{"id":11526,"date":"2019-09-17T18:06:44","date_gmt":"2019-09-17T21:06:44","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11526"},"modified":"2019-09-15T16:08:51","modified_gmt":"2019-09-15T19:08:51","slug":"para-entender-a-crise-ambiental-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/09\/17\/para-entender-a-crise-ambiental-brasileira\/","title":{"rendered":"Para entender a crise ambiental brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Claudio Angelo<\/strong> &#8211; Em 1954, o jornal\u00a0<em>Correio Paulistano<\/em>\u00a0publicou uma den\u00fancia grave: estrangeiros estavam de olho nas nossas florestas. Segundo o jornal, a multinacional petroleira americana Strandard Oil estava defendendo a cria\u00e7\u00e3o de uma reserva florestal no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de S\u00e3o Paulo, com o objetivo oculto de deixar fora do alcance dos brasileiros uma rica jazida de petr\u00f3leo que se supunha haver ali.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a prote\u00e7\u00e3o do Pontal, \u00faltimo grande remanescente de Mata Atl\u00e2ntica no interior paulista, era foco de uma disputa entre ambientalistas e grileiros apoiados pelo poder p\u00fablico. A pendenga se arrastava desde 1946, quando o governador Adhemar de Barros anulou uma s\u00e9rie de decretos que protegiam a regi\u00e3o. A medida foi a maneira que Adhemar encontrou de pagar o apoio eleitoral dos pol\u00edticos locais \u2013 aliados dos invasores.<\/p>\n<p>A campanha do\u00a0<em>Correio<\/em>\u00a0contra a prote\u00e7\u00e3o do Pontal inclu\u00eda dois argumentos al\u00e9m do interesse estrangeiro: primeiro, o de que negar aos \u201cposseiros\u201d o acesso \u00e0quelas terras significava condenar uma popula\u00e7\u00e3o inteira \u00e0 mis\u00e9ria (<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/opiniao\/brasil\/ecologistas-preocupam-se-com-a-natureza-e-se-esquecem-do-ser-humano-escreve-xico-graziano\/\">os ambientalistas cru\u00e9is n\u00e3o estavam nem a\u00ed para as pessoas<\/a>). Segundo, o de que todos os t\u00edtulos de terra do Brasil eram ilegais mesmo, ent\u00e3o o melhor a fazer era anistiar os invasores do oeste paulista e come\u00e7ar tudo do zero.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 contada no magistral\u00a0<em>A ferro e fogo: A hist\u00f3ria e a devasta\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica brasileira<\/em>\u00a0(1995), do historiador americano Warren Dean. Se ela soa familiar para voc\u00ea, \u00e9 porque \u00e9 mesmo: troque 1954 por 2019, Mata Atl\u00e2ntica por Amaz\u00f4nia e o\u00a0<em>Correio Paulistano<\/em>\u00a0por aquele grup\u00e3o do zapzap e voc\u00ea ter\u00e1 a repeti\u00e7\u00e3o quase exata dos acontecimentos.<\/p>\n<p>O desmatamento da Amaz\u00f4nia est\u00e1 em franca acelera\u00e7\u00e3o no governo Bolsonaro, depois de ter interrompido sua tend\u00eancia de desacelera\u00e7\u00e3o no primeiro mandato de Dilma Rousseff. A recente crise das queimadas, que botou o Brasil no topo da lista das preocupa\u00e7\u00f5es mundiais nas \u00faltimas semanas, \u00e9 o sintoma mais vis\u00edvel e malcheiroso desse quadro. Tudo isso est\u00e1 acontecendo porque for\u00e7as muito antigas, que vivem da preda\u00e7\u00e3o da floresta, ressurgiram com for\u00e7a total com um presidente que v\u00ea conserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento econ\u00f4mico como antagonistas.<\/p>\n<p>O espantalho do compl\u00f4 estrangeiro, brandido pelo presidente e seus \u00e1ulicos, e a s\u00fabita preocupa\u00e7\u00e3o do atual ministro do Meio Ambiente com a pobreza dos amaz\u00f4nidas, s\u00e3o parte de um script antigo. N\u00f3s j\u00e1 sabemos como o filme termina. A Mata Atl\u00e2ntica foi reduzida a 12% de sua cobertura original. O Pontal do Paranapanema foi entregue aos grileiros, desmatado at\u00e9 o \u00faltimo toco e depois tornou-se um bols\u00e3o de pobreza e viol\u00eancia no campo no Estado mais rico do pa\u00eds. Como a hist\u00f3ria \u00e9 cheia de ironias, o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, que hoje contemporiza com grileiros e madeireiros na Amaz\u00f4nia, lan\u00e7ou-se candidato a deputado prometendo balas de fuzil contra o MST \u2013 movimento que ganhou corpo no caos social induzido pelo desmatamento no Pontal.<\/p>\n<p>Dean conhecia o Brasil com profundidade suficiente para antecipar isso. Ao historiografar a derrocada da Mata Atl\u00e2ntica, ele na verdade tinha em mente produzir um alerta contra a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Morto em 1994 num acidente de carro no Chile, antes da publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>A ferro e fogo<\/em>, n\u00e3o p\u00f4de assistir ao pa\u00eds ensaiar tomar o rumo da salva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia entre 2005 e 2012, s\u00f3 para depois empoderar como nunca os respons\u00e1veis por sua destrui\u00e7\u00e3o em pleno 2019. Possivelmente teria dito nos anos m\u00e1gicos da redu\u00e7\u00e3o das taxas de desmatamento que ainda era cedo demais para comemorar. Afinal, seu livro\u00a0 mostra com farta documenta\u00e7\u00e3o que, se h\u00e1 uma coisa que os brasileiros se especializaram em fazer durante cinco s\u00e9culos, essa coisa foi desperdi\u00e7ar recursos naturais sem ganhar quase nada com isso.<\/p>\n<p>A obra \u00e9 um dos tr\u00eas livros que eu considero essenciais para entender o Brasil (al\u00e9m de\u00a0<em>Casa-Grande &amp; Senzala<\/em>, de Gilberto Freyre, e\u00a0<em>O povo brasileiro<\/em>, de Darcy Ribeiro). Ela relata a hist\u00f3ria do Brasil desde o ponto de vista da floresta atl\u00e2ntica. O bioma, que viu florescer a sociedade tupi, tamb\u00e9m foi palco da invas\u00e3o dos europeus a partir de 1500 \u2013 o primeiro e agourento ato dos portugueses na nova terra, lembra o autor, foi cortar uma \u00e1rvore para fazer uma cruz \u2013 e at\u00e9 hoje abriga a maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Do 22 de abril l\u00e1 para c\u00e1, a\u00a0<em>ca\u00e1-et\u00e9<\/em>\u00a0(\u201cmato verdadeiro\u201d) dos \u00edndios sofreu derrota ap\u00f3s derrota. Primeiro no ciclo de explora\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore que deu nome ao pa\u00eds, depois no estabelecimento de planta\u00e7\u00f5es extensivas de cana, depois na minera\u00e7\u00e3o de ouro, no pastoreio, no caf\u00e9 e, por fim, na industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A t\u00f4nica nesse hist\u00f3rico sempre foi a burrice no uso da floresta. Ainda na col\u00f4nia, viajantes europeus notavam indignados o contraste entre a mis\u00e9ria dos brasileiros e a riqueza do ambiente em que viviam. A voracidade do ataque \u00e0 mata era t\u00e3o grande que o bot\u00e2nico alem\u00e3o Karl Von Martius, em 1810, foi levado a supor que a regi\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o de diamantes de Minas Gerais nunca tivesse abrigado uma floresta tropical e fosse desde sempre uma pradaria.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 18, os estaleiros reais portugueses precisavam importar madeira para navios oce\u00e2nicos da Nova Inglaterra, enquanto no Brasil essa madeira resistente era contrabandeada para outras na\u00e7\u00f5es ou simplesmente queimada para a forma\u00e7\u00e3o de pastagens. Data dessa \u00e9poca, em 1795, a primeira tentativa de impor conserva\u00e7\u00e3o florestal no Brasil, para preservar estoques de \u201cpau-real ou madeira-de lei\u201d, como eram chamadas as esp\u00e9cies adequadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o naval. Os madeireiros enxergaram a medida da Coroa como uma intromiss\u00e3o seu direito de propriedade (mesmo argumento usado s\u00e9culos depois pelo senador Fl\u00e1vio Bolsonaro para tentar eliminar a reserva legal de florestas da propriedade rural no Brasil). A pr\u00e1tica de tocar fogo em madeiras de lei subsistiu: em 1950, segundo um c\u00e1lculo apresentado por Dean, a Mata Atl\u00e2ntica do norte do Paran\u00e1 era desmatada \u00e0 taxa de 150 mil hectares por ano; isso em tese forneceria 75 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de madeiras, mas as serrarias locais s\u00f3 processavam 300 mil m<sup>3<\/sup>\u00a0anuais.<\/p>\n<p>A estupidez tamb\u00e9m fica patente no tratamento dado aos produtos da biodiversidade brasileira. Dean conta que o Brasil importava quinino da Espanha, de m\u00e1 qualidade e deteriorado, quando a \u00e1rvore da qual a subst\u00e2ncia era extra\u00edda abundava no pa\u00eds. Outros dois produtos, a cochonilha (que fornece um corante vermelho) e o \u00edndigo, tiveram uma breve passagem pelo mercado internacional e depois sumiram. Segundo o historiador, o \u00edndigo falhou justamente por ser uma cultura menos agressiva \u00e0 floresta e mais acess\u00edvel a produtores mais pobres. \u201cO colapso do \u00edndigo foi mais do que um incidente na hist\u00f3ria comercial brasileira: foi um sintoma da domina\u00e7\u00e3o social que canalizava os recursos para uma cultura \u00fanica [no caso, a cana], quase sempre uma cultura que colocava os pobres em desvantagem na produ\u00e7\u00e3o\u201d, escreve Dean.<\/p>\n<p>\u00c9 uma desgra\u00e7a da nacionalidade que n\u00e3o tenhamos aprendido praticamente nada com os erros do passado. Hoje os munic\u00edpios campe\u00f5es de desmatamento s\u00e3o tamb\u00e9m os mais pobres e mais violentos da Amaz\u00f4nia e est\u00e3o entre os de pior IDH do Brasil. Os alertas da ci\u00eancia sobre os efeitos do desmate s\u00e3o minimizados como foram nos tempos de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio e Alberto Loefgren, e qualquer tentativa orientada pela ci\u00eancia de impor limites \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o encontra o mesmo tipo de resist\u00eancia, dos mesmos grupos. Os produtos da floresta, \u00e0 not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o do a\u00e7a\u00ed, n\u00e3o encontram espa\u00e7o nas cadeias produtivas, mais uma vez voltadas a uma monocultura que p\u00f5e os pobres em desvantagem \u2013 desta vez a soja. De 1988 a 2005, devido ao desmatamento e \u00e0s queimadas, o Brasil foi um dos cinco maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. Ao contr\u00e1rio dos EUA, da Europa e da China, aqui a polui\u00e7\u00e3o n\u00e3o trouxe crescimento.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa a diferenciar as trajet\u00f3rias da Mata Atl\u00e2ntica e da Amaz\u00f4nia \u00e9 a velocidade: enquanto meros 7.500 km<sup>2<\/sup>\u00a0de floresta atl\u00e2ntica foram derrubados em um s\u00e9culo e meio, entre 1700 e 1850, quando o Brasil era o maior exportador de a\u00e7\u00facar do planeta, na Amaz\u00f4nia 7.500 km<sup>2<\/sup>\u00a0de mata viraram fuma\u00e7a apenas em 2018. Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o aprendemos nada, aprendemos formas mais eficientes de jogar fora nosso patrim\u00f4nio. Ainda n\u00e3o \u00e9 tarde demais para ler Warren Dean e escutar seu aviso. Em breve ser\u00e1.<\/p>\n<p>http:\/\/www.blogdacompanhia.com.br\/conteudos\/visualizar\/Para-entender-a-crise-ambiental-brasileira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudio Angelo &#8211; Em 1954, o jornal\u00a0Correio Paulistano\u00a0publicou uma den\u00fancia grave: estrangeiros estavam de olho nas nossas florestas. 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