{"id":11388,"date":"2019-08-31T09:32:19","date_gmt":"2019-08-31T12:32:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11388"},"modified":"2019-08-29T17:41:24","modified_gmt":"2019-08-29T20:41:24","slug":"por-que-a-escravidao-foi-praticamente-apagada-da-historia-de-chile-e-argentina-aqui-nao-ha-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/31\/por-que-a-escravidao-foi-praticamente-apagada-da-historia-de-chile-e-argentina-aqui-nao-ha-negros\/","title":{"rendered":"Por que a escravid\u00e3o foi praticamente apagada da hist\u00f3ria de Chile e Argentina: \u2018Aqui n\u00e3o h\u00e1 negros\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jaime Gonz\u00e1lez<\/strong> &#8211; &#8220;Muitas vezes, no meu pr\u00f3prio pa\u00eds, passo por estrangeira por causa da minha cor, do cabelo encaracolado, e tenho que dizer com orgulho que sou chilena, tendo que suportar a descren\u00e7a de muitos e muitos.&#8221;<\/p>\n<p>Estas palavras da ativista Marta Salgado descrevem a realidade que muitos afrodescendentes enfrentam tanto no Chile quanto na vizinha Argentina, pa\u00edses onde a seguinte frase se tornou comum: &#8220;Aqui n\u00e3o h\u00e1 negros&#8221;.<\/p>\n<p>Embora seja verdade que, historicamente, a porcentagem de popula\u00e7\u00e3o negra nesses dois pa\u00edses tenha sido muito menor do que em outras na\u00e7\u00f5es latino-americanas, as coisas eram diferentes na \u00e9poca da col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Segundo registros hist\u00f3ricos, h\u00e1 200 anos, em cidades como Buenos Aires e Santiago, os negros chegaram a representar mais de 20% da popula\u00e7\u00e3o, n\u00famero que pode chegar a 60% em outros locais onde negros escravizados traficados da \u00c1frica eram central para economias locais.<\/p>\n<p>Especialistas ouvidos pela BBC News Mundo (servi\u00e7o em espanhol da BBC) concordam que, durante d\u00e9cadas, historiadores no Chile e na Argentina, determinados a construir uma identidade nacional baseada principalmente na heran\u00e7a europeia, ignoraram a contribui\u00e7\u00e3o crucial de escravizados e seus descendentes para o desenvolvimento econ\u00f4mico, cultural e pol\u00edtico de ambos os pa\u00edses.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/C87A\/production\/_107222315_gettyimages-961448826.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Navio negreiro\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>A presen\u00e7a de negros no Cone Sul \u00e9 um fen\u00f4meno que pode ser tra\u00e7ado desde os tempos da conquista, no s\u00e9culo 16, quando j\u00e1 havia registros da presen\u00e7a de afrodescendentes que chegaram como escravos<\/em><\/p>\n<p>Quando a presen\u00e7a dos negros n\u00e3o era negada, tendia a ser relativizada com argumentos como os de que foram poucos que chegaram ou que aqueles que foram para l\u00e1 ou foram embora ou n\u00e3o sobreviveram ao frio ou a doen\u00e7as.<\/p>\n<p>No pa\u00eds vizinho Uruguai, no entanto, a presen\u00e7a de afrodescendentes tem sido constante desde a \u00e9poca da col\u00f4nia &#8211; representando atualmente cerca de 8% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds &#8211; e, apesar da hist\u00f3rica discrimina\u00e7\u00e3o sofrida por esse grupo, a heran\u00e7a afro est\u00e1 presente em importantes manifesta\u00e7\u00f5es culturais do pa\u00eds, como o famoso carnaval de Montevid\u00e9u.<\/p>\n<p>No Brasil, segundo dados de 2016 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica), a parcela de pessoas que se autodeclaram pardas representava 46,7% da popula\u00e7\u00e3o e a de pretos, 8,2%. Os brancos eram 44,2%.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>Uma hist\u00f3ria diferente<\/strong><\/p>\n<p>A presen\u00e7a de negros no Cone Sul \u00e9 um fen\u00f4meno que pode ser rastreado at\u00e9 os tempos da conquista, no s\u00e9culo 16, quando j\u00e1 havia registros de pessoas de ascend\u00eancia africana que chegaram escravizados.<\/p>\n<p>&#8220;O que sabemos \u00e9 que, no total, durante todo o per\u00edodo colonial, cerca de 12 milh\u00f5es de escravos foram traficados de um continente para outro&#8221;, explica Juan Jos\u00e9 Martinez Barraza, historiador econ\u00f4mico da Universidade de Santiago do Chile.<\/p>\n<p>&#8220;Os 70 mil escravos que chegaram ao Cone Sul, principalmente pelo Rio da Prata, representam cerca de 1% do tr\u00e1fico total. Isso pode parecer insignificante, mas n\u00e3o \u00e9, devido ao que representaram em termos econ\u00f4micos&#8221;, diz o historiador.<\/p>\n<p>&#8220;Por exemplo, em Santiago, em 1777, havia 40 mil habitantes, em Lima, cerca de 50 mil. Portanto, a vinda de 70 mil pessoas, que tamb\u00e9m se reproduziam, foi, sim, significativa em termos econ\u00f4micos.&#8221;<\/p>\n<p>Os negros escravizados chegaram principalmente pelos portos de Montevid\u00e9u e Buenos Aires. De l\u00e1, alguns foram enviados para as prov\u00edncias do interior da atual Argentina ou para Santiago e Valpara\u00edso, de onde foram transferidos por mar para o norte.<\/p>\n<p>Muitos deles ficaram nas cidades para realizar trabalhos dom\u00e9sticos ou artesanais. Outros foram for\u00e7ados a trabalhar nos campos ou nas minas.<\/p>\n<p>De acordo com Juan Jose Martinez Barraza, &#8220;quando a historiografia liberal enfatizou a rep\u00fablica nascente e deixou para tr\u00e1s a col\u00f4nia, colocou debaixo do tapete tudo relacionado \u00e0 escravid\u00e3o e escravos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Uma m\u00e3e da p\u00e1tria negra<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/B0A6\/production\/_107222254_gettyimages-149178683-1.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Felipe Pigna\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>&#8220;Houve uma manipula\u00e7\u00e3o que se tornou a hist\u00f3ria oficial das escolas&#8221;, afirma o historiador Felipe Pigna<\/em><\/p>\n<p>Na Argentina, o esquecimento historiogr\u00e1fico sobre a contribui\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente t\u00eam sido muito semelhante, explica o historiador Felipe Pigna \u00e0 BBC News Mundo.<\/p>\n<p>&#8220;A invisibilidade dos negros na hist\u00f3ria \u00e9 tremenda, eles praticamente n\u00e3o s\u00e3o mencionados&#8221;, diz Pigna. &#8220;Houve uma manipula\u00e7\u00e3o que se tornou hist\u00f3ria oficial nas escolas, e permaneceu como hist\u00f3ria can\u00f4nica, na qual nem mulheres, nem povos nativos, nem afrodescendentes tinham lugar.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Felizmente isso tem mudado e foi demonstrado que essa hist\u00f3ria era em grande parte falsa.&#8221;<\/p>\n<p>Pigna cita como um exemplo deste processo de invisibilidade o caso de Maria Remedios del Valle, &#8220;que era uma mulher de ascend\u00eancia africana que participou dos ex\u00e9rcitos de Manuel Belgrano, um dos libertadores, em todas as suas batalhas&#8221;.<\/p>\n<p>Por causa de suas contribui\u00e7\u00f5es, ela foi proclamada m\u00e3e da p\u00e1tria argentina, &#8220;a \u00fanica mulher em nossa hist\u00f3ria&#8221;, aponta o historiador.<\/p>\n<p>&#8220;Mas em 1870, quando come\u00e7aram a reescrever a hist\u00f3ria sobre a imigra\u00e7\u00e3o, eles acharam que n\u00e3o era muito coerente ter uma m\u00e3e da p\u00e1tria negra, quando se promovia uma imigra\u00e7\u00e3o branca, e passaram a ignor\u00e1-la e elimin\u00e1-la da hist\u00f3ria, e foi assim que a fizeram desaparecer.&#8221;<\/p>\n<p>Esse processo de oculta\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a negra continua afetando os afrodescendentes hoje, que lutam h\u00e1 d\u00e9cadas para reconhecer sua hist\u00f3ria e seus direitos.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Um pa\u00eds racista&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Marta Salgado, da Organiza\u00e7\u00e3o Ouro Negro, tem sido uma das faces mais vis\u00edveis dos afrodescendentes chilenos h\u00e1 duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Salgado vive em Arica, uma cidade que o Chile tomou do Peru no final do s\u00e9culo 19, na Guerra do Pac\u00edfico, \u00e9poca em que mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o era de origem africana.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/BBFA\/production\/_107222184_mediaitem107222183.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Marta Salgado\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>Maria Salgado tem muitas anedotas sobre a discrimina\u00e7\u00e3o que teve de enfrentar durante toda a vida por causa da sua origem<\/em><\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o estamos nos curr\u00edculos escolares, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o nunca fez nada para ensinar ao povo do Chile que havia africanos escravizados e, portanto, h\u00e1 descendentes&#8221;, explica Salgado em conversa com a BBC News Mundo.<\/p>\n<p>&#8220;O Chile \u00e9 um pa\u00eds discriminat\u00f3rio e racista e tamb\u00e9m xen\u00f3fobo, mas diz-se que n\u00e3o \u00e9, mas l\u00e1 no fundo h\u00e1 muito racismo e muita discrimina\u00e7\u00e3o, porque se diz que nascemos de europeus, e esse n\u00e3o \u00e9 o caso&#8221;.<\/p>\n<p>Salgado tem muitas anedotas sobre o que teve que enfrentar devido \u00e0 sua origem.<\/p>\n<p>&#8220;Eu j\u00e1 passei por cubana, peruana, colombiana&#8230; Muitas vezes quando eu digo que sou chilena eles me olham estranho (&#8230;) Uma vez, eu era mais jovem, em Santiago, me perguntaram onde eu ia fazer o show, pensando que eu era de outro pa\u00eds&#8221;, diz o ativista.<\/p>\n<p>&#8220;Eles olham para voc\u00ea por causa da sua cor de pele e por causa do seu fen\u00f3tipo e n\u00e3o por causa do que voc\u00ea \u00e9 e \u00e9 por isso que \u00e9 dif\u00edcil uma pessoa de descend\u00eancia africana se posicionar, especialmente se ela \u00e9 uma mulher.&#8221;<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>&#8220;Quis negar minha fam\u00edlia&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Cristian B\u00e1ez, um pesquisador experiente e ativista afrodescendente que tamb\u00e9m mora em Arica, diz que seus ancestrais passaram por um processo de &#8220;branqueamento&#8221; depois que a cidade ficou sob o controle chileno.<\/p>\n<p>&#8220;Quando o Chile tomou este lugar, disseram aos que estavam aqui que, se quisessem ficar, teriam que se tornar chilenos, e esse foi um processo muito maquiav\u00e9lico. Tiveram que se branquear para deixarem de ser peruanos. E com esse branqueamento, proibiram tradi\u00e7\u00f5es e costumes que vieram de uma heran\u00e7a ancestral africana&#8221;, explica B\u00e1ez, que \u00e9 fundador da ONG Lumbanga.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/10A1A\/production\/_107222186_mediaitem107222185.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Cristian B\u00e1ez\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>B\u00e1ez diz que, como muitos afrodescendentes, ele sofreu rejei\u00e7\u00e3o dentro de seu pr\u00f3prio pa\u00eds desde cedo<\/em><\/p>\n<p>B\u00e1ez diz que, como muitos afrodescendentes, ele sofreu rejei\u00e7\u00e3o dentro de seu pr\u00f3prio pa\u00eds desde cedo.<\/p>\n<p>&#8220;Na escola, eles me discriminavam por duas coisas, primeiro por ter cabelos escuros e depois por morar em uma \u00e1rea rural. Ent\u00e3o eu sofri muito bullying por ser negro e de Azapa.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Quando meus colegas queriam ir a Azapa para conhecer a casa da minha av\u00f3, eu negava porque eu tinha vergonha da minha av\u00f3 negra e meu pai negro, queria negar minha fam\u00edlia&#8221;, diz o ativista.<\/p>\n<p>B\u00e1ez diz que ser afrodescendente faz com que ele &#8220;entenda que, a cada processo de luta&#8221;, de alguma forma, &#8220;estou consertando o estrago do que fizeram com meus antepassados&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Uma lei que os reconhe\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho de organiza\u00e7\u00f5es como Ouro Negro e Lumbaga foi finalmente recompensado em abril deste ano com a promulga\u00e7\u00e3o no Chile de uma lei que concede reconhecimento legal a afrodescendentes e &#8220;sua identidade cultural, idioma, tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, cultura, institui\u00e7\u00f5es e vis\u00e3o de mundo&#8221;.<\/p>\n<p>O regulamento contempla sua inclus\u00e3o como popula\u00e7\u00e3o no censo e determina que as escolas ensinem &#8220;a hist\u00f3ria, a l\u00edngua e a cultura dos afrodescendentes&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da lei 21.151, Vlado Mirosevic, um membro do Partido Liberal e um dos promotores dos regulamentos, disse que eles estavam &#8220;muito felizes por este passo em dire\u00e7\u00e3o a um Chile multicultural e diverso&#8221;.<\/p>\n<p>De sua parte, o senador do Partido Socialista da regi\u00e3o de Arica e Parinacota, Jos\u00e9 Miguel Insulza, disse que a lei &#8220;faz justi\u00e7a a muitos chilenos cujos antepassados \u200b\u200bvieram a esta terra s\u00e9culos atr\u00e1s&#8221;.<\/p>\n<p>Espera-se que em meados de junho haja eventos no Congresso Nacional em Valpara\u00edso e no Pal\u00e1cio de La Moneda, em Santiago, para comemorar a promulga\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/0912\/production\/_107222320_arica2.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Arica\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>O carnaval visa celebrar a heran\u00e7a africana de uma popula\u00e7\u00e3o cuja identidade foi historicamente negada<\/em><\/p>\n<p>Essa vit\u00f3ria pol\u00edtica esteve muito presente no carnaval afrodescendente que ocorreu em mar\u00e7o em Arica. V\u00e1rios grupos musicais percorreram o centro da cidade em um colorido desfile.<\/p>\n<p>Este festival cheio de ritmo e cor que acontece todos os anos h\u00e1 mais de quinze anos visa celebrar a heran\u00e7a africana de uma popula\u00e7\u00e3o cuja identidade tem sido historicamente negada.<\/p>\n<p><strong>O processo de se estrangeirar<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/FEC6\/production\/_107222256_mediaitem107222255.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Carlos \u00c1lvarez\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>\u00c1lvarez conta como em seu cotidiano ele vive o que descreve como um processo de &#8220;estrangeiriza\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em><\/p>\n<p>A mesma luta que Marta Salgado e Cristian B\u00e1ez lideram no Chile tem sido realizada na Argentina nos \u00faltimos anos pelo afro-ativista Carlos \u00c1lvarez Nazareno.<\/p>\n<p>Ele, que vive na Argentina h\u00e1 15 anos, \u00e9 origin\u00e1rio do Uruguai, pa\u00eds em que, explica, embora exista uma maior presen\u00e7a hist\u00f3rica de afrodescendentes, cresceu &#8220;sob o jugo da discrimina\u00e7\u00e3o, do racismo e do rid\u00edculo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso aconteceu 30 anos atr\u00e1s e continua acontecendo hoje, e nossos jovens continuam denunciando o racismo de seus colegas e at\u00e9 dos pr\u00f3prios professores nas salas de aula&#8221;, explica.<\/p>\n<p>\u00c1lvarez comenta como na Argentina, historicamente, &#8220;foi reconhecida a contribui\u00e7\u00e3o de espanh\u00f3is, italianos ou judeus e se negou a contribui\u00e7\u00e3o das comunidades afrodescendentes e africanas&#8221;.<\/p>\n<p>O ativista conta como, em sua vida di\u00e1ria, ele vive o que descreve como um processo de &#8220;estrangeiriza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A primeira pergunta que eles fazem na rua \u00e9 de onde voc\u00ea \u00e9, eles comentam o quanto voc\u00ea fala bem espanhol. Quando voc\u00ea vai fazer um procedimento burocr\u00e1tico qualquer, a mesma coisa acontece. As pessoas pensam que, se voc\u00ea \u00e9 negro, n\u00e3o pode ser dessas latitudes &#8220;.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/14E4F\/production\/_107338558_9f91a83b-3811-4f95-9f2e-e14f568fafa3.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Mulher negra no metr\u00f4 de Buenos Aires, 1959\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>Mulher negra no metr\u00f4 de Buenos Aires, 1959<\/em><\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 por isso que imigrantes dos pa\u00edses africanos sofrem racismo e ass\u00e9dio policial nas ruas de Buenos Aires&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Alvarez cita como exemplos de conquistas da comunidade afro na Argentina as comemora\u00e7\u00f5es do dia 8 de novembro, quando se celebra no pa\u00eds o Dia dos Afro-Argentinos, em homenagem a Mar\u00eda Remedios del Valle.<\/p>\n<p>E o fato de terem sido inclu\u00eddos no censo de 2010, &#8220;em que 150 mil pessoas foram reconhecidas como afrodescendentes, embora saibamos que h\u00e1 mais de 2 milh\u00f5es no pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p>Parte dos historiadores afirma que essa cifra de 2 milh\u00f5es \u00e9 exagerada, embora sustente que deve-se acabar com o mito de que a maioria das pessoas de ascend\u00eancia africana na Argentina morreu nas guerras da independ\u00eancia ou por causa de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Embora estes tenham sido fatores importantes na diminui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra do pa\u00eds, particularmente na popula\u00e7\u00e3o masculina, a miscigena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m desempenhou um papel fundamental, o que explica por que muitos argentinos n\u00e3o saibam que em sua \u00e1rvore geneal\u00f3gica pode haver uma pessoa que h\u00e1 n\u00e3o muitos s\u00e9culos foi tirada \u00e0 for\u00e7a da \u00c1frica.<\/p>\n<p><strong>Presen\u00e7a real<\/strong><\/p>\n<p>No Chile, foi tamb\u00e9m o processo de mesti\u00e7agem que tornou a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente cada vez menos vis\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;A etnia chilena \u00e9 um grupo \u00e9tnico em que a presen\u00e7a do sangue negro \u00e9 real, \u00e9 importante, mas comparado a outros pa\u00edses n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o vis\u00edvel&#8221;, explica Baldomero Estrada, professor titular do Instituto de Hist\u00f3ria da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Valpara\u00edso.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1396A\/production\/_107143208_cuadro.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Cuadro\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>Os historiadores destacam o pouco que os chilenos sabem hoje sobre o papel que seu pa\u00eds desempenhou no tr\u00e1fico de escravos<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Do total, 90% dos espanh\u00f3is que vieram para este territ\u00f3rio eram homens, ent\u00e3o eles se misturaram com os \u00edndios, e \u00e9 a\u00ed que a miscigena\u00e7\u00e3o come\u00e7a, e quando os negros chegam, a mesma coisa acontece, eles se misturam e s\u00e3o absorvidos muito rapidamente&#8221;, diz Estrada em conversa com a BBC News Mundo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 grupos \u00e9tnicos que mantenham caracter\u00edsticas permanentes e vis\u00edveis, no caso dos Mapuches, eles tamb\u00e9m s\u00e3o muito misturados, e \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar um que seja mapuche puro.&#8221;<\/p>\n<p><strong>A av\u00f3 no arm\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/14E3B\/production\/_107236558_gettyimages-526791838-1.jpg?resize=640%2C840&#038;ssl=1\" alt=\"Tango\" width=\"640\" height=\"840\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/p>\n<p><em>&#8220;A heran\u00e7a cultural \u00e9 muito poderosa. A dan\u00e7a argentina por excel\u00eancia que \u00e9 o tango, que tem claramente origens negras&#8221;, diz o historiador Felipe Pigna<\/em><\/p>\n<p>Embora a heran\u00e7a gen\u00e9tica de pessoas de ascend\u00eancia africana no Chile e na Argentina hoje n\u00e3o seja t\u00e3o vis\u00edvel, h\u00e1 outro tipo de legado que sobreviveu at\u00e9 hoje, segundo o historiador Felipe Pigna.<\/p>\n<p>&#8220;A heran\u00e7a cultural \u00e9 muito poderosa e podemos v\u00ea-la na dan\u00e7a argentina por excel\u00eancia que \u00e9 o tango, que tem claramente origens negras&#8221;, ressalta o historiador.<\/p>\n<p>&#8220;Grande parte do nosso folclore, o samba, chacarera e muitos ritmos do folclore argentino t\u00eam uma influ\u00eancia africana. H\u00e1 tamb\u00e9m as nossas palavras de vocabul\u00e1rio que permanecem como um legado.&#8221;<\/p>\n<p>Entre as palavras que os linguistas consideram ter origem afro est\u00e3o palavras como quilombo, milonga, candombl\u00e9, marimba, tango, matungo, mandinga, dengue ou mucama.<\/p>\n<p>O ativista Carlos \u00c1lvarez acredita que os argentinos devem &#8220;tirar a av\u00f3 afro do arm\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Para ter uma sociedade muito mais igualit\u00e1ria e justa, devemos valorizar nossa contribui\u00e7\u00e3o e fazer com que as crian\u00e7as e adolescentes tenham orgulho de seus antepassados.&#8221;<\/p>\n<p>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-48600318<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaime Gonz\u00e1lez &#8211; &#8220;Muitas vezes, no meu pr\u00f3prio pa\u00eds, passo por estrangeira por causa da minha cor, do cabelo encaracolado, e tenho que dizer com orgulho que sou chilena, tendo que suportar a descren\u00e7a de muitos e muitos.&#8221; 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