{"id":11103,"date":"2019-08-01T18:33:13","date_gmt":"2019-08-01T21:33:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11103"},"modified":"2019-07-29T18:34:08","modified_gmt":"2019-07-29T21:34:08","slug":"por-que-devemos-recordar-os-anos-da-republica-de-weimar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/08\/01\/por-que-devemos-recordar-os-anos-da-republica-de-weimar\/","title":{"rendered":"Por que devemos recordar os anos da Rep\u00fablica de Weimar"},"content":{"rendered":"<header class=\"col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"article-header basic |\">\n<p class=\"font_secondary color_gray_dark\"><strong>FERNANDO VALLESP\u00cdNA<\/strong> &#8211; hist\u00f3ria nunca se repete seguindo o mesmo roteiro. Ser\u00e1 que nossa situa\u00e7\u00e3o atual se parece em algo \u00e0 daqueles turbulentos anos 1930 na Alemanha?<\/p>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">Weimar\u00a0\u00e9 uma pequena cidade do Estado alem\u00e3o da Tur\u00edngia, muito pr\u00f3xima de outras com \u00f3bvias resson\u00e2ncias marxistas, como Erfurt, Gota e a hegeliana Jena. No final do s\u00e9culo XVIII, quando mal tinha 6.000 habitantes, foi habitada pelos dois grandes escritores alem\u00e3es, Goethe e Schiller. L\u00e1 tamb\u00e9m passou grande parte de sua vida o m\u00fasico Franz Liszt. E, como se tivesse um \u00edm\u00e3 para atrair g\u00eanios, foi nesse mesmo lugar que\u00a0F. Nietzsche\u00a0morreu, em 1900, e que nasceu o movimento arquitet\u00f4nico da\u00a0escola Bauhaus.<\/p>\n<p class=\"\">Com o tempo, Weimar deixou de ser associada exclusivamente a uma popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de afortunado passado art\u00edstico e cultural e acabou se tornando uma grande met\u00e1fora, o ep\u00edtome do fracasso da democracia liberal parlamentar. N\u00e3o em v\u00e3o, o que nasceu como produto de um impulso otimista de regenera\u00e7\u00e3o nacional e democr\u00e1tica acabou nas trevas do\u00a0nazismo. Por isso, quando hoje em dia falamos da \u201cs\u00edndrome de Weimar\u201d, estamos nos referindo \u00e0s tens\u00f5es que amea\u00e7am p\u00f4r em perigo a estabilidade da\u00a0democracia liberal\u00a0\u2212 tens\u00f5es provocadas principalmente pela revitaliza\u00e7\u00e3o do populismo e pela guinada iliberal, quando n\u00e3o autorit\u00e1ria, que verificamos em alguns lugares da Europa.<\/p>\n<p class=\"\">A grande pergunta \u00e9 se hoje estamos, de fato, diante de algo que tem uma semelhan\u00e7a inquestion\u00e1vel com esse per\u00edodo entreguerras ou se estamos imaginando coisas. A hist\u00f3ria nunca se repete seguindo o mesmo roteiro, mas tamb\u00e9m n\u00e3o precisa cair no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/fascismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">fascismo<\/a>\u00a0ou no nazismo convencional para que ocorra aquilo que Juan Linz estudou sob a ep\u00edgrafe de \u201cquebra das democracias\u201d. De fato, h\u00e1 toda uma linha de pesquisa que parece gostar de contemplar o abismo. Livros com t\u00edtulos do tipo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/05\/internacional\/1554485166_408018.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><em>Como as Democracias Morrem<\/em><\/a>\u00a0(Steven Levitsky e Daniel Ziblatt),\u00a0<em>Na Contram\u00e3o da Liberdade<\/em>\u00a0(Timothy Snyder),\u00a0<em>Como a Democracia Chega ao Fim<\/em>\u00a0(David Runciman) e muitos outros que nos alertam para o perigo do neopopulismo participam dessa s\u00edndrome. Que tem inclusive uma dimens\u00e3o popular, como percebemos ao ver o sucesso de vendas de\u00a0<em>As Origens do Totalitarismo<\/em>, de Hannah Arendt, depois da vit\u00f3ria de Trump. N\u00e3o \u00e9 de surpreender que a principal assunto desse livro seja como se p\u00f4de cair no nazismo. O temor \u00e9 compreens\u00edvel, mas o que n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o claro \u00e9 por que sempre temos de voltar os olhos para Weimar, como se esse fosse o inevit\u00e1vel ponto de refer\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Cem anos de Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"\">Na quarta-feira se completa um s\u00e9culo desde a aprova\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica de Weimar. Ela tem esse nome porque foi redigida e aprovada l\u00e1, em seu desde ent\u00e3o imortal Teatro Nacional, diante do qual h\u00e1 uma bela est\u00e1tua de Goethe e Schiller entrela\u00e7ados. Foi a primeira Constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da ainda jovem\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alemania\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Alemanha<\/a>, e esse h\u00e1bito, o de dar nomes de cidades \u00e0s rep\u00fablicas, permanece desde ent\u00e3o no pa\u00eds. Depois da guerra se come\u00e7ou a falar da Rep\u00fablica de Bonn e, ap\u00f3s a reunifica\u00e7\u00e3o, da Rep\u00fablica de Berlim. Com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1919, o Reich alem\u00e3o ganhava a forma de rep\u00fablica e se organizava como uma democracia parlamentar moderna. N\u00e3o adiantou muito. As contradi\u00e7\u00f5es do per\u00edodo colocaram o pa\u00eds em uma espiral de crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica que acabou como j\u00e1 sabemos.<\/p>\n<blockquote class=\"quote quote_block | font_secondary border border_1 border_solid border_gray_dark border-box pull_left\">\n<div>Que uma sociedade t\u00e3o doente que acabou no nazismo tenha produzido tanta intelig\u00eancia \u00e9 um grande mist\u00e9rio<\/div>\n<\/blockquote>\n<p class=\"\">Al\u00e9m da fascina\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida por um final t\u00e3o tr\u00e1gico, o que torna t\u00e3o atraente esse per\u00edodo \u00e9 o enorme contraste entre aquelas crises e o extraordin\u00e1rio florescimento das artes, da literatura e do pensamento, uma verdadeira era de ouro germ\u00e2nica que se estendeu \u00e0 vizinha\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/austria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00c1ustria<\/a>. A ela pertencem escritores como Hermann Hesse, Thomas Mann, Alfred D\u00f6blin, Bertolt Brecht e Kurt Tucholsky, testemunhas privilegiadas da \u00e9poca. Mas tamb\u00e9m pintores (Paul Klee e George Grosz, por exemplo), arquitetos (n\u00e3o s\u00f3 os da Bauhaus) e cineastas (Fritz Lang, o autor de\u00a0<em>Metr\u00f3polis<\/em>, e J. Von Sternberg, cujo filme\u00a0<em>O Anjo Azul<\/em>\u00a0eternizou Marlene Dietrich). No pensamento, como n\u00e3o lembrar de Heidegger, Husserl, Jaspers, Benjamin. Ou do austr\u00edaco Wittgenstein.<\/p>\n<p class=\"\">Que uma sociedade aparentemente t\u00e3o doente que acabou nas garras do nazismo produza tanta intelig\u00eancia, tanta variedade de vanguardas e tantas inova\u00e7\u00f5es vitais \u00e9 um dos grandes mist\u00e9rios do per\u00edodo. Por isso, a raz\u00e3o de seu fracasso como democracia tem sido buscada em problemas psicossociais (a humilha\u00e7\u00e3o do sentimento nacional pelo tratado de Versalhes e as indeniza\u00e7\u00f5es de guerra), econ\u00f4micos (a hiperinfla\u00e7\u00e3o e a posterior crise do final dos anos 1920) e sociais (a incapacidade do Estado de fornecer a cobertura social adequada aos mais necessitados).<\/p>\n<p class=\"\">Abordaremos daqui a pouco as causas mais propriamente pol\u00edticas. Por enquanto, vamos nos deter na economia, porque o caso de Weimar foi levantado novamente por ocasi\u00e3o da crise de 2008. O pr\u00f3prio\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/paul_krugman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Paul Krugman<\/a>escreveu um interessante artigo no\u00a0<em>The New York Times<\/em>\u00a0nessa mesma \u00e9poca dizendo temer a repeti\u00e7\u00e3o de Weimar na Gr\u00e9cia. Com isso ele se somava \u00e0s muitas vozes que geralmente estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o linear entre crise econ\u00f4mica e colapso democr\u00e1tico. De fato, uma interpreta\u00e7\u00e3o padr\u00e3o para explicar a ascens\u00e3o do nazismo parte dessas mesmas premissas. A hiperinfla\u00e7\u00e3o, primeiro, e a posterior defla\u00e7\u00e3o teriam afundado as classes m\u00e9dias, que foram retirando seu apoio \u00e0 rep\u00fablica e se integrando pouco a pouco ao partido nazista. Observe que a mobilidade descendente desse setor social \u00e9 uma das explica\u00e7\u00f5es \u00e0s quais recorremos para explicar o aumento atual do populismo. Mas isso n\u00e3o chega a convencer, porque a intensidade da deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u2212 enorme em Weimar \u2212 \u00e9 importante. Ou porque alguns pa\u00edses onde o populismo se tornou forte \u2212 a Pol\u00f4nia, por exemplo \u2212 raramente se sa\u00edram melhor economicamente.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>N\u00e3o h\u00e1 democracia sem liberalismo, nem sem prote\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/p>\n<p class=\"\">N\u00e3o, nem Weimar nem o populismo podem ser totalmente explicados sem recorrer a fatores pol\u00edticos. Ainda mais no caso da malfadada rep\u00fablica, porque ela logo se tornaria um extraordin\u00e1rio laborat\u00f3rio no qual atuavam tr\u00eas vis\u00f5es distintas de qual deveria ser o caminho para a moderniza\u00e7\u00e3o. A marxista, mais ou menos inspirada no modelo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/urss_union_republicas_socialistas_sovieticas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">sovi\u00e9tico<\/a>; a liberal parlamentar difundida pelo \u201cmomento wilsoniano\u201d de 1918 e pelo exemplo das ordens pol\u00edticas dos pa\u00edses mais avan\u00e7ados; e a nacional-autorit\u00e1ria, favorecida em princ\u00edpio pelo\u00a0<em>establishment<\/em>\u00a0guilhermino, que se transformaria em seguida na vis\u00e3o fascista\/nazista do povo como uma massa homog\u00eanea que se dilui na vontade do F\u00fchrer. As institui\u00e7\u00f5es de Weimar correspondiam ao segundo modelo, mas amplos setores de sua classe pol\u00edtica, assim como da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acreditavam realmente em seus pressupostos. Recordemos que, assim que nasceu, o Governo de Weimar teve de enfrentar aut\u00eanticos processos revolucion\u00e1rios marxistas, como a Revolta Espartaquista em Berlim e a elimina\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica dos Conselhos de Baviera, de inspira\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. E havia tamb\u00e9m a dificuldade de integrar a velha classe dominante guilhermina, que nunca acreditou realmente na democracia e depois confiaria ingenuamente no nazismo como um instrumento control\u00e1vel para alcan\u00e7ar seus objetivos.<\/p>\n<p class=\"\">N\u00e3o se pode dizer o mesmo de nossas democracias. Nelas, sua legitimidade \u00e9 inquestion\u00e1vel, inclusive pelo populismo, embora este considere que se deveria favorecer a dimens\u00e3o plebiscit\u00e1ria-participativa em vez dos mecanismos \u201cliberais\u201d de controle do poder ou diluir o pluralismo atr\u00e1s de um conceito de povo que abrangesse tudo. O objetivo dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/populismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">populistas<\/a>\u00a0\u00e9 praticar uma pol\u00edtica de identidade que pressione na dire\u00e7\u00e3o da homogeneiza\u00e7\u00e3o nacional e transformar a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em sua principal caracter\u00edstica. Mas, atualmente, eles n\u00e3o recorrem \u00e0 viol\u00eancia nem se baseiam em movimentos de massa ideologizados semelhantes aos da Europa no entreguerras.<\/p>\n<p class=\"\">O problema de Weimar, e isto sim se assemelha aos dias atuais, \u00e9 que pouco a pouco come\u00e7ou a se diluir a confian\u00e7a dos diferentes Governos na capacidade de alcan\u00e7ar um m\u00ednimo de governabilidade capaz de resolver os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/problemas_sociales\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">problemas socioecon\u00f4micos<\/a>. Al\u00e9m do tamanho dos problemas de fundo que iam se acumulando, as desajeitadas interfer\u00eancias presidenciais de Hindenburg, a extrema fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema de partidos e as cont\u00ednuas mobiliza\u00e7\u00f5es de massa de diferentes tend\u00eancias provocaram uma desestabiliza\u00e7\u00e3o permanente que afetou a pr\u00f3pria legitimidade da democracia. E, como alguns dos principais te\u00f3ricos da \u00e9poca advertiram, isso obrigava a combater o multiforme iliberalismo com a reivindica\u00e7\u00e3o dos valores republicanos como base normativa imprescind\u00edvel. Uma democracia sem aspira\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a social, como apontou Hermann Heller, acabaria quebrando, e essa evid\u00eancia serviu depois de inspira\u00e7\u00e3o para o \u201cpacto social-democr\u00e1tico\u201d do p\u00f3s-guerra. Ali\u00e1s, o termo \u201cdemocracia iliberal\u201d, hoje t\u00e3o em voga, foi utilizado pela primeira vez neste contexto por Wilhelm R\u00f6pke no in\u00edcio dos anos 1930.<\/p>\n<p class=\"\">A Constitui\u00e7\u00e3o de Bonn aprenderia depois com todas essas defici\u00eancias de constru\u00e7\u00e3o institucional e apostaria naquilo que L\u00f6wenstein qualificou de \u201cdemocracia militante\u201d. Mas tamb\u00e9m tiraria da experi\u00eancia de Weimar sua obsess\u00e3o pelos d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios e pela demoniza\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/inflacion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">infla\u00e7\u00e3o.<\/a>\u00a0O que nos diferencia de Weimar, sem d\u00favida, \u00e9 que soubemos aprender com o desastre. Esperemos que seu exemplo t\u00e3o invocado contribua para exorciz\u00e1-lo completamente.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/26\/cultura\/1564148647_990100.html<\/p>\n<\/section>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FERNANDO VALLESP\u00cdNA &#8211; hist\u00f3ria nunca se repete seguindo o mesmo roteiro. Ser\u00e1 que nossa situa\u00e7\u00e3o atual se parece em algo \u00e0 daqueles turbulentos anos 1930 na Alemanha? Weimar\u00a0\u00e9 uma pequena cidade do Estado alem\u00e3o da Tur\u00edngia, muito pr\u00f3xima de outras com \u00f3bvias resson\u00e2ncias marxistas, como Erfurt, Gota e a hegeliana Jena. 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