{"id":11698,"date":"2019-10-09T13:48:02","date_gmt":"2019-10-09T16:48:02","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11698"},"modified":"2019-10-09T09:51:52","modified_gmt":"2019-10-09T12:51:52","slug":"desemprego-que-nao-cai-informalidade-e-desanimo-recessao-dos-pobres-e-mais-longa-que-a-dos-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/10\/09\/desemprego-que-nao-cai-informalidade-e-desanimo-recessao-dos-pobres-e-mais-longa-que-a-dos-ricos\/","title":{"rendered":"Desemprego que n\u00e3o cai, informalidade e des\u00e2nimo: recess\u00e3o dos pobres \u00e9 mais longa que a dos ricos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ligia Guimar\u00e3es<\/strong> &#8211; Parada em frente \u00e0 porta de um sindicato depois de passar dois dias enfrentando filas, calor e questionamentos sobre o seu curr\u00edculo, a ex-operadora de caixa Leonor Maximiano, 59 anos, faz uma promessa a si mesma.<\/p>\n<p>&#8220;Eu nunca mais vou participar de um mutir\u00e3o de emprego, nem em feir\u00e3o de emprego. \u00c9 perder tempo, \u00e9 besteira&#8221;, afirma, convicta de que nenhuma empresa vai entrar em contato com ela, como prometem os recrutadores ao fim das entrevistas. J\u00e1 faz um ano que ela roda a cidade de loja em loja, desde que foi demitida do supermercado em que tinha a carteira assinada. As oportunidades para as quais ela se inscreveu naquele dia, em um mutir\u00e3o do Sindicato dos Comerci\u00e1rios que prometia 4 mil vagas, lhe deram uma sensa\u00e7\u00e3o de d\u00e9j\u00e0 vu.<\/p>\n<p>&#8220;As empresas que oferecem vagas aqui s\u00e3o as mesmas para as quais eu j\u00e1 levei curr\u00edculo. Estou me recandidatando para empresas em que eu j\u00e1 fui \u00e0 loja me candidatar&#8221;, reclama, desanimada. Morando sozinha na zona leste de S\u00e3o Paulo, ela se preocupa por estar pagando as contas h\u00e1 meses com as poucas economias que herdou do pai, pedreiro aposentado, e que pretendia usar para garantir dias mais tranquilos na velhice.<\/p>\n<p>Sua poupan\u00e7a diminui cerca de R$ 1 mil por m\u00eas para pagar \u00e1gua, luz, comida, dentista e outras despesas. &#8220;Eu pensava em deixar esse dinheiro para a aposentadoria, mas acho que aposentadoria eu nem vou ter nessa vida. Com essas mudan\u00e7as, s\u00f3 na outra encarna\u00e7\u00e3o&#8221;. A perspectiva, lamenta, \u00e9 a de que ela v\u00e1 alcan\u00e7ar menos conquistas com uma vida de trabalho do que os pais dela conseguiram.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai, trabalhando como pedreiro, conseguiu juntar um dinheirinho, e me deixar uma casa, para que eu n\u00e3o precise pagar aluguel. Eu n\u00e3o tenho filhos para deixar, mas hoje \u00e9 mais dif\u00edcil conseguir o mesmo&#8221;.<\/p>\n<p>Entre 2014 e 2017, o Brasil ganhou um contingente de 6,27 milh\u00f5es de &#8220;novos pobres&#8221;, pessoas que perderam o emprego e passaram a viver em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, com renda do trabalho de menos de R$ 233 por m\u00eas. Como os sal\u00e1rios s\u00e3o a principal fonte de renda das fam\u00edlias pobres e vulner\u00e1veis, a pobreza no Brasil no per\u00edodo mais agudo da recess\u00e3o aumentou 33%, e o total de pobres no pa\u00eds cresceu para 23,3 milh\u00f5es, segundo dados do Centro de Pol\u00edticas Sociais da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem 6 milh\u00f5es de pessoas que passaram a viver em fam\u00edlias onde ningu\u00e9m ganha nada. E \u00e9 mais ou menos o mesmo n\u00famero de pessoas que entraram na pobreza, o que significa que n\u00e3o foram criadas novas redes de prote\u00e7\u00e3o social&#8221;, afirma o pesquisador Marcelo Neri, diretor da FGV Social e autor do estudo\u00a0<em>A Escalada da Desigualdade<\/em>.<\/p>\n<p>Outros indicadores mostram que o desemprego, que ainda atinge 12,6 milh\u00f5es de pessoas, come\u00e7ou a diminuir em 2019 para os trabalhadores mais qualificados, mas n\u00e3o caiu para os de baixa escolaridade, mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;Os trabalhadores com ensino m\u00e9dio incompleto formam o grupo que n\u00e3o apenas possui mais dificuldade de obter uma nova coloca\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m o que mais chance tem de ser dispensado&#8221;, afirma an\u00e1lise da Carta de Conjuntura do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), divulgada na semana passada. Os dados apontam que, no segundo trimestre, a taxa de desemprego caiu para todos os grupos, menos para os que estudaram s\u00f3 at\u00e9 o ensino fundamental.<\/p>\n<p>Sandra Regina da Silva, 53 anos, estudou at\u00e9 o ensino fundamental e procura emprego como faxineira h\u00e1 oito meses, mas diz que j\u00e1 se cansou de esperar o telefone tocar.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea chega, entrega curr\u00edculo e eles falam obrigado, vamos te chamar. Mas n\u00e3o chamam&#8221;, lamenta Sandra, que, sem renda alguma, est\u00e1 morando desde o ano passado de favor na casa da irm\u00e3 na Freguesia do \u00d3, com o cunhado e sobrinha. Pegou dinheiro emprestado at\u00e9 para procurar emprego naquele dia: um vizinho a ajudou com os R$ 8,60 do \u00f4nibus at\u00e9 o centro.<\/p>\n<p>&#8220;Outro dia uma empresa s\u00f3 n\u00e3o me chamou porque eu tenho 53 anos, disseram que s\u00f3 aceitavam at\u00e9 45. Falaram isso na minha cara&#8221;, conta Sandra.<\/p>\n<p><strong>Recupera\u00e7\u00e3o para mais ricos, renda em queda para mais pobres<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;O Brasil vive uma estagna\u00e7\u00e3o da economia desigual e inst\u00e1vel. A pouca recupera\u00e7\u00e3o que ocorre beneficia mais os mais ricos. Quanto mais rico, mais r\u00e1pida a recupera\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o pesquisador Marcelo Medeiros, professor visitante na Universidade de Princeton, e que desde 2001 se dedica a pesquisar como o comportamento do 1% mais rico influencia a desigualdade de renda no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Embora a economia tenha come\u00e7ado a crescer timidamente (0,4%) no segundo trimestre de 2019, o clima ainda \u00e9 de recess\u00e3o profunda no indicador que faz mais diferen\u00e7a para a vida dos trabalhadores &#8211; o bolso.<\/p>\n<p>Dados da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas apontam que, entre o final de 2014 e o segundo trimestre de 2019, a renda do trabalho dos 50% mais pobres da popula\u00e7\u00e3o despencou 17,1%.<\/p>\n<p>Nesse grupo, est\u00e3o 105 milh\u00f5es de pessoas que ganham at\u00e9 R$ 425 cada uma, por meio do trabalho &#8211; sem considerar benef\u00edcios assistenciais.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, a renda do 1% mais rico, a fatia que engloba 2,1 milh\u00f5es de pessoas que ganham entre R$ 5.911 e R$ 11.781 no mercado de trabalho, j\u00e1 cresceu a dois d\u00edgitos: 10,11%. A renda dos 10% mais ricos subiu 3% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>O levantamento se baseia nos microdados ajustados da Pnad Cont\u00ednua trimestral, do IBGE, e considera o rendimento habitual, medida que considera o ganho mensal mais frequente recebido por empregados, empregadores e trabalhadores por conta pr\u00f3pria, sem considerar rendas extraordin\u00e1rias, como b\u00f4nus, 13\u00ba ou horas extras.<\/p>\n<p>O dado tamb\u00e9m n\u00e3o considera outras rendas, como benef\u00edcios assistenciais e s\u00e3o considerados mais est\u00e1veis por Neri. &#8220;Os dados da Pnad trimestral, restritos \u00e0 renda do trabalho, formal e informal, permitem detalhar algumas das causas pr\u00f3ximas da din\u00e2mica do bem-estar social&#8221;, diz o estudo.<\/p>\n<p>A outra op\u00e7\u00e3o para medir a renda do trabalho seria o conceito de renda efetiva, que capta todos os pagamentos, mas cujos dados s\u00f3 s\u00e3o divulgados na vers\u00e3o anual da Pnad, que ainda n\u00e3o foi divulgada pelo IBGE.<\/p>\n<p>Uma peculiaridade da recess\u00e3o \u00e9 que, junto com a pobreza e a retra\u00e7\u00e3o da economia, cresceu tamb\u00e9m a desigualdade entre ricos e pobres, levando a uma piora do bem-estar social.<\/p>\n<p>O levantamento da FGV aponta que, enquanto a economia encolhia durante a crise, a renda do pa\u00eds ia ficando cada vez mais concentrada nas m\u00e3os dos mais ricos por 17 trimestres seguidos, um per\u00edodo recorde de aumento da desigualdade.<\/p>\n<p>&#8220;Nem no auge da infla\u00e7\u00e3o, que foi em 1989, a desigualdade subiu por um per\u00edodo t\u00e3o longo&#8221;, diz Neri, que destaca que o Brasil j\u00e1 tem uma rede assistencial formada, especialmente em torno do Bolsa Fam\u00edlia, que poderia ter sido utilizada para evitar que o bem-estar social piorasse em n\u00edveis t\u00e3o alarmantes.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 olhar para o PIB \u00e9 insuficiente para entender o efeito da crise sobre a renda da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de uma brutal recess\u00e3o, mas voc\u00ea vinha de um per\u00edodo de expans\u00e3o forte da economia, em que a renda crescia, a desigualdade ca\u00eda. E a renda passou a cair e a desigualdade a aumentar&#8221;, diz Marcelo Neri.<\/p>\n<p>&#8220;Em termos de bem-estar, esta \u00e9 uma d\u00e9cada perdida. E se a recupera\u00e7\u00e3o da economia \u00e9 lenta, a recupera\u00e7\u00e3o de bem-estar \u00e9 ausente, n\u00e3o aconteceu at\u00e9 agora&#8221;, diz Neri.<\/p>\n<p>C\u00e1lculos realizados pelo soci\u00f3logo e pesquisador Rog\u00e9rio Jer\u00f4nimo Barbosa, como parte de sua pesquisa de p\u00f3s-doutorado no departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica e no Centro de Estudos da Metr\u00f3pole, apontam que a pouca recupera\u00e7\u00e3o observada at\u00e9 agora no mercado de trabalho ainda n\u00e3o beneficiou os trabalhadores mais pobres.<\/p>\n<p>&#8220;A recess\u00e3o ainda n\u00e3o terminou para os trabalhadores mais pobres; sua renda ainda est\u00e1 em queda, mesmo quando descontamos os efeitos do desemprego&#8221;, afirma o pesquisador no relat\u00f3rio\u00a0<em>Estagna\u00e7\u00e3o desigual: desemprego, desalento, informalidade e a distribui\u00e7\u00e3o da renda do trabalho no per\u00edodo recente (2012-2019)<\/em>, que ser\u00e1 divulgado no Boletim de Mercado de Trabalho n\u00famero 67 do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea).<\/p>\n<p>Barbosa destaca que, embora o desemprego e o desalento tenham se estabilizado desde 2017, a pouca recupera\u00e7\u00e3o do trabalho at\u00e9 agora ocorreu em vagas mais formalizadas e de escolaridade mais alta.<\/p>\n<p>Por outro lado, os trabalhadores mais pobres tornaram-se ainda mais afundados na informalidade, o que torna a desigualdade entre tais trabalhadores ainda maior.<\/p>\n<p>&#8220;A pouca recupera\u00e7\u00e3o que ocorre beneficia os trabalhadores melhor posicionados, formalizados e empregados em determinados setores, como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e servi\u00e7os financeiros. Os tr\u00eas primeiros setores s\u00e3o justamente \u00e1reas de maior investimento estatal e gastos p\u00fablicos. Uma evid\u00eancia indireta de que as for\u00e7as tipicamente de mercado n\u00e3o foram capazes de promover a din\u00e2mica necess\u00e1ria&#8221;, diz o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Como as vagas com carteira assinada tornaram-se mais escassas, benef\u00edcios como 13\u00ba sal\u00e1rio tornaram-se realidade quase imposs\u00edvel para os mais pobres. &#8220;O aumento da desigualdade entre trabalhadores guarda rela\u00e7\u00e3o com o fato de que benef\u00edcios e direitos t\u00edpicos (e sazonais) do setor formal se tornaram mais escassos e concentrados, em fun\u00e7\u00e3o da grande dissolu\u00e7\u00e3o de postos de trabalho protegidos&#8221;.<\/p>\n<p>Os dados da pesquisa de Barbosa analisam o que ocorreu com a renda dos mais ricos e pobres at\u00e9 2018, considerando as rendas mensais e espor\u00e1dicas obtidas no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Embora tenha metodologia diferente da FGV, tamb\u00e9m mostram que a participa\u00e7\u00e3o dos mais pobres na renda do mercado de trabalho encolheu consideravelmente.<\/p>\n<p>Em meados de 2014, os 50% mais pobres se apropriavam de cerca de 5,7% de toda renda do trabalho; no primeiro trimestre de 2019, tal fra\u00e7\u00e3o cai para 3,5%. Enquanto isso, o grupo dos 10% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o recebia cerca de 49% do total da renda do trabalho em meados de 2014 &#8211; e vinha apresentando redu\u00e7\u00e3o nessa parcela, ao longo dos anos anteriores. No in\u00edcio de 2019, sua fra\u00e7\u00e3o apropriada cresce para 52%.<\/p>\n<p>&#8220;Isso significa que o topo da distribui\u00e7\u00e3o chega ao p\u00f3s-crise n\u00e3o apenas recuperando suas perdas, mas obtendo ganhos&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p><strong>Longa espera, sem dinheiro para procurar emprego<\/strong><\/p>\n<p>Casos como o de Sandra e Leonor, em que a busca di\u00e1ria por um emprego parece nunca chegar ao fim, est\u00e3o se tornando cada vez mais frequentes. Dados divulgados na semana passada pelo Ipea revelam que, no trimestre terminado em julho deste ano, 26% dos trabalhadores desempregados j\u00e1 estavam nesta situa\u00e7\u00e3o h\u00e1 pelo menos dois anos, aumento de 1,8 ponto percentual em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2018.<\/p>\n<p>Marcelo Neri, da FGV Social, explica que, al\u00e9m do desemprego, h\u00e1 outros efeitos da crise sobre o trabalho que achatam ainda mais a renda dos mais pobres, mais dependentes do sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Com a economia mais parada, mesmo quem consegue emprego acaba trabalhando menos horas, em jornadas menores. Com mais gente procurando emprego as vagas oferecem sal\u00e1rios mais baixos mesmo para quem estudou mais.<\/p>\n<p>Os \u00fanicos aspectos que evitaram uma queda ainda maior da renda foram, segundo o economista, o fato de que a educa\u00e7\u00e3o do trabalhador continuou a aumentar durante o per\u00edodo mais agudo da crise, o que pode ser uma boa not\u00edcia no longo prazo.<\/p>\n<p>&#8220;O \u00fanico efeito positivo sobre a renda \u00e9 que, durante a crise, a educa\u00e7\u00e3o do trabalhador continuou a aumentar e subiu 8,6%, o que deixa marcas para o futuro&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O paulistano Paulo Antonio da Silva, 35 anos, \u00e9 um dos milh\u00f5es de trabalhadores que, de uma hora para outra, passou a viver em uma casa onde todos s\u00e3o desempregados. Ele mora na Zona Sul de S\u00e3o Paulo com a ex-mulher e dois filhos: um menino de oito meses e uma menina de um ano e sete meses.<\/p>\n<p>Desde que perdeu o emprego de porteiro, h\u00e1 tr\u00eas meses, ele diz que sai para procurar trabalho de segunda a sexta, dependendo da boa vontade dos motoristas de \u00f4nibus.<\/p>\n<p>&#8220;Eu pe\u00e7o carona no \u00f4nibus. Tem motorista que \u00e9 gente boa. Se o primeiro motorista n\u00e3o d\u00e1, o segundo d\u00e1. Eu n\u00e3o desisto, eu tenho f\u00e9 em Deus de que vou conseguir um emprego&#8221; afirmou, ao sair da triagem na sede do sindicato na semana passada.<\/p>\n<p>Na demiss\u00e3o, recebeu R$ 2 mil pela rescis\u00e3o do contrato e do FGTS, mas o dinheiro acabou r\u00e1pido com as despesas do aluguel de R$ 400, e de alimenta\u00e7\u00e3o geral e a compra de leite para seus filhos. Gastou tamb\u00e9m dinheiro para tirar fotos 3&#215;4 e refazer documentos que tinha perdido para poder participar das sele\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Quando o dinheiro acabou, vou ser sincero: eu fui no trem pedir&#8221;, diz Silva, que levou a ex-mulher e os filhos para pedir dinheiro com ele no trem de Santo Amaro at\u00e9 Franco da Rocha. Considerou a experi\u00eancia humilhante, mas diz que valeu a pena para pagar pelo menos casa e comida.<\/p>\n<p>&#8220;Pensei nos meus filhos. Por eles, eu fa\u00e7o qualquer coisa&#8221;. Ganhou notas de R$ 20, R$ 50, e uma cesta b\u00e1sica de um passageiro que acompanhou Silva com a fam\u00edlia at\u00e9 o mercado. &#8220;Meu aluguel de outubro vence dia 9; e se n\u00e3o tiver emprego no m\u00eas que vem eu vou fazer a mesma coisa&#8221;.<\/p>\n<p>Para evitar que fam\u00edlias como a de Silva ficassem sem alternativas diante da pobreza, o Banco Mundial havia alertado em 2017 que o governo brasileiro deveria aumentar o or\u00e7amento do programa Bolsa Fam\u00edlia para incluir os &#8220;novos pobres&#8221; que surgiriam na recess\u00e3o.<\/p>\n<p>A recomenda\u00e7\u00e3o do banco era de que o or\u00e7amento do programa subisse de R$ 26,4 bilh\u00f5es em 2015 para R$ 30,41 bilh\u00f5es em 2017. Em 2015, quando o desemprego e a infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 cresciam a dois d\u00edgitos, n\u00e3o teve reajustes. A partir de 2016, o programa passou por uma s\u00e9rie de &#8220;pentes-finos&#8221;, para identificar supostas irregularidades.<\/p>\n<p>&#8220;Em termos nominais, o n\u00famero de benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia ficou meio igual durante a crise, enquanto houve seis milh\u00f5es de novos pobres. Eu acho at\u00e9 que fazer o pente fino foi uma boa a\u00e7\u00e3o, mas eu acho que tem que estender a rede de assist\u00eancia social durante a crise, uma coisa n\u00e3o deveria atrapalhar a outra&#8221;, defende Marcelo Neri.<\/p>\n<p>Em termos reais, a renda do Bolsa Fam\u00edlia acumulou queda de 4,2%. &#8220;O Brasil tem uma rede de prote\u00e7\u00e3o social pronta, era s\u00f3 aumentar. Isso n\u00e3o s\u00f3 atrapalhou a pobreza mas atrasou a recupera\u00e7\u00e3o da economia, que ainda est\u00e1 lenta&#8221;.<\/p>\n<p>Neri afirma ainda que, para a economia, o efeito multiplicador do Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 tr\u00eas vezes maior que o de gastos com a Previd\u00eancia, e cinco vezes maior que o de medidas como liberar saques do FGTS, j\u00e1 realizadas nos governo dos presidentes Michel Temer e de\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/governo-bolsonaro\/\">Jair Bolsonaro<\/a>.<\/p>\n<p>Silva, que procura emprego de porteiro, diz que aceitaria um emprego de limpeza durante o dia para concluir os estudos, que fez s\u00f3 at\u00e9 o ensino fundamental. Outro sonho dele \u00e9 conseguir uma casa pr\u00f3pria, ainda que de um c\u00f4modo s\u00f3, para que n\u00e3o precisasse pagar aluguel e dar mais seguran\u00e7a aos filhos.<\/p>\n<p><strong>D\u00edvidas, pessimismo e d\u00e9cada perdida<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisa realizada em setembro pelo Instituto Locomotiva, do pesquisador Renato Meirelles, aponta que as pessoas das classes D e E est\u00e3o mais pessimistas e mais endividadas que as das camadas mais altas. Enquanto 42% dos brasileiros das classes D e E se dizem pessimistas com a pr\u00f3pria renda, tal percentual \u00e9 de 20% na classe C e de 11% nas classes A e B.<\/p>\n<p>Questionados sobre inadimpl\u00eancia, 39% das pessoas das classes D e E dizem ter d\u00edvidas em atraso atualmente, propor\u00e7\u00e3o que cai para 29% entre a classe C e para 17% entre as classes A e B. Nas classes D e E, al\u00e9m disso, 85% dos entrevistados dizem n\u00e3o ter nenhum dinheiro guardado, ante 7% na classe C e 45% nas classes A e B.<\/p>\n<p>Dados da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio tamb\u00e9m indicam que as fam\u00edlias de baixa renda s\u00e3o as mais endividadas e inadimplentes. Na faixa de menor renda, o percentual de fam\u00edlias com contas ou d\u00edvidas em atraso aumentou para 27,4% em agosto de 2019; j\u00e1 no grupo com renda superior a dez sal\u00e1rios m\u00ednimos, o percentual de inadimplentes alcan\u00e7ou 10,9%.<\/p>\n<p>Um dos poucos atenuantes \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o, que &#8220;comeu&#8221; um espa\u00e7o importante da renda do trabalhador durante 2016, mas passou a ser um ponto favor\u00e1vel a partir de 2017, quando ficou mais branda.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o para os mais pobres medida pelo \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor &#8211; Classe 1 (IPC-C1) acumula alta de 4,11% em 12 meses terminados em agosto, quase igual ao IPC-BR, que mede a infla\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>Neri defende a\u00e7\u00f5es de curto e longo prazo voltadas aos mais pobres, como uma pol\u00edtica mais proativa do Bolsa Fam\u00edlia e a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o para o trabalhador.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos pensar muito em igualdade de oportunidades, que \u00e9 uma vis\u00e3o de longo prazo, mas perceber que crises s\u00e3o destruidoras de oportunidades. Ent\u00e3o \u00e9 importante pensar em pol\u00edticas compensat\u00f3rias&#8221;, diz o economista, acrescentando que, diante de crises fiscais como \u00e9 atual, \u00e9 preciso priorizar o gasto social e cortar outras despesas.<\/p>\n<p>&#8220;Agora estamos realmente com o cobertor curto. Achar que a economia vai recuperar com o FGTS, que tem v\u00e1rias virtudes, \u00e9 um dinheiro do trabalhador, n\u00e3o \u00e9 dinheiro fiscal, tem v\u00e1rias vantagens. Mas achar que vai recuperar a economia com ele, ele n\u00e3o vai. Em termos de atividade, cuidar do pobre \u00e9 cuidar do todo e ter uma economia mais saud\u00e1vel tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p>Marcelo Medeiros, de Princeton, afirma que a prote\u00e7\u00e3o aos mais pobres precisa estar no foco das pol\u00edticas econ\u00f4micas. &#8220;N\u00e3o existe pol\u00edtica macroecon\u00f4mica neutra. A\u00e7\u00f5es para recuperar uma economia podem favorecer os mais ricos ou os mais pobres, a depender de como s\u00e3o desenhadas. As medidas de recupera\u00e7\u00e3o at\u00e9 agora n\u00e3o se preocuparam muito com isso, de certa maneira lidam com o problema da desigualdade como um problema que n\u00e3o importa, ou que vai se resolver sozinho&#8221;, diz Medeiros, coautor de um estudo lan\u00e7ado pelo Ipea em 2014 que apontava que a desigualdade n\u00e3o caiu no Brasil na \u00faltima d\u00e9cada, como se pensava.<\/p>\n<p>&#8220;Em termos imediatos, \u00e9 hora de aumentar a cobertura e os valores da assist\u00eancia social, como o Bolsa Fam\u00edlia. Nos momentos de crise \u00e9 preciso expandir a assist\u00eancia, \u00e9 para isso que ela serve&#8221;.<\/p>\n<p>Para ele, o caminho para financiar tais pol\u00edticas \u00e9 discutir uma reforma tribut\u00e1ria que proteja os mais pobres, al\u00e9m de priorizar gastos sociais. &#8220;J\u00e1 h\u00e1 consenso de que o teto de gastos foi mal desenhado. Nos novos desenhos de medidas de responsabilidade fiscal, a rede de prote\u00e7\u00e3o social tem que ficar fora do teto. Para ser justo, um ajuste n\u00e3o pode ser pesado nos pobres.&#8221;<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio da FGV Social para os mais pobres \u00e9 pouco promissor: se a economia crescer a um ritmo de 2,5% daqui pra frente, o que n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo, o pa\u00eds s\u00f3 voltar\u00e1 aos n\u00edveis de pobreza de 2014 a partir de 2030.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos falando de uma d\u00e9cada e meia perdida no combate \u00e0 pobreza&#8221;, diz Neri. &#8220;Uma li\u00e7\u00e3o da crise atual \u00e9 olharmos primeiro para os mais pobres, para proteg\u00ea-los e preservar o movimento da economia como um todo. No bojo da crise de 1999, gestamos e parimos o Bolsa Escola federal; em meio a agruras da crise de 2003, nasceu o Bolsa Fam\u00edlia. Na crise atual, desaprendemos li\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas&#8221;.<\/p>\n<p>https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/bbc\/2019\/09\/27\/desemprego-que-nao-cai-informalidade-e-desanimo-recessao-dos-pobres-e-mais-longa-que-a-dos-ricos.htm<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ligia Guimar\u00e3es &#8211; Parada em frente \u00e0 porta de um sindicato depois de passar dois dias enfrentando filas, calor e questionamentos sobre o seu curr\u00edculo, a ex-operadora de caixa Leonor Maximiano, 59 anos, faz uma promessa a si mesma. &#8220;Eu nunca mais vou participar de um mutir\u00e3o de emprego, nem em feir\u00e3o de emprego. \u00c9 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