{"id":11152,"date":"2019-08-04T18:11:39","date_gmt":"2019-08-04T21:11:39","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11152"},"modified":"2019-08-03T21:15:19","modified_gmt":"2019-08-04T00:15:19","slug":"como-a-coca-cola-gastou-milhoes-para-comprar-cientistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/04\/como-a-coca-cola-gastou-milhoes-para-comprar-cientistas\/","title":{"rendered":"Como a Coca-Cola gastou milh\u00f5es para comprar cientistas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marion Nestle<\/strong> &#8211; Em abril, Marion Nestle, professora em\u00e9rita da Faculdade de Nutri\u00e7\u00e3o, Estudos Alimentares e Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de Nova York, lan\u00e7ou aqui no Brasil seu livro <em>Uma verdade indigesta: como a ind\u00fastria de alimentos manipula a ci\u00eancia sobre o que comemos<\/em>, pela\u00a0Editora Elefante.<\/p>\n<p>Nele, a pesquisadora e autora relata com detalhes como a ind\u00fastria dos alimentos nos Estados Unidos financia pesquisas e eventos para trazer os pesquisadores para o seu lado. \u201cEra muito dif\u00edcil encontrar estudos patrocinados por uma empresa que sa\u00edssem com resultados que n\u00e3o fossem favor\u00e1veis aos interesses da empresa. Eu sabia que isso era um problema. N\u00e3o era um estudo cient\u00edfico. Mas eu estava impressionada com o n\u00famero de empresas aliment\u00edcias financiando estudos e usando para marketing\u201d, resume Marion.<\/p>\n<p>Abaixo, um trecho do cap\u00edtulo que trata da estrat\u00e9gia adotada pela Coca-Cola Company para mudar o debate sobre obesidade \u2013 e esconder sua culpa na epidemia da doen\u00e7a cr\u00f4nica.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/marion-nestle.jpg?resize=640%2C323&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 810px) 100vw, 810px\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/marion-nestle.jpg 810w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/marion-nestle-800x404.jpg 800w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"323\" data-src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/marion-nestle.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/marion-nestle.jpg 810w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/marion-nestle-800x404.jpg 800w\" data-sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/p>\n<p><em>Marion Nestle \u00e9 professora em\u00e9rita da Faculdade de Nutri\u00e7\u00e3o, Estudos Alimentares e Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de Nova York<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Coca-Cola, um estudo de caso<\/strong><\/p>\n<p>Pode parecer injusto dedicar um cap\u00edtulo inteiro \u00e0 Coca-Cola Company, mas as tentativas da empresa de influenciar as pesquisas t\u00eam sido t\u00e3o deliberadas e abrangentes \u2014 e expostas tanto por rep\u00f3rteres, que tiverem acesso a e-mails, como pela pr\u00f3pria empresa, em seu site \u2014 que exigem nossa aten\u00e7\u00e3o. Canalizando fundos por meio do\u00a0<em>ilsi<\/em>\u00a0e da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Bebidas, a Coca-Cola tem apoiado estudos de universidades h\u00e1 muito tempo, mas o financiamento direto \u00e9 algo relativamente recente. No in\u00edcio dos anos 2000, a corpora\u00e7\u00e3o publicou uma an\u00e1lise das pesquisas sobre hidrata\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o se envolveu seriamente com essa \u00e1rea at\u00e9 2004, quando estabeleceu o Instituto de Bebidas para Sa\u00fade e Bem-Estar, nascido expressamente para aumentar a conscientiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de \u201cestilos de vida saud\u00e1veis\u201d e das bebidas como meios eficazes para hidrata\u00e7\u00e3o. Em 2008, trabalhos cient\u00edficos de governos e universidades divulgavam o patroc\u00ednio da multinacional.<\/p>\n<p>Em 2012, a vice-presidente e diretora de Ci\u00eancia e Sa\u00fade da Coca-Cola, Rhona Applebaum, que tamb\u00e9m se tornaria presidente do\u00a0<em>ilsi<\/em>\u00a0tr\u00eas anos mais tarde, anunciou um grande esfor\u00e7o para combater as evid\u00eancias que ligam os refrigerantes a dietas pobres e a problemas de sa\u00fade. Applebaum n\u00e3o mediu as palavras. A pesquisa financiada, disse ela, foi essencial para rebater a ci\u00eancia promovida pelos defensores de impostos sobre refrigerantes. A Coca-Cola pretendia treinar jornalistas e atrair cientistas parceiros para conduzir \u201cpesquisas defensivas e ofensivas\u201d. Caso contr\u00e1rio, a ind\u00fastria ficaria \u00e0 merc\u00ea de \u201cativistas e jornalistas fan\u00e1ticos\u201d.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o foi de fato significativo. Foram identificados 389 artigos publicados em 169 peri\u00f3dicos de 2008 a 2016, ou diretamente financiados pela empresa, ou realizados por pesquisadores com la\u00e7os financeiros com a companhia. De maneira geral, a conclus\u00e3o foi de que, no controle do peso, a atividade f\u00edsica \u00e9 mais efetiva que a dieta; os a\u00e7\u00facares e os refrigerantes s\u00e3o inofensivos; as evid\u00eancias contr\u00e1rias est\u00e3o erradas; e as pesquisas bancadas pela ind\u00fastria s\u00e3o superiores \u00e0s financiadas por outras fontes.<\/p>\n<p>O foco na atividade f\u00edsica \u00e9 perfeitamente ilustrado pelo apoio da Coca-Cola \u00e0 Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico (gebn, na sigla em ingl\u00eas). A rede apareceu pela primeira vez em 2014, quando Yoni Freedhoff, m\u00e9dico canadense especializado em obesidade, verificava not\u00edcias no Twitter e esbarrou com um tu\u00edte de Applebaum. Ela mencionava que Steven Blair, fisiologista do exerc\u00edcio da Universidade da Carolina do Sul, estava usando a rede para conectar especialistas em balan\u00e7o energ\u00e9tico. Freedhoff havia visto uma tuitada anterior de Blair a respeito, mas, conforme disse num e-mail que me enviou, \u201cquando Rhona mencionou o assunto, soube que algo estava acontecendo\u201d. Esse \u201calgo\u201d era o patroc\u00ednio da Coca-Cola, n\u00e3o mencionado nos an\u00fancios.<\/p>\n<p>Os outros membros fundadores da rede eram James Hill, da Universidade do Colorado, e Gregory Hand, da Universidade da Virg\u00ednia Ocidental. A mensagem principal era: a falta de atividade f\u00edsica \u2014 n\u00e3o a dieta e, certamente, n\u00e3o os refrigerantes \u2014 \u00e9 respons\u00e1vel pela obesidade. Em um v\u00eddeo postado no site da alian\u00e7a, Blair explicou que \u201ca maioria das pessoas na m\u00eddia leiga e na imprensa cient\u00edfica est\u00e1 comendo demais, comendo demais, comendo demais e culpando o\u00a0<em>fast-food<\/em>, as bebidas a\u00e7ucaradas e assim por diante. E praticamente n\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia convincente de que essa seja, de fato, a causa\u201d. Blair disse que a gebn havia acabado de obter um financiamento, mas n\u00e3o revelou de quem.<\/p>\n<p>Fa\u00e7a parte do nosso novo programa de apoio recorrente e promova jornalismo investigativo de qualidade. Doa\u00e7\u00f5es a partir de R$ 10,00\/m\u00eas.<\/p>\n<p>Esse lapso n\u00e3o foi mera distra\u00e7\u00e3o. Os e-mails dos rep\u00f3rteres mostram que a Coca-Cola n\u00e3o somente financiou a ofensiva, como tamb\u00e9m se envolveu ativamente em seu desenvolvimento \u2014 de uma maneira tal que houve certa disputa sobre a origem da iniciativa. Em maio de 2014, em uma conversa bastante \u00e1spera com um executivo da Coca-Cola, James Hill cobrou o reconhecimento de seu trabalho: \u201cfaz tr\u00eas anos que tenho aberto caminho para conceito da Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico. Investi tempo, esfor\u00e7os e recursos nessa ideia. Sinto-me grandemente respons\u00e1vel por ela e fiquei surpreso por descobrir que voc\u00ea a levou adiante sem mim\u201d.<\/p>\n<p>Os e-mails revelam que, alguns meses depois, Applebaum distribuiu uma proposta preliminar para a rede, \u201cadaptada de um documento anterior, usado para vender o conceito para a empresa\u201d. A proposta posicionou a gebn como uma arma na \u201ccrescente guerra entre a comunidade de sa\u00fade p\u00fablica e a ind\u00fastria privada sobre como reduzir a obesidade\u201d. Ela disse: \u201clados est\u00e3o sendo escolhidos e linhas de batalha est\u00e3o sendo tra\u00e7adas. [\u2026] A Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico precisa se estabelecer rapidamente como ponto para o qual a imprensa pode recorrer a fim de obter um coment\u00e1rio acerca de qualquer quest\u00e3o sobre obesidade\u201d. Ela tamb\u00e9m disse que esse grupo precisava \u201cconceber, criar e programar uma \u2018campanha\u2019 de defesa\u201d por v\u00e1rios anos para servir \u201ccomo for\u00e7a contr\u00e1ria \u00e0 proposta unilateral de regulamenta\u00e7\u00e3o. De maneira semelhante a uma campanha pol\u00edtica, desenvolveremos, implantaremos e envolveremos uma estrat\u00e9gia poderosa e multifacetada para combater as organiza\u00e7\u00f5es radicais e seus proponentes\u201d. Ela ainda disse que a Coca-Cola iniciaria a rede com uma doa\u00e7\u00e3o de vinte milh\u00f5es de d\u00f3lares, garantindo um or\u00e7amento anual de um milh\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1.jpg?resize=640%2C640&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1.jpg 1000w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-150x150.jpg 150w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-600x600.jpg 600w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-300x300.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-240x240.jpg 240w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" data-src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1.jpg 1000w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-150x150.jpg 150w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-600x600.jpg 600w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-300x300.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/umaverdadeindigesta-img1-240x240.jpg 240w\" data-sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/p>\n<p><em>O livro \u201cUma verdade indigesta: como a ind\u00fastria de alimentos manipula a ci\u00eancia sobre o que comemos\u201d mostra como os estudos cient\u00edficos, encomendados pela ind\u00fastria aliment\u00edcia, tornam-se estrat\u00e9gia de marketing de muitas empresas do setor<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de ver o tu\u00edte de Applebaum, Freedhoff escreveu para a rede, perguntando quem pagava por ela. A resposta foi que \u201ca Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico recebeu apoio da filantropia privada, da Universidade do Colorado, da Universidade da Carolina do Sul e da Universidade de Copenhague\u201d \u2014 e, quase como uma reflex\u00e3o tardia \u2014, \u201cincluindo uma doa\u00e7\u00e3o educacional irrestrita da Coca-Cola Company\u201d. Freedhoff repassou essas informa\u00e7\u00f5es para Anahad O\u2019Connor, rep\u00f3rter do\u00a0<em>The New York Times<\/em>, que observou que o site da rede n\u00e3o era o \u00fanico a ocultar suas fontes de financiamento. Os comunicados de imprensa da Universidade da Carolina do Sul e da Universidade do Colorado e um an\u00fancio feito pelos organizadores da rede no\u00a0<em>British Journal of Sports Medicine<\/em>\u00a0tampouco fizeram qualquer men\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p>Foi suficiente para manter O\u2019Connor ocupado pelos pr\u00f3ximos meses, solicitando acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e realizando entrevistas para saber mais sobre o relacionamento da rede com a Coca-Cola. O rep\u00f3rter do\u00a0<em>The New York Times<\/em>\u00a0publicou as descobertas em agosto de 2015, num artigo que come\u00e7ou na primeira p\u00e1gina e ganhou outra p\u00e1gina inteira do jornal, relatando que, desde 2008, a empresa havia concedido mais de 3,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares a Steven Blair e cerca de 1,5 milh\u00e3o de d\u00f3lares a Gregory Hand para pesquisa. A Coca-Cola tamb\u00e9m havia contribu\u00eddo com um milh\u00e3o para a funda\u00e7\u00e3o de pesquisa da Universidade do Colorado. Fui citada no artigo e logo entrevistada por outros rep\u00f3rteres, que n\u00e3o acreditavam que os pesquisadores pagos pela Coca-Cola pudessem argumentar que dieta n\u00e3o tem nada a ver com obesidade \u2014 uma ideia t\u00e3o providencialmente ego\u00edsta e t\u00e3o longe da verdade cient\u00edfica que provocou ridiculariza\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p>Os membros do Congresso norte-americano tampouco puderam acreditar. A representante de Connecticut, Rosa DeLauro, emitiu o seguinte comunicado: \u201cesse estudo \u00e9 herdeiro da pesquisa realizada pelas empresas de tabaco para enganar o p\u00fablico acerca dos riscos do tabagismo para a sa\u00fade. Esse grupo novo e a pesquisa s\u00e3o uma farsa. As pessoas querem ser saud\u00e1veis e querem que seus filhos sejam saud\u00e1veis e percebam que as bebidas cheias de calorias vazias n\u00e3o s\u00e3o boas\u201d.<\/p>\n<p>A resposta inicial da Coca-Cola a tudo isso veio do diretor t\u00e9cnico, Ed Hays: \u201csim, financiamos estudos cient\u00edficos por meio da Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico e nos orgulhamos de apoiar o trabalho de pesquisadores como o Dr. Jim Hill e o Dr. Steve Blair, porque esse tipo de pesquisa \u00e9 fundamental para encontrar solu\u00e7\u00f5es para a crise global de obesidade. Na Coca-Cola, acreditamos que uma dieta equilibrada e exerc\u00edcios regulares s\u00e3o dois ingredientes fundamentais para um estilo de vida saud\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Uma resposta mais ponderada, por\u00e9m, deve ter parecido necess\u00e1ria, porque, uma semana depois, o ceo da empresa, Muhtar Kent, em reportagem publicada no\u00a0<em>Wall Street Journal<\/em>, afirmou: \u201cnossa empresa foi acusada de mudar o debate, sugerindo que a atividade f\u00edsica \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para a crise de obesidade. Relatos nos acusaram de enganar o p\u00fablico quanto ao nosso apoio \u00e0 pesquisa cient\u00edfica. Sei que nossa empresa pode trabalhar mais para envolver a comunidade cient\u00edfica e a sa\u00fade p\u00fablica \u2014 e o faremos. No futuro, \u00e0 medida que reorientarmos nossos investimentos e nossos esfor\u00e7os para o bem-estar, agiremos com ainda mais transpar\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Com a \u00eanfase em \u201cainda mais transpar\u00eancia\u201d, Kent quis dizer algo extraordin\u00e1rio: o site da Coca-Cola publicaria a lista de parcerias de pesquisa e investimentos sociais dos \u00faltimos cinco anos e, a partir disso, a atualiza\u00e7\u00e3o seria frequente. Em 22 de setembro de 2015, a empresa revelou o nome das centenas de profissionais de sa\u00fade, cientistas e organiza\u00e7\u00f5es que havia apoiado nos Estados Unidos desde 2010, com os respectivos valores. O total desse financiamento foi de 21,8 milh\u00f5es de d\u00f3lares para pesquisas e de 96,8 milh\u00f5es para a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias durante o per\u00edodo de cinco anos entre 2010 e 2015. Posteriormente, a corpora\u00e7\u00e3o empreendeu iniciativas de transpar\u00eancia semelhantes na Gr\u00e3-Bretanha, na Alemanha, na Austr\u00e1lia e em pelo menos outros dez pa\u00edses.<\/p>\n<p>Transpar\u00eancia, por\u00e9m, incentiva an\u00e1lise. Kyle Pfister, da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil Ninjas for Health [Ninjas pela Sa\u00fade], rastreou os 115 indiv\u00edduos listados. Destes, 57% s\u00e3o nutricionistas, 20% s\u00e3o acad\u00eamicos, 7% s\u00e3o m\u00e9dicos, 6% s\u00e3o especialistas em condicionamento f\u00edsico e os demais s\u00e3o autores, chefs de cozinha ou representantes de empresas de alimentos. O site revelou que, de 2010 a 2015, a Coca-Cola contribuiu com setecentos mil d\u00f3lares para a Academia de Nutri\u00e7\u00e3o e Diet\u00e9tica, 2,9 milh\u00f5es para a Academia Americana de Pediatria, e 3,5 milh\u00f5es para a Academia Americana de M\u00e9dicos de Fam\u00edlia \u2014 grupos dos quais, em todo caso, seria esperada a recomenda\u00e7\u00e3o de evitar as bebidas a\u00e7ucaradas.<\/p>\n<p>A transpar\u00eancia traz consequ\u00eancias. Em uma semana, a Coca-Cola encerrou as parcerias constrangedoras com essas organiza\u00e7\u00f5es. No in\u00edcio de novembro, a Universidade do Colorado devolveu o subs\u00eddio de um milh\u00e3o que fora dado aos trabalhos de Hill, explicando a decis\u00e3o da seguinte forma: \u201cembora a Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico continue a defender a boa sa\u00fade por meio de equil\u00edbrio entre h\u00e1bitos alimentares saud\u00e1veis e exerc\u00edcios, a fonte de financiamento desviou a aten\u00e7\u00e3o do objetivo fundamental [da iniciativa].\u201d<\/p>\n<p>Em 24 de novembro, a\u00a0<em>Associated Press<\/em>\u00a0publicou e-mails trocados entre Applebaum e Hill. Mais tarde, naquele mesmo dia, a empresa anunciou a aposentadoria de sua vice-presidente. A gebn foi extinta uma semana depois. No final de 2015, Applebaum se demitiu do conselho administrativo do\u00a0<em>ilsi<\/em>, terminando seu mandato como presidente. Na sequ\u00eancia, o\u00a0<em>Denver Post<\/em>\u00a0informou que, de 2011 a 2015, a Coca-Cola pagara 550 mil d\u00f3lares a Hill por honor\u00e1rios, viagens, atividades educacionais e pesquisas. Em mar\u00e7o de 2016, ele pediu demiss\u00e3o do cargo de diretor-executivo de um centro de sa\u00fade da Universidade do Colorado.<\/p>\n<p>Os l\u00edderes da rede n\u00e3o esperavam rea\u00e7\u00f5es t\u00e3o fortes. Logo depois da reportagem do\u00a0<em>The New York Times<\/em>, eles emitiram uma declara\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 lament\u00e1vel que a Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico tenha sido caracterizada como um grupo que promove atividade f\u00edsica em detrimento de dieta. Nada poderia estar mais longe da verdade. [\u2026] A Coca-Cola n\u00e3o participa das atividades da Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico. A Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico n\u00e3o trata da minimiza\u00e7\u00e3o do papel das dietas ou das bebidas a\u00e7ucaradas no desenvolvimento de obesidade. Dito isso, a Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico acredita que tanto a ind\u00fastria aliment\u00edcia quanto a inatividade f\u00edsica [sic] podem desempenhar pap\u00e9is para ajudar a reduzir a obesidade\u201d.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o veio acompanhada de respostas \u00e0s \u201cperguntas levantadas pela recente aten\u00e7\u00e3o da imprensa\u201d. Essas respostas repudiaram o v\u00eddeo de Steve Blair desmerecendo a import\u00e2ncia da dieta, defenderam o foco do grupo no balan\u00e7o energ\u00e9tico e deram a entender que havia certa incompreens\u00e3o acerca dos interesses conflitantes entre a rede e o patrocinador. \u00c0 pergunta: \u201ca Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico acredita que, para combater a obesidade, a atividade f\u00edsica \u00e9 mais importante do que a dieta?\u201d, a resposta foi: \u201cabsolutamente n\u00e3o. As opini\u00f5es pessoais do dr. Blair, como expressadas no v\u00eddeo, n\u00e3o refletem com precis\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o da Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico e, por essa raz\u00e3o, ele nos pediu para remover o v\u00eddeo do nosso site. Acreditamos que a redu\u00e7\u00e3o do consumo de bebidas a\u00e7ucaradas \u00e9 uma estrat\u00e9gia que pode ajudar a combater a obesidade\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 pergunta: \u201co site da Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico foi registrado pela Coca-Cola?\u201d, a resposta foi: \u201cSim. Isso foi um erro da nossa parte\u201d. \u00c0 pergunta: \u201cvoc\u00eas ainda se sentem confort\u00e1veis com o financiamento da Coca-Cola?\u201d, a resposta foi: \u201csim, somos imensamente gratos \u00e0 Coca-Cola. Esse financiamento foi concedido irrestritamente. [\u2026] Isso significa que a empresa n\u00e3o tem informa\u00e7\u00f5es sobre como o dinheiro \u00e9 gasto \u2014 n\u00e3o h\u00e1 necessidade de relatarmos nada \u00e0 empresa\u201d. De maneira geral, os integrantes da rede ficaram \u201cclaramente consternados em ver nossa organiza\u00e7\u00e3o ser acusada de subestimar a import\u00e2ncia da dieta para beneficiar a Coca-Cola, mas aceitamos a responsabilidade por alguns erros que cometemos, em especial com nosso site\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Lisa Young, minha colega da Universidade de Nova York e membro da Academia de Nutri\u00e7\u00e3o e Diet\u00e9tica, recebeu uma carta assinada pelos diretores da rede: \u201co artigo do\u00a0<em>The New York Times<\/em>\u00a0alegou que a Coca-Cola Company conduziu nossa estrat\u00e9gia. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. A Coca-Cola n\u00e3o tem nenhuma participa\u00e7\u00e3o na nossa organiza\u00e7\u00e3o. Eles forneceram fundos irrestritos para instalarmos a Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico, o que significa que eles n\u00e3o t\u00eam voz na forma como esses fundos s\u00e3o gastos. Continuamos a acreditar que o mundo precisa da Rede Global de Balan\u00e7o Energ\u00e9tico. Precisamos de uma organiza\u00e7\u00e3o para discutir a ci\u00eancia do equil\u00edbrio energ\u00e9tico e as formas de usar o conhecimento que temos para reduzir a obesidade (e, sim, discordar)\u201d.<\/p>\n<p>Incluo essas declara\u00e7\u00f5es porque revelam a insist\u00eancia dos l\u00edderes da rede no sentido de que a Coca-Cola n\u00e3o teve participa\u00e7\u00e3o nas atividades do grupo. Os e-mails contam uma hist\u00f3ria diferente, sugerindo que a empresa esteve ativamente envolvida em todos os aspectos da organiza\u00e7\u00e3o \u2014 desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 o recrutamento de membros para dissemina\u00e7\u00e3o dos resultados. Como os l\u00edderes da coaliz\u00e3o trabalham para universidades p\u00fablicas em estados com leis de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, rep\u00f3rteres e pesquisadores pediram os e-mails que eles trocaram com a corpora\u00e7\u00e3o. Por exemplo, Gary Ruskin, da organiza\u00e7\u00e3o us Right to Know, obteve mensagens com documentos internos da empresa. Ficou provado que os executivos da Coca trabalharam com os cientistas da rede para influenciar a dire\u00e7\u00e3o da pesquisa, ocultar a fonte de financiamento e promover a estrat\u00e9gia de balan\u00e7o energ\u00e9tico para os profissionais e a imprensa.<\/p>\n<p>Candice Choi, da\u00a0<em>Associated Press<\/em>, tamb\u00e9m solicitou e-mails. Ela os usou para mostrar que a ent\u00e3o vice-presidente da Coca-Cola, Rhona Applebaum, havia ajudado a selecionar os membros da rede, desenvolvido a miss\u00e3o e as atividades do grupo, sugerido materiais para o site, projetado o logotipo, desenvolvido o plano de comunica\u00e7\u00e3o, oferecido treinamento de imprensa para os l\u00edderes e at\u00e9 encontrado emprego para o filho de um investigador. A rep\u00f3rter citou um e-mail de Hill para Applebaum: \u201cn\u00e3o \u00e9 justo que a Coca-Cola seja sinalizada como vil\u00e3 n\u00famero 1 do mundo da obesidade, mas essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o, e esse \u00e9 o seu problema \u2014 goste voc\u00ea ou n\u00e3o. Quero ajudar sua empresa a evitar a imagem de problema na vida das pessoas e a voltar a ser uma companhia que proporciona coisas importantes e divertidas a elas\u201d.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"txOW7JWoQT\"><p><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/07\/como-a-coca-cola-gastou-milhoes-para-comprar-cientistas\/\">Como a Coca-Cola gastou milh\u00f5es para comprar cientistas<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Como a Coca-Cola gastou milh\u00f5es para comprar cientistas&#8221; &#8212; Ag\u00eancia P\u00fablica\" src=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/07\/como-a-coca-cola-gastou-milhoes-para-comprar-cientistas\/embed\/#?secret=A2zAL4ywLN#?secret=txOW7JWoQT\" data-secret=\"txOW7JWoQT\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marion Nestle &#8211; Em abril, Marion Nestle, professora em\u00e9rita da Faculdade de Nutri\u00e7\u00e3o, Estudos Alimentares e Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de Nova York, lan\u00e7ou aqui no Brasil seu livro Uma verdade indigesta: como a ind\u00fastria de alimentos manipula a ci\u00eancia sobre o que comemos, pela\u00a0Editora Elefante. 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