{"id":11321,"date":"2019-08-19T13:10:31","date_gmt":"2019-08-19T16:10:31","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11321"},"modified":"2019-08-19T14:54:34","modified_gmt":"2019-08-19T17:54:34","slug":"super-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/19\/super-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global\/","title":{"rendered":"Super-ricos no Brasil lideram concentra\u00e7\u00e3o de renda global"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernando Canzian<\/strong> &#8211; Entre os pa\u00edses democr\u00e1ticos, nenhum outro tem maior ac\u00famulo de rendimentos no 1% do topo; privil\u00e9gios, escravid\u00e3o e patrimonialismo s\u00e3o vistos como causas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PGgVZAZJKwY?rel=0&amp;showinfo=0&amp;ecver=2&amp;enablejsapi=1&amp;origin=https%3A%2F%2Ftemas.folha.uol.com.br&amp;widgetid=1\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>O morro do Vidigal no Rio de Janeiro tem esse nome em mem\u00f3ria do major Miguel Nunes Vidigal (1745-1843), chefe da pol\u00edcia colonial no in\u00edcio do s\u00e9culo 19. Tido como cruel em seu tempo, era considerado o terror dos escravos fugidos e temido pela popula\u00e7\u00e3o pobre do Rio. Em 1820, Vidigal ganhou as terras no morro de monges beneditinos, que antes as haviam recebido de presente do visconde de Asseca, nobre de privil\u00e9gios e protegido pela coroa portuguesa.<\/p>\n<p>\u00c9 do alto de sua pequena casa no Vidigal que Wallace Guimar\u00e3es, 28, tem uma vis\u00e3o panor\u00e2mica da desigualdade brasileira.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7a por telhas velhas sobre casas prec\u00e1rias, &#8220;gatos&#8221; de energia e caixas d&#8217;\u00e1gua azuis, passa por cima de pr\u00e9dios, hot\u00e9is de luxo e pelas praias brancas do Leblon e de Ipanema at\u00e9 alcan\u00e7ar o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, no meio do caminho em dire\u00e7\u00e3o ao centro do Rio.<\/p>\n<p>Foi olhando para esse cen\u00e1rio que Guimar\u00e3es tentou melhorar sua posi\u00e7\u00e3o relativa h\u00e1 dois anos, investindo no Vidigal o maior dinheiro que j\u00e1 conseguiu juntar na vida: R$ 12 mil para abrir a primeira do que esperava ser uma rede de barbearias.<\/p>\n<p>Ganhando at\u00e9 R$ 2.000 por semana como uma esp\u00e9cie de &#8220;faz tudo&#8221; na produ\u00e7\u00e3o de filmes e comerciais de TV, ele abriu o neg\u00f3cio em 2017. O plano era aumentar a renda e tornar-se independente.<\/p>\n<p>&#8220;A gente via o pessoal saindo da classe D e indo para a C e pensava: &#8220;Uma hora sou eu&#8221;. E j\u00e1 estava melhor. Comia e bebia melhor, tinha planos de comprar um carro&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;De repente, bum! Veio essa crise. O trabalho parou, a barbearia n\u00e3o se pagou e terminei pior do que antes, quase sem trabalho e com d\u00edvidas.&#8221;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659152055d55f8457e061_1565915205_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659152345d55f86275f03_1565915234_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div class=\"f-mosaic f-mosaic-one\">\n<p><em>Wallace Guimar\u00e3es, 28, em sua casa no morro do Vidigal, no Rio; vista das praias do Leblon e de Ipanema a partir do morro do Vidigal<\/em><\/p>\n<p>Guimar\u00e3es at\u00e9 que foi longe, pois a maioria dos brasileiros, sobretudo os mais pobres, come\u00e7ou a naufragar antes na \u00faltima recess\u00e3o, que se estendeu do segundo trimestre de 2014 ao fim de 2016.<\/p>\n<p>Mas, ao final, ele tamb\u00e9m sucumbiu e acabou se juntando ao grupo que mais sofreu: os jovens, que perderam cerca de 15% de sua renda durante a crise.<\/p>\n<p>Na m\u00e9dia geral, a queda de rendimentos desde o fim de 2014 \u00e9 de 2,6%; e o pa\u00eds segue no negativo mesmo ap\u00f3s a lenta recupera\u00e7\u00e3o do \u00faltimo bi\u00eanio.<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"725px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" marginheight=\"0\" src=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/infografico4.html?initialWidth=730&amp;childId=infographic-1&amp;parentTitle=Super-ricos%20no%20Brasil%20lideram%20concentra%C3%A7%C3%A3o%20de%20renda%20global%20-%20Brasil%20-%20Desigualdade%20global%20-%20Folha%20de%20S.Paulo&amp;parentUrl=https%3A%2F%2Ftemas.folha.uol.com.br%2Fdesigualdade-global%2Fbrasil%2Fsuper-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global.shtml\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8220;Foi um tombo que levou a economia a perder ainda mais a sua for\u00e7a, pois s\u00e3o os mais pobres que consomem grande parte de sua renda&#8221;, diz Marcelo Neri, diretor do FGV Social, que analisa esses dados.<\/p>\n<p>Mas a crise acentuada nos estratos mais pobres, e em regi\u00f5es como Norte e Nordeste, n\u00e3o levou s\u00f3 \u00e0 queda dos rendimentos e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Ela provocou tamb\u00e9m um aumento da desigualdade de renda por mais de quatro anos consecutivos (17 trimestres). Foi algo que n\u00e3o ocorreu nem no per\u00edodo anterior a 1989, ano de desigualdade recorde.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659150725d55f7c01056b_1565915072_3x2_md.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Moradores caminham por passarela em frente \u00e0 favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro<\/em><\/p>\n<p>Dados do FGV Social d\u00e3o a dimens\u00e3o da piora na concentra\u00e7\u00e3o: do fim de 2014 a junho deste ano, a renda per capita do trabalho dos 10% mais ricos subiu 2,5% acima da infla\u00e7\u00e3o; e a do 1% mais rico, 10,1%.<\/p>\n<p>J\u00e1 o rendimento dos 50% mais pobres despencou 17,1%; e dos 40% &#8220;do meio&#8221; (a classe m\u00e9dia entre os mais ricos e os mais pobres), caiu 4,2%.<\/p>\n<p>Isso levou o \u00edndice de Gini a 0,629, muito pr\u00f3ximo ao recorde da s\u00e9rie desde 2012 (medido de 0 a 1, quanto mais perto de 1, pior a desigualdade).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"357px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" marginheight=\"0\" src=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/infografico3.html?initialWidth=730&amp;childId=infographic-2&amp;parentTitle=Super-ricos%20no%20Brasil%20lideram%20concentra%C3%A7%C3%A3o%20de%20renda%20global%20-%20Brasil%20-%20Desigualdade%20global%20-%20Folha%20de%20S.Paulo&amp;parentUrl=https%3A%2F%2Ftemas.folha.uol.com.br%2Fdesigualdade-global%2Fbrasil%2Fsuper-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global.shtml\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Segundo o Relat\u00f3rio da Desigualdade Global, da Escola de Economia de Paris, o Brasil \u00e9 hoje o pa\u00eds democr\u00e1tico que mais concentra renda no 1% do topo da pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>S\u00f3 o Qatar, emirado \u00e1rabe absolutista de 2,6 milh\u00f5es de habitantes e governado pela mesma dinastia desde meados do s\u00e9culo 19, supera, por pouco, o Brasil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"254px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" marginheight=\"0\" src=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/infografico2.html?initialWidth=730&amp;childId=infographic-3&amp;parentTitle=Super-ricos%20no%20Brasil%20lideram%20concentra%C3%A7%C3%A3o%20de%20renda%20global%20-%20Brasil%20-%20Desigualdade%20global%20-%20Folha%20de%20S.Paulo&amp;parentUrl=https%3A%2F%2Ftemas.folha.uol.com.br%2Fdesigualdade-global%2Fbrasil%2Fsuper-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global.shtml\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>A partir de dados que combinam pesquisas domiciliares, contas nacionais e declara\u00e7\u00f5es de imposto de renda, o relat\u00f3rio mostra que esse 1% super-rico (cerca de 1,4 milh\u00e3o de adultos) captura 28,3% dos rendimentos brutos totais e recebe individualmente, em m\u00e9dia, R$ 140 mil por m\u00eas pelo conjunto de todas as suas rendas.<\/p>\n<p>Como compara\u00e7\u00e3o, os 50% mais pobres (71,2 milh\u00f5es com renda m\u00e9dia de R$ 1.200) ficam com 13,9% do conjunto de todos os rendimentos, menos da metade do que \u00e9 recebido pelo 1% no topo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"592px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" marginheight=\"0\" src=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/infografico1.html?initialWidth=730&amp;childId=infographic-4&amp;parentTitle=Super-ricos%20no%20Brasil%20lideram%20concentra%C3%A7%C3%A3o%20de%20renda%20global%20-%20Brasil%20-%20Desigualdade%20global%20-%20Folha%20de%20S.Paulo&amp;parentUrl=https%3A%2F%2Ftemas.folha.uol.com.br%2Fdesigualdade-global%2Fbrasil%2Fsuper-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global.shtml\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Mesmo considerando os 10% mais ricos, o Brasil empata com a \u00cdndia e s\u00f3 perde para a \u00c1frica do Sul no ranking dos mais desiguais. Os cerca de 14,2 milh\u00f5es de adultos nesse decil t\u00eam renda m\u00e9dia de R$ 28,5 mil e capturam 55,5% dos rendimentos totais.<\/p>\n<p>Depois do Brasil e do Qatar, onde o 1% det\u00e9m 29% da renda, pa\u00edses com forte ac\u00famulo no topo s\u00e3o Chile (modelo liberal para muitos e proporcionalmente mais rico que o Brasil), L\u00edbano, Emirados \u00c1rabes e Iraque.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/19\/15662232475d5aab8fa3dc5_1566223247_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Em S\u00e3o Paulo, visitantes em feira de avia\u00e7\u00e3o executiva, setor em que o Brasil tem a segunda maior frota do mundo, s\u00f3 atr\u00e1s dos EUA<\/em><\/p>\n<p>Segundo Marc Morgan, que analisa dados do Brasil no relat\u00f3rio, enquanto os mais ricos no pa\u00eds expandiram a renda no per\u00edodo favor\u00e1vel de 2001 a 2015 e os 50% mais pobres tamb\u00e9m tiveram ganhos, a classe m\u00e9dia (os 40% &#8220;do meio&#8221;) perdeu participa\u00e7\u00e3o nos rendimentos totais, de 33,1% para 30,6%.<\/p>\n<p>Assim, o Brasil seguiu tend\u00eancia parecida \u00e0 dos demais pa\u00edses do Ocidente, onde as classes m\u00e9dias perderam terreno, entre outros motivos, porque a \u00c1sia ascendeu empregando m\u00e3o de obra barata na produ\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>De uma forma geral, os muito ricos no Brasil continuaram acumulando ganhos elevados, sobretudo de capital. E as faixas mais pobres progrediram com o aumento da atividade em setores n\u00e3o industriais, menos especializados e que empregam muita gente, como constru\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>No miolo, a classe m\u00e9dia foi comprimida, entre outros fatores, pelo encolhimento da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, cuja participa\u00e7\u00e3o no PIB caiu \u00e0 metade nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, para cerca de 12%.<\/p>\n<p>Desde 2001, segundo o relat\u00f3rio, enquanto a metade mais pobre do Brasil obteve um aumento de 71,5% em sua renda, e os 10% mais ricos, de 60%, a classe m\u00e9dia (os 40% &#8220;do meio&#8221;) viu seus rendimentos crescerem menos: 44%.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"524px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" marginheight=\"0\" src=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/infografico5.html?initialWidth=730&amp;childId=infographic-5&amp;parentTitle=Super-ricos%20no%20Brasil%20lideram%20concentra%C3%A7%C3%A3o%20de%20renda%20global%20-%20Brasil%20-%20Desigualdade%20global%20-%20Folha%20de%20S.Paulo&amp;parentUrl=https%3A%2F%2Ftemas.folha.uol.com.br%2Fdesigualdade-global%2Fbrasil%2Fsuper-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global.shtml\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Morgan avalia que o mesmo fen\u00f4meno de &#8220;compress\u00e3o&#8221; da classe m\u00e9dia que favoreceu Donald Trump nos EUA, a direita na Europa e que levou o Reino Unido ao brexit tenha ajudado tamb\u00e9m na elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro no Brasil em 2018\u00a0com a ajuda extra do discurso anticorrup\u00e7\u00e3o e anti-PT que empurrou o eleitorado para a direita.<\/p>\n<p>&#8220;O Brasil criou uma linha bastante dividida entre aqueles que ganharam mais e votaram no PT e essa classe m\u00e9dia espremida que perdeu terreno nos n\u00edveis mais altos da distribui\u00e7\u00e3o de renda&#8221;, diz Morgan.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/19\/15662275245d5abc449211f_1566227524_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659148765d55f6fc7b8db_1565914876_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659143995d55f51f4e7d2_1565914399_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>O paulistano H\u00e9lio Hon\u00f3rio, 60, \u00e9 um exemplo radical dessa precariza\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia que, assim como em outros pa\u00edses, perdeu espa\u00e7o para os asi\u00e1ticos.<\/em><\/p>\n<p>Pobre na juventude, Hon\u00f3rio conseguiu montar uma pequena f\u00e1brica de bolsas em S\u00e3o Paulo que chegou a empregar 22 funcion\u00e1rios at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 2000.<\/p>\n<p>&#8220;Mas a\u00ed come\u00e7aram a entrar os importados, e coisa desmoronou. O pre\u00e7o deles nas lojas era o meu de custo&#8221;, lembra. &#8220;Tudo da China, que quebrou quase todo mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Para se adaptar, ele mesmo passou a vender produtos importados da \u00c1sia na rua 25 de Mar\u00e7o, com os quais chegava a faturar cerca de R$ 2.000 em dias muito bons.<\/p>\n<p>&#8220;Mudei para um apartamento de tr\u00eas dormit\u00f3rios e entrei no financiamento de dois carros. Vivia bem, viajava, comia fora. Mas a\u00ed veio a crise, e tudo foi se perdendo.&#8221;<\/p>\n<p>Em 2011, j\u00e1 havia se mudado com a mulher para uma quitinete em um bairro popular no centro. Alvo de agiotas, sua companheira se endividou e ele acabou perdendo tudo: o pouco capital que tinha e o neg\u00f3cio no maior centro de com\u00e9rcio popular da cidade.<\/p>\n<p>Hoje, ele trabalha como camel\u00f4 em uma esquina na Vila Ol\u00edmpia onde consegue tirar menos de R$ 2.000 limpos por m\u00eas. Separado da mulher, aluga um quarto na favela da Funchal, um conjunto prec\u00e1rio de casas de madeirite espremido entre pr\u00e9dios luxuosos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/mapa-sp.png?w=640\" \/><\/p>\n<p>Como camel\u00f4, Hon\u00f3rio integra o grupo de atividade que mais cresceu durante a crise: os trabalhadores por conta pr\u00f3pria j\u00e1 s\u00e3o 24,1 milh\u00f5es dos 93,3 milh\u00f5es de ocupados.<\/p>\n<p>S\u00e3o eles que contribuem para que n\u00e3o seja ainda mais elevada a taxa de desemprego de 12% em um pa\u00eds com 12,8 milh\u00f5es de pessoas sem trabalho\u00a03,3 milh\u00f5es delas buscando alguma ocupa\u00e7\u00e3o h\u00e1 pelo menos dois anos.<\/p>\n<p>Apesar de sua decad\u00eancia, Hon\u00f3rio at\u00e9 que conseguiu manter um rendimento exclusivo do trabalho pr\u00f3ximo da m\u00e9dia dos brasileiros, algo que n\u00e3o foi poss\u00edvel aos milh\u00f5es que afundaram na crise.<\/p>\n<p>Segundo dados do FGV Social, o total de pessoas que cruzaram a linha da extrema pobreza desde 2014, passando a viver com menos de R$ 232 por m\u00eas, cresceu 33%.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/19\/15662266845d5ab8fc6dfaa_1566226684_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Mulher joga t\u00eanis em condom\u00ednio com piscina vizinho \u00e0 favela de Parais\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo, uma das maiores comunidades pobres da cidade<\/em><\/p>\n<p>Somadas, s\u00e3o 6,3 milh\u00f5es de pessoas, o que elevou a 23,3 milh\u00f5es o total de miser\u00e1veis no pa\u00eds\u00a0o equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da Austr\u00e1lia e a 11% da brasileira.<\/p>\n<p>H\u00e9lio Hon\u00f3rio em S\u00e3o Paulo e Wallace Guimar\u00e3es no Rio s\u00e3o exemplos de pessoas que Fernando Burgos, professor da escola de administra\u00e7\u00e3o da FGV-SP, considera terem passado pelo que ele chama de &#8220;porta girat\u00f3ria&#8221; da desigualdade brasileira.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 como se eles tivessem entrado por essa porta, visto o sagu\u00e3o do hotel e sentido o ar condicionado. S\u00f3 que a porta continuou girando e eles acabaram saindo novamente.&#8221;<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Burgos, apesar do aumento da renda dos mais pobres nos anos 2000 e da redu\u00e7\u00e3o da pobreza ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, as pol\u00edticas sociais e as condi\u00e7\u00f5es macroecon\u00f4micas do pa\u00eds n\u00e3o atacaram o que ele chama de &#8220;outras dimens\u00f5es da pobreza&#8221;, de car\u00e1ter estrutural.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Brasil continuaria sendo um pa\u00eds com barreiras hist\u00f3ricas e dif\u00edceis de romper que limitam a melhora das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dos mais pobres\u00a0e com baix\u00edssima mobilidade social.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu dissesse: &#8220;Vamos desenhar um pa\u00eds que vai ter uma desigualdade muito grande, extrema, e que voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir mudar isso facilmente&#8221;, n\u00e3o poderia ter pensado em nada melhor do que o Brasil&#8221;, diz Naercio Menezes, coordenador do Centro de Pol\u00edticas P\u00fablicas do Insper.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de alta, a desigualdade no Brasil seria persistente e presa a um &#8220;c\u00edrculo vicioso&#8221; que come\u00e7a no nascimento.<\/p>\n<p>&#8220;Quem nasce pobre parte de um ambiente desfavor\u00e1vel, sem saneamento, com v\u00e1rias crian\u00e7as na mis\u00e9ria e com pais que n\u00e3o t\u00eam a educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para saber o que \u00e9 importante&#8221;, diz Menezes.<\/p>\n<p>&#8220;Depois, acaba em um escola p\u00fablica ineficiente, com problemas s\u00e9rios de gest\u00e3o e viol\u00eancia. E quando atinge o ensino m\u00e9dio, vai direto para o mercado de trabalho, o que n\u00e3o significa sempre um emprego formal&#8221;, resume.<\/p>\n<p>Foi esse o caso de Wilton da Cruz, 24, entrevistado pela\u00a0<b>Folha<\/b>\u00a0durante ato em apoio ao presidente Jair Bolsonaro na avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Depois de terminar o ensino m\u00e9dio em 2012, ele n\u00e3o teve a chance at\u00e9 agora, &#8220;por quest\u00f5es financeiras&#8221;, de ingressar em uma faculdade.<\/p>\n<p>Mas, a partir dos 16 anos, j\u00e1 trabalhou como vendedor, entregador de panfletos em troca de R$ 20 ao dia e, mais recentemente, na \u00e1rea de telemarketing. Agora, est\u00e1 desempregado h\u00e1 um ano, mesmo tendo terminado um curso t\u00e9cnico na \u00e1rea de pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o cursar uma faculdade, Cruz ter\u00e1 sua renda limitada no futuro, pois uma gradua\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria costuma gerar o dobro da renda na compara\u00e7\u00e3o com quem tem s\u00f3 um ensino m\u00e9dio t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que, entre o in\u00edcio dos anos 2000 e 2018, o total de brasileiros com ensino superior passou de 7% para 17%, muitos deles negros que ingressaram na faculdade por meio de cotas.<\/p>\n<p>Numa eventual recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, eles tendem a se sair melhor e a ganhar mais.<\/p>\n<p>Mas, diferentemente de outros pa\u00edses do Ocidente, onde a desigualdade cresce por mudan\u00e7as em estruturas produtivas, o Brasil tamb\u00e9m teria, segundo especialistas, muitos privil\u00e9gios a minorias pagos com dinheiro p\u00fablico e um alto \u00edndice de corrup\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de problemas &#8220;de partida&#8221;.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/19\/15662268005d5ab970c7e68_1566226800_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/19\/15662266475d5ab8d70d073_1566226647_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Vista a\u00e9rea da favela de Parais\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo; abaixo, janela de guarita instalada em muro de mans\u00e3o no Morumbi, bairro de alto padr\u00e3o vizinho \u00e0 comunidade<\/em><\/p>\n<p>Isso incluiria a heran\u00e7a escravocrata, que ainda mant\u00e9m os negros nas camadas socioecon\u00f4micas inferiores; mandonismos regionais; o patrimonialismo que se apodera de recursos estatais ou emprega protegidos no setor p\u00fablico; pol\u00edticas sociais destinadas a quem menos precisa; e estrutura tribut\u00e1ria regressiva que cobra proporcionalmente mais impostos de quem ganha menos.<\/p>\n<p>Ainda na economia, h\u00e1 pouqu\u00edssima abertura comercial (o pa\u00eds participa com 1,2% do com\u00e9rcio global) e competi\u00e7\u00e3o limitada entre empresas, muitas envolvidas em corrup\u00e7\u00e3o\u00a0s\u00f3 crimes denunciados na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato somam R$ 6,4 bilh\u00f5es em propinas.<\/p>\n<p>Para a historiadora Lilia Schwarcz, autora de &#8220;Brasil: uma biografia&#8221; (com Heloisa Starling), al\u00e9m de ter sido destino de quase a metade dos 12 milh\u00f5es de negros que sa\u00edram da \u00c1frica escravizados entre os s\u00e9culos 16 e 19 e de ter sido o \u00faltimo pa\u00eds a abolir a escravid\u00e3o nas Am\u00e9ricas, em 1888, o Brasil n\u00e3o teve pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o para os libertos.<\/p>\n<p>O fato contribuiria at\u00e9 hoje para a manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade. Representando mais da metade da popula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, apenas 40,3% dos pretos e pardos maiores de 25 anos, por exemplo, chegaram ao fim do ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8220;Fomos tamb\u00e9m uma col\u00f4nia de explora\u00e7\u00e3o, com uma l\u00f3gica econ\u00f4mica dada pela realidade e demanda externas. Assim, constitu\u00edmos um pa\u00eds de grandes propriedades e mandonismos presentes at\u00e9 hoje&#8221;, diz Lilia Schwarcz.<\/p>\n<p>Exemplo do peso desse passado, Luiza de Marillac Ferreira, 52, \u00e9 neta de uma negra filha de escravos e de um portugu\u00eas e mora no mesmo local em que o casal de av\u00f3s se estabeleceu h\u00e1 muitas d\u00e9cadas na comunidade do Po\u00e7o da Draga, no Cear\u00e1.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659144285d55f53cb4774_1565914428_3x2_md.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659149325d55f7347d3bb_1565914932_3x2_md.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Luiza de Marillac, 52, que mora no mesmo local em que o casal de av\u00f3s se estabeleceu na comunidade de Po\u00e7o da Draga, em Fortaleza, no Cear\u00e1; abaixo, fotos das formaturas dos filhos em sua casa<\/em><\/p>\n<p>Antiga vila de pescadores e estivadores, a \u00e1rea \u00e9 uma ilha de pobreza sem equipamentos p\u00fablicos e saneamento, mas cercada de empresas e bares perto da famosa praia de Iracema, em Fortaleza.<\/p>\n<p>Ali, Marillac \u00e9 mais uma das que passaram pela &#8220;porta girat\u00f3ria&#8221; da desigualdade.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/mapa-ce.png?w=640\" \/><\/p>\n<p>Em 2002, ela fez um curso de enfermagem e conseguiu dois empregos. Junto com o marido pedreiro, chegaram a ganhar R$ 3.000 mensais.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, comprou v\u00e1rios eletrodom\u00e9sticos e investiu na educa\u00e7\u00e3o dos quatro filhos, tr\u00eas dos quais foram beneficiados por programas federais.<\/p>\n<p>Em 2008, Marillac perdeu um dos trabalhos. Em 2014, o outro. Em 2015, foi a vez do marido ficar sem emprego.<\/p>\n<p>&#8220;Passei a vender lanche na constru\u00e7\u00e3o civil, mas n\u00e3o dava. Precisei de ajuda da minha m\u00e3e, que recebia um sal\u00e1rio de aposentadoria&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Hoje, duas de suas filhas conseguiram sair do pa\u00eds e a fam\u00edlia vive com R$ 1.072 que Marillac recebe como articuladora comunit\u00e1ria da Prefeitura de Fortaleza.<\/p>\n<p>Muito em fun\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a hist\u00f3rica, ainda s\u00e3o os estados pobres do Nordeste os que concentram as maiores desigualdades, o maior percentual de negros, alguns dos maiores latif\u00fandios e os piores empregos do pa\u00eds.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659152855d55f89539e33_1565915285_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659144725d55f5680c9e6_1565914472_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659149805d55f76437ba7_1565914980_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659144885d55f5788c9c0_1565914488_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659147915d55f6a77285b_1565914791_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>J\u00e1 o patrimonialismo concentrador de renda teria v\u00e1rias vertentes: sal\u00e1rios e pens\u00f5es elevadas de servidores; R$ 376 bilh\u00f5es em ren\u00fancias fiscais e subs\u00eddios a setores empresariais s\u00f3 neste ano; fundos de pens\u00e3o estatais que financiam projetos inadequados; e at\u00e9 recursos para universidades p\u00fablicas em detrimento do ensino b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Na m\u00e9dia do Brasil, os sal\u00e1rios no setor p\u00fablico s\u00e3o bem maiores do que os pagos em fun\u00e7\u00f5es correspondentes na iniciativa privada. Em Bras\u00edlia, no Distrito Federal, onde se concentra o maior n\u00famero de servidores, ganha-se, na m\u00e9dia geral, 92% a mais do que no resto do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para o economista Cl\u00e1udio Hamilton dos Santos, a diferen\u00e7a revela a &#8220;desconex\u00e3o&#8221; de Bras\u00edlia com o Brasil.<\/p>\n<p>Segundo ele, a proximidade dos servidores federais com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica em Bras\u00edlia aumenta o poder de barganha desse grupo na obten\u00e7\u00e3o de aumentos, privil\u00e9gios e aposentadorias quase sempre superiores ao teto de R$ 5.839,45 no setor privado.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o pagos sobretudo por meio da transfer\u00eancia anual de R$ 14 bilh\u00f5es da Uni\u00e3o para o Governo do Distrito Federal.<\/p>\n<p>Equivalente a quase a metade da verba anual do Bolsa Fam\u00edlia e a mais do que a receita l\u00edquida individual de 14 estados, 90% desse dinheiro \u00e9 gasto s\u00f3 com pessoal.<\/p>\n<p>Assim, a comunidade Sol Nascente, em Ceil\u00e2ndia, a menos de 30 km da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, poderia ser considerada um \u00edcone da desigualdade brasileira com seus 120 mil habitantes muito pr\u00f3ximos da zona de maior remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia do pa\u00eds, o Governo do Distrito Federal.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659144525d55f55441906_1565914452_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659150245d55f790d5d99_1565915024_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Catadores de lixo na comunidade Sol Nascente, no Distrito Federal, e pr\u00e9dio p\u00fablico em Bras\u00edlia, onde servidores t\u00eam rendimentos maiores do que a m\u00e9dia nacional<\/em><\/p>\n<p>Ali quase n\u00e3o existem equipamentos p\u00fablicos como escolas e delegacias, grande parte das casas n\u00e3o tem esgoto ou \u00e1gua encanada e muitas das ruas s\u00e3o de terra, com sujeira espalhada devido \u00e0 precariedade na coleta de lixo.<\/p>\n<p>Sem outra op\u00e7\u00e3o de moradia, foi no Sol Nascente que Marc\u00edlio Sales, 49, conseguiu se estabelecer quando chegou a Bras\u00edlia, em 1997, fugindo da seca e da atividade rural no Piau\u00ed.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/desigualdade-global\/pt\/brasil\/mapa-df.png?w=640\" \/><\/p>\n<p>Trabalhando com artesanato no in\u00edcio, ele acabou empregado em uma empresa de manuten\u00e7\u00e3o e limpeza terceirizada pela Universidade de Bras\u00edlia, onde conseguiu aprender a ler e a escrever em um programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o sal\u00e1rio de R$ 900 e outros bicos, comprou um terreno na comunidade em que ergueu sua casa. Primeiro de madeirite; depois, de tijolos.<\/p>\n<p>Mas em 2017 Sales foi demitido, ap\u00f3s 20 anos de trabalho na universidade. &#8220;De l\u00e1 para c\u00e1, n\u00e3o apareceu mais nada.&#8221;<\/p>\n<p>Sem o sal\u00e1rio, parte das atividades de um projeto que ele havia criado para dar aulas de refor\u00e7o a crian\u00e7as e para capacitar m\u00e3es em costura foi suspenso, o que ajudou a piorar a situa\u00e7\u00e3o da comunidade.<\/p>\n<p>&#8220;Sem minha renda, tudo caiu: eu, o projeto, tudo. Estamos passando um sufoco danado&#8221;, diz Sales, que n\u00e3o recebe atualmente nenhum benef\u00edcio social do Estado.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659148375d55f6d545cfd_1565914837_3x2_md.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659145345d55f5a65c9b2_1565914534_3x2_md.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Marc\u00edlio Sales, 49, que se estabeleceu no Sol Nascente em 1997 ao deixar a atividade rural no Piau\u00ed<\/em><\/p>\n<p>Para o economista-chefe do Instituto Ayrton Senna, Ricardo Paes de Barros, n\u00e3o \u00e9 pouco o que o Brasil gasta em suas v\u00e1rias pol\u00edticas sociais. O problema, argumenta, \u00e9 como o dinheiro \u00e9 utilizado.<\/p>\n<p>&#8220;O Brasil construiu uma rede de prote\u00e7\u00e3o social gigante. Mas gastamos dinheiro demais com transfer\u00eancias em diversos programas e de menos com igualdade de oportunidades para que todos partam do mesmo ponto&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;A coisa mais inteligente a fazer seria juntar tudo isso em uma \u00fanica rede de prote\u00e7\u00e3o social em vez de ter um amontoado de programas.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo dados do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o Brasil gasta hoje na \u00e1rea social o equivalente a cerca de 25% do PIB. Na Am\u00e9rica Latina, o pa\u00eds s\u00f3 perde para a Argentina nesse quesito.<\/p>\n<p>O gasto brasileiro, por\u00e9m, \u00e9 de pior qualidade, sobretudo devido a despesas previdenci\u00e1rias que contribuem para concentrar a renda. Segundo o \u00f3rg\u00e3o, o Brasil gasta sete vez mais com seus idosos do que com os jovens\u00a0ante quatro vezes na m\u00e9dia da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O BID considera que nada menos do que 75% das transfer\u00eancias p\u00fablicas no Brasil podem ser classificadas como &#8220;pr\u00f3-ricos&#8221;, passando longe do objetivo ideal de equalizar as chances &#8220;de partida&#8221; das crian\u00e7as e dos mais jovens.<\/p>\n<p>Para o organismo internacional, o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 hoje disparado o melhor e mais efetivo programa de combate \u00e0 pobreza e de distribui\u00e7\u00e3o de renda do pa\u00eds.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659148195d55f6c394d8d_1565914819_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659151245d55f7f49e2cb_1565915124_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659151575d55f8151401c_1565915157_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Dos 70 milh\u00f5es de domic\u00edlios brasileiros, 9,5 milh\u00f5es s\u00e3o atendidos pelo programa, que conta com or\u00e7amento anual de R$ 31 bilh\u00f5es, o equivalente a menos de um d\u00e9cimo dos incentivos fiscais concedidos a v\u00e1rios setores empresariais.<\/em><\/p>\n<p>No total, s\u00e3o 14 milh\u00f5es de mulheres (metade no Nordeste) que recebem, em m\u00e9dia, R$ 186 mensais com a contrapartida de manter os filhos na escola e lev\u00e1-los a postos de sa\u00fade\u00a0dois dos fatores considerados fundamentais para combater a desigualdade &#8220;na partida&#8221; da vida.<\/p>\n<p>Para o economista e ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 um programa &#8220;fant\u00e1stico&#8221;. Por outro lado, diz, al\u00e9m de insuficiente para tirar as pessoas de um n\u00edvel de renda muito baixo, ele acabou concentrado nas m\u00e3os de l\u00edderes em Bras\u00edlia que podem us\u00e1-lo politicamente em ciclos eleitorais.<\/p>\n<p>Para a maioria dos especialistas, o crucial para o combate sustent\u00e1vel \u00e0 desigualdade seria tamb\u00e9m o Brasil voltar a crescer, at\u00e9 para poder continuar financiando ou ampliar programas de distribui\u00e7\u00e3o de recursos como o Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Assim como ocorreu nos anos 2000, o crescimento voltaria tamb\u00e9m a viabilizar a ascens\u00e3o social via trabalho.<\/p>\n<p>Entre 2004 a 2014, segundo dados do FGV Social e do IBGE, quase 80% do aumento da renda dos brasileiros veio de mais e melhores empregos.<\/p>\n<p>Ao final daquele ciclo, a partir do bi\u00eanio 2015-2016, quando o desemprego subiu, 4,1 milh\u00f5es de fam\u00edlias ca\u00edram para as classes D e E, ficando abaixo de um teto de renda mensal de R$ 2.370, segundo a consultoria Tend\u00eancias.<\/p>\n<p>Isso anulou rapidamente quase toda a ascens\u00e3o social registrada entre 2005 e 2012, quando o aumento dos rendimentos tirou 3,3 milh\u00f5es de fam\u00edlias da base da pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>Com a volta do crescimento econ\u00f4mico, mesmo que moderado, quase 4 milh\u00f5es de fam\u00edlias poderiam voltar a ascender \u00e0s classes C, B e A at\u00e9 2022. E voltar a representar quase a metade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2019\/08\/15\/15659147505d55f67e758bb_1565914750_3x2_rt.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>Pertences de moradores de rua no centro de S\u00e3o Paulo embaixo de viaduto grafitado com Donald Trump brincando de marionete com Jair Bolsonaro<\/p>\n<p>https:\/\/temas.folha.uol.com.br\/desigualdade-global\/brasil\/super-ricos-no-brasil-lideram-concentracao-de-renda-global.shtml<\/p><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Canzian &#8211; Entre os pa\u00edses democr\u00e1ticos, nenhum outro tem maior ac\u00famulo de rendimentos no 1% do topo; privil\u00e9gios, escravid\u00e3o e patrimonialismo s\u00e3o vistos como causas. O morro do Vidigal no Rio de Janeiro tem esse nome em mem\u00f3ria do major Miguel Nunes Vidigal (1745-1843), chefe da pol\u00edcia colonial no in\u00edcio do s\u00e9culo 19. 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