{"id":10989,"date":"2019-07-09T09:37:12","date_gmt":"2019-07-09T12:37:12","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10989"},"modified":"2019-07-07T13:07:21","modified_gmt":"2019-07-07T16:07:21","slug":"a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/07\/09\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"A supera\u00e7\u00e3o do trabalho: um olhar alternativo para al\u00e9m do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Robert Kurz e Norbert Trenkle<\/strong> &#8211;\u00a0&#8220;A supera\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o significa uma simples redu\u00e7\u00e3o quantitativa do tempo de trabalho por meio da \u2018automa\u00e7\u00e3o total\u2019 (sem considera\u00e7\u00e3o pelo conte\u00fado), mas libertar todas as atividades sociais do seu conte\u00fado abstrato, dessensibilizado, meramente acidental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 indiferen\u00e7a da forma.\u201d<\/p>\n<p><em>O texto \u201cA supera\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d apareceu em 1999 no livro\u00a0<\/em>Feierabend! Elf Attacken gegen die Arbeit<em>, organizado por Robert Kurz, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle, que re\u00fane \u201conze investidas contra o trabalho\u201d formuladas no contexto te\u00f3rico alem\u00e3o da \u201ccr\u00edtica do valor\u201d.<\/em><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/?fbclid=IwAR3PQUriDnPrPit011IGA1wRIr2ZCSjLNctsyqMDCuXYAngObuDsZ9GWfHM#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>1<\/sup><\/a><em>\u00a0 Juntamente com o\u00a0<\/em>Manifesto contra o trabalho<em>, publicado no mesmo ano, o livro \u00e9 uma s\u00edntese das an\u00e1lises e pol\u00eamicas desenvolvidas pelo Grupo Krisis desde o final dos anos 1980. No ensaio que apresentamos ao leitor, Kurz e Trenkle v\u00e3o al\u00e9m da j\u00e1 conhecida cr\u00edtica do ponto de vista marxista tradicional do trabalho e da \u201cluta de classes\u201d, um ponto de vista que marcou profundamente a cr\u00edtica social durante o processo de afirma\u00e7\u00e3o da forma social moderna. Na perspectivava dos autores, o esgotamento do impulso de moderniza\u00e7\u00e3o do capitalismo coloca em xeque a respectiva ontologia e exige uma cr\u00edtica categorial da \u201csociedade produtora de mercadorias\u201d. Aqui \u2013 bem como na aposta do Manifesto na luta \u201cantipol\u00edtica\u201d \u2013 aparecem de maneira condensada as formula\u00e7\u00f5es da revista\u00a0<\/em>Krisis<em>\u00a0sobre uma nova pr\u00e1xis social anticapitalista \u2013 especialmente nas se\u00e7\u00f5es \u201cDa expropria\u00e7\u00e3o \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cElementos para um movimento de apropria\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 pensadas em vista do atual per\u00edodo hist\u00f3rico de decad\u00eancia da forma social dominante. \u00c9 tamb\u00e9m a oportunidade de registrar os vinte anos da publica\u00e7\u00e3o das duas obras referidas e retomar \u2013 contra o esp\u00edrito do tempo \u2013 o debate cada vez mais incontorn\u00e1vel sobre o processo de crise fundamental do capitalismo.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Os tradutores.<\/em><\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDesde sempre\u201d h\u00e1 desemprego e crise no capitalismo. O que \u00e9 novo, no final do s\u00e9culo XX, \u00e9 a denomina\u00e7\u00e3o desses fen\u00f4menos como \u201ccrise da sociedade do trabalho\u201d \u2013 uma express\u00e3o que, originalmente, remete \u00e0 fil\u00f3sofa Hannah Arendt (Arendt 1989\/1958). At\u00e9 a primeira metade deste s\u00e9culo ningu\u00e9m sustentaria tal ideia em face das frequentes manifesta\u00e7\u00f5es de crise do capitalismo. H\u00e1 n\u00e3o muito tempo, a categoria \u201ctrabalho\u201d aparecia igualmente para todos os partidos e teorias como o pressuposto ontol\u00f3gico, suprahist\u00f3rico, de toda realidade social. Os c\u00e9us desabariam caso o trabalho chegasse ao fim.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a, considerada \u201cimposs\u00edvel\u201d para a antiga consci\u00eancia social, revela o car\u00e1ter qualitativamente novo da crise. \u00c9 evidente que se trata de algo mais que o fim de um mero ciclo capitalista. Na express\u00e3o \u201ccrise da sociedade do trabalho\u201d tamb\u00e9m transparece a identidade entre trabalho e capital, enquanto o entendimento tradicional desses conceitos acentuou sempre a oposi\u00e7\u00e3o imanente, refletida na eterna luta dos interesses organizados. A radicalidade aparece unicamente na intensidade do conflito \u2013 \u201cclasse contra classe\u201d \u2013 sob o fundo ontol\u00f3gico de um \u201ctrabalho sem fim\u201d. \u00c9 inteiramente ignorado e, em grande medida, fora de toda possibilidade de pensamento, considerar que, em \u00faltima an\u00e1lise, trabalho e capital s\u00e3o estados de agrega\u00e7\u00e3o da mesma forma-fetiche social, ou seja, um processo autorreferecial, \u201cdesvinculado\u201d de qualquer outra necessidade e contexto, que transforma \u201cincessantemente\u201d a energia humana em dinheiro. Aqui o pr\u00f3prio conflito imanente seria apenas a fun\u00e7\u00e3o de um sistema de refer\u00eancia comum, cujos funcion\u00e1rios, de ambos os lados, podem ser considerados, nos termos de Marx, como \u201cm\u00e1scaras de car\u00e1ter\u201d a servi\u00e7o do fim em si mesmo irracional dominante.<\/p>\n<h3><strong>A ruptura categorial<\/strong><\/h3>\n<p>Nesse sentido, para al\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o funcional socialmente imanente, o problema \u00e9 colocar em quest\u00e3o de forma categorial o sistema de refer\u00eancia fetichista como um todo e, portanto, o pr\u00f3prio \u201ctrabalho\u201d. No entanto, est\u00e3o em falta nos dias atuais uma tal consci\u00eancia cr\u00edtica e um objetivo claro. \u00c9 angustiante ter que sair do espa\u00e7o categorial at\u00e9 ent\u00e3o entendido como natural, mas que entra no campo de vis\u00e3o como objeto distinto logo que se torna obsoleto. Os estados de agrega\u00e7\u00e3o complementares do \u201ctrabalho\u201d e do \u201cdinheiro\u201d, enquanto condi\u00e7\u00f5es inquestion\u00e1veis da modernidade, antes recobertos por um poderoso tabu, uma vez que de algum modo constituem e \u201cgarantem\u201d a realidade, deixam de ser t\u00e3o evidentes no momento de sua crise categorial.<\/p>\n<p>Se as crises anteriores, que tinham car\u00e1ter transit\u00f3rio, como simples processos imanentes de desenvolvimento, foram apressadamente denominadas de \u201ccrise do capitalismo\u201d (por consequ\u00eancia, o \u201ctrabalho\u201d eterno teria que se emancipar do seu polo oposto), a crise qualitativamente nova e realmente fundamental do moderno sistema produtor de mercadorias aparece agora em sentido inverso e tamb\u00e9m de modo apressado e unilateral como uma simples crise do \u201ctrabalho\u201d e, portanto, do trabalho assalariado e de suas organiza\u00e7\u00f5es, funcion\u00e1rios, ideologias etc. Por outro lado \u201co capital\u201d parece poder continuar acumulando para todo o sempre sem maiores problemas (\u201c<em>jobless growth<\/em>\u201d). Mas se apenas o capitalismo \u00e9, em sentido estrito, uma \u201csociedade do trabalho\u201d, tal crise tem de ser tamb\u00e9m uma crise do pr\u00f3prio capital.<\/p>\n<p>Uma vez que o trabalho abstrato \u00e9 a \u201c<em>subst\u00e2ncia<\/em>\u201d do capital, enquanto forma de atividade compreendida como finalidade em si \u201cdesvinculada\u201d, ele assume ao mesmo tempo o car\u00e1ter de um fantasmag\u00f3rico\u00a0<em>conte\u00fado quantitativo<\/em>: os produtos da sociedade n\u00e3o s\u00e3o considerados simplesmente como bens \u00fateis, mas (nas palavras de Marx) como uma \u201cgelatina de trabalho\u201d, isto \u00e9, como uma determinada quantidade abstrata de energia humana socialmente despendida, que adere nele como uma \u201cpropriedade\u201d invis\u00edvel e cuja \u201cvalidade\u201d \u00e9 regulada pelo mecanismo an\u00f4nimo da concorr\u00eancia de mercado. Essa pseudopropriedade de um bem, que consiste no fetichismo das rela\u00e7\u00f5es sociais, aparece como o \u201cvalor\u201d econ\u00f4mico dos produtos, que se manifesta como pre\u00e7o e este, por sua vez, como uma determinada quantidade de dinheiro. \u00c9 precisamente essa a rela\u00e7\u00e3o que constitui o trabalho e o capital antes de tudo como estados de agrega\u00e7\u00e3o de um mesmo mecanismo sist\u00eamico tanto na forma (forma do valor) como no conte\u00fado (subst\u00e2ncia do valor). Disso decorre logicamente que a \u201ccrise da sociedade do trabalho\u201d n\u00e3o \u00e9 somente uma \u201ccrise da forma\u201d comum de ambos os lados dessa rela\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 igualmente uma \u201ccrise da subst\u00e2ncia\u201d da acumula\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Na superf\u00edcie, certamente \u00e9 o soerguimento da superestrutura financeira especulativa do capitalismo de cassino que produz a apar\u00eancia, pelo menos at\u00e9 o\u00a0<em>crash\u00a0<\/em>financeiro, de que o processamento do capital pode seguir sem uma suficiente subst\u00e2ncia-trabalho. Mas em si mesma a suposta unilateralidade da crise do trabalho se refere ao limite do sistema como um todo. Enquanto o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista ainda tinha espa\u00e7o para se desenvolver, at\u00e9 certo ponto tamb\u00e9m podiam ser conduzidas\u00a0<em>ingenuamente<\/em>\u00a0as lutas de interesses imanentes do trabalho assalariado: tratava-se apenas de fazer valer seus pr\u00f3prios interesses no interior do sistema por meio da eterna disputa com seu advers\u00e1rio, se necess\u00e1rio pelo confronto. Hoje, pelo contr\u00e1rio, a luta de interesses foi de tal modo revogada que deixou em seu lugar a responsabilidade compartilhada pela conserva\u00e7\u00e3o do sistema (\u201cl\u00f3gica da concorr\u00eancia internacional\u201d).<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/?fbclid=IwAR3PQUriDnPrPit011IGA1wRIr2ZCSjLNctsyqMDCuXYAngObuDsZ9GWfHM#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>2<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Esse peculiar estado de coisas, todavia, mostra apenas que o sistema de refer\u00eancias comum foi conduzido\u00a0<em>ad absurdum<\/em>. \u00c9 claro que, de modo algum, deixa de existir a necessidade de lutas imanentes ao sistema em fun\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios interesses vitais. No entanto, precisamente porque o sistema atingiu seus limites hist\u00f3ricos, esse interesse necess\u00e1rio ser\u00e1 simplesmente paralisado em um futuro previs\u00edvel. Temos de lidar ent\u00e3o com uma dial\u00e9tica ir\u00f4nica: os pr\u00f3prios interesses imanentes ao sistema s\u00f3 podem ser objetivamente validados se, ao mesmo tempo, o conjunto do sistema for colocado em quest\u00e3o, desencadeado para este fim um movimento social transformador. Para o futuro, mesmo o sal\u00e1rio m\u00ednimo ou os benef\u00edcios para os doentes s\u00f3 poder\u00e3o continuar a ser defendidos no contexto mais amplo de um movimento anticapitalista radical.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente sobre este aspecto que amea\u00e7a se formar um circulo vicioso, pois a cr\u00edtica radical ainda n\u00e3o significa nada al\u00e9m do ponto de vista \u201cradicalizado\u201d do trabalho.\u00a0Portanto, \u00e9 decisivo que a at\u00e9 ent\u00e3o impensada ruptura categorial com as formas de base do sistema produtor de mercadorias e, portanto, uma perspectiva de emancipa\u00e7\u00e3o social qualitativamente distinta (an\u00e1loga ao car\u00e1ter da crise), possam penetrar na consci\u00eancia social como problema e como possibilidade; assim se pode encontrar um ponto de refer\u00eancia para reorientar os conflitos sociais e para a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. Se, em realidade, a ruptura com o capital tem de ser tamb\u00e9m uma ruptura com a categoria trabalho, ent\u00e3o \u00e9 claro que isso se aplica tamb\u00e9m \u00e0s respectivas formas pol\u00edtico-econ\u00f4micas. Ir al\u00e9m do trabalho s\u00f3 pode significar ir al\u00e9m das formas fetichistas do valor, portanto tamb\u00e9m das formas da mercadoria e do dinheiro, do mercado e do Estado, da pol\u00edtica e da economia.<\/p>\n<h3><strong>Para uma hist\u00f3ria da cr\u00edtica do trabalho<\/strong><\/h3>\n<p>Vista de modo superficial, a cr\u00edtica do trabalho n\u00e3o tem nada de novo, ainda que, nos \u00faltimos 150 anos, ela tenha realizado somente apari\u00e7\u00f5es fugazes \u00e0 margem dos grandes movimentos sociais. Paul Lafargue, genro de Marx, ganhou fama com<em>\u00a0O direito \u00e0 pregui\u00e7a<\/em>, panfleto no qual ele ridiculariza a \u201cmania de trabalho\u201d e a ideologia protestante do desempenho do movimento oper\u00e1rio oficial, exigindo \u201cpara os tempos de crise uma reparti\u00e7\u00e3o dos produtos e divers\u00e3o generalizada\u201d (Lafargue 1998\/18883, 31), bem como \u201cuma lei de ferro\u2026 que pro\u00edba qualquer um de trabalhar mais de tr\u00eas horas por dia\u201d (a.a.O., 53). \u00c9 f\u00e1cil notar que lidamos aqui, de fato, com uma cr\u00edtica do trabalho fenomenol\u00f3gica e de certo modo corriqueira, muito distante da cr\u00edtica categorial.<\/p>\n<p>Algumas de suas formula\u00e7\u00f5es jocosas ainda hoje podem soar divertidas, como quando Lafargue confronta a ideologia crist\u00e3 do trabalho: \u201cJeov\u00e1, o deus barbudo e carrancudo, deu o mais sublime exemplo de pregui\u00e7a ideal a seus adoradores: ap\u00f3s seis dias de trabalho, descansou eternamente\u201d (a.a.O., 22). E, justamente hoje, ele d\u00e1 uma bofetada no rosto desolado da esquerda verde-oliva dos direitos humanos, quando proclama que \u201co direito \u00e0 pregui\u00e7a \u00e9 mil vezes mais nobre e sagrado que os t\u00edsicos direitos humanos regurgitados pelos advogados metaf\u00edsicos da revolu\u00e7\u00e3o burguesa\u201d (a.a.O.,33).<\/p>\n<p>\u00c9 preocupante, no entanto, que, em quase 120 anos,\u00a0<em>O direito \u00e0 pregui\u00e7a<\/em>\u00a0tenha sido muitas vezes redescoberto e lan\u00e7ado como uma provoca\u00e7\u00e3o \u2013 a cr\u00edtica do trabalho, em todo esse tempo, praticamente n\u00e3o saiu do lugar. O pr\u00f3prio Lafargue n\u00e3o foi al\u00e9m da exig\u00eancia de mais bens de consumo e menos tempo de trabalho, algo certamente inaudito, n\u00e3o apenas na sua \u00e9poca. Essa cr\u00edtica do trabalho n\u00e3o permanece meramente quantitativa, uma vez que fundamenta suas exig\u00eancias de forma hedonista e n\u00e3o mais nos termos da ideologia do trabalho: o objetivo deve ser um gozo sens\u00edvel e intelectual abundante, n\u00e3o o desempenho abstrato (seja l\u00e1 qual for o seu nome). Foi, sem d\u00favida alguma, um passo na dire\u00e7\u00e3o certa, mas ainda n\u00e3o era nenhuma supera\u00e7\u00e3o da categoria trabalho.<\/p>\n<p>Depois vieram os dada\u00edstas, que, no contexto de uma vitupera\u00e7\u00e3o geral da burguesia e do p\u00fablico, promoveram antes a ridiculariza\u00e7\u00e3o do trabalho que a sua cr\u00edtica, o que j\u00e1 era alguma coisa. \u00c9 for\u00e7oso reconhecer nos versos\u00a0<em>Arbeit Arbeit br\u00e4 br\u00e4 br\u00e4 br\u00e4 br\u00e4 br\u00e4 br\u00e4<\/em>\u00a0de Richard Huelsenbeck, (zit. nach: Pereza 1998), j\u00e1 em 1916, a \u00faltima palavra de Gerhard Schr\u00f6der e sua equipe. Com isso, \u00e9 claro, tamb\u00e9m n\u00e3o se chegou \u00e0 cr\u00edtica categorial. Enquanto o capitalismo de Estado dos pa\u00edses de \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o retardat\u00e1ria\u201d do Leste se afundava nos excessos stakanovistas do trabalho abstrato, no Ocidente o impulso negat\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho se limitou, por sua vez, \u00e0 pol\u00edtica sindical de \u201credu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho\u201d, um conceito que, j\u00e1 pelo odor, revela a iman\u00eancia \u00e0 \u201cpris\u00e3o do trabalho\u201d. Essa pol\u00edtica social imanente ao sistema foi ridicularizada pela l\u00f3gica econ\u00f4mica, precisamente na \u201ccrise da sociedade do trabalho\u201d, que coloca na ordem do dia o prolongamento do tempo de trabalho nas empresas. Hoje, portanto, o modelo da \u201credu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho\u201d \u00e9 considerado ultrapassado, ao mesmo tempo em que cresce a massa de desempregados. A mera postura hedonista e o objetivo de uma simples redu\u00e7\u00e3o quantitativa do trabalho insuperado foram ambos atropelados pela crise do sistema.<\/p>\n<h3><strong>Mais al\u00e9m da luta de classes<\/strong><\/h3>\n<p>A \u00faltima onda da precedente cr\u00edtica do trabalho data dos anos 1970, com o \u201copera\u00edsmo\u201d italiano, que teve seus ep\u00edgonos na Alemanha com a revista\u00a0<em>Autonomie\u00a0<\/em>e, nos anos 1980, o grupo\u00a0<em>Wildcat<\/em>. O car\u00e1ter reduzido dessa abordagem \u00e9 vis\u00edvel j\u00e1 em sua terminologia: como o \u201copera\u00edsmo\u201d poderia incluir uma cr\u00edtica categorial do trabalho? Tamb\u00e9m nesse contexto a cr\u00edtica do trabalho permanece fenomenologicamente limitada. O momento hedonista, presente na demarca\u00e7\u00e3o do opera\u00edsmo em face do tradicional marxismo do trabalho, recuou para um novo sociologismo das classes. Por um lado, critica o marxismo\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0\u2013 por \u201creduzir a classe \u00e0 sua exist\u00eancia como for\u00e7a de trabalho\u201d (Schultze\/Gross 1997, 111) \u2013 mas, por outro lado, mant\u00e9m a categoria sociologicamente limitada da classe como fundamento \u00faltimo da cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Dessa perspectiva decorrem algumas curiosas indetermina\u00e7\u00f5es. Enquanto o marxismo tradicional, ainda que de modo afirmativo, situava corretamente a categoria classe no contexto da forma-fetiche da mercadoria, o \u201copera\u00edsmo\u201d buscava extrair dela uma categoria de sujeito que subsistisse por si mesma. Nesse sentido, \u201cclasse\u201d n\u00e3o designa uma posi\u00e7\u00e3o objetiva no contexto formal do sistema produtor de mercadorias, mas a base comum das vontades subjetivas contra as impertin\u00eancias deste sistema. \u00c9 aqui que entra a cr\u00edtica opera\u00edsta do trabalho. Mas \u00e9 claro que as categorias capitalistas objetivadas n\u00e3o s\u00e3o quebradas com um mero \u201crevoltismo\u201d.<\/p>\n<p>O objetivismo econ\u00f4mico do movimento oper\u00e1rio tradicional \u00e9 apenas invertido em um subjetivismo complementar, que segue, por exemplo, o mote: n\u00e3o nos importa a estupidez do trabalho e da forma-valor; queremos \u00e9 viver bem! N\u00e3o admira que uma esquerda p\u00f3s-moderna entregue \u00e0s fantasias do consumo de mercadorias desenfreado e idiotizado se aproxime de tal orienta\u00e7\u00e3o. Tanto no opera\u00edsmo como no marxismo do movimento oper\u00e1rio a cr\u00edtica categorial continua por ser feita e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 ruptura decisiva. A mera determina\u00e7\u00e3o subjetivista de \u201cclasse\u201d como n\u00e3o-trabalho e n\u00e3o-valor passa por cima do problema central, como a de certa forma habitual obje\u00e7\u00e3o \u201cepistemol\u00f3gica\u201d \u00e0 cr\u00edtica radical do trabalho e do valor: que ela se d\u00e1 sempre em torno de categorias, sem lugar para os indiv\u00edduos! Isto \u00e9 t\u00e3o verdadeiro quanto banal, pois que os indiv\u00edduos, apesar de toda a internaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estejam fundidos nas categorias dominantes \u00e9 de fato a pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica, mas de que serve esta pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o se a cr\u00edtica mesma n\u00e3o se completa?<\/p>\n<p>As correntes opera\u00edstas se apoiam em parte nas merit\u00f3rias pesquisas de E.P. Thompson, que, a partir do exemplo da Inglaterra, retomam a hist\u00f3ria \u201cesquecida\u201d das primeiras revoltas sociais contra a moderniza\u00e7\u00e3o capitalista muito tempo antes de o movimento oper\u00e1rio \u201ccl\u00e1ssico\u201d ter vindo \u00e0 luz do dia (Thompson 1980; 1987). Thompson ressalta corretamente, contra o objetivismo econ\u00f4mico, que essas revoltas n\u00e3o seriam o \u201cresultado das leis do movimento econ\u00f4mico [\u2026], mas um processo ativo, resultado da a\u00e7\u00e3o humana e das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u201d (Schultze\/Gross, a.a.O., 108). \u00c9 claro que isto se aplica a\u00a0<em>qualquer<\/em>\u00a0movimento social que, no entanto, nunca \u00e9 \u201cpura subjetividade\u201d, mas tem lugar sob certas \u201ccondi\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 precisamente para a transforma\u00e7\u00e3o ou supera\u00e7\u00e3o de tais \u201ccondi\u00e7\u00f5es\u201d que se volta a vontade emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O \u00edmpeto das antigas revoltas sociais consistiu no fato de que seus portadores, de modo, por assim dizer, instintivo, n\u00e3o queriam se tornar a \u201cclasse oper\u00e1ria\u201d de um contexto sist\u00eamico independente.\u00a0\u00a0O movimento oper\u00e1rio posterior, por outro lado, agiu apenas no interior desse contexto, ap\u00f3s a sua imposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O que nos importa hoje \u00e9 romper as cadeias categoriais desse contexto sist\u00eamico e, mais uma vez, sair do trabalho abstrato. \u00c9 claro que um instinto de revolta ou um apelo \u00e0 \u201ceconomia moral\u201d pr\u00e9-moderna (um concito central em Thompson) j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o suficientes. A descoberta das antigas revoltas sociais pode ter hoje apenas o significado de uma tomada de consci\u00eancia da \u201cg\u00eanese\u201d sangrenta e repressiva do mundo contempor\u00e2neo dos \u201cpostos de trabalho\u201d e de uma \u201chistoriciza\u00e7\u00e3o\u201d das categorias aparentemente transhist\u00f3ricas do trabalho e do valor. Mas \u00e9 imposs\u00edvel simplesmente ligar-se \u00e0s revoltas antigas de modo imediato ou extrair delas uma pura \u201csubjetividade rebelde\u201d na forma ahist\u00f3rica do \u201csujeito da vontade\u201d. Para romper com as objetiva\u00e7\u00f5es produzidas e internalizadas em um longo processo hist\u00f3rico, \u00e9 necess\u00e1ria uma consci\u00eancia cr\u00edtica da respectiva\u00a0<em>constitui\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0hist\u00f3rica e estrutural. \u00c9 t\u00e3o necess\u00e1ria a tomada de consci\u00eancia da constitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que vai da \u201ceconomia pol\u00edtica das armas de fogo\u201d a um contexto sist\u00eamico independente, \u201cdesvinculado\u201d,<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/?fbclid=IwAR3PQUriDnPrPit011IGA1wRIr2ZCSjLNctsyqMDCuXYAngObuDsZ9GWfHM#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>3<\/sup><\/a>\u00a0quanto a cr\u00edtica radical do respectivo sistema categorial.<\/p>\n<p>As diversas correntes opera\u00edstas, por\u00e9m, se contentam com um mero gesto Robin-Hood, enquanto dissolvem o contexto categorial da sociedade do trabalho em puras a\u00e7\u00f5es de vontade. A crise \u00e9 assim subjetivada: o desenvolvimento da maquinaria aparece como mera rea\u00e7\u00e3o dos capitais \u00e0s \u201crevoltas oper\u00e1rias\u201d, como se n\u00e3o existisse concorr\u00eancia entre os capitais e entre as econ\u00f4micas nacionais; inclusive a exist\u00eancia ulterior do contexto sist\u00eamico categorial \u00e9, em parte, negada com a tese de que \u201co capital n\u00e3o tem mais qualquer interesse na amplia\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho humano, j\u00e1 que sua cria\u00e7\u00e3o de valor se realiza melhor por meio do trabalho objetivado, isto \u00e9, da maquinaria (!) tornando a rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o puramente pol\u00edtica [\u2026] (Schultze\/Gross, a.a.O., 129). Um pensamento de tal modo reducionista (aqui reduzido ao subjetivo, em vez do objetivo), \u00e9 claro, n\u00e3o pode admitir nenhuma \u201ccrise da sociedade do trabalho\u201d: a ignor\u00e2ncia resolve o problema!<\/p>\n<p>As diversas correntes opera\u00edstas tem se despreocupado inteiramente do problema da cr\u00edtica categorial de todos os poss\u00edveis movimentos,<em>\u00a0riots<\/em>\u00a0e conceitos relacionados, das revoltas do p\u00e3o no Terceiro Mundo at\u00e9 a exig\u00eancia da renda m\u00ednima, passando pelas iniciativas de trabalho e da economia de subsist\u00eancia. Isso mostra que a limita\u00e7\u00e3o da \u201cluta de classes\u201d imanente ao sistema n\u00e3o pode ser quebrada atrav\u00e9s da reviravolta subjetiva. Se um interesse \u00e9 afirmado \u201cna\u201d forma da mercadoria e do dinheiro, n\u00e3o importa de que maneira, ele tamb\u00e9m est\u00e1 objetivado no \u00e2mbito da sociedade do trabalho capitalista.<\/p>\n<p>Esse j\u00e1 era o dilema do antigo conceito \u201cobjetivo\u201d de classe. N\u00e3o existe uma determinada classe social ou grupo que apenas por causa da sua posi\u00e7\u00e3o no interior do contexto da sociedade do trabalho esteja \u201cem si\u201d predestinado como portador espec\u00edfico da transforma\u00e7\u00e3o social (e que s\u00f3 precisa se tornar consciente \u201cpara si\u201d). O hist\u00f3rico \u201cem si\u201d da classe operaria n\u00e3o era sua ess\u00eancia transcendente ao sistema; pelo contr\u00e1rio, sua exist\u00eancia (originalmente for\u00e7ada) consistia em ser uma categoria funcional do capital. Precisamente por isso, o movimento oper\u00e1rio enquanto tal n\u00e3o p\u00f4de ser um movimento\u00a0<em>contra<\/em>\u00a0o trabalho, mas apenas um movimento pela sua completa imposi\u00e7\u00e3o e reconhecimento universal.<\/p>\n<p>A ruptura categorial com a l\u00f3gica do sistema-fetiche capitalista, em contrapartida, n\u00e3o pode, por defini\u00e7\u00e3o, ser inerente a ele \u201cem si\u201d mesmo, nem se origina quase-automaticamete de sua pr\u00f3pria din\u00e2mica. O que h\u00e1 de \u201cautonomizado\u201d na autocontradi\u00e7\u00e3o interna da valoriza\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 unicamente a sua ruptura negativa na \u201ccrise da sociedade do trabalho\u201d. Ainda que gere indigna\u00e7\u00e3o e desespero, a objetividade dessa crise n\u00e3o pode ser confundida ou entrar em curto-circuito com uma suposta objetividade da supera\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p>A tentativa opera\u00edsta de transformar, por meio do simples \u201cajuste\u201d subjetivo, o conceito de classe, de uma categoria objetiva do contexto sist\u00eamico em um ente transcendente ao sistema, que, absurdamente, ainda seria \u201cpara si\u201d (independentemente da forma social), tem de fracassar \u2013 por exemplo, quando \u201co desenvolvimento do capital\u201d \u00e9 compreendido \u201ccomo uma vari\u00e1vel da luta oper\u00e1ria\u201d (Schulze\/Gross, a.a.O., 125). \u00c9 exatamente o oposto: a luta oper\u00e1ria (luta de classes, luta de interesses imanente ao sistema), pela sua pr\u00f3pria natureza, permanece uma vari\u00e1vel do desenvolvimento capitalista. A cr\u00edtica do trabalho \u00e9 poss\u00edvel somente para al\u00e9m da luta de classes, como autoconstitui\u00e7\u00e3o de um movimento emancipat\u00f3rio que j\u00e1 n\u00e3o pensa e atua \u201cdentro\u201d das formas de consci\u00eancia capitalista.<\/p>\n<div id=\"attachment_21817\" class=\"wp-caption alignnone\" data-shortcode=\"caption\">\n<p><a href=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg\" rel=\"prettyPhoto\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-21817 size-large\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=620&#038;h=465&#038;fit=620%2C465&#038;resize=620%2C465\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" srcset=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=620&amp;h=465 620w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=150&amp;h=113 150w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=300&amp;h=225 300w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=768&amp;h=576 768w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=1024&amp;h=768 1024w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"465\" aria-describedby=\"caption-attachment-21817\" data-attachment-id=\"21817\" data-permalink=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/robert-kurz_blog-da-boitempo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg\" data-orig-size=\"1200,900\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"robert kurz_blog da boitempo\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=300\" data-large-file=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/robert-kurz_blog-da-boitempo.jpg?w=620\" \/><\/a><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-21817\" class=\"wp-caption-text\"><em>Robert Kurz<\/em><\/p>\n<\/div>\n<h3><strong>A revoga\u00e7\u00e3o do trabalho na vida<\/strong><\/h3>\n<p>\u00c9 claro que a cr\u00edtica categorial do trabalho n\u00e3o pode consistir apenas em substituir o conceito abstrato de trabalho por outra abstra\u00e7\u00e3o etimologicamente inocente, como, por exemplo, a \u201catividade\u201d. Trata-se, pelo contr\u00e1rio, da supera\u00e7\u00e3o real da \u201ceconomia desvinculada\u201d. Isso s\u00f3 pode significar a revoga\u00e7\u00e3o do contexto sist\u00eamico autonomizado na sociedade e, portanto, do trabalho na vida. Em primeiro lugar, significa a exig\u00eancia de determinar de forma consciente e direta as rela\u00e7\u00f5es sociais concretas, os conte\u00fados material-sens\u00edveis e espirituais da reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade enquanto tal, fazendo deles o campo de refer\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es sociais, em vez de abandon\u00e1-los ao descaminho irracional da forma social autonomizada. A quest\u00e3o \u00e9 libertar as rela\u00e7\u00f5es sociais das categorias fetichistas do valor, ou seja, criar a condi\u00e7\u00e3o na qual os membros da sociedade n\u00e3o mais produzam coletivamente em agregados-autoreferentes altamente socializados apenas para, em seguida, sob as mais loucas restri\u00e7\u00f5es, \u201ctrocar\u201d produtos como se fossem produtores individuais isolados.<\/p>\n<p>A alternativa seria utilizar esses recursos comuns em uma rela\u00e7\u00e3o transparente, ou seja, fazer com que a \u201csociabilidade\u201d deixe de ser uma absurda propriedade das coisas e que j\u00e1 n\u00e3o seja regulada pela \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d de um mecanismo autonomizado. Nessa supera\u00e7\u00e3o da racionalidade destrutiva da economia empresarial, o objetivo, naturalmente, n\u00e3o \u00e9 abolir as for\u00e7as produtivas que o capitalismo gera de modo cego, mas testar, transformar e desenvolver essas for\u00e7as produtivas substituindo a racionalidade monet\u00e1ria abstrata, indiferente ao conte\u00fado, por uma \u201craz\u00e3o sens\u00edvel\u201d\u00a0<em>conteud\u00edstica<\/em>.<\/p>\n<p>Desse modo, a supera\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o significa uma simples redu\u00e7\u00e3o quantitativa do tempo de trabalho por meio da \u201cautoma\u00e7\u00e3o total\u201d (sem considera\u00e7\u00e3o pelo conte\u00fado), mas libertar todas as atividades sociais do seu conte\u00fado abstrato, dessensibilizado, meramente acidental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 indiferen\u00e7a da forma. Por meio da supera\u00e7\u00e3o da forma-mercadoria universal e, portanto, da economia empresarial, do mercado, da troca e do dinheiro, a reprodu\u00e7\u00e3o social deixa de estar subordinada a uma forma de atividade universal abstrata; ela deve se articular ent\u00e3o em uma trama diversificada de inumer\u00e1veis atividades concretas, determinadas conforme o conte\u00fado, em rela\u00e7\u00e3o ao qual tudo deve ser considerado e realizado, ao inv\u00e9s de ser carimbada pelo crit\u00e9rio externo do contexto sist\u00eamico abstrato.<\/p>\n<p>Mas t\u00e3o logo as atividades concretas sejam manejadas socialmente de acordo com o respectivo conte\u00fado real, o fluxo descomunal de tempo abstrato da economia de mercado tamb\u00e9m deve deixar de exercer sua ditadura. A reprodu\u00e7\u00e3o social e pessoal se articula depois disso em momentos que podem ter, respectivamente, sua pr\u00f3pria forma temporal. S\u00f3 assim \u00e9 que podem ser devolvidos \u00e0 sociedade os momentos e \u00e2mbitos \u201ccindidos\u201d, definidos como \u201cfemininos\u201d, que n\u00e3o podem obedecer de maneira alguma a \u201cl\u00f3gica de economia de tempo\u201d (F. Haug) socialmente funcional. Se a reprodu\u00e7\u00e3o social se tornar transparente e determinada apenas conforme os conte\u00fados concretos, j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel qualquer hierarquiza\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de atividade e qualquer subordina\u00e7\u00e3o especificamente sexual.<\/p>\n<p>A supera\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o significa, por\u00e9m, apenas fazer justi\u00e7a aos diferentes momentos da reprodu\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m que eles sejam completamente superados enquanto esferas separadas. A estrita separa\u00e7\u00e3o das esferas resulta da \u201cdesvincula\u00e7\u00e3o\u201d da economia como fim-em-si, em cujo espa\u00e7o funcional tem de ser apagados todos os demais momentos. Super o trabalho \u00e9, portanto, super o \u201ctempo livre\u201d e, com isso, libera\u00e7\u00e3o do \u00f3cio, que n\u00e3o pode ser um \u201cespa\u00e7o residual\u201d social, mas algo que permeia toda a reprodu\u00e7\u00e3o social. Antes de qualquer coisa: o fim da urg\u00eancia do trabalho \u2013 pois, em vista das gigantescas for\u00e7as produtivas, que raz\u00e3o haveria para produzir freneticamente, quando, junto com o impulso delirante do fim em si econ\u00f4mico, desaparece todo o motivo de pressa?<\/p>\n<p>Isso diz respeito n\u00e3o apenas \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre esfor\u00e7o e \u00f3cio, mas tamb\u00e9m a uma completa interpenetra\u00e7\u00e3o dos diferentes momentos e esferas. A cultura em sentido amplo n\u00e3o poder\u00e1 ser um \u201csetor\u201d separado; liberada da ditadura do tempo abstrato, j\u00e1 estar\u00e1 integrada na reprodu\u00e7\u00e3o. Nesse contexto, tratar-se-ia de incluir crit\u00e9rios culturais e est\u00e9ticos nas at\u00e9 aqui existentes \u201czonas de inten\u00e7\u00e3o\u201d. O desaforo est\u00e9tico das atuais \u201c\u00e1reas industriais\u201d, por exemplo, n\u00e3o seria mais poss\u00edvel.<\/p>\n<h3><strong>Da expropria\u00e7\u00e3o \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Os recursos sociais parecem estar ao alcance da m\u00e3o e, no entanto, est\u00e3o separados dos produtores como que por uma parede de vidro. Isso porque a sociedade baseada no trabalho e na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias \u00e9 uma gigantesca m\u00e1quina de expropria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somente no sentido limitado, como foi sempre a compreens\u00e3o do marxismo do movimento oper\u00e1rio, de que os meios de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u201cpertencem\u201d juridicamente aos trabalhadores e que o capital (na forma fetichista da mais-valia) se apropria dos frutos de seu trabalho. A expropria\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter muito mais abrangente e, por isso, n\u00e3o pode ser superada pela transforma\u00e7\u00e3o jur\u00eddica meramente externa do assim chamado \u201cpoder de disposi\u00e7\u00e3o\u201d sobre f\u00e1bricas, terras, oficinas, edif\u00edcios etc.<\/p>\n<p>Tanto faz se o Estado age como empres\u00e1rio geral ou se proclama pomposamente \u201co povo\u201d ou \u201ca classe oper\u00e1ria\u201d como orgulhosos propriet\u00e1rios do conjunto dos agregados da economia nacional, aos quais se colocam a servir ainda mais entusiasmadamente, ou se as empresas s\u00e3o dirigidas em \u201cautogest\u00e3o\u201d por uma cooperativa de produtores de mercadorias, em um contexto social ainda dominado pela economia de mercado (mesmo que o mercado receba o adjetivo de \u201csocialista\u201d) \u2013 ambas s\u00e3o apenas tentativas hist\u00f3ricas necessariamente fracassadas de introduzir uma orienta\u00e7\u00e3o conscientemente voltada para as necessidades na sociedade do trabalho e da mercadoria, que \u00e9 essencialmente um sistema cego e indiferente \u00e0s necessidades.<\/p>\n<p>Nesta sociedade, as pessoas se defrontam com suas pr\u00f3prias pot\u00eancias produtivas e condi\u00e7\u00f5es socioculturais na forma enlouquecida de for\u00e7as estranhas que as dominam. Quando pensa e age, o individuo moderno o faz sempre nas condi\u00e7\u00f5es pressupostas do contexto de constitui\u00e7\u00e3o da sociedade do trabalho e da mercadoria, cuja coer\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona apenas de forma externa, mas se faz presente na pr\u00f3pria estrutura sociops\u00edquica deles. Toda \u201cliberdade\u201d da sociedade da mercadoria e toda \u201cpol\u00edtica\u201d s\u00e3o reduzidas a decis\u00f5es no interior da \u201csegunda natureza\u201d, que, como tal, nunca est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e est\u00e1 para al\u00e9m de toda decis\u00e3o consciente. O conceito de expropria\u00e7\u00e3o denota assim a incapacidade fundamental e estrutural de os membros da sociedade disporem de modo consciente de si mesmos e de suas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os homens da sociedade da mercadoria n\u00e3o pode comer uma simples cenoura sem terem de se relacionar inconscientemente com gigantescos agregados agroindustriais, log\u00edsticos e burocr\u00e1ticos de f\u00e1bricas de fertilizantes, transportadores, distribuidores, administradores de subven\u00e7\u00f5es etc. N\u00e3o \u00e9 a comida que est\u00e1 em jogo para cada um desses participantes, mas apenas o retorno abstrato em dinheiro da economia empresarial, que em um ponto qualquer dessa absurda cadeia assumiu acidentalmente a forma de um alimento. O resultado material e social n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o envenenamento das condi\u00e7\u00f5es naturais da vida, o empobrecimento humano e montes de produtos agr\u00edcolas excedentes.\u00a0\u00a0A racionalidade abstrata da valoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o conduz apenas os processos de trabalhos di\u00e1rios nos escrit\u00f3rios, f\u00e1bricas e supermercados; at\u00e9 mesmo nos sonhos as pessoas ainda est\u00e3o entregues \u00e0 m\u00e1quina de desejos da sociedade da mercadoria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que tal forma de expropria\u00e7\u00e3o total n\u00e3o poder\u00e1 ser superada nem por uma mudan\u00e7a externa no poder pol\u00edtico nem por meio da transforma\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do \u201cpoder de disposi\u00e7\u00e3o\u201d sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o (como parece sugerir a famosa f\u00f3rmula da \u201cexpropria\u00e7\u00e3o dos expropriadores\u201d), mas apenas atrav\u00e9s de um movimento de emancipa\u00e7\u00e3o social que se aproprie conscientemente do conjunto da sociedade de forma igualmente total. A separa\u00e7\u00e3o estrutural da pol\u00edtica e da economia deve ser revogada desde o in\u00edcio no pr\u00f3prio movimento social, uma vez que ela \u00e9 produzida unicamente pelo fim em si \u201cdesvinculado\u201d; isto j\u00e1 n\u00e3o pode ser \u201cpol\u00edtico\u201d (ou seja, relativo ao Estado) no sentido convencional. Nenhum ato solene pode simplesmente arrancar os recursos materiais ao fim em si do sistema de valoriza\u00e7\u00e3o. Isso pode ser feito apenas por meio da transforma\u00e7\u00e3o fundamental de todas as condi\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e culturais, na qual se transforma tamb\u00e9m a face material do mundo (da arquitetura aos meios de transporte). Tal determina\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria de objetivos fundamentais deve se desenvolver precisamente em uma situa\u00e7\u00e3o social na qual ela pode parecer inteiramente ilus\u00f3ria, j\u00e1 que inicialmente o processo de crise desencadeia uma nova onda de fanatismo do trabalho e torna vis\u00edvel o lado mais negro da alma da mercadoria.<\/p>\n<p>O processo permanente de expropria\u00e7\u00e3o n\u00e3o se det\u00e9m por si mesmo na crise, mas, pelo contr\u00e1rio, assume formas cada vez mais grosseiras. Que o sujeito do trabalho e da mercadoria j\u00e1 viva em seu isolamento uma total depend\u00eancia socioecon\u00f4mica \u00e9 algo que se experimenta de forma ainda mais brutal quando, de um lado, sua for\u00e7a de trabalho n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria e, de outro, derretem as transfer\u00eancias sociais do Estado. Sem dinheiro (i.e., \u201ctrabalho coagulado\u201d) n\u00e3o se \u00e9 literalmente nada na sociedade capitalista; \u00e9 como se as necessidades n\u00e3o existissem, porque n\u00e3o podem se expressar como demandas do poder de compra. Apesar disso, ao mesmo tempo s\u00e3o vedados at\u00e9 os recursos materiais sem uso (como, por exemplos, casas desabitadas), que s\u00e3o ciosamente vigiados pelos \u201cservi\u00e7os de seguran\u00e7a\u201d estatais e privados, uma vez que, por princ\u00edpio, n\u00e3o se prev\u00ea qualquer outra utiliza\u00e7\u00e3o al\u00e9m da capitalista.<\/p>\n<p>Toda tentativa de parar esse processo cada vez maior de expropria\u00e7\u00e3o absoluta (que leva \u00e0 fome em massa nas regi\u00f5es dos mais graves colapsos econ\u00f4micos) por meio de uma \u201coutra pol\u00edtica\u201d imanente, a fim de retornar a um n\u00edvel meramente suport\u00e1vel de sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade do trabalho, est\u00e1 desde o in\u00edcio condenada ao fracasso. N\u00e3o h\u00e1 mais qualquer fundamento para tal, pois a pol\u00edtica \u00e9 apenas a forma geral-abstrata por meio da qual a sociedade produtora de mercadorias administra suas contradi\u00e7\u00f5es irremedi\u00e1veis, e esse modo evidentemente perde a sua j\u00e1 limitada capacidade de regula\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o na medida em que avan\u00e7a a \u201ccrise da sociedade do trabalho\u201d. A desenfreada brutaliza\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica capitalista e a decad\u00eancia de todos os padr\u00f5es civilizat\u00f3rios (das rela\u00e7\u00f5es civis \u00e0 assist\u00eancia m\u00e9dica) podem ser interrompidas apenas por um movimento social que recuse de modo fundamental a produ\u00e7\u00e3o de riqueza na forma do trabalho produtor de mercadorias como a \u00fanica poss\u00edvel. Uma apropria\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria nesse sentido passa n\u00e3o mais pelo modo pol\u00edtico-jur\u00eddico, mas precisamente pela ruptura categorial com os imperativos de \u201csegunda natureza\u201d da sociedade da mercadoria.<\/p>\n<div id=\"attachment_21819\" class=\"wp-caption alignnone\" data-shortcode=\"caption\">\n<p><a href=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg\" rel=\"prettyPhoto\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-21819 size-large\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=620&#038;h=349&#038;fit=620%2C349&#038;resize=620%2C349\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" srcset=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=620&amp;h=349 620w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=1240&amp;h=698 1240w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=150&amp;h=84 150w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=300&amp;h=169 300w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=768&amp;h=432 768w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=1024&amp;h=576 1024w\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"349\" aria-describedby=\"caption-attachment-21819\" data-attachment-id=\"21819\" data-permalink=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/norbert-trenkle-boitempo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg\" data-orig-size=\"1280,720\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"norbert trenkle boitempo\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=300\" data-large-file=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/07\/norbert-trenkle-boitempo.jpg?w=620\" \/><\/a><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-21819\" class=\"wp-caption-text\"><em>Norbert Trenkle<\/em><\/p>\n<\/div>\n<h3><strong>Elementos para um movimento de apropria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Se a\u00a0<em>perspectiva<\/em>\u00a0emancipat\u00f3ria consiste apenas na apropria\u00e7\u00e3o social do conjunto da reprodu\u00e7\u00e3o da vida, que j\u00e1 n\u00e3o pode ser mediada pela sociedade do trabalho, ent\u00e3o a pr\u00e1xis dessa supera\u00e7\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel apenas como um\u00a0<em>processo<\/em>\u00a0que se estende por muitos anos, ganhando terreno no contexto social, econ\u00f4mico e cultural. N\u00e3o s\u00e3o apenas as rela\u00e7\u00f5es externas de for\u00e7a que pressionam em dire\u00e7\u00e3o a um processo complexo de transforma\u00e7\u00e3o. Pois n\u00e3o se pode dispor de antem\u00e3o dos elementos de uma socializa\u00e7\u00e3o emancipada n\u00e3o formada pela mercadoria e certamente n\u00e3o se pode, por assim dizer, improvis\u00e1-los, mas antes eles t\u00eam de ser descobertos e desenvolvidos. N\u00e3o se trata simplesmente de uma quest\u00e3o t\u00e9cnico-organizacional e sim de algo que diz respeito tamb\u00e9m \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos e \u00e0 sua constitui\u00e7\u00e3o psicossocial. Afinal, os membros de um movimento de supera\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e3o \u201cseres transcendentes\u201d, mas pessoas mais ou menos marcadas pela subjetividade do trabalho e da mercadoria, que, de fato, n\u00e3o est\u00e3o deterministicamente entregues a ela, mas que, por outro lado, n\u00e3o podem simplesmente se despir dela como se faz com uma camisa. Por isso, o processo de apropria\u00e7\u00e3o deve ser necessariamente tamb\u00e9m um processo de ampla discuss\u00e3o, contesta\u00e7\u00e3o e autorreflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Um \u201cmovimento\u201d no sentido do processo de apropria\u00e7\u00e3o (em vez de atos pol\u00edticos externos) n\u00e3o tem nada a ver com o resignar-se \u00e0s economias de pequena escala ou de mis\u00e9ria sobre a terra queimada da economia de mercado. Ele tamb\u00e9m difere fundamentalmente da \u201cperspectiva de subsist\u00eancia\u201d camponesa-artesanal ou do conceito de \u201ceconomia local\u201d, que se propagam frequentemente sob a press\u00e3o da crise. \u00c9 certo que para muitas pessoas tornadas \u201csup\u00e9rfluas\u201d em sentido capitalista, a produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria local e a autoajuda, com meios simples, t\u00eam oferecido muitas vezes a \u00fanica possibilidade de ter a sobreviv\u00eancia assegurada. Em parte esse fen\u00f4meno \u00e9 acompanhado pelo renascimento ou por novos desenvolvimentos de formas de coopera\u00e7\u00e3o e auto-organiza\u00e7\u00e3o; e, nesse sentido, tamb\u00e9m aqui parece haver momentos dirigidos contra a l\u00f3gica da concorr\u00eancia capitalista. Em \u00faltima an\u00e1lise, no entanto, essas iniciativas representam apenas estrat\u00e9gias de evas\u00e3o e defesa, permanecendo socialmente isoladas e sem oferecer uma perspectiva emancipat\u00f3ria abrangente. Portanto, n\u00e3o podem desenvolver por conta pr\u00f3pria nenhuma din\u00e2mica que v\u00e1 al\u00e9m do n\u00edvel extremamente baixo de socializa\u00e7\u00e3o, divis\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es e de produtividade em que operam. Pelo contr\u00e1rio, tornam-se facilmente instrumentalizadas pelas estrat\u00e9gias de administra\u00e7\u00e3o da crise e da pobreza, e tamb\u00e9m est\u00e3o tendencialmente suscet\u00edveis \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de identidades \u00e9tnicas e localistas.<\/p>\n<p>As fra\u00e7\u00f5es esclarecidas da pol\u00edtica de crise nos governos e nas institui\u00e7\u00f5es internacionais como o Banco Mundial ou a ONU n\u00e3o t\u00eam qualquer obje\u00e7\u00e3o aos \u201csup\u00e9rfluos\u201d em termos capitalistas que, de alguma forma, se estabelecem nas margens do capitalismo para garantir a pr\u00f3pria a sobreviv\u00eancia. Isso n\u00e3o apenas atenua a agita\u00e7\u00e3o social como tamb\u00e9m legitima a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de exclus\u00e3o social. Ademais, os recursos eventualmente concedidos s\u00e3o de tal modo escassos que os grupos e iniciativas em quest\u00e3o geralmente s\u00e3o consumidos na luta pelos meios de subsist\u00eancia di\u00e1rios e j\u00e1 n\u00e3o podem mobilizar qualquer energia em atividades mais abrangentes. Nos programas de \u201ccombate \u00e0 pobreza\u201d com finalidade cosm\u00e9tica, p.e., do Banco Mundial, promove-se h\u00e1 anos com algumas migalhas o princ\u00edpio de \u201cajudar as pessoas a ajudarem a si pr\u00f3prias\u201d; no M\u00e9xico, foi justamente o governo neoliberal do presidente Salinas que concedeu \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de base nas cidades um maior poder de decis\u00e3o particularmente em rela\u00e7\u00e3o a algumas obras p\u00fablicas (estradas, canaliza\u00e7\u00e3o etc.), a fim de envolv\u00ea-las politicamente na administra\u00e7\u00e3o de crise.<\/p>\n<p>\u00c9 completamente falso afirmar que o envolvimento em tais contextos \u00e9 a \u00fanica possibilidade. Se consuma ent\u00e3o a capitula\u00e7\u00e3o, tanto em termos ideais quanto te\u00f3ricos, diante da tarefa indubitavelmente dif\u00edcil de uma apropria\u00e7\u00e3o superadora em escala socialmente abrangente e mundial, antes mesmo que se tenha dado um \u00fanico passo pr\u00e1tico nessa dire\u00e7\u00e3o. Em contraposi\u00e7\u00e3o, um discurso de apropria\u00e7\u00e3o transformadora tem a tarefa de desenvolver o quadro de refer\u00eancias para a pr\u00e1xis de apropria\u00e7\u00e3o, que se considera sempre experimental e provis\u00f3ria, ou seja, em um esfor\u00e7o constante de autossupera\u00e7\u00e3o. A tens\u00e3o entre o objetivo socialmente abrangente da supera\u00e7\u00e3o do trabalho e as dificuldades de um movimento de apropria\u00e7\u00e3o transformadora \u00e9 um momento impulsionador e n\u00e3o pode, portanto, ser sacrificado nem pela vazia evoca\u00e7\u00e3o do \u201cinteiramente outro\u201d, nem pela autonomiza\u00e7\u00e3o de formas de pr\u00e1xis mais limitadas.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do movimento de apropria\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente uma confronta\u00e7\u00e3o permanente nos mais diferentes n\u00edveis com a pr\u00e1xis capitalista, n\u00e3o um pensamento reduzido a meros projetos de nicho. Isso se aplica especialmente n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 cr\u00edtica radical da racionalidade econ\u00f4mico-empresarial em geral, mas tamb\u00e9m a um amplo desvelamento do car\u00e1ter destrutivo e irracional em termos materiais concretos dos processos sociais \u201cem rede\u201d dos capitais (por exemplo, quando frangos congelados s\u00e3o transportados por milhares de quil\u00f4metros pelas estradas da Europa por caminhoneiros exaustos e mal-pagos). A exposi\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da absurdidade em larga escala na pr\u00e1xis econ\u00f4mico-empresarial capitalista poderia, ao mesmo tempo, formar a base da abordagem sobre as possibilidades de apropria\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o dos contextos de reprodu\u00e7\u00e3o materiais ao n\u00edvel dos setores de produ\u00e7\u00e3o e do respectivo fluxo de recursos. \u00c9 precisamente porque grande parte do complexo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em sua forma atual, ao inv\u00e9s de ser assumida, deve ser simplesmente desativada ou, pelo menos, transformada em termos fundamentais, que a apropria\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o desse conhecimento (o que por si s\u00f3 j\u00e1 representa uma clara ruptura com as regras do sistema) s\u00e3o de enorme import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Seria preciso olhar criticamente tamb\u00e9m para as tentativas anteriores de cr\u00edtica e de transforma\u00e7\u00e3o nos n\u00edveis da reprodu\u00e7\u00e3o concreta, que tiveram lugar num contexto completamente diferente; por exemplo, as investiga\u00e7\u00f5es do movimento ecol\u00f3gico ou do assim chamado \u201cdebate sobre reconvers\u00e3o dos armamentos\u201d dos anos 1970 e 1980. Em alguns casos, foi parcialmente analisado de modo bastante minucioso e especializado o modo pelo qual as ind\u00fastrias de armamentos poderiam ser convertidas, com aux\u00edlio da compet\u00eancia funcional dispon\u00edvel e com a transforma\u00e7\u00e3o parcial do parque de m\u00e1quinas, em algo diferente e destinado a produtos n\u00e3o militares. \u00c9 claro que n\u00e3o se tratava a\u00ed de uma cr\u00edtica radical da \u201ceconomia desvinculada\u201d, mas, em \u00faltima an\u00e1lise, apenas da conserva\u00e7\u00e3o dos \u201cpostos de trabalho\u201d na economia de mercado; principalmente quando associada \u00e0s ilus\u00f5es de uma \u201cpol\u00edtica econ\u00f4mica alternativa\u201d orientada em sentido ecol\u00f3gico e cooperativo no interior de um capitalismo de algum modo reformado. Tamb\u00e9m era mais do que ing\u00eanuo supor que fosse poss\u00edvel desmantelar a ind\u00fastria de armamento com base apenas no desenvolvimento de uma ideia de produ\u00e7\u00e3o alternativa. \u00c9 por isso que o debate da reconvers\u00e3o dos armamentos desapareceu da cena p\u00fablica sem ao menos um sussurro com o decl\u00ednio do movimento alternativo-pacifista e o processo de adapta\u00e7\u00e3o dos verdes. De qualquer modo, essas investiga\u00e7\u00f5es colocadas\u00a0<em>ad acta<\/em>\u00a0servem como material para que se tenha no\u00e7\u00e3o de quais saberes e quais possibilidades materiais seriam mobilizadas no \u00e2mbito de um \u201cdebate sobre reconvers\u00e3o\u201d inteiramente distinto contra a economia-empresarial e a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p>Os pontos de partida e de constitui\u00e7\u00e3o de um movimento de apropria\u00e7\u00e3o certamente ser\u00e3o muito diferentes, dependendo do pa\u00eds ou da regi\u00e3o e das respectivas rela\u00e7\u00f5es dominantes. \u00c9 imagin\u00e1vel e fundamentalmente desej\u00e1vel que um movimento de protesto em massa dirigido contra a gest\u00e3o estatal de crise sob as condi\u00e7\u00f5es de crise cada vez mais insuport\u00e1veis, por sua pr\u00f3pria din\u00e2mica, conquiste grandes setores do contexto social, incluindo os aparatos de produ\u00e7\u00e3o industrial. Ele depende das diferentes condi\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas do capitalismo de crise, nas quais podem surgir as formas de transi\u00e7\u00e3o para uma apropria\u00e7\u00e3o real; primeiramente, \u00e9 claro, se e na medida em que a atomiza\u00e7\u00e3o social e a letargia forem superadas.<\/p>\n<p>Na mesma medida em que a reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade do trabalho continua a encolher e que se recorre \u00e0s ra\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia para as pessoas, a luta pelas provis\u00f5es elementares, como habita\u00e7\u00e3o, alimentos, energia etc., e o acesso \u00e0 medicina e aos servi\u00e7os sociais, pode se desenvolver com for\u00e7a explosiva. Se isso parece ilus\u00f3rio, \u00e9 preciso lembrar que em grandes partes do mundo os circuitos \u201cregulares\u201d de abastecimento da economia de mercado ou estatal j\u00e1 se encontram em grande medida colapsados. H\u00e1 tempos que as coisas tamb\u00e9m caminham nessa dire\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses centrais do capitalismo; a press\u00e3o atinge igualmente quem ainda \u00e9 capaz de vender de algum modo a sua for\u00e7a de trabalho, pois o sal\u00e1rio n\u00e3o cessa de encolher e, ao mesmo tempo, as transfer\u00eancias sociais s\u00e3o cortadas. Em tais circunst\u00e2ncias, o decisivo \u00e9 se a cat\u00e1strofe do abastecimento desencadeia uma violenta concorr\u00eancia de exclus\u00e3o conduzida por bandos racistas ou pela amb\u00edgua pol\u00edtica midi\u00e1tica nacionalista, ou se ela faz surgir um foco social emancipat\u00f3rio, por exemplo, na desvincula\u00e7\u00e3o entre o local de moradia e a esfera da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias a partir da ocupa\u00e7\u00e3o de casas ou das greves de aluguel \u2013 junto com a cria\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura aut\u00f4noma de instala\u00e7\u00f5es sociais e de servi\u00e7os m\u00e9dicos na vizinhan\u00e7a, de locais de reuni\u00e3o, de centros de comunica\u00e7\u00e3o etc. Tais medidas, no entanto, s\u00e3o duradouras apenas quando desenvolvidas de certa forma como a base inicial e, por assim dizer, a cabe\u00e7a de ponte de uma din\u00e2mica que incide sobre o conjunto da reprodu\u00e7\u00e3o social; e, por outro lado, tal din\u00e2mica s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando surge junto com ela o enfoque social te\u00f3rico que, na qualidade de uma\u00a0<em>nova contra esfera p\u00fablica<\/em>, propague a ideia da ruptura categorial com o trabalho e a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. Isso significa que, desde o in\u00edcio, \u00e9 necess\u00e1ria a comunica\u00e7\u00e3o, coordena\u00e7\u00e3o e apoio rec\u00edproco inter-regional e transnacional de um movimento de apropria\u00e7\u00e3o que se permita intervir a partir de uma terceira e superadora posi\u00e7\u00e3o nos conflitos sociais imanentes e nas lutas por sal\u00e1rios, subs\u00eddios para os desempregados, assist\u00eancia social etc.<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/?fbclid=IwAR3PQUriDnPrPit011IGA1wRIr2ZCSjLNctsyqMDCuXYAngObuDsZ9GWfHM#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Portanto, o objetivo n\u00e3o deve ser um contexto \u201cecon\u00f4mico alternativo\u201d de pequenas cooperativas de produtores ou mesmo de pessoas individuais para trocar \u201cdiretamente\u201d seu tempo de trabalho, como prescrevem as ideologias regressivas dos \u201cc\u00edrculos de troca\u201d. Desse modo n\u00e3o se iria muito al\u00e9m da reprodu\u00e7\u00e3o (ou simula\u00e7\u00e3o social paralela) dos constrangimentos da economia de mercado e todas as suas implica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o haveria uma supera\u00e7\u00e3o do trabalho como forma abstrata de atividade e sim a \u201cautogest\u00e3o\u201d reduzida a uma execu\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria das leis alucinadas da economia empresarial. Uma apropria\u00e7\u00e3o real somente pode significar que os recursos dispon\u00edveis nos correspondentes setores sejam utilizados com base no acordo direto das partes interessadas e que o resultado desse processo \u201cexpire no uso\u201d, ao inv\u00e9s de reingressar no mercado como oferta. S\u00f3 com essa perspectiva pode ter in\u00edcio uma retomada da esfera autonomizada da economia tamb\u00e9m pela introdu\u00e7\u00e3o de um contexto social conscientemente organizado em \u00e1reas parciais.<\/p>\n<p>\u201cAcordo direto\u201d n\u00e3o pode, naturalmente, significar que enormes multid\u00f5es se encontrem o tempo todo para discutir e deliberar sobre todas as quest\u00f5es. Seria antes um sistema de acordo institucional escalonado em todos os n\u00edveis para todos os membros da sociedade como parte do cotidiano (como \u00e9 hoje o trabalho abstrato, o dinheiro, a concorr\u00eancia). Assim, \u201cdireto\u201d significa apenas que a forma-fetiche autonomizada n\u00e3o poder\u00e1 se interpor entre os membros da sociedade e seus meios de vida e tamb\u00e9m que um alto n\u00edvel de agrega\u00e7\u00e3o dos contextos sociais deva permanecer transparente para todos (por exemplo, com ajuda dos modernos meios de comunica\u00e7\u00e3o), ao inv\u00e9s de se separar da sociedade em nome de um fim em si pressuposto, como o Estado e seus aparatos an\u00e1logos aos da economia.<\/p>\n<p>A tarefa de desenvolver tais formas e institui\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o social direta e suas media\u00e7\u00f5es se encontra diante da dificuldade de que n\u00e3o h\u00e1 qualquer exemplo hist\u00f3rico ou atual para servir de orienta\u00e7\u00e3o. A ef\u00eamera ideia dos conselhos pode de fato (desde que analisada criticamente) oferecer algum ponto de apoio, mas ela fracassou precisamente por permanecer fixada na sociedade do trabalho e, com isso, n\u00e3o p\u00f4de ir al\u00e9m da forma burguesa da pol\u00edtica; ela foi antes pensada como sistema mais plebiscit\u00e1rio de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (e, portanto, apesar das pretens\u00f5es de todo envolvimento paraestatal) com um comando puramente externo sobre o trabalho abstrato n\u00e3o superado e sobre a economia mercantil. Isso j\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel no fato de que a concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos conselhos, tal como fora desenvolvida por Karl Korsch, nos anos 1920, previa uma segmenta\u00e7\u00e3o em \u201cconselhos de produtores\u201d e \u201cconselhos de consumidores\u201d; na pr\u00e1tica, repetia-se a esquizofrenia estrutural dos sujeitos da mercadoria como vendedores da for\u00e7a de trabalho, de um lado, e consumidores de mercadorias, de outro lado. O primeiro pressuposto l\u00f3gico da supera\u00e7\u00e3o da forma-fetiche autonomizada consiste precisamente em que seja produzida na sociedade uma\u00a0<em>identidade entre produtores e consumidores<\/em>\u00a0mediada pela comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em todo caso, seria totalmente errado fixar-se em\u00a0<em>um<\/em>\u00a0determinado \u201cmodelo\u201d de comunica\u00e7\u00e3o social que, tal como na forma-mercadoria, devesse agora se tornar v\u00e1lido em toda parte. Precisam ser discutidos de forma diferenciada tanto a assist\u00eancia de crian\u00e7as nos bairros (e de modo algum em todos os bairros e regi\u00f5es do mesmo modo) como a produ\u00e7\u00e3o de vigas de a\u00e7o e a concep\u00e7\u00e3o de um programa de r\u00e1dio. Se a supera\u00e7\u00e3o do trabalho significa que toda atividade reconhecidamente significativa deve ser v\u00e1lida em sua l\u00f3gica pr\u00f3pria, ent\u00e3o tamb\u00e9m os processos de decis\u00e3o precisam levar isso em conta. O futuro para al\u00e9m do trabalho n\u00e3o \u00e9 um novo princ\u00edpio funcional e organizacional abstrato-universal\u00edstico, mas, em contraste com a forma-mercadoria, um espa\u00e7o social \u201caberto\u201d para a multiplicidade de desenvolvimentos concretos em todos os setores da vida \u2013 sem a necessidade compulsiva da forma\u00e7\u00e3o de identidades concorrentes e da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>*<\/strong>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<strong>Andr\u00e9 Villar Gomez<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Marcos Barreira<\/strong>.<br \/>\n<sup><strong>1<\/strong><\/sup>\u00a0\u201cDie Aufhebung der Arbeit. Ein anderer Blick in das Jenseits des Kapitalismus\u201d. Em: Robert Kurz, Ernst Lohoff, Norbert Trenkle (orgs.),\u00a0<em>Feierabend! Elf Attacken gegen die Arbeit<\/em>\u00a0(Hamburg: Konkret Literatur Verlag, 1999).<br \/>\n<sup><strong>2<\/strong><\/sup>\u00a0Mais literalmente, \u201cl\u00f3gica de localiza\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0(<em>Standortlogik<\/em>). (N. T.).<br \/>\n<sup><strong>3<\/strong><\/sup>\u00a0Ver Robert Kurz, \u201c<a href=\"http:\/\/exit-online.org\/textanz1.php?tabelle=autoren&amp;index=18&amp;posnr=55&amp;backtext1=text1.php\">Die Diktatur der abstrakten Zeit. Arbeit als eine Verhaltensst\u00f6rung der Moderne.<\/a><em>\u201c<\/em>\u00a0[A\u00a0 ditadura do tempo abstrato. O trabalho como desajustamento moderno] em Robert Kurz, Ernst Lohoff, Norbert Trenkle (orgs.)\u00a0<em>Feierabend! Elf Attacken gegen die Arbeit<\/em>. (N. T.).<br \/>\n<strong><sup>4<\/sup><\/strong>\u00a0Cf. Robert Kurz,\u00a0<em>A terceira for\u00e7a. Fim e in\u00edcio da neutralidade<\/em>.\u00a0<em>Caderno Prudentino de Geografia<\/em>, no. 18, Julho de 1996. Presidente Prudente: AGB, 1996. (N. T.).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"620\" height=\"349\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2oO90xbWtW8?version=3&amp;rel=1&amp;fs=1&amp;autohide=2&amp;showsearch=0&amp;showinfo=1&amp;iv_load_policy=1&amp;wmode=transparent\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>Hannah Arendt,\u00a0<em>Vita Activa oder Vom t\u00e4tigen Leben<\/em>, M\u00fcnchen, 1989 (primeira publica\u00e7\u00e3o: 1958).<br \/>\nPaul Lafargue,\u00a0<em>Das Recht auf Faulheit,\u00a0<\/em>Grafenau, 1998 (primeira publica\u00e7\u00e3o: 1883).<br \/>\nThomas Schultze e Almut Gross,\u00a0<em>Die Autonomen<\/em>, Hamburg, 1997.<br \/>\nPablo Pereza,\u00a0<em>Das Recht auf Faulheit \u2013 100 Jahre sp\u00e4ter<\/em>, Grafenau, 1998.<br \/>\nEdward Palmer Thompson,\u00a0<em>Die Entstehung der englischen Arbeiterklasse<\/em>, Frankfurt\/Main, 1987 (primeira publica\u00e7\u00e3o: 1963).<br \/>\n___.\u00a0<em>Plebeische Kultur und moralische \u00d6konomie<\/em>, Berlin, 1980.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"KmjTG4UN4z\"><p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/\">A supera\u00e7\u00e3o do trabalho: um olhar alternativo para al\u00e9m do capitalismo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A supera\u00e7\u00e3o do trabalho: um olhar alternativo para al\u00e9m do capitalismo&#8221; &#8212; Blog da Boitempo\" src=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/07\/04\/a-superacao-do-trabalho-um-olhar-alternativo-para-alem-do-capitalismo\/embed\/#?secret=vS782RPy4K#?secret=KmjTG4UN4z\" data-secret=\"KmjTG4UN4z\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Robert Kurz e Norbert Trenkle &#8211;\u00a0&#8220;A supera\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o significa uma simples redu\u00e7\u00e3o quantitativa do tempo de trabalho por meio da \u2018automa\u00e7\u00e3o total\u2019 (sem considera\u00e7\u00e3o pelo conte\u00fado), mas libertar todas as atividades sociais do seu conte\u00fado abstrato, dessensibilizado, meramente acidental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 indiferen\u00e7a da forma.\u201d O texto \u201cA supera\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d apareceu em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10990,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8,4],"tags":[45],"class_list":["post-10989","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","category-teoria","tag-trabalho"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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