{"id":1142,"date":"2016-07-17T15:37:49","date_gmt":"2016-07-17T18:37:49","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1142"},"modified":"2016-07-09T11:41:04","modified_gmt":"2016-07-09T14:41:04","slug":"a-globalizacao-e-a-economia-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/17\/a-globalizacao-e-a-economia-mundial\/","title":{"rendered":"A globaliza\u00e7\u00e3o e a economia mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael Roberts &#8211;\u00a0<\/strong>Introdu\u00e7\u00e3o:\u00a0O modelo marxiano do capitalismo assume uma economia mundial \u2013 eis que foi pensado no plano do capital em geral. \u00c9 nesse n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o que Marx desenvolveu o seu modelo das leis de movimento do capitalismo e, em particular, aquela que ele considerou como a mais importante de seu processo de produ\u00e7\u00e3o, a lei da tend\u00eancia ao decl\u00ednio da taxa de lucro.<\/p>\n<p>A taxa de lucro \u00e9 o melhor indicador da \u201csa\u00fade\u201d da economia capitalista. Ela tem valor como vari\u00e1vel de predi\u00e7\u00e3o do investimento futuro e da possibilidade das recess\u00f5es e dos decl\u00ednios econ\u00f4micos. Por isso, o n\u00edvel e a dire\u00e7\u00e3o de movimento da taxa de lucro mundial podem ser guias importantes na previs\u00e3o do desenvolvimento futuro da economia capitalista mundial.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no mundo real, coexistem muitos capitais particulares; n\u00e3o h\u00e1, ademais, uma economia mundial \u00fanica, mas muitas na\u00e7\u00f5es capitalistas. H\u00e1 barreiras vindas do trabalho, do com\u00e9rcio e do capital para o estabelecimento de uma economia mundial integrada e para a forma\u00e7\u00e3o de uma taxa de lucro mundial. Essas restri\u00e7\u00f5es existem para preservar e proteger os mercados regionais e nacionais em rela\u00e7\u00e3o aos fluxos do capital global.<\/p>\n<p>Diante disso, pode-se realisticamente falar em uma taxa de lucro mundial? E o que ela nos dir\u00e1 se essa estat\u00edstica for razo\u00e1vel?<\/p>\n<p>No teste da validade da lei da lucratividade de Marx como explica\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, das subidas e das quedas da produ\u00e7\u00e3o capitalista, grande parte da pesquisa emp\u00edrica se concentrou, compreensivelmente, na economia norteamericana. Esta \u00e9 a economia capitalista mais importante; ademais, ela tem os melhores dados emp\u00edricos. H\u00e1 tamb\u00e9m, por\u00e9m, trabalhos que se voltaram para outras economias nacionais capitalistas.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1848, Marx previu que o capitalismo se tornaria o modo de produ\u00e7\u00e3o dominante e que ele iria dominar o mundo. Ele esperava que todos os pa\u00edses e as suas for\u00e7as de trabalho viessem a ficar sob o controle das for\u00e7as de mercado e do capitalismo. Isto, para ele, significava duas coisas: a expans\u00e3o do setor capitalista incorporaria, progressivamente, todos os setores econ\u00f4micos n\u00e3o capitalistas, por meio da industrializa\u00e7\u00e3o e da urbaniza\u00e7\u00e3o; conflitos entre o capitalismo global e os interesses capitalistas nacionais surgiriam necessariamente.<\/p>\n<p>O grande movimento rumo \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou no final do s\u00e9culo XIX com a expans\u00e3o dos fluxos de capitais dos pa\u00edses lideres para as suas col\u00f4nias territoriais. Marx explicou o surgimento dessa nova era \u2013 o imperialismo moderno \u2013 como algo que decorria da necessidade do capitalismo nos pa\u00edses centrais de contrariar a press\u00e3o baixista na taxa de lucro. O com\u00e9rcio e os investimentos exteriores eram importantes fatores que se contrapunham \u00e0 lei da queda da lucratividade. Eles poderiam baratear o valor do capital constante por meio da redu\u00e7\u00e3o de custo das mat\u00e9rias primas; eles poderiam elevar a taxa de explora\u00e7\u00e3o por meio da subordina\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho ao capital nos mercados emergentes e nos territ\u00f3rios coloniais. E esse valor excedente poderia ser transferido para as economias imperialistas como meio de elevar a\u00ed a taxa de lucro.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7239 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/retrato_globa.jpg?resize=380%2C285\" sizes=\"auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px\" srcset=\"http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/retrato_globa-300x225.jpg 300w, http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/retrato_globa.jpg 303w\" alt=\"retrato_globa\" width=\"380\" height=\"285\" data-wp-pid=\"7239\" \/><\/p>\n<p>(N.T.: o gr\u00e1fico acima mostra o efeito dessas pol\u00edticas comparando o montante global de investimento estrangeiro direto com o PIB mundial. O decl\u00ednio dessa raz\u00e3o a partir de meados da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX e a acelera\u00e7\u00e3o ocorrida a partir da d\u00e9cada dos anos 70 s\u00e3o muitos evidentes para exigirem coment\u00e1rios maiores).<\/p>\n<p>O processo de globaliza\u00e7\u00e3o iniciado do fim do s\u00e9culo XIX produziu duas grandes guerras mundiais. Elas foram produto da rivalidade capitalista que resultou do \u00edmpeto para sustentar a taxa de lucro nas maiores economias capitalistas no come\u00e7o \u2013 e durante \u2013 o s\u00e9culo XX. Por\u00e9m, a partir de 1980, quando as taxas de lucro das grandes economias capitalistas centrais se tornaram novamente baixas, estas procuraram novamente contrariar a lei de Marx retomando a expans\u00e3o dos fluxos de capitais em dire\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses que tinham uma grande reserva potencial de for\u00e7a de trabalho. Ademais, elas procuraram pa\u00edses em que a for\u00e7a de trabalho fosse capaz de se submeter a duras condi\u00e7\u00f5es, aceitando sal\u00e1rios de super-explora\u00e7\u00e3o. As barreiras mundiais ao com\u00e9rcio foram derrubadas, as restri\u00e7\u00f5es aos fluxos de capitais al\u00e9m das fronteiras nacionais foram reduzidas e as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais moveram os seus capitais \u00e0 vontade, de acordo com as suas necessidades corporativas.<\/p>\n<p>Desse modo, pode-se argumentar que no s\u00e9culo XXI, pela primeira vez na hist\u00f3ria do capitalismo, tornou-se poss\u00edvel reconhecer a taxa de lucro mundial como algo significativo[1].<\/p>\n<p>Mensura\u00e7\u00e3o da taxa de lucro mundial<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel medir a taxa de lucro mundial? Grande parte dos trabalhos emp\u00edricos feitos at\u00e9 agora se concentraram em medir a taxa de lucro da economia norte-americana, procurando faz\u00ea-lo de um modo que fosse consistente (o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel) com a categoria marxista. Muitos desses estudos confirmaram que houve uma eleva\u00e7\u00e3o da taxa de lucro nos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte a partir de 1982; entretanto, quanto ao momento em que essa taxa alcan\u00e7ou o seu pico, eles mostraram certas diverg\u00eancias.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7240 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/taxa_brit.jpg?resize=390%2C317\" sizes=\"auto, (max-width: 390px) 100vw, 390px\" srcset=\"http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/taxa_brit-300x244.jpg 300w, http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/taxa_brit.jpg 364w\" alt=\"taxa_brit\" width=\"390\" height=\"317\" data-wp-pid=\"7240\" \/><\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m trabalhos que procuraram calcular a taxa de lucro na Gr\u00e3-Bretanha. As minhas pr\u00f3prias estimativas, seja aquela baseada em custos correntes seja aquela baseada em custos hist\u00f3ricos, mostraram que essa taxa se elevou ap\u00f3s o vale alcan\u00e7ado na severa recess\u00e3o de 1974-1975. Durante todo o per\u00edodo de 1950 a 2009, a taxa de lucro brit\u00e2nica mostrou uma tend\u00eancia declinante; ora, isto ocorreu porque ela se mostrou muito elevada no come\u00e7o dos anos 50. Depois disso, a taxa de lucro declinou at\u00e9 encontrar um fundo na primeira grande crise per\u00edodo do p\u00f3s-guerra, em 1974-1975. Este parece ter sido um ponto de revers\u00e3o. A ind\u00fastria brit\u00e2nica, desde esse momento, passou a ser dizimada; iniciou-se, ent\u00e3o, um processo que veio transformar a economia capitalista deste pa\u00eds numa economia baseada no setor de servi\u00e7os. Isto propiciou um melhoramento gradual da taxa de lucro, embora o seu valor nunca mais tenha atingido os n\u00edveis do come\u00e7o dos anos 1960 (exceto talvez, segundo certas mensura\u00e7\u00f5es, no boom recente do come\u00e7o dos anos 2000, o qual foi produzido pela expans\u00e3o do cr\u00e9dito).<\/p>\n<p>Foram feitos alguns esfor\u00e7os para calcular a taxa de lucro para alguns pa\u00edses da zona do Euro, assim como sobre pa\u00edses individuais, tais como o Jap\u00e3o e mesmo algumas economias emergentes, a saber, o M\u00e9xico, a Argentina e a China. Dave Zachariah estudou a taxa de lucro de diversos pa\u00edses incluindo algumas economias emergentes, tais como a China e a \u00cdndia. Mas ele n\u00e3o tentou integrar os dados dos v\u00e1rios pa\u00edses para obter uma taxa de lucro mundial.<\/p>\n<p>Foram feitos alguns poucos estudos que tentaram integrar as taxas nacionais em uma taxa de lucro mundial. Minqi Li e seus colaboradores calcularam uma taxa de lucro global para o longo per\u00edodo que se iniciou em 1890. (\u2026)<\/p>\n<p>Uma nova medida da taxa de lucro mundial<\/p>\n<p>Neste artigo, tal como o estudo Minqi Li, procuro encontrar uma taxa de lucro mundial que inclua, al\u00e9m das economias do G7, as quatro economias que s\u00e3o conhecidas pelo acr\u00f4nimo BRIC. Desse modo, ele inclui as 11 maiores economias, as quais, em conjunto, representam uma significativa por\u00e7\u00e3o do PIB mundial. Empreguei as estat\u00edsticas do World Penn Tables que foram tamb\u00e9m usadas por Zachariah em seu estudo de v\u00e1rios pa\u00edses individuais. Ponderei as taxas nacionais pelo tamanho do PIB, embora a m\u00e9dia simples dessas taxas n\u00e3o pare\u00e7a divergir significativamente da m\u00e9dia ponderada calculada.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7241 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/taxa_mundial.jpg?resize=390%2C298\" sizes=\"auto, (max-width: 390px) 100vw, 390px\" srcset=\"http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/taxa_mundial-300x229.jpg 300w, http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/taxa_mundial.jpg 336w\" alt=\"taxa_mundial\" width=\"390\" height=\"298\" data-wp-pid=\"7241\" \/><\/p>\n<p>Encontrei os seguintes resultados: 1) a partir do ponto inicial, em 1963, ocorreu uma queda significativa da taxa de lucro mundial; nos \u00faltimos cinquenta anos, essa taxa nunca mais recuperou o n\u00edvel alcan\u00e7ado em 1963. A taxa de lucro alcan\u00e7ou um ponto inferior em 1975 e, desde ent\u00e3o, cresceu alcan\u00e7ando um pico em meados dos anos 1990. Deste momento em diante, a taxa de lucro mundial permaneceu est\u00e1vel ou decaiu levemente, n\u00e3o alcan\u00e7ado mais o pico de 1990. Isto sugere que o boom do final dos anos 1990 e come\u00e7o dos anos 2000 n\u00e3o se baseou em um aumento da lucratividade como muitos argumentaram; diferentemente, ele foi dependente de uma expans\u00e3o muito expressiva do cr\u00e9dito e do crescimento do capital fict\u00edcio. Os dados assim analisados parecem confirmar resultados anteriores, baseados no c\u00e1lculo da taxa de lucro norteamericana, segundo os quais o capitalismo mundial se encontra numa fase de baixa lucratividade.<\/p>\n<p>Outro resultado interessante aparece quando se observa a diverg\u00eancia entre a taxa de lucro do G7 e a taxa de lucro mundial, a partir do come\u00e7o dos anos 1990. Ele mostra que os pa\u00edses fora do G7 tiveram um papel crescente na sustenta\u00e7\u00e3o da taxa de lucro. As economias do G7 vieram sofrendo uma crise de lucratividade provavelmente desde o final dos anos 1980 e certamente desde meados dos anos 1990. Os dados v\u00e3o somente at\u00e9 2008, de tal modo que n\u00e3o foi poss\u00edvel levar em conta os efeitos perversos na lucratividade da Grande Recess\u00e3o. As taxas de lucros dos pa\u00edses do G7, assim como do mundo como um todo, ca\u00edram provavelmente aos n\u00edveis de meados dos anos 1980.<\/p>\n<p>Fatores contrariantes no per\u00edodo neoliberal em escala mundial<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es desses resultados? O comportamento da taxa de lucro mundial mostra o que muitos analistas j\u00e1 haviam conclu\u00eddo olhando somente as taxas nacionais e, em particular, observando aquela referente aos Estados Unidos. A taxa de lucro subiu durante o que vem sendo chamado de \u201cper\u00edodo neoliberal\u201d.<\/p>\n<p>A lei da tend\u00eancia declinante da taxa de lucro contempla uma s\u00e9rie de fatores contrariantes que podem dominar a \u201clei enquanto tal\u201d, criando assim as condi\u00e7\u00f5es para o crescimento da taxa de lucratividade, pelo menos durante certos per\u00edodos. Marx afirmou que o crescimento da taxa de lucro ocorreria com grande probabilidade quando \u201csobreviesse um aumento da taxa de explora\u00e7\u00e3o em conjun\u00e7\u00e3o com uma redu\u00e7\u00e3o significativa do valor dos elementos do capital constante e do capital fixo em particular\u201d.<\/p>\n<p>Tais foram, precisamente, as condi\u00e7\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o a partir de 1982. As duas profundas quedas de 1974-75 e 1980-02 reduziram suficientemente o valor do capital constante. Ao mesmo tempo, elas elevaram as taxas de desemprego, enfraquecendo a capacidade do movimento dos trabalhadores de proteger os sal\u00e1rios (ou seja, aquilo que aparece como custo do ponto de vista do capital vari\u00e1vel). A produtividade do trabalho cresceu conforme as novas t\u00e9cnicas (algumas das quais eram bem sofisticadas) iam sendo introduzidas em muitos setores da economia, sem que se permitisse o crescimento dos sal\u00e1rios. A parcela salarial na economia norte-americana declinou. A taxa de explora\u00e7\u00e3o subiu. Ao mesmo tempo, o capital constante caiu em valor relativamente ao capital vari\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como Marx argumentou: \u201cna pr\u00e1tica, por\u00e9m, a taxa de lucro dever\u00e1 cair no longo prazo\u201d. Os fatores contrariantes n\u00e3o podem durar para sempre e, eventualmente, a lei da lucratividade come\u00e7a a exercer a sua press\u00e3o baixista nos lucros. A taxa de lucro alcan\u00e7ou um pico em 1997 com a exaust\u00e3o dos ganhos das novas tecnologias introduzidas nos setores produtivos. O capitalismo norte-americano somente prosperou a partir de ent\u00e3o por meio do crescimento dos lucros no setor financeiro, ou seja, mediante uma grande expans\u00e3o do \u201ccapital fict\u00edcio\u201d sem a devida contrapartida de acumula\u00e7\u00e3o de valor nesses setores produtivos. O colapso do mercado de resid\u00eancias a partir de 2006 exp\u00f4s a natureza imagin\u00e1ria dos lucros financeiros, o que gerou o colapso poss\u00edvel do setor banc\u00e1rio que depende deles.<\/p>\n<p>Logo, a lei da lucratividade de Marx mostrou-se v\u00e1lida: os fatores contrariantes do aumento da taxa de explora\u00e7\u00e3o e do barateamento do valor do capital constante conseguiram superar a \u201clei enquanto tal\u201d, mas somente durante certo tempo. Os desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos sofisticados em combina\u00e7\u00e3o com os aumentos da taxa de explora\u00e7\u00e3o nas economias do G7 foram corroborados pela superexplora\u00e7\u00e3o nas economias chamadas de emergentes [2]. Por\u00e9m, nos anos 1990, tal como mostram os dados acima, parece que o impacto desses fatores contrariantes enfraqueceu-se nas economias do G7. Este n\u00e3o foi o caso, por\u00e9m, da economia mundial como um todo.<\/p>\n<p>Os dados parecem mostrar que a globaliza\u00e7\u00e3o foi muito importante como for\u00e7a que veio permitir aos fatores contrariantes atuarem nos anos 1990. As conex\u00f5es entre a globaliza\u00e7\u00e3o e a taxa de lucro podem assumir muitas formas. A primeira delas diz que as economias capitalistas nacionais podem obter uma taxa de lucro maior nos investimentos feitos no exterior, como forma de compensar a queda da taxa de lucro dom\u00e9stica. Andrew Kliman argumentou que este fator n\u00e3o se mostrou significante no movimento da taxa de lucro nos Estados Unidos. Outros analistas, entretanto, como Callinicos e Choonara, chegaram a uma conclus\u00e3o diferente. Ora, essa diverg\u00eancia pode explicar porque o investimento norte-americano como parcela do excedente corporativo dispon\u00edvel estacionou durante a \u00faltima d\u00e9cada, diferentemente do que ocorreu fora dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7242 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Invest_estrang.jpg?resize=390%2C286\" sizes=\"auto, (max-width: 390px) 100vw, 390px\" srcset=\"http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Invest_estrang-300x220.jpg 300w, http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Invest_estrang.jpg 311w\" alt=\"Invest_estrang\" width=\"390\" height=\"286\" data-wp-pid=\"7242\" \/><\/p>\n<p>Por\u00e9m, de modo mais importante, a globaliza\u00e7\u00e3o proporcionou um grande crescimento dos fluxos de com\u00e9rcio e de capitais. Ora, como isto se mostrou muito importante nos anos 1990, vem explicar a diverg\u00eancia anteriormente mencionada nas taxas de lucro do G7 e do mundo como um todo.<\/p>\n<p>O capitalismo se tornou verdadeiramente global no final do s\u00e9culo XX, num per\u00edodo que \u00e9 bem similar, mas muito mais intenso, em rela\u00e7\u00e3o aquele do final do s\u00e9culo XIX. Isto ocorreu por causa do enorme aumento dos investimentos capitalistas nos assim chamados pa\u00edses de economia capitalista emergente. Esse processo incorporou ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, pela primeira vez, uma enorme oferta de m\u00e3o-de-obra camponesa e n\u00e3o assalariada. Esse contingente, ademais, pode ser contratado a sal\u00e1rios que n\u00e3o cobriam o valor da for\u00e7a de trabalho, isto \u00e9, num regime de superexplora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7243 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/forca_trab_global.jpg?resize=391%2C289\" sizes=\"auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px\" srcset=\"http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/forca_trab_global-300x222.jpg 300w, http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/forca_trab_global.jpg 311w\" alt=\"forca_trab_global\" width=\"391\" height=\"289\" data-wp-pid=\"7243\" \/><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a popula\u00e7\u00e3o cresceu mais rapidamente nas economias emergentes do que nas economias de capitalismo maduro. Ao mesmo tempo, essa for\u00e7a de trabalho mundial tornou-se superexplorada[3]. Sabe-se tamb\u00e9m que o exercito industrial de reserva, o qual \u00e9 formado por desempregados, subempregados e inativos, \u00e9 cerca de 80 por cento maior do que o contingente de trabalhadores ativos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7244 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/ex_indust_res_global.jpg?resize=390%2C282\" sizes=\"auto, (max-width: 390px) 100vw, 390px\" srcset=\"http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/ex_indust_res_global-300x217.jpg 300w, http:\/\/blogconvergencia.org\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/ex_indust_res_global.jpg 314w\" alt=\"ex_indust_res_global\" width=\"390\" height=\"282\" data-wp-pid=\"7244\" \/><\/p>\n<p>Como h\u00e1 ainda uma fonte significativa de oferta de for\u00e7a de trabalho para ser empregada e superexplorada no modo de produ\u00e7\u00e3o agora plenamente dominante, isto sugere que o capitalismo ainda n\u00e3o chegou aos seus limites absolutos. A for\u00e7a de trabalho chinesa ainda est\u00e1 crescendo embora v\u00e1 atingir o seu pico no fim desta d\u00e9cada. A for\u00e7a de trabalho indiana ainda pode crescer muito. H\u00e1 ainda, ademais, \u00e1reas do mundo que n\u00e3o foram totalmente exploradas pelo capital.<\/p>\n<p>O estudo de Dave Zachariah sobre a taxa de lucro em diversas economias nacionais confirmou a lei da lucratividade de Marx, a saber, que a taxa de lucro se move em linha com a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital e a taxa de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Zachariah argumentou que \u201cos fatores demogr\u00e1ficos iriam provavelmente fazer com que o crescimento da for\u00e7a de trabalho declinasse ou mesmo se tornasse negativo. O reinvestimento dos lucros, que \u00e9 a fonte de dinamismo do capitalismo, n\u00e3o poderia ent\u00e3o se manter em n\u00edveis elevados\u201d. Este \u00e9 um tema para pesquisa futura.<\/p>\n<p>O que a minha pesquisa indicou \u00e9 que os fatores contrariantes por enquanto n\u00e3o foram suficientes para elevar a taxa de lucro. Isto sugere que uma destrui\u00e7\u00e3o de capital adicional se faz necess\u00e1ria para aumentar a lucratividade, o que requerer\u00e1 a continuidade da crise capitalista global. Somente ent\u00e3o quando isto vier a ocorrer, o valor potencial remanescente de for\u00e7a de trabalho global poderia ser utilizado para restaurar a sa\u00fade do capitalismo mundial.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Callinicos, Alex \u2013 Imperialism and the global economy. Londres: Polity Press, 2009.<\/p>\n<p>Carchedi, Guglielmo \u2013 Behind the crisis \u2013 Marx\u2019s dialectics of value and knowledge. Londres: Brill, 2011.<\/p>\n<p>Choonara, Joseph \u2013 Unraveling capitalism \u2013 A guide to Marxist Political Economy. Londres: Turnaround, 2009.<\/p>\n<p>Kliman, Andrew \u2013 The failure of capitalist production \u2013 Underlines causes of great recession. Londres: Pluto Press, 2012.<\/p>\n<p>Minqi Li, Feng Xiao, Andong Zhu \u2013 Long waves, institutional changes and historical trends: a study of the long-term movement of the profit rate in the capitalist world economy. In: Journal of World System Research, n\u00ba 1, 2007.<\/p>\n<p>Roberts, Michael \u2013 The great recession \u2013 Profit cycles, economic crisis \u2013 a Marxist view. USA: Michael Roberts, 2009.<\/p>\n<p>Smith, John \u2013 Imperialism and the law of value. In: Global Discourse, 2, nr 1, 2011.<\/p>\n<p>Zachariah, Dave \u2013 Determinants of the average profit rate and the trajectory of capitalist economies. In: Bulletin of Political Economy, Vol. 3 (1), 2009.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>* Tradu\u00e7\u00e3o publicada originalmente na p\u00e1gina de Eleut\u00e9rio Prado:\u00a0<a href=\"https:\/\/eleuterioprado.wordpress.com\/\">https:\/\/eleuterioprado.wordpress.com\/<\/a><\/p>\n<p>[1] Em meu livro, <em>The great recession<\/em>, argumentei que uma taxa de lucro mundial teria pouco sentido, dada a exist\u00eancia das barreiras nacionais. Por\u00e9m, a profunda extens\u00e3o do processo de globaliza\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 25 anos, fez-me revisar aquela opini\u00e3o.<\/p>\n<p>[2] A crescente desigualdade e do crescimento da taxa de explora\u00e7\u00e3o nas economias do G7, depois de 1982, \u00e9 uma evid\u00eancia bem conhecida.<\/p>\n<p>[3] A superexplora\u00e7\u00e3o tem dois significados: 1) a for\u00e7a de trabalho recebe menos do que o seu custo de reprodu\u00e7\u00e3o; 2) prevalece troca desigual de valor trabalho entre as economias capitalistas emergentes e as economias imperialistas (Ver Smith, 2011).<\/p>\n<p>http:\/\/blogconvergencia.org\/?p=7234<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael Roberts &#8211;\u00a0Introdu\u00e7\u00e3o:\u00a0O modelo marxiano do capitalismo assume uma economia mundial \u2013 eis que foi pensado no plano do capital em geral. \u00c9 nesse n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o que Marx desenvolveu o seu modelo das leis de movimento do capitalismo e, em particular, aquela que ele considerou como a mais importante de seu processo de produ\u00e7\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1143,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5,3],"tags":[],"class_list":["post-1142","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","category-internacional"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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