{"id":11372,"date":"2019-08-28T13:58:23","date_gmt":"2019-08-28T16:58:23","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11372"},"modified":"2019-08-26T22:01:19","modified_gmt":"2019-08-27T01:01:19","slug":"giuseppe-aragno-historiador-italiano-analisa-o-conceito-de-fascismo-e-as-semelhancas-entre-bolsonaro-e-salvini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/28\/giuseppe-aragno-historiador-italiano-analisa-o-conceito-de-fascismo-e-as-semelhancas-entre-bolsonaro-e-salvini\/","title":{"rendered":"Giuseppe Aragno: historiador italiano analisa o conceito de fascismo e as semelhan\u00e7as entre Bolsonaro e Salvini"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rog\u00e9rio Freitas<\/strong> &#8211; Nascido em N\u00e1poles, comunista libert\u00e1rio por convic\u00e7\u00e3o, professor e escritor, Giuseppe Aragno diz que \u201censina para viver, mas aprendeu e vive aprendendo\u201d. Foi professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea na Universit\u00e1 Degli Studi di Napoli Federico II. Em 1995 ganhou o Pr\u00eamio Laterza por uma colet\u00e2nea de poemas. Seu cora\u00e7\u00e3o pulsa mesmo quando o tema \u00e9 antifascismo. Entre suas principais obras est\u00e3o \u201cI compagni mi vendicheranno: lettere di condannati a morte della resistenza italiana\u201d (2006), \u201cAntifacismo popolare: storia di storie\u201d (2009), e \u201cLe quattro Giornate di Napoli: storie di antifacisti\u201d (2017). A entrevista que segue foi conduzida por\u00a0<strong>Rog\u00e9rio Freitas<\/strong> para o Esquerda Online. Aragno conversa sobre a resist\u00eancia italiana, revoltas populares, crescimento da extrema direita no mundo, atualidade pol\u00edtica italiana e similaridades entre governos neo-fascistas de Salvini e Bolsonaro. Destaca que a hist\u00f3ria das lutas dos trabalhadores, do antifascismo e da resist\u00eancia agora fazem parte do nosso DNA.<\/p>\n<p><b>Esquerda Online \u2013 Todo mundo conhece N\u00e1poles como a cidade italiana da boa comida. Lugar onde a pizza margherita foi inventada. Poucos sabem, por\u00e9m, que em 1943 ocorreu uma revolta popular de liberta\u00e7\u00e3o de N\u00e1poles dos nazifascistas. A insurrei\u00e7\u00e3o ficou conhecida na hist\u00f3ria como os \u201cQuatro dias de N\u00e1poles\u201d. Um dos seus \u00faltimos livros foi justamente sobre esse tema. Quais foram as motiva\u00e7\u00f5es para escrever esse livro? Que hist\u00f3rias antifascistas voc\u00ea conta e qual a import\u00e2ncia deste evento para a mem\u00f3ria coletiva?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Giuseppe Aragno\u00a0<\/b>\u2013 O poder n\u00e3o ama hist\u00f3rias vitoriosas de povos em luta: s\u00e3o exemplos perigosos. Para os \u201cQuatro Dias de N\u00e1poles\u201d, o vestido foi feito sob medida pela hist\u00f3ria oficial: revolta espont\u00e2nea, apol\u00edtica, isolada da \u201chist\u00f3ria nacional\u201d, populares inconscientes em busca de hero\u00edsmo. Um conto de fadas t\u00e3o confi\u00e1vel que quando Nanni Loy reconstr\u00f3i a insurrei\u00e7\u00e3o em um filme que segue o rastro da luta popular e espont\u00e2nea, mas menciona um l\u00edder antifascista, o alem\u00e3o Steinmayr, diretor do \u201cStern\u201d, responde a partir de uma ra\u00e7a superior: \u201cuma revolta contra o estrangeiro opressor, na cidade de bandolins e pizzas\u201d s\u00f3 pode ser \u201cuma confus\u00e3o entre famintos e prostitutas\u201d. Anos mais tarde, em 1992, Claudio Pavone, um historiador da Resist\u00eancia italiana, insiste nos \u201clazzari\u201d<a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/08\/23\/giuseppe-aragno-historiador-italiano-analisa-o-conceito-de-fascismo-e-as-semelhancas-entre-bolsonaro-e-salvini\/#notas\"><strong>\u00a0(1)<\/strong><\/a>\u00a0dos \u201cQuatro Dias\u201d que \u2013 diz ele \u2013 est\u00e3o do lado certo, mas ele n\u00e3o percebe que seus \u201cher\u00f3is apol\u00edticos por acaso\u201d retornam a imagem deformada de combatentes civis napolitanos vistos pelos nazistas atacados, que os chamam de \u201cdesonestos\u201d. Um \u201cladino (dialeto)\u201d que, com mais sentido hist\u00f3rico de nossos historiadores, \u00e9 muito sens\u00edvel \u00e0 propaganda \u201csubversiva\u201d.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio coletivo, N\u00e1poles, prisioneira do clich\u00ea da \u201ccidade de plebe\u201d, um s\u00edmbolo de neglig\u00eancia pol\u00edtica e chantagem nunca foi a primeira grande cidade europ\u00e9ia a impor a rendi\u00e7\u00e3o aos nazi-fascistas. Houve de fato confrontos armados espor\u00e1dicos, mas houve confrontos entre a retaguarda nazista defendendo as rotas de fuga para o norte, e bandos de \u201clazzari\u201d que atiravam das esquinas das vielas.<\/p>\n<p>Para apagar essa falsa imagem e dar uma cara pol\u00edtica \u00e0 revolta, eu tentei reconstruir a resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o nazista e devolver a palavra aos antifascistas: verdadeiro motor da revolta. Assim, surgiram hist\u00f3rias esquecidas de pol\u00edticos perseguidos, o papel que desempenharam durante a ditadura e depois no laborat\u00f3rio pol\u00edtico que foi a cidade libertada, quando come\u00e7ou a projetar a Rep\u00fablica. Reconstruir os caminhos humanos e pol\u00edticos dos combatentes, alguns dos quais fazem ent\u00e3o a guerra de liberta\u00e7\u00e3o foi decisivo em demonstrar que o mito da cidade do sol, mar e pizza, que surge, ent\u00e3o retorna indiferente, n\u00e3o ing\u00eanuo: ofusca o confronto de classes e diminue a fidedignidade dos fatos.<\/p>\n<p><b>EOL \u2013 Em 2013 eu tive a oportunidade de ouvi-lo durante um discurso na Biblioteca Brau da Universidade Federico II ocupada, naquela \u00e9poca, por alunos e pesquisadores devido a uma reivindica\u00e7\u00e3o pelo direito ao estudo. Voc\u00ea falou de autoritarismo e disse que o fascismo nunca realmente desapareceu. Em tempos de amea\u00e7a democr\u00e1tica por governos autorit\u00e1rios como Salvini na It\u00e1lia, Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasil, que paralelos podem ser tra\u00e7ados hoje com o que fora o nazi-fascismo de outrora?<\/b><\/p>\n<p>Depois dos acontecimentos dos \u00faltimos seis anos, o conceito de \u201cautoritarismo\u201d, usado na confer\u00eancia que voc\u00ea se lembra j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente para descrever a realidade que eu, voc\u00ea e milh\u00f5es de cidad\u00e3os como n\u00f3s, vivemos em contextos sociais e pol\u00edticos distantes uns dos outros, mas, somos unidos por um fato muito preocupante: a rela\u00e7\u00e3o cada vez mais desequilibrada entre o poder e as regras que estabelecem seus limites. Uma rela\u00e7\u00e3o que, no que diz respeito ao poder, n\u00e3o \u00e9 apenas desdenhosa da democracia, mas assume cada vez mais conota\u00e7\u00f5es parafascistas.<\/p>\n<p>Tomemos, por exemplo, o caso de Dilma Rousseff. Sem entrar nos m\u00e9ritos da hist\u00f3ria, acho que posso dizer que h\u00e1 seis anos nenhum pol\u00edtico, votando a favor do impeachment da primeira mulher presidente do Brasil, ex-guerrilheira contra a ditadura, diria que votaria pela queda dela em nome daqueles que lhe haviam torturado durante os anos de sua milit\u00e2ncia. Para n\u00e3o se limitar apenas no Brasil, seis anos atr\u00e1s, na It\u00e1lia, o ex-combatente comunista Cesare Battisti n\u00e3o teria sido objeto de troca e prova de amizade entre Bolsonaro e Salvini e acima de tudo, quaisquer que fossem suas responsabilidades, ap\u00f3s a extradi\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o encontraria os ministros Bonafede e Salvini no aeroporto, prontos para se apresentar diante de c\u00e2meras complacentes e expor o prisioneiro como um trof\u00e9u de ca\u00e7a.<\/p>\n<p>De maneiras diferentes, mas em ambos os casos, o \u00f3dio aos militantes de esquerda tem sido t\u00e3o forte e t\u00e3o deliberadamente demonstrado que \u00e9 imposs\u00edvel falar de competi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Tudo aponta para um comportamento vingativo de natureza reacion\u00e1ria. Em muitos aspectos fascista. Digo fascista por um bom motivo: porque seis anos atr\u00e1s, na It\u00e1lia, nenhum ministro de centro-esquerda e ou do Partido Democr\u00e1tico-PD teria ousado tratar a quest\u00e3o de imigrantes como Marco Minniti, o antecessor de Salvini. Um ministro, a dizer, for\u00e7ou a ONU a definir a pol\u00edtica adotada contra os imigrantes como \u201cdesumana\u201d e assinou um decreto de seguran\u00e7a que cont\u00e9m numerosos elementos presentes em um documento fascista de 1934.<\/p>\n<blockquote><p>Seis anos atr\u00e1s, n\u00e3o falar\u00edamos sobre Salvini, Bolsonaro, Trump, Orban e Le Pen, como um grupo de l\u00edderes que compartilha tanto um ponto de vista te\u00f3rico quanto um ponto de vista pr\u00e1tico.<\/p><\/blockquote>\n<p>Seis anos atr\u00e1s, n\u00e3o falar\u00edamos sobre Salvini, Bolsonaro, Trump, Orban e Le Pen, como um grupo de l\u00edderes que compartilha tanto um ponto de vista te\u00f3rico quanto um ponto de vista pr\u00e1tico. Inevitavelmente, uma degenera\u00e7\u00e3o t\u00e3o r\u00e1pida do autoritarismo em dire\u00e7\u00e3o a posi\u00e7\u00f5es abertamente reacion\u00e1rias questiona as consci\u00eancias. \u00c9 poss\u00edvel identificar as caracter\u00edsticas de um moderno nazi-fascismo na forma\u00e7\u00e3o desse bloco de direita aparentemente heterog\u00eaneo? Bem, de onde eu venho, e partir de sua pergunta, acredito que \u00e9 mostrado frequentemente que o fascismo e o nazismo s\u00e3o fen\u00f4menos hist\u00f3ricos definitivamente parte do passado. Morto e enterrado. \u00c9 um argumento forte, que no entanto ignora fatos indiscut\u00edveis. A It\u00e1lia, por exemplo, que preservou o C\u00f3digo Rocco, um exemplo insuper\u00e1vel da concep\u00e7\u00e3o fascista do Estado, n\u00e3o realizou uma \u201cdesfastiza\u00e7\u00e3o\u201d s\u00e9ria e de fato reciclou parte do pessoal pol\u00edtico e da burocracia fascista.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica autorizou Gaetano Azzariti, ex-presidente da corte fascista da corrida, a presidir o Tribunal Constitucional e confiou o treinamento t\u00e9cnico da Pol\u00edcia Republicana a Guido Leto, ex-chefe da OVRA, a infame pol\u00edcia pol\u00edtica fascista. A lista seria intermin\u00e1vel e nem ter\u00edamos nem espa\u00e7o nem tempo para faz\u00ea-lo. No entanto, pelo menos alguns dos casos mais significativos merecem ser mencionados. Vincenzo Eula, promotor p\u00fablico no julgamento que condenou Ferruccio Parri, Sandro Pertini e Carlo Rosselli, ent\u00e3o procurador-geral da Cassa\u00e7\u00e3o; Luigi Oggioni, ex-Procurador Geral da Rep\u00fablica Social Italiana, chegou \u00e0 presid\u00eancia do Tribunal de Cassa\u00e7\u00e3o e foi finalmente juiz do Tribunal Constitucional; Carlo Alliney, um l\u00edder na legisla\u00e7\u00e3o anti-judaica na Rep\u00fablica Social Italiana, continuou sua carreira sem problemas na Suprema Corte. Nenhum dos cientistas facistas que assinaram o Manifesto da ra\u00e7a pagaram por suas escolhas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 surpreendente que, ignorando a Constitui\u00e7\u00e3o, Marco Minnitti, Ministro da defesa, tenha admitido os fascistas de \u201cCasa Pound\u201d (<em>organiza\u00e7\u00e3o neofacista de hoje na It\u00e1lia, NdT<\/em>) nas elei\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de 2018 e Salvini, seu sucessor, de participar dos congressos desta organiza\u00e7\u00e3o neofascista. \u00c9 necess\u00e1rio notar que \u00e9 a\u00ed, nessa cultura, que se deve buscar as ra\u00edzes dos elementos de forte racismo presentes na feroz pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o desejada pelo Minist\u00e9rio da defesa da Liga do Norte. Salvini n\u00e3o est\u00e1 sozinho em suas escolhas no cen\u00e1rio internacional. Ao propor eliminar a esquerda da vida pol\u00edtica do Brasil, Bolsonaro n\u00e3o pretende, sobretudo, cancelar a temporada da experi\u00eancia integracionista? Por que ele faz isso? A impress\u00e3o \u00e9 que pretende trazer de volta \u00e0s terras latino-americanas a antiga condi\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o. Nesta escolha n\u00e3o parece distante do antimeridionalismo, do separatismo disfar\u00e7ado de autonomismo, da guerra aos imigrantes e aos ciganos que s\u00e3o a subst\u00e2ncia da concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Salvini e de outros l\u00edderes da nebulosa em que a extrema direita atual \u00e9 colocada dentro e fora da It\u00e1lia e do Brasil.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o podemos deixar de temer que o espectro do nazi-fascismo esteja emergindo em um horizonte cada vez mais sombrio.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 claro que Bolsonaro leva ao extremo o populismo machista, homof\u00f3bico e racista das classes m\u00e9dias brancas e de direita mais moderadas e \u201ccivilizadas\u201d. Todavia sua campanha de \u00f3dio, de exalta\u00e7\u00e3o da m\u00e3o dura, que chega a torturar, n\u00e3o liga somente o Brasil \u00e0 It\u00e1lia de G\u00eanova em 2001 (<em>durante a reuni\u00e3o do G8 em G\u00eanova centenas de manifestantes foram brutalmente torturados pela pol\u00edcia, o jovem manifestante Carlo Giuliani foi executado, NdT<\/em>) mas todos os pa\u00edses onde a pol\u00edcia colocou as m\u00e3os em armas mesmo quando n\u00e3o deveria. Come\u00e7ando nos EUA de Trump. Uma vit\u00f3ria da direita sobre \u00e0 esquerda neste ou naquele pa\u00eds \u00e9 fisiol\u00f3gica. Mas quando \u00e9 agravada simultaneamente em v\u00e1rios pa\u00edses e continentes e nasce em toda parte da longa onda de uma vis\u00e3o hier\u00e1rquica id\u00eantica da sociedade e das rela\u00e7\u00f5es entre os povos, na exalta\u00e7\u00e3o da homofobia, do misoginismo, do nacionalismo, do racismo e do anti-socialismo, o ambientalismo, baseado no profundo desprezo pela democracia, ent\u00e3o sim, ent\u00e3o n\u00e3o podemos deixar de temer que o espectro do nazi-fascismo esteja emergindo em um horizonte cada vez mais sombrio.<\/p>\n<p><b>EOL \u2013\u00a0 Bolsonaro ganhou as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es no Brasil. O clima obscuro e pesado atual no pa\u00eds se assemelha somente com a ditadura militar nos anos 1960. O discurso de \u00f3dio tem sido uma arma de Bolsonaro para a gest\u00e3o do pa\u00eds. Discursos pol\u00edticos, redes sociais, televis\u00e3o e meios de comunica\u00e7\u00e3o de alguma forma t\u00eam moldado e potencializado cada vez mais a \u201cpalavra como express\u00e3o\u201d.\u00a0 Na sua opini\u00e3o, a \u201cpalavra\u201d tem se tornado mais fascista ou tem sido um instrumento antifascista nos dias de hoje? E como Bolsonaro \u00e9 visto na It\u00e1lia e Europa?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho uma experi\u00eancia direta para relatar, mas tenho boas raz\u00f5es para acreditar que o clima pesado que est\u00e1 se desenvolvendo no Brasil \u00e9 semelhante ao dos tempos da ditadura militar em um contexto internacional. N\u00e3o me atrevo a previs\u00f5es, mas parece claro para mim que, com Bolsonaro, o anti-sistema levou um golpe, elementos da \u201cbarb\u00e1rie local\u201d foram inseridos em uma crise do capitalismo que \u00e9, antes de tudo, uma crise de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta situa\u00e7\u00e3o, um discurso sobre o valor da \u201cpalavra\u201d deve ser feito, porque, se o fascismo entendeu o valor estrat\u00e9gico da comunica\u00e7\u00e3o e de uma linguagem imediata que expressa uma vis\u00e3o do mundo em formas sint\u00e9ticas e curtas como slogans, Salvini e Trump tamb\u00e9m usam uma linguagem imediata, buscando contato direto e as formas e tons de di\u00e1logo pessoal. Esta caracter\u00edstica \u201ct\u00e9cnica\u201d nos discursos dos l\u00edderes atuais est\u00e1 unida \u2013 e isso tamb\u00e9m era t\u00edpico da linguagem fascista \u2013 uma tend\u00eancia constante para for\u00e7ar o significado da palavra em um sentido pejorativo.<\/p>\n<p>No ataque ao oponente, por exemplo, frequente, quase sistem\u00e1tico \u00e9 a nota ofensiva. Virilidade \u2013 um ponto fixo no modo de ser da direita \u2013 quase n\u00e3o faz sentido se n\u00e3o evoca viol\u00eancia e agress\u00e3o. Nenhum grande esfor\u00e7o \u00e9 necess\u00e1rio para compreender outras afinidades significativas. A dist\u00e2ncia que separa a express\u00e3o \u201cfoda-se\u201d de Grillo do Movimento 5 Estrelas e do fascismo \u201c<i>me ne frego!<\/i>\u201d (<em>express\u00e3o que significa \u2018pouco me importa\u2019 que traduziu um experimento lingu\u00edstico de manipula\u00e7\u00e3o fascista para uniformizar a l\u00edngua italiana, desprezando os dialetos existentes no pa\u00eds, NdT<\/em>) \u00e9 m\u00ednima e a acusa\u00e7\u00e3o de desprezo pelas institui\u00e7\u00f5es presentes na descri\u00e7\u00e3o de um Parlamento que \u201cdeve ser aberto como uma lata de atum\u201d \u00e9 igual, sen\u00e3o superior, ao encontrado no \u201csal\u00e3o surdo e cinzento\u201d da mem\u00f3ria de Mussolini.<\/p>\n<blockquote><p>Onde est\u00e1 escrito que um fen\u00f4meno hist\u00f3rico n\u00e3o deixe como heran\u00e7a um pensamento e uma linguagem?<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando na It\u00e1lia estudiosos como Emilio Gentile insistem no valor hist\u00f3rico definitivo da palavra \u201cfascismo\u201d, esquecem-se de nos dizer onde est\u00e1 escrito que um fen\u00f4meno hist\u00f3rico n\u00e3o deixe como heran\u00e7a um pensamento e uma linguagem. Se se refletir sobre as express\u00f5es utilizadas por l\u00edderes como Salvini e Di Maio, um do Partido da Liga do Norte, e outro do Movimento 5 estrelas, ambos ministros do atual governo italiano, evidencia-se a continuidade entre a linguagem da extrema direita e a fascista torna-se evidente: como os fascistas constantemente questionam as pessoas, muitas vezes em conflito com as elites sistematicamente atacadas. Por outro lado, at\u00e9 mesmo os corpos do Estado sugerem uma reviravolta no sentido fascista de sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, h\u00e1 alguns dias, Conte, Presidente do Conselho de Ministros, convocou sindicatos (partes sociais) para uma reuni\u00e3o. Um dia depois, os sindicatos foram convidados por Salvini e pelo ministro da Defesa. O comportamento aparentemente an\u00f4malo das partes sociais \u00e9 outro sem um interlocutor institucional e quando a discuss\u00e3o tem interesses pessoais, sua fun\u00e7\u00e3o muda. Claro, continuamos a cham\u00e1-los de sindicatos, mas fingimos ignorar que, em vez disso, eles est\u00e3o se comportando como corpora\u00e7\u00f5es. Nesse caso, \u201ca palavra\u201d, por mais silenciosa que seja, \u00e9 inquestionavelmente fascista. Agora, junto com o valor aparente da palavra, \u00e9 necess\u00e1rio entender o que se escondem por tr\u00e1s dela.<\/p>\n<p>\u201cVamos mudar o destino do Brasil juntos. Vamos oferecer-lhe um governo digno, que funcionar\u00e1 para todos os brasileiros, trabalharemos para transformar o Brasil num pa\u00eds democr\u00e1tico!\u201d. Isso foi prometido por Bolsonaro, usando palavras que n\u00e3o parecem de modo algum fascistas. Bolsonaro limitou-se a dizer que a esquerda n\u00e3o havia funcionado para todos os brasileiros. O pa\u00eds foi prejudicado e adulterada a alma democr\u00e1tica. Compartilhada ou n\u00e3o, foi um julgamento pol\u00edtico. Fascistas, por outro lado, na tentativa de clarifica\u00e7\u00f5es, eram, em vez disso, as palavras usadas para se chamarem admiradores da ditadura em seu comportamento mais sangrento. O fascista \u00e9 \u2013 pior ainda \u2013 o que Bolsonaro n\u00e3o diz, mas lemos por tr\u00e1s de todas as suas afirma\u00e7\u00f5es: a tend\u00eancia inata de uma viol\u00eancia que se assemelha a sangue, quart\u00e9is e solu\u00e7\u00f5es de for\u00e7a.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea v\u00ea Bolsonaro na Europa? Depende. Muitos est\u00e3o t\u00e3o longe da pol\u00edtica que n\u00e3o sabem quem ele \u00e9. A extrema direita olha para ele com admira\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a, enquanto o que resta da esquerda o considera um risco mortal. Uma quest\u00e3o, no entanto, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 resposta: o que pensar\u00e3o dele e de que lado aqueles que hoje est\u00e3o entre os indiferentes estar\u00e3o no final?<\/p>\n<p><b>Recentemente Bolsonaro criticou o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) sobre os dados relativos ao desmatamento na Amaz\u00f4nia. Ele afirmou que os dados do Instituto n\u00e3o eram verdadeiros. Baseado em sat\u00e9lites e alta tecnologia, o INPE mostrou que mais de 1000 km\u00b2 de floresta amaz\u00f4nica foram derrubadas nos primeiros quinze dias do m\u00eas de Julho. Bolsonaro diz que esses dados \u201catrapalham a imagem do Brasil no exterior\u201d, pois assim n\u00e3o se atrai investimentos de empres\u00e1rios para explorar a amaz\u00f4nia.<br \/>\nNa It\u00e1lia existem lutas em curso como aquela contra os trens de alta velocidade em Val de Susa e o mundo assiste com grande preocupa\u00e7\u00e3o os perigos das varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas da terra. A pauta ambiental tem se tornado central na esquerda mundial. A reivindica\u00e7\u00e3o ambientalista \u00e9 promissora em termos de resist\u00eancia global ao capitalismo?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Infelizmente, quando se trata da rela\u00e7\u00e3o entre quest\u00f5es ambientais e pol\u00edticas \u00e9 preciso lidar com blackouts surpreendentes. Isso acontece especialmente no campo de uma \u201cesquerda\u201d hoje auto-estilizada, reduzida \u00e0 posi\u00e7\u00e3o humilhante de pai e guardi\u00e3o do pensamento \u00fanico neoliberal. Na It\u00e1lia, por exemplo, o Partido Democr\u00e1tico-PD, que cientistas pol\u00edticos e formadores de opini\u00e3o obstinadamente colocam no campo da esquerda, fala h\u00e1 algum tempo \u2013 e \u00e0s vezes se sobrep\u00f5e \u2013 sobre as varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, um planeta doente e uma necessidade urgente de lan\u00e7ar pol\u00edticas ambientais que tenham a for\u00e7a de uma terapia de choque. Isso acontece principalmente durante as freq\u00fcentes campanhas eleitorais, quando se est\u00e1 ca\u00e7ando votos e sistematicamente promete-se tudo o que n\u00e3o far\u00e1 em seguida.<\/p>\n<p>Quando se trata, no entanto, de passar para os fatos, a cena muda e come\u00e7a o refr\u00e3o que segue os discursos dos corretos sobre as necessidades do mercado e sobre o risco de desestimular os investidores. Nesse ponto, a montanha d\u00e1 \u00e0 luz a um rato. Poucos dias atr\u00e1s, com o seu voto decisivo, o PD manteve vivo o projeto devastador que traz o trem de alta velocidade para Val di Susa, ignorando completamente a longa luta dos habitantes da \u00e1rea afetada. Por muito tempo, infelizmente, na It\u00e1lia, fomos adiante com esse equ\u00edvoco, artisticamente constru\u00eddo, de maneira completamente instrumental por aqueles que \u201c fazem opini\u00e3o\u201d: o PD, repetido quase obsessivamente, \u00e9 o maior partido da esquerda moderada. Isso permite que os fortes poderes que s\u00e3o agora os verdadeiros protagonistas da vida pol\u00edtica italiana alcancem dois objetivos com um golpe: por um lado, a esquerda \u00e9 desacreditada, atribuindo a ela um l\u00edder muito mais \u00e0 direita do que a maioria da direita, por outro cobrem-se suas costas para os investidores especuladores que deveria ser seu pior inimigo.<\/p>\n<blockquote><p>Antes de pol\u00edtica, a derrota da esquerda \u00e9 cultural.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o sei como as coisas funcionam para voc\u00ea, mas acredito que as diferen\u00e7as nem sempre s\u00e3o fortes. Quando Bolsonaro questiona os dados do INPE, \u00e9 baseado em uma certeza que tamb\u00e9m se aplica \u00e0 direita italiana; ele sabe que pode faz\u00ea-lo, porque est\u00e1 ciente de desfrutar de uma vantagem decisiva por enquanto, da qual a esquerda est\u00e1 lutando para se tornar consciente: ele sabe, isto \u00e9, que antes de pol\u00edtica, a derrota da esquerda \u00e9 cultural. E quando este \u00e9 o caso, por exemplo, quando voc\u00ea \u00e9 golpeado em n\u00edvel cultural, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil remediar o pol\u00edtico. Para melhor esclarecer esse conceito, n\u00e3o \u00e9 diferente passar da realidade do Brasil de Bolsonaro para aquela italiana.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 capaz de perceber a gravidade das fontes, mas, por mais grave que seja, n\u00e3o est\u00e1 interessada em conhecer a quest\u00e3o. Segundo uma pesquisa internacional \u2013 o PIAAC, Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Compet\u00eancias de Adultos \u2013 sobre analfabetos funcionais, dos 33 pa\u00edses analisados, a It\u00e1lia \u00e9 a pen\u00faltima na Europa \u2013 precedida apenas pela Turquia \u2013 e a quarta \u00faltima do mundo. Estamos falando de uma enorme massa de pessoas capazes de ler e escrever, mas n\u00e3o de entender facilmente textos simples. Pessoas que n\u00e3o t\u00eam muitas habilidades \u00fateis na vida cotidiana, que n\u00e3o conseguem localizar um n\u00famero de telefone em uma p\u00e1gina da Web quando est\u00e3o no link \u201cFale conosco\u201d e n\u00e3o conseguem ler o manual de instru\u00e7\u00f5es de um celular.<\/p>\n<p>Todavia, nestas condi\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes \u00e9 poss\u00edvel perceber movimentos fortes e at\u00e9 mesmo vitoriosos. Voc\u00ea mencionou o movimento No TAV, e posso confirmar que \u00e9 uma realidade forte, capaz de constituir um modelo. Falo com o conhecimento dos fatos porque conhe\u00e7o a realidade do movimento e Nicoletta Dosio, sua l\u00edder mais representativa, atua como eu em um movimento jovem, mas particularmente ativo e rico em recursos humanos e pol\u00edticos, o Potere al Popolo. Eu poderia dizer as mesmas coisas para o movimento que surgiu em defesa da \u00e1gua p\u00fablica e para o que surgiu na Puglia (Sul da It\u00e1lia) contra um oleoduto devastador. Essas s\u00e3o realidades de combate muito significativas. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, devo reconhecer que estes s\u00e3o movimentos territoriais relativamente pequenos, nem sempre ligados de uma maneira org\u00e2nica, que sofrem constantemente de um aperto repressivo severo e que, ap\u00f3s a recente aprova\u00e7\u00e3o de um decreto sobre seguran\u00e7a, que tem um car\u00e1ter verdadeiramente fascista, eles correm o risco de pagar caro por sua resist\u00eancia corajosa.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m realidades institucionais lideradas por homens corajosos, como o prefeito de Riace e pelo prefeito de N\u00e1poles, Luigi De Magistris. Quanto ao Potere al Popolo, o movimento de esquerda mais jovem e original nascido na It\u00e1lia, demonstramos at\u00e9 agora qualidades inovadoras muito significativas e uma grande capacidade de tecer rela\u00e7\u00f5es com realidades de outros pa\u00edses, desde a Venezuela de Maduro at\u00e9 a \u201cFran\u00e7a Insoumise\u201d de Melenchon. Uma nova esquerda certamente pode nascer em torno da agenda que voc\u00ea indica e eu acredito que esse processo \u00e9 de alguma forma inevit\u00e1vel e j\u00e1 est\u00e1 a caminho. Alguns de nossos jovens mais capazes est\u00e3o engajados nisso, engajados em uma atividade pol\u00edtica internacionalista que constitui em si mesma uma realidade que inicialmente era esperan\u00e7a e hoje eu acho que \u00e9 um modelo. O tempo dir\u00e1 para onde podemos ir, mas n\u00e3o tenho d\u00favidas: \u00e9 nessa frente que a resist\u00eancia global ao capitalismo contempor\u00e2neo pode e deve surgir.<\/p>\n<p><b>EOL \u2013 No in\u00edcio deste ano a professora de literatura do ensino b\u00e1sico, Rosa Maria Dell\u2019Aria, da cidade de Palermo, foi suspensa por 15 dias por permitir que seus alunos comparassem as leis raciais de 1938 com o atual decreto de seguran\u00e7a de Salvini. Essa fotografia \u00e9 muita parecida com que vem ocorrendo no Brasil. O presidente, Bolsonaro, e o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Abraham Weintraub, acreditam que existe um \u201cmarxismo cultural\u201d no espa\u00e7o educativo brasileiro e que isso precisa ser destru\u00eddo. Uma das v\u00e1rias propostas de Bolsonaro \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de escolas militares. Al\u00e9m disso, ambos pretendem tirar o status do pedagogo brasileiro reconhecido internacionalmente, Paulo Freire, de patrono da educa\u00e7\u00e3o do Brasil. H\u00e1 alguns anos os Organismos Internacionais como a OCDE e Banco Mundial t\u00eam regulado a educa\u00e7\u00e3o mundial atrav\u00e9s de mecanismos mais \u201csofts\u201d em termos de pol\u00edticas educacionais neoliberais como: avalia\u00e7\u00f5es, recomenda\u00e7\u00f5es etc. N\u00e3o h\u00e1 uma incongru\u00eancia entre esses governos autorit\u00e1rios e institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es internacionais que optam por um outro tipo de governan\u00e7a global como a procura pelo consenso?\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de surpreender que, t\u00e3o logo chegue ao poder, a extrema direita se concentre na escola. A antiga hist\u00f3ria da repress\u00e3o ensinou os exploradores de todo o mundo que o trabalhador muito ignorante vem agradecer ao empregador que lhe d\u00e1 trabalho e sofre a demiss\u00e3o como se fosse uma esp\u00e9cie de desastre natural. No entanto, o movimento dos trabalhadores e dos socialistas tem uma hist\u00f3ria antiga que ainda \u00e9 rica em ensinamentos. Um deles \u00e9, sem d\u00favida, o valor revolucion\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o em certos aspectos. O trabalhador que estuda distingue entre o que \u00e9 concedido a ele e o que \u00e9 devido a ele. Enquanto o ignorante se curva, o outro luta. Por isso, \u00e9 natural que um dos pontos mais duros e decisivos de conflito na luta de classes seja a escola, o direito ao estudo e \u00e0 liberdade de ensino.<\/p>\n<p>Em termos de autonomia de pensamento e esp\u00edrito cr\u00edtico, uma escola livre descobriu o czar Alexandre II, que enviou crian\u00e7as camponesas \u00e0 escola gratuitamente em 1861, permitiu que estudantes universit\u00e1rios administrassem bibliotecas e alguns anos depois ele foi for\u00e7ado a fazer retrocesso na frente de uma juventude cr\u00edtica e consciente. Duvido que Bolsonaro conhe\u00e7a a hist\u00f3ria da escola, mas acredito que a desconfian\u00e7a da escola livre, na qual os professores da esquerda ensinam livremente, \u00e9 instintivamente desaprovada por qualquer pol\u00edtico reacion\u00e1rio. N\u00e3o me surpreende, portanto, que, depois de prometer ao pa\u00eds um governo que funcionaria para todos os brasileiros, hoje ameace os professores de esquerda e, portanto, a liberdade de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do gesto s\u00e9rio em si, parece-me particularmente significativo que n\u00e3o nos deparemos com uma linha de conduta exclusivamente brasileira. Berlusconi, na It\u00e1lia, desencadeou a ira de Deus contra os professores de esquerda. Recentemente, como voc\u00ea lembra em sua pergunta, como prova das tend\u00eancias fascistas que caracterizam o atual governo italiano, uma professora foi suspensa por n\u00e3o ter impedido seus alunos de conclu\u00edrem uma pesquisa sobre racismo, expressando a opini\u00e3o de que Salvini segue o caminho de Mussolini. Acredito, por\u00e9m, que o caso mais significativo foi o de Lavinia Fl\u00e1via Cassaro, professora que foi demitida por ter criticado duramente os policiais que defendiam militantes da \u201cCasaPound\u201d \u2013 os \u201cfascistas do terceiro mil\u00eanio\u201d \u2013 que batiam em manifestantes antifascistas.<\/p>\n<p>O ataque \u00e0 escola democr\u00e1tica \u00e9 realmente revelador neste caso, porque est\u00e1 ligado a uma escolha inaceit\u00e1vel do governo do PD e seu ministro da Defesa, Marco Minniti, que pela primeira vez na hist\u00f3ria da Rep\u00fablica, ignorando uma proibi\u00e7\u00e3o aberta a Constitui\u00e7\u00e3o, permitiu que um movimento abertamente fascista participasse nas elei\u00e7\u00f5es. A professora foi essencialmente demitida porque \u2013 n\u00e3o na escola, mas durante uma manifesta\u00e7\u00e3o \u2013 ela expressou seu desd\u00e9m pela decis\u00e3o vergonhosa de Minniti, que liderou o caminho para seu sucessor, Matteo Salvini, da Liga do Norte.<\/p>\n<blockquote><p>O caso brasileiro \u00e9 muito parecido com o italiano: filmar os professores da esquerda enquanto est\u00e3o ensinando significa o cancelamento da liberdade de ensinar e a imposi\u00e7\u00e3o de uma cultura de Estado.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como voc\u00ea observa corretamente, o caso brasileiro \u00e9 muito parecido com o italiano: filmar os professores da esquerda enquanto est\u00e3o ensinando significa o cancelamento da liberdade de ensinar e a imposi\u00e7\u00e3o de uma cultura de Estado. Uma decis\u00e3o que obviamente ocorreu no fascismo. Na It\u00e1lia tudo foi feito para eliminar a escola nascida das lutas de 1968 al\u00e9m de Don Milani, uma refer\u00eancia muito forte para a escola democr\u00e1tica. Nesse caso, n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias meias palavras: quando a pol\u00edtica decide atacar o pensamento ou tenta banir um pedagogo, nos deparamos com um processo de fascistiza\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 as opera\u00e7\u00f5es abertamente repressivas atestam isso. Testemunhar as interven\u00e7\u00f5es externas das ag\u00eancias que reportam aos governos nos processos de avalia\u00e7\u00e3o, a imposi\u00e7\u00e3o de testes que n\u00e3o levam em conta as diferentes realidades territoriais e sociais nas quais os professores atuam, as horas de trabalho livre dadas \u00e0s empresas e impostas ao governo, os alunos como ferramenta de treinamento, a entrada de particulares em escolas p\u00fablicas como financiadores. \u00c9 assim que substancialmente na It\u00e1lia a escola e a universidade est\u00e3o sendo privatizadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como funciona a avalia\u00e7\u00e3o de pesquisas no Brasil. Na It\u00e1lia, foi criada uma ag\u00eancia, a Anvur, que n\u00e3o pede \u00e0 Comiss\u00e3o que leia o trabalho dos estudiosos, mas os classifica de acordo com a import\u00e2ncia da editora e as cita\u00e7\u00f5es de estudiosos estrangeiros, especialmente anglo-sax\u00f5es. Cita\u00e7\u00f5es que s\u00e3o obtidas somente se voc\u00ea participar de congressos internacionais; congressos que s\u00f3 podem ser acessados se voc\u00ea estiver em bons termos com os chamados \u201cbar\u00f5es\u201d; bons relacionamentos que s\u00e3o constru\u00eddos apenas seguindo o caminho do servilismo absoluto. In\u00fatil dizer que um editor grande n\u00e3o publica por exemplo, livros sobre a hist\u00f3ria do anarquismo ou do socialismo, de modo que o acad\u00eamico que quer fazer uma carreira precisa abandonar os ramos de pesquisa que s\u00e3o impopulares com o poder. O que, na pr\u00e1tica, significa impor um controle rigoroso sobre a pesquisa.<\/p>\n<p><b>EOL \u2013 Sobre a luta politica. Voc\u00ea foi um candidato da esquerda nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es pelo Potere al Popolo. Qual o panorama da esquerda italiana e quais foram as propostas que voc\u00ea defendia?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>A esquerda na It\u00e1lia \u00e9 extremamente fragmentada. Antes das elei\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de 2018 no Parlamento, o maior partido de \u201cesquerda\u201d era o Partido Democr\u00e1tico- PD, nascido de uma fus\u00e3o fria entre cat\u00f3licos e ex-comunistas, por anos com posi\u00e7\u00f5es neoliberais. Considerado de esquerda, foi o Partido que realmente realizou todos os fatos que a direita berlusconiana n\u00e3o p\u00f4de fazer ou poderia ter feito em termos de privatiza\u00e7\u00e3o, meio ambiente, grandes obras, ataques aos direitos dos trabalhadores e distor\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o antifascista. O PD criou, assim, uma profunda ruptura com as pessoas de esquerda e com os valores em que essas pessoas se reconheciam. Do PD sa\u00edram, dando vida a assuntos pol\u00edticos ef\u00eameros, pequenos grupos de dirigentes e deputados que nunca romperam com o neoliberalismo e n\u00e3o assumiram uma posi\u00e7\u00e3o clara sobre a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Entre essas forma\u00e7\u00f5es, a \u201cesquerda\u201d, liderada por Fratoianni teve algum peso, mas mostrou-se substancialmente subordinada ao PD. Fora do Parlamento, existem pequenas forma\u00e7\u00f5es comunistas que carecem de seguidores entre a popula\u00e7\u00e3o; um peso tinha at\u00e9 as recentes elei\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o \u201cPartido Comunista da Refunda\u00e7\u00e3o\u201d, que contava com uma representa\u00e7\u00e3o m\u00ednima no Parlamento Europeu mas, esclerotizado nos grupos de lideran\u00e7a, estava eternamente dividido sobre o tema decisivo das rela\u00e7\u00f5es com o PD. Todas essas forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tem o descr\u00e9dito da esquerda entre a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste clima, nasceu Potere al Popolo, do qual fui o primeiro candidato e hoje presidente da Comiss\u00e3o de Garantia. Nasceu para criar um movimento no qual todos tinham o direito real de falar e escolher, de dar uma refer\u00eancia \u00e0queles que n\u00e3o se sentiam representados, para finalmente passar por um programa autenticamente anti-capitalista e criar uma rede de rela\u00e7\u00f5es internacionais que existe hoje. N\u00f3s n\u00e3o entramos no Parlamento, mas n\u00e3o desaparecemos da vida pol\u00edtica porque um projeto pol\u00edtico tem futuro quando atende a uma necessidade na hist\u00f3ria.<\/p>\n<blockquote><p>A exist\u00eancia de uma esquerda de classe, alternativa ao pensamento \u00fanico, \u00e9 hoje uma necessidade profunda da hist\u00f3ria.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o est\u00e1vamos errados: a exist\u00eancia de uma esquerda de classe, alternativa ao pensamento \u00fanico, \u00e9 hoje uma necessidade profunda da hist\u00f3ria. Nosso programa era simples, mas continha op\u00e7\u00f5es realmente alternativas. Propusemos a aboli\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o do \u201cpacto fiscal\u201d e o or\u00e7amento equilibrado, que distorce os princ\u00edpios sobre os quais a Rep\u00fablica repousa; a reintegra\u00e7\u00e3o do Estatuto dos Trabalhadores e o cancelamento da desastrosa \u201clei do emprego\u201d, que permite o patr\u00e3o descartar o trabalhador a hora que desejar. Tamb\u00e9m propusemos uma s\u00e9ria luta contra a evas\u00e3o fiscal, uma pol\u00edtica habitacional financiada pelo redirecionamento dos recursos destinados aos gastos militares, o retorno \u00e0 escola estatal, a aboli\u00e7\u00e3o do Anvur e do Invalsi, que est\u00e3o destruindo nosso Sistema educativo e, finalmente, uma grande batalha de resist\u00eancia para a prote\u00e7\u00e3o ambiental. Infelizmente, a onda ef\u00eamera, mas esmagadora, do grilismo (Grillo, do Movimento 5 estrelas) nos parou.<\/p>\n<p><b>E a crise atual do governo?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Ap\u00f3s 14 meses de vida, o governo na It\u00e1lia desfaleceu. O primeiro-ministro Giuseppe Conte anunciou isso neste 20 de agosto, no Senado. A crise se arrastou desde 8 de agosto, quando o secret\u00e1rio da Liga Norte e ministro do Interior, Salvini, desencorajou Conte e atacou severamente os aliados. Interessante foi ver a imagem: o homem forte da pol\u00edtica italiana, que queria poderes plenos, desafiou a Europa, fez o sonho da extrema-direita, saiu da hist\u00f3ria, mas trouxe uma enorme fadiga ao pa\u00eds: a grave crise institucional que agora encontra no \u201cmito do homem solit\u00e1rio no comando\u201d um povo desanimado. Um mito que nos leva diretamente a pensar na crise do estado liberal e o nascimento do fascismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de entender os motivos que levaram Salvini abrir a crise. Podemos pensar que ele dirigiu uma esp\u00e9cie de tr\u00eas Ligas Norte: a desejada por Bossi em 1991, que visava a independ\u00eancia da Padania (as regi\u00f5es ricas do Norte); a Liga do pr\u00f3prio Salvini e o s\u00edmbolo eleitoral da Liga norte, que promete pontes de ouro aos odiados sulistas em troca de voto, enquanto pensava em uma secess\u00e3o disfar\u00e7ada de\u00a0 autonomia diferenciada. Descoberto o truque e fortemente contestado em todas os lugares no Sul da It\u00e1lia, o Potere al Popolo denunciou Salvini: pequeno demais no governo para trazer do Norte a autonomia e demasiadamente desacreditado no Sul para torcer pelo seu avan\u00e7o. Ele perdeu a cabe\u00e7a e partiu para derrubar a mesa. For\u00e7ado pelos acontecimentos, o presidente da Rep\u00fablica, Mattarella, que por 14 meses apoiou toda infame da Liga, incluindo uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a da marca fascista \u2013 compartilhada por Conte, acordou apenas em agosto \u2013\u00a0 abriu consultas para ver se no Parlamento havia uma maioria que apoia um novo governo.<\/p>\n<p>De um lado, ele encontrar\u00e1 Cinco Estrelas, aterrorizados pelo voto ap\u00f3s o desastre europeu e pronto para se aliar ao diabo, para conservar poder e os mandatos. Do outro, a extrema direita, determinada a ir \u00e0 vota\u00e7\u00e3o porque est\u00e3o convencidos de que t\u00eam o pa\u00eds em suas m\u00e3os. O Partido Democr\u00e1tico, um partido de direita: tolo servidor da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e rec\u00e9m sa\u00eddo dos desastres de Renzi, um verdadeiro inimigo dos trabalhadores e dos pobres. Dividido internamente, mas com um r\u00f3tulo \u00e0 esquerda \u2013 inventado por uma imprensa que na nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 quase inteira patronal \u2013 ser\u00e1 capaz de vender fuma\u00e7a e usar toda a arte italiana de\u00a0<i>mudar tudo de modo a n\u00e3o mudar nada.<\/i><\/p>\n<p>Se se votar, metade do pa\u00eds, sem representa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ir\u00e1 votar. Ven\u00e7a a direita parafascista de Di Maio ou o Partido Democr\u00e1tico de Renzi, que \u00e0s vezes \u00e9 mais parafascista que os salvianos, os pobres ser\u00e3o massacrados pelo neoliberalismo. Na melhor das hip\u00f3teses, se houver uma rea\u00e7\u00e3o, restar\u00e1 um novo referendo. A \u00fanica vantagem poss\u00edvel pode vir somente com o tempo, que ter\u00e1 dispon\u00edvel qui\u00e7a \u00e0 esquerda do PD na cria\u00e7\u00e3o de uma alternativa. Falamos de tempos estreitos, pequenas for\u00e7as como o Potere al Popolo e quem sabe, o que gira em torno de De Magistris. A crise institucional e econ\u00f4mica, no entanto, poderia atuar como um forte acelerador disso. Se, como \u00e9 evidente, o renascimento da esquerda \u00e9 uma necessidade da hist\u00f3ria, no fundo da horr\u00edvel escurid\u00e3o que nos cerca h\u00e1 uma pequena luz. Devemos ir a todo o custo nessa dire\u00e7\u00e3o, lembrando que h\u00e1 uma constante no caso humano: depois de todo inverno frio da hist\u00f3ria, as raz\u00f5es para a for\u00e7a bruta sempre deram lugar \u00e0 for\u00e7a das raz\u00f5es certas.<\/p>\n<p><b>EOL \u2013\u00a0 Estamos vendo nos \u00faltimos tempos o falecimento dos \u00faltimos partigiani italianos, como por exemplo, Liliana Pacini, Ugo Morchi e Emma Fighetti, esta \u00faltima a \u201ca costureira da resist\u00eancia\u201d que transformou seu ateli\u00ea em uma base para atividade antifacista. Na sua opini\u00e3o, como a gera\u00e7\u00e3o presente pode ser antifacista? Quais as principais li\u00e7\u00f5es que podemos apreender dos partigiani da Resist\u00eancia e como n\u00e3o ser indiferente?<\/b><\/p>\n<p>Acredito que nas profundezas da pessoa humana, o amor pela liberdade e um senso de dignidade encontram um lugar decisivo. N\u00e3o estamos cientes disso at\u00e9 que as circunst\u00e2ncias da vida nos levem a descobri-lo. O que acontece ao nosso redor hoje em dia \u00e9, de fato, um convite cont\u00ednuo e talvez irresist\u00edvel para lutar pela liberdade e pela dignidade, que \u00e9 defendida acima de tudo gra\u00e7as a um m\u00ednimo de independ\u00eancia econ\u00f4mica. Tenho outra profunda convic\u00e7\u00e3o: acredito que a hist\u00f3ria das lutas dos trabalhadores, do antifascismo e da resist\u00eancia, agora fazem parte do nosso DNA. Para que os jovens saiam da apatia da derrota e se rebelem contra a injusti\u00e7a, os idosos devem se tornar exemplos vivos do que aconteceu, das lutas que experimentaram, dos sonhos pelos quais lutaram. \u00c9 tarefa deles conectar o fio da mem\u00f3ria do passado \u00e0quele que leva ao futuro. O conhecimento \u00e9 em si mesmo um instrumento de luta e semente de revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em nome dessa cren\u00e7a, gostaria de encerrar esta entrevista e responder sua \u00faltima pergunta, usando as palavras escritas aos amigos de\u00a0<strong>Giacomo Ulivi,<\/strong>\u00a0um jovem partigiano italiano, antes de abordar o pelot\u00e3o de fuzilamento. Para mim, n\u00e3o se trata apenas de um testamento, mas um programa de luta:<\/p>\n<p>amigos,<br \/>\n<i><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazy alignleft wp-image-52334 lazy-loaded\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Giacomo_Ulivi-204x300.jpg?resize=120%2C176&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 120px) 100vw, 120px\" srcset=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Giacomo_Ulivi-204x300.jpg 204w, https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Giacomo_Ulivi.jpg 495w\" alt=\"\" width=\"120\" height=\"176\" data-lazy-type=\"image\" data-lazy-src=\"https:\/\/i0.wp.com\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Giacomo_Ulivi-204x300.jpg?ssl=1\" data-lazy-srcset=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Giacomo_Ulivi-204x300.jpg 204w, https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Giacomo_Ulivi.jpg 495w\" data-lazy-sizes=\"(max-width: 120px) 100vw, 120px\" \/>\u201c[\u2026] gostaria que, despreparados e sobrecarregados com erros recentes, pens\u00e1ssemos no fato de termos que refazer tudo. De casas a ferrovias, de portos a usinas el\u00e9tricas, de ind\u00fastrias a campos de trigo; quantos de n\u00f3s esperamos, no final dessas situa\u00e7\u00f5es, come\u00e7ar uma vida laboriosa e tranquila, dedicada \u00e0 fam\u00edlia e ao trabalho? Muito bem: \u00e9 um sentimento geral, generalizado e satisfat\u00f3rio. Mas nesta necessidade de sil\u00eancio \u00e9 a tentativa de fugir o m\u00e1ximo poss\u00edvel de qualquer manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 tremendo, o mais terr\u00edvel, [\u2026] de uma obra de educa\u00e7\u00e3o, deseduca\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o negativa de vinte anos, que martelando durante vinte anos por todos os lados conseguiu prejudicar muitos de n\u00f3s. [\u2026] Todos os dias eles nos disseram que a pol\u00edtica \u00e9 um trabalho de \u201cespecialistas\u201d. O trabalho duro, que tem suas necessidades: e essas necessidades, como todos os dias foram vistos, eram estranhamente semelhantes \u00e0quelas que subjazem ao trabalho de qualquer ladr\u00e3o. Teoria e pr\u00e1tica ajudaram a nos distrair e nos distanciar de qualquer atividade pol\u00edtica. Conveniente, n\u00e9? Deixe aqueles que podem e devem fazer isto; voc\u00ea trabalha e acredita, isto eles disseram: e o que eles viram agora, que na vida pol\u00edtica [\u2026] n\u00f3s fomos jogados fora pelos eventos. Aqui est\u00e1 nossa culpa, eu acredito: [\u2026] nos deixamos ser arrebatados de tudo, de uma minoria inadequada, moral e intelectualmente.<\/i><\/p>\n<blockquote><p><i>Pense que tudo aconteceu porque voc\u00ea n\u00e3o queria saber mais nada!<\/i><br \/>\n<i><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p><i>Isso nos roubou, jogado em uma aventura sem fim; e este \u00e9 o lado mais \u201crosado\u201d, creio eu; a m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que as palavras e atos dessa minoria afetaram a posi\u00e7\u00e3o moral, a mentalidade de muitos de n\u00f3s. [\u2026] Al\u00e9m de qualquer ret\u00f3rica, vemos como as \u201ccoisas p\u00fablicas\u201d s\u00e3o n\u00f3s mesmos, nossa fam\u00edlia, nosso trabalho, nosso mundo, enfim, que todo desastre nosso \u00e9 nosso desastre, pois agora sofremos da extrema mis\u00e9ria em que nosso pa\u00eds caiu: se tiv\u00e9ssemos sempre mantido isso em mente, como isso teria acontecido? [\u2026]<\/i><br \/>\n<i>Precisamente por isso, devemos trat\u00e1-lo diretamente, pessoalmente, como nosso trabalho mais delicado e importante. Porque se [\u2026] n\u00e3o o tratarmos completamente, especialmente hoje, a recupera\u00e7\u00e3o que esperamos, \u00e0 qual nos unimos firmemente, ser\u00e1 imposs\u00edvel. [\u2026] N\u00e3o, n\u00e3o diga que est\u00e1 desanimado, n\u00e3o quer mais saber. Pense que tudo aconteceu porque voc\u00ea n\u00e3o queria saber mais nada!\u201d.<\/i><\/p>\n<h4><strong>NOTAS<\/strong><\/h4>\n<p>1 \u2013 A palavra lazzaro \u00e9 de origem espanhola e inicialmente indicava o jovem plebeu napolitano que povoava o distrito de Mercato (uma zona em N\u00e1poles). Os lazzaros desempenharam um importante papel na revolta em 1647 por Masaniello. Em um sentido amplo, ele apontou para os miser\u00e1veis plebeus, que se posicionaram contra os revolucion\u00e1rios no ataque sanfedista \u00e0 Rep\u00fablica Partenop\u00e9ia, nascido em 1799.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"dxAtvcdYEf\"><p><a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/08\/23\/giuseppe-aragno-historiador-italiano-analisa-o-conceito-de-fascismo-e-as-semelhancas-entre-bolsonaro-e-salvini\/\">Giuseppe Aragno: historiador italiano analisa o conceito de fascismo e as semelhan\u00e7as entre Bolsonaro e Salvini<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Giuseppe Aragno: historiador italiano analisa o conceito de fascismo e as semelhan\u00e7as entre Bolsonaro e Salvini&#8221; &#8212; Esquerda Online\" src=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/08\/23\/giuseppe-aragno-historiador-italiano-analisa-o-conceito-de-fascismo-e-as-semelhancas-entre-bolsonaro-e-salvini\/embed\/#?secret=4Xeul6PAKj#?secret=dxAtvcdYEf\" data-secret=\"dxAtvcdYEf\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio Freitas &#8211; Nascido em N\u00e1poles, comunista libert\u00e1rio por convic\u00e7\u00e3o, professor e escritor, Giuseppe Aragno diz que \u201censina para viver, mas aprendeu e vive aprendendo\u201d. 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