{"id":1099,"date":"2016-07-16T09:38:02","date_gmt":"2016-07-16T12:38:02","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1099"},"modified":"2016-07-07T13:37:11","modified_gmt":"2016-07-07T16:37:11","slug":"imobilismo-politico-da-incapacidade-de-unir-pautas-ao-aumento-da-inseguranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/16\/imobilismo-politico-da-incapacidade-de-unir-pautas-ao-aumento-da-inseguranca\/","title":{"rendered":"Imobilismo pol\u00edtico: Da incapacidade de unir pautas ao aumento da inseguran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Patricia Fachin <\/strong><em>&#8211;\u00a0<\/em>\u00a0\u201cO problema da desigualdade social (que \u00e9 acompanhada pelo racismo) \u00e9 a quest\u00e3o mais urgente no pa\u00eds, pois vai agravar qualquer outra problem\u00e1tica social. Nesse sentido me parece que estamos longe de ter avan\u00e7os, pois cada vez mais se criam mais condi\u00e7\u00f5es para que ela se perpetue\u201d, adverte a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Apesar de uma multiplicidade de pautas estarem presentes nas discuss\u00f5es da sociedade brasileira, como a situa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, do desmonte do SUS\u00a0e da viol\u00eancia nas favelas e contra as mulheres, existe uma \u201cdificuldade\u201d de \u201ccriar pautas que sejam transversais, apesar de a maioria dessas quest\u00f5es estarem relacionadas a uma precariza\u00e7\u00e3o do Estado\u201d, diz Talita Tibola.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dela, a pauta da corrup\u00e7\u00e3o, \u201cse n\u00e3o fosse colocada simplesmente de maneira moral, e de certo modo recha\u00e7ada pela esquerda, poderia ser uma pauta agregadora, pois ela pode produzir de certa forma essa transversalidade, explicitando a m\u00e1 gest\u00e3o e a corrup\u00e7\u00e3o no Estado, explicitando como adesigualdade social aumenta de maneira estrutural\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.soxadrez.com.br\/figuras\/xeque-mate01.jpg?w=300\"  \/><\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por e-mail, Talita reflete sobre o atual momento pol\u00edtico e social do pa\u00eds e sobre o \u201cimobilismo pol\u00edtico\u201d que tem impedido avan\u00e7os e propostas alternativas para solucionar a crise brasileira. \u201cO \u2018Fora Temer\u2019\u201d, pondera, \u201ctem a capacidade de unir pautas, abrange muito mais pessoas\u201d e \u201ctodos concordam que n\u00e3o h\u00e1 nada a defender no governo Temer\u201d, mas \u201cao mesmo tempo, acho sintom\u00e1tico que toda e qualquer pauta seja ligada a um \u2018Fora Temer\u2019 com sabor de \u2018Fica Dilma\u2019, o que impossibilita qualquer aprofundamento de pautas e coloca em primeiro plano a impossibilidade do debate\u201d, frisa.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dela, \u201ca constitui\u00e7\u00e3o dessas mobiliza\u00e7\u00f5es a partir do consenso de que Dilma deveria ficar, impossibilita o debate sobre o que foi feito realmente no governo Dilma, sobre responsabiliza\u00e7\u00e3o, deixaria mais claras as pautas, os desmontes que j\u00e1 estavam sendo feitos (por exemplo, como \u00e9 o caso do SUS). Essa situa\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 pautas sendo levantadas, mas que est\u00e3o sendo levantadas agora porque s\u00e3o contra o Temer, solidifica uma n\u00e3o-autocr\u00edtica. Penso que essa seja a maior causa do imobilismo atual nos movimentos\u201d.<\/p>\n<p>Talita tamb\u00e9m reflete sobre o uso recorrente do termo \u201cfascismo\u201d no atual momento pol\u00edtico e afirma que \u201cexistem, sim, comportamentos fascistas, com os quais precisamos nos preocupar\u201d, como o caso da viol\u00eancia na Mar\u00e9, no Rio de Janeiro, que representa um \u201cfascismo de Estado\u201d, ou o \u201cassassinato de um jovem negro homossexual a pauladas por uma juventude que se chama liberal\u201d.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga comenta ainda o \u201cdiscurso do medo\u201d que tamb\u00e9m tem sido alimentado pela esquerda, especialmente na \u201ccampanha\u201d e na \u201cdefesa para que Dilma fique\u201d no governo, as quais s\u00e3o baseadas \u201cnas amea\u00e7as\u201d de que todas asconquistas sociais v\u00e3o acabar e \u201cn\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o de proposta do que pode ficar, do que precisa mudar. Por isso talvez o imobilismo, pois n\u00e3o importa se est\u00e1 ruim. O que importa para o discurso do medo \u00e9 que, se ela sair, vai ficar pior\u201d.<\/p>\n<p>Junto com o discurso do medo, pontua, surge o \u201caumento da inseguran\u00e7a\u201d que tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado ao aumento do desemprego no pa\u00eds. \u201cN\u00e3o \u00e9 que quem perde o emprego diretamente produz viol\u00eancia, mas a perda do emprego aumenta a inseguran\u00e7a, aumenta tamb\u00e9m uma raiva social direcionada ao outro (sejam governantes, os vizinhos, \u2018os ricos\u2019, \u2018os pobres\u2019), s\u00e3o todos discursos que aumentam o conflito social, geram inseguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Talita Tibola \u00e9 psic\u00f3loga e tradutora. \u00c9 doutora em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense &#8211; UFF e participa do Grupo PesquisarCom e da Universidade N\u00f4made. A pesquisadora participou do ciclo de Ocupas e de movimentos aut\u00f4nomos em Bologna, na It\u00e1lia.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.acritica.net\/img\/PC\/620\/620\/dn_noticia\/2015\/06\/reforma-politica12.jpg?w=300\"  \/><\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; Minha an\u00e1lise \u00e9 que no p\u00f3s-junho de 2013 o acirramento de diferen\u00e7as entre grupos se d\u00e1 como efeito da restaura\u00e7\u00e3o de junho. Ou seja, como t\u00e1tica de calar esse movimento. Um momento forte disso foi o per\u00edodo eleitoral em que, inclusive em forma de brincadeira, mas sem ser mentira, se falou bastante n\u00e3o somente no \u00e2mbito dos movimentos, sobre o fim de amizades de longa data, exemplificando de que maneira a sociedade estava separada nesse momento. Acho que essas divis\u00f5es acontecem n\u00e3o s\u00f3 porque houve uma restaura\u00e7\u00e3o, mas porque foi um momento de grande impasse. Era muito mais f\u00e1cil estar lado a lado quando o que era a esquerda era facilmente detect\u00e1vel. E saber tamb\u00e9m o que era o certo a fazer. Quando nem n\u00f3s mesmos temos tanta certeza assim, temos s\u00f3 a certeza do que n\u00e3o devemos fazer, mas poucas apostas, ent\u00e3o, apesar de menos certos, ficamos tamb\u00e9m mais inseguros e defendendo mais cada um a sua raz\u00e3o.IHU On-Line &#8211; Na \u00faltima entrevista que nos concedeu, voc\u00ea mencionou que junho de 2013 havia fragmentado as mobiliza\u00e7\u00f5es sociais e dividido ainda mais os partidos e movimentos sociais. Nesse sentido, quais t\u00eam sido os impactos de junho de 2013 na pol\u00edtica e na mobiliza\u00e7\u00e3o social brasileira\u00a0hoje?<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a essa certeza sobre de qual lado se deve estar, um bom exemplo s\u00e3o as campanhas para a elei\u00e7\u00e3o deLula, que foi um momento de muito consenso em rela\u00e7\u00e3o ao que precisava ser feito, mas tamb\u00e9m no caso da luta contra a ditadura, onde se tinha do mesmo lado tanto Dilma Rousseff quanto Fernando Henrique Cardoso. Um dos efeitos de junho de 2013, penso, \u00e9 essa reconfigura\u00e7\u00e3o de lugares no sistema pol\u00edtico, n\u00e3o s\u00f3 em termos formais, mas da constitui\u00e7\u00e3o de novos lugares pol\u00edticos, mas que se d\u00e1 de maneira um pouco lenta e que ainda n\u00e3o conseguimos divisar.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Essas indigna\u00e7\u00f5es atravessam os movimentos organizados, mas s\u00e3o mais amplas que eles, \u00e9 importante perceber isso para poder expandi-los&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as pautas da multiplicidade de movimentos que existem hoje? Essa multiplicidade de movimentos tem dado conta de colocar em pauta as quest\u00f5es mais urgentes do pa\u00eds?<\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; Vejo como pautas que t\u00eam sido colocadas, a partir de situa\u00e7\u00f5es concretas, a educa\u00e7\u00e3o e a situa\u00e7\u00e3o das escolas e das universidades, a sa\u00fade e o desmonte do SUS, a mobiliza\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia nas favelas, que continua sempre presente, mas talvez com pouco impacto infelizmente, o feminismo principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher. Desses movimentos me parece que os mais expansivos s\u00e3o o movimento das escolas ocupadas e o movimento feminista, que tem sido bastante debatido nas redes sociais. Acho que existe uma dificuldade, exacerbada nesse momento, de pautar essas discuss\u00f5es para al\u00e9m dos seus c\u00edrculos. Al\u00e9m de uma multiplicidade de pautas que s\u00e3o mais vis\u00edveis pela presen\u00e7a de movimentos organizados que se mobilizam a partir delas, h\u00e1 uma indigna\u00e7\u00e3o generalizada, indigna\u00e7\u00e3o com a precariza\u00e7\u00e3o da universidade, das escolas, com a sa\u00fade p\u00fablica. Essas indigna\u00e7\u00f5es atravessam os movimentos organizados, mas s\u00e3o mais amplas que eles, \u00e9 importante perceber isso para poder expandi-los.<\/p>\n<p>A dificuldade nesse momento parece ser criar pautas que sejam transversais, apesar de a maioria\u00a0dessas quest\u00f5es estarem relacionadas a uma precariza\u00e7\u00e3o do Estado, e o que acaba acontecendo \u00e9 que se tornam express\u00f5es muito pontuais de problem\u00e1ticas. Nesse sentido, a pauta da corrup\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o fosse colocada simplesmente de maneira moral, e de certo modo recha\u00e7ada pela esquerda, poderia ser uma pauta agregadora, pois ela pode produzir de certa forma essa transversalidade, explicitando a m\u00e1 gest\u00e3o e a corrup\u00e7\u00e3o no Estado, explicitando como a desigualdade social aumenta de maneira estrutural. O problema da desigualdade social (que \u00e9 acompanhada pelo racismo) \u00e9 a quest\u00e3o mais urgente no pa\u00eds, pois vai agravar qualquer outra problem\u00e1tica social. Nesse sentido me parece que estamos longe de ter avan\u00e7os, pois cada vez mais se criam mais condi\u00e7\u00f5es para que ela se perpetue.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como voc\u00ea est\u00e1 analisando as ocupa\u00e7\u00f5es de escolas? Esse movimento recebe alguma influ\u00eancia de junho de 2013?<\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; Acredito que as ocupa\u00e7\u00f5es das escolas se aproximam de junho pela sua transversalidade, por estarem, na maioria das ocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ligados a partidos ou a vis\u00f5es pol\u00edticas, mas a pautas unificadoras: a merenda, a precariza\u00e7\u00e3o das escolas, a solidariza\u00e7\u00e3o dos alunos com o n\u00e3o pagamento dos professores, a vontade de pensar seriamente uma educa\u00e7\u00e3o e cultura abertas e a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es direcionadas a isso. No sentido da merenda h\u00e1 uma semelhan\u00e7a com junho por ser um movimento que procura abrir algumas caixas-pretas.<\/p>\n<p>Em junho a pauta era a corrup\u00e7\u00e3o nos transportes e na Copa, e, nas escolas, a corrup\u00e7\u00e3o na merenda. Esses s\u00e3o movimentos importantes porque podem ser percebidos atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es locais, otimizam e produzem v\u00e1rias delas, mas ao mesmo tempo nascem e t\u00eam como pano de fundo uma pauta diretamente relacionada ao governo, questionando-o, pressionando-o. \u00c9 uma pauta que alcan\u00e7a o macro, e \u00e9 por isso que \u00e9 reprimida. Se as pessoas diretamente ligadas nas ocupa\u00e7\u00f5es de escolas estavam ligadas a junho, n\u00e3o sei, mas com certeza existe um efeito-junho a\u00ed.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Hoje se percebem algumas a\u00e7\u00f5es de \u201cativismo est\u00e9tico\u201d na sociedade brasileira, com a divulga\u00e7\u00e3o de frases como \u201cAmar \u00e9 a Mar\u00e9 Amarildo\u201d. Como v\u00ea esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o e qual \u00e9 o impacto social e pol\u00edtico que isso gera na sociedade?<\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; Acho esse tipo de ativismo fundamental n\u00e3o s\u00f3 porque realiza o papel de dar visibilidade, mas porque provoca uma transforma\u00e7\u00e3o da sensibilidade. Uma abertura para que as pessoas percebam o que n\u00e3o percebiam.Amarildo, infelizmente, n\u00e3o foi o primeiro nem o \u00faltimo a ser morto e desaparecido pela pol\u00edcia, o que aconteceu naquele momento \u00e9 que um problema foi colocado. Foi essa morte, acontecida ao longo das manifesta\u00e7\u00f5es de junho, que deu visibilidade e tamb\u00e9m legitimidade para a manifesta\u00e7\u00e3o realizada pelos familiares e amigos de Amarildo no t\u00fanel Zuzu Angel. Infelizmente esse tipo de protesto tamb\u00e9m ocorre com frequ\u00eancia, mas naquele momento n\u00e3o era poss\u00edvel n\u00e3o olhar para isso e enxergar o que estava acontecendo. N\u00e3o era poss\u00edvel dizer que eram \u201cmarginais atrapalhando o tr\u00e2nsito\u201d, porque todo mundo estava olhando e controlando o que estava acontecendo, e esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica contribuiu para isso.<\/p>\n<p>\u00c9 emblem\u00e1tico que voc\u00ea d\u00ea esse exemplo, pois nesse momento a situa\u00e7\u00e3o na Mar\u00e9 \u00e9 muito cr\u00edtica, \u00e9 apavorante. \u00c9 apavorante como as den\u00fancias n\u00e3o ecoam, como tudo se passa como se fosse normal: buscas, tiroteios no meio da tarde, mortes, como se nada fosse. Depois de um dos tiroteios da semana passada, a Thamyra Th\u00e2mara de Ara\u00fajo, comunicadora social que mora no morro do alem\u00e3o, escreveu algo no Facebook que acho muito importante: \u201cTodas essas campanhas que buscam sensibilizar para a realidade das favelas cariocas e do jovem negro s\u00e3o fundamentais, mas por outro lado (infelizmente) em termos pr\u00e1ticos e concretos t\u00eam pouco retorno. Os conflitos e a viol\u00eancia continuam, as pessoas continuam morrendo na favela, quase nada mudou. O que o nosso povo precisa \u00e9 de OPORTUNIDADES. Oportunidade de coordenar essas campanhas, oportunidade de ocupar cargos de gest\u00e3o, poder pensar pol\u00edtica p\u00fablica, entrar na faculdade, estudar, experimentar arte, viver de arte, poder viajar e conhecer outras refer\u00eancias, poder realizar seus pr\u00f3prios projetos, ideias. Resgatar o direito de poder sonhar e realizar, sabe? Resumindo, o dinheiro precisa chegar na ponta.\u00a0Porque o que eu vejo \u00e9 o nosso povo morrendo ou tendo que gastar toda sua energia (em vida) pra dizer que n\u00e3o deve morrer. E no meio disso tudo, quem lucra com isso?\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de constituir oportunidades em termos de projetos sociais\/culturais aos quais as pessoas simplesmente tenham que aderir, mas criar as condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas possam investir em suas vidas, condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas possam escolher. E, no caso das favelas, chega ao extremo de se ter que lutar para que as pessoas possam escolher viver.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Nesse momento a situa\u00e7\u00e3o na Mar\u00e9 \u00e9 muito cr\u00edtica. \u00c9 apavorante como as den\u00fancias n\u00e3o ecoam, como tudo se passa como se fosse normal: buscas, tiroteios no meio da tarde, mortes, como se nada fosse&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Talita Tibola &#8211; Acho que h\u00e1 muitas pautas bem ativas neste momento, principalmente com o afastamento de Dilma, pois as pautas se confundiram um pouco com o \u201cFora Temer\u201d. De um lado \u00e9 interessante, pois o \u201cFora Temer\u201d tem a capacidade de unir pautas, abrange muito mais pessoas. Al\u00e9m disso, as a\u00e7\u00f5es acabam sendo mais propositivas do que com o \u201cFica Dilma\u201d (que ainda persiste), pois j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel criticar o governo sem ferir e explicitar que o \u201cFica Dilma\u201d n\u00e3o faz tanto sentido, j\u00e1 que n\u00e3o havia o que defender no governo de Dilma. Agora todos concordam que n\u00e3o h\u00e1 nada a defender no governo Temer.IHU On-Line &#8211; O que est\u00e1 sendo feito para sair do imobilismo pol\u00edtico atualmente? As manifesta\u00e7\u00f5es de hoje fortalecem o imobilismo ou apontam sa\u00eddas?<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, acho sintom\u00e1tico que toda e qualquer pauta seja ligada a um \u201cFora Temer\u201d com sabor de \u201cFica Dilma\u201d, o que impossibilita qualquer aprofundamento de pautas e coloca em primeiro plano a impossibilidade do debate. A constitui\u00e7\u00e3o dessas mobiliza\u00e7\u00f5es a partir do consenso de que Dilma deveria ficar, impossibilita o debate sobre o que foi feito realmente no governo Dilma, sobre responsabiliza\u00e7\u00e3o, deixaria mais claras as pautas, os desmontes que j\u00e1 estavam sendo feitos (por exemplo, como \u00e9 o caso do SUS). Essa situa\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 pautas sendo levantadas, mas que est\u00e3o sendo levantadas agora porque s\u00e3o contra o Temer, solidifica uma n\u00e3o-autocr\u00edtica. Penso que essa seja a maior causa do imobilismo atual nos movimentos.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Ainda na outra entrevista que nos concedeu, voc\u00ea havia comentado o uso do termo \u201cfascismo social\u201d pelos partidos pol\u00edticos como uma forma de desqualificar o outro. Um ano depois, o uso do termo \u201cfascismo\u201d tem sido ainda mais recorrente na sociedade brasileira, dado que muitas pessoas acusam de fascistas os discursos a que s\u00e3o contr\u00e1rios? Como voc\u00ea est\u00e1 compreendendo esse momento? Existem de fato discursos e a\u00e7\u00f5es \u201cfascistas\u201d na sociedade ou a sociedade est\u00e1 \u201cabsorvendo\u201d e sendo impactada pelo discurso pol\u00edtico que se utilizou desse termo?<\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; Se voc\u00ea me permite, vou responder com um texto do Pier Paolo Pasolini que est\u00e1 circulando nas redes (e ele \u00e9 do Pasolini mesmo!):<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; n\u00f3s, progressistas, antifascistas, homens de esquerda, somos respons\u00e1veis por esses massacres. De fato, em todos esses anos n\u00e3o fizemos nada: 1. para que falar de &#8216;Massacres de Estado&#8217; n\u00e3o se tornasse um lugar comum e tudo ficasse por isso mesmo; 2. (e mais grave) n\u00e3o fizemos nada para que os fascistas n\u00e3o existissem. Limitamo-nos a conden\u00e1-los, gratificando nossa consci\u00eancia com a nossa indigna\u00e7\u00e3o; e quanto mais forte e petulante era a indigna\u00e7\u00e3o, mais tranquila ficava a consci\u00eancia. Na realidade nos comportamos com os fascistas (refiro-me sobretudo aos jovens) de maneira racista: quer dizer, quisemos apressada e impiedosamente crer que estavam predestinados por sua ra\u00e7a a serem fascistas, e perante essa decis\u00e3o do seu destino n\u00e3o havia nada a fazer. E n\u00e3o o dissimulemos: todos sab\u00edamos, em nossa s\u00e3 consci\u00eancia, que era por puro acaso que um daqueles jovens &#8216;decidia&#8217; ser fascista, que se tratava de um mero gesto imotivado e irracional; talvez uma s\u00f3 palavra tivesse bastado para que isso n\u00e3o acontecesse. Mas nenhum de n\u00f3s jamais conversou com eles, nem sequer lhes dirigiu a palavra. Aceitamo-los rapidamente como inevit\u00e1veis representantes do Mal. E eram certamente rapazes e mo\u00e7as de dezoito anos, que n\u00e3o sabiam nada de nada, e que mergulharam de cabe\u00e7a nessa horrenda aventura por simples desespero.&#8221; (PIER PAOLO PASOLINI &#8211; &#8216;O Verdadeiro Fascismo &amp; O Verdadeiro Antifascismo&#8217; &#8211; in: &#8220;Os Jovens Infelizes&#8221;).<\/p>\n<p>Eu acho que esse texto do Pasolini diz muito desse nosso momento. O que \u00e9 complicado \u00e9 que existem, sim,comportamentos fascistas, com os quais precisamos nos preocupar \u2013 o caso da Mar\u00e9 que comentei antes \u00e9 um deles, um fascismo de Estado; o assassinato de um jovem negro homossexual a pauladas por uma juventude que se chama liberal \u00e9 outro deles. Diante disso, me pergunto duas coisas:<\/p>\n<p>1. Por que chamamos pessoas que est\u00e3o indignadas, desesperadas, que t\u00eam opini\u00f5es diferentes das nossas, de fascistas? Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es verde-amarelo nas ruas, que eram a favor do impeachment da Dilma, se todas aquelas pessoas fossem elite, o Brasil n\u00e3o estaria t\u00e3o mal assim; se assim o fizermos n\u00e3o vamos conseguir reconhecer nem nos organizar contra o verdadeiro fascismo<\/p>\n<p>2. O que fazer para que falar em \u201cMassacre de Estado\u201d, como comentei acima, n\u00e3o se torne, como o Pasolini comenta, um lugar comum que fa\u00e7a com que a reclama\u00e7\u00e3o e a indigna\u00e7\u00e3o baste e fique tudo por isso mesmo?<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O discurso da esquerda que est\u00e1 no poder funciona dessa maneira, pois ele \u00e9 todo baseado na constitui\u00e7\u00e3o de uma cat\u00e1strofe que acontecer\u00e1 caso eles n\u00e3o estejam no poder&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Talita Tibola &#8211; A cultura do medo presente nas elites \u00e9 aquela que vai constituir o outro como inimigo, um inimigo abstrato, mas que para essas elites t\u00eam um rosto identific\u00e1vel: o pobre, negro, morador de favelas. A constitui\u00e7\u00e3o desse outro se d\u00e1 a partir da veicula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias sobre viol\u00eancia, assaltos e que s\u00e3o imputados, pelas elites, mas n\u00e3o s\u00f3 por elas, a esse estere\u00f3tipo, o que produz uma viol\u00eancia social. O trabalho da pol\u00edcia quando acontecem mortes nas favelas, por exemplo, \u00e9 justificado por essas pessoas (na repeti\u00e7\u00e3o de falas do governo e da m\u00eddia) pelo combate \u00e0 viol\u00eancia. Essa \u00e9 a cultura do medo de que talvez mais se fale.IHU On-Line &#8211; Naquela mesma entrevista, voc\u00ea tamb\u00e9m comentou sobre um discurso que gera uma cultura do medo, ao mencionar que \u201cesse discurso supostamente \u2018de esquerda\u2019 fortalece uma cultura do medo bastante semelhante \u00e0quela que est\u00e1 presente entre as elites tradicionais e demof\u00f3bicas do pa\u00eds, quando vive uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a ao redor da ideia de cerco social\u201d. Gostaria que voc\u00ea desenvolvesse essa ideia da cultura do medo relacionada ao discurso da esquerda. Tem evid\u00eancias de que isso est\u00e1 acontecendo no Brasil hoje? Como?<\/p>\n<p>Mas o que constitui a cultura do medo \u00e9 essa cria\u00e7\u00e3o de um inimigo dif\u00edcil de combater &#8211; dif\u00edcil de combater justamente porque \u00e9 vago e n\u00e3o temos os elementos para combat\u00ea-lo. \u00c9 nesse sentido que o discurso da esquerda que est\u00e1 no poder funciona dessa maneira, pois ele \u00e9 todo baseado na constitui\u00e7\u00e3o de uma cat\u00e1strofe que acontecer\u00e1 caso eles n\u00e3o estejam no poder. Isso p\u00f4de ser visto com muita for\u00e7a no per\u00edodo das elei\u00e7\u00f5es e continua at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O discurso do medo feito pela esquerda se sustenta de maneira oposta, colocando a exist\u00eancia de uma elite que tem esse discurso racista como algo a se temer em si e a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o a isso \u00e9 o fato que continuemos nesse governo de esquerda, para que tudo n\u00e3o fique ainda pior. Evocam-se, ent\u00e3o, os anos 90, momento em que o pa\u00eds estava em total crise, inculcando naqueles que viveram aqueles tempos, o medo do retorno \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o, medo de passar pelas mesmas dificuldades. Esse discurso de medo aos anos 90 passa a ser repetido pelas pr\u00f3prias pessoas, temerosas. Evoca-se o fim do Programa Bolsa Fam\u00edlia (que Temer reajustou e Dilma que n\u00e3o havia reajustado afirmou ser irresponsabilidade fiscal), a diminui\u00e7\u00e3o do Programa Minha Casa Minha Vida.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que Temer est\u00e1 fazendo ou deixando de fazer, mas \u00e9 que, independentemente de quem fosse, o discurso seria esse, de desmonte de um projeto que j\u00e1 foi desmontado pelo pr\u00f3prio PT. N\u00e3o \u00e9 que as elites com discursos racistas n\u00e3o existam, mas \u00e9 que n\u00e3o vamos conseguir combat\u00ea-las diretamente, somente com programas de empoderamento e renda que modifiquem essa situa\u00e7\u00e3o e \u00e9 preciso que eles sejam realizados, independentemente de qual governo esteja no poder.<\/p>\n<p>Toda a campanha e a defesa para que Dilma fique \u00e9 baseada nas amea\u00e7as do que vai acabar (medo) e n\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o de proposta do que pode ficar, do que precisa mudar. Por isso talvez o imobilismo, pois n\u00e3o importa se est\u00e1 ruim. O que importa para o discurso do medo \u00e9 que, se ela sair, vai ficar pior. Da\u00ed o imobilismo.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que Temer est\u00e1 fazendo ou deixando de fazer, mas \u00e9 que, independentemente de quem fosse, o discurso seria esse, de desmonte de um projeto que j\u00e1 foi desmontado pelo pr\u00f3prio PT&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Talita Tibola &#8211; Percebo um aumento da inseguran\u00e7a, que n\u00e3o \u00e9 baseado somente no discurso do medo, mas tamb\u00e9m por um aumento da viol\u00eancia que se d\u00e1 com o aumento do desemprego. N\u00e3o \u00e9 que quem perde o emprego diretamente produz viol\u00eancia, mas a perda do emprego aumenta a inseguran\u00e7a, aumenta tamb\u00e9m uma raiva social direcionada ao outro (sejam governantes, os vizinhos, \u201cos ricos\u201d, \u201cos pobres\u201d), s\u00e3o todos discursos que aumentam o conflito social, geram inseguran\u00e7a. Acho que h\u00e1 uma mistura de ver pessoas ao nosso redor perdendo o emprego, ou pessoas ao nosso redor sendo v\u00edtimas de viol\u00eancia, com o discurso do medo (que \u00e9 tamb\u00e9m uma exacerba\u00e7\u00e3o do que acontece na realidade).IHU On-Line &#8211; Que outros tipos de comportamento percebe na sociedade brasileira como decorrentes do atual momento de crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social?<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Voc\u00ea fala em um \u201csuposto discurso de esquerda\u201d. Se se trata de um suposto, o que seria, de fato, um discurso de esquerda e progressista?<\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; No contexto da pergunta usei especificamente suposto discurso de esquerda porque estava falando sobre o medo, que \u00e9 composto pelo discurso, por um discurso de poder. O que se chama de esquerda \u00e9 em geral uma defesa dos direitos sociais e humanos. Mas esse entendimento nem sempre est\u00e1 bem claro, h\u00e1 pautas que s\u00e3o levadas adiante por movimentos sociais que est\u00e3o longe de serem consideradas priorit\u00e1rias para a esquerda como um todo, como a descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas. Essa pauta est\u00e1 diretamente ligada a uma luta por direitos humanos e sociais. Al\u00e9m de ser uma quest\u00e3o de sa\u00fade, possibilitando o maior controle sobre quais subst\u00e2ncias est\u00e3o sendo vendidas (esse papel n\u00e3o ficando submisso \u00e0 pol\u00edcia), colocaria em xeque uma das maiores causas de pris\u00f5es de jovens negros do pa\u00eds. Transformaria toda a estrutura da sociedade.<\/p>\n<p>Nesse sentido \u00e9 importante pensar o discurso n\u00e3o s\u00f3 como algo que \u00e9 proferido (falado), mas que tem seus efeitos. \u00c9 importante pensar quais os efeitos dos discursos na realidade e dizer que defender os direitos humanos n\u00e3o \u00e9 suficiente. Acredito que o governo Lula tenha sido importante justamente pelos efeitos que teve. Ele nunca esteve preocupado em definir-se de esquerda, mas realizou a\u00e7\u00f5es que foram transformadoras da sociedade: o aumento das cotas raciais, o Bolsa Fam\u00edlia. Muitos partidos e pessoas de esquerda foram contra esses projetos, chamando-os de assistencialistas e afirmando que n\u00e3o transformavam a base da sociedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 a direita que falou que era preciso investir primeiramente na educa\u00e7\u00e3o desde a base para transformar a universidade a partir de baixo, mas definitivamente o que n\u00e3o se via \u00e9 que havia e h\u00e1 ainda muita gente que n\u00e3o poderia esperar por essa transforma\u00e7\u00e3o. Mas talvez eles tenham ido muito longe nisso, no sentido de esquecer que a esquerda est\u00e1 ligada \u00e0 defesa dos direitos humanos e sociais.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 pautas que s\u00e3o levadas adiante por movimentos sociais que est\u00e3o longe de serem consideradas priorit\u00e1rias para a esquerda como um todo&#8221;<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Politicamente, parece que a esquerda tem perdido espa\u00e7o na pol\u00edtica brasileira. Contudo, qual \u00e9 o espa\u00e7o que a esquerda ainda ocupa em outros setores da sociedade brasileira hoje?<\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; A esquerda \u00e9 bastante forte em alguns setores, principalmente na universidade, no funcionalismo p\u00fablico, mas penso que o maior espa\u00e7o que a esquerda ocupa agora \u00e9 um lugar hist\u00f3rico. \u00c9 por ter esse peso t\u00e3o grande de uma hist\u00f3ria, uma hist\u00f3ria conquistada, que se torna t\u00e3o dif\u00edcil critic\u00e1-la. Para sairmos dessa situa\u00e7\u00e3o, uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 vivida por muitos como um luto, acredito que precisamos reconstituir uma hist\u00f3ria para as pessoas. Ou constituir uma outra hist\u00f3ria desde j\u00e1, que se chame ou n\u00e3o de esquerda.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Alguns t\u00eam feito uma cr\u00edtica de que os movimentos de esquerda que surgem hoje t\u00eam um v\u00ednculo e uma linguagem direcionada para jovens de classe m\u00e9dia, e n\u00e3o se dirigem nem impactam os jovens trabalhadores precarizados, que estudam e trabalham. O que lhe parece?<\/p>\n<p>Talita Tibola &#8211; Me parece que a esquerda \u00e9 historicamente de classe m\u00e9dia. Sempre esteve ligada a ide\u00f3logos ligados a trabalhadores, interessados nas transforma\u00e7\u00f5es do trabalho, fundamental para pensar a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. N\u00e3o vejo nisso um problema em si. Vejo um problema de acontecer uma dist\u00e2ncia com a sociedade em geral, na produ\u00e7\u00e3o de uma idealiza\u00e7\u00e3o tanto dos \u201cpobres\u201d, quanto da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, quanto da \u201celite\u201d. Me parece uma falta de comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 interessada em comunicar para al\u00e9m dela mesma, j\u00e1 que, quem n\u00e3o \u00e9 ela mesma, j\u00e1 foi catalogado em algum r\u00f3tulo como alienado, direita ou fascista, para dar alguns exemplos. Para conversar e impactar outros campos que n\u00e3o o pr\u00f3prio, \u00e9 necess\u00e1rio antes de tudo escuta, perceber quais s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 as necessidades, mas os desejos desses jovens. As necessidades s\u00e3o vis\u00edveis para todos e podemos nos chamar de esquerda e proferi-las, mas os desejos n\u00e3o.<\/p>\n<p>http:\/\/ihu.unisinos.br\/entrevistas\/557405-imobilismo-politico-da-incapacidade-de-unir-pautas-ao-aumento-da-inseguranca-entrevista-especial-com-talita-tibola<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patricia Fachin &#8211;\u00a0\u00a0\u201cO problema da desigualdade social (que \u00e9 acompanhada pelo racismo) \u00e9 a quest\u00e3o mais urgente no pa\u00eds, pois vai agravar qualquer outra problem\u00e1tica social. Nesse sentido me parece que estamos longe de ter avan\u00e7os, pois cada vez mais se criam mais condi\u00e7\u00f5es para que ela se perpetue\u201d, adverte a psic\u00f3loga. 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