{"id":113,"date":"2016-04-28T12:01:16","date_gmt":"2016-04-28T15:01:16","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=113"},"modified":"2016-04-27T10:05:58","modified_gmt":"2016-04-27T13:05:58","slug":"ilusoes-progressistas-devoradas-pela-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/04\/28\/ilusoes-progressistas-devoradas-pela-crise\/","title":{"rendered":"Ilus\u00f5es progressistas devoradas pela crise"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jorge Beinstein<\/strong> &#8211; A conjuntura global \u00e9 marcada por uma crise deflacion\u00e1ria motorizada pela grandes pot\u00eancias. A queda dos pre\u00e7os das commodities, cujo aspecto mais saliente foi, desde meados de 2014, o das cota\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, revela o desinchar da procura internacional enquanto ao mesmo tempo estanca-se a onda financeira, muleta estrat\u00e9gica do sistema durante as \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. A crise da financiariza\u00e7\u00e3o da economia mundial vai entrando de maneira zigzagueante numa zona de depress\u00e3o. As principais economias capitalistas tradicionais crescem pouco ou nada [1] e a China desacelera rapidamente. Frente a isto o ocidente recorre ao seu \u00faltimo recurso: o aparelho de interven\u00e7\u00e3o militar integrando componentes armados profissionais e mercen\u00e1rios, medi\u00e1ticos e mafiosos, articulados como &#8220;Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o&#8221; destinada a destruir sociedades perif\u00e9ricas para convert\u00ea-las em zonas de saqueios. \u00c9 a radicaliza\u00e7\u00e3o de um fen\u00f3meno de longa dura\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia sist\u00e9mica onde o parasitismo financeiro e militar foi-se convertendo no centro hegem\u00f3nico do ocidente.<\/p>\n<p>N\u00e3o presenciamos a &#8220;recomposi\u00e7\u00e3o&#8221; pol\u00edtica-econ\u00f3mica-militar do sistema, tal como se verificou com a reconvers\u00e3o keynesiana (militarizada) dos anos 1940 e 1950, e sim a sua degrada\u00e7\u00e3o geral. A muta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria do capitalismo converte-o num sistema de destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas, do meio ambiente e de estruturas institucionais onde as velhas burguesias v\u00e3o-se transformando em c\u00edrculos de bandidos, nova ascens\u00e3o planet\u00e1ria de lumpen-burguesias centrais e perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p><strong>O decl\u00ednio do progressismo<\/strong><\/p>\n<p>Imersa neste mundo desdobra-se a conjuntura latino-americana onde convergem dois factos not\u00e1veis: o decl\u00ednio das experi\u00eancias progressistas e a prolonga degrada\u00e7\u00e3o do neoliberalismo que as antecedeu e as acompanhou a partir de pa\u00edses que n\u00e3o entraram nessa corrente, da qual agora esse neoliberalismo degradado surge como o sucessor.<\/p>\n<p>Os progressismos latino-americanos instalaram-se em cima da base dos desgastes, e em certos casos da crise, dos regimes neoliberais. E quando chegaram ao governo os bons pre\u00e7os internacionais das mat\u00e9rias-primas, somados a pol\u00edticas de expans\u00e3o dos mercados internos, puderam recompor a governabilidade.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o progressista apoiou-se em duas impot\u00eancias. A das direitas que n\u00e3o podiam assegurar a governabilidade, em alguns casos colapsadas (Bol\u00edvia em 2005, Argentina em 2001-2002, Equador em 2006, Venezuela em 1998) ou gravemente deterioradas em outros casos (Brasil, Uruguai, Paraguai). A outra impot\u00eancia foi a das bases populares que derrubaram governos, desgastaram regimes, mas que inclusive nos processos mais radicalizados n\u00e3o puderam impor revolu\u00e7\u00f5es, transforma\u00e7\u00f5es que fossem mais al\u00e9m da reprodu\u00e7\u00e3o das estruturas de domina\u00e7\u00e3o existentes.<\/p>\n<p>Nos casos da Bol\u00edvia e Venezuela os discursos revolucion\u00e1rios foram acompanhados de pr\u00e1ticas reformistas praguejadas de contradi\u00e7\u00f5es, anunciavam-se grandes transforma\u00e7\u00f5es mas as iniciativas embrulhavam-se em infinitas idas e vindas, amea\u00e7as, desacelera\u00e7\u00f5es &#8220;realistas&#8221; e outras ast\u00facias que exprimiam o temor profundo a saltar as valas do capitalismo. Isso n\u00e3o s\u00f3 possibilitou a recomposi\u00e7\u00e3o das direitas como tamb\u00e9m a prolifera\u00e7\u00e3o a n\u00edvel estatal de podrid\u00f5es de todo tipo, grandes e pequenas corrup\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Venezuela surge como o caso mais evidente de mistura de discursos revolucion\u00e1rios, desordem operacional, transforma\u00e7\u00f5es a meio caminho e auto-bloqueios ideol\u00f3gicos conservadores. N\u00e3o se conseguiu encaminhar a transi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria proclamada (muito pelo contr\u00e1rio) ainda que se tenha conseguido tornar ca\u00f3tico o funcionamento de um capitalismo estigmatizado mas de p\u00e9. Obviamente os Estados Unidos promovem e aproveitam esta situa\u00e7\u00e3o para avan\u00e7ar na sua estrat\u00e9gia de reconquista do pa\u00eds. O resultado \u00e9 uma recess\u00e3o cada vez mais grave, uma infla\u00e7\u00e3o descontrolada, importa\u00e7\u00f5es fraudulentas maci\u00e7as que agravam a escassez de produtos e a evas\u00e3o de divisas que marcam uma economia em crise aguda [2] .<\/p>\n<p>No Brasil, o zigzaguear entre um neoliberalismo &#8220;social&#8221; e um keynesianismo light quase irreconhec\u00edvel foi reduzindo o espa\u00e7o de poder de um progressismo que exalava fanfarronice &#8220;realista&#8221; (inclusive sua astuta aceita\u00e7\u00e3o da hegemonia dos grupos econ\u00f3micos dominantes). A depend\u00eancia das exporta\u00e7\u00f5es de commodities e a submiss\u00e3o a um sistema financeiro local transnacionalizado acabaram por bloquear a expans\u00e3o econ\u00f3mica. Finalmente, a combina\u00e7\u00e3o da queda dos pre\u00e7os internacionais das mat\u00e9rias-primas e a exacerba\u00e7\u00e3o da pilhagem financeira precipitaram uma recess\u00e3o que foi gerando uma crise pol\u00edtica sobre a qual come\u00e7aram a cavalgar os promotores de um &#8220;golpe brando&#8221; executado pela direita local e monitorado pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Na Argentina, o &#8220;golpe brando&#8221; ocorreu protegido por uma m\u00e1scara eleitoral forjada por uma manipula\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica desmesurada. O progressismo kirchnerista na sua \u00faltima etapa havia conseguido evitar a recess\u00e3o, ainda que com um crescimento an\u00e9mico sustentado por um fomento do mercado interno respeitoso do pode econ\u00f3mico. Tamb\u00e9m foi respeitada a m\u00e1fia judicial que, junto com a m\u00e1fia medi\u00e1tica, o acossaram at\u00e9 desloc\u00e1-lo politicamente em meio a uma onda de histeria reaccion\u00e1ria das classes altas e do grosso das classes m\u00e9dias.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, Evo Morales sofreu sua primeira derrota pol\u00edtica significativa no referendo sobre a reelei\u00e7\u00e3o presidencial. Sua chegada ao governo assinalou a ascens\u00e3o das bases sociais submersas pelo velho sistema racista colonial. Mas a mistura h\u00edbrida de proclama\u00e7\u00f5es anti-imperialistas, p\u00f3s-capitalista e indigenistas com a persist\u00eancia do modelo mineiro-extractivista de deteriora\u00e7\u00e3o ambiental e de comunidades rurais e do burocratismo estatal gerador de corrup\u00e7\u00e3o e autoritarismo terminaram por diluir o discurso do &#8220;socialismo comunit\u00e1rio&#8221;. Assim, ficou aberto o espa\u00e7o para a recomposi\u00e7\u00e3o das elites econ\u00f3micas e a mobiliza\u00e7\u00e3o revanchista das classes altas e seu s\u00e9quito de classes m\u00e9dias, penetrando num vasto leque social desconcertado.<\/p>\n<p>Agora as direitas latino-americanas v\u00e3o ocupando as posi\u00e7\u00f5es perdidas e consolidam as preservadas, mas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o aquelas velhas camarilhas neoliberais optimistas dos anos 1990. Foram mutando atrav\u00e9s de um complexo processo econ\u00f3mico, social e cultural que as converteu em componentes de lumpen-burguesias nihilisitas embarcadas na onda global do capitalismo parasit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Grupos industriais ou do agrobusiness foram combinando seus investimentos tradicionais com outros mais rent\u00e1veis mas tamb\u00e9m vol\u00e1teis: aventuras especulativas, neg\u00f3cios ilegais de todo tipo (desde o narco at\u00e9 opera\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias opacas passando por fraudes comerciais e fiscais e outros empreendimentos turvos) convergindo com &#8220;investimentos&#8221; saqueadores provenientes do exterior como a mega-minera\u00e7\u00e3o ou as rapinas financeiras.<\/p>\n<p>A referida muta\u00e7\u00e3o tem long\u00ednquos antecedentes locais e globais, variantes nacionais e din\u00e2micas espec\u00edficas, mas todas tendem a uma configura\u00e7\u00e3o baseada no predom\u00ednio de elites econ\u00f3micas enviesadas pela &#8220;cultura financeira-depredadora&#8221; (curtoprazismo, densenraizamento territorial, elimina\u00e7\u00e3o de fronteiras entre legalidade e ilegalidade, manipula\u00e7\u00e3o de redes de neg\u00f3cios com uma vis\u00e3o mais pr\u00f3xima do video-jogo do que da gest\u00e3o produtivas e outras caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do globalismo mafioso) que disp\u00f5em do controle medi\u00e1tico como instrumento essencial de domina\u00e7\u00e3o, cercando-se de sat\u00e9lites pol\u00edticos, judiciais, sindicais, policiais-militares, etc.<\/p>\n<p><strong>Restaura\u00e7\u00f5es conservadoras ou instaura\u00e7\u00f5es de neofascismos coloniais?<\/strong><\/p>\n<p>Em geral o progressismo qualifica suas derrotas ou amea\u00e7as de derrotas como vit\u00f3rias ou perigos de regresso do passado neoliberal. Tamb\u00e9m costuma utilizar-se a express\u00e3o &#8220;restaura\u00e7\u00e3o conservadora&#8221;, mas acontece que esses fen\u00f3menos s\u00e3o sumamente inovadores, t\u00eam muito pouco de &#8220;conservadora&#8221;. Quando avaliamos personagens como A\u00e9cio Neves, Maur\u00edcio Macri ou Henrique Capriles n\u00e3o encontramos chefes autorit\u00e1rios de elites olig\u00e1rquicas est\u00e1veis e sim personagens totalmente inescrupulosos, sumamente ignorantes das tradi\u00e7\u00f5es burguesas dos seus pa\u00edses (inclusive, em certos casos, com olhares depreciativos para com as mesmas), surgem como uma esp\u00e9cie de mafiosos entre primitivos e p\u00f3s-modernos encabe\u00e7ando politicamente grupos de neg\u00f3cios cuja norma principal \u00e9 a de n\u00e3o respeitar nenhuma norma (na media do poss\u00edvel).<\/p>\n<p>Outro aspecto importante da conjuntura \u00e9 o da irrup\u00e7\u00e3o de mobiliza\u00e7\u00f5es ultra-reaccion\u00e1rias de grande dimens\u00e3o onde as classes m\u00e9dias ocupam um lugar central. Os governos progressistas supunham que a bonan\u00e7a econ\u00f3mica facilitaria a captura pol\u00edtica desses sectores sociais, mas ocorreu o contr\u00e1rio: as camadas m\u00e9dias se direitizavam enquanto ascendiam economicamente, olhavam com desprezo os de baixo e assumiam como pr\u00f3prios os del\u00edrios neofascistas dos de cima. O fen\u00f3meno sincroniza-se com tend\u00eancias neofascistas que ascendem no ocidente, desde a Ucr\u00e2nia at\u00e9 os Estados Unidos passando pela Alemanha, Fran\u00e7a, Hungria, etc, express\u00e3o cultural do neoliberalismo decadente, pessimista, de um capitalismo nihilista que entra na sua etapa de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada negativa, onde o apartheid surge como a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas este neofascismo latino-americano inclui tamb\u00e9m a reapari\u00e7\u00e3o de velhas ra\u00edzes racistas e segregacionistas que haviam ficado tapadas pela crise de governabilidade dos governos neoliberais, pela irrup\u00e7\u00e3o de protestos populares e pelas primaveras progressistas. Sobreviveram \u00e0 tempestade e em v\u00e1rios casos ressurgiram inclusive antes do come\u00e7o do decl\u00ednio do progressismo, como na Argentina o ego\u00edsmo social da \u00e9poca de Menem ou o gorilismo racista anterior; na Bol\u00edvia o desprezo para com o \u00edndio e em quase todos os casos recuperando restos do anti-comunismo da \u00e9poca da Guerra-fria. Sobreviv\u00eancias do passado, lat\u00eancias sinistras agora misturadas com as novas modas.<\/p>\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que o fen\u00f3meno assume caracter\u00edsticas de tipo &#8220;contra-revolucion\u00e1rio&#8221;, apontando para uma pol\u00edtica de terra arrasada, de extirpa\u00e7\u00e3o do inimigo progressista. \u00c9 o que se v\u00ea virtualmente na Argentina ou o que promete a direita na Venezuela ou Brasil. A brandura do advers\u00e1rio, seus medos e vacila\u00e7\u00f5es excitam a ferocidade reaccion\u00e1ria. Referindo-se \u00e0 vit\u00f3ria do fascismo na It\u00e1lia, Ignazio Silone a definia como uma contra-revolu\u00e7\u00e3o que havia operado de maneira preventiva contra uma amea\u00e7a revolucion\u00e1ria inexistente [3] . Essa n\u00e3o exist\u00eancia real de amea\u00e7a ou de processo revolucion\u00e1rio em marcha, de avalancha popular contra estruturas decisivas do sistema a desmoronarem-se ou quebradas, encoraja (concede sensa\u00e7\u00e3o de impunidade) as elite e sua base social.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 contra-revolucion\u00e1ria \u00e9 um dos resultados poss\u00edveis da decomposi\u00e7\u00e3o do sistema impondo, com \u00eaxito em alguns casos do passado, projectos de recomposi\u00e7\u00e3o elitista. No caso latino-americano exprime decomposi\u00e7\u00e3o capitalista sem recomposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Se o progressismo foi a supera\u00e7\u00e3o fracassada do fracasso neoliberal, este neofascismo subdesenvolvido exacerba ambos os fracassos e inaugura uma era de dura\u00e7\u00e3o incerta de contrac\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e desintegra\u00e7\u00e3o social. Basta ver o que ocorreu na Argentina com a chegada de Macri \u00e0 presid\u00eancia: numas poucas semanas o pa\u00eds passou de um crescimento d\u00e9bil a uma recess\u00e3o que se vai agravando rapidamente, resultado de uma gigantesca pilhagem. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar o que pode ocorrer no Brasil ou na Venezuela, que j\u00e1 est\u00e3o em recess\u00e3o, se a direita conquistar o poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A queda dos pre\u00e7os das commodities e sua crescente volatilidade, que o prolongamento da crise global certamente agravar\u00e1, foram causas importantes do fracasso progressista e surgem como bloqueios irrevers\u00edveis dos projectos de reconvers\u00e3o elitista-exportadora medianamente est\u00e1veis. As vit\u00f3rias direitistas tendem a instaurar economias a funcionarem em baixa intensidade, com mercados internos contra\u00eddo e inst\u00e1veis. Isso significa que a sobreviv\u00eancias desses sistemas de poder depender\u00e1 de factores que as m\u00e1fias governantes pretender\u00e3o controlar. Em primeiro lugar, ao descontentamento da maior parte da popula\u00e7\u00e3o aplicando doses vari\u00e1veis de repress\u00e3o, legal e ilegal, embrutecimento medi\u00e1tico, corrup\u00e7\u00e3o de dirigentes e degrada\u00e7\u00e3o moral das classes baixas. Trata-se de instrumentos que a pr\u00f3pria crise e a combatividade popular podem inutilizar, nesse caso o fantasma da revolta social pode converter-se em amea\u00e7a real.<\/p>\n<p><strong>A estrat\u00e9gia imperial<\/strong><\/p>\n<p>Os Estados Unidos desenvolvem uma estrat\u00e9gia de reconquista da Am\u00e9rica Latina, aplicando-a de maneira sistem\u00e1tica e flex\u00edvel. O golpe brando nas Honduras foi o pontap\u00e9 inicial, ao qual seguiu-se o golpe no Paraguai e um conjunto de ac\u00e7\u00f5es desestabilizadora, algumas muito agressivas, de variado \u00eaxito que foram avan\u00e7ando ao ritmo das urg\u00eancias imperiais e do desgaste dos governos progressistas. Em v\u00e1rios casos as agress\u00f5es mais ou menos abertas ou intensas combinaram-se com bons modos que tentavam vencer sem viol\u00eancias, militar ou econ\u00f3mica, ou somando doses menores das mesmas com opera\u00e7\u00f5es domesticadores. Onde n\u00e3o funcionava eficazmente a agress\u00e3o come\u00e7ou a ser praticado o abrandamento moral, implementaram-se pacotes persuasivos de configura\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel combinando penetra\u00e7\u00e3o, coopta\u00e7\u00e3o, press\u00e3o, pr\u00e9mios e outras formas retorcidas de ataque psicol\u00f3gico-pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O resultado desse desdobramento complexo \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o paradoxal: enquanto os Estados Unidos retrocedem a n\u00edvel global em termos econ\u00f3micos e geopol\u00edticos, v\u00e3o reconquistando passo a passo seu p\u00e1tio traseiro latino-americano. Para o Imp\u00e9rio, a queda da Argentina foi uma vit\u00f3ria de grande import\u00e2ncia, trabalhada durante muito tempo, ao que \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar tr\u00eas manobras decisivas do seu jogo regional: o submetimento do Brasil, o fim do governo chavista na Venezuela e a rendi\u00e7\u00e3o negociada da insurg\u00eancia colombiana. Cada um destes objectivos tem um significado especial:<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria imperialista no Brasil mudaria dramaticamente o cen\u00e1rio regional e produziria um impacto negativo de grande envergadura ao bloco BRICS, afectando seus dois inimigos estrat\u00e9gicos globais: China e R\u00fassia. A vit\u00f3ria na Venezuela n\u00e3o s\u00f3 lhe concederia o controle de 20% das reservas petrol\u00edferas do planeta (a maior reserva mundial) como teria um efeito domin\u00f3 sobre outros governos da regi\u00e3o como os a Bol\u00edvia, Equador e Nicar\u00e1gua \u2013 e prejudicaria Cuba sobre a qual os Estados Unidos fazem uma esp\u00e9cie de abra\u00e7o de urso.<\/p>\n<p>Finalmente, a extin\u00e7\u00e3o da insurg\u00eancia colombiana, al\u00e9m de afastar o obst\u00e1culo principal ao saqueio desse pa\u00eds, deixaria as suas for\u00e7as armadas de m\u00e3os livres para eventuais interven\u00e7\u00f5es na Venezuela. Do ponto de vista estrat\u00e9gico regional o fim da guerrilha colombiana retiraria do cen\u00e1rio uma poderosa for\u00e7a combatente que poderia chegar a operar como um mega-multiplicador de insurg\u00eancias numa regi\u00e3o em crise onde a generaliza\u00e7\u00e3o de governos mafiosos-direitistas agravar\u00e1 a decomposi\u00e7\u00e3o das suas sociedades. Trata-se talvez da maior amea\u00e7a estrat\u00e9gica \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperial, de um enorme perigo revolucion\u00e1rio continental. \u00c9 precisamente essa dimens\u00e3o latino-americana do tema que \u00e9 ocultado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o dominantes.<\/p>\n<p><strong>Decad\u00eancia sist\u00e9mica e perspectivas populares<\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do curioso paradoxo de um imp\u00e9rio decadente a reconquistar sua retaguarda territorial, do ponto de vista da conjuntura global, da decad\u00eancia sist\u00e9mica do capitalismo, a generaliza\u00e7\u00e3o de governos pr\u00f3 norte-americanos na Am\u00e9rica Latina pode ser interpretada superficialmente como uma grande vit\u00f3ria geopol\u00edtica dos Estados Unidos. Ainda assim, se aprofundarmos a an\u00e1lise e introduzirmos por exemplo o tema do agravamento da crise impulsionada por esses governos tender\u00edamos a interpretar o fen\u00f3meno como express\u00e3o espec\u00edfica regional da decad\u00eancia do sistema global.<\/p>\n<p>O afastamento do estorvo progressista pode chegar a gerar problemas maiores \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperial \u2013 apesar de as inclus\u00f5es sociais e as mudan\u00e7as econ\u00f3micas realizada terem sido insuficientes, embrulhadas, estivesse impregnadas de limita\u00e7\u00f5es burguesas e de que a sua autonomia em mat\u00e9ria de pol\u00edtica internacional teve uma aud\u00e1cia restrita. O certo \u00e9 que seu percursos deixou marcas, experi\u00eancias sociais, dignifica\u00e7\u00f5es (suprimidas pela direita) que ser\u00e3o muito dif\u00edceis extirpar e que em consequ\u00eancia podem chegar a converter-se em contribui\u00e7\u00f5es significativa para futuros (e n\u00e3o t\u00e3o long\u00ednquos) irrup\u00e7\u00f5es populares radicalizadas.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o progressista de humaniza\u00e7\u00e3o do sistema, de realiza\u00e7\u00e3o de reformas &#8220;sensatas&#8221; dentro dos quadros institucionais existentes, pode passar da decep\u00e7\u00e3o inicial a uma reflex\u00e3o social profunda, cr\u00edtica da institucionalizada mafiosa, da opress\u00e3o medi\u00e1tica e dos grupos de neg\u00f3cios parasit\u00e1rios. Isso inclui a farsa democr\u00e1tica que os legitima. Nesse caso a doen\u00e7a progressista poderia converter-se, cedo ou tarde, em furac\u00e3o revolucion\u00e1rio \u2013 n\u00e3o porque o progressismo como tal evolua para a radicalidade anti-sistema e sim porque emergiria uma cultura popular superadora, desenvolvida na luta contra regimes condenados a degradar-se cada vez mais.<\/p>\n<p>Nesse sentido poder\u00edamos entender um dos significados da revolu\u00e7\u00e3o cubana, que logo se estendeu como onda anti-capitalista na Am\u00e9rica Latina, como supera\u00e7\u00e3o cr\u00edticas dos reformismos nacionalistas democratizantes (como o varguismo no Brasil, o nacionalismo revolucion\u00e1rio na Bol\u00edvia, o primeiro peronismo na Argentina ou o governo de Jacobo Arbenz na Guatemala). A mem\u00f3ria popular n\u00e3o pode ser extirpada, pode chegar a afundar-se numa esp\u00e9cie de clandestinidade cultural, numa lat\u00eancia subterr\u00e2nea digerida misteriosamente, pensada pelos de baixo, subestimada pelos de cima, para reaparecer como presente, quando as circunst\u00e2ncias o exijam, renovada, implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>[1] Se consideramos o \u00faltimo quinqu\u00e9nio (2010-2014) o crescimento m\u00e9dio real da economia do Jap\u00e3o foi da ordem dos 1,5%, o dos Estados Unidos de 2,2% e o da Alemanha de 2% (Fonte: Banco Mundial).<\/p>\n<p>[2] Um bom exemplo \u00e9 o da &#8220;importa\u00e7\u00e3o&#8221; de f\u00e1rmacos onde empresas multinacionais como a Pfizer, Merck e P&amp;G fazem fabulosos neg\u00f3cios ilegais perante um governo &#8220;socialista&#8221; que lhes fornece d\u00f3lares a pre\u00e7os preferenciais. Com um jogo de sobrefactura\u00e7\u00f5es, sobrepre\u00e7os e importa\u00e7\u00f5es inexistentes as empresas farmac\u00eauticas haviam importando em 2003 umas 222 mil toneladas de produtos pelos quais pagaram 434 milh\u00f5es de d\u00f3lares (uns 2 mil d\u00f3lares por tonelada), em 2010 as importa\u00e7\u00f5es baixaram para 56 mil toneladas e pagaram-se 3410 milh\u00f5es de d\u00f3lares (60 mil d\u00f3lares por tonelada) e em 2014 as importa\u00e7\u00f5es desceram ainda mais para 28 mil toneladas e pagaram-se 2400 milh\u00f5es de d\u00f3lares (um pouco menos de 87 mil d\u00f3lares por tonelada). Como bem assinala Manuel Sutherland, de cujo estudo extraio essa informa\u00e7\u00e3o, &#8220;longe de contemplar a cria\u00e7\u00e3o de uma grande empresa estatal de produ\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos, o governo prefere dar divisas preferenciais a importadores fraudulentos, ou confiar em burocratas que realizam importa\u00e7\u00f5es sob a maior opacidade&#8221;. Manuel Sutherland, &#8220;2016: La peor de las crisis econ\u00f3micas, causas, medidas y cr\u00f3nica de una ruina anunciada&#8221;, CIFO, Caracas 2016.<\/p>\n<p>[3] Ignazio Silone, &#8220;L&#8217;\u00c9cole des dictateurs&#8221;, Collection Du monde entier, Gallimard, Par\u00eds, 1964.<\/p>\n<p>http:\/\/resistir.info\/beinstein\/ilusoes_21mar16.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Beinstein &#8211; A conjuntura global \u00e9 marcada por uma crise deflacion\u00e1ria motorizada pela grandes pot\u00eancias. 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