{"id":11228,"date":"2019-08-11T09:25:56","date_gmt":"2019-08-11T12:25:56","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11228"},"modified":"2019-08-09T22:28:25","modified_gmt":"2019-08-10T01:28:25","slug":"o-bolsonarismo-e-o-neofascismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/11\/o-bolsonarismo-e-o-neofascismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21\/","title":{"rendered":"\u201cO bolsonarismo \u00e9 o neofascismo adaptado ao Brasil do s\u00e9culo 21\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ricardo Viel <\/strong>&#8211; Manuel Loff tinha 9 anos quando um grupo de capit\u00e3es e soldados portugueses, cansados de serem mandados \u00e0 \u00c1frica para uma guerra sanguin\u00e1ria contra os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias, derrubou uma ditadura que j\u00e1 durava 41 anos \u2013 a mais longeva da Europa. A lembran\u00e7a mais viva que tem daquele dia 25 de abril de 1974, quando a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos colocou fim ao regime salazarista (fundado por Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar), \u00e9 do irm\u00e3o, que tinha 14 anos, b\u00eabado, a gritar: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o vou para a guerra!\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo uma amiga de inf\u00e2ncia fez Loff recordar que com 10 anos ele escreveu e dirigiu uma pe\u00e7a de teatro para ser encenada pelos colegas da escola. O tema era os \u00faltimos dias de Hitler no\u00a0<em>bunker<\/em>. \u201cA mim pr\u00f3prio me surpreende, n\u00e3o sei como cheguei at\u00e9 l\u00e1 com essa idade\u201d, confessa. Quando era crian\u00e7a, o pai lhe contava hist\u00f3rias sobre a Guerra Civil Espanhola. Ainda garoto, ia a bibliotecas tomar emprestados livros sobre as Grandes Guerras e pedia de presente de Natal obras sobre o nazismo. Hoje, aos 54 anos, \u00e9 um dos historiadores mais respeitados em Portugal quando o assunto s\u00e3o regimes autorit\u00e1rios, em especial como o salazarismo e o franquismo. \u00c9 autor de v\u00e1rios livros, entre eles\u00a0<em>O nosso s\u00e9culo \u00e9 fascista<\/em>\u00a0(2008) e\u00a0<em>Ditaduras e revolu\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0(2015) \u2013 nenhum deles publicado no Brasil.<\/p>\n<p>Atualmente divide o seu tempo entre Portugal, onde \u00e9 professor associado do Departamento de Hist\u00f3ria e Estudos Pol\u00edticos e Internacionais da Universidade do Porto e pesquisador no Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da Universidade Nova de Lisboa, e Espanha, onde realiza parte da sua investiga\u00e7\u00e3o. \u00c9 doutor pelo Instituto Universit\u00e1rio Europeu, em Floren\u00e7a, na It\u00e1lia, e colabora com v\u00e1rias universidades e centros de investiga\u00e7\u00e3o europeus e americanos. Tamb\u00e9m escreve com frequ\u00eancia para jornais e revistas portugueses. Acompanha com aten\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o o crescimento da extrema direita no mundo. N\u00e3o hesita em classificar o governo de Jair Bolsonaro como representante do neofascismo. \u201cO discurso que tem sobre os movimentos sociais e pol\u00edticos que se lhe op\u00f5em, sobre as mulheres, as minorias \u00e9tnicas, a fam\u00edlia, a na\u00e7\u00e3o, o Ocidente configura um neofascismo adaptado ao Brasil do s\u00e9culo 21\u201d, resume. Leia abaixo a entrevista.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/29072019-o-bolsonarismo-e-o-neofacismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21-img1-1600x1067.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/29072019-o-bolsonarismo-e-o-neofacismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21-img1-1600x1067.jpg 1600w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/29072019-o-bolsonarismo-e-o-neofacismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21-img1-800x533.jpg 800w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" data-src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/29072019-o-bolsonarismo-e-o-neofacismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21-img1-1600x1067.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/29072019-o-bolsonarismo-e-o-neofacismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21-img1-1600x1067.jpg 1600w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/29072019-o-bolsonarismo-e-o-neofacismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21-img1-800x533.jpg 800w\" data-sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<p><em>Para Loff \u201co que vemos hoje \u00e9 um ataque a toda l\u00f3gica redistributiva das pol\u00edticas sociais\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea estuda h\u00e1 mais de 30 anos os regimes autorit\u00e1rios. Quando olha para a extrema direita do s\u00e9culo passado e a de agora, quais diferen\u00e7as v\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso dizer que j\u00e1 havia extrema direita antes do fascismo: desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 19 havia uma extrema direita antiliberal e contrarrevolucion\u00e1ria, mas era muito elitista. A extrema direita fascista, que \u00e9 mais moderna, nasce a partir do fim da Primeira Guerra Mundial \u2013 como nasce a esquerda radical tamb\u00e9m. Depois de 1945, h\u00e1 um primeiro ciclo da extrema direita em que, em grande parte dos pa\u00edses europeus, ela, embora presente, \u00e9 ilegalizada. Por exemplo, logo a partir de 1947 na Alemanha h\u00e1 partidos da extrema direita, com v\u00e1rios nomes, e s\u00f3 um deles \u00e9 ilegalizado. \u00c9 a gera\u00e7\u00e3o dos nost\u00e1lgicos e daqueles que se organizavam, em grande parte clandestinamente, para tentar salvar da Justi\u00e7a muita gente que era procurada. Portanto, a extrema direita de 1945 at\u00e9 1968, mais ou menos, \u00e9 de uma gera\u00e7\u00e3o que viveu a Segunda Guerra Mundial, viveu os regimes fascistas italiano, alem\u00e3o e os movimentos fascistas de toda a Europa. Depois h\u00e1 uma segunda gera\u00e7\u00e3o que, como evidentemente a esquerda dos anos 60, \u00e9 diferente da anterior, que aprendeu v\u00e1rias das li\u00e7\u00f5es do passado. Por exemplo: abandonou o discurso abertamente racista para passar a um discurso culturalista. Desde a liberta\u00e7\u00e3o de Auschwitz, em 1945, o racismo perdeu um enorme espa\u00e7o, embora esteja presente, n\u00e3o pode ser assumido. Hoje, os racistas dizem que a sua incompatibilidade com as minorias \u00e9 de natureza cultural.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea concorda com a ideia de que a extrema direita vem crescendo em poder e import\u00e2ncia desde o come\u00e7o dos anos 1970 no mundo?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, a derrota do nazifascismo foi uma grande derrota da cultura pol\u00edtica da direita e significou, mais do que em qualquer momento pol\u00edtico na hist\u00f3ria, uma virada \u00e0 esquerda do ponto de vista social, da cultura pol\u00edtica e do triunfo dos valores da esquerda em torno da democracia e de uma vers\u00e3o da democracia que exigia uma certa distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e bem-estar social. Tanto que a maioria dos Estados capitalistas do Ocidente \u201crico\u201d, que se chamava a si pr\u00f3prio desenvolvido, adotaram essas pol\u00edticas de natureza social.<\/p>\n<p><strong>E havia uma ideia de que esses direitos individuais e coletivos eram um bem adquirido que n\u00e3o seriam perdidos\u2026<\/strong><\/p>\n<div id=\"alliesCallToActionBox\">\n<p>Fa\u00e7a parte do nosso novo programa de apoio recorrente e promova jornalismo investigativo de qualidade. Doa\u00e7\u00f5es a partir de R$ 10,00\/m\u00eas.<\/p>\n<\/div>\n<p>Evidentemente. O que vemos hoje \u00e9 um ataque a toda l\u00f3gica redistributiva das pol\u00edticas sociais. Est\u00e3o, por exemplo, as propostas de\u00a0<em>flat tax<\/em>, como agora chamam na It\u00e1lia, de que todos pagam rigorosamente a mesma coisa\u2026 A primeira vers\u00e3o de uma extrema direita com sucesso na Europa foi na Escandin\u00e1via: antes de atacar a imigra\u00e7\u00e3o, focou-se contra o Estado de bem-estar social, pelo peso dos impostos. O seu primeiro alvo foram os mais pobres, dizendo que se estava a criar uma classe de pregui\u00e7osos que n\u00e3o querem trabalhar, para depois passarem a dizer, com mais sucesso, que os imigrantes vinham para \u201cmamar da teta\u201d do Estado de bem-estar social. Obviamente, invertendo tudo, pretendendo ignorar que qualquer comunidade de imigrante, de n\u00e3o nacionais, em qualquer sociedade, \u00e9 em m\u00e9dia muito mais jovem do que a m\u00e9dia daquela sociedade e trabalha muito mais e ganha muito menos, portanto contribui incomparavelmente mais para a produ\u00e7\u00e3o de riqueza e para a seguran\u00e7a social.<\/p>\n<p><strong>E qual \u00e9 o momento atual da extrema direita mundial?<\/strong><\/p>\n<p>A partir dos anos 70 e 80, sobretudo a partir da consolida\u00e7\u00e3o da tese do choque de civiliza\u00e7\u00f5es, a extrema direita toma Israel como vanguarda do Ocidente na luta contra o Isl\u00e3 e abandona o antissemitismo, que passou a ser um componente claramente minorit\u00e1rio no seu discurso. O alvo passa a ser a imigra\u00e7\u00e3o, sobretudo se ela \u00e9 mu\u00e7ulmana. E isso permite juntar o Sul do mundo com uma caracter\u00edstica que, para a extrema direita, do ponto de vista identit\u00e1rio, \u00e9 central, que \u00e9 a religi\u00e3o. Porque a extrema direita nunca abandonou uma descri\u00e7\u00e3o do Ocidente branco e crist\u00e3o que colonizou o resto do mundo \u2013 hoje, visto como um Ocidente judaico-crist\u00e3o herdeiro das duas religi\u00f5es monote\u00edstas do Livro Sagrado. Isso \u00e9 particularmente vis\u00edvel nas Am\u00e9ricas, particularmente nos EUA e no Brasil, por via das novas igrejas pentecostais e evang\u00e9licas que deram uma virada de 180 graus na vis\u00e3o que tinham dos judeus.<\/p>\n<p><strong>Edir Macedo, para essa aproxima\u00e7\u00e3o com Israel, mudou at\u00e9 de visual, adotando barba e quip\u00e1\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9, portanto, uma das evolu\u00e7\u00f5es da extrema direita. Ela tende a abandonar a dimens\u00e3o do discurso negacionista do Holocausto, sabe que tem que o fazer, e concentrar-se no novo inimigo, o Isl\u00e3. Esse racismo culturalista permite criar uma plataforma de converg\u00eancia de todas as sensibilidades reacion\u00e1rias que descrevem a imigra\u00e7\u00e3o, o imigrante, como \u201co outro\u201d, e atrai muita gente que n\u00e3o partilha, ou n\u00e3o partilhava, muitas outras das bandeiras da extrema direita. E depois soma-se um outro ponto, que \u00e9 muito vis\u00edvel no caso latino-americano \u2013 e nesse sentido o bolsonarismo \u00e9 a vers\u00e3o mais completa e mais despudorada da extrema direita \u2013, que \u00e9 o do discurso da ditadura cultural marxista. Nesse ponto o bolsonarismo \u00e9 mais Steve Bannon [estrategista da campanha pol\u00edtica de Donald Trump em 2016 e conselheiro informal da campanha de Bolsonaro] que o pr\u00f3prio Trump.<\/p>\n<p><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>A partir da tese de que h\u00e1 uma ditadura cultural marxista da esquerda, a extrema direita, numa escala internacional, avan\u00e7a com a explica\u00e7\u00e3o de que aquela se teria imposto atrav\u00e9s da escola p\u00fablica. O que significa que a universidade e a escola p\u00fablica seriam formadoras de esquerdistas. No fundo, com essa tese, eles atacam todas as ci\u00eancias sociais, tudo quanto dizem a sociologia, a antropologia e a hist\u00f3ria. E no Brasil levou-se isso muito mais longe politicamente, e com mais efic\u00e1cia, com o movimento Escola Sem Partido, cuja tese \u00e9 de que todas as ci\u00eancias sociais s\u00e3o engajadas, militantes, e portanto nenhuma delas \u00e9 objetiva. Todas elas pretenderiam, desde h\u00e1 d\u00e9cadas, minar os fundamentos da natureza, da comunidade, da ordem social: a fam\u00edlia, a p\u00e1tria, a na\u00e7\u00e3o etc. H\u00e1 ainda outra coisa que \u00e9 muito vis\u00edvel no discurso do Bolsonaro, e tamb\u00e9m no do Trump, que j\u00e1 existia com Berlusconi, que \u00e9 o papel das mulheres na sociedade. J\u00e1 nem digo o universo LGBT, o mundo gay, mas particularmente as mulheres. \u00c9 a tese de que todo feminismo \u00e9 radical, todo feminismo \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o da ditadura cultural da esquerda e o \u00fanico que pretende \u00e9 legitimar uma \u201cofensiva contra Deus\u201d, como diria o ministro das rela\u00e7\u00f5es exteriores do Bolsonaro. E, segundo eles, qual \u00e9 a melhor forma de se agredir a Deus, e a ordem social e a fam\u00edlia? Transformando o papel da mulher nas fam\u00edlias e criando novas formas de fam\u00edlia. E a extrema direita brasileira levou isso muito mais longe, n\u00e3o acho que do ponto de vista da formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas com muito mais sucesso do que noutro pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea defende a tese de que o mundo vive uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria\u201d desde o 11 de Setembro de 2011. E o Brasil, em que ponto estaria nesse caminho at\u00e9 o fim da democracia?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 dos casos mais avan\u00e7ados, porque a agenda pol\u00edtica do governo atual inclui um programa aberto, expl\u00edcito, de repress\u00e3o e intimida\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios, amea\u00e7a de ilegaliza\u00e7\u00e3o do maior partido da oposi\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o sobre os movimentos sociais e amea\u00e7a de deten\u00e7\u00e3o de dirigentes pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o. E ainda que isso n\u00e3o se concretizasse\u2026 Bem, o Lula est\u00e1 preso, o Fernando Haddad ainda n\u00e3o, mas houve uma amea\u00e7a nesse sentido; Bolsonaro disse abertamente que ele deveria ser preso e o PT, ilegalizado.<\/p>\n<p><strong>E disse que as alternativas eram ex\u00edlio ou fuzilamento\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. As sociedades autorit\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o simplesmente aquelas em que o Estado \u00e9 autorit\u00e1rio, mas tamb\u00e9m a sociedade \u00e9 autorit\u00e1ria. O que est\u00e1 a acontecer \u00e9 uma intimida\u00e7\u00e3o sobre os advers\u00e1rios que vai reduzir a capacidade de manobra das oposi\u00e7\u00f5es sociais e da resist\u00eancia social \u2013 potencialmente \u00e9 assim, agora falta ver os dados da realidade.<\/p>\n<p><strong>Isso \u00e9 pr\u00f3prio de um Estado neofascista?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 pr\u00f3prio de um Estado em transi\u00e7\u00e3o para o autoritarismo que pode ou n\u00e3o reunir todas as caracter\u00edsticas cl\u00e1ssicas do fascismo. Mas isso \u00e9 como a democracia, eu pergunto: os Estados em que n\u00f3s vivemos s\u00e3o puramente democr\u00e1ticos? O Estado portugu\u00eas \u00e9 puramente democr\u00e1tico? Eu tenho muitas d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o a isso. Quando falamos de regimes fascistas e regimes democr\u00e1ticos, falamos de processos de constru\u00e7\u00e3o permanente da democracia e tamb\u00e9m do fascismo. A transi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria come\u00e7a quando se degrada a democracia. E quando \u00e9 que termina? Termina quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 democracia. Falta agora estabelecer se j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 democracia no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Quem defende que o governo do Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 fascista diz que \u00e9 imposs\u00edvel que haja 50 milh\u00f5es de fascistas no Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente, e era imposs\u00edvel que na Alemanha, em 1933, existissem 17 milh\u00f5es de nazistas\u2026<\/p>\n<p><strong>Mas eu penso na frase que voc\u00ea escreveu num artigo recentemente: \u201cO regime fascista n\u00e3o se sustenta s\u00f3 com fascistas\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Nunca, em momento nenhum da hist\u00f3ria ele nasceu ou se consolidou apenas com fascistas.<\/p>\n<p><strong>Portanto, no Brasil n\u00e3o h\u00e1 50 e tantos milh\u00f5es de fascistas, mas h\u00e1 um percentual grande da popula\u00e7\u00e3o que tolera, aceita ou n\u00e3o se levanta contra isso.<\/strong><\/p>\n<p>Claro. Todas as solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias se sustentam mais sobre o apoio, sobre a intimida\u00e7\u00e3o e o medo, ou a indiferen\u00e7a, dos demais. Em todas as solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias h\u00e1 uma economia da viol\u00eancia, n\u00e3o se exerce viol\u00eancia sobre todos. E normalmente, quando se exagera, quando se perde o controle do exerc\u00edcio da viol\u00eancia, a rea\u00e7\u00e3o pode ser demasiado forte e pode provocar, por exemplo, uma guerra civil e a derrota do regime opressor. A indiferen\u00e7a \u00e9 t\u00e3o central na sustenta\u00e7\u00e3o de um regime quanto \u00e9 o n\u00edvel de apoio. \u00c9 totalmente a-hist\u00f3rico e associal imaginar solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, por mais totalit\u00e1rias que elas fossem, apoiadas por 100% ou 99% das pessoas. Elas s\u00f3 sobrevivem se tiverem uma minoria muito escassa e sem apoio, ou sem suficiente apoio, que lhe resista e sobre a qual se possa exercer essa repress\u00e3o \u201cecon\u00f4mica\u201d. E precisa de ter um n\u00edvel suficiente de apoio, que at\u00e9 pode ser muito reduzido, desde que haja uma grande maioria de indiferentes ou intimidados. Era entre estes que, durante a ditadura em Portugal, se escutava a frase \u201ca minha pol\u00edtica \u00e9 o trabalho\u201d.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea considera que o governo Bolsonaro tem caracter\u00edsticas suficientes para ser chamado de fascista ou neofascista?<\/strong><\/p>\n<p>O fascismo n\u00e3o se imp\u00f5e, como disse, da noite para o dia: o programa do governo Bolsonaro \u00e9 socialmente t\u00e3o reacion\u00e1rio e, na sua tentativa de fundir os interesses das direitas pol\u00edticas e econ\u00f4micas do Brasil, t\u00e3o ambicioso que dever\u00e1 avaliar da necessidade de usar uma viol\u00eancia institucional, paralegal, que est\u00e1 fora do alcance de qualquer governo democr\u00e1tico. Se n\u00e3o hesitar em us\u00e1-la, a pr\u00e1tica ser\u00e1 muito pr\u00f3xima da abordagem fascista. O discurso que tem sobre os movimentos sociais e pol\u00edticos que se lhe op\u00f5em, sobre as mulheres, as minorias \u00e9tnicas, a fam\u00edlia, a na\u00e7\u00e3o, o Ocidente configura um neofascismo adaptado ao Brasil do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p><strong>Voltando \u00e0 quest\u00e3o do ataque aos movimentos feministas, essa resposta abertamente machista, de um discurso de retomada de poder, \u00e9 uma das caracter\u00edsticas desse novo fascismo?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma evidente falocracia e um neopatriarcalismo em tudo isto. A extrema direita raramente assume abertamente a defesa da desigualdade social e pol\u00edtica entre homens e mulheres: limita-se a defender o que era a fam\u00edlia tradicional. Muitos dos discursos que a extrema direita tem desde 1945 s\u00e3o discursos que transformam o perpetrador numa v\u00edtima. Por exemplo, os ex-combatentes de guerras ofensivas perpetradas por v\u00e1rios pa\u00edses ocidentais em v\u00edtimas da pr\u00f3pria guerra; no Brasil, transformaram os militares que torturaram em v\u00edtimas da guerrilha da esquerda, da mesma forma como nos EUA transformaram os combatentes da Guerra do Vietn\u00e3 em v\u00edtimas dos vietnamitas. A mesma coisa \u00e9 feita com os homens hoje, como se faz com o patr\u00e3o que \u00e9 v\u00edtima do empregado que n\u00e3o trabalha e est\u00e1 poderosamente defendido por um sindicato, o patr\u00e3o esmagado pelo Estado que lhe rouba os impostos. Reinventa a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e inverte tudo: o homem, afinal, \u00e9 que \u00e9 v\u00edtima das mulheres feministas, o empregador \u00e9 v\u00edtima do empregado\u2026 E desta forma recupera como v\u00edtimas da contemporaneidade, da democratiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, aqueles que eram\/s\u00e3o os grupos dominantes.<\/p>\n<p><strong>Se na Europa a extrema direita usa a \u201camea\u00e7a\u201d da imigra\u00e7\u00e3o para fomentar o discurso do medo e ganhar votos, no Brasil o dem\u00f4nio \u00e9 o comunismo, embora eles aparentemente nem sabem muito bem o que \u00e9 e quem seja comunista.<\/strong><\/p>\n<p>Mas sabem porque usam o comunismo. \u00c9 muito revelador no bolsonarismo, logo desde a sua primeira vers\u00e3o antipetista, como recuperaram toda a linguagem anticomunista dos anos 60 e 70. O Brasil tem dois partidos comunistas, o velho Partid\u00e3o e o PCdoB, que s\u00e3o comparativamente menores em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses, e foram aliados menores do PT no poder. Ser\u00e1 tudo, menos razo\u00e1vel, dizer que h\u00e1 uma \u201camea\u00e7a comunista\u201d no Brasil \u2013 ao contr\u00e1rio do que aconteceu em Portugal, em que estiveram no poder, na Fran\u00e7a, at\u00e9 na Espanha, em que em determinadas regi\u00f5es governaram. E ainda assim, eles recuperam diretamente o velho discurso anticomunista. \u00c9, tamb\u00e9m, uma quest\u00e3o de mem\u00f3ria, e isso tem um significado particular porque eles sabem que ainda funciona.<\/p>\n<p><strong>E esse ataque \u00e0s universidades tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma coisa nova, verdade?<\/strong><\/p>\n<p>Todos os Estados autorit\u00e1rios atacam as universidades. Todas as f\u00f3rmulas pol\u00edticas, e sobretudo quando se transformam em Estado, querem ter os seus instrumentos de forma\u00e7\u00e3o e de enquadramento \u2013 e as escolas e universidades s\u00e3o alguns deles \u2013 e querem ter, ao mesmo tempo, uma bolsa de intelectuais org\u00e2nicos que consigam formular, com um discurso relativamente erudito e outro, mais aberto, voltado \u00e0s massas, aquilo que \u00e9 a sua ideologia. Se lermos as interven\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas do Bolsonaro, e mesmo os discursos redigidos, aquilo \u00e9 de uma grande pobreza de constru\u00e7\u00e3o. Pode ter um grande sucesso dizer coisas como \u201cBrasil acima de tudo, Deus acima de todos\u201d, \u00e9 verdade, mas \u00e9 pobre.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 importante, portanto, controlar o pensamento cr\u00edtico nas escolas e universidades\u2026<\/strong><\/p>\n<p>O que hoje a extrema direita faz atacando a universidade e a escola p\u00fablica j\u00e1 tem 200 anos, existe desde as revolu\u00e7\u00f5es liberais no final do s\u00e9culo 18, in\u00edcio do 19, quando se criam os sistemas p\u00fablicos de educa\u00e7\u00e3o. Foi quando o Estado veio dizer que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa do Estado e dever dos cidad\u00e3os, retirou o monop\u00f3lio da pouca educa\u00e7\u00e3o que havia das m\u00e3os das igrejas e entrou diretamente num campo, o da forma\u00e7\u00e3o moral doutrin\u00e1ria, que as igrejas tinham para si pr\u00f3prias. Antes de as extremas direitas do s\u00e9culo 20 atacarem a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, j\u00e1 a Igreja havia atacado a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica no s\u00e9culo anterior. As direitas descreveram o Estado da forma como as igrejas sempre fizeram, acusando-o de querer doutrinar as crian\u00e7as e roub\u00e1-las das fam\u00edlias \u2013 depois de as igrejas terem querido ensinar \u00e0s crian\u00e7as tudo sobre a fam\u00edlia, sobre identidade de g\u00eanero, sobre sexualidade, ordem e obedi\u00eancia. Essa disputa de hegemonia atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o entre os Estados liberais, e depois democr\u00e1ticos, e as igrejas hoje \u00e9 reproduzida pela extrema direita que acusa todas as ci\u00eancias sociais, todas as humanidades de terem uma vers\u00e3o abertamente ideol\u00f3gica. Diga-se de passagem que isso s\u00f3 tem sucesso porque uma grande parte da sociedade tamb\u00e9m pensa dessa forma. Eu vivo rodeado de gente que entende que o que disserem as ci\u00eancias tecnol\u00f3gicas e exatas \u00e9 mais ou menos indiscut\u00edvel, mas o que diz a ci\u00eancia social n\u00e3o \u00e9 especializado; que o que eu, um historiador, disser, ou um antrop\u00f3logo ou soci\u00f3logo, \u00e9 sempre opini\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O discurso do governo atual no Brasil \u00e9 de que a forma\u00e7\u00e3o deve seguir uma l\u00f3gica utilit\u00e1ria e que cursos como filosofia e sociologia n\u00e3o trazem retorno para a sociedade.<\/strong><\/p>\n<p>Em Portugal, at\u00e9 o final da ditadura salazarista, n\u00e3o havia sociologia, antropologia ou psicologia na universidade. Em todos esses casos s\u00f3 havia curso nas escolas de forma\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios coloniais. Uma vis\u00e3o utilitarista. Ali\u00e1s, as primeiras ci\u00eancias sociais do s\u00e9culo 19 nascem para ajudar a domina\u00e7\u00e3o, para o conhecimento dos povos colonizados. Aconteceu tamb\u00e9m no Brasil, era para conhecer os ind\u00edgenas. De repente, quando a ci\u00eancia passou a ser um instrumento de emancipa\u00e7\u00e3o, os detentores da ordem passam a n\u00e3o gostar dela e entender que ela \u00e9 pecaminosa, blasfema ou, na sua vers\u00e3o no s\u00e9culo 20\/21, militante. Desde Galileu foi assim. Ou seja, tudo o que eu investigo, interpreto e concluo com uma metodologia cient\u00edfica da interpreta\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 simplesmente um discurso que sustenta uma ideologia.<\/p>\n<p><strong>A velha batalha f\u00e9\u00a0<em>versus<\/em>\u00a0ci\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Para esta extrema direita religiosa, o que conta \u00e9 o texto sagrado, \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o da natureza feita a partir do sagrado, e que \u00e9 imut\u00e1vel. Esse debate tem milhares de anos. E, portanto, este ataque n\u00e3o \u00e9 novidade nenhuma, e digamos tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 exclusivo da extrema direita. Mas \u00e9 muito grave o que se est\u00e1 passando agora: o neoliberalismo come\u00e7ou a reverter uma pol\u00edtica de investimento na educa\u00e7\u00e3o que vinha desde os anos 40, desde o fim da Segunda Guerra, em v\u00e1rios pa\u00edses ocidentais, e entra no discurso de que a universidade tem que se ligar ao mundo do trabalho \u2013 que \u00e9 o mundo da empresa, na verdade \u2013, de que a universidade \u2013 e a escola em geral \u2013 deve mostrar o seu car\u00e1ter pr\u00e1tico, e que portanto \u00e9 um desperd\u00edcio de bens p\u00fablicos formar essa gente. E pior ainda se s\u00e3o um \u201cbando de vermelhos\u201d.<\/p>\n<p><strong>O bolsonarismo \u00e9 uma f\u00f3rmula que pode se espalhar pela Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que tem algumas caracter\u00edsticas que lhe permitiriam claramente expandir-se. O bolsonarismo \u00e9, sobretudo, uma somat\u00f3ria de nostalgia da ditadura militar, com demagogia anticorrup\u00e7\u00e3o e um discurso pol\u00edtico centrado na quest\u00e3o moral. Na quest\u00e3o puramente moral, dois dos l\u00edderes das direitas cl\u00e1ssicas que subiram ao poder com o apoio da extrema direita, Silvio Berlusconi e Donald Trump, s\u00e3o homens que n\u00e3o podem reclamar probidade alguma na sua vida profissional tribut\u00e1ria e familiar. Isso n\u00e3o impede que, em ambos os casos, possam fazer discursos profundamente reacion\u00e1rios sobre a fam\u00edlia. Com uma \u201ccara de pau\u201d, como voc\u00eas brasileiros dizem, um despudor, que n\u00e3o tem nome. O Berlusconi fazia discurso sobre a fam\u00edlia depois de publicamente meter a m\u00e3o nas mulheres. O Trump \u00e9 a mesma coisa. Portanto, o bolsonarismo \u00e9 simplesmente o somat\u00f3rio dessa nostalgia da ditadura, discurso sobre a corrup\u00e7\u00e3o \u2013portanto demagogia moralista \u2013, a que se soma depois uma liga\u00e7\u00e3o ao mundo evang\u00e9lico. E se essas tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es existirem em outras sociedades latino-americanas, o bolsonarismo poderia se expandir, conseguiria se replicar. E creio que h\u00e1 caracter\u00edsticas muito semelhantes na direita venezuelana, mexicana, argentina e chilena, para que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 capaz de arriscar uma previs\u00e3o para o futuro pr\u00f3ximo? A extrema direita ainda continuar\u00e1 a crescer pelo mundo ou j\u00e1 chegou no teto?<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista estritamente eleitoral, creio que ainda n\u00e3o atingiu teto na maioria dos casos. O problema, contudo, n\u00e3o creio ser eleitoral: a extrema direita n\u00e3o chegou nunca sozinha ao poder, nem chegar\u00e1 no futuro. O seu triunfo depende da capacidade de contaminar as pol\u00edticas do Estado por via das suas alian\u00e7as com o resto das direitas, que ocupam facilmente o poder, e por via dos apoios muito substanciais que t\u00eam dentro dos grupos sociais dominantes, dentro do pr\u00f3prio aparelho de Estado, sobretudo nas for\u00e7as armadas e policiais, nos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o, na pr\u00f3pria magistratura. O perigo para a democracia n\u00e3o \u00e9 exterior ao Estado e aos sistemas de representa\u00e7\u00e3o, ele est\u00e1 no seu interior.<\/p>\n<p>https:\/\/apublica.org\/2019\/07\/o-bolsonarismo-e-o-neofacismo-adaptado-ao-brasil-do-seculo-21\/?mc_cid=9d13aaf6b6&#038;mc_eid=78072acdf5<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Viel &#8211; Manuel Loff tinha 9 anos quando um grupo de capit\u00e3es e soldados portugueses, cansados de serem mandados \u00e0 \u00c1frica para uma guerra sanguin\u00e1ria contra os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias, derrubou uma ditadura que j\u00e1 durava 41 anos \u2013 a mais longeva da Europa. 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