{"id":11288,"date":"2019-08-23T09:41:12","date_gmt":"2019-08-23T12:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11288"},"modified":"2019-08-19T13:12:08","modified_gmt":"2019-08-19T16:12:08","slug":"intimidade-em-tempos-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/23\/intimidade-em-tempos-de-crise\/","title":{"rendered":"Intimidade em tempos de crise"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiza Queiroz<\/strong> &#8211; Enquanto o liberalismo reconhece que o sofrimento atrapalha a produ\u00e7\u00e3o, o neoliberalismo descobriu nele uma for\u00e7a indutora de mais-valia.<\/p>\n<p>Depois de mergulhar pelas profundezas de sentires cada vez mais l\u00edquidos em\u00a0<em>Reinven\u00e7\u00e3o da intimidade \u2013 pol\u00edticas do sofrimento cotidiano<\/em>(2017), o psicanalista e professor-titular de Psicologia Cl\u00ednica da USP, Christian Dunker, agora investiga o poder da\u00a0<em>escuta<\/em>\u00a0na constru\u00e7\u00e3o dos afetos em\u00a0<em>O palha\u00e7o e o psicanalista \u2013 Como escutar os outros pode transformar vidas\u00a0<\/em>(2019), ao lado do palha\u00e7o Cl\u00e1udio Thebas.<\/p>\n<p>Em conversa com\u00a0<em>Jacobin Brasil<\/em>, Dunker apresenta sua singular capacidade ao flanar no territ\u00f3rio incerto das rela\u00e7\u00f5es e, para explic\u00e1-lo, traz \u00e0 luz elementos de sociologia francesa, ci\u00eancia pol\u00edtica e poemas de Robert Frost, o que permite-o analisar aquilo que h\u00e1 de mais intr\u00ednseco na periferia dos afetos em uma conjuntura que n\u00e3o poderia ser mais difusa. Como ter uma rela\u00e7\u00e3o amorosa honesta sem se trair? Educar os filhos com tanta tecnologia? Viver plenamente consciente dos caminhos n\u00e3o percorridos? Fugir da administra\u00e7\u00e3o direta do sofrimento praticada pelo neoliberalismo? Como diria o fil\u00f3sofo Gilles Deleuze:\u00a0<em>O objetivo n\u00e3o \u00e9 responder a quest\u00f5es, \u00e9 sair delas<\/em>.<\/p>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea considera maior o medo da solid\u00e3o ou da intimidade?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Eu diria que s\u00e3o medos proporcionais. H\u00e1 aqueles que sofrem pela dificuldade de conseguir compartilhar suas incertezas, suas d\u00favidas e que, portanto, v\u00e3o produzindo um sentimento de solid\u00e3o crescente, ainda que participem de conv\u00edvio social. Proporcionalmente h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que, por outros motivos, temem a intimidade e a veem como fonte de confus\u00e3o, de desrespeito, de indetermina\u00e7\u00e3o. Muitos solit\u00e1rios o s\u00e3o por uma esp\u00e9cie de excesso de experi\u00eancias de determina\u00e7\u00e3o. Eles sentem a solid\u00e3o como um isolamento, um efeito da atomiza\u00e7\u00e3o e da fragmenta\u00e7\u00e3o social. Ao passo que muitos que t\u00eam a intimidade, temem o excesso de indetermina\u00e7\u00e3o, sofrendo com ela e sendo algo evitado porque n\u00e3o se enxerga nada de produtivo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Na era da velocidade e da ansiedade, qual o melhor caminho para a cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da intimidade?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>O caminho come\u00e7a pela recupera\u00e7\u00e3o da nossa pot\u00eancia de escuta. A escuta \u00e9 uma abertura pro outro, ela nos convida \u00e0 uma linguagem que n\u00e3o nos pertence \u2013 a l\u00edngua do outro. A intimidade depende tamb\u00e9m de uma certa instabiliza\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado, que \u00e9 justamente uma fronteira muito guarnecida pela progress\u00e3o da raz\u00e3o judicialista, dispositivo para tornar essa rela\u00e7\u00e3o cada vez mais dividida dentro desses mesmos limites. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que nos entendemos enquanto indiv\u00edduos livres, capazes de estabelecer contratos, justamente porque j\u00e1 n\u00e3o tem o que se chamava antes de\u00a0<em>No man\u2019s land<\/em>\u00a0(Terra de ningu\u00e9m), esse espa\u00e7o em que a gente tem que n\u00e3o \u00e9 seu e que n\u00e3o \u00e9 meu, mas que \u00e9, ao mesmo tempo, nosso. Isso depende do que os fil\u00f3sofos Pierre Dardot e Christian Laval chamam de \u201ccomum\u201d, sendo cr\u00edticos \u00e0 excessiva confian\u00e7a que a gente tem pra pensar os processos pol\u00edticos e psicol\u00f3gicos s\u00f3 pelas matrizes do privado e do p\u00fablico.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Como as redes sociais prejudicam nossas rela\u00e7\u00f5es com n\u00f3s mesmos, substituindo momentos de real introspec\u00e7\u00e3o por um bombardeio de realidades manipuladas e publicidade?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Nossa conversa j\u00e1 est\u00e1 em um momento no qual conseguimos discernir boas e m\u00e1s pr\u00e1ticas, bons usos e maus usos das redes sociais. H\u00e1 formas de entrar no espa\u00e7o digital que s\u00e3o mais conscientes das propriedades novas e intr\u00ednsecas desse espa\u00e7o: entender que estamos em um universo que \u00e9 baseado majoritariamente em um sistema de escrita, entender que isto \u00e9 regido por uma acelera\u00e7\u00e3o e que tem certas ilus\u00f5es estruturais (a presen\u00e7a passa a ter muito valor, qualquer clique \u00e9 bem-vindo). Estamos permanentemente abertos a receber a participa\u00e7\u00e3o do outro, o que produz uma esp\u00e9cie de conflu\u00eancia narc\u00edsica que n\u00e3o faz bem para as pessoas. O efeito gen\u00e9rico \u00e9 que isso expande as nossas modalidades preferenciais de sofrimento e de sintoma. O depressivo vai se tornar mais depressivo. O paranoico vai se tornar mais paranoico. O ansioso vai se tornar mais ansioso. Incautamente, empregam as redes sociais como uma esp\u00e9cie de terap\u00eautica selvagem para suas formas de sofrimento. Tudo isso demanda uma atitude cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos meios que voc\u00ea est\u00e1 empregando. Essa consci\u00eancia \u00e9 uma tarefa urgente que n\u00e3o est\u00e1 sendo feita pelas inst\u00e2ncias de media\u00e7\u00e3o, de discurso e de la\u00e7os sociais. Temos uma baix\u00edssima discuss\u00e3o sobre boas pr\u00e1ticas digitais que n\u00e3o seja judicialista, seja no ambiente escolar, corporativo ou pol\u00edtico. \u00c9 como se a gente confiasse que a m\u00e3o invis\u00edvel, que n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 do mercado, mas tamb\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o, vai resolver esse estado de coisas. Eu acho que n\u00e3o vai.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>\u00c9, n\u00e3o existe essa preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade mental dos usu\u00e1rios pela parte das redes sociais\u2026<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Exato, a come\u00e7ar pela falta de transpar\u00eancia dos algoritmos. Seguida da falta de advert\u00eancia, como temos, por exemplo, nos ma\u00e7os de cigarros. Tem sempre escrito que faz mal \u00e0 sa\u00fade, com fotos horr\u00edveis, que eu n\u00e3o acho t\u00e3o horr\u00edveis, elas s\u00e3o bem surrealistas. N\u00e3o tem nenhuma advert\u00eancia b\u00e1sica sendo feita.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias sociais da intoxica\u00e7\u00e3o digital nas crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>J\u00e1 se compila um conjunto de malef\u00edcios no uso t\u00f3xico de redes sociais pelas crian\u00e7as. Entre zero e dezoito meses de idade, por exemplo, n\u00e3o se deve ter contato com bab\u00e1s eletr\u00f4nicas disfar\u00e7adas de smartphones e de tablets. Isso altera a forma\u00e7\u00e3o do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, do sistema piramidal, da rela\u00e7\u00e3o com a imagem, que sabemos desde a psican\u00e1lise, que \u00e9 constitutiva para o pr\u00f3prio Eu. O Eu se forma a partir de atos nos quais a crian\u00e7a se reconhece a partir de imagens que ela simboliza e nas quais realiza o estatuto simb\u00f3lico dessa imagem, como olhar para um rosto ou sorriso humano. Isso tem certas deforma\u00e7\u00f5es quando se diminui o tamanho do rosto humano ou quando se exp\u00f5e a crian\u00e7a a algo que n\u00e3o \u00e9 tridimensional em uma tela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que as rela\u00e7\u00f5es familiares estariam prejudicadas pela onipresen\u00e7a dos gadgets ou isso \u00e9 s\u00f3 uma ferramenta para mascarar um estranhamento que j\u00e1 existia dentro das din\u00e2micas familiares?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>S\u00e3o processos confluentes. Voc\u00ea tem transforma\u00e7\u00f5es nos padr\u00f5es hegem\u00f4nicos de fam\u00edlia e transforma\u00e7\u00f5es na fam\u00edlia que derivam das modifica\u00e7\u00f5es dos nossos modos de produ\u00e7\u00e3o, particularmente de extra\u00e7\u00e3o neoliberal. Tanto a deslocaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que produz figuras parentais errantes ou viajantes, que est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o de passagem permanente, quanto a pr\u00f3pria forma de individualiza\u00e7\u00e3o, em que a crian\u00e7a dentro da fam\u00edlia \u00e9 gerida. A express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ao acaso, se pratica uma gest\u00e3o da inf\u00e2ncia. Tem aqueles que querem terceiriz\u00e1-la, aqueles que exp\u00f5e um discurso no qual a crian\u00e7a deve se entender como uma pequena empresa, criando rela\u00e7\u00f5es de alian\u00e7a, amizade e brincadeira cifradas na gram\u00e1tica da produ\u00e7\u00e3o de mais desempenho. A escola n\u00e3o tem mais um pre\u00e7o, ela \u00e9 um investimento. A cultura passa a ser instrumentalizada enquanto aquilo que pode render, seja em termos de narcisismo social, seja em termos de aptid\u00f5es e habilidades. Essa abordagem dentro da fam\u00edlia \u00e9 extremamente daninha, mas por outro lado \u00e9 o que a fam\u00edlia sempre fez: ser uma matriz de produ\u00e7\u00e3o de individualidade. Preparando o filho para a sociedade e para o mercado. Uma pergunta para o leitor fazer em sil\u00eancio no seu travesseiro: voc\u00ea est\u00e1 preparando seu filho para o mercado, para a sobreviv\u00eancia ou para o mundo?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong class=\"inserted\">Na busca por rela\u00e7\u00f5es menos hip\u00f3critas, no que diz respeito \u00e0 fidelidade, muitas pessoas t\u00eam optado por rela\u00e7\u00f5es abertas e novos contratos. Voc\u00ea coloca a trai\u00e7\u00e3o no livro\u00a0<em>Reinven\u00e7\u00e3o da Intimidade<\/em>\u00a0(2017) como um ataque ao narcisismo. Seria a n\u00e3o-monogamia eficaz para evitar esse ataque ou ele segue repetindo os mesmos moldes eg\u00f3icos de hierarquiza\u00e7\u00e3o dos afetos e enaltecimento do ego?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Aqui vou ter que falar a partir da minha experi\u00eancia cl\u00ednica, na qual pessoas contam como abriram seus relacionamentos e casamentos. \u00c9 uma experi\u00eancia muito interessante, mas n\u00e3o \u00e9 para amadores. Infelizmente essa \u00e9 uma experi\u00eancia que costuma ser tematizada e pensada quando o casal est\u00e1 em crise, quando tem um problema ou n\u00e3o consegue lidar com os desejos \u2013 que s\u00e3o esperados \u2013 por outras pessoas. Desejos esses que podem levar a um t\u00e9rmino provis\u00f3rio ou permanente e que indicam uma exaust\u00e3o daquele modo de ser da rela\u00e7\u00e3o. Nessa hora, convocam a abertura da rela\u00e7\u00e3o como uma maneira de dar curso a desejos de trai\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me parece ser o melhor momento para fazer isso. Geralmente n\u00e3o termina bem. O casamento aberto me parece algo para la\u00e7os muito fortes e bem consolidados que querem produzir desdobramentos e investiga\u00e7\u00f5es sobre a vida er\u00f3tica m\u00fatua do casal.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que existe alguma diferen\u00e7a entre o casal que abre a rela\u00e7\u00e3o na crise e o casal que j\u00e1 come\u00e7a a rela\u00e7\u00e3o nesse modelo?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>O que eu vejo \u00e9 que come\u00e7ar a rela\u00e7\u00e3o aberta \u00e9 como se fosse parte do namoro (fechado). A gente fica com uma pessoa, temos um acordo que vai contratualizando com quem podemos ficar paralelamente, mas gradativamente o casal fecha e acaba sendo uma solu\u00e7\u00e3o mais gradual, justamente para tratar a viol\u00eancia representada pela posse dos relacionamentos nos quais se entra como se fosse uma pris\u00e3o. Isso \u00e9 um sintoma social da posi\u00e7\u00e3o da mulher como objeto e propriedade e da associa\u00e7\u00e3o da virilidade com a posse. Essa pr\u00e1tica de gradualizar o acordo \u00e9 uma tentativa de tratar essa passagem. O problema desse sintoma \u00e9 que a fidelidade vem associada com a posse. H\u00e1 outras formas de intimidade, baseadas em ser fiel \u00e0 experi\u00eancia do casal e n\u00e3o ao seu limite na toler\u00e2ncia de trai\u00e7\u00e3o ou a extens\u00e3o de um desejo de posse. Para isso, tem de se constituir uma fidelidade com esse \u201cn\u00f3s\u201d onde o mais importante \u00e9 estar junto.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Com as redes sociais e a exposi\u00e7\u00e3o excessiva da vida privada, o monitoramento virtual daria ainda mais vida \u00e0s paranoias do ci\u00fame?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Efetivamente. A maior parte dos casais que se separam ainda vive um processo muito doloroso e mal aceito, tomado como um fracasso. Nossa cultura ainda se separa muito mal e agora existem os \u201cMudei meu status no Face, agora estou solteiro\u201d, que \u00e9 outra maneira ruim de se separar. Majoritariamente, casais que est\u00e3o mal, que perderam a capacidade de compartilhar, que se falam pouco e que n\u00e3o conseguem tomar a decis\u00e3o de separar ou colocar a crise na mesa, s\u00e3o assediados pela tenta\u00e7\u00e3o de entrar na vida privada do outro. Eles sentem que o outro tem algo que n\u00e3o \u00e9 dividido. A percep\u00e7\u00e3o \u00e9 correta, mas o procedimento \u00e9 falso. Tem o ci\u00fames possessivo, mas tem o ci\u00fames que \u00e9 desejo de entrar no outro, entrar na vida do outro que n\u00e3o est\u00e1 deixando. \u00c9 nesse momento que um ataca o Facebook do outro, que vai ver todas as curtidas no Instagram e encontra uma namorada do passado, por exemplo. \u00c9 um tipo de loucura \u00e0 la Bentinho e \u00e9, ao mesmo tempo, uma forma de resgatar coercitivamente algo que n\u00e3o aconteceu, ou algo que est\u00e1 perdido. Ent\u00e3o muito frequentemente separa\u00e7\u00f5es acontecem porque um pegou o companheiro falando, se encontrando ou estando com outro (muitas vezes virtualmente). Est\u00e1 ligado com a raz\u00e3o judicialista, enquanto n\u00e3o se tem a evid\u00eancia, a prova do crime, voc\u00ea n\u00e3o consegue confiar no que est\u00e1 se sentindo. \u00c9 preciso o print para jogar isso para o outro e para si, o que j\u00e1 \u00e9 o autodiagnostico da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que essa persona virtual que constru\u00edmos culmina em uma nova rela\u00e7\u00e3o com o ego?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Eu acho que isso d\u00e1 vaz\u00e3o a uma coisa muito importante em quase todos os casais, que o poeta estadunidense Robert Frost tematizou naquele poema chamado\u00a0<em>The road not taken<\/em>\u00a0\u2013 O caminho n\u00e3o tomado. Ele medita se vai para um caminho ou outro, mas todo poema \u00e9 sobre o que poderia ter acontecido se ele tivesse tomado o outro caminho, que muitos chamam de lado B. Seria o que eu propositalmente neguei durante minha vida para que ela tenha se estabelecido como est\u00e1. Isso \u00e9 muito importante psiquicamente e as pessoas que negam isso geralmente se empobrecem muito. Estruturalmente voc\u00ea tem um traidor na sua vida, que pode ser a namorada de 13 anos ou aquela menina que voc\u00ea se encantou recentemente e n\u00e3o correspondeu. Elas representam todos os amores que poderiam ter sido vividos. O que o ambiente digital faz \u00e9 dar carne pra isso, mostrando como em um filme como \u00e9 o caminho n\u00e3o percorrido com fotos em c\u00e2mera subjetiva, 3D, selfies coloridas. Isso convida a gente a um grau de divis\u00e3o e de confronto com nossa pr\u00f3pria fantasia que n\u00e3o fomos educados para fazer. \u00c9 como se criassem uma tecnologia que te p\u00f5e em contato mais direto do que voc\u00ea \u00e9 capaz de produzir com os seus fantasmas, seus infernos e as coisas que geralmente se lida com mais cuidado. Foge de um tempo que \u00e9 pr\u00f3prio nosso, que s\u00e3o as perguntas que se conseguem fazer, a experi\u00eancia que se suporta. A tecnologia acelera esses processos e pode ter efeitos muito ruins de violenta\u00e7\u00e3o que s\u00e3o traum\u00e1ticos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Existe o tempo da intimidade, o tempo do luto, o tempo do desejo.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Isso, existe o tempo do sil\u00eancio, o tempo do negativo, o tempo da constru\u00e7\u00e3o. Cada qual tem sua\u00a0<em>Road not taken\u00a0<\/em>que \u00e9 constru\u00edda ao mesmo tempo que a constru\u00e7\u00e3o da intimidade entre duas pessoas. N\u00e3o \u00e9 um relacionamento s\u00f3 sobre a porta que se abre e voc\u00ea entra porque o outro permitiu. Tem tamb\u00e9m uma porta que se fecha quando se abriu outra entre voc\u00eas. Isso pode ser especialmente desafiador para aquele que n\u00e3o consegue suportar o sil\u00eancio, o segredo, o n\u00e3o-saber, a indetermina\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o mat\u00e9ria-prima da intimidade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>No mundo do trabalho, o fato de estarmos hiperconectados nos torna ainda mais suscet\u00edveis \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Essa \u00e9 ret\u00f3rica. Claro. O que eu tentaria pensar \u00e9 que o capitalismo tem uma hist\u00f3ria e ele n\u00e3o \u00e9 igual em todos os lugares e em todos os momentos. Ele afeta o centro e a periferia de forma dessincr\u00f4nica, ele tem v\u00e3os diferentes l\u00e1 e c\u00e1. E a gente aprendeu a fazer isso, a gente olha para qualquer coisa que cheire a r\u00f3tulo e a dinheiro e diz que isso \u00e9 o capitalismo, como se ele fosse igual para quem est\u00e1 vendo mi\u00e7angas na pra\u00e7a ou vendendo Heineken no bar. Esse ajuste fino, se n\u00e3o for feito, n\u00e3o se permitem zonas de resist\u00eancia e recuo que s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rias para que o capitalismo n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o domine nossas vidas, como tamb\u00e9m n\u00e3o as transforme em um empobrecimento insuport\u00e1vel.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>LQ<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Como a falta de divis\u00e3o entre vida profissional e pessoal afeta as din\u00e2micas de ansiedade dos trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"answer\">\n<div class=\"po-cn__contributors\">\n<p>CD<\/p>\n<\/div>\n<p>Voltando para a ideia de que o capitalismo n\u00e3o foi implantado de forma homog\u00eanea no mundo e que temos zonas de capitalismo liberal e neoliberal que vivem em confronto, \u00e9 importante diferenciar para entender que s\u00e3o pol\u00edticas de sofrimento distintas. O liberalismo reconhece que o sofrimento atrapalha a produ\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea est\u00e1 doente, voc\u00ea n\u00e3o consegue desempenhar como voc\u00ea deveria. O neoliberalismo \u00e9 o contr\u00e1rio, pois descobriu que o sofrimento \u00e9 for\u00e7a indutora de mais-valia e de mais produ\u00e7\u00e3o. Se eu falar que no final do m\u00eas s\u00f3 vai ter um rep\u00f3rter na\u00a0<em>Jacobin Brasil<\/em>, voc\u00eas v\u00e3o come\u00e7ar a competir, sofrer\u00e3o com isso e acabar\u00e3o se deglutindo. Isso \u00e9 sofrimento induzido para que se produza mais e al\u00e9m do que se aguentaria. \u00c9 a produ\u00e7\u00e3o calculada de anomia para voc\u00ea gerar mais produtividade. Por exemplo, jornadas de trabalho ou intermitentes ou infinitas, nas quais as pessoas v\u00e3o trabalhando at\u00e9 n\u00e3o aguentar mais e colocar outra no lugar. Isso \u00e9 a administra\u00e7\u00e3o direta do sofrimento para produ\u00e7\u00e3o de mais-valia. As disputas entre setores de uma empresa de quem d\u00e1 mais capital agregado, as pol\u00edticas de b\u00f4nus, de funcion\u00e1rio do m\u00eas, as pol\u00edticas de bullying institucionalizado de repreens\u00e3o moral ilustram isso. Leiam os livros de marketing e de management que voc\u00eas v\u00e3o entender a psicopatologia do futuro sendo produzida\u00a0<em>up to date<\/em> em escala online. S\u00e3o pr\u00e1ticas que resultam em ansiedade, depress\u00e3o, mania etc.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"5eqyfFTzhX\"><p><a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/08\/intimidade-em-tempos-de-crise\/\">Intimidade em tempos de crise<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Intimidade em tempos de crise&#8221; &#8212; Jacobin Brasil\" src=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/08\/intimidade-em-tempos-de-crise\/embed\/#?secret=VRXR3rHaiA#?secret=5eqyfFTzhX\" data-secret=\"5eqyfFTzhX\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiza Queiroz &#8211; Enquanto o liberalismo reconhece que o sofrimento atrapalha a produ\u00e7\u00e3o, o neoliberalismo descobriu nele uma for\u00e7a indutora de mais-valia. 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