{"id":11157,"date":"2019-08-05T14:15:25","date_gmt":"2019-08-05T17:15:25","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11157"},"modified":"2019-08-04T11:21:52","modified_gmt":"2019-08-04T14:21:52","slug":"55-anos-do-golpe-militar-a-historia-dos-65-mil-militares-perseguidos-pela-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/05\/55-anos-do-golpe-militar-a-historia-dos-65-mil-militares-perseguidos-pela-ditadura\/","title":{"rendered":"55 anos do golpe militar: a hist\u00f3ria dos 6,5 mil militares perseguidos pela ditadura"},"content":{"rendered":"<p><strong>Let\u00edcia Mori<\/strong> &#8211; <span class=\"media-caption__text\">Foram mais de 6,5 mil oficiais e pra\u00e7as presos, perseguidos ou torturados. Na fota, da esquerda para a direita, o general Bevilacqua, o brigadeiro Moreira Lima e o brigadeiro Francisco Teixeira.<\/span><\/p>\n<p>Piloto de ca\u00e7a do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, o ent\u00e3o tenente Rui Moreira Lima, do Rio, participou de 94 miss\u00f5es na It\u00e1lia entre novembro de 1944 e maio de 1945, como membro da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira.<\/p>\n<p>Mas a artilharia dos avi\u00f5es nazistas n\u00e3o foi o \u00fanico ataque que precisou enfrentar em sua carreira a servi\u00e7o da Aeron\u00e1utica brasileira.<\/p>\n<p>Mesmo sendo um condecorado membro das For\u00e7as Armadas, tendo voltado ao Brasil como her\u00f3i de guerra, escrito um livro sobre a atua\u00e7\u00e3o brasileira na Segunda Guerra e mais tarde tendo se tornado brigadeiro, Moreira Lima foi perseguido, preso e torturado pelo governo durante a Ditadura Militar.<\/p>\n<p>Em 1964, o brigadeiro foi deposto do comando da Base A\u00e9rea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, por ser considerado um democrata e ter abertamente se oposto ao golpe militar \u2013 que, em 31 de mar\u00e7o daquele ano dep\u00f4s o presidente Jo\u00e3o Goulart e estabeleceu um regime autorit\u00e1rio que durou at\u00e9 1985. Moreira Lima foi preso, aposentado compulsoriamente e teve a fam\u00edlia perseguida.<\/p>\n<p>Ele j\u00e1 trabalhava na iniciativa privada, nos anos 1970, quando seu filho, Pedro, foi sequestrado pelos agentes da repress\u00e3o. &#8220;Meu filho ficou apavorado, tinha 20 anos&#8221;, contou Moreira Lima em um\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FuY1K7_hIZA&amp;t=795s\">depoimento emocionado \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade em 2012<\/a>, quando tinha 93 anos.<\/p>\n<p>Logo em seguida o brigadeiro foi sequestrado por sargentos do Ex\u00e9rcito a mando do Doi-Codi. Ficou tr\u00eas dias preso e foi submetido \u00e0 priva\u00e7\u00e3o de sono. &#8220;Passei tr\u00eas dias nessa masmorra l\u00e1. Para ir fazer as necessidades os soldados ficavam me olhando, apontando a metralhadora&#8221;, contou.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6E87\/production\/_104759282_rui_moreira_lima6.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Rui Moreira Lima no ca\u00e7a Thunderbolt P-47, que pilotou durante a guerra\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>Rui Moreira Lima participou de 94 miss\u00f5es na It\u00e1lia durante a Segunda Guerra Mundial, pilotando um ca\u00e7a modelo P-47<\/em><\/p>\n<p>O caso de Moreira Lima n\u00e3o foi o \u00fanico: em mais de duas d\u00e9cadas de ditadura no Brasil, o regime perseguiu, prendeu ou torturou 6.591 militares. Os dados foram compilados pela\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/\">Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/a>\u00a0(CNV), institu\u00edda pelo governo brasileiro em 2011 para investigar viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988 por agentes p\u00fablicos e outras pessoas a servi\u00e7o do Estado.<\/p>\n<p>A CNV foi feita no molde de comiss\u00f5es feitas no Chile e na Argentina, que fizeram as investiga\u00e7\u00f5es muito antes do Brasil, logo ap\u00f3s o fim de suas ditaduras \u2013 e usaram os relat\u00f3rios para julgar centenas de pessoas e condenar mais de 700 por crimes cometidos durante os governos autorit\u00e1rios.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio final da CNV foi publicado em dezembro de 2014, com um n\u00famero oficial de 434 mortos\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-46429950\">e desaparecidos<\/a>\u00a0\u2013 e sem um n\u00famero final de pessoas torturadas, cujos casos n\u00e3o foram investigados um a um.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>Como era feita a repress\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A repress\u00e3o aos militares come\u00e7ou logo ap\u00f3s o golpe, com a cassa\u00e7\u00e3o, pris\u00e3o e constrangimento de oficiais e militares que divergiam do grupo que tomou o poder.<\/p>\n<p>&#8220;Os militares foram perseguidos de v\u00e1rias formas: mediante expuls\u00e3o ou reforma, sendo seus integrantes instigados a solicitar passagem para a reserva ou aposentadoria; sendo processados, presos arbitrariamente e torturados; quando inocentados, n\u00e3o sendo reintegrados \u00e0s suas corpora\u00e7\u00f5es; se reintegrados, sofrendo discrimina\u00e7\u00e3o no prosseguimento de suas carreiras. Por fim, alguns foram mortos&#8221;, descreve\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/images\/pdf\/relatorio\/volume_2_digital.pdf\">o relat\u00f3rio da CNV<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;De fato a grande &#8216;cirurgia&#8217; foi realizada em 1964&#8221;, explica o cientista pol\u00edtico Paulo Ribeiro da Cunha, professor da Unesp e membro da Comiss\u00e3o da Verdade, referindo-se \u00e0 remo\u00e7\u00e3o dos militares que se opunham ao regime. &#8220;Mas foi uma persegui\u00e7\u00e3o continuada, que se manteve e se intensificou na fase posterior.&#8221;<\/p>\n<p>E foi o Ato Institucional n\u00famero 5 (AI-5), assinado pelo general Artur da Costa e Silva h\u00e1 exatamente 50 anos, que deu instrumentos para o regime intensificar ainda mais a repress\u00e3o &#8211; inclusive aos militares.<\/p>\n<p>O AI-5 autorizou uma s\u00e9rie de medidas de exce\u00e7\u00e3o, permitindo o fechamento do Congresso, a cassa\u00e7\u00e3o de mandatos parlamentares, interven\u00e7\u00f5es federais, pris\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o consideradas ilegais, e suspens\u00e3o dos direitos pol\u00edticos dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8220;A maior parte das pris\u00f5es (de oficiais e pra\u00e7as) foi no p\u00f3s-68 (ap\u00f3s o AI-5), com muitos deles sendo presos at\u00e9 com os filhos&#8221;, conta Ribeiro da Cunha, que tamb\u00e9m \u00e9 um dos organizadores do livro\u00a0<i>Militares e Pol\u00edtica no Brasil<\/i>\u00a0(Express\u00e3o Popular).<\/p>\n<p>Segundo o cientista pol\u00edtico, a ditadura usava as fam\u00edlias para atingir os oficiais, com os filhos sendo obrigados a sair dos col\u00e9gios e ataques (inclusive estupros) de mulheres dos militares.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o endurecimento do regime, houve persegui\u00e7\u00e3o inclusive de militares que haviam apoiado o golpe em 1964, mas que se opunham aos aspectos mais violentos e cujo objetivo era devolver o governo aos civis depois de um curto per\u00edodo.<\/p>\n<p>Moreira Lima foi uma das v\u00edtimas do endurecimento ocorrido com o AI-5. Ap\u00f3s o depoimento do brigadeiro, a Comiss\u00e3o da Verdade criou um grupo de trabalho especial para investigar as persegui\u00e7\u00f5es sofridas por militares durante a ditadura.<\/p>\n<p>&#8220;Proporcionalmente, os militares foram o grupo social mais afetado pela repress\u00e3o&#8221;, afirma Paulo Ribeiro da Cunha, que participou do grupo de trabalho.<\/p>\n<p>O brigadeiro Moreira Lima morreu aos 94 anos, em 2013, menos de um ano ap\u00f3s dar seu depoimento \u00e0 CNV.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10A0A\/production\/_104760186_i132811593453510.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Moreira Lima volta ao ca\u00e7a que utilizava durante a Segunda Guerra\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>Moreira Lima denunciou as persegui\u00e7\u00f5es que ele e sua fam\u00edlia sofreram durante o regime<\/em><\/p>\n<p>Na reverencial homenagem feita pela FAB ap\u00f3s seu falecimento, em que Moreira Lima \u00e9 chamado de &#8220;her\u00f3i&#8221;, de &#8220;lend\u00e1rio&#8221;, de um dos &#8220;guerreiros da Na\u00e7\u00e3o que ser\u00e3o lembrados indefinidamente&#8221;, n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o \u00e0s in\u00fameras viola\u00e7\u00f5es de direitos a que foi submetido pela Ditadura Militar.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil reuniu hist\u00f3rias de alguns dos outros militares que, como o brigadeiro Moreira Lima, tamb\u00e9m foram perseguidos durante a Ditadura Militar.<br \/>\n<strong>O brigadeiro Teixeira, que teve a casa incendiada e os filhos presos<\/strong><\/p>\n<p>Assim como Moreira Lima, o brigadeiro Francisco Teixeira tamb\u00e9m havia servido durante a Segunda Guerra &#8211; ajudou a implantar o uso dos ca\u00e7as modelo P-40 e participou de patrulhas no litoral do nordeste e da cobertura de comboios mar\u00edtimos que eram atacados por submarinos alem\u00e3es e italianos.<\/p>\n<p>Nacionalista, participou da campanha do &#8220;Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso&#8221; e foi chefe de gabinete do ministro da Aeron\u00e1utica e subchefe do Estado Maior das For\u00e7as Armadas. Em, 1964 era comandante da 3\u00aa Zona A\u00e9rea, no Rio de Janeiro e era considerado o l\u00edder da ala militar nacionalista na Aeron\u00e1utica.<\/p>\n<p>&#8220;Meu marido sempre participou da legalidade, sempre foi a favor de que se cumprissem as leis do pais, a Constitui\u00e7\u00e3o&#8221;\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Kl9-4BxBeb8\">afirmou a mulher do brigadeiro, Iracema Teixeira<\/a>, em um depoimento \u00e0 CNV em 2013. &#8220;E por isso era mau visto pelo grupos que queriam o poder de qualquer maneira.&#8221;<\/p>\n<p>Foi preso em sua casa em Copacabana pouco depois da deposi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart e ficou incomunic\u00e1vel por 50 dias. Depois foi afastado da FAB e teve os direitos pol\u00edticos cassados por dez anos. Teve tamb\u00e9m a cidadania suspensa e foi considerado oficialmente morto &#8211; sua mulher passou a receber pens\u00e3o como vi\u00fava.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1582A\/production\/_104760188_lossy-page1-1024px-francisco_teixeira_-1965.tif.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"O brigadeiro Francisco Teixeira prestando depoimento em 1965\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>O brigadeiro Francisco Teixeira prestando depoimento em um inqu\u00e9rito policial militar em 1965<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Nos primeiros anos do regime essa era a principal forma de persegui\u00e7\u00e3o. Os oficiais eram expulsos, considerados mortos, n\u00e3o tinham direito nenhum. Tinham que trabalhar em mil coisas pra sobreviver&#8221;, afirma Paulo Ribeiro da Cunha.<\/p>\n<p>Foi o caso do brigadeiro Teixeira, que teve a carteira de piloto tamb\u00e9m cassada e n\u00e3o podia exercer a profiss\u00e3o. Para se manter, criou um curso supletivo com a mulher. Em novembro de 1969 o brigadeiro teve sua casa incendiada &#8211; o epis\u00f3dio nunca foi esclarecido pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a posse do general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici em 1969, Teixeira foi preso e mantido incomunic\u00e1vel por 50 dias na Vila Militar.<\/p>\n<p>&#8220;Toda vez que mudava o &#8216;presidente&#8217; meu marido era preso, como se ele \u2013 j\u00e1 deposto, aposentado \u2013 fosse reagir sozinho&#8221;, contou Iracema Teixeira.<\/p>\n<p>Seu filho Alo\u00edsio, que era estudante da PUC (Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica) e foi acusado de ser comunista, tamb\u00e9m foi preso durante 6 meses e chegou a ser torturado na Ilha das Flores. Teixeira foi visit\u00e1-lo, e quando soube que o filho seria ouvido novamente, come\u00e7ou a ligar para todos os colegas militares em busca de ajuda.<\/p>\n<p>&#8220;Eu falei com uns dois ou tr\u00eas que estavam na ativa, e um deles agiu muito, talvez tenha at\u00e9 ajudado o Alu\u00edsio, porque fez um esc\u00e2ndalo na hora do almo\u00e7o contra aquilo: &#8216;Como \u00e9 que a Marinha faz uma coisa dessas, torturando o filho de um colega nosso!'&#8221;, contou o brigadeiro Teixeira, em depoimento ao CPDOC (Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea do Brasil), da FGV (Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas).<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1970, o brigadeiro foi preso novamente, desta vez com filha, Maria L\u00facia Werneck Viana.<\/p>\n<p>&#8220;Primeiro foram na casa dela, ela n\u00e3o estava, quebraram o telefone, fizeram uma viol\u00eancia qualquer. Depois, uma noite, foram l\u00e1 em casa, mas n\u00e3o entraram, procuraram por ela na portaria. O fato \u00e9 que, \u00e0 noite, eu resolvi ir ao apartamento dela e estava l\u00e1 quando eles chegaram&#8221;, contou ele no mesmo depoimento ao CPDOC.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BFD2\/production\/_104760194_untfitled-1.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Artigo publicado pelo jornal Correio da Manh\u00e3 sobre o processo que Teixeira enfrentava em 1965\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>Artigo publicado pelo jornal Correio da Manh\u00e3 sobre o processo que Teixeira enfrentava em 1965<\/em><\/p>\n<p>Em julho 1983, poucos meses antes de morrer devido a um c\u00e2ncer, aos 74 anos, Teixeira fundou a Associa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica e Nacionalista de Militares, que reunia militares cassados e perseguidos pela ditadura.<\/p>\n<p>&#8220;O brigadeiro Teixeira deixou para n\u00f3s exemplos de firmeza de car\u00e1ter e toler\u00e2ncia, atributos que tornaram poss\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o da sua s\u00f3lida lideran\u00e7a militar e pol\u00edtica&#8221;, afirmou o ent\u00e3o ministro da Defesa Nelson Jobim em uma homenagem ao brigadeiro em 2011.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>O tenente Wilson, que fugiu para o Uruguai<\/strong><\/p>\n<p>Boa parte dos militares cassados em 1964 j\u00e1 havia ficado marcada pelos setores golpistas quando o presidente J\u00e2nio Quadros renunciou em 1961 e os ministros militares assumiram a posi\u00e7\u00e3o de tentar impedir a posse do vice-presidente.<\/p>\n<p>A Campanha pela Legalidade, que defendeu a normalidade democr\u00e1tica e naquele ano saiu vitoriosa, teve ades\u00e3o de unidades militares das tr\u00eas for\u00e7as, com oficiais se mobilizando para garantir o cumprimento da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Todos quantos haviam tomado posi\u00e7\u00e3o em 1961 ficaram marcados dentro e fora dos quart\u00e9is. \u00c9ramos olhados como malditos, perigosos. Mas n\u00e3o n\u00f3s amedront\u00e1vamos, passamos a ter cada vez mais atitudes pol\u00edticas&#8221;, escreveu mais tarde o tenente Jos\u00e9 Wilson da Silva, que na \u00e9poca primeiro sargento do Dep\u00f3sito de Material de Engenharia.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e1rios oficiais da Marinha, da Aeron\u00e1utica e do Ex\u00e9rcito que se mobilizaram em defesa da Constitui\u00e7\u00e3o foram presos e depois liberados. Posteriormente, em 1964, foram cassados.&#8221;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BD3A\/production\/_104724484_listaindividuosbanidos.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Este documento do Minist\u00e9rio do Ex\u00e9rcito de 1970 lista cidad\u00e3os que foram banidos do Brasil\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>O AI-5 levou artistas, intelectuais, pol\u00edticos e tamb\u00e9m militares a se exilarem do pa\u00eds<\/em><\/p>\n<p>O tenente foi eleito vereador em Porto Alegre em 1964, mas como estava amea\u00e7ado de pris\u00e3o, fugiu para o Uruguai. Foi cassado e s\u00f3 conseguiu a reintegra\u00e7\u00e3o ao Ex\u00e9rcito em 1980 ap\u00f3s a lei da Anistia &#8211; ele retornou com o posto de capit\u00e3o da reserva.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>O marechal Lott, enterrado sem honras militares<\/strong><\/p>\n<p>O marechal Henrique Teixeira Lott tamb\u00e9m estava entre os que sofreram por conta de seu posicionamento em defesa da democracia em 1961.<\/p>\n<p>Lott j\u00e1 estava na reserva e havia inclusive concorrido \u00e0 presid\u00eancia pela coliga\u00e7\u00e3o PTB\/PSD em 1960, quando foi derrotado por J\u00e2nio Quadros. Anticomunista e nacionalista, tinha postura legalista abertamente conhecida.<\/p>\n<p>Diante da ren\u00fancia do advers\u00e1rio, no ano seguinte, e do perigo de golpe, ele fez\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"http:\/\/www.gedm.ifcs.ufrj.br\/upload\/documentos\/2.pdf\">um pronunciamento \u00e0s For\u00e7as Armadas<\/a>, transmitido pelo r\u00e1dio, que falava da inten\u00e7\u00e3o do ministro da Guerra de impedir que Jo\u00e3o Goulart entrasse no exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Mediante liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, tentei demover aquele eminente colega da pr\u00e1tica de semelhante viol\u00eancia, sem obter resultado&#8221;, dizia o Marechal Lott. &#8220;Sinto-me no indeclin\u00e1vel dever de manifestar o meu rep\u00fadio \u00e0 solu\u00e7\u00e3o anormal e arbitr\u00e1ria que se pretende impor \u00e0 Na\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4AA2\/production\/_104760191_imagem_materia.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"O marechal Lott\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>Quando morreu, em 1984, o marechal Lott foi enterrado sem honras militares<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Dentro dessa orienta\u00e7\u00e3o, conclamo todas as for\u00e7as vivas do pa\u00eds, as for\u00e7as da produ\u00e7\u00e3o e do pensamento, dos estudantes e intelectuais, dos oper\u00e1rios e o povo em geral, para tomar posi\u00e7\u00e3o decisiva e en\u00e9rgica no respeito \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o integral do regime democr\u00e1tico brasileiro, certo ainda de que os meus camaradas das For\u00e7as Armadas saber\u00e3o portar-se \u00e0 altura das tradi\u00e7\u00f5es legalistas que marcam sua hist\u00f3ria no destino da P\u00e1tria.&#8221;<\/p>\n<p>Esse pronunciamento o levou \u00e0 pris\u00e3o, onde ficou por 15 dias. Ap\u00f3s o golpe de 1964, ele foi impedido de de lan\u00e7ar sua candidatura a governador do Rio de Janeiro e retirou-se da vida p\u00fablica. Quando morreu, em 1984, foi enterrado sem honras militares.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>O general Bevilacqua, que chamava o golpe de &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>O general Pery Constant Bevilacqua ainda estava na ativa em 1968, quando o regime militar decretou o AI-5.<\/p>\n<p>Embora tenha sido um dos generais contr\u00e1rios ao golpe de 1964, at\u00e9 o fim da vida chamava o epis\u00f3dio de &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. Era do grupo que acreditava que os militares deveriam devolver o governo aos civis ap\u00f3s livrar o pa\u00eds do que afirmava ser uma &#8220;amea\u00e7a comunista&#8221;.<\/p>\n<p>Muito cat\u00f3lico, ideologicamente de direita, anticomunista convicto, se op\u00f4s firmemente ao endurecimento do regime em 1968.<\/p>\n<p>Queria evitar que o regime &#8220;se comprometesse irremediavelmente e se afogasse na ignom\u00ednia de um hediondo crime de sangue e destrui\u00e7\u00e3o&#8221;, conforme declarou mais tarde em uma\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2014\/12\/1564530-legalista-general-pery-bevilacqua-da-em-1976-sua-versao-do-golpe.shtml\">entrevista \u00e0 escritora Maria Rita Kehl e ao jornalista Inim\u00e1 Sim\u00f5es<\/a>. Ele se referia aos ataques a bomba planejados por militares, que pretendiam culpar os comunistas e obter apoio para se manter no poder.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BCA7\/production\/_104759284_militares.jpg?resize=549%2C549&#038;ssl=1\" alt=\"O general Pery Constant Bevilacqua\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>O general Bevilacqua foi cassado ap\u00f3s se opor ao AI-5<\/em><\/p>\n<p>Foi cassado logo depois do ato institucional, pouco tempo antes de se aposentar. Em 1977, se filiou ao MDB e passou a fazer campanha pela anistia.<\/p>\n<p>&#8220;O AI-5 foi o maior erro jamais cometido em nosso pa\u00eds e comprometeu os ideais do movimento de 31 de mar\u00e7o&#8221;, afirmou o general na mesma entrevista.<\/p>\n<p>&#8220;Os fatos levam \u00e0 conclus\u00e3o de que ser\u00e1 sempre prefer\u00edvel suportar um mau governo a fazer uma boa revolu\u00e7\u00e3o. A terap\u00eautica revolucion\u00e1ria agrava os males do doente -a democracia- quando n\u00e3o o mata. Mais de tr\u00eas quartos de s\u00e9culo de vida me permitem essa conclus\u00e3o definitiva.&#8221;<\/p>\n<p>A BBC News Brasil procurou o Minist\u00e9rio da Defesa para falar sobre as medidas de reintegra\u00e7\u00e3o tomadas ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, mas a pasta n\u00e3o se pronunciou at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-46532955<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Let\u00edcia Mori &#8211; Foram mais de 6,5 mil oficiais e pra\u00e7as presos, perseguidos ou torturados. Na fota, da esquerda para a direita, o general Bevilacqua, o brigadeiro Moreira Lima e o brigadeiro Francisco Teixeira. 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