{"id":11494,"date":"2019-09-14T09:46:27","date_gmt":"2019-09-14T12:46:27","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11494"},"modified":"2019-09-12T15:48:45","modified_gmt":"2019-09-12T18:48:45","slug":"o-bolsonarismo-e-o-proibicionismo-se-retroalimentam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/09\/14\/o-bolsonarismo-e-o-proibicionismo-se-retroalimentam\/","title":{"rendered":"O bolsonarismo e o proibicionismo se retroalimentam"},"content":{"rendered":"<p><strong>J\u00falio Delmanto &#8211; <\/strong>O governo alimenta e sustenta o proibicionismo, que alimenta e sustenta o governo, seus integrantes e sua base social. Cabe a n\u00f3s, que prezamos a vida, e n\u00e3o o dinheiro e a morte, defender e aprofundar o legado dos avan\u00e7os conquistados, independentemente de quem esteja no poder.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0s pol\u00edticas sobre drogas, o governo do presidente Jair Bolsonaro, agora iniciando seu segundo semestre de medo e del\u00edrio em Bras\u00edlia, tem aprofundado uma tend\u00eancia j\u00e1 existente h\u00e1 alguns anos em nosso pa\u00eds: um imenso descompasso entre os avan\u00e7os sociais, cient\u00edficos e culturais e as pol\u00edticas e iniciativas institucionais sobre o tema.<\/p>\n<p>Se o antiproibicionismo \u2013 a defesa p\u00fablica e organizada da mudan\u00e7a nas pol\u00edticas de guerra \u00e0s drogas \u2013 tem suas origens no Brasil no in\u00edcio dos anos 1980, sua consolida\u00e7\u00e3o se d\u00e1 na virada da primeira para a segunda d\u00e9cada dos anos 2000, com o surgimento e a amplia\u00e7\u00e3o da Marcha da Maconha, hoje um dos principais movimentos sociais do pa\u00eds. Inicialmente min\u00fascula, desorganizada, estigmatizada, ignorada (inclusive pela esquerda) e mesmo proibida, a Marcha hoje mobiliza centenas de milhares de pessoas em dezenas de cidades do pa\u00eds, em atos de desobedi\u00eancia civil organizada. As manifesta\u00e7\u00f5es que eram antes pequenos grupos, predominantemente brancos, masculinos e estudantis, hoje s\u00e3o gigantescas e diversificadas, com muita gente negra, jovem, perif\u00e9rica, LGBT \u2013 divergente \u2013 desobedecendo \u00e0 lei injusta de forma p\u00fablica e conjunta.<\/p>\n<p>Esses avan\u00e7os n\u00e3o aconteceram do nada. Foram fruto de muito trabalho, criatividade e dedica\u00e7\u00e3o dos ativistas, mas tamb\u00e9m de mudan\u00e7as na conjuntura do debate de drogas no Brasil e no mundo. Com o proibicionismo completando seu primeiro s\u00e9culo de resultados desastrosos, muitos pa\u00edses j\u00e1 reavaliaram suas posi\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas sobre drogas. Pesquisas cient\u00edficas com subst\u00e2ncias demonizadas e as teorias e iniciativas pr\u00e1ticas do campo da redu\u00e7\u00e3o de danos ganharam muito espa\u00e7o internacionalmente, assim como cada vez mais figuras p\u00fablicas \u201csa\u00edram do arm\u00e1rio\u201d em defesa do fim da guerra \u00e0s drogas, mudando um pouco a percep\u00e7\u00e3o estigmatizada e n\u00e3o diversificada que se tinha dos usu\u00e1rios de drogas. Afinal, somos todos usu\u00e1rios de drogas, l\u00edcitas ou il\u00edcitas, e n\u00e3o \u00e9 isso que define o car\u00e1ter e o valor de ningu\u00e9m: cada vez mais pessoas t\u00eam percebido isso.<\/p>\n<p>Junto com essas transforma\u00e7\u00f5es mais sociais ou culturais houve tamb\u00e9m importantes medidas antiproibicionistas em diversos pa\u00edses, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maconha. Uruguai e Canad\u00e1 j\u00e1 legalizaram todos os usos e a venda da planta, cercando o continente pelo Norte e pelo Sul, e mesmo nos Estados Unidos, principal idealizador e difusor global das pol\u00edticas proibicionistas no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, em 32 dos cinquenta estados se permite a maconha para fins terap\u00eauticos, e em dez deles a\u00a0<em>Cannabis<\/em>\u00a0\u00e9 legal para todos os fins. A legaliza\u00e7\u00e3o da maconha e o fim da guerra foram promessas da campanha presidencial vencedora do \u00faltimo pleito no M\u00e9xico, e tamb\u00e9m se aproximam de virar lei na Jamaica, onde a realidade j\u00e1 ultrapassou a proibi\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo. Outros pa\u00edses americanos, como Chile e Col\u00f4mbia, t\u00eam avan\u00e7ado consideravelmente no campo da maconha para fins medicinais: em escala global, esse debate \u00e9 ainda mais f\u00e9rtil e tem atra\u00eddo o interesse n\u00e3o s\u00f3 de muita gente que tem problema de sa\u00fade e pode ter seu sofrimento diminu\u00eddo, como tamb\u00e9m de empresas e investidores. Cogumelos, coca, LSD, MDMA, diversas outras plantas e subst\u00e2ncias t\u00eam tido sua legalidade rediscutida e seus efeitos terap\u00eauticos estudados cientificamente.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-104283\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-1024x557.jpg?resize=640%2C348&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-1024x557.jpg 1024w, \/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-300x163.jpg 300w, \/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-768x418.jpg 768w, \/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-1080x587.jpg 1080w, \/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-241x130.jpg 241w, \/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-160x87.jpg 160w, \/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-360x196.jpg 360w, \/wp-content\/uploads\/2019\/08\/HANDS-BOLSO-600x326.jpg 600w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"348\" \/><\/p>\n<p>No Brasil \u00e9 poss\u00edvel observar essa mudan\u00e7a e esse avan\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 com o crescimento da Marcha da Maconha, mas tamb\u00e9m se olharmos para a vis\u00edvel e progressiva abertura que tem ocorrido nesse debate nos \u00faltimos anos. Uma s\u00e9rie de novos atores e atrizes se somou ao \u2013 ou no m\u00ednimo se aproximaram do \u2013 antiproibicionismo: artistas, intelectuais, pesquisadores, pol\u00edticos, partidos de esquerda e mesmo de direita, movimentos sociais, ONGs, \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o, m\u00e9dicos, advogados, religiosos, pessoas afetadas pelo sistema carcer\u00e1rio, pacientes ou familiares de pacientes que usam maconha, moradores de periferia\u2026 Muita gente repensou sua posi\u00e7\u00e3o, influenciados e influenciando esse novo entendimento social sobre uso de drogas que tem se consolidado, mesmo que ainda estejamos num pa\u00eds majoritariamente conservador.<\/p>\n<p>Hoje em dia \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que defenda que o consumo de \u00e1lcool \u00e9 menos potencialmente danoso que o de maconha, ou que uma crian\u00e7a merece ter centenas de convuls\u00f5es di\u00e1rias por seu rem\u00e9dio ser proveniente de uma planta proibida, ou mesmo que \u201ccombater\u201d maconha e coca\u00edna tem ajudado em alguma coisa na viol\u00eancia e na corrup\u00e7\u00e3o, e a avalanche de informa\u00e7\u00f5es propiciada e difundida pelas redes sociais s\u00f3 tem tornado essa bola de neve mais irrevers\u00edvel. Anteriormente proibido, o debate sobre drogas hoje \u00e9 feito livremente em cada vez mais lugares, e o caso das associa\u00e7\u00f5es de pacientes que distribuem e mesmo produzem sua pr\u00f3pria maconha para uso terap\u00eautico \u00e9 um exemplo fant\u00e1stico de como ser\u00e1 \u2013 e de como j\u00e1 \u00e9! \u2013 um contexto n\u00e3o proibicionista e inclusive n\u00e3o mercadol\u00f3gico de circula\u00e7\u00e3o de drogas.<\/p>\n<p>No entanto, como dito anteriormente, h\u00e1 um grande descompasso entre esses avan\u00e7os e a institucionalidade pol\u00edtica brasileira \u2013 como, ali\u00e1s, me parece acontecer em praticamente todos os setores. Se nos \u00faltimos dez anos, aproximadamente, temos visto essas marcantes mudan\u00e7as em \u00e2mbito nacional e internacional, as pouqu\u00edssimas conquistas que aconteceram nas leis e pol\u00edticas nos \u00faltimos anos foram bastante t\u00edmidas. Concentraram-se sobretudo no campo da maconha terap\u00eautica e da redu\u00e7\u00e3o de danos, e em geral s\u00e3o medidas parciais, que aconteceram sem apoio dos governos, ou mesmo contra eles.<\/p>\n<p>E mais: al\u00e9m de t\u00edmidas, essas conquistas no momento est\u00e3o na mira do governo federal, que busca n\u00e3o s\u00f3 anul\u00e1-las, como tamb\u00e9m realizar novos retrocessos. A Anvisa, respons\u00e1vel por regulamentar o (urgente!) uso medicinal da maconha, tem sido cercada e amea\u00e7ada a todo momento pelo ministro Osmar Terra, representante maior do proibicionismo no governo; a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 vista como inimiga da abstin\u00eancia e das comunidades terap\u00eauticas, prioridades dos atuais mandat\u00e1rios do pa\u00eds; e a descriminaliza\u00e7\u00e3o da posse de drogas para consumo pessoal, que est\u00e1 com julgamento suspenso desde 2015 no STF, foi barrada (ou supostamente adiada) depois do vergonhoso acordo (ou \u201cpacto\u201d, como anunciado pelos pr\u00f3prios envolvidos) feito entre Bolsonaro, Rodrigo Maia e Dias Toffoli, representantes m\u00e1ximos de poderes que na teoria deveriam ser independentes.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que os pequenos avan\u00e7os foram barrados, est\u00e3o sendo implementados retrocessos em um cen\u00e1rio que parecia imposs\u00edvel de piorar. No dia em que completou cem dias de \u201cgest\u00e3o\u201d, em abril, o presidente assinou o decreto da \u201cNova pol\u00edtica de drogas\u201d, que de nova tem muito pouco. Entre os pontos previstos, e pol\u00eamicos, est\u00e3o o veto \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de danos e verbas e incentivos para as comunidades terap\u00eauticas tratarem supostos dependentes. No m\u00eas seguinte foi aprovado, em ritmo expresso por medo da poss\u00edvel descriminaliza\u00e7\u00e3o no STF, que acabaria adiada, um projeto de lei do ent\u00e3o deputado e agora ministro Osmar Terra, que prev\u00ea o aumento da pena m\u00ednima para tr\u00e1fico de cinco para oito anos no caso de suposto envolvimento com organiza\u00e7\u00f5es criminosas. Uma campanha antidrogas pessimamente elaborada e mudan\u00e7as no Conselho Nacional de Pol\u00edticas sobre Drogas (Conad) tamb\u00e9m foram feitas pelo governo nesse seu primeiro semestre \u2013 que j\u00e1 pareceu infinito.<\/p>\n<p>Esses dois pontos \u2013 o est\u00edmulo, o financiamento e a n\u00e3o fiscaliza\u00e7\u00e3o das comunidades terap\u00eauticas e o aumento da pena m\u00ednima para tr\u00e1fico \u2013 certamente trar\u00e3o impactos graves para a j\u00e1 grav\u00edssima situa\u00e7\u00e3o dos supostos dependentes, muitas vezes tratados como presos ou at\u00e9 mesmo trabalhadores escravizados, e do sistema carcer\u00e1rio, altamente seletivo, racista e corrupto. Dos cerca de 800 mil presos atualmente no pa\u00eds, aproximadamente 300 mil est\u00e3o tendo seus direitos cerceados e vivendo em condi\u00e7\u00f5es indignas por conta de supostas viola\u00e7\u00f5es \u00e0 lei de drogas, a enorme maioria negros, jovens e pobres \u2013 a tend\u00eancia \u00e9 que esse n\u00famero aumente com a mudan\u00e7a, cen\u00e1rio que pioraria a n\u00edveis inimagin\u00e1veis se posteriormente fosse aprovado o \u201cpacote anticrime\u201d proposto pelo ministro S\u00e9rgio Moro, hoje felizmente quase engavetado, junto com a reputa\u00e7\u00e3o do ex-juiz.<\/p>\n<p><strong>Governo \u00e9 o maior maximizador de danos<\/strong><\/p>\n<p>Esses retrocessos, no entanto, n\u00e3o me parecem ser a discuss\u00e3o central no tema das drogas na atual conjuntura, mesmo que o enfoque principal da an\u00e1lise aqui seja o governo federal, a pol\u00edtica institucional. Isso porque, para mim, o maior risco atual no que diz respeito \u00e0s pol\u00edticas de drogas e aos direitos humanos n\u00e3o \u00e9 nenhuma das a\u00e7\u00f5es citadas anteriormente: \u00e9 o pr\u00f3prio governo, como um todo. Se o Estado brasileiro sempre foi o maior agente da guerra \u00e0s drogas, do encarceramento, do genoc\u00eddio etc., ele atualmente est\u00e1 sendo comandado de uma forma ainda mais violenta, corrupta e irrespons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o s\u00f3 pelo que o grupo que est\u00e1 no governo defende e apregoa, mas tamb\u00e9m, e talvez principalmente, por suas origens e bases de sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica. H\u00e1 fortes ind\u00edcios de que a fam\u00edlia Bolsonaro seja intimamente ligada \u00e0s chamadas mil\u00edcias do Rio de Janeiro, organiza\u00e7\u00f5es essas que s\u00e3o altamente conectadas com a militariza\u00e7\u00e3o e com a guerra \u00e0s drogas. Al\u00e9m de venderem drogas nos territ\u00f3rios que controlam e terem, portanto, interesse econ\u00f4mico na manuten\u00e7\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o, as mil\u00edcias t\u00eam outros interesses articulados \u00e0 guerra, como tr\u00e1fico de armas, extors\u00f5es e controle territorial. Al\u00e9m disso, elas s\u00e3o formadas por policiais e ex-policiais, e todos sabemos como corrup\u00e7\u00e3o e proibi\u00e7\u00e3o s\u00e3o praticamente sin\u00f4nimos \u2013 se a \u00faltima acabasse, diminuiriam muito os lucros provenientes da primeira. A dificuldade de elucida\u00e7\u00e3o do caso Marielle Franco mostra como esses grupos tamb\u00e9m est\u00e3o muito conectados com a justi\u00e7a e com a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da fam\u00edlia do presidente, desses seus filhos esquisitos e dos milicianos, h\u00e1 no governo e em torno dele uma s\u00e9rie de outros grupos e interesses que querem e precisam que a proibi\u00e7\u00e3o e a guerra continuem. A mais \u00f3bvia \u00e9 a ind\u00fastria oficial das armas e tamb\u00e9m seus comerciantes extraoficiais, como o PM Ronnie Lessa, suspeito de ser o assassino material de Marielle e que teve 117 fuzis apreendidos na casa de um amigo. Antes de se mudar para um pres\u00eddio no Rio Grande do Norte, Lessa morava no mesmo condom\u00ednio do presidente Bolsonaro. Para os traficantes e para as empresas produtoras de armas, a quest\u00e3o \u00e9 a mesma: quanto mais guerra, mais vendas, para todos os lados do conflito. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia nenhuma que uma das primeiras medidas desse governo tenha sido desregulamentar a venda de armas, o que causou imediato boom das a\u00e7\u00f5es das empresas produtoras de armas nas Bolsas de Valores. A maconha, que nunca matou ningu\u00e9m, \u00e9 proibida em nome da vida. J\u00e1 as armas\u2026<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m tem fort\u00edssimos interesses econ\u00f4micos na proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 o lobby das comunidades terap\u00eauticas, j\u00e1 qualificado por alguns pesquisadores como uma poss\u00edvel \u201cind\u00fastria da interna\u00e7\u00e3o\u201d. Ligadas aos setores religiosos em geral privilegiados pelo atual governo, essas institui\u00e7\u00f5es foram fortalecidas desde os governos petistas e recebem constantes e in\u00fameras den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos e \u00e0 reforma antimanicomial. A enorme maioria delas n\u00e3o oferece profissionais qualificados, projetos de tratamento e muitas vezes nem mesmo liberdade aos internos; h\u00e1 casos comprovados de tortura, castigos f\u00edsicos e mortes. A fiscaliza\u00e7\u00e3o historicamente \u00e9 muito pequena, quando existe, e, com a \u201cnova\u201d pol\u00edtica de drogas, a tend\u00eancia \u00e9 que a disputa pelos recursos agora mais abundantes se intensifique \u2013 consequentemente aumentar\u00e1 tamb\u00e9m a demanda por internar pessoas. Sabemos quem pagar\u00e1 a conta. Na d\u00favida, podemos assistir ao filme\u00a0<em>Bicho de sete cabe\u00e7as<\/em>, infelizmente ainda atual em muitos aspectos.<\/p>\n<p>Milicianos, ind\u00fastria das armas e da seguran\u00e7a, traficantes de armas, religiosos gestores de comunidades terap\u00eauticas, policiais e militares (39 kg!) corruptos: esses setores sustentam tanto o governo quanto a proibi\u00e7\u00e3o, por motivos sobretudo econ\u00f4micos. H\u00e1 ainda os interesses morais, os \u201cempres\u00e1rios morais\u201d de que falava Howard Becker. Nesse caso, a converg\u00eancia entre o chamado \u201cbolsonarismo\u201d e o proibicionismo \u00e9 absoluta: a liberdade ao corpo, em qualquer de seus aspectos, causa horror aos evang\u00e9licos mais fundamentalistas, terraplanistas, olavistas, golpistas, militares, xen\u00f3fobos, youtubers de extrema direita, incels, mis\u00f3ginos e outras vertentes malucas que formam o chamado \u201cn\u00facleo ideol\u00f3gico\u201d do governo. Desde sua presen\u00e7a em cultos e celebra\u00e7\u00f5es at\u00e9 a promessa de nomear um ministro evang\u00e9lico para o STF, Bolsonaro tem demonstrado priorizar o eleitorado religioso conservador, para o qual a pauta das drogas, e dos costumes em geral, tem grande import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o h\u00e1 surpresa nenhuma no fato de o governo estar privilegiando a guerra e a militariza\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0s pol\u00edticas de drogas. Estranho seria se fosse diferente. Como diz um amigo meu, gatos n\u00e3o voam. O governo alimenta e sustenta o proibicionismo, que alimenta e sustenta o governo, seus integrantes e sua base social. Cabe a n\u00f3s, que prezamos a vida, e n\u00e3o o dinheiro e a morte, defender e aprofundar o legado dos avan\u00e7os conquistados, independentemente de quem esteja no poder. Afinal, esses avan\u00e7os foram conseguidos n\u00e3o gra\u00e7as a nenhum governo, e sim \u00e0 base de muita luta, feita desde baixo. Os efeitos dessa luta, dessa desobedi\u00eancia, dessa legaliza\u00e7\u00e3o cotidiana que se espalha h\u00e1 muitos anos, s\u00e3o sentidos em qualquer quebrada ou canto da cidade. Mesmo que simples canetadas n\u00e3o possam destru\u00ed-los ou revert\u00ea-los assim t\u00e3o facilmente, \u00e9 bom ficarmos muito atentos, at\u00e9 porque, como foi dito, os avan\u00e7os foram pequenos \u2013 o fim do antiproibicionismo \u00e9 a busca da liberdade (e o meio tamb\u00e9m!).<\/p>\n<p>Num momento em que qualquer tipo de mudan\u00e7a progressista em mat\u00e9ria de pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 algo impens\u00e1vel, acho importante valorizar esse outro lado, do que j\u00e1 foi conquistado e dificilmente ser\u00e1 revertido. O caminho para a mudan\u00e7a passa por a\u00ed, por aprofundar essa aposta na transforma\u00e7\u00e3o desde baixo, que garantir\u00e1 que a mudan\u00e7a na lei seja efetiva, seja inevit\u00e1vel. E n\u00e3o s\u00f3, pois a busca da mudan\u00e7a de mentalidade \u00e9 um trabalho cotidiano e social para al\u00e9m das leis \u2013 que j\u00e1 vem sendo feito e precisa ser protegido, preservado e ampliado. A proibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 total, n\u00e3o funciona plenamente nem geogr\u00e1fica nem temporalmente. Em muitos ambientes, contextos e momentos j\u00e1 vivemos a legaliza\u00e7\u00e3o, o antiproibicionismo, com a viol\u00eancia e o autoritarismo passando longe de nossas decis\u00f5es e pr\u00e1ticas. \u00c9 preciso aprofundar isso e acabar com essa guerra que afeta tanta gente em benef\u00edcio de t\u00e3o poucos. A gan\u00e2ncia e a viol\u00eancia deles s\u00e3o muito grandes: s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o maiores do que a necessidade de super\u00e1-las.<\/p>\n<p>https:\/\/diplomatique.org.br\/o-bolsonarismo-e-o-proibicionismo-se-retroalimentam\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Delmanto &#8211; O governo alimenta e sustenta o proibicionismo, que alimenta e sustenta o governo, seus integrantes e sua base social. 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