{"id":1121,"date":"2016-07-16T12:00:51","date_gmt":"2016-07-16T15:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1121"},"modified":"2018-07-18T12:02:46","modified_gmt":"2018-07-18T15:02:46","slug":"a-violencia-brasileira-nao-e-mais-produto-da-miseria-e-da-pobreza-tem-origem-na-fragilidade-moral-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/16\/a-violencia-brasileira-nao-e-mais-produto-da-miseria-e-da-pobreza-tem-origem-na-fragilidade-moral-da-sociedade\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia brasileira n\u00e3o \u00e9 mais produto da mis\u00e9ria e da pobreza; tem origem na fragilidade moral da sociedade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Patricia Fachin<\/strong><em> &#8211;\u00a0<\/em>\u201cEste \u00e9 o cen\u00e1rio brasileiro hoje: um pa\u00eds que avan\u00e7ou economicamente &#8211; a despeito da crise recente -, um pa\u00eds que avan\u00e7ou socialmente, reduziu muito a pobreza e a mis\u00e9ria e, ao mesmo tempo, trouxe no seu bojo o crescimento da viol\u00eancia, porque o tr\u00e1fico se consolidou no pa\u00eds\u201d, constata o soci\u00f3logo e especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o econ\u00f4mica e social dos \u00faltimos 15 anos fez com que o Brasil reduzisse a pobreza, a mis\u00e9ria, inserindo mais pessoas no mercado de consumo, \u201cmas tamb\u00e9m aumentou a possibilidade de a popula\u00e7\u00e3o ter acesso \u00e0s drogas. Portanto, aumentou tamb\u00e9m o mercado consumidor de drogas \u2013 maconha, coca\u00edna, crack, \u00eaxtase e drogas sint\u00e9ticas\u201d, diz Luis Fl\u00e1vio Sapori \u00e0 IHU On-Line. Segundo ele, \u201co consumo de drogas il\u00edcitas, hoje, n\u00e3o \u00e9 mais um privil\u00e9gio das classes m\u00e9dia e alta no Brasil, mas est\u00e1 tamb\u00e9m nas periferias, e a pr\u00f3pria periferia \u00e9 um mercado consumidor\u201d.A lucratividade do tr\u00e1fico de drogas, informa, \u201caumentou incomensuravelmente no Brasil nos \u00faltimos 15 anos, no bojo da melhoria econ\u00f4mica e social\u201d e \u201cisso significa o fortalecimento do tr\u00e1fico de drogas\u201d e um aumento no \u201crecrutamento de jovens\u201d e no uso de arma de fogo\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com Sapori, a melhoria de vida da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o implicou numa redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eanciae justamente por isso, adverte, que \u201ctemos que parar de pensar a viol\u00eancia no Brasil como um produto da pobreza e da mis\u00e9ria, n\u00e3o \u00e9 mais assim. Foi em certo tempo, mas n\u00e3o \u00e9 mais. A viol\u00eancia cresce no Brasil, envolvendo cada vez mais os jovens, porque vivemos em uma sociedade em que a busca da ascens\u00e3o econ\u00f4mica para aquisi\u00e7\u00e3o de bens econ\u00f4micos passa tamb\u00e9m pelo crime, e o tr\u00e1fico se tornou absolutamente atrativo para os jovens da periferia. Esse aparente paradoxo \u00e9 explicado pelo tr\u00e1fico de drogas, que \u00e9 uma atividade criminosa, mas que traz outros crimes no seu bojo, uma vez que a din\u00e2mica do tr\u00e1fico gera roubos e homic\u00eddios\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Sapori tamb\u00e9m comenta a proposta de descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogase frisa que \u201ctemos de tomar muito cuidado com essas propostas, pens\u00e1-las com cautela, porque n\u00e3o \u00e9 simples dizer que vamos poder legalizar todo e qualquer tipo de drogas no Brasil. N\u00e3o adianta legalizar s\u00f3 a maconha, porque isso n\u00e3o vai interferir em nada na viol\u00eancia, pois os maiores problemas relacionados ao consumo t\u00eam liga\u00e7\u00e3o com a coca\u00edna e com o crack\u201d. E ressalta: \u201cA pergunta a ser feita \u00e9: vamos ter coragem de legalizar o crack, ou ter coragem de permitir o acesso das pessoas ao consumo do crack? N\u00e3o \u00e9 simples responder a essa pergunta.&#8221;<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u00e9 doutor em Sociologia pelo Instituto Universit\u00e1rio de Pesquisas do Rio de Janeiro \u2013 IUPERJ. Foi Secret\u00e1rio Adjunto de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado de Minas Gerais no per\u00edodo de janeiro de 2003 a junho de 2007. Atualmente \u00e9 professor do curso de Ci\u00eancias Sociais e coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Seguran\u00e7a P\u00fablica &#8211; CEPESP da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais &#8211; PUC Minas.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Recentemente foi divulgada a informa\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edcia militar apreende um menor a cada tr\u00eas horas na cidade de S\u00e3o Paulo. Como o senhor interpreta essa not\u00edcia e o que isso revela sobre a viol\u00eancia, sobre quest\u00f5es sociais e sobre a seguran\u00e7a no pa\u00eds, especialmente em grandes metr\u00f3poles?Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 \u00c9 um dado muito preocupante, o qual revela que os jovens brasileiros, especialmente os adolescentes, s\u00e3o uma parte integrante do fen\u00f4meno da viol\u00eancia no Brasil, n\u00e3o s\u00f3 como autores de crimes, como assaltos, homic\u00eddios, estupros, mas como v\u00edtimas. \u00c9 revelador como o perfil da viol\u00eancia hoje no Brasil \u2013 dos homic\u00eddios especialmente \u2013 envolve jovens e muitos adolescentes entre 14 e 17 anos de idade, geralmente do sexo masculino. Com isso n\u00f3s temos uma realidade complicada e de dif\u00edcil enfrentamento &#8211; n\u00e3o imposs\u00edvel -, a qual mostra que n\u00e3o \u00e9 apenas com a pris\u00e3o desses adolescentes que iremos resolver o problema. Esses adolescentes est\u00e3o entrando no crime por motiva\u00e7\u00f5es diversas.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel estimar, entre as pessoas que ingressam no crime, qual \u00e9 o percentual de jovens e adolescentes? Esse perfil tem mudado em rela\u00e7\u00e3o a outros per\u00edodos da hist\u00f3ria brasileira?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 N\u00e3o temos estudos cient\u00edficos no Brasil que possam dar resposta para essa pergunta, temos apenas estimativas pontuais de estudos diversos. Particularmente fiz algumas estimativas para Minas Gerais e para o estado de Alagoas recentemente, sobre homic\u00eddios e roubos. Minhas estimativas apontam \u2013 estou pensando nosadolescentes na faixa et\u00e1ria de 12 a 17 anos e n\u00e3o nos jovens de maneira geral \u2013 que eles t\u00eam sido respons\u00e1veis por cerca de 7% dos roubos, ou seja, de cada 100 roubos cometidos, em m\u00e9dia sete s\u00e3o praticados por adolescentes, e em torno de 5% dos homic\u00eddios, com algumas varia\u00e7\u00f5es. Encontrei um dado de 20% na cidade de Macei\u00f3, recentemente, para homic\u00eddios cometidos por adolescentes; em Belo Horizonte, em torno de 5%; mas estimo que no restante do Brasil deve se seguir esse patamar entre 5% e 10% de homic\u00eddios cometidos por adolescentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um fen\u00f4meno que est\u00e1 se agravando, mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 um fen\u00f4meno que est\u00e1 persistindo ao longo do tempo e que j\u00e1 foi diagnosticado desde a d\u00e9cada de 1990, em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 que esse fen\u00f4meno se alastrou para o restante do Brasil, e j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais vis\u00edvel apenas nas duas grandes metr\u00f3poles brasileiras, mas chegou ao Sul do pa\u00eds e, principalmente, ao Nordeste. Ent\u00e3o, a \u00fanica novidade \u00e9 a maior amplia\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno no territ\u00f3rio nacional, mas em termos de crescimento e de maior presen\u00e7a dos adolescentes no crime, diria que ela permanece elevada e com uma relativa e preocupante const\u00e2ncia.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O principal fator atrativo dos jovens ao crime \u00e9 o tr\u00e1fico de drogas.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 O principal fator atrativo \u00e9 o tr\u00e1fico de drogas. Essa \u00e9 a principal porta de entrada de garotos de 16, 15 e 14 anos, e at\u00e9 mais jovens ainda, no mundo do crime. \u00c9 atrav\u00e9s do tr\u00e1fico de drogas que, muitas vezes, eles pegam em armas de fogo, e \u00e9 atrav\u00e9s do tr\u00e1fico de drogas que muitos deles come\u00e7am a cometer assaltos para conseguir dinheiro para finalidades diversas. Diria que o tr\u00e1fico de drogas continua sendo \u2013 e j\u00e1 o \u00e9 h\u00e1 algum tempo \u2013 a grande porta de entrada para esses adolescentes no mundo do crime, porque a forma como o tr\u00e1fico se estrutura nas periferias urbanas, nos bairros de periferia, oferece um dinheiro \u201cr\u00e1pido e f\u00e1cil\u201d, e com esse dinheiro o adolescente pode, em algum momento ou outro, at\u00e9 ajudar na sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a principal finalidade, pois na maioria das vezes esse dinheiro serve para sustentar os desejos de consumo desse adolescente: serve para ele comprar a bermuda, a camisa, o t\u00eanis, o bon\u00e9, a droga que ele consome, a farra com as namoradas e com amigos. Portanto, o dinheiro \u201cf\u00e1cil e r\u00e1pido\u201d resolve e atende interesses imediatos de consumo.IHU On-Line &#8211; Por que esse fen\u00f4meno se alastrou? Quais s\u00e3o as motiva\u00e7\u00f5es que levam adolescentes e jovens a entrarem no mundo do crime?<\/p>\n<p>O mundo do tr\u00e1fico \u00e9 um mundo muito sedutor, hedonista, \u00e9 um mundo de muito prazer, de muita satisfa\u00e7\u00e3o e, para esses adolescentes, isso \u00e9 muito interessante, pois s\u00e3o adolescentes que, muitas vezes, j\u00e1 n\u00e3o valorizam mais os estudos \u2013 os quais eles abandonam -, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais o controle efetivo dos pais, n\u00e3o t\u00eam outras refer\u00eancias morais na comunidade, assim como na igreja, na cultura, no esporte, na escola. Al\u00e9m disso, s\u00e3o v\u00edtimas da viol\u00eancia policial, e isso tudo acaba culminando para que eles ingressem no mundo do tr\u00e1fico, da arma de fogo, do crime etc. Assim eles entram em um ciclo vicioso e muitos deles acabam perdurando nessa situa\u00e7\u00e3o por muito tempo ao longo da vida.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Em 2013 o senhor nos concedeu uma entrevista e afirmou que o aumento da viol\u00eancia urbana brasileira est\u00e1 amparado em dois fatores: na consolida\u00e7\u00e3o e crescimento do tr\u00e1fico de drogas no Brasil nos \u00faltimos dez anos e nos homic\u00eddios e assaltos. O quadro permanece o mesmo? Nesse sentido, o que tem sido feito e o que poderia ser feito para lidar com essas quest\u00f5es?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 De l\u00e1 para c\u00e1 n\u00e3o mudou nada; a realidade, inclusive, at\u00e9 piorou. A conjuntura da viol\u00eancia urbana no Brasil \u00e9 de agravamento em praticamente todos os estados. N\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcio concreto de que estamos revertendo essa situa\u00e7\u00e3o e nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica de \u00e2mbito federal, ou mesmo estadual, que possa sinalizar uma mudan\u00e7a de postura dos governantes brasileiros em rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o. O que se continua fazendo \u00e9 a pris\u00e3o contumaz desses jovens atrav\u00e9s da pol\u00edcia &#8211; e em alguns casos at\u00e9 matando esses jovens. Ent\u00e3o, continuamos fazendo o mesmo que fazemos h\u00e1 20 anos, sem resultado efetivo nenhum.<\/p>\n<p>O que falta concretamente? Falta levar a s\u00e9rio a preven\u00e7\u00e3o social e falta levar a s\u00e9rio um grande programa nacional, capitaneado pelo governo federal, com recursos, com parcerias dos governos estaduais e municipais para implementar um grande projeto nacional para jovens e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade onde o tr\u00e1fico de drogas \u00e9 muito forte. Esse projeto deveria priorizar a inser\u00e7\u00e3o dos jovens atrav\u00e9s do esporte, da m\u00fasica e do trabalho. E isso n\u00e3o foi feito at\u00e9 o momento; permanecem iniciativas muito isoladas de Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais \u2013 ONGs, e nada al\u00e9m disso. Por conta dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a realidade continua da mesma maneira que h\u00e1 10, 15 anos.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; O que seria esse projeto de preven\u00e7\u00e3o social? O senhor pensa em medidas relacionadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, trabalho, ou o que especificamente?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 O desafio \u00e9 pensar projetos espec\u00edficos. N\u00e3o basta somente manter o adolescente na escola, porque boa parte desses garotos que entram no tr\u00e1fico abandonam a escola com 12, 13 anos de idade. Ent\u00e3o, n\u00e3o adianta escola integral porque a escola integral pode n\u00e3o segurar esse adolescente. Precisamos, ent\u00e3o, de projetos focados nos territ\u00f3rios onde os homic\u00eddios s\u00e3o mais graves, onde o tr\u00e1fico de drogas \u00e9 mais constitu\u00eddo. Esse projeto tem que ter parceria com a comunidade local, com uma entidade n\u00e3o governamental presente na execu\u00e7\u00e3o, com a contrata\u00e7\u00e3o de equipe t\u00e9cnica, ou seja, \u00e9 preciso ter dinheiro e uma metodologia de trabalho, e esse projeto de preven\u00e7\u00e3o deve oferecer a esses adolescentes uma alternativa de inser\u00e7\u00e3o na sociedade que n\u00e3o seja atrav\u00e9s do tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u00c9 oferecer a esses meninos de 13 e 14 anos uma op\u00e7\u00e3o para que eles possam se tornar algu\u00e9m, que possam ter dinheiro sem ter que, necessariamente, pegar em arma de fogo e vender droga. Isso se faz atrav\u00e9s da m\u00fasica e do esporte, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s do emprego, do trabalho, porque \u00e9 preciso oferecer a eles alguma renda nessa faixa et\u00e1ria. A Lei do Jovem Aprendiz pode ser muito \u00fatil nesse sentido, envolvendo parcerias das empresas no \u00e2mbito municipal.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel fazer muita coisa, mas para isso \u00e9 preciso de muito dinheiro, \u00e9 preciso que o governo federal capitaneie essa iniciativa com uma metodologia sistematizada, com a capacita\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos e profissionais para executar essas iniciativas e mobilizar a comunidade. Tudo \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o tem segredo fazer essas coisas. Precisamos que as autoridades se conven\u00e7am que n\u00e3o basta ficar prendendo e matando adolescentes todo o santo dia, porque n\u00e3o resolver\u00e1 o problema.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A conjuntura da viol\u00eancia urbana no Brasil \u00e9 de agravamento em praticamente todos os estados&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>IHU On-Line \u2013 Considerando que o senhor aponta o tr\u00e1fico de drogas como um dos principais problemas relacionados \u00e0 viol\u00eancia urbana, como v\u00ea a proposta de descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas? Ela teria impacto na redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia urbana ou na diminui\u00e7\u00e3o da inser\u00e7\u00e3o dos adolescentes no tr\u00e1fico?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 N\u00e3o. A descriminaliza\u00e7\u00e3o do consumo n\u00e3o afetar\u00e1 em nada, em absolutamente nada, porque a viol\u00eancia do tr\u00e1fico est\u00e1 relacionada ao com\u00e9rcio e \u00e0 venda da droga. O usu\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o principal ator; \u00e9 o agente da venda o principal agente da viol\u00eancia \u2013 o traficante. Ent\u00e3o, o grande desafio n\u00e3o s\u00f3 da sociedade brasileira, mas tamb\u00e9m da sociedade ocidental, envolve tratar dessa quest\u00e3o da legaliza\u00e7\u00e3o do consumo e da venda das drogas. Talvez essa fosse a \u00fanica maneira, a m\u00e9dio e longo prazo, de impactar isso decisivamente. No entanto, n\u00e3o \u00e9 uma medida simples de ser adotada. O Brasil n\u00e3o pode tomar uma medida de legalizar todas as drogas sem fazer um acordo internacional, sem ter, de alguma maneira, um acordo na ONU. N\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o simples, apesar de eu entender que a legaliza\u00e7\u00e3o seria um caminho.<\/p>\n<p>Entretanto, lidar efetivamente com as drogas \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica, mas n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o de curto e m\u00e9dio prazo; \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o de longo prazo. Enquanto isso n\u00f3s devemos continuar em uma a\u00e7\u00e3o contra o tr\u00e1fico de drogas, priorizando mais a pris\u00e3o dos grandes traficantes \u2013 de prefer\u00eancia dos atacadistas e n\u00e3o dos traficantes do varejo \u2013 e desenvolver um grande programa de preven\u00e7\u00e3o com essa juventude, com esses adolescentes que vivem nas periferias.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Alguns pesquisadores t\u00eam afirmado que a pujan\u00e7a econ\u00f4mica dos \u00faltimos anos, que permitiu que as pessoas comprassem mais bens de consumo nas periferias, por exemplo, tamb\u00e9m fortaleceu o crime, que \u00e9 entendido como um mercado que se desenvolve com a amplia\u00e7\u00e3o dos mercados. Concorda com esse tipo de an\u00e1lise? Que reconfigura\u00e7\u00f5es evidencia na estrutura criminal das periferias paulistas e que papel o crime ainda desempenha na organiza\u00e7\u00e3o desses locais?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que isso acontece n\u00e3o s\u00f3 em S\u00e3o Paulo, mas na periferia de todas as grandes cidades brasileiras, como Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba e em todo o Nordeste. Essa \u00e9 uma realidade nacional. Com a n\u00edtida expans\u00e3o econ\u00f4mica e social dos \u00faltimos 15 anos, o Brasil reduziu dramaticamente a pobreza e a mis\u00e9ria, distribuiu renda, inseriu no mercado de consumo um contingente bastante expressivo da popula\u00e7\u00e3o e tudo isso contribuiu para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dessa popula\u00e7\u00e3o, aumentou a capacidade de consumo de bens dur\u00e1veis e eletr\u00f4nicos, melhorou a alimenta\u00e7\u00e3o e diminuiu a fome, mas tamb\u00e9m aumentou a possibilidade de a popula\u00e7\u00e3o ter acesso \u00e0s drogas. Portanto, aumentou tamb\u00e9m o mercado consumidor de drogas \u2013 maconha, coca\u00edna, crack, \u00eaxtase e drogas sint\u00e9ticas. Ou seja, o consumo de drogas il\u00edcitas, hoje, n\u00e3o \u00e9 mais um privil\u00e9gio das classes m\u00e9dia e alta no Brasil, ele est\u00e1 tamb\u00e9m nas periferias, e a pr\u00f3pria periferia \u00e9 um mercado consumidor. Ent\u00e3o, a lucratividade do tr\u00e1fico de drogas aumentou incomensuravelmente no Brasil nos \u00faltimos 15 anos, no bojo da melhoria econ\u00f4mica e social. Na pr\u00e1tica, isso significa o fortalecimento do tr\u00e1fico de drogas. Como a lucratividade do tr\u00e1fico aumentou, com isso aumentou tamb\u00e9m o recrutamento de jovens e o uso de arma de fogo.<\/p>\n<p>Assim, temos um cen\u00e1rio de agravamento da situa\u00e7\u00e3o, e isso vale para S\u00e3o Paulo, mas principalmente para oNordeste, Sul e outras regi\u00f5es do Brasil. S\u00e3o Paulo tem uma singularidade porque, nesse processo, uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa \u2013 o PCC \u2013 praticamente monopolizou o atacado e o varejo das drogas, e isso fez com que a viol\u00eancia diminu\u00edsse em boa medida. No restante do Brasil o tr\u00e1fico permanece pulverizado, fragmentado em grupos e gangues diversos, que s\u00e3o muito conflituosos, logo, muito letais. Este \u00e9 o cen\u00e1rio brasileiro hoje: um pa\u00eds que avan\u00e7ou economicamente &#8211; a despeito da crise recente -, um pa\u00eds que avan\u00e7ou socialmente, reduziu muito a pobreza e a mis\u00e9ria e, ao mesmo tempo, trouxe no seu bojo o crescimento da viol\u00eancia, porque o tr\u00e1fico se consolidou no pa\u00eds.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Trata-se de uma racionalidade instrumental, oportunista e isso impregna a sociedade brasileira, das classes mais altas \u00e0s mais baixas, e \u00e9 isso que explica por que um adolescente de 17 anos entra no crime para conseguir algumas centenas de reais para comprar um t\u00eanis&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>IHU On-Line \u2013 N\u00e3o lhe parece um paradoxo pensar que embora tenha havido melhorias sociais e econ\u00f4micas, a viol\u00eancia tamb\u00e9m aumentou?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori &#8211; Parece um paradoxo, mas n\u00e3o \u00e9. Temos que parar de pensar a viol\u00eancia no Brasil como um produto da pobreza e da mis\u00e9ria, n\u00e3o \u00e9 mais assim. Foi em certo tempo, mas n\u00e3o \u00e9 mais. A viol\u00eancia cresce no Brasil, envolvendo cada vez mais os jovens, porque vivemos em uma sociedade em que a busca da ascens\u00e3o econ\u00f4mica para aquisi\u00e7\u00e3o de bens econ\u00f4micos passa tamb\u00e9m pelo crime, e o tr\u00e1fico se tornou absolutamente atrativo para os jovens da periferia. Esse aparente paradoxo \u00e9 explicado pelo tr\u00e1fico de drogas, que \u00e9 uma atividade criminosa, mas que traz outros crimes no seu bojo, uma vez que a din\u00e2mica do tr\u00e1fico de drogas gera roubos e homic\u00eddios. \u00c9 por isso que esses crimes est\u00e3o em franca ascens\u00e3o em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Mas se houve melhoria social e econ\u00f4mica, o que explica um aumento de jovens no crime?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 A\u00ed entra a fragilidade moral e hist\u00f3rica da sociedade brasileira. A\u00ed entra o fato de termos, historicamente, uma sociedade an\u00f4mica, em que valores de ganho pessoal e de enriquecimento se sobrep\u00f5em aos limites da lei. Trata-se de uma sociedade que, historicamente, n\u00e3o valoriza o respeito \u00e0 lei como par\u00e2metro das rela\u00e7\u00f5es sociais, uma sociedade onde o estado de direito \u00e9 fr\u00e1gil, onde o indiv\u00edduo se sente liberado para buscar seus ganhos pessoais a despeito do trabalho, da disciplina, da educa\u00e7\u00e3o. Esses valores morais foram deixados de lado e a ideia que se tem \u00e9 conseguir o maior ganho com o menor custo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Trata-se de uma racionalidade instrumental, oportunista e isso impregna a sociedade brasileira, das classes mais altas \u00e0s mais baixas, e \u00e9 isso que explica por que um adolescente de 17 anos entra no crime para conseguir algumas centenas de reais para comprar um t\u00eanis, mas explica tamb\u00e9m por que um empres\u00e1rio corrompe um servidor p\u00fablico para ganhar uma licita\u00e7\u00e3o; trata-se do mesmo fen\u00f4meno, de uma grande fragilidade moral que marca a hist\u00f3ria do Brasil. Soma-se a esse fator o crescimento do tr\u00e1fico, da lucratividade, a fragilidade do estado de direito e a impunidade. A mistura desses grandes fatores sociol\u00f3gicos define uma combust\u00e3o geradora de indiv\u00edduos voltados para o crime, seja o crime da rua ou o do colarinho branco; s\u00e3o fen\u00f4menos que est\u00e3o muito interligados.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Alguns defendem que a sa\u00edda para essa situa\u00e7\u00e3o seria regular mercados ilegais e fazer prote\u00e7\u00e3o social. O que lhe parece?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 Eu s\u00f3 entendo \u201cregular mercado ilegal\u201d como regulariza\u00e7\u00e3o do mercado para que ele deixe de ser ilegal. N\u00e3o se regula mercado ilegal, porque ele se regula por si mesmo e \u00e9 por isso que a viol\u00eancia \u00e9 parte dele, porque as d\u00edvidas, os conflitos existentes nesse mercado ilegal s\u00e3o resolvidos pela viol\u00eancia e n\u00e3o pela negocia\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, n\u00e3o se regula mercado ilegal atrav\u00e9s do Estado. O Estado s\u00f3 pode intervir no mercado ilegal do tr\u00e1fico de drogas, se legalizar o mercado de compra e venda de drogas, por exemplo, ou seja, teria que regulamentar e legalizar n\u00e3o s\u00f3 a compra e venda, mas tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o, que seriam controladas pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Concordo que essa seria uma medida definitiva, mas mesmo assim ela n\u00e3o vai acabar com o crime; talvez v\u00e1 diminuir o tr\u00e1fico de drogas. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 simples fazer isso. N\u00e3o h\u00e1 nenhum pa\u00eds no mundo at\u00e9 o momento que fez isso nesse \u00e2mbito. Temos de tomar muito cuidado com essas propostas, pens\u00e1-las com cautela, porque n\u00e3o \u00e9 simples dizer que vamos poder legalizar todo e qualquer tipo de drogas no Brasil. N\u00e3o adianta legalizar s\u00f3 a maconha, porque isso n\u00e3o vai interferir em nada na viol\u00eancia, pois os maiores problemas relacionados ao consumo t\u00eam liga\u00e7\u00e3o com a coca\u00edna e com o crack. Ent\u00e3o, continuo defendendo que a legaliza\u00e7\u00e3o das drogas \u00e9 algo que deva ser discutido no \u00e2mbito internacional, e o Brasil pode come\u00e7ar a defender essa proposta na ONU, mas antes disso, em \u00e2mbito local, temos de continuar fazendo a repress\u00e3o ao tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Legalizar apenas uma droga n\u00e3o acaba com o tr\u00e1fico. Dizer que a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha vai ser uma solu\u00e7\u00e3o, como o Uruguai fez, \u00e9 uma ingenuidade, porque isso n\u00e3o far\u00e1 nem c\u00f3cegas no problema brasileiro. A pergunta a ser feita \u00e9: vamos ter coragem de legalizar o crack, ou vamos ter coragem de permitir o acesso das pessoas ao consumo do crack? N\u00e3o \u00e9 simples responder a essa pergunta. N\u00f3s nem saber\u00edamos como fazer isso, porque o Estado teria que produzir o crack e disponibiliz\u00e1-lo para os usu\u00e1rios. Temos que ter muito cuidado, porque n\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil para esse problema.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Dizer que a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha vai ser uma solu\u00e7\u00e3o, como o Uruguai fez, \u00e9 uma ingenuidade, porque isso n\u00e3o far\u00e1 nem c\u00f3cegas no problema brasileiro&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>IHU On-Line \u2013 Por que o tr\u00e1fico tomou uma dimens\u00e3o t\u00e3o grande na sociedade brasileira?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 Pela lucratividade e, principalmente, porque ele se consolidou na periferia urbana de uma maneira muito espec\u00edfica &#8211; esse \u00e9 o grande detalhe: \u00e9 o tr\u00e1fico das gangues, dos grupos, \u00e9 um tr\u00e1fico muito violento. Ele se configurou dessa maneira pela hist\u00f3rica exclus\u00e3o social dessas regi\u00f5es das cidades, pela exclus\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es negras, dos analfabetos e, historicamente, essas regi\u00f5es se tornaram locais de mercados ilegais, de \u201cgatos\u201d, de modos ilegais de resolver problemas, ou seja, s\u00e3o regi\u00f5es nas quais a criminaliza\u00e7\u00e3o encontrou um local adequado pela falta de urbaniza\u00e7\u00e3o, de servi\u00e7os p\u00fablicos adequados.<\/p>\n<p>O Brasil paga o pre\u00e7o por 500 anos de neglig\u00eancia com as camadas mais pobres. E o tr\u00e1fico de drogas encontrou um terreno f\u00e9rtil para se consolidar; agora, acabar com o tr\u00e1fico ser\u00e1 dif\u00edcil. N\u00e3o iremos resolver esse problema simplesmente urbanizando as favelas, porque ele continuar\u00e1 existindo, como acontece hoje, inclusive, com oPrograma Minha Casa Minha Vida, em que alguns conjuntos habitacionais padecem nas m\u00e3os de traficantes que est\u00e3o se apropriando desses espa\u00e7os e expulsando moradores. A inclus\u00e3o social dessas periferias n\u00e3o vai resolver o problema. O que temos \u00e9 um desafio complicado pela frente, e volto a dizer: a resolu\u00e7\u00e3o do problema n\u00e3o depende de investimento social e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar tamb\u00e9m que as favelas brasileiras n\u00e3o s\u00e3o mais as mesmas de 20 anos atr\u00e1s e muitas delas j\u00e1 s\u00e3o segmentos de classe m\u00e9dia. Pesquisas do Data Popular, do Rio de Janeiro, mostram como a favela de hoje n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o urbano da miserabilidade apenas \u2013 ela continua existindo -, existem setores socialmente e economicamente inclu\u00eddos. Mas obviamente \u00e9 preciso melhorar o acesso dessas pessoas \u00e0 universidade, e h\u00e1 muito a fazer ainda.<\/p>\n<p>O Brasil, se quer se tornar um pa\u00eds justo, precisa ampliar o acesso desses segmentos aos servi\u00e7os p\u00fablicos, especialmente o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, aos empregos e a uma melhor remunera\u00e7\u00e3o para diminuir a desigualdade. Isso ainda vai demorar algumas d\u00e9cadas, mas o nosso desafio, hoje, envolve uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica que seja capaz de reduzir a capacidade do tr\u00e1fico de recrutar jovens e que fa\u00e7a uma repress\u00e3o qualificada, que reduza a impunidade, que mostre claramente que matar neste pa\u00eds tem um pre\u00e7o e que ningu\u00e9m pode ficar andando com arma de fogo na rua, na viela e na comunidade como se fosse dono daquele lugar. Isso envolve estado de direito, envolve uma capacidade repressiva dentro da lei, e essa \u00e9 a \u00fanica maneira de, no curto prazo, diminuir o dom\u00ednio do tr\u00e1fico de drogas, com o Estado ocupando o territ\u00f3rio que o traficante hoje ocupa, com pol\u00edcia, com defensoria p\u00fablica, com juizado especial, com entidades de defesa e direito do consumidor, ou seja, o estado de direito tem que penetrar efetivamente nesses locais.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Alguns pesquisadores tamb\u00e9m comentam que tanto o sistema criminal quanto o estatal sofriam press\u00f5es para baixar os homic\u00eddios em cidades como S\u00e3o Paulo e afirmam que o crime tem sido mais efetivo que o Estado na diminui\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios, por exemplo. Concorda com essa an\u00e1lise? A que atribui a redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios em locais como S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 Em parte, sim. O caso de S\u00e3o Paulo \u00e9 muito singular. Trata-se de um estado que ao longo de 15 anos reduziu mais de 70% do n\u00famero de homic\u00eddios e n\u00e3o h\u00e1 precedentes no Brasil de uma situa\u00e7\u00e3o como essa. Houve a\u00ed uma combina\u00e7\u00e3o de dois fatores. Houve uma melhoria da atua\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias e do sistema prisional nesse per\u00edodo, e a impunidade, na quest\u00e3o dos homic\u00eddios, diminuiu em S\u00e3o Paulo, principalmente entre 2000 e 2007, porque houve planejamento estrat\u00e9gico, investimento na pol\u00edcia, aumento na pris\u00e3o de homicidas, fortalecimento na investiga\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios; ent\u00e3o, matar come\u00e7ou a ficar custoso em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, a repress\u00e3o ao uso de arma de fogo tamb\u00e9m foi grande no estado e isso inibiu o tr\u00e1fico e a criminalidade. Por outro lado, paralelamente, o PCC come\u00e7ou a dominar mais a periferia e imp\u00f4s uma regra de n\u00e3o viol\u00eancia, de solu\u00e7\u00e3o negociada dos conflitos, e ficou determinado que matar s\u00f3 seria algo a ser feito em \u00faltima inst\u00e2ncia. Essa moralidade do PCC certamente impactou, e muito, na redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios em fun\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de drogas. Os dois fatores juntos, ao longo do tempo, explicam esse resultado t\u00e3o impressionante de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m investiu mais em encarceramentos. Quais as consequ\u00eancias da aposta neste tipo de dire\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 Aprisionar por aprisionar n\u00e3o resolve a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o adianta ter pura e simplesmente umapol\u00edtica de encarceramento, por exemplo, com uma meta de aumentar o n\u00famero de pris\u00f5es de traficantes porque isso reduzir\u00e1 o n\u00famero da viol\u00eancia no Brasil. Isso n\u00e3o tem resultado, porque a pris\u00e3o de traficantes significa que outros tomar\u00e3o o lugar deles, ent\u00e3o a\u00e7\u00f5es como essas t\u00eam se mostrado muito ineficazes para reduzir a viol\u00eancia entre osjovens. Mas a pris\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser descartada e ser simplesmente abandonada; ela n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o suficiente para resolver e reduzir a viol\u00eancia no Brasil, mas ela \u00e9 necess\u00e1ria. A puni\u00e7\u00e3o eficaz \u00e9 fundamental para reduzir a viol\u00eancia, principalmente nos casos de homic\u00eddios e assaltos, e \u00e9 fundamental tamb\u00e9m para inibir que alguns adolescentes entrem no mundo do crime. O adolescente tem que perceber que se ele adentrar no mundo do crime, o risco de ele ser preso, processado e condenado \u00e9 grande; isso \u00e9 fundamental em uma sociedade civilizada e esse caminho o Brasil tamb\u00e9m deve percorrer.<\/p>\n<p>A impunidade no pa\u00eds \u00e9 muito elevada. O que n\u00e3o significa que a pol\u00edcia tem que fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os, pois, ao fazer isso, a pol\u00edcia est\u00e1 complicando mais o problema ao inv\u00e9s de solucion\u00e1-lo. \u00c9 um desafio fazer com que a pol\u00edcia trabalhe melhor, de modo mais eficiente e que o sistema socioeducativo e prisional tamb\u00e9m tenha o m\u00ednimo de dignidade para abrigar o criminoso, mas que a pris\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, ela \u00e9, indiscutivelmente.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Se S\u00e3o Paulo reduziu o n\u00famero de homic\u00eddios, por outro lado, criou o PCC e deixou esse legado&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>IHU On-Line \u2013 Por que o crime ainda tem um poder t\u00e3o grande a ponto de o PCC exercer uma influ\u00eancia fundamental, inclusive, na pr\u00f3pria regula\u00e7\u00e3o do crime?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 Porque essa organiza\u00e7\u00e3o surgiu h\u00e1 23 anos e se fortaleceu, n\u00e3o foi destitu\u00edda e, com o crescimento da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, se expandiu ainda mais, porque \u00e9 muito poderosa dentro das pris\u00f5es e se tornou poderosa tamb\u00e9m fora das pris\u00f5es, como se fosse uma m\u00e1fia, se pud\u00e9ssemos fazer uma compara\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que tem uma estrutura \u00e1gil e atua como um poder paralelo. Se S\u00e3o Paulo reduziu o n\u00famero de homic\u00eddios, por outro lado, criou o PCC e deixou esse legado. Ainda n\u00e3o temos clareza de como o PCC quer se expandir no territ\u00f3rio nacional; h\u00e1 ind\u00edcios de que ele n\u00e3o quer se limitar apenas \u00e0 fronteira de S\u00e3o Paulo e hoje a presen\u00e7a do PCC no Paran\u00e1 \u00e9 muito grande. Ent\u00e3o, esse \u00e9 um grande problema para o Brasil e para o estado de direito. Uma sociedade que quer ser justa n\u00e3o pode ficar convivendo com uma estrutura criminosa que \u00e9 t\u00e3o forte. Esse \u00e9 um desafio permanente daqui para frente.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Existem propostas de como desestruturar uma organiza\u00e7\u00e3o como essa?<\/p>\n<p>Luis Fl\u00e1vio Sapori \u2013 N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. Nem os europeus e os americanos conseguiram acabar com as m\u00e1fias e elas continuam existindo mesmo nos pa\u00edses mais civilizados. N\u00e3o podemos ter a ilus\u00e3o de que vamos acabar com o crime organizado no Brasil. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode achar que \u00e9 poss\u00edvel deix\u00e1-lo crescer. Para que ele n\u00e3o cres\u00e7a e se fortale\u00e7a ainda mais, o governo federal tem que coordenar um grande esfor\u00e7o nacional; temos que ter uma for\u00e7a-tarefa coordenada no \u00e2mbito federal, envolvendo pol\u00edcia federal, governos estaduais, Minist\u00e9rio P\u00fablico, no sentido de ter uma a\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia constante contra o PCC. Esse grupo de trabalho j\u00e1 deveria ter sido montado h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o d\u00e1 para esperar que cada governador fa\u00e7a o seu trabalho; isso tem de ser feito no \u00e2mbito do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/557474-a-violencia-brasileira-nao-e-mais-produto-da-miseria-e-da-pobreza-tem-origem-na-fragilidade-moral-da-sociedade-entrevista-especial-com-luis-flavio-sapori<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patricia Fachin &#8211;\u00a0\u201cEste \u00e9 o cen\u00e1rio brasileiro hoje: um pa\u00eds que avan\u00e7ou economicamente &#8211; a despeito da crise recente -, um pa\u00eds que avan\u00e7ou socialmente, reduziu muito a pobreza e a mis\u00e9ria e, ao mesmo tempo, trouxe no seu bojo o crescimento da viol\u00eancia, porque o tr\u00e1fico se consolidou no pa\u00eds\u201d, constata o soci\u00f3logo e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1122,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1121","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A viol\u00eancia brasileira n\u00e3o \u00e9 mais produto da mis\u00e9ria e da pobreza; 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