\/p>\n<p>Na primeira parte do livro, de onde foi extra\u00eddo o trecho,\u00a0Wright elabora um diagn\u00f3stico cr\u00edtico e did\u00e1tico do capitalismo. Abaixo, ele explica o que \u00e9, na sua vis\u00e3o, o capitalismo e esbo\u00e7a algumas quest\u00f5es sobre a oposi\u00e7\u00e3o a esse sistema. Tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0Fernando Pureza.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Para muita gente, a no\u00e7\u00e3o de anticapitalismo parece rid\u00edcula. Afinal, olhem para as fant\u00e1sticas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas em bens e servi\u00e7os produzidos pelas empresas capitalistas nos \u00faltimos anos:\u00a0<em>smartphones<\/em>; filmes em\u00a0<em>streaming<\/em>; carros privados sem motoristas; redes sociais; a cura para uma s\u00e9rie de doen\u00e7as; tel\u00f5es gigantes em alta defini\u00e7\u00e3o para passar jogos de futebol e videogames conectando milhares de jogadores ao redor do mundo; cada produto conceb\u00edvel est\u00e1 agora dispon\u00edvel na internet e ser\u00e1 rapidamente entregue em sua casa; aumentos impressionantes na produtividade do trabalho por meio de tecnologias de automa\u00e7\u00e3o; e a lista segue. E ainda que se afirme que a renda \u00e9 desigualmente distribu\u00edda nas economias capitalistas, \u00e9 tamb\u00e9m verdade que a variedade de bens de consumo dispon\u00edveis para a maioria das pessoas, inclusive para os mais pobres, aumentou enormemente em praticamente todo o mundo. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, vejam os Estados Unidos durante meio s\u00e9culo, entre 1968 e 2018: o percentual de americanos com ar condicionado, carros, m\u00e1quinas de lavar, lava-lou\u00e7as, televis\u00f5es e encanamento residencial aumentou significativamente nesses \u00faltimos cinquenta anos. A expectativa de vida \u00e9 cada vez mais longa para a maioria das pessoas, e a mortalidade infantil vem caindo. \u00c9 uma lista sem fim de mudan\u00e7as. E agora, neste s\u00e9culo XXI, estamos observando a melhoria do padr\u00e3o de vida at\u00e9 mesmo em algumas das regi\u00f5es mais pobres do mundo: vejam as melhorias no padr\u00e3o de vida material de chineses desde que a China aderiu ao livre com\u00e9rcio. E mais: vejam o que aconteceu com a R\u00fassia e com a China quando elas tentaram se opor ao capitalismo! E mesmo que ignoremos a opress\u00e3o pol\u00edtica e a brutalidade desses regimes, eles tamb\u00e9m foram fracassos econ\u00f4micos. Sendo assim, se voc\u00ea deseja melhorar a vida das pessoas, como \u00e9 que voc\u00ea vai ser anticapitalista?<\/p>\n<p>Bem, essa \u00e9 uma hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria oficial, por assim dizer.<\/p>\n<p>Mas aqui vai outra: a marca registrada do capitalismo \u00e9 a mis\u00e9ria que ele gera em meio \u00e0 abund\u00e2ncia. Essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coisa errada no capitalismo, mas \u00e9 uma caracter\u00edstica comum das economias capitalistas e que inclusive \u00e9 o seu maior fracasso. Em particular, a mis\u00e9ria que atinge as crian\u00e7as, que claramente n\u00e3o t\u00eam qualquer responsabilidade por seu sofrimento, \u00e9 algo moralmente repreens\u00edvel em sociedades ricas nas quais essas formas de pobreza poderiam facilmente ser eliminadas. Sim, n\u00f3s temos crescimento econ\u00f4mico, inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, aumento na produtividade e uma difus\u00e3o verticalizada de bens de consumo, mas somado a tudo isso, junto do crescimento econ\u00f4mico capitalista, juntamente vem a destitui\u00e7\u00e3o de muitos cuja forma de vida foi destru\u00edda pelo avan\u00e7o do capitalismo, com a precariza\u00e7\u00e3o dos que est\u00e3o nas partes mais baixas do mercado de trabalho capitalista, promovendo trabalhos alienantes e tediosos para a maioria. O capitalismo, de fato, gerou aumentos massivos na produtividade e uma riqueza extravagante para alguns, mas a maioria ainda tem que lutar pela sua subsist\u00eancia. Ele \u00e9 uma m\u00e1quina de aperfei\u00e7oamento das desigualdades, bem como uma m\u00e1quina de crescimento econ\u00f4mico. E mais: est\u00e1 ficando cada vez mais claro que o capitalismo, movido pela busca incessante por lucro, est\u00e1 destruindo o meio ambiente. E, ainda assim, a quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 se as condi\u00e7\u00f5es materiais n\u00e3o melhoraram no longo prazo nas economias capitalistas, mas se para a maioria n\u00e3o seria melhor uma forma de economia alternativa. \u00c9 verdade que as economias estatistas, centralizadas e autorit\u00e1rias, formuladas pela R\u00fassia e pela China podem ser consideradas, em certa medida, fracassos. Mas essas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas possibilidades.<\/p>\n<p>Essas duas hist\u00f3rias est\u00e3o amparadas na realidade do capitalismo. N\u00e3o \u00e9 uma ilus\u00e3o dizer que o capitalismo transformou as condi\u00e7\u00f5es materiais de vida no mundo todo e aumentou enormemente a produtividade humana; muitos se beneficiaram disso. Mas, da mesma forma, n\u00e3o \u00e9 uma ilus\u00e3o dizer que o capitalismo gera grandes preju\u00edzos \u00e0s pessoas e que perpetua formas de sofrimento humano pass\u00edveis de serem eliminadas. Onde o verdadeiro desacordo entre essas duas hist\u00f3rias aparece \u2013 e um desacordo fundamental \u2013 \u00e9 sobre se \u00e9 poss\u00edvel ter a produtividade, a inova\u00e7\u00e3o e o dinamismo que vemos no capitalismo sem ter os seus males. Margaret Thatcher anunciou, no in\u00edcio dos anos 1980, que \u201cn\u00e3o havia alternativa\u201d; duas d\u00e9cadas depois, o F\u00f3rum Social Mundial declarava, \u201cum outro mundo \u00e9 poss\u00edvel\u201d. E esse \u00e9 o debate fundamental.<\/p>\n<p>O argumento central neste livro \u00e9 o seguinte: primeiro, um outro mundo \u00e9, de fato, poss\u00edvel. Segundo, que ele pode melhorar as condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento humano da maioria das pessoas. Terceiro, que os elementos desse novo mundo j\u00e1 est\u00e3o sendo criados no nosso mundo atual. E, finalmente, que h\u00e1 formas de caminharmos at\u00e9 esse novo mundo. O anticapitalismo \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o apenas como postura moral perante os males e as injusti\u00e7as do mundo em que vivemos, mas como uma postura pr\u00e1tica em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa em prol do desenvolvimento da humanidade.<\/p>\n<p>Este cap\u00edtulo ir\u00e1 construir esse argumento e inicialmente explicar\u00e1 o que quero dizer quando falo em \u201ccapitalismo\u201d e, a partir disso, explorar as bases capitalistas para a sua avalia\u00e7\u00e3o enquanto um sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>O QUE \u00c9 CAPITALISMO?<\/strong><\/p>\n<p>Como muitos conceitos utilizados na nossa vida cotidiana e no trabalho acad\u00eamico, h\u00e1 muitas formas diferentes de se definir \u201ccapitalismo\u201d. Para muita gente, o capitalismo \u00e9 o equivalente \u00e0 economia de mercado \u2013 uma economia na qual as pessoas produzem coisas para serem vendidas para outras pessoas por meio de acordos volunt\u00e1rios. Alguns chegam a acrescentar o termo \u201clivre\u201d antes da palavra \u201cmercado\u201d, enfatizando que o capitalismo \u00e9 uma economia na qual as transa\u00e7\u00f5es do mercado s\u00e3o pouco reguladas pelo Estado. E tem tamb\u00e9m quem enfatize que o capitalismo n\u00e3o pode ser caracterizado somente pelos mercados, mas tamb\u00e9m pela propriedade privada do capital. Soci\u00f3logos, em especial os influenciados pela tradi\u00e7\u00e3o marxista, costumam acrescentar a ideia de que o capitalismo se caracteriza por uma forma particular de estrutura de classes, na qual quem trabalha nessa economia \u2013 a classe trabalhadora \u2013 n\u00e3o possui os meios de produ\u00e7\u00e3o. Isso leva ao menos a duas classes b\u00e1sicas nessa economia: a dos capitalistas, que t\u00eam a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o; e a dos trabalhadores, que fornecem m\u00e3o de obra aos seus empregadores.<\/p>\n<p>[&#8230;] pretendo usar o termo \u201ccapitalismo\u201d para designar tanto a ideia de capitalismo como economia de mercado quanto a ideia de que ele \u00e9 organizado por meio de uma estrutura de classes espec\u00edfica. Uma forma de pensar essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9 que a dimens\u00e3o do mercado identifica o mecanismo b\u00e1sico da coordena\u00e7\u00e3o de atividades de um sistema econ\u00f4mico \u2013 no caso, a coordena\u00e7\u00e3o por meio de trocas volunt\u00e1rias descentralizadas, com oferta e procura e pre\u00e7os operando \u2013 enquanto a estrutura de classes identifica as rela\u00e7\u00f5es centrais de poder dentro desse sistema econ\u00f4mico \u2013 entre detentores da propriedade do capital e trabalhadores. Para dar um exemplo, \u00e9 poss\u00edvel ter mercados nos quais os meios de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o de propriedade do Estado: as empresas s\u00e3o propriedade estatal e \u00e9 o Estado que aloca os recursos necess\u00e1rios para essas firmas, tanto como investimento direto quanto como empr\u00e9stimo via bancos estatais. Esse sistema pode ser chamado de economia de mercado estatista (ou, como outros preferem chamar, de \u201ccapitalismo de Estado\u201d). Ou as pr\u00f3prias empresas, na economia de mercado, podem ser cooperativas, cuja propriedade e controle est\u00e3o nas m\u00e3os de funcion\u00e1rios ou consumidores. Uma economia de mercado organizada dessa forma pode ser chamada de economia de mercado cooperativada. Em contraste a essas formas de economia de mercado, a caracter\u00edstica principal da economia de mercado capitalista, contudo, \u00e9 a forma pela qual a propriedade privada do capital se v\u00ea empoderada tanto dentro das empresas como no sistema econ\u00f4mico como um todo.<\/p>\n<p><strong>MOTIVOS PARA SE OPOR AO CAPITALISMO<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo gera anticapitalistas. Em algumas \u00e9pocas e em alguns lugares, a resist\u00eancia ao capitalismo se cristaliza em ideologias coerentes, com diagn\u00f3sticos sistem\u00e1ticos sobre a fonte dos males e a clara percep\u00e7\u00e3o do que se deve fazer para elimin\u00e1-la. Em outras circunst\u00e2ncias, o anticapitalismo est\u00e1 simplesmente repleto de motiva\u00e7\u00f5es que, superficialmente, parecem dizer pouco sobre o capitalismo, por exemplo, quando falamos de cren\u00e7as religiosas que levaram as pessoas a rejeitar a modernidade e buscar ref\u00fagio em comunidades isoladas. Por vezes, o anticapitalismo toma a forma de trabalhadores no ch\u00e3o de f\u00e1brica, individualmente resistindo \u00e0s demandas dos seus patr\u00f5es. Em outros momentos, \u00e9 corporificado em organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores, engajadas em lutas coletivas sobre suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Onde quer que o capitalismo exista, ele sempre vir\u00e1 acompanhado de descontentamento e resist\u00eancia, assumindo as mais diferentes formas.<\/p>\n<p>Diante dessa variedade de luta dentro e sobre o capitalismo, duas formas mais gerais de motiva\u00e7\u00f5es entram em cena: os interesses de classe e os valores morais. Voc\u00ea pode se opor ao capitalismo porque ele prejudica seus interesses materiais, mas tamb\u00e9m porque ele ofende certos valores morais que s\u00e3o caros a voc\u00ea.<\/p>\n<p>H\u00e1 um cartaz do final dos anos 1970 que mostra uma trabalhadora inclinando-se sobre um muro. A legenda diz: \u201cConsci\u00eancia de classe significa saber de que lado do muro voc\u00ea est\u00e1; an\u00e1lise de classe \u00e9 descobrir quem est\u00e1 do mesmo lado que voc\u00ea\u201d. A met\u00e1fora do muro denota conflito dentro do capitalismo, j\u00e1 que ele seria baseado em interesses de classe distintos. Estar do lado oposto do muro define amigos e inimigos nos termos desses interesses opostos. Algumas pessoas podem se sentar sobre o muro, mas em \u00faltima inst\u00e2ncia ter\u00e3o que tomar uma decis\u00e3o: \u201cOu voc\u00ea est\u00e1 conosco, ou est\u00e1 contra n\u00f3s\u201d. Em certas situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, os interesses que definem os lados do muro s\u00e3o bastante f\u00e1ceis de decifrar. \u00c9 \u00f3bvio para praticamente todo mundo que nos Estados Unidos, antes da Guerra Civil, os escravos eram prejudicados pela escravid\u00e3o e que, portanto, eles tinham interesse de classe na aboli\u00e7\u00e3o, enquanto, por outro lado, os senhores de escravos tinham interesse na sua perpetua\u00e7\u00e3o. Pode ser que tenhamos alguns senhores com sentimentos ambivalentes quanto a ter escravos como propriedade \u2013 esse \u00e9 o caso de Thomas Jefferson, por exemplo \u2013, mas essa ambival\u00eancia n\u00e3o se dava por conta dos seus interesses de classe; ela ocorria porque havia uma tens\u00e3o entre esses interesses e certos valores morais que esses senhores tinham.<\/p>\n<p>http:\/\/www.suplementopernambuco.com.br\/in%C3%A9ditos\/2357-erik-olin-wright-como-ser-anticapitalista-no-s%C3%A9culo-xxi.html?utm_source=Contatos+Boitempo&#038;utm_campaign=03a36eb334-EMAIL_CAMPAIGN_2019_10_09_07_42&#038;utm_medium=email&#038;utm_term=0_68c0e326c0-03a36eb334-60050243<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Erik Olin Wright &#8211; Abaixo, um trecho de Como ser anticapitalista no s\u00e9culo XXI?, do soci\u00f3logo estadunidense Erik Olin Wright (1947-2019), a ser publicado em breve pela Boitempo Editorial. 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