{"id":11491,"date":"2019-09-13T18:01:19","date_gmt":"2019-09-13T21:01:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11491"},"modified":"2019-09-11T22:10:46","modified_gmt":"2019-09-12T01:10:46","slug":"o-mito-do-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/09\/13\/o-mito-do-antropoceno\/","title":{"rendered":"O mito do Antropoceno"},"content":{"rendered":"<p><strong>Andreas Malm<\/strong> &#8211; Culpar a humanidade pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica deixa o capitalismo sair ileso de suas trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>O ano de 2014 foi o mais quente j\u00e1 registrado. Ainda assim, os \u00faltimos n\u00fameros mostram que em 2013 a fonte que gerou a maior parte da energia para a economia mundial n\u00e3o foi solar, e\u00f3lica, nem mesmo o g\u00e1s natural ou petr\u00f3leo, mas o carv\u00e3o.<\/p>\n<p>O crescimento nas emiss\u00f5es globais \u2013 de 1% ao ano nos anos 90 para 3% at\u00e9 agora neste mil\u00eanio \u2013 \u00e9 impressionante. \u00c9 um aumento paralelo ao do nosso conhecimento crescente das terr\u00edveis consequ\u00eancias do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p><em>Quem est\u00e1 nos levando ao desastre?<\/em>\u00a0Uma resposta radical\u00a0seria a depend\u00eancia do Capitalismo da extra\u00e7\u00e3o e do uso de energias f\u00f3sseis. Alguns, por\u00e9m, preferem identificar outros culpados.<\/p>\n<p>A terra, nos dizem, entrou agora no \u201c<em>Antropoceno<\/em>\u201d: a \u00c9poca da Humanidade. Enormemente popular \u2013 e aceito at\u00e9 mesmo por muitos estudiosos marxistas \u2013 o conceito do Antropoceno sugere que a humanidade \u00e9 a nova for\u00e7a geol\u00f3gica transformando o planeta para al\u00e9m de qualquer reconhecimento, principalmente ao queimar quantidades prodigiosas de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural.<\/p>\n<p>De acordo com estes intelectuais, tal degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado dos humanos agindo segundo suas predisposi\u00e7\u00f5es inatas, o destino inescap\u00e1vel para um planeta sujeito ao \u201cbusiness-as-usual\u201d\u00a0da humanidade. De fato, os proponentes n\u00e3o poderiam argumentar de outra forma, por que se essas din\u00e2micas tivessem um car\u00e1ter mais contingente, a narrativa de uma\u00a0<em>esp\u00e9cie inteira<\/em>\u00a0ascendendo \u00e0 supremacia biosf\u00e9rica seria de dif\u00edcil defesa.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria deles est\u00e1 centrada em um elemento cl\u00e1ssico: o fogo. Apenas a esp\u00e9cie humana pode manipular o fogo, e da\u00ed que ela seja a \u00fanica capaz de destruir o clima; quando nossos ancestrais aprenderam a incendiar as coisas, eles acenderam o estopim do \u201cbusiness-as-usual\u201d. Aqui, escrevem os proeminentes cientistas clim\u00e1ticos Michael Raupach e Josep Canadell, estava \u201co gatilho evolucion\u00e1rio essencial para o Antropoceno\u201d, levando a humanidade direto para \u201ca descoberta de que a energia poderia ser derivada n\u00e3o apenas de carbono de detritos bi\u00f3ticos, mas tamb\u00e9m de carbono de detritos f\u00f3sseis, inicialmente \u00e0 partir do carv\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A\u00a0<em>raz\u00e3o prim\u00e1ria<\/em>\u00a0para a atual queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis seria que \u201cmuito antes da Era Industrial, uma esp\u00e9cie particular de primatas aprendeu como drenar as reservas de energia estocadas em carbono detr\u00edtico.\u201d Eu aprendendo a andar com um ano de idade \u00e9 a raz\u00e3o pra que eu dance salsa hoje; quando a humanidade inflamou sua primeira \u00e1rvore morta, s\u00f3 poderia resultar, um milh\u00e3o de anos depois, \u00a0em queimar um barril de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Ou, nas palavras de Will Steffen, Paul J. Crutzen, e John R. McNeill: \u201cO controle do fogo pelos nossos ancestrais proveu a humanidade com uma poderosa ferramenta monopol\u00edstica indispon\u00edvel para outras esp\u00e9cies, que nos colocou firmemente no longo caminho rumo ao Antropoceno.\u201d Nesta narrativa, a economia f\u00f3ssil \u00e9 precisamente<em>\u00a0a cria\u00e7\u00e3o da humanidade<\/em>, ou do \u201co macaco-de-fogo,\u00a0<em>Homo pyrophilus<\/em>\u201d, como na vers\u00e3o popular do pensamento do Antropoceno de Mark Lyna, apropriadamente entitulada \u201cA Esp\u00e9cie Divina\u201d.<\/p>\n<p>Agora, a habilidade de manipular o fogo foi certamente uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o come\u00e7o da queima de combustiveis f\u00f3sseis em larga escala na Inglaterra no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Mas foi tamb\u00e9m a causa disso?<\/p>\n<p>O mais importante a se notar aqui \u00e9 a estrutura l\u00f3gica da narrativa do Antropoceno: algum tra\u00e7o\u00a0<em>universal<\/em>\u00a0da esp\u00e9cie precisa estar guiando a sua \u00e9poca geol\u00f3gica, sen\u00e3o seria o caso de algum subconjunto da esp\u00e9cie [estar cumprindo este papel]. Mas a hist\u00f3ria da natureza humana pode vir de diversas formas, tanto no g\u00eanero do Antropoceno como em outras partes do discurso sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Em um ensaio na antologia \u201cEngaging with Climate Change\u201d, o psicoanalista John Keene oferece uma explica\u00e7\u00e3o original para o porqu\u00ea dos humanos polu\u00edrem o planeta e se recusarem a parar. Na inf\u00e2ncia, o ser humano descarrega dejetos sem limites e aprende que sua zelosa m\u00e3e levar\u00e1 para longe as fezes e a urina, e limpar\u00e1 sua virilha.<\/p>\n<p>Como resultado, os seres humanos estariam acostumados \u00e0 pratica de deteriorar os seus arredores: \u201cAcredito que estes repetidos encontros contribuem para a cren\u00e7a complementar de que o planeta \u00e9 uma \u2018privada-m\u00e3e\u2019 ilimitada, capaz de absorver nossos produtos t\u00f3xicos ao infinito.\u201d<\/p>\n<p>Mas onde est\u00e1 a evid\u00eancia para qualquer tipo de conex\u00e3o causal entre queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e defeca\u00e7\u00e3o infantil? O que dizer de todas aquelas gera\u00e7\u00f5es que, at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, dominaram ambas as artes mas nunca esvaziaram os dep\u00f3sitos de carbono da Terra e os despejaram na atmosfera? Eles eram defecadores e queimadores apenas esperando para realizar todo o seu potencial?<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil zombar de certas formas de psican\u00e1lise, mas tentativas de atribuir o \u201cbusiness-as-usual\u201d \u00e0s propriedades da esp\u00e9cie humana est\u00e3o fadadas \u00e0 vacuidade. O que existe\u00a0<em>sempre e em toda parte<\/em>\u00a0n\u00e3o pode explicar por que uma sociedade diverge de todas as outras e desenvolve algo novo \u2013 tal como a economia f\u00f3ssil, que apenas emergiu a cerca de dois s\u00e9culos mas que j\u00e1 se tornou t\u00e3o arraigada que n\u00f3s a reconhecemos como a \u00fanica forma em que os humanos podem produzir.<\/p>\n<p>Enquanto isso, por\u00e9m, o discurso climatico mainstream est\u00e1 encharcado de referencias \u00e0 humanidade como tal, \u201ca natureza humana\u201d, \u201co engenho humano\u201d, como um grande vil\u00e3o dirigindo o trem. Em \u201cA Esp\u00e9cie Divina\u201d, podemos ler \u201cO poder divino est\u00e1 sendo cada vez mais exercido por n\u00f3s. N\u00f3s somos os criadores da vida, mas tamb\u00e9m somos seus destruidores.\u201d Esta \u00e9 uma das mais comuns met\u00e1foras no discurso: n\u00f3s, todos n\u00f3s, voc\u00ea e eu, criamos essa bagun\u00e7a juntos, e a tornamos pior a cada dia.<\/p>\n<p>Entra ent\u00e3o Naomi Klein, que em \u201cIsso Muda Tudo\u201d,\u00a0habilmente, desnuda as muitas maneiras em que a acumula\u00e7\u00e3o de capital em geral, e em sua variante neoliberal em particular, derrama gasolina no inc\u00eandio hoje consumindo o sistema da Terra. Dando pouca indulg\u00eancia ao papo sobre o humano como malfeitor universal, ela escreve, \u201cn\u00f3s estamos travados por que as a\u00e7\u00f5es que nos dariam a melhor chance de evitar a cat\u00e1strofe \u2013 e que benefeciariam a vasta maioria \u2013 s\u00e3o extremamente amea\u00e7adoras para uma elite minorit\u00e1ria que estrangula nossa economia, nosso processo pol\u00edtico, e a maioria de nossos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o como os cr\u00edticos respondem? \u201cKlein descreve a crise clim\u00e1tica como um confronto entre o Capitalismo e o planeta,\u201d contradiz o fil\u00f3sofo John Gray no The Guardian. \u201cSeria mais preciso descrever a crise como uma luta entre as demandas em expans\u00e3o da humanidade e um mundo finito.\u201d<\/p>\n<p>Gray n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Este cisma est\u00e1 emergindo como a grande divis\u00e3o ideol\u00f3gica no debate clim\u00e1tico, e os proponentes do consenso mainstream est\u00e3o contra-atacando.<\/p>\n<p>No London Review of Books, Paul Kingsnorth, um escritor brit\u00e2nico que a tempos tem argumentado que o movimento ambiental deveria debandar e aceitar o colapso total como nosso destino, replica: \u201cAs mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o algo que um pequeno grupo de bandidos impingiu sobre n\u00f3s\u201d; \u201cno final, estamos todos implicados.\u201d Esta, argumenta Kingsnorth, \u201c\u00e9 uma mensagem menos palat\u00e1vel do que uma que v\u00ea o brutal 1% ferrando o planeta e um nobre 99% se opondo a eles, mas est\u00e1 mais proxima da realidade.\u201d<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 mesmo mais perto da realidade<\/em>? Seis fatos simples demonstram o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Primeiro<\/strong>, a maquina \u00e0 vapor \u00e9 amplamente, e corretamente, vista como a locomotiva original do \u201cbusiness-as-usual\u201d, pela qual a combust\u00e3o de carv\u00e3o foi inicialmente ligada \u00e0 sempre-crescente espiral capitalista de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p>Enquanto isso \u00e9 notoriamente banal de se apontar, as m\u00e1quinas \u00e0 vapor n\u00e3o foram adotadas por alguns\u00a0<em>representantes-por-nascimento<\/em>\u00a0da esp\u00e9cie humana. A escolha de um motor prim\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias n\u00e3o poderia ter sido uma prerrogativa\u00a0<em>da esp\u00e9cie<\/em>, j\u00e1 que ela [a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias] pressupunha, de in\u00edcio, a institui\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado. Foram os propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o quem instalaram o novo motor prim\u00e1rio. Uma pequena minoria mesmo na Inglaterra \u2013 todos homens, e todos brancos \u2013 esta classe de pessoas compunha uma fra\u00e7\u00e3o infinitesimal da humanidade na primeira metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>Segundo<\/strong>, quando os imperialistas brit\u00e2nicos penetraram no norte da India mais ou menos na mesma \u00e9poca, eles trope\u00e7aram em veios de carv\u00e3o que j\u00e1 eram, para sua grande surpresa, conhecidos para os nativos \u2013 de fato, os indianos tinham o conhecimento b\u00e1sico para cavar, queimar, e gerar calor \u00e0 partir do carv\u00e3o. E ainda assim eles n\u00e3o davam a m\u00ednima para o combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos, em compensa\u00e7\u00e3o, queriam desesperadamente o carv\u00e3o na superf\u00edcie \u2013 para propelir barcos \u00e0 vapor pelos quais eles transportavam os tesouros e mat\u00e9rias-primas extra\u00eddos dos camponeses indianos rumo sua metr\u00f3pole, e seu pr\u00f3prio excesso de bens de algod\u00e3o rumo os mercados do interior. O problema era que nenhum trabalhador se voluntariava a entrar nas minas. Da\u00ed que os brit\u00e2nicos tiveram de organizar um sistema de servid\u00e3o por contrato, for\u00e7ando os agricultores ao inferno para adquirir o combust\u00edvel para a explora\u00e7\u00e3o da India.<\/p>\n<p><strong>Terceiro<\/strong>, a maior parte da explos\u00e3o de emiss\u00f5es no s\u00e9culo XXI se origina na Rep\u00fablica Popular da China. O condutor dessa explos\u00e3o \u00e9 evidente: n\u00e3o \u00e9 o crescimento populacional chin\u00eas, nem seu consumo interno, nem seus gastos p\u00fablicos, mas a tremenda expans\u00e3o da ind\u00fastria manufatureira, implementada na China via capital estrangeiro\u00a0para extrair mais-valia do trabalhador local, percebido ao redor da virada do mil\u00eanio como extraordinariamente barato e disciplinado.<\/p>\n<p>Tal mudan\u00e7a foi parte de um assalto global sobre os sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho \u2013 trabalhadores ao redor do mundo sendo pressionados pela amea\u00e7a do Capital de realoca\u00e7\u00e3o por substitutos chineses, que s\u00f3 poderiam ser explorados por meio da energia f\u00f3ssil como um substrato material necess\u00e1rio. A explos\u00e3o de emiss\u00f5es subsequente \u00e9 o legado atmosf\u00e9rico da guerra de classes.<\/p>\n<p><strong>Quarto<\/strong>, provavelmente nenhuma outra ind\u00fastria encontra tanta oposi\u00e7\u00e3o popular onde quer que se estabele\u00e7a quanto as de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. Como Klein registra t\u00e3o bem, comunidades locais est\u00e3o em revolta contra oleodutos, fraturamento hidr\u00e1ulico\u00a0e explora\u00e7\u00e3o do Alaska ao Delta do N\u00edger, da Gr\u00e9cia ao Equador. Mas contra eles permanece um interesse recentemente expressado com clareza exemplar por Rex Tillerson, presidente e CEO da ExxonMobil: \u201cMinha filosofia \u00e9 fazer dinheiro. Se posso perfurar e fazer dinheiro, ent\u00e3o \u00e9 isso que quero fazer.\u201d Esse \u00e9 o esp\u00edrito do Capital F\u00f3ssil encarnado.<\/p>\n<p><strong>Quinto<\/strong>, Estados capitalistas avan\u00e7ados continuam a ampliar e aprofundar implacavelmente suas infraestruturas f\u00f3sseis \u2013 construindo novas rodovias, novos aeroportos, novas usinas de energia \u00e0 base de carv\u00e3o \u2013 sempre afinados aos interesses do Capital, dificilmente consultando suas popula\u00e7\u00f5es sobre essas quest\u00f5es. Apenas intelectuais realmente cegos, do tipo de um Paul Kingsnorth, podem acreditar que \u201cestamos todos implicados\u201d em tais pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Quantos estadunidenses est\u00e3o envolvidos nas decis\u00f5es de dar ao carv\u00e3o uma parcela maior do setor el\u00e9trico, para que a intensidade de carbono da economia dos EUA tenha subido em 2013? Quantos suecos podem ser culpados pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova rodovia em torno de Estocolmo \u2013 o maior projeto de infraestrutura na hist\u00f3ria sueca moderna \u2013 ou pela assist\u00eancia de seu governo a usinas de energia \u00e0 base de carv\u00e3o na \u00c1frica do Sul?<\/p>\n<p>As mais extremas ilus\u00f5es sobre a democracia perfeita do Mercado s\u00e3o necess\u00e1rias para manter a no\u00e7\u00e3o de que \u201ctodos n\u00f3s\u201d estamos guiando o trem.<\/p>\n<p><strong>Sexto<\/strong>, e talvez o mais \u00f3bvio: poucos recursos s\u00e3o t\u00e3o desigualmente consumidos quanto energia. Somente os 19 milh\u00f5es de habitantes de Nova Iorque consomem mais energia que os 900 milh\u00f5es de habitantes da \u00c1frica Subsariana. A diferen\u00e7a no consumo de energia entre um pastor de subsist\u00eancia no Sahel e um canadense m\u00e9dio pode estar facilmente na casa de 1000 vezes ou mais \u2013 e esse \u00e9 um canadense\u00a0<em>m\u00e9dio<\/em>, n\u00e3o o propriet\u00e1rio de cinco casas, tr\u00eas SUVs e um avi\u00e3o particular.<\/p>\n<p>Um solit\u00e1rio cidad\u00e3o estadunidense m\u00e9dio emite mais que 500 cidad\u00e3os da Eti\u00f3pia, Chade, Afeganist\u00e3o, Mali ou Burundi; quanto um milion\u00e1rio m\u00e9dio nos EUA emite \u2013 e qu\u00e3o mais que um trabalhador m\u00e9dio nos EUA ou no Camboja \u2013 permanece incontado. Mas a marca de uma pessoa na atmosfera varia tremendamente dependendo de onde ela nasce.\u00a0<em>\u201cHumanidade\u201d\u00a0<\/em>\u00e9, como resultado, uma abstra\u00e7\u00e3o magra demais para carregar o peso da culpa.<\/p>\n<p>Estamos n\u00e3o na\u00a0<em>\u00c9poca Geol\u00f3gica da Humanidade<\/em>, mas\u00a0<em>do Capital<\/em>. \u00c9 claro, uma economia f\u00f3ssil n\u00e3o precisa necessariamente ser capitalista: a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e seus Estados-sat\u00e9lite tiveram seus pr\u00f3prios mecanismos de crescimento vinculados ao carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. Eles n\u00e3o eram menos sujos, cobertos de fuligem, ou intensivos em emiss\u00f5es \u2013 eram talvez at\u00e9 mesmo mais \u2013 que seus advers\u00e1rios na Guerra Fria. Ent\u00e3o por que focar no Capital? Por que raz\u00e3o se aprofundar sobre a destrutividade do Capital, quando os estados comunistas tiveram um desempenho no m\u00ednimo t\u00e3o abismal quanto?<\/p>\n<p>Em medicina, uma quest\u00e3o similar seria talvez \u2018por que concentrar esfor\u00e7os de pesquisa no c\u00e2ncer ao inv\u00e9s da var\u00edola? Ambos podem ser fatais!\u2019 Mas apenas um ainda existe. A Hist\u00f3ria fechou os par\u00eanteses ao redor do sistema sovi\u00e9tico, ent\u00e3o estamos de volta ao in\u00edcio, onde a economia f\u00f3ssil corresponde diretamente ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 s\u00f3 que agora em escala global.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o stalinista merece suas pr\u00f3prias investiga\u00e7\u00f5es, e em seus pr\u00f3prios termos (sendo os mecanismos de crescimento de um tipo pr\u00f3prio); mas n\u00f3s n\u00e3o vivemos no gulag de minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o em Vorkuta nos anos 30 do s\u00e9culo passado. Nossa realidade ecol\u00f3gica, abrangendo todos n\u00f3s, \u00e9 o mundo fundado pelo Capital-\u00e0-vapor, e existem cursos alternativos que um Socialismo ambientalmente respons\u00e1vel poderia tomar. Da\u00ed o Capital, e n\u00e3o a Humanidade como tal.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p>N\u00e3o obstante o sucesso de Naomi Klein e recentes mobiliza\u00e7\u00f5es de rua, esta permanece uma vis\u00e3o muito minorit\u00e1ria. A Ci\u00eancia clim\u00e1tica, a pol\u00edtica e o discurso s\u00e3o constantemente concebidos dentro da narrativa do Antropoceno: a auto-flagela\u00e7\u00e3o coletiva indiferenciada, o ataque \u00e0 humanidade, o pensamento em termos de Esp\u00e9cie, apelam \u00e0 popula\u00e7\u00e3o geral de consumidores a corrigir seus atos e outras piruetas ideol\u00f3gicas que servem apenas para ocultar o maquinista.<\/p>\n<p>Retratar certas rela\u00e7\u00f5es sociais como propriedades naturais da esp\u00e9cie n\u00e3o \u00e9 nada de novo. Des-historicizar, universalizar, eternizar e naturalizar um modo de produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfico de um tempo e lugar \u2013 estas s\u00e3o as estrat\u00e9gias cl\u00e1ssicas da legitima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Elas bloqueiam qualquer prospecto de mudan\u00e7a. Se o \u201cbusiness-as-usual\u201d \u00e9 o produto da natureza humana, como podemos mesmo imaginar algo diferente? \u00c9 perfeitamente l\u00f3gico que os defensores do Antropoceno e de formas associadas de pensamento d\u00eaem suporte a falsas solu\u00e7\u00f5es que se esquivam de desafiar o Capital F\u00f3ssil \u2013 como \u201cGeo-engenharia\u201d\u00a0\u00a0no caso de Mark Lynas\u00a0\u00a0e Paul Crutzen, o inventor do conceito do Antropoceno \u2013 ou preguem a derrota e o desespero, como no caso de Kingsnorth.<\/p>\n<p>De acordo com este \u00faltimo, \u201cest\u00e1 claro que parar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 imposs\u00edvel\u201d \u2013 e, a prop\u00f3sito, construir uma usina e\u00f3lica \u00e9 t\u00e3o ruim quanto abrir outra mina de carv\u00e3o, pois ambos profanam a paisagem.<\/p>\n<p>Sem antagonismo n\u00e3o pode haver qualquer mudan\u00e7a em sociedades humanas. O pensamento em termos de Esp\u00e9cie em rela\u00e7\u00e3o a mudan\u00e7a clim\u00e1tica apenas induz \u00e0 paralisia. Se todos s\u00e3o culpados, ent\u00e3o ningu\u00e9m \u00e9.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"HQEXQGnN4h\"><p><a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/08\/o-mito-do-antropoceno\/\">O mito do Antropoceno<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;O mito do Antropoceno&#8221; &#8212; Jacobin Brasil\" src=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/08\/o-mito-do-antropoceno\/embed\/#?secret=W6Oe0Uruxu#?secret=HQEXQGnN4h\" data-secret=\"HQEXQGnN4h\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andreas Malm &#8211; Culpar a humanidade pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica deixa o capitalismo sair ileso de suas trag\u00e9dias. O ano de 2014 foi o mais quente j\u00e1 registrado. 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