{"id":11178,"date":"2019-08-07T09:42:14","date_gmt":"2019-08-07T12:42:14","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11178"},"modified":"2019-08-04T12:51:50","modified_gmt":"2019-08-04T15:51:50","slug":"uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/","title":{"rendered":"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador"},"content":{"rendered":"<p><b>Heitor Peixoto &#8211; <\/b>\u201cUberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho: caminhamos para a servid\u00e3o, e isso ainda ser\u00e1 um privil\u00e9gio.<\/p>\n<p id=\"wwywvOP\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"332\" class=\"alignnone size-full wp-image-11186 \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/img_5d46fdc2c04c7.png?resize=640%2C332\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/img_5d46fdc2c04c7.png?w=676&amp;ssl=1 676w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/img_5d46fdc2c04c7.png?resize=300%2C156&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Ricardo Antunes \u00e9 um incans\u00e1vel pensador sobre o mundo do trabalho. P\u00f3s-doutor pela Universidade de Sussex (Inglaterra) e professor titular de Sociologia do Trabalho na Unicamp, perdeu a conta dos artigos cient\u00edficos, cap\u00edtulos, e, claro, livros lan\u00e7ados no Brasil e no exterior ao longo de sua carreira acad\u00eamica. Publica\u00e7\u00f5es em que aprofunda an\u00e1lises sobre as din\u00e2micas, contradi\u00e7\u00f5es e opress\u00f5es do mercado de trabalho nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O livro mais recente tem no t\u00edtulo o que pode ser tomado, dentro de uma rela\u00e7\u00e3o de trabalho, como uma ironia ou provoca\u00e7\u00e3o ao lado mais forte da corda (o do empregador), em raz\u00e3o das agruras a que vem submetendo o lado mais fraco dela (naturalmente, o do empregado). Rela\u00e7\u00e3o, a prop\u00f3sito, em condi\u00e7\u00f5es flagrante e abertamente desequilibradas, dada a situa\u00e7\u00e3o dos agonizantes direitos trabalhistas, atacados em m\u00faltiplas frentes, sobretudo nos governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro (mas com bal\u00f5es de ensaio ainda nos anos de Collor e FHC).<\/p>\n<p>A obra \u00e9\u00a0\u201cO privil\u00e9gio da servid\u00e3o: o novo proletariado de servi\u00e7os na era digital\u201d,\u00a0lan\u00e7ado pela\u00a0Boitempo Editorial. A primeira parte do t\u00edtulo, a tal provoca\u00e7\u00e3o mencionada acima, \u00e9 cita\u00e7\u00e3o literal garimpada do escritor e fil\u00f3sofo Albert Camus. No livro de Antunes, \u00e9 como uma alegoria sobre a situa\u00e7\u00e3o vivida por um n\u00famero crescente de trabalhadores no Brasil, especialmente aqueles que v\u00eam se agarrando ao prec\u00e1rio trabalho em aplicativos como Uber, Cabify, Rappi e tantos outros, para mover o pesco\u00e7o acima do p\u00e2ntano do desemprego cr\u00f4nico e persistente nos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>Em tempos do que o soci\u00f3logo chama de \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho, \u201cse homens e mulheres tiverem sorte hoje, o seu trabalho ser\u00e1 prec\u00e1rio\u201d. Ser\u00e3o servos, e isso ainda assim ser\u00e1 um privil\u00e9gio, em compara\u00e7\u00e3o com o desastre ainda maior, que \u00e9 o do desemprego.<\/p>\n<p>Foi neste julho friorento que Antunes deu uma pausa em suas f\u00e9rias acad\u00eamicas para, literalmente, falar de trabalho, nesta entrevista exclusiva ao\u00a0<b>Congresso em Foco.<\/b><\/p>\n<p><b><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-391703 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.congressoemfoco.uol.com.br\/2019\/07\/o-privilegio-da-servidao-646.jpg?resize=370%2C530&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"530\" \/><\/b><\/p>\n<p><b>O livro exp\u00f5e as v\u00edsceras do que chama de \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho, processo que talvez devesse suscitar um urgente debate sobre consci\u00eancia de classe, dada a precariza\u00e7\u00e3o a que esses trabalhadores est\u00e3o submetidos. Mas como fazer esse debate e promover uma luta contra esses efeitos, quando esse trabalho precarizado \u00e9 tudo o que restou para tantos trabalhadores brasileiros?<\/b><\/p>\n<p>Essa forma que n\u00f3s hoje denominamos como \u201cuberiza\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d \u00e9 o mascaramento de rela\u00e7\u00f5es assalariadas, que assumem a apar\u00eancia do trabalho do empreendedor, do trabalho do prestador de servi\u00e7os, dos trabalhos desprovidos de direitos.<\/p>\n<p>N\u00f3s vimos recentemente a morte de um trabalhador que estava entregando alimentos do Rappi. Quando ele come\u00e7ou a se sentir mal, n\u00e3o teve nenhum tipo de atendimento digno dentro da empresa para a qual estava entregando aquilo que foi solicitado a essa empresa, n\u00e3o teve atendimento por parte do servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade, e essa \u00e9 a trag\u00e9dia dos trabalhadores, digamos assim, \u201cuberizados\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o trabalhadores que seguem o que na Inglaterra se chama \u201co contrato de zero hora\u201d (\u201czero-hour contract\u201d em ingl\u00eas; ou os \u201crecibos verdes\u201d em Portugal; ou o que existiu na It\u00e1lia at\u00e9 2017: o trabalho pago por voucher). S\u00e3o modalidades de\u00a0<a href=\"https:\/\/congressoemfoco.uol.com.br\/opiniao\/forum\/trabalho-intermitente-dados-e-sua-controversa-aceitacao\/\"><b>trabalho intermitente<\/b><\/a>, em que os trabalhadores s\u00e3o chamados a trabalhar, e s\u00f3 recebem por aquelas horas que trabalham. O tempo que eles ficam esperando, eles n\u00e3o trabalham.<\/p>\n<p>Os direitos desaparecem, porque se desvanece a figura do trabalhador ou da trabalhadora, e se faz aflorar a falsa ideia de um empreendedor, de um PJ, de um trabalhador que \u00e9 dono do seu instrumental de trabalho, e isso faz com que a degrada\u00e7\u00e3o da vida no trabalho no capitalismo do nosso tempo chegue a um patamar que se assemelha, em plena era informacional-digital, \u00e0 era da revolu\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que eu digo no meu livro que n\u00f3s estamos vivendo uma era de escravid\u00e3o digital. O mundo maqu\u00ednico informacional-digital, ao inv\u00e9s de trazer a redu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho, as melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, mais tempo de vida fora do trabalho, menos pen\u00faria no trabalho, tem sido o oposto.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Isso \u00e9 muito importante: porque se trata de uma tecnologia que n\u00e3o tem valores humanos ou societais. O mundo informacional do nosso tempo, do qual a ind\u00fastria 4.0 \u00e9 o seu pretenso \u00e1pice, n\u00e3o tem um sentido humano ou societal, e sim um sentido de valorizar, ampliar a riqueza das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O resultado disso \u00e9 que n\u00f3s temos uma heterogeneidade muito grande do trabalho, mas com um tra\u00e7o em comum: a homogeneiza\u00e7\u00e3o que caracteriza esse mosaico de trabalhos distintos, que \u00e9 a tend\u00eancia \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o. Esse vai ser, digamos assim, o ponto mais importante nas lutas do nosso tempo.<\/p>\n<p>N\u00f3s vimos em maio deste ano uma primeira paralisa\u00e7\u00e3o, uma primeira greve de amplitude global dos trabalhadores e das trabalhadoras da Uber. Naturalmente, que ningu\u00e9m possa esperar que a primeira greve seja a mais potente de todas, mas ela \u00e9 um exemplo de descontentamento frente a esse tipo de trabalho. Os trabalhadores e as trabalhadoras sabem que para sobreviver trabalhando numa empresa como Uber, Cabify, 99, Rappi e todas as outras que n\u00f3s n\u00e3o paramos de ver crescer, eles t\u00eam que trabalhar 10, 12, 14, 16, \u00e0s vezes 18 horas por dia. Isso coloca uma quest\u00e3o fundamental: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aceitar.<\/p>\n<p>E como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel lutar contra esses efeitos? Primeiro: retomar as quest\u00f5es vitais. O trabalho deve ter, na medida em que ele se constitui numa atividade vital, elementos de dignidade, que essa nova modalidade de trabalho n\u00e3o apresenta. Segundo: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aceitar a corros\u00e3o, a derreli\u00e7\u00e3o, a devasta\u00e7\u00e3o cabal dos direitos do trabalho.<\/p>\n<p>N\u00f3s acabamos de ver no Congresso essa medida horrorosa da chamada\u00a0<a href=\"https:\/\/congressoemfoco.uol.com.br\/opiniao\/forum\/a-paradoxal-mp-da-liberdade-economica-avanco-ou-retrocesso\/\"><b>liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<\/b><\/a>, em que, de sopet\u00e3o, algumas dezenas de artigos da CLT est\u00e3o sendo fraudados novamente. O Brasil est\u00e1 se convertendo numa \u00cdndia. Esse monumental pa\u00eds da \u00c1sia, com mais de um bilh\u00e3o de habitantes, tem centenas de milh\u00f5es de trabalhadores desempregados. E mais: a \u00cdndia tem um contingente imenso de indiv\u00edduos que est\u00e3o abaixo da linha m\u00ednima da dignidade humana. S\u00e3o pessoas que vivem um padr\u00e3o de vida t\u00edpico de um indiv\u00edduo que tenta sobreviver na indig\u00eancia.<\/p>\n<p>O Brasil caminha tragicamente para esse quadro de indig\u00eancia que tipifica a \u00cdndia, e n\u00e3o \u00e9 por acaso. Tanto l\u00e1 na \u00cdndia como aqui, h\u00e1 uma burguesia riqu\u00edssima, que n\u00e3o tem limites em se expandir. Basta dizer que os cinco maiores e mais ricos empres\u00e1rios brasileiros recebem uma renda que se aproxima \u00e0quela que \u00e9 produzida por 100 milh\u00f5es de pessoas no mesmo pa\u00eds. \u00c9 esse n\u00edvel de trag\u00e9dia social que n\u00f3s n\u00e3o podemos aceitar.<\/p>\n<p><b>Na obra, voc\u00ea mostra que tamb\u00e9m a classe m\u00e9dia estaria num processo de corros\u00e3o, que a aproxima mais do proletariado do que da elite, dando como exemplo profiss\u00f5es outrora elitizadas, mas que j\u00e1 come\u00e7aram a enfrentar a precariza\u00e7\u00e3o (como m\u00e9dicos e advogados). A falta de consci\u00eancia de classe tamb\u00e9m est\u00e1 presente entre esses?<\/b><\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o importante a\u00ed \u00e9 que a consci\u00eancia de classe \u00e9 algo que articula elementos objetivos e subjetivos. Por exemplo: a \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho leva \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o, mas, num dado momento, esse processo, essa intensidade, esse ritmo e essa superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho acabam gerando formas de solidariedade, de sociabilidade, que resultaram, em meados de maio deste ano, na primeira paralisa\u00e7\u00e3o global da Uber.<\/p>\n<p>As classes m\u00e9dias s\u00e3o um contingente social heterog\u00eaneo. As classes m\u00e9dias mais altas, que vivem estritamente do trabalho intelectual, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais as mesmas condi\u00e7\u00f5es sociais do passado. Hoje voc\u00ea tem m\u00e9dicos que est\u00e3o proletarizados, que trabalham em v\u00e1rias empresas fornecedoras de servi\u00e7os de sa\u00fade (conv\u00eanios). N\u00f3s temos advogados hoje que trabalham como \u201cs\u00f3cios\u201d de escrit\u00f3rios. Se eles n\u00e3o levam trabalho para esse escrit\u00f3rio e n\u00e3o realizam esses trabalhos, n\u00e3o recebem. \u00c9 uma esp\u00e9cie de trabalhador que tem que buscar o seu trabalho. Para poder vend\u00ea-lo. Para depois poder sobreviver.<\/p>\n<p>Tudo isso cria dificuldades com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 consci\u00eancia de classe. Ela decorre tamb\u00e9m do esp\u00edrito do tempo, e o esp\u00edrito do nosso tempo \u00e9 de devasta\u00e7\u00e3o, de contrarrevolu\u00e7\u00e3o, de neoliberaliza\u00e7\u00e3o, de financeiriza\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos vivendo uma etapa dif\u00edcil da hist\u00f3ria mundial.<\/p>\n<p>Os anos de 2009, 2010, 2011, 2012 e especialmente o ano de 2013 foram de rebeli\u00f5es. Come\u00e7ou pela Tun\u00edsia, esparramou-se por todo o Oriente M\u00e9dio, Egito e tantas outras partes; rebeli\u00f5es na Europa, como na Fran\u00e7a, na Inglaterra, na Gr\u00e9cia, em Portugal, na Espanha; o Occupy Wall Street nos EUA. Houve um conjunto de descontentamentos, revoltas e rebeli\u00f5es.<\/p>\n<p>De algum modo, [os atos] foram se escasseando, foram se exaurindo, e, a essa era de rebeli\u00f5es, sucedeu-se uma era de contrarrevolu\u00e7\u00f5es. Isso se expressa politicamente na vit\u00f3ria da direita e da extrema-direita em v\u00e1rias partes do mundo, como um desencanto com o per\u00edodo anterior. N\u00e3o \u00e9 a direita que est\u00e1 sendo vitoriosa. \u00c9 a extrema-direita, como n\u00f3s estamos vendo inclusive no caso brasileiro.<\/p>\n<p><b>Ainda no seu estudo, vemos que Collor e FHC tentaram promover altera\u00e7\u00f5es mais profundas na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e n\u00e3o conseguiram. O que faltou aos dois em suas respectivas conjunturas, e que, adiante (no caso, nesses \u00faltimos anos), deixou de ser obst\u00e1culo \u00e0s medidas rumo \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Collor e Fernando Henrique Cardoso foram vitoriosos (eleitoralmente) em um outro momento da hist\u00f3ria. Foram governos subsequentes \u00e0 ditadura militar. Como sabemos, o primeiro governo foi de Sarney, uma esp\u00e9cie de governo inusitado, tamp\u00e3o (porque Sarney n\u00e3o foi eleito; quem foi eleito pela via indireta foi Tancredo Neves), mas Collor e Fernando Henrique tentaram introduzir o neoliberalismo no Brasil e, consequentemente, essas reformas nefastas, e havia naquele per\u00edodo um sentimento antineoliberal muito importante aqui.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, houve no Brasil os mais altos n\u00edveis de greves, inclusive comparado a outros pa\u00edses. Esse movimento dos anos 80 constituiu uma barreira importante para Collor: esse governo grotesco, esse neoliberalismo completamente irracional no seu modus operandi, essa irracionalidade, tudo isso fez com que em dois anos esse governo desaparecesse. O impeachment o levou de rold\u00e3o. E o Fernando Henrique Cardoso subiu para implantar um neoliberalismo racional, mas ele sofreu tamb\u00e9m muita oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que \u00e9 diferente em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo atual? Vamos pegar o governo Temer e agora Bolsonaro: \u00e9 uma era de contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva de amplitude global, de neoliberalismo extremado, de financeiriza\u00e7\u00e3o sem limites da economia, de devasta\u00e7\u00e3o dos direitos sociais. \u00c9 o fim de qualquer experi\u00eancia de concilia\u00e7\u00e3o de classes. E este cen\u00e1rio &#8211; a vit\u00f3ria de Trump nos EUA; o Brexit na Inglaterra; a Le Pen quase ganhando as elei\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a, e Macron conseguindo derrot\u00e1-la porque contou com o apoio dos votos do centro e da esquerda, temerosos que estavam, com medo de um governo fascista como Le Pen; a vit\u00f3ria de um governo protofascista na Hungria; a expans\u00e3o do neonazismo na Alemanha e em v\u00e1rias outras partes do mundo -, todo esse cen\u00e1rio favoreceu com que o neoliberalismo extremado vivesse o seu per\u00edodo de ataque frontal.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 essa: aquele primeiro momento, com Collor e Fernando Henrique, era uma \u00e9poca de avan\u00e7o contra o neoliberalismo. Agora, n\u00f3s estamos vivendo uma era de contrarrevolu\u00e7\u00e3o, que quer aprofundar um liberalismo extremado.<\/p>\n<p><b>No meio desses modelos neoliberais que j\u00e1 comandaram o pa\u00eds, tivemos na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo a ascens\u00e3o de governos do PT no plano federal, partido nascido da classe trabalhadora. Voc\u00ea fala em avan\u00e7os e recuos ocorridos nos governos petistas. Quais s\u00e3o eles?<\/b><\/p>\n<p>Eu procuro trabalhar mais detalhadamente esse tema no meu livro. O PT nasceu talvez como o mais importante partido de massas, de esquerda, na Am\u00e9rica Latina, e que tanta influ\u00eancia teve em tantos pa\u00edses do mundo. Mas entre os anos de nascimento do PT &#8211; a sua primeira d\u00e9cada &#8211; e o que veio depois, pouco a pouco o PT foi deixando de ser um partido de classe e de massas, para se tornar um partido adequado ao processo eleitoral. E quanto mais ele adentrava no processo eleitoral e fazia uma muta\u00e7\u00e3o &#8211; metamorfoses para se tornar palat\u00e1vel, aceito pela ordem no Brasil -, mais ele perdia o v\u00ednculo original de classe.<\/p>\n<p>De tal modo que o PT que ganhou as elei\u00e7\u00f5es em 2002 \u00e9 muito diferente do PT que perdeu as elei\u00e7\u00f5es em 1989. O que ganhou tinha em suas propostas a \u201cCarta aos Brasileiros\u201d, que deixava claro que os bancos n\u00e3o teriam que ter nenhum receio com rela\u00e7\u00e3o ao governo do PT. E assim foi. Foi essencialmente um governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, um governo que trouxe avan\u00e7os, \u00e9 ineg\u00e1vel, especialmente durante os dois primeiros governos Lula (especialmente o segundo governo) e parte do primeiro governo Dilma.<\/p>\n<p>Mas a partir de um dado momento, quando a crise econ\u00f4mica global atingiu o Brasil (a partir de 2013), a devasta\u00e7\u00e3o aqui foi de grande monta. Ali\u00e1s, as rebeli\u00f5es de 2013 sinalizaram isso, e o governo Dilma foi incapaz de entender que o descontentamento que ali emergia tinha similitudes com esses descontentamentos que est\u00e1vamos vivenciando em v\u00e1rias partes do mundo.<\/p>\n<p>O resultado, isso \u00e9 muito triste, mas \u00e9 importante constatar: o governo do PT, mesmo criando 20 milh\u00f5es de empregos, o Bolsa Fam\u00edlia, e trazendo um pequeno mas relativo aumento salarial, especialmente quando comparado ao do governo Fernando Henrique Cardoso, no conjunto das suas medidas, das suas a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o trouxe nenhuma mudan\u00e7a estrutural significativa. A estrutura concentrada da terra se manteve, mas o governo do PT foi um enorme incentivador do agroneg\u00f3cio &#8211; o Lula chegou a dizer, pasmem, que os grandes her\u00f3is brasileiros eram os donos do agroneg\u00f3cio (eu espero que ele tenha se arrependido profundamente dessa frase, dado o absurdo que ela significa, e o que se passou com o [pr\u00f3prio] Lula depois). E nenhum interesse financeiro foi tocado.<\/p>\n<p>O Lula tamb\u00e9m disse que nunca os bancos tinham ganho tanto dinheiro como no seu governo. E ele tinha raz\u00e3o. S\u00f3 h\u00e1 um equivalente ao lucro banc\u00e1rio quando a ditadura militar tamb\u00e9m veio e o incentivou. Foi o primeiro salto financista no Brasil. Sob o governo Lula, os bancos se expandiram, bem como a ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil e v\u00e1rias outras, com os\u00a0<a href=\"https:\/\/congressoemfoco.uol.com.br\/opiniao\/forum\/o-que-ha-de-oculto-no-financiamento-do-bndes-a-venezuela\/\"><b>v\u00e1rios projetos do BNDES, de incentivo ao empresariado brasileiro<\/b><\/a>. Favoreceram a transnacionaliza\u00e7\u00e3o de alguns setores da nossa burguesia, que entraram no mercado externo.<\/p>\n<p>Foi inclusive essa simbiose entre os governos do PT (especialmente sob Lula) e esse empresariado que se expandiu, que fez com que, aos poucos, o PT adentrasse num terreno do qual ele sempre foi cr\u00edtico, que foi o terreno da corrup\u00e7\u00e3o. Todos n\u00f3s sabemos que a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasceu com o PT. Todos n\u00f3s sabemos que a corrup\u00e7\u00e3o sempre foi o espa\u00e7o preferencial da direita, da centro-direita e dos partidos burgueses.<\/p>\n<p>Por certo, \u00e9 verdadeiramente uma trag\u00e9dia que, num dado momento, um partido de esquerda como o PT tenha sido part\u00edcipe dessa trag\u00e9dia da corrup\u00e7\u00e3o, que foi um dos elementos que levaram, inclusive, \u00e0 sua derrota e ao impeachment da presidente Dilma. N\u00f3s sabemos que esse impeachment se deu n\u00e3o pela chamada corrup\u00e7\u00e3o, mas quando, na crise de 2013 para c\u00e1, aos poucos os interesses da burguesia come\u00e7aram a ser afetados.<\/p>\n<p>Num momento de crise, a primeira decis\u00e3o das na\u00e7\u00f5es burguesas \u00e9 \u201cvamos jogar o \u00f4nus da crise em cima da classe trabalhadora\u201d. O que est\u00e3o fazendo\u00a0 [agora], e que o governo Temer fez por excel\u00eancia. Todas as medidas do Temer eram de um verdadeiro governo terceirizado. Temer foi posto por um golpe, para come\u00e7ar a devasta\u00e7\u00e3o social no Brasil que o governo de concilia\u00e7\u00e3o do PT n\u00e3o podia fazer nessa intensidade. E isso fez com que o quadro se modificasse profundamente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, as vantagens ocorreram: aumento de emprego, melhor pol\u00edtica salarial, mas as quest\u00f5es estruturais n\u00e3o foram afetadas, seja no plano da estrutura agr\u00e1ria, financeira, urbana, da pol\u00edtica de transporte coletivo, da sa\u00fade p\u00fablica e de um conjunto de outros elementos com os quais, em 2013, com as rebeli\u00f5es, n\u00f3s v\u00edamos a popula\u00e7\u00e3o manifestar um enorme descontentamento.<\/p>\n<p><b>Mesmo com toda a aridez da realidade que traz em seu livro, voc\u00ea demonstra algum otimismo, ao dizer que n\u00e3o imagina que a hist\u00f3ria do trabalho terminar\u00e1 nos par\u00e2metros de hoje. Que horizonte vislumbra \u00e0 frente e, antes disso, como os trabalhadores de agora conseguir\u00e3o vencer essa conjuntura t\u00e3o nefasta?<\/b><\/p>\n<p>O genial dos processos hist\u00f3ricos, da constru\u00e7\u00e3o humana ao longo da hist\u00f3ria, \u00e9 que ela \u00e9 imprevis\u00edvel. N\u00f3s tivemos depois da era das trevas da Idade M\u00e9dia um per\u00edodo espetacular do Renascimento. Depois da era feudal, do obscurantismo da igreja durante a Idade M\u00e9dia, dos governos absolutistas profundamente autocr\u00e1ticos, n\u00f3s tivemos a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, com a liberdade, a igualdade e a fraternidade, com lutas sociais. Depois do fracasso da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, n\u00f3s tivemos as revolu\u00e7\u00f5es de 1848 e a eclos\u00e3o da Comuna de Paris, em 1871.<\/p>\n<p>Ou seja, a hist\u00f3ria \u00e9 imprevis\u00edvel, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que no caso brasileiro, 30 milh\u00f5es de trabalhadores sem emprego ou com emprego precarizado, uma taxa de informalidade explosiva, uma corros\u00e3o completa dos direitos sociais, a perda dos direitos previdenci\u00e1rios&#8230; \u00c9 imposs\u00edvel imaginar que essa sociedade n\u00e3o tenha for\u00e7a para se rebelar.<\/p>\n<p>Que horizonte eu vislumbro? Florestan Fernandes falava de uma era de contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva (quando n\u00e3o h\u00e1 o risco das revolu\u00e7\u00f5es). \u00c9 o per\u00edodo em que as classes dominantes se reorganizam e fazem uma era de devasta\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m a era das contrarrevolu\u00e7\u00f5es \u00e9 finita.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 na hist\u00f3ria um per\u00edodo eterno. E o que \u00e9 mais importante: n\u00f3s adentramos em uma nova era de lutas sociais de tipos diferentes. N\u00f3s n\u00e3o temos mais a mesma classe trabalhadora que t\u00ednhamos nos s\u00e9culos XVIII e XIX, seja nos EUA, seja na Europa, seja na China, seja na \u00cdndia, seja no Brasil. Mas n\u00f3s temos uma nova morfologia da classe trabalhadora, em que, por exemplo, a explos\u00e3o do proletariado de servi\u00e7os da era digital \u00e9 o elemento quantitativa e qualitativamente mais importante.<\/p>\n<p>Esse novo proletariado de servi\u00e7os das empresas de call-center, telemarketing, hipermercados, fast-food, ind\u00fastria de turismo, ind\u00fastria hoteleira, motoboys; essa massa de trabalhadores que hoje est\u00e1 uberizada, trabalhando em empresas sob as condi\u00e7\u00f5es mais violentas; \u00e9 evidente que est\u00e1 nascendo a\u00ed um novo contingente heterog\u00eaneo dentro da classe trabalhadora, e que vai ser respons\u00e1vel por muitas lutas sociais.<\/p>\n<p>Para quem olha a hist\u00f3ria, n\u00e3o para os \u00faltimos cinco anos, mas olha a hist\u00f3ria por um longo e amplo per\u00edodo, para quem olha a hist\u00f3ria na amplitude que ela tem, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nem linear, nem est\u00e1vel, mas o mais espetacular dela \u00e9 a sua imprevisibilidade.<\/p>\n<p>Quem podia imaginar que a China, um pa\u00eds enorme, que fez uma revolu\u00e7\u00e3o camponesa e popular em 1949, liderada por um partido comunista, e que num primeiro ciclo tentou instaurar um modelo aut\u00e1rquico, fechado, depois de 20 ou 30 anos passasse por um processo que fez com que se tornasse um pa\u00eds que hoje disputa no mundo global o papel de grande pot\u00eancia capitalista? Eu n\u00e3o vou discutir aqui o car\u00e1ter da China, mas imaginar que a China seja hoje uma pot\u00eancia socialista&#8230; \u00c9 preciso uma dose razo\u00e1vel de otimismo para ver o socialismo onde a explora\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 intensa, a destrui\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 intensa, as lutas sociais s\u00e3o intensas&#8230;<\/p>\n<p>Ou seja, o mundo \u00e9 imprevis\u00edvel. \u00c9 isso que permite que o otimismo seja um tra\u00e7o da minha perspectiva, mesmo quando a an\u00e1lise que eu fa\u00e7o do cen\u00e1rio global seja dura e pessimista.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea \u00e9 um cr\u00edtico agudo do capitalismo, atribuindo a ele \u201ca trag\u00e9dia do desemprego, da destrui\u00e7\u00e3o ambiental, do risco iminente de guerras mundiais, da propriedade privada das grandes corpora\u00e7\u00f5es\u201d e de outras mazelas. Por que, contudo, o grupo que exalta esse modelo saiu t\u00e3o fortalecido das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es? E por que o socialismo continua sendo visto de maneira t\u00e3o negativa por parcelas t\u00e3o numerosas da sociedade brasileira?\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p>O capitalismo vive um momento vitorioso? Vive. Por qu\u00ea? Porque n\u00f3s tivemos neste \u00faltimo per\u00edodo, especialmente o per\u00edodo que eu chamei \u201ca era das rebeli\u00f5es\u201d, um refortalecimento do capitalismo pela via da extrema-direita.<\/p>\n<p>\u00c9 um per\u00edodo de contrarrevolu\u00e7\u00e3o de amplitude global, em que houve um desgaste das chamadas experi\u00eancias \u201csocialistas\u201d, n\u00e3o s\u00f3 o \u201csocialismo\u201d da URSS, do leste europeu, da Coreia, da China, e a\u00ed h\u00e1 uma imprecis\u00e3o na social-democracia europeia: no Partido Socialista franc\u00eas, desde Mitterrand at\u00e9 Hollande, em todos os governos que foram \u201csocialistas\u201d, n\u00e3o houve nenhuma mudan\u00e7a substantiva da sociedade francesa. O governo \u201csocialista\u201d na Inglaterra, desde o antigo Labour Party (o antigo Partido Trabalhista ingl\u00eas), at\u00e9 o per\u00edodo do New Labour, com Tony Blair, foi uma vertente branda do neoliberalismo, ou, como eu costumo chamar, uma vertente social-liberal. Ou seja, em nome do socialismo, pr\u00e1ticas capitalistas no fundo neoliberais foram feitas.<\/p>\n<p>O mesmo se passou na Am\u00e9rica Latina. O governo Lula, eu n\u00e3o caracterizo como um governo socialista. Foi um governo social-liberal. Os pilares fundamentais da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo Lula foram neoliberais. N\u00e3o \u00e9 por acaso que teve um papel proeminente no governo Lula o ministro Meirelles, que foi chamado para ser presidente do Banco Central, e que tinha sido at\u00e9 pouco tempo antes presidente mundial do Banco de Boston. Isso fala por si s\u00f3.<\/p>\n<p>Ou seja, aquele p\u00eandulo eleitoral que \u00e9 muito presente na Europa (partido conservador e partido liberal, ou partido democr\u00e1tico, ou partido socialista); nos EUA (partido democrata e partido conservador); na Inglaterra (Labour Party e o \u201ctories\u201d, o partido conservador); na Fran\u00e7a (o partido de \u201cesquerda\u201d e o partido de direita). Esse p\u00eandulo levou a um desgaste profundo. As democracias do capital se mostraram incapazes de preservar as conquistas sociais, por exemplo, dos pa\u00edses do Welfare State [estado de bem-estar social].<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o cen\u00e1rio \u00e9 muito complicado. E as revolu\u00e7\u00f5es socialistas tamb\u00e9m fracassaram. Quase todas as experi\u00eancias socialistas foram fracassadas. Isso \u00e9 uma evid\u00eancia. De tal modo que o socialismo tem que ser reinventado. E ele ser\u00e1 reinventado a partir de uma autocr\u00edtica profunda das suas experi\u00eancias anteriores.<\/p>\n<p>Por que que ele \u00e9 mal visto no Brasil? Porque a extrema-direita que venceu as elei\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios pa\u00edses (nos EUA; na Hungria; nas Filipinas; tem um primeiro-ministro na It\u00e1lia de claro tra\u00e7o fascista; no caso brasileiro, n\u00e3o paira d\u00favida de que o grupo vitorioso foi a extrema-direita) jogou em cima desse quadro muito ca\u00f3tico do nosso tempo, de contrarrevolu\u00e7\u00e3o, de medo de perda de emprego, de \u00f3dio ao imigrante, de \u00f3dio ao estrangeiro, de \u00f3dio aos, digamos assim, chamados \u201cvermelhos\u201d.<\/p>\n<p>Voc\u00ea imagina: o governo do PT n\u00e3o tomou nenhuma medida socialista no Brasil, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma medida que aproxime levemente o governo do PT ao socialismo, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma medida tomada pelos governo no Uruguai, no Chile, no per\u00edodo de centro-esquerda desses pa\u00edses, que poderia ser chamada de medidas socialistas. Nem a mais remota. Mas estamos vivendo uma era tenebrosa, das trevas.<\/p>\n<p>Ela vai passar, mas a contrarrevolu\u00e7\u00e3o tem que criar alguns dos seus inimigos. E o que \u00e9 essa era de contrarrevolu\u00e7\u00e3o? Ela \u00e9 impulsionada por uma tr\u00edpode destrutiva: 1) uma reestrutura\u00e7\u00e3o permanente do capital, que cria essa muta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ilimitada; 2) o neoliberalismo extremado; e 3), que \u00e9 o mais importante (e isso \u00e9 passageiro na hist\u00f3ria, mas \u00e9 um per\u00edodo de hegemonia): do mais parasit\u00e1rio, da mais destrutiva de todas as formas do capital, que \u00e9 o capital financeiro.<\/p>\n<p>Se houve um momento em que o neoliberalismo estava abaixo do n\u00edvel mais baixo da fossa, agora \u00e9 um momento de hegemonia da aberra\u00e7\u00e3o neoliberal. A hist\u00f3ria \u00e9 imprevis\u00edvel, para um lado e para o outro. E \u00e9 dessa imprevisibilidade que h\u00e1 momentos de ascens\u00e3o e mesmo de hegemonia de valores de esquerda, e h\u00e1 momento de ascens\u00e3o e de hegemonia de valores e de aberra\u00e7\u00f5es da extrema-direita.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea aponta a inviabilidade do modelo de trabalho intermitente, por n\u00e3o permitir qualquer perspectiva de futuro. E por falar em futuro, estamos no auge dos debates sobre reforma da previd\u00eancia. Que leitura faz do projeto em tramita\u00e7\u00e3o no congresso? Ele permitir\u00e1 alguma sa\u00edda para o pa\u00eds, como defendem seus autores, ou intensificar\u00e1 as mazelas do mercado de trabalho adiante?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o paira nenhuma d\u00favida nesse ponto. A chamada \u201cNova Previd\u00eancia\u201d \u00e9 o fim da previd\u00eancia p\u00fablica no Brasil. Ela \u00e9 a express\u00e3o mais pura de um projeto cujo objetivo principal \u00e9 tirar do Estado a obrigatoriedade de um sistema previdenci\u00e1rio minimamente digno e justo. Transferi-lo para o mercado, pela via medonha da capitaliza\u00e7\u00e3o, e, desse modo, fazer com que os trabalhadores e as trabalhadoras tenham que pagar, sem a presen\u00e7a do patronato e sem a presen\u00e7a do Estado. Pela via da capitaliza\u00e7\u00e3o, como se os trabalhadores e as trabalhadoras pudessem fazer poupan\u00e7as \u201cpoupudas\u201d para o seu futuro, se quiserem ter previd\u00eancia. [Nesse ponto, Ricardo Antunes lembra que a proposta da capitaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1, por ora, afastada, mas n\u00e3o duvida de que a ideia possa ser recuperada adiante].<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 um ponto crucial nessa reforma, que \u00e9 pouco tratado: se no Brasil, expande-se hoje o trabalho intermitente; se no Brasil, generalizou-se o trabalho flex\u00edvel; se no Brasil, generalizou-se o espa\u00e7o da terceiriza\u00e7\u00e3o, que \u00e9, em si e por si, o espa\u00e7o da burla, como \u00e9 que eu posso imaginar que os trabalhadores e as trabalhadoras mais pobres, das cidades, do campo, possam tirar recursos para capitalizar, para fazer uma poupan\u00e7a capitalizada? Quantos anos os trabalhadores ter\u00e3o que viver para se aposentar, se o seu trabalho \u00e9 intermitente? Se ora trabalha e ora n\u00e3o trabalha? Quantos anos v\u00e3o ter que trabalhar, ou v\u00e3o ter que pagar sem receber?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a reforma da previd\u00eancia na verdade \u00e9 o fim da previd\u00eancia p\u00fablica no Brasil. As classes m\u00e9dias v\u00e3o se virar com a capitaliza\u00e7\u00e3o, e as classes ricas, as classes burguesas, essas n\u00e3o precisam de previd\u00eancia. A sua previd\u00eancia est\u00e1 garantida pelos bancos que t\u00eam, pelas ind\u00fastrias, pelas fazendas, pelas f\u00e1bricas, pelo com\u00e9rcio, pelas propriedades em geral que t\u00eam.<\/p>\n<p>O elemento mais nefasto dessa reforma \u00e9 como tornar previdente o trabalho intermitente. \u00c9 evidente que essa reforma n\u00e3o trata disso. Ela j\u00e1 foi alterada pelo Congresso, mas \u00e9 um Congresso de maioria neoliberal. Ali\u00e1s, essa \u00e9 a \u201cgrande qualidade\u201d do [Rodrigo] Maia. O Maia se mostra um pol\u00edtico competente, de alma neoliberal, e por isso \u00e9 que ele est\u00e1 sendo um batalhador da reforma que nasceu das m\u00e3os &#8211; ou dos p\u00e9s &#8211; do Guedes.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos num quadro e num momento dif\u00edcil. Mais uma desmontagem que n\u00f3s estamos vivendo no Brasil. Entre tantas outras.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea diz que o livro \u00e9 uma resposta a um conjunto de mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo no mundo do trabalho nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. Que mudan\u00e7as s\u00e3o essas, e, mais do que isso, que resposta a sua an\u00e1lise nos traz?<\/b><\/p>\n<p>As mudan\u00e7as que v\u00eam ocorrendo no mundo do trabalho decorrem de um processo que se inicia com a crise estrutural de 1973, portanto, algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, quando o padr\u00e3o taylorista e fordista (a grande f\u00e1brica, a grande ind\u00fastria, a grande empresa, que teve vig\u00eancia e domin\u00e2ncia no s\u00e9culo XX) entrou em processo de crise profunda.<\/p>\n<p>Ela foi substitu\u00edda pela concep\u00e7\u00e3o de uma chamada \u201cempresa enxuta\u201d (em ingl\u00eas, \u201clean production\u201d). Uma empresa onde cada vez mais o trabalho vivo \u00e9 retra\u00eddo, e cada vez mais se expande o trabalho morto, o maquin\u00e1rio informacional digital. E a partir da\u00ed, desenvolve-se um processo de computadores, smartphones, essa mir\u00edade de equipamentos do chamado mundo informacional digital, que n\u00e3o para de se expandir, porque ele \u00e9 comandado pelo capital financeiro e pela necessidade das grandes corpora\u00e7\u00f5es globais. Dez, quinze, vinte grandes corpora\u00e7\u00f5es globais, que impulsionam esse processo, naquilo que o Karl Polanyi chamava de um \u201cmoinho sat\u00e2nico\u201d, e o resultado disso \u00e9 o plano da classe trabalhadora em escala global: mais informalidade, mais flexibilidade, mais precariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria 4.0, por exemplo, que \u00e9 a proposta que est\u00e1 sendo hoje apresentada em todos os cantos do mundo vai consolidar esse projeto. Tal como ela est\u00e1 sendo proposta, ela ter\u00e1 como consequ\u00eancia a cria\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo pequeno de novos trabalhos, aqueles mais sintonizados com as tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, e uma destrui\u00e7\u00e3o em massa, em escala monumental, profunda nos pa\u00edses capitalistas do norte e mais profunda ainda nos pa\u00edses capitalistas do sul, daquele conjunto de empregos que v\u00e3o ser substitu\u00eddos pela internet das coisas, pela intelig\u00eancia artificial, pela impress\u00e3o 3D, pelo big data, ou seja, esse arsenal tecno-informacional-digital, que, se fosse voltado para o atendimento das necessidades humano-sociais, teria uma resultante. Mas a finalidade desse processo \u00e9, na verdade, o avan\u00e7o das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Eu dou um exemplo: a disputa entre a chinesa Huawei e a Apple norte-americana. Em que isso afeta a humanidade? E o que de positivo isso traz para a humanidade? Nada. \u00c9 uma disputa entre quem vai dominar o mundo informacional digital, o mercado consumidor dos smartphones nos pr\u00f3ximos anos. E isso, digamos assim, n\u00e3o tem significado humano ou societal de grande amplitude.<\/p>\n<p>Ricardo Antunes e a Editora Boitempo reuniram alguns dos principais pontos do livro \u201cO privil\u00e9gio da servid\u00e3o\u201d em um curso gratuito dispon\u00edvel no canal \u201cTV Boitempo\u201d, no Youtube. Veja o v\u00eddeo abaixo.<\/p>\n<div>\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"NOVO CURSO! Ricardo Antunes: &quot;O privil\u00e9gio da servid\u00e3o&quot; | Aula 1\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6QO1OGhocYU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>https:\/\/congressoemfoco.uol.com.br\/opiniao\/colunas\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Heitor Peixoto &#8211; \u201cUberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho: caminhamos para a servid\u00e3o, e isso ainda ser\u00e1 um privil\u00e9gio. O soci\u00f3logo Ricardo Antunes \u00e9 um incans\u00e1vel pensador sobre o mundo do trabalho. P\u00f3s-doutor pela Universidade de Sussex (Inglaterra) e professor titular de Sociologia do Trabalho na Unicamp, perdeu a conta dos artigos cient\u00edficos, cap\u00edtulos, e, claro, livros lan\u00e7ados [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1196,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[45],"class_list":["post-11178","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-trabalho"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Heitor Peixoto &#8211; \u201cUberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho: caminhamos para a servid\u00e3o, e isso ainda ser\u00e1 um privil\u00e9gio. O soci\u00f3logo Ricardo Antunes \u00e9 um incans\u00e1vel pensador sobre o mundo do trabalho. P\u00f3s-doutor pela Universidade de Sussex (Inglaterra) e professor titular de Sociologia do Trabalho na Unicamp, perdeu a conta dos artigos cient\u00edficos, cap\u00edtulos, e, claro, livros lan\u00e7ados [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Controversia\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2019-08-07T12:42:14+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/2016.07.12_00861.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"716\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"399\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tempo estimado de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"26 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"headline\":\"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador\",\"datePublished\":\"2019-08-07T12:42:14+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/\"},\"wordCount\":5258,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/07\\\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1\",\"keywords\":[\"Trabalho\"],\"articleSection\":[\"Sociedade\"],\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/\",\"name\":\"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador - Controversia\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/07\\\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1\",\"datePublished\":\"2019-08-07T12:42:14+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/07\\\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/07\\\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1\",\"width\":716,\"height\":399},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2019\\\/08\\\/07\\\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\",\"name\":\"Controversia\",\"description\":\"Um site de leitura e debate\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-PT\"},{\"@type\":[\"Person\",\"Organization\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\",\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"width\":1015,\"height\":1024,\"caption\":\"Ricardo Alvarez\"},\"logo\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\"},\"description\":\"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.\",\"sameAs\":[\"http:\\\/\\\/controversia.com.br\",\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/Controversiascontemporaneas\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.linkedin.com\\\/in\\\/controversia\\\/\",\"https:\\\/\\\/x.com\\\/https:\\\/\\\/twitter.com\\\/contro_versia\"]}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador - Controversia","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/","og_locale":"pt_PT","og_type":"article","og_title":"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador - Controversia","og_description":"Heitor Peixoto &#8211; \u201cUberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho: caminhamos para a servid\u00e3o, e isso ainda ser\u00e1 um privil\u00e9gio. O soci\u00f3logo Ricardo Antunes \u00e9 um incans\u00e1vel pensador sobre o mundo do trabalho. P\u00f3s-doutor pela Universidade de Sussex (Inglaterra) e professor titular de Sociologia do Trabalho na Unicamp, perdeu a conta dos artigos cient\u00edficos, cap\u00edtulos, e, claro, livros lan\u00e7ados [&hellip;]","og_url":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/","og_site_name":"Controversia","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_published_time":"2019-08-07T12:42:14+00:00","og_image":[{"width":716,"height":399,"url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/2016.07.12_00861.png","type":"image\/png"}],"author":"Ricardo Alvarez","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia","twitter_site":"@contro_versia","twitter_misc":{"Escrito por":"Ricardo Alvarez","Tempo estimado de leitura":"26 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/"},"author":{"name":"Ricardo Alvarez","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"headline":"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador","datePublished":"2019-08-07T12:42:14+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/"},"wordCount":5258,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1","keywords":["Trabalho"],"articleSection":["Sociedade"],"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/","url":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/","name":"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador - Controversia","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1","datePublished":"2019-08-07T12:42:14+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#primaryimage","url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1","contentUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1","width":716,"height":399},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2019\/08\/07\/uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/controversia.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Uberiza\u00e7\u00e3o nos leva para a servid\u00e3o, diz pesquisador"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website","url":"https:\/\/controversia.com.br\/","name":"Controversia","description":"Um site de leitura e debate","publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/controversia.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-PT"},{"@type":["Person","Organization"],"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2","name":"Ricardo Alvarez","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","contentUrl":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","width":1015,"height":1024,"caption":"Ricardo Alvarez"},"logo":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png"},"description":"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.","sameAs":["http:\/\/controversia.com.br","https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","https:\/\/www.linkedin.com\/in\/controversia\/","https:\/\/x.com\/https:\/\/twitter.com\/contro_versia"]}]}},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/2016.07.12_00861.png?fit=716%2C399&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11178"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11178\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11189,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11178\/revisions\/11189"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1196"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}