{"id":10981,"date":"2019-07-07T18:26:12","date_gmt":"2019-07-07T21:26:12","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10981"},"modified":"2019-07-07T10:34:39","modified_gmt":"2019-07-07T13:34:39","slug":"falar-de-fascismo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/07\/07\/falar-de-fascismo-no-brasil\/","title":{"rendered":"Falar de fascismo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>VLADIMIR SAFATLE<\/strong> &#8211; H\u00e1 uma fenda global que parece crescer, por onde passaria a emerg\u00eancia de novas formas de governo com tra\u00e7os claramente fascistas.<\/p>\n<p>H\u00e1 o medo de certas palavras. Esse medo vem na maneira com que tentamos, at\u00e9 o limite, n\u00e3o utiliz\u00e1-las. Porque seu uso acende alertas vermelhos, nos quebra a letargia de sentir que, por mais que nossa situa\u00e7\u00e3o atual seja complicada, a vida corre. E corre com um correr de quem acaba por acertar seu passo, abaixar os gritos. Bem, n\u00e3o h\u00e1 palavra que nos leve mais a temer seu uso do que \u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/fascismo\">fascismo<\/a>\u201d. No entanto, \u00e9 ela que se ouve de forma cada vez mais insistente quando se \u00e9 quest\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o brasileira atual. Coloquemos ent\u00e3o, de maneira direita e simples, uma quest\u00e3o que v\u00e1rios de n\u00f3s j\u00e1 colocou a si mesmo: Estaria o Brasil caminhando para o fascismo?<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o n\u00e3o se ouve apenas no Brasil. Ela se ouve na It\u00e1lia, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/18\/actualidad\/1555585620_542476.html\">na Hungria<\/a>, na Pol\u00f4nia, nas Filipinas. Esta conflu\u00eancia de semblantes perplexos a fazer o tour do mundo n\u00e3o \u00e9 mero acaso. Ela indica uma fenda global que parece paulatinamente crescer, fenda por onde passaria a emerg\u00eancia de novas formas de governo com tra\u00e7os claramente fascistas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o seriam tais governos simplesmente \u201cpopulistas\u201d? N\u00e3o \u00e9 assim que se diz hoje, \u201cgovernos populistas de direita\u201d? Sim, \u00e9 assim que se diz. Mas e se este uso extensivo do termo \u201cpopulismo\u201d fosse, na verdade, uma forma de n\u00e3o chamar de gato um gato? Pois talvez os chamamos de \u201cpopulistas\u201d para n\u00e3o dizer o que eles realmente s\u00e3o: governos nos quais uma certa concep\u00e7\u00e3o de \u2018estado total\u2019, uma forma expl\u00edcita de implos\u00e3o de qualquer possibilidade de solidariedade social com grupos historicamente vulner\u00e1veis, uma no\u00e7\u00e3o paranoica de na\u00e7\u00e3o e o culto da viol\u00eancia s\u00e3o a verdadeira t\u00f4nica. Mas seria isto exatamente \u201cfascismo\u201d? E por que n\u00e3o falar em \u201cpopulismo\u201d, neste caso?<\/p>\n<p>Lembremos como o uso extensivo da no\u00e7\u00e3o de \u201cpopulismo\u201d voltou. H\u00e1 pelo menos dez anos havia ficado claro que a pol\u00edtica mundial tendia a se deslocar para os extremos. A incapacidade de responder ao processo de degrada\u00e7\u00e3o social provocado pela crise econ\u00f4mica de 2008, ou seja, a inanidade das pol\u00edticas neoliberais diante da crise e sua partilha, em maior ou menor grau, por todos os principais atores pol\u00edticos, provocara uma desidentifica\u00e7\u00e3o tal com o poder institu\u00eddo, uma frustra\u00e7\u00e3o tal daqueles que um dia acreditaram nas sereias da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/globalizacion\">globaliza\u00e7\u00e3o<\/a>, que o fortalecimento dos extremos era uma tend\u00eancia irresist\u00edvel. A democracia liberal havia tocado seu limite. Pois o problema n\u00e3o era apenas econ\u00f4mico, ele era principalmente pol\u00edtico. N\u00e3o havia espa\u00e7o no campo pol\u00edtico para a\u00e7\u00f5es e discursos de ruptura clara com a ordem econ\u00f4mica respons\u00e1vel pela pauperiza\u00e7\u00e3o de camadas cada vez maiores da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de um desejo de recusa forte dos limites de nossa vida institucional, criou-se essa palavra m\u00e1gica que faz tudo o que coloca em quest\u00e3o os sistemas de paralisias e acordos da democracia liberal parlamentar parecer \u201cirracional\u201d, \u201cemotivo\u201d, \u201cfruto de frustra\u00e7\u00f5es\u201d, \u201cconvite a regress\u00f5es at\u00e1vicas\u201d, ou seja, \u201cpopulista\u201d. Ainda de quebra, o termo permitia juntar os extremos, falar de um populismo de direita e de um populismo de esquerda, anulando com isto os dois polos, fazendo-os operar em uma balan\u00e7a de equival\u00eancias. Como se, no fundo, existisse apenas a \u201cdemocracia\u201d que conhecemos e os \u201cpopulismos\u201d.<\/p>\n<p>Mas era claro que as diferen\u00e7as entre os polos eram profundas. \u00c0 direita, via-se uma cr\u00edtica \u00e0 pauperiza\u00e7\u00e3o social que colocava a conta da cat\u00e1strofe nas costas dos mais desfavorecidos, a saber, os imigrantes espoliados por rela\u00e7\u00f5es de trabalhos sub-humanas, os refugiados v\u00edtimas das consequ\u00eancias das interven\u00e7\u00f5es imperialistas em regi\u00f5es de conflito perene, como o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/oriente_proximo\">Oriente M\u00e9dio<\/a>. Quando n\u00e3o havia grandes levas de imigrantes, via-se a mobiliza\u00e7\u00e3o das clivagens origin\u00e1rias de ra\u00e7a e de g\u00eanero, em uma reedi\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias cuja resson\u00e2ncia fascista era evidente. \u00c0 direita, via-se ainda todo o imagin\u00e1rio a respeito da fronteira, da imunidade do corpo social, da invas\u00e3o, do cont\u00e1gio retornar diretamente dos discursos mais inflamados de Goebbels.<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o havia proximidade alguma entre os polos. Mas est\u00e1vamos diante de uma pr\u00e1tica de \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\u201d da extrema-direita e recuperar a t\u00f3pica do \u201cpopulismo\u201d vinha mesmo a calhar. Porque recusar sua normaliza\u00e7\u00e3o acabaria por levar toda a for\u00e7a anti-institucional ao outro polo e com isto produzir uma ruptura sem negocia\u00e7\u00e3o com a ordem econ\u00f4mica atual.<\/p>\n<p>Mas nada disto respondeu \u00e0 pergunta colocada no in\u00edcio deste artigo, a saber, estaria o Brasil caminhando para o fascismo? Talvez fosse o caso de levantar alguns tra\u00e7os que t\u00eam a for\u00e7a de falar por si mesmos.<\/p>\n<p>Quando o jurista nazista Carl Schmitt procurou explicar o que era o Estado total fascista, ele tomou o cuidado de estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o. Segundo ele, n\u00f3s conhecer\u00edamos uma forma de Estado total no interior das democracias parlamentares. Trata-se desse Estado que ouve todos os lados da sociedade, que est\u00e1 presente em todos os conflitos sociais e que produz estruturas de media\u00e7\u00e3o e de legisla\u00e7\u00e3o em todas as esferas da vida social. Ele procura dar conta dos conflitos trabalhistas, dos problemas de desigualdade, da viol\u00eancia espec\u00edfica contra grupos vulner\u00e1veis, entre outros. O Estado est\u00e1 assim, em todos os lugares. Ele n\u00e3o pode pairar acima da sociedade e decidir, pois \u00e9 apenas a emula\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais. Contra isto, dir\u00e1 Schmitt, precisamos de outro Estado total. Mas sua fun\u00e7\u00e3o ser\u00e1 diferente: ele dever\u00e1 usar toda sua for\u00e7a para despolitizar a sociedade, impedir que as escolas sejam focos de sedi\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, impedir que os trabalhadores pressionem seus patr\u00f5es atrav\u00e9s de obriga\u00e7\u00f5es legais, usar a for\u00e7a policial para impedir greves, paralisias, ocupa\u00e7\u00f5es. Assim, pode-se garantir a \u00fanica liberdade real, a saber, a \u201cliberdade de empreender\u201d (que \u00e9 sempre uma liberdade para alguns, ou melhor, para os de sempre). Este era o Estado total fascista.<\/p>\n<p>Por outro lado, nesse Estado, um dos poucos princ\u00edpios liberais que qualquer democracia real deveria preservar, a saber, a possibilidade de que indiv\u00edduos sempre ter\u00e3o, independente de quem s\u00e3o ou do que fizeram, de se defenderem do Estado quando julgados, n\u00e3o existia. Pois essa possibilidade exige inviolabilidade do sistema de defesa (em bom portugu\u00eas, meu advogado de defesa n\u00e3o pode ser grampeado pelo juiz), exige desinteresse da parte dos julgadores (mais uma vez, em bom portugu\u00eas, se sou candidato a presidente, o juiz que julga meu caso n\u00e3o pode me prender porque tem um projeto pessoal de poder e quer ser ele o pr\u00f3prio presidente).<\/p>\n<p>Por fim, e esta era uma compreens\u00e3o precisa de Franz Neumann, o Estado nazista n\u00e3o governa. Ele \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel entre grupos que est\u00e3o em conflito cont\u00ednuo. Mas esse conflito \u00e9 uma forma de perpetuar o \u201cmovimento\u201d, j\u00e1 que ele permite ao governo entrar em conflito cont\u00ednuo com o Estado, dizer sempre que nosso grande projeto n\u00e3o est\u00e1 a ser implementado porque for\u00e7as obscuras est\u00e3o agindo dentro do Estado para impedir nossa grande reden\u00e7\u00e3o. O estado\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nazismo\">nazista<\/a>\u00a0\u00e9 uma crise permanente elevada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de governo. A \u00fanica coisa que tenho a dizer \u00e9: junte os pontos e diga se a cena n\u00e3o lhe parece demasiado familiar.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/03\/opinion\/1562176410_719446.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VLADIMIR SAFATLE &#8211; H\u00e1 uma fenda global que parece crescer, por onde passaria a emerg\u00eancia de novas formas de governo com tra\u00e7os claramente fascistas. H\u00e1 o medo de certas palavras. 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