{"id":11027,"date":"2019-07-16T12:48:21","date_gmt":"2019-07-16T15:48:21","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=11027"},"modified":"2019-07-15T21:08:30","modified_gmt":"2019-07-16T00:08:30","slug":"planeta-plastico%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/07\/16\/planeta-plastico%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Planeta pl\u00e1stico\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Yuri Vasconcelos<\/strong> &#8211; Criado h\u00e1 cerca de um s\u00e9culo, o material polim\u00e9rico que trouxe in\u00fameras facilidades \u00e0 vida moderna tornou-se fonte de um enorme problema ambiental.<\/p>\n<p>Quase todo mundo viu ou ouviu falar do v\u00eddeo da tartaruga encontrada com um canudo pl\u00e1stico enfiado no nariz. O epis\u00f3dio aconteceu h\u00e1 quatro anos, quando a bi\u00f3loga marinha norte-americana Christine Figgener conduzia com colegas um estudo sobre tartarugas na Costa Rica. Em alto-mar, eles avistaram um exemplar da esp\u00e9cie verde-oliva com o que parecia ser um verme tubular gigante em uma de suas narinas. Os pesquisadores logo conclu\u00edram que era um peda\u00e7o de canudo, de cerca de 10 cent\u00edmetros, e decidiram remover o objeto. O procedimento, filmado pelo grupo, mostrou o animal agonizando de dor. Postada na internet, a grava\u00e7\u00e3o rapidamente se disseminou pelas redes sociais e contribuiu para que os canudos passassem a ser encarados como um dos grandes vil\u00f5es do meio ambiente. Desde a divulga\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo, visualizado at\u00e9 hoje 36 milh\u00f5es de vezes no YouTube, o produto vem sendo banido de v\u00e1rias cidades ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Esse acontecimento tornou-se emblem\u00e1tico de um problema de grandes propor\u00e7\u00f5es que aflige o planeta: o consumo desenfreado de pl\u00e1sticos e a polui\u00e7\u00e3o gerada por seu descarte inadequado. Estima-se que 8,9 bilh\u00f5es de toneladas de pl\u00e1sticos prim\u00e1rios (ou virgens) e secund\u00e1rios (produzidos de material recicl\u00e1vel) j\u00e1 foram fabricados desde meados do s\u00e9culo passado, quando os pl\u00e1sticos come\u00e7aram a ser produzidos em escala industrial. Cerca de dois ter\u00e7os desse total, ou 6,3 bilh\u00f5es de toneladas, viraram lixo, enquanto 2,6 bilh\u00f5es de toneladas ainda est\u00e3o em uso.<\/p>\n<p>Esses dados integram\u00a0<a href=\"https:\/\/advances.sciencemag.org\/content\/3\/7\/e1700782\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o artigo\u00a0<em>Production, use, and fate of all plastics ever made\u00a0<\/em><\/a>(Produ\u00e7\u00e3o, uso e destino de todo o pl\u00e1stico j\u00e1 feito), publicado na revista\u00a0<em>Science Advances<\/em>, em julho de 2017. Considerado um dos estudos mais completos sobre o tema, ele foi liderado pelo f\u00edsico Roland Geyer, da Universidade da Calif\u00f3rnia em Santa B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Especialistas preocupam-se particularmente com o impacto da polui\u00e7\u00e3o por pl\u00e1sticos nos mares. Calcula-se que, a cada ano, mais de 8 milh\u00f5es de toneladas de lixo produzidos desse material cheguem aos oceanos, provocando preju\u00edzos \u00e0 vida marinha, \u00e0 pesca e ao turismo. Grandes aglomera\u00e7\u00f5es de pl\u00e1stico flutuante est\u00e3o presentes em todos os oceanos \u2013 s\u00e3o os chamados giros. O maior deles, a Grande Mancha de Lixo do Pac\u00edfico,\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2019\/07\/08\/planeta-plastico\/?utm_campaign=oqel&amp;utm_source=Newsletter#capa-plastico-5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">forma-se na altura do Hava\u00ed e da Calif\u00f3rnia e se estende at\u00e9 o Jap\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cUm dos maiores problemas \u00e9 a complexidade dos pl\u00e1sticos existentes nos oceanos. Estamos falando de redes de pesca, dos materiais usados na fabrica\u00e7\u00e3o de roupas, nos produtos descart\u00e1veis, nos dur\u00e1veis e\u00a0<em>pellets<\/em>\u00a0[pequenas esferas pl\u00e1sticas usadas como mat\u00e9ria-prima pela ind\u00fastria]. Cada um deles usa pol\u00edmeros espec\u00edficos que afetam de forma diferente o ambiente e exigem solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias\u201d, declarou \u00e0\u00a0<em>Pesquisa FAPESP<\/em>\u00a0o cientista ambiental Marcus Eriksen, cofundador e diretor do 5 Gyres Institute, entidade com sede na Calif\u00f3rnia focada na redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica nos mares. \u201c\u00c9 at\u00e9 poss\u00edvel remover todo o pl\u00e1stico marinho, mas levaria tanto tempo e custaria tanto dinheiro que n\u00e3o valeria a pena\u201d, diz Eriksen, considerado um dos maiores especialistas no tema. O custo do preju\u00edzo para o ecossistema marinho, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), \u00e9 estimado em US$ 8 bilh\u00f5es por ano. E a tend\u00eancia \u00e9 que esse valor aumente.<\/p>\n<p>Uma das ra\u00edzes do problema \u00e9 a alta demanda da sociedade por pl\u00e1stico. Em 2016, a produ\u00e7\u00e3o atingiu 396 milh\u00f5es de toneladas; em 1950, foram colocados no mercado 2 milh\u00f5es de toneladas.\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2019\/07\/08\/planeta-plastico\/?utm_campaign=oqel&amp;utm_source=Newsletter#capa-plastico-4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A fabrica\u00e7\u00e3o de pl\u00e1stico virgem no s\u00e9culo XXI equivale ao volume produzido nos 50 anos anteriores<\/a>. E as proje\u00e7\u00f5es indicam que, se o ritmo de crescimento n\u00e3o for contido, o mundo ter\u00e1 que acomodar cerca de 550 milh\u00f5es de toneladas do material em 2030.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-295201 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Pl%C3%A1stico_281-2-.jpg?resize=640%2C956&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Pl\u00e1stico_281-2-.jpg 800w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Pl\u00e1stico_281-2--250x373.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Pl\u00e1stico_281-2--700x1046.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Pl\u00e1stico_281-2--120x179.jpg 120w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"956\" \/><\/p>\n<p><em>Garrafas pl\u00e1sticas acumulam-se \u00e0s margens do canal do Porto de Santos (SP)<\/em><\/p>\n<p>\u201cA sociedade estaria 200 anos atrasada se o pl\u00e1stico n\u00e3o tivesse sido inventado\u201d, complementa o engenheiro de materiais especialista em pol\u00edmeros Luis Fernando Cassinelli, presidente da consultoria paulista Avantec BR Participa\u00e7\u00f5es, focada em gest\u00e3o de inova\u00e7\u00e3o. \u201cO planeta n\u00e3o seria capaz de suportar a popula\u00e7\u00e3o atual e futura sem o pl\u00e1stico originado do petr\u00f3leo. Os materiais suced\u00e2neos, como vidro, metal ou papel, trariam problemas de outra natureza, entre eles aumento do consumo de energia ou de \u00e1gua.\u201dN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender as causas do vertiginoso crescimento da produ\u00e7\u00e3o desses pol\u00edmeros origin\u00e1rios principalmente de materiais f\u00f3sseis, como petr\u00f3leo, g\u00e1s e carv\u00e3o. \u201cO pl\u00e1stico \u00e9 um material leve, resistente e dur\u00e1vel, que traz inova\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento da sociedade\u201d, afirma Jos\u00e9 Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria do Pl\u00e1stico (Abiplast), entidade que congrega 12,1 mil empresas e 323 mil empregados. \u201cO uso de descart\u00e1veis na \u00e1rea da sa\u00fade, por exemplo, evita contamina\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de doen\u00e7as. No setor automotivo, ele garante redu\u00e7\u00e3o de peso dos carros e ganho de efici\u00eancia energ\u00e9tica. J\u00e1 as embalagens aliment\u00edcias servem para aumentar a vida \u00fatil de prateleira das comidas.\u201d<\/p>\n<p>O f\u00edsico Munir Salom\u00e3o Skaf, do Instituto de Qu\u00edmica da Universidade Estadual de Campinas (IQ-Unicamp), concorda que a versatilidade, o baixo custo e a estabilidade dos pl\u00e1sticos diante dos processos naturais de degrada\u00e7\u00e3o o tornaram onipresente no mundo, mas ressalva: \u201cEssas mesmas propriedades fazem dele um s\u00e9rio agente poluidor por n\u00e3o se degradar facilmente no ambiente\u201d. Diretor do Centro de Pesquisa em Engenharia e Ci\u00eancias Computacionais, um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (Cepid) da FAPESP, Skaf trabalha para tornar mais f\u00e1cil essa degrada\u00e7\u00e3o. Ele participa, com o p\u00f3s-doutorando Rodrigo Leandro Silveira, de um grupo internacional respons\u00e1vel pela\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2019\/07\/08\/reutilizar-substituir-degradar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cria\u00e7\u00e3o de uma enzima que degrada mais facilmente pl\u00e1sticos, a PETase<\/a>.<\/p>\n<blockquote><p>Maior preocupa\u00e7\u00e3o dos especialistas, os pl\u00e1sticos de uso \u00fanico representam cerca de 40% da produ\u00e7\u00e3o mundial<\/p><\/blockquote>\n<p>A polui\u00e7\u00e3o por materiais pl\u00e1sticos, sustenta Skaf, \u00e9 um grave problema ambiental e requer, para seu enfrentamento, tr\u00eas abordagens complementares: a dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o do uso, a substitui\u00e7\u00e3o por novos materiais (com caracter\u00edsticas similares ao pl\u00e1stico sint\u00e9tico) facilmente degrad\u00e1veis e a destina\u00e7\u00e3o adequada dos res\u00edduos, via coleta e reciclagem.<\/p>\n<p>Produtos pl\u00e1sticos de uso \u00fanico, aqueles com vida \u00fatil ef\u00eamera, s\u00e3o a maior preocupa\u00e7\u00e3o dos ambientalistas, por serem descartados imediatamente ap\u00f3s sua utiliza\u00e7\u00e3o. Entre 35% e 40% da produ\u00e7\u00e3o atual \u00e9 composta por esse tipo de material, nos quais se incluem copos, sacolas, canudos, embalagens e talheres descart\u00e1veis. Os demais s\u00e3o produtos de longa dura\u00e7\u00e3o, uma gama diversificada de itens que vai de celulares a pe\u00e7as automotivas, de tubula\u00e7\u00f5es para \u00e1gua e esgoto a equipamentos m\u00e9dicos e de inform\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cDescartamos uma quantidade de pl\u00e1sticos de uso \u00fanico a uma velocidade que a natureza n\u00e3o consegue absorver\u201d, constata a especialista em gest\u00e3o ambiental Sylmara Lopes Gon\u00e7alves Dias, da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades da Universidade de S\u00e3o Paulo (EACH-USP). \u201cSe tivermos materiais ou mesmo pl\u00e1sticos que tenham maior durabilidade e n\u00e3o sejam jogados fora t\u00e3o rapidamente, vamos reduzir bastante a escala dos produtos descartados.\u201d<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Plastico_281-4-desktop.png?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div class=\"post-content sequence\">\n<p>Um problema \u00e9 que na natureza os pl\u00e1sticos sint\u00e9ticos levam um tempo excessivo para se degradar. Garrafas de \u00e1gua e refrigerantes feitas de PET (polietileno tereftalato) precisam de at\u00e9 400 anos para se decompor, enquanto um copo de pl\u00e1stico permanece pelo menos 200 anos no ambiente. Por isso, dizem os estudiosos do tema, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dissociar os impactos gerados pelo pl\u00e1stico no ambiente da gest\u00e3o de res\u00edduos nas cidades.<\/p>\n<p>\u201cAproximadamente 80% do pl\u00e1stico achado nos mares vem de fontes terrestres. O restante tem origem em atividades humanas realizadas no pr\u00f3prio oceano. S\u00e3o cont\u00eaineres que caem de embarca\u00e7\u00f5es, redes de pesca perdidas ou abandonadas e lixo de navios\u201d, conta o especialista em ecologia e conserva\u00e7\u00e3o marinha Alexander Turra, do Instituto Oceanogr\u00e1fico (IO) da USP. \u201cNo Brasil, parte importante do lixo que chega ao mar \u00e9 gerado em \u00e1reas ocupadas irregularmente, como terrenos em morros e manguezais, onde n\u00e3o h\u00e1 oferta de servi\u00e7o de coleta de lixo. \u00c9, portanto, um problema ligado \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o territorial irregular e que tem raiz essencialmente socioecon\u00f4mica.\u201d<\/p>\n<p>Um estudo divulgado este ano pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental WWF (Fundo Mundial para a Natureza) mostrou que, em raz\u00e3o da m\u00e1 gest\u00e3o dos res\u00edduos, um ter\u00e7o do lixo pl\u00e1stico produzido anualmente no mundo polui a natureza. \u201cNossos solos, \u00e1guas doces e oceanos est\u00e3o contaminados com macro, micro e nanopl\u00e1sticos. A cada ano, seres humanos ingerem cada vez mais nanopl\u00e1stico a partir de seus alimentos e da \u00e1gua pot\u00e1vel, e seus efeitos totais ainda s\u00e3o desconhecidos\u201d, aponta o relat\u00f3rio \u201cSolucionar a polui\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica: Transpar\u00eancia e responsabilidade\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Plastico_281-5-desktop.png?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"post-content sequence\">\n<p><strong>Situa\u00e7\u00e3o do Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Pa\u00eds com s\u00e9rias defici\u00eancias na infraestrutura de saneamento b\u00e1sico, o Brasil sofre com esse tipo de polui\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, contribui para seu agravamento. De acordo com o WWF, o pa\u00eds foi o quarto maior produtor de lixo pl\u00e1stico do mundo em 2016, <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2019\/07\/08\/planeta-plastico\/?utm_campaign=oqel&amp;utm_source=Newsletter#capa-plastico-5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">com 11,3 milh\u00f5es de toneladas, superados apenas por Estados Unidos, China e \u00cdndia<\/a>. A maior parte dos res\u00edduos gerados no pa\u00eds, 10,3 milh\u00f5es de toneladas ou 91% do total, foi coletada pelo servi\u00e7o de limpeza urbana, mas somente 145 mil toneladas, equivalente a 1,28%, foram encaminhadas para reciclagem. Esse \u00e9 um dos menores \u00edndices do mundo e bem abaixo da m\u00e9dia global, de 9%, segundo a ONG ambientalista, que utilizou em seu relat\u00f3rio dados prim\u00e1rios do estudo\u00a0<em>What a waste 2.0<\/em>, do Banco Mundial, lan\u00e7ado em 2018.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria do pl\u00e1stico faz ressalvas a esses n\u00fameros. \u201cA base de dados utilizada pelo WWF est\u00e1 errada, tanto no que diz respeito \u00e0 quantidade de pl\u00e1stico reciclada quanto ao volume de lixo produzido no pa\u00eds\u201d, diz o engenheiro qu\u00edmico Miguel Bahiense Neto, presidente da Plastivida \u2013 Instituto Socioambiental dos Pl\u00e1sticos, entidade mantida pelas empresas do setor. De acordo com ele, o consumo de produtos pl\u00e1sticos no pa\u00eds foi de 6,1 milh\u00f5es de toneladas em 2016. Desse total, 33% s\u00e3o produtos de vida curta, de at\u00e9 um ano, que s\u00e3o rapidamente descartados, categoria na qual est\u00e3o classificadas embalagens, garrafas, copos e sacolas. \u201cO volume de pl\u00e1stico descartado no pa\u00eds corresponde a 20% do total divulgado no relat\u00f3rio do WWF\u201d, afirma Bahiense.<\/p>\n<div class=\"box-lateral\">\n<p><strong>Um pol\u00edmero vers\u00e1til<\/strong><em>Alguns benef\u00edcios que o pl\u00e1stico oferece \u00e0 sociedade dif\u00edceis de serem substitu\u00eddos<\/em><\/p>\n<p><strong>Conserva\u00e7\u00e3o de alimentos<\/strong><br \/>\nO desperd\u00edcio de alimentos responde por um ter\u00e7o das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa no mundo. Embalagens pl\u00e1sticas combatem o desperd\u00edcio, ajudando a evitar a deteriora\u00e7\u00e3o dos alimentos e garantindo sua qualidade e seguran\u00e7a<\/p>\n<p><strong>Fabrica\u00e7\u00e3o de roupas<\/strong><br \/>\nCerca de 60% das roupas produzidas no mundo s\u00e3o de tecidos sint\u00e9ticos, feitos de pl\u00e1sticos. Vestir a humanidade apenas com fibras naturais seria um grande desafio<\/p>\n<p><strong>Carros mais leves<\/strong><br \/>\nCada 150 quilos a menos no peso de um autom\u00f3vel faz com que ele rode 1 quil\u00f4metro (km) a mais por litro de combust\u00edvel. Os carros de hoje t\u00eam, em m\u00e9dia, 200 quilos de pl\u00e1stico em sua estrutura, que substituem 1 tonelada de metal. Os 800 kg a menos resultam em um ganho de 5 km a mais por litro consumido<\/p>\n<p><strong>Sa\u00fade humana<\/strong><br \/>\nO aumento da longevidade \u00e9 atribu\u00edda, entre outros fatores, ao desenvolvimento de vacinas e ao controle de infec\u00e7\u00f5es hospitalares. Pl\u00e1sticos descart\u00e1veis tiveram papel fundamental nesse segundo t\u00f3pico<\/p>\n<p><strong>Menos efeito estufa<\/strong><br \/>\nA decomposi\u00e7\u00e3o de embalagens biodegrad\u00e1veis, como as fabricadas de amido, gera di\u00f3xido de carbono (CO<sub>2<\/sub>), g\u00e1s respons\u00e1vel pelo efeito estufa. Pl\u00e1sticos armazenados em aterros sanit\u00e1rios aprisionam CO<sub>2<\/sub>, evitando que sejam liberados na atmosfera e intensifiquem o problema<\/p>\n<\/div>\n<p>Gabriela Yamaguchi, diretora de comunica\u00e7\u00e3o e engajamento do WWF-Brasil, explica que o resultado da ind\u00fastria \u00e9 distinto do apresentado pela ONG porque parte de base de dados diferentes \u2013 o do WWF foca na estimativa do vazamento de lixo pl\u00e1stico na natureza a partir de dados coletados em 2016 pelo Banco Mundial. Ela ressalta, no entanto, que os res\u00edduos pl\u00e1sticos produzidos em determinado ano n\u00e3o se limitam exclusivamente aos materiais de uso \u00fanico descart\u00e1veis fabricados naquele per\u00edodo \u2013 como sugere Bahiense. \u201cPl\u00e1sticos de longa dura\u00e7\u00e3o colocados no mercado no passado ser\u00e3o descartados em algum momento, elevando o volume de lixo gerado naquele ano\u201d, diz Yamaguchi.<\/p>\n<p>A Plastivida e a Abiplast tamb\u00e9m contestam os dados relativos \u00e0 reciclagem. De acordo com elas, 550 mil toneladas de pl\u00e1sticos foram recicladas em 2016. \u201cSe tomarmos o volume reciclado por ano e compararmos com o que efetivamente \u00e9 consumido de embalagens e equipar\u00e1veis no Brasil, temos um \u00edndice de reciclagem de 25,8%\u201d, informaram as duas entidades em nota. Comparando-se, entretanto, o volume reciclado com o consumo total de pl\u00e1stico no ano, o \u00edndice cai e fica pr\u00f3ximo a 9%.<\/p>\n<p>Apesar da assimetria entre os levantamentos, todos concordam que ainda \u00e9 baixo o volume de pl\u00e1stico reciclado no pa\u00eds. E essa \u00e9 uma das formas para enfrentar o problema. \u201cO Brasil tem que investir na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que promovam as t\u00e9cnicas de reciclagem e a economia circular, envolvendo todos os atores da cadeia, como grandes produtores de resinas e insumos, ind\u00fastrias de transforma\u00e7\u00e3o [que fabricam os produtos pl\u00e1sticos], revendedores e consumidores\u201d, opina o engenheiro qu\u00edmico Jos\u00e9 Carlos Pinto, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ). Economia circular \u00e9 um conceito fundamentado na reutiliza\u00e7\u00e3o, recupera\u00e7\u00e3o e reciclagem de materiais p\u00f3s-uso.<\/p>\n<p>Para o presidente da Abiplast, Jos\u00e9 Ricardo Roriz Coelho, esse \u00e9 o caminho a ser seguido. \u201cA coleta seletiva e a reciclagem s\u00e3o essenciais para a resolu\u00e7\u00e3o do problema da polui\u00e7\u00e3o ambiental, mas essas frentes ainda enfrentam empecilhos, como a bitributa\u00e7\u00e3o do setor, a baixa oferta de mat\u00e9ria-prima e o alto custo log\u00edstico para o transporte do material. Para reverter esse quadro, a ind\u00fastria da reciclagem precisa ser incentivada e valorizada\u201d, destaca o executivo. Em outras palavras, o processo ainda permanece n\u00e3o lucrativo em larga escala e atrai poucos interessados.<\/p>\n<p>Pesquisadores e ambientalistas concordam com a import\u00e2ncia do fortalecimento da economia circular, mas afirmam que a reciclagem n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica para os desafios do lixo pl\u00e1stico. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel enfrentar o problema olhando apenas para o p\u00f3s-consumo. H\u00e1 pl\u00e1sticos que n\u00e3o s\u00e3o naturalmente recicl\u00e1veis. Pol\u00edmeros aditivados e embalagens compostas, feitas de pl\u00e1stico e metal, muito usadas em alimentos, n\u00e3o s\u00e3o reciclados mecanicamente, assim como itens contaminados e de baixo valor\u201d, explica Yamaguchi, do WWF. Al\u00e9m da reciclagem mec\u00e2nica, a mais usada no Brasil e no mundo, existem outros dois tipos, a qu\u00edmica e a energ\u00e9tica, adotadas principalmente em pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>Por isso, defende Sylmara Dias, da EACH-USP, \u00e9 importante trabalhar tamb\u00e9m no in\u00edcio da cadeia produtiva, focando em produtos com design amig\u00e1veis ao ambiente. \u201cPrecisamos de uma pol\u00edtica p\u00fablica que condicione os fabricantes a aprovar o design e os materiais usados em novas embalagens, antes de seu lan\u00e7amento, garantindo que n\u00e3o tenham potencial poluidor\u201d, afirma Dias. \u201cAo mesmo tempo, \u00e9 preciso investir em novas solu\u00e7\u00f5es, como materiais biodegrad\u00e1veis de origem biol\u00f3gica, que a natureza consiga naturalmente regenerar.\u201d<\/p>\n<div class=\"box\">\n<p><strong>As m\u00faltiplas faces do material<\/strong><em>Existe quase uma centena de diferentes tipos de pl\u00e1stico, material que se tornou uma febre mundial a partir da metade do s\u00e9culo passado<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil pensar na vida cotidiana sem a presen\u00e7a dos pl\u00e1sticos, embora eles sejam uma inven\u00e7\u00e3o relativamente recente. O primeiro, a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2006\/03\/01\/a-era-do-plastico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">resina sint\u00e9tica baquelite, foi criado apenas na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX<\/a>, para substituir o marfim de elefantes e chifres e cascos de boi. R\u00edgida, resistente ao calor e dur\u00e1vel, ela \u00e9 usada at\u00e9 hoje para fabricar tomadas, cabos de panela, ferramentas e telefones.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria ganhou for\u00e7a nos anos 1930 com o surgimento do poliestireno, da poliamida (nylon \u00e9 a principal marca) e de pol\u00edmeros acr\u00edlicos, todos \u00e0 base de petr\u00f3leo. Mas foi a partir da d\u00e9cada de 1950, com o fim da 2\u00aa Guerra Mundial, que o material se popularizou. Tecidos de poli\u00e9ster, lycra e nylon, mais baratos, f\u00e1ceis de lavar e que dispensavam a necessidade de passar, come\u00e7aram a competir com roupas de algod\u00e3o e de outros tecidos naturais. O PVC, utilizado na fabrica\u00e7\u00e3o de materiais de constru\u00e7\u00e3o, barateou processos desse setor e a resina de melamina-formalde\u00eddo come\u00e7ou a ser largamente empregada na produ\u00e7\u00e3o de utens\u00edlios dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>Os pl\u00e1sticos passaram a ser valorizados e associados a um novo estilo de vida, de uma sociedade direcionada ao consumo. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, a procura pelo material acelerou ainda mais gra\u00e7as \u00e0 explos\u00e3o de pl\u00e1sticos de uso \u00fanico, embalagens descart\u00e1veis e sacolas pl\u00e1sticas. Esses produtos inundaram o mercado, substituindo principalmente bens manufaturados de uso pessoal e dom\u00e9stico, feitos de outros materiais, como vidro, madeira, papel e metal.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu, por exemplo, com as garrafas de PET, que, pouco a pouco, desbancaram as retorn\u00e1veis de vidro. Brinquedos que antes eram fabricados de madeira passaram a ser confeccionados de resinas pl\u00e1sticas. E canudos, copos, pratos e talheres descart\u00e1veis conquistaram o consumidor pela comodidade de n\u00e3o precisarem ser lavados \u2013 baratos, podiam ser jogados no lixo ap\u00f3s o uso.<\/p>\n<p>Hoje, o vasto universo dos pl\u00e1sticos \u2013 um material feito pela uni\u00e3o de grandes cadeias moleculares chamadas pol\u00edmeros, que, por sua vez, s\u00e3o formados a partir de mol\u00e9culas menores, os mon\u00f4meros \u2013 inclui quase uma centena de variedades e suas deriva\u00e7\u00f5es. Eles se dividem em dois grupos. Os termopl\u00e1sticos (80% dos pl\u00e1sticos consumidos) s\u00e3o male\u00e1veis a altas temperaturas e recicl\u00e1veis. J\u00e1 os termorr\u00edgidos se decomp\u00f5em ao aquecer e n\u00e3o s\u00e3o recicl\u00e1veis mecanicamente.<\/p>\n<p>A fabrica\u00e7\u00e3o de embalagens, itens descart\u00e1veis que logo viram lixo, domina o setor. Em 2015, responderam por cerca de 36% do pl\u00e1stico produzido no mundo. O setor da constru\u00e7\u00e3o consumiu 16% das resinas e a ind\u00fastria t\u00eaxtil 14%.<\/p>\n<\/div>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"responsive-img\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Plastico_281-2-desktop.png?w=640&#038;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 760px) 760w, (max-width: 1140px) 1140w, 1920w\" srcset=\"\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Plastico_281-2-mobile.png 760w, \/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Plastico_281-2-tablet.png 1140w, \/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Plastico_281-2-desktop.png 1920w\" alt=\"\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/018-031_CAPA_Plastico_281-2-desktop.png?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p class=\"bibliografia separador-bibliografia\"><strong>Projetos<br \/>\n1.<\/strong>\u00a0Centro de Engenharia e Ci\u00eancias Computacionais (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/58582\/cecc-centro-de-engenharia-e-ciencias-computacionais\/?q=13\/08293-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 13\/08293-7<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (Cepid);\u00a0<strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Munir Salom\u00e3o Skaf (Unicamp);\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 23.737.036,75.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\">H\u00e1 mais de 700 aux\u00edlios \u00e0 pesquisa e bolsas concedidas pela FAPESP sobre o tema. Ver\u00a0<a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/47942\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bv.fapesp.br\/47942<\/a>.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Artigo cient\u00edfico<\/strong><br \/>\nGEYER, R.\u00a0<em>et al.<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/advances.sciencemag.org\/content\/3\/7\/e1700782\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Production, use, and fate of all plastics ever made<\/a>.\u00a0<strong>Science Advances<\/strong>. 19 jul. 2017.<\/p>\n<p>https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2019\/07\/08\/planeta-plastico\/?utm_campaign=oqel&#038;utm_source=Newsletter<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Yuri Vasconcelos &#8211; Criado h\u00e1 cerca de um s\u00e9culo, o material polim\u00e9rico que trouxe in\u00fameras facilidades \u00e0 vida moderna tornou-se fonte de um enorme problema ambiental. Quase todo mundo viu ou ouviu falar do v\u00eddeo da tartaruga encontrada com um canudo pl\u00e1stico enfiado no nariz. 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