{"id":10962,"date":"2019-07-05T10:03:52","date_gmt":"2019-07-05T13:03:52","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10962"},"modified":"2019-07-04T10:08:52","modified_gmt":"2019-07-04T13:08:52","slug":"o-capital-financeiro-e-determinante-na-formacao-do-deficit-habitacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/07\/05\/o-capital-financeiro-e-determinante-na-formacao-do-deficit-habitacional\/","title":{"rendered":"\u201cO capital financeiro \u00e9 determinante na forma\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit habitacional\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor Santos<\/strong> &#8211; Apesar de o\u00a0direito \u00e0 &#8211; a\u00a0estar assegurado na\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o Federal\u00a0brasileira, \u201catualmente o\u00a0Brasil\u00a0enfrenta um\u00a0d\u00e9ficit habitacional\u00a0de mais de 6,2 milh\u00f5es de moradias\u201d, diz\u00a0Karina Macedo Fernandes\u00a0na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a\u00a0IHU On-Line. \u201cDas\u00a0regi\u00f5es do Brasil, o\u00a0d\u00e9ficit habitacional\u00a0mais cr\u00edtico se encontra na regi\u00e3o\u00a0Sudeste(2.562.117 domic\u00edlios), seguindo-se\u00a0Nordeste\u00a0(1.867.563 domic\u00edlios),\u00a0Sul\u00a0(658.360 domic\u00edlios),\u00a0Norte\u00a0(631.586 domic\u00edlios) e Centro-Oeste (478.668 domic\u00edlios)\u201d, informa.<\/p>\n<section>Na avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora, a\u00a0falta de moradia no Brasil\u00a0\u00e9 resultado da combina\u00e7\u00e3o entre as formas jur\u00eddica e econ\u00f4mica. O\u00a0direito, explica, \u201csob o discurso da lei e da ordem como express\u00f5es da vontade geral ou do \u2018interesse p\u00fablico\u2019, \u00e9 utilizado como um instrumento de estrat\u00e9gia de classe na produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano\u201d e \u201ca\u00a0legisla\u00e7\u00e3o urban\u00edstica\u00a0\u00e9 utilizada como um instrumento privilegiado para racionalizar o uso do espa\u00e7o em benef\u00edcio das classes dominantes\u201d. J\u00e1 a economia, dominada pelo\u00a0capital financeiro, transformou a moradia numa mercadoria. \u201cO fortalecimento docomplexo imobili\u00e1rio-financeiro\u00a0tem como principal impacto a despossess\u00e3o massiva de territ\u00f3rios, o empobrecimento substancial da popula\u00e7\u00e3o \u2014 desde a cria\u00e7\u00e3o da categoria de pobres urbanos \u2018sem lugar\u2019 at\u00e9 os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o estruturados a partir da\u00a0l\u00f3gica capital do endividamento\u00a0\u2014 e a segrega\u00e7\u00e3o social cada vez mais profunda das cidades\u201d, adverte.<\/section>\n<p>Karina\u00a0pontua ainda que os principais desafios para enfrentar a\u00a0falta de moradia\u00a0no pa\u00eds s\u00e3o o \u201ccumprimento da\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0e da lei quanto \u00e0\u00a0pol\u00edtica urbana\u201d e a elabora\u00e7\u00e3o de um\u00a0programa habitacional\u00a0que \u201catenda \u00e0s necessidades emergenciais das popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Autora da tese de doutorado intitulada \u201cDireito \u00e0 cidade, Colonialidade e Territ\u00f3rio: a disputa pelo Cais Mau\u00e1, em Porto Alegre\u201d (2019),\u00a0Karina\u00a0tamb\u00e9m reflete sobre o\u00a0direito \u00e0 cidade\u00a0e afirma que o\u00a0projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o do cais na capital ga\u00facha n\u00e3o considerou os elementos sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos da cidade como um todo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; No que consiste o direito \u00e0 moradia digna e \u00e0 cidade? Como esses direitos incidem na vida dos sujeitos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes<\/strong>\u00a0&#8211; Reconhecido como direito humano na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/585405-70-anos-da-declaracao-universal-dos-direitos-humanos-celebracao-e-novos-desafios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos<\/a>, de 1948, e, no Brasil, como direito social no artigo 6\u00ba da\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/strong>, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/observasinos\/metropole\/moradia\/deficit-habitacional-chega-a-96-mil-casas-na-regiao-metropolitana-de-porto-alegre-como-garantir-o-direito-a-moradia-digna\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">direito \u00e0 moradia digna<\/a>\u00a0\u00e9 o direito que todo ser humano tem de viver em um lugar com seguran\u00e7a, paz e dignidade. Muito mais do que um teto e quatro paredes, a moradia adequada comp\u00f5e o direito a um padr\u00e3o de vida adequado e tem como principais pressupostos o acesso a servi\u00e7os, equipamentos e infraestrutura urbana, como \u00e1gua, saneamento, energia, rede de transporte p\u00fablico.<\/p>\n<p>Suas caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas s\u00e3o:\u00a0<strong>habitabilidade<\/strong>\u00a0(espa\u00e7o adequado, prote\u00e7\u00e3o do calor, frio, umidade, chuva, alagamentos e outras amea\u00e7as),\u00a0<strong>localiza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0(a moradia deve ser localizada onde seja poss\u00edvel o acesso ao emprego, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, aos servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade e outros servi\u00e7os sociais),\u00a0<strong>seguran\u00e7a legal da posse<\/strong>\u00a0(prote\u00e7\u00e3o legal contra remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e quaisquer amea\u00e7as ao exerc\u00edcio da posse),<strong>\u00a0acesso econ\u00f4mico<\/strong>\u00a0(em suas proximidades deve haver oferta de emprego e fontes de renda e de abastecimento b\u00e1sicas),\u00a0<strong>n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0(deve ser acess\u00edvel a minorias pol\u00edticas, como mulheres, idosos, crian\u00e7as, pessoas portadoras de necessidades especiais, v\u00edtimas de desastres naturais ou de persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, de maneira que o direito \u00e0 n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 inerente ao direito \u00e0 moradia \u2014 n\u00e3o h\u00e1 moradia plenamente adequada se h\u00e1 discrimina\u00e7\u00e3o) e\u00a0<strong>adequa\u00e7\u00e3o cultural<\/strong>\u00a0(a constru\u00e7\u00e3o de moradia e qualquer interven\u00e7\u00e3o que nela se realize deve expressar a identidade e a diversidade cultural de quem a habite, o que significa que a habita\u00e7\u00e3o expressa uma dimens\u00e3o cultural que deve ser respeitada).<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">O direito \u00e0 moradia digna \u00e9 o direito que todo ser humano tem de viver em um lugar com seguran\u00e7a, paz e dignidade &#8211; Karina Fernandes<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Isso significa dizer que a\u00a0<strong>moradia adequada<\/strong>\u00a0\u00e9 aquela que possui condi\u00e7\u00f5es de salubridade, de seguran\u00e7a e de instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias adequadas, atendida pelos servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais, dentre os quais \u00e1gua, esgoto, energia el\u00e9trica, ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, coleta de lixo, pavimenta\u00e7\u00e3o e transporte coletivo, e com acesso aos equipamentos sociais e comunit\u00e1rios b\u00e1sicos (postos de sa\u00fade, pra\u00e7as de lazer, escolas p\u00fablicas etc.), al\u00e9m de possuir um tamanho m\u00ednimo para ser considerada habit\u00e1vel e guardar proximidade com meios de mobilidade que possibilitem o exerc\u00edcio da for\u00e7a de trabalho das cidad\u00e3s e dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>direito \u00e0 cidade<\/strong>\u00a0\u00e9 visto e expressamente trabalhado a partir de 1968, quando\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/171-noticias\/noticias-2013\/523292-o-direito-a-cidade-nas-manifestacoes-urbanas-entrevista-com-david-harvey\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Henri Lefebvre<\/a>\u00a0lan\u00e7a o livro \u201c<strong>Direito \u00e0 cidade<\/strong>\u201d (Le droit \u00e0 la ville) em\u00a0<strong>Paris<\/strong>\u00a0e marca a data de nascimento de uma categoria pol\u00edtica que teve seu percurso hist\u00f3rico consoante \u00e0s lutas dos movimentos sociais que reivindicam o usufruto digno e equ\u00e2nime das cidades, isto \u00e9, o acesso amplo \u00e0s quest\u00f5es que surgem da vida nas cidades. O\u00a0<strong>direito \u00e0 cidade<\/strong>, assim, existe sob um paradoxo em que se tem, de um lado, seu car\u00e1ter jur\u00eddico, enquanto, por outro lado, uma plataforma pol\u00edtica de movimentos sociais.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/533\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2019\/07\/04_07_capa_ihu_on_line_533_moradia_ok.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><\/a><em>Direito \u00e0 Moradia, Direito \u00e0 Cidade. Revista IHU On-Line N\u00ba 533<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Direito \u00e0 cidade<\/strong><\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0foi o primeiro pa\u00eds do mundo a positivar o\u00a0<strong>direito \u00e0 cidade<\/strong>, a partir da\u00a0<strong>Emenda Popular pela Reforma Urbana<\/strong>, formulada por um conjunto de entidades e associa\u00e7\u00f5es de classe, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, associa\u00e7\u00f5es civis, movimentos e grupos sociais reunidos em torno da pauta da reforma urbana, cujo resultado foi a participa\u00e7\u00e3o na\u00a0<strong>Assembleia Nacional Constituinte<\/strong>. Com a\u00a0<strong>Emenda Popular Pela Reforma Urbana<\/strong>, houve a conquista da transposi\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o urbana no Cap\u00edtulo da\u00a0<strong>Pol\u00edtica Urbana<\/strong>\u00a0na Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Foram apenas dois artigos (artigos 182 e 183) que deram a base constitucional da nova ordem jur\u00eddico-urban\u00edstica, mas o impacto pol\u00edtico deste reconhecimento foi expressivo: a pol\u00edtica urbana foi colocada pela primeira vez na hist\u00f3ria constitucional brasileira, revolucionando o paradigma civilista cl\u00e1ssico do\u00a0<strong>C\u00f3digo Civil<\/strong>\u00a0de 1916, que at\u00e9 ent\u00e3o correspondia \u00e0 forma legal aplic\u00e1vel \u00e0s quest\u00f5es inerentes aos processos socioecon\u00f4micos e territoriais que caracterizaram o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/590361-sem-uma-visao-sistemica-a-urbanizacao-das-cidades-se-alastra-como-mancha-de-oleo-entrevista-especial-com-angelica-alvim\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">processo de urbaniza\u00e7\u00e3o no Brasil<\/a>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZqgWPS_DE98\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Nascido no movimento constituinte, o\u00a0<strong>Movimento Nacional pela Reforma Urbana<\/strong>\u00a0realizou em outubro de 1988 o primeiro encontro do\u00a0<strong>F\u00f3rum Nacional de Reforma Urbana<\/strong>, que passava, assim, a ser o principal sujeito coletivo a postular a normatiza\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>direito \u00e0 cidade<\/strong>; nesse encontro, foram definidos os tr\u00eas princ\u00edpios b\u00e1sicos da pol\u00edtica urbana:<\/p>\n<p>a) direito \u00e0 cidade e \u00e0 cidadania;<\/p>\n<p>b) gest\u00e3o democr\u00e1tica da cidade; e<\/p>\n<p>c) fun\u00e7\u00e3o social da cidade e da propriedade.<\/p>\n<p>Treze anos depois do reconhecimento constitucional e da institui\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>F\u00f3rum Nacional de Reforma Urbana<\/strong>, os artigos 182 e 183 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal foram regulamentados no\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>, Lei n\u00ba. 10.257 de 10 de julho de 2001. Sua publica\u00e7\u00e3o ocorreu onze anos ap\u00f3s o protocolo do respectivo projeto de lei, e as raz\u00f5es para a longa tramita\u00e7\u00e3o correspondem \u00e0 agenda das\u00a0<strong>reformas liberais<\/strong>\u00a0que marcou a d\u00e9cada de 1990 no\u00a0<strong>Congresso Nacional<\/strong>, assim como \u00e0 resist\u00eancia de muitos parlamentares da \u00e9poca quanto ao conte\u00fado em si do projeto de lei do Estatuto da Cidade e seu forte comprometimento com os princ\u00edpios da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e da cidade, distante do debate pol\u00edtico hegem\u00f4nico de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>As diretrizes gerais da\u00a0<strong>pol\u00edtica urbana<\/strong>\u00a0est\u00e3o previstas no artigo 2\u00ba do\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>, e representam uma ampla preocupa\u00e7\u00e3o com a gest\u00e3o compartilhada do solo urbano, com a ordena\u00e7\u00e3o e controle do uso do solo. As diretrizes gerais buscam evitar, essencialmente, a utiliza\u00e7\u00e3o inadequada dos im\u00f3veis urbanos, a proximidade de usos incompat\u00edveis ou inconvenientes, o parcelamento do solo, a edifica\u00e7\u00e3o ou o estabelecimento de usos excessivos ou inadequados \u00e0 infraestrutura urbana, a instala\u00e7\u00e3o de empreendimentos ou atividades que possam comprometer o tr\u00e1fego das cidades sem que haja previs\u00e3o de infraestrutura correspondente, a reten\u00e7\u00e3o especulativa de im\u00f3vel urbano que resulte na sua subutiliza\u00e7\u00e3o ou inutiliza\u00e7\u00e3o, a\u00a0<strong>deteriora\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanizadas<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>degrada\u00e7\u00e3o ambiental<\/strong>.<\/p>\n<p>Os princ\u00edpios de direito urban\u00edstico que correspondem \u00e0s diretrizes gerais da<strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/587974-moradia-urbana-tem-que-levar-em-consideracao-a-politica-urbana-principalmente-de-terra-urbana-entrevista-especial-com-erminia-maricato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pol\u00edtica urbana<\/a><\/strong>, conforme o artigo 2\u00ba do\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>, buscam instituir o paradigma da fun\u00e7\u00e3o socioambiental [1] da cidade e da propriedade urbana. Em vista disso, seu conte\u00fado vai de encontro ao paradigma cl\u00e1ssico da propriedade individual plena e perp\u00e9tua institu\u00eddo no Brasil desde a Lei de Terras de 1850, revolucionando a forma espec\u00edfica de uso e direitos sobre a terra estabelecida nos \u00faltimos s\u00e9culos de hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o social entre a humanidade e o territ\u00f3rio no Brasil.<\/p>\n<p>Durante o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/17\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">II F\u00f3rum Social Mundial<\/a>, um ano ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>, o\u00a0<strong>F\u00f3rum Nacional da Reforma Urbana<\/strong>\u00a0prop\u00f5e a\u00a0<strong>Carta Mundial pelo Direito \u00e0 Cidade<\/strong>, documento que enfatiza o papel das cidades como espa\u00e7os onde o usufruto coletivo da riqueza, da cultura, de bens e conhecimentos sejam garantidos a todos os seus habitantes. Na mesma ordem de defini\u00e7\u00f5es do\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>, a\u00a0<strong>Carta Mundial pelo Direito \u00e0 Cidade<\/strong>\u00a0\u00e9 um instrumento jur\u00eddico-pol\u00edtico internacional que confere legitimidade \u00e0s demandas de movimentos sociais, sociedade civil e governos para assegurar o pleno exerc\u00edcio do direito a um padr\u00e3o de vida adequado, fortalecendo a import\u00e2ncia do debate sobre a cidade e constituindo-se como um referencial pol\u00edtico, social e econ\u00f4mico, ao mesmo tempo em que se constitui como um conjunto de princ\u00edpios orientadores dos processos de produ\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o das cidades, al\u00e9m de uma carta de direitos, deveres, mecanismos de exigibilidade e fiscaliza\u00e7\u00e3o na orienta\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o dos agentes p\u00fablicos e privados nas cidades.<\/p>\n<p>O impacto desses direitos na vida dos sujeitos pode ser analisado como um\u00a0<strong>processo de amplia\u00e7\u00e3o de cidadania<\/strong>\u00a0que se d\u00e1 a partir da consagra\u00e7\u00e3o normativa de que a\u00a0<strong>moradia<\/strong>\u00a0\u00e9 um\u00a0<strong>direito<\/strong>\u00a0a ser assegurado a todos, da mesma forma que deve ser assegurada a participa\u00e7\u00e3o direta dos cidad\u00e3os nos processos decis\u00f3rios da cidade. A possibilidade de amplia\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio da cidadania est\u00e1 em colocar o\u00a0<strong>Plano Diretor<\/strong>\u00a0e as decis\u00f5es importantes da cidade em uma esfera de debate com a popula\u00e7\u00e3o na busca de realizar as melhores estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio: os cidad\u00e3os em geral (e n\u00e3o apenas os \u201cclientes\u201d dos planos e leis de zoneamento, aqueles que, por terem interesse ou relacionamento econ\u00f4mico com o parcelamento do solo urbano, dominam a linguagem e a utiliza\u00e7\u00e3o das leis correspondentes) deixam de ser apenas \u201cconsultados\u201d, mas passam a ter um papel ativo nos processos decis\u00f3rios. N\u00e3o se pode perder de vista que onde h\u00e1\u00a0<strong>regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria<\/strong>\u00a0e coparticipa\u00e7\u00e3o do Estado e dos cidad\u00e3os na vida das cidades, h\u00e1 potencial\u00a0<strong>redu\u00e7\u00e3o de desigualdades sociais<\/strong>\u00a0e de\u00a0<strong>viol\u00eancia<\/strong>\u00a0nessas cidades. A viol\u00eancia emerge nos espa\u00e7os onde o\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0n\u00e3o se faz presente.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como compreender a viola\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos \u00e0 moradia e \u00e0 cidade que ocorre no Brasil atualmente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0\u00c9 importante situar esses direitos e as lutas sociais que os prescindem no contexto atual, de aumento significativo de\u00a0<strong>despejos e deslocamentos compuls\u00f3rios<\/strong>\u00a0nas grandes cidades, somado \u00e0s\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/278\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crises do capitalismo financeiro<\/a>\u00a0p\u00f3s-colapso do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/551135-wall-street-autoconsciente-e-cinica-no-filme-qa-grande-apostaq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sistema financeiro globalizado de 2008<\/a>. Isso tudo se reflete diretamente na produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano constitu\u00eddo, especialmente na\u00a0<strong>moradia<\/strong>, e nos coloca diante da constru\u00e7\u00e3o de uma hegemonia ideol\u00f3gica e pr\u00e1tica de um modelo de urbaniza\u00e7\u00e3o sem planejamento territorial, no qual a habita\u00e7\u00e3o se transforma em ativo financeiro. Nesse contexto, a propriedade individual cl\u00e1ssica, escriturada e devidamente registrada em cart\u00f3rio, desponta como um dos meios mais poderosos de exclus\u00e3o social e territorial. Os territ\u00f3rios acabam se reduzindo a espa\u00e7os estritos de valor econ\u00f4mico e de perspectivas de rendimentos futuros, motivo pelo qual a perpetua\u00e7\u00e3o da propriedade se torna uma condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia no mundo dos contratos e das finan\u00e7as.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">A propriedade individual cl\u00e1ssica, escriturada e devidamente registrada em cart\u00f3rio, desponta como um dos meios mais poderosos de exclus\u00e3o social e territorial &#8211; Karina Fernandes<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Diante do crescimento da\u00a0<strong>propriedade<\/strong>\u00a0e da\u00a0<strong>habita\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0como fronteiras de\u00a0<strong>expans\u00e3o do capital financeiro<\/strong>, o planejamento territorial urbano se mostra imprescind\u00edvel \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de cidades que se pretendem inseridas em um\u00a0<strong>Estado Democr\u00e1tico de Direito<\/strong>, como ocorre no Brasil. Ao contr\u00e1rio disso, o fortalecimento do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/549853-colonizacao-da-moradia-na-era-das-financas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">complexo imobili\u00e1rio-financeiro<\/a>\u00a0tem como principal impacto a despossess\u00e3o massiva de territ\u00f3rios, o empobrecimento substancial da popula\u00e7\u00e3o \u2014 desde a cria\u00e7\u00e3o da categoria de\u00a0<strong>pobres urbanos<\/strong>\u00a0\u201csem lugar\u201d at\u00e9 os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o estruturados a partir da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6018-maurizio-lazzarato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">l\u00f3gica capital do endividamento<\/a>\u00a0\u2014 e a segrega\u00e7\u00e3o social cada vez mais profunda das cidades. No cen\u00e1rio brasileiro, verifica-se um padr\u00e3o colonial de cidade a partir do que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579445-raquel-rolnik-a-captura-da-politica-habitacional-pela-logica-financeira-e-perversa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Raquel Rolnik<\/a>\u00a0denomina de\u00a0<strong>coloniza\u00e7\u00e3o dos lugares<\/strong>.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, as possibilidades de concretiza\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria no Brasil<\/strong>t\u00eam se verificado no direito urban\u00edstico, tanto pela via judicial, quanto pela via administrativa. Consequentemente, emergem como principais entraves \u00e0 via p\u00fablica de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria a fragilidade da esfera local, na gest\u00e3o de processos complexos e conflitivos, pela descontinuidade administrativa, atrav\u00e9s de pactos locais eleitorais que dificultam o manejo do aparato legal protetivo de direitos coletivos contra segmentos sociais empoderados e patrimonializados, al\u00e9m do desaparelhamento te\u00f3rico, pol\u00edtico e material de \u00f3rg\u00e3os como a\u00a0<strong>Defensoria P\u00fablica<\/strong>, \u00f3rg\u00e3os urban\u00edsticos locais e dos movimentos sociais.<\/p>\n<p>A consolidada posi\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>direito de propriedade<\/strong>, sobretudo a partir da sedimenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que lhe deu o<strong>\u00a0liberalismo jur\u00eddico<\/strong>\u00a0monista dos s\u00e9culos XIX e XX, contribui para o incremento do seu car\u00e1ter excludente, de maneira que passa a ser um direito alheio \u00e0 pluralidade e \u00e0s superposi\u00e7\u00f5es de dom\u00ednios ou, em outras palavras, o direito de propriedade \u00e9 tangente, mas n\u00e3o convergente ao\u00a0<strong>direito de moradia<\/strong>\u00a0e \u00e0\u00a0<strong>regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria<\/strong>\u00a0registral.<\/p>\n<p><strong>A periferiza\u00e7\u00e3o em larga escala<\/strong><\/p>\n<p>De outro lado, a\u00a0<strong>exclus\u00e3o urban\u00edstica no Brasil<\/strong>, determinada pelo crescimento das cidades atrav\u00e9s da\u00a0<strong>exclus\u00e3o social<\/strong>\u00a0e da segrega\u00e7\u00e3o espacial, fez com que se formasse um contexto de urbaniza\u00e7\u00e3o da pobreza, na informalidade do acesso ao uso e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do solo e da moradia nas cidades. Com isso, instaurou-se tamb\u00e9m um contingente vasto de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/observasinos\/vale\/moradia\/o-abismo-da-moradia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">assentamentos irregulares nas cidades<\/a>, formando-se, assim, uma\u00a0<strong>zona de ilegalidade habitacional<\/strong>\u00a0em paralelo \u00e0\u00a0<strong>legalidade urban\u00edstica<\/strong>.<\/p>\n<p>Ao definir formas proibidas e permitidas de produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, a legisla\u00e7\u00e3o define espa\u00e7os dentro e fora da lei, o que gera uma s\u00e9rie de discrimina\u00e7\u00f5es e exclus\u00f5es. Al\u00e9m do descaso do Estado em rela\u00e7\u00e3o aos territ\u00f3rios ilegais ou irregulares, bem como aos seus respectivos ocupantes, a legisla\u00e7\u00e3o urban\u00edstica tem forte atua\u00e7\u00e3o no estabelecimento de um\u00a0<strong>mercado imobili\u00e1rio<\/strong>\u00a0que privilegie a\u00a0<strong>rentabilidade do capital<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">A periferiza\u00e7\u00e3o em larga escala \u00e9 um dos mais expressivos exemplos do poder da legisla\u00e7\u00e3o utilizada em favor do poder p\u00fablico para acabar com os focos de moradias pobres &#8211; Karina Fernandes<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ademais, a ilegalidade urbana tem, historicamente, o poder de formar espa\u00e7os elitizados\/centrais e espa\u00e7os marginalizados\/perif\u00e9ricos, uma vez que o modelo de legalidade foi tradicionalmente acess\u00edvel \u00e0s elites endinheiradas, sobrando o restante ilegal \u00e0 maioria pobre. A <strong>periferiza\u00e7\u00e3o em larga escala<\/strong>\u00a0\u00e9 um dos mais expressivos exemplos do poder da legisla\u00e7\u00e3o utilizada em favor do poder p\u00fablico para acabar com os focos de moradias pobres.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o legal\/ilegal que permeia os contornos da cidade e da\u00a0<strong>quest\u00e3o urbana<\/strong>\u00a0repercute na converg\u00eancia objetiva de uma nova configura\u00e7\u00e3o urbana, chamada de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?client=internal-uds-cse&amp;cx=001663938647112038785:048jb5ntigg&amp;q=http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/568817-a-cidade-mercadoria-e-os-limites-da-reforma-urbana-brasileira-entrevista-especial-com-pedro-arantes&amp;sa=U&amp;ved=2ahUKEwjFmO_yn5njAhXKHLkGHfmaDDYQFjAAegQIBhAC&amp;usg=AOvVaw0jxYTsrZ049HGWPAZ98rXH\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cidade-mercadoria<\/a>\u00a0ou<strong>\u00a0cidade-empresa-cultura<\/strong>, na qual a cidade tem uma gest\u00e3o urbana empresarial, respaldada pelo direito de propriedade do solo, o que produz um crescimento exponencial da ilegalidade, especialmente quanto \u00e0 moradia.<\/p>\n<p>Considerando que a\u00a0<strong>ocupa\u00e7\u00e3o ilegal do solo ou da terra urbana<\/strong>\u00a0constitui o\u00a0<strong>modelo de desenvolvimento urban\u00edstico<\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, a aplica\u00e7\u00e3o da lei pode ser vista como um instrumento de poder arbitr\u00e1rio; n\u00e3o obstante os instrumentos normativos que visam a efetiva\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 cidade, as cidades seguem crescendo de modo predat\u00f3rio, reproduzindo caracter\u00edsticas pr\u00f3prias da colonialidade do poder e que denotam uma realidade na qual se pode denominar a cidade contempor\u00e2nea do capital como a cidade colonial.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por que, ainda hoje, \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil assegurar o direito \u00e0 moradia digna?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0Em pesquisa organizada pela\u00a0<strong>Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 ONU<\/strong>\u00a0em 2005, estimou-se que mais de 100 milh\u00f5es de pessoas no mundo vivem em situa\u00e7\u00e3o de rua e, das quase sete bilh\u00f5es de pessoas no mundo, 1,6 bilh\u00e3o n\u00e3o t\u00eam moradia adequada. No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, embora sejam escassas as pesquisas quantitativas a respeito da\u00a0<strong>situa\u00e7\u00e3o de moradia<\/strong>, em 2008 foi realizada uma pesquisa em 71 cidades pelo\u00a0<strong>Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome<\/strong>, cuja conclus\u00e3o apontava para 30 mil o n\u00famero de pessoas vivendo sem moradia. Em 2013, pesquisas demonstravam que o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua passava dos cinco mil no Rio de Janeiro e dos 15 mil em S\u00e3o Paulo. \u00c9 importante observar que ap\u00f3s tr\u00eas anos, em 2016, a cidade do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/568377-populacao-em-situacao-de-rua-aumenta-mais-de-150-em-3-anos-no-rio-de-janeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rio de Janeiro viu este n\u00famero triplicar<\/a>: 14,2 mil pessoas n\u00e3o t\u00eam moradia naquela cidade.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">Mais de 100 milh\u00f5es de pessoas no mundo vivem em situa\u00e7\u00e3o de rua e, das quase sete bilh\u00f5es de pessoas no mundo, 1,6 bilh\u00e3o n\u00e3o t\u00eam moradia adequada &#8211; Karina Fernandes<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O\u00a0<strong>direito \u00e0 moradia<\/strong>\u00a0representa, portanto, um grande desafio aos governos em todas as esferas: municipal, estadual e federal. \u00c9 necess\u00e1rio que se estabele\u00e7am pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes no sentido de garantir o que est\u00e1 na\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>\u00a0\u2014 e realizar o direito que todos t\u00eam a um n\u00edvel adequado de vida, no que se inclui a moradia digna. Entretanto, o que acontece \u00e9 que o sal\u00e1rio n\u00e3o cobre o custo de vida nas grandes cidades, cujos lugares centrais e mais bem equipados com infraestrutura adequada est\u00e3o destinados \u00e0s pessoas mais endinheiradas. Resta, ent\u00e3o, ao povo trabalhador mais pobre morar e fazer sua vida nas periferias, autoconstruindo sua moradia, muitas vezes de forma prec\u00e1ria (r\u00fastica ou improvisada) e sem condi\u00e7\u00f5es adequadas de salubridade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual deve ser o papel do Estado na regula\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 terra e \u00e0 propriedade, a fim de, a partir dessa regula\u00e7\u00e3o, assegurar o direito \u00e0 moradia? E como, na pr\u00e1tica, esse papel vem sendo desempenhado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0O\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0tem o dever de assegurar o cumprimento da\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>, que estabelecem a pol\u00edtica da\u00a0<strong>ordem jur\u00eddico-urban\u00edstica<\/strong>\u00a0e est\u00e3o assentados na gest\u00e3o democr\u00e1tica da cidade e na sua fun\u00e7\u00e3o social, o que nos leva \u00e0 fun\u00e7\u00e3o social da propriedade urbana. O\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>, nesse sentido, consagra especialmente a limita\u00e7\u00e3o do direito privado de propriedade ao definir o potencial construtivo dos terrenos, assim como sujeita \u00e1reas vazias ou subutilizadas localizadas em \u00e1reas de infraestrutura (\u00e1reas que cont\u00eam, principalmente, pavimenta\u00e7\u00e3o, saneamento, ilumina\u00e7\u00e3o, transporte) ao pagamento de\u00a0<strong>IPTU progressivo<\/strong>\u00a0no tempo e a edifica\u00e7\u00e3o e parcelamento compuls\u00f3rios, conforme a destina\u00e7\u00e3o espec\u00edfica determinada pelo\u00a0<strong>Plano Diretor<\/strong>\u00a0de cada cidade. Surgem como meio de intera\u00e7\u00e3o entre a\u00a0<strong>regula\u00e7\u00e3o urbana<\/strong>\u00a0e a l\u00f3gica de forma\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>pre\u00e7os no mercado imobili\u00e1rio<\/strong>\u00a0e potencializam o enfrentamento da expans\u00e3o horizontal ilimitada e do triunfo do mercado imobili\u00e1rio gerador de\u00a0<strong>capital especulativo<\/strong>. Na pr\u00e1tica, contudo, o que se verifica \u00e9 que as cidades seguem a<strong>\u00a0l\u00f3gica do mercado financeiro<\/strong>\u00a0e a moradia, consequentemente, passa a ser relegada a um direito de segunda ordem. H\u00e1 diversas\u00a0<strong>ocupa\u00e7\u00f5es urbanas Brasil<\/strong>\u00a0afora que, n\u00e3o obstante o preconceito que lhes \u00e9 dirigido generalizadamente, atendem \u00e0s necessidades de moradia para al\u00e9m da l\u00f3gica da casa pr\u00f3pria individual de maneira nunca contemplada por qualquer pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Um\u00a0<strong>programa de moradia<\/strong>\u00a0eficaz deveria contar, no m\u00ednimo, com um estoque de moradia capaz de funcionar como casa de acolhimento, com estrutura plaus\u00edvel de oferecer um padr\u00e3o de vida digno a quem sofre a perda deste direito por diversos motivos, como, por exemplo, os altos pre\u00e7os do aluguel, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, a\u00a0<strong>viol\u00eancia urbana<\/strong>\u00a0de territ\u00f3rios tomados pelo tr\u00e1fico de drogas ou por mil\u00edcias. As v\u00edtimas desse caos necessitam de um suporte do Estado para seguirem suas vidas. No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, atualmente n\u00e3o existe um programa de atendimento nesses par\u00e2metros e, pior, h\u00e1 um hist\u00f3rico de\u00a0<strong>produ\u00e7\u00e3o massiva de moradias populares<\/strong>, concedidas mediante subs\u00eddio, que al\u00e9m de n\u00e3o resolverem o problema da moradia em si, n\u00e3o foram acompanhadas por igual produ\u00e7\u00e3o de cidade, o que faz com que especialistas no assunto, como\u00a0<strong>Raquel Rolnik<\/strong>, afirmem que o nosso\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/556609-nosso-grande-problema-nao-e-o-deficit-de-moradia-mas-sim-o-deficit-de-cidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">d\u00e9ficit maior \u00e9 de cidade, n\u00e3o de moradia<\/a>.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">As cidades seguem a l\u00f3gica do mercado financeiro e a moradia, consequentemente, passa a ser relegada a um direito de segunda ordem &#8211; Karina Fernandes<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como a ideia de colonialidade do poder pode contribuir para compreendermos a exclus\u00e3o que ocorre nas grandes cidades, relegando pessoas a moradias n\u00e3o dignas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0O\u00a0<strong>conceito de colonialidade do poder<\/strong>, definido pelo soci\u00f3logo peruano\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579682-a-revolucao-das-ciencias-sociais-por-anibal-quijano-entrevista-com-cesar-baldi-fernanda-bragato-e-nelson-maldonado-torres\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">An\u00edbal Quijano<\/a>, designa um processo fundamental de estrutura\u00e7\u00e3o do sistema-mundo moderno e colonial, no qual se t\u00eam os lugares centrais e perif\u00e9ricos segundo a divis\u00e3o internacional do trabalho em articula\u00e7\u00e3o com a hierarquia \u00e9tnico-racial global e os crescentes movimentos migrat\u00f3rios de cidad\u00e3os de pa\u00edses terceiro-mundistas para as grandes cidades globais, interferindo tamb\u00e9m na hierarquia \u00e9tnico-racial desses lugares. De maneira que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6926-revisitando-anibal-quijano-e-a-colonialidade-do-poder-na-america-latina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">colonialidade<\/a>\u00a0\u00e9 o lado oculto da modernidade e seu percurso emancipat\u00f3rio, marcado por eventos intraeuropeus, tudo o que est\u00e1 para al\u00e9m do centro da ideia de\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0(pa\u00edses do\u00a0<strong>Norte Global<\/strong>\u00a0ou desenvolvidos) \u00e9 considerado perif\u00e9rico, e essa l\u00f3gica \u00e9 concretizada pelas exig\u00eancias de desenvolvimento impostas pelo\u00a0<strong>Banco Mundial<\/strong>\u00a0[2] e pelo\u00a0<strong>Fundo Monet\u00e1rio Internacional<\/strong>. Em outras palavras, a colonialidade explica o fato de que pa\u00edses considerados perif\u00e9ricos, situados no\u00a0<strong>Sul Global<\/strong>, ainda que n\u00e3o respondam a uma administra\u00e7\u00e3o colonial, estejam sempre sujeitos aos ditames de pa\u00edses centrais, do Norte Global, e aos organismos internacionais correspondentes.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>crescimento econ\u00f4mico<\/strong>\u00a0como condi\u00e7\u00e3o do desenvolvimento deve ser compreendido como base para uma s\u00e9rie de incompatibilidades na perspectiva dos direitos humanos, o que faz com que o\u00a0<strong>modelo de desenvolvimento<\/strong>\u00a0pautado pelo crescimento e pelo ac\u00famulo de capital seja eminentemente excludente e negativamente impactante na sociedade e na cultura de pa\u00edses considerados subdesenvolvidos ou perif\u00e9ricos, como o caso do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0e dos pa\u00edses da\u00a0<strong>Am\u00e9rica Latina<\/strong>, que sobrevivem \u00e0s custas de uma economia de depend\u00eancia. Na realidade pol\u00edtica atual, em que anos de\u00a0<strong>governos de esquerda<\/strong>, ap\u00f3s assumirem o legado deixado por diversos\u00a0<strong>governos neoliberais<\/strong>, foram novamente substitu\u00eddos por governos neoliberais, a pol\u00edtica e a cultura de desenvolvimento pelo crescimento agravam a tens\u00e3o entre os setores que se beneficiam do crescimento e setores que devem pagar o custo dessas pol\u00edticas. O lado mais fraco de tais polos, quem mais necessita do Estado, acaba sendo considerado um \u201cobst\u00e1culo\u201d ao crescimento do pa\u00eds e, com isso, tanto a estigmatiza\u00e7\u00e3o dessas pessoas quanto a nega\u00e7\u00e3o dos seus direitos passam a servir de justificativa para o \u201c<strong>bem-estar social<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Essa tens\u00e3o entre os poucos que s\u00e3o beneficiados e os muitos que s\u00e3o prejudicados \u00e9 corol\u00e1rio de d\u00e9ficits democr\u00e1ticos, circunstanciados pelo distanciamento que existe entre as pessoas atingidas pelo desenvolvimentismo e os centros pol\u00edticos e econ\u00f4micos, o que constitui um fato de silenciamento das lutas por um desenvolvimento includente e menos violento. A\u00a0<strong>desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o da riqueza<\/strong>\u00a0\u00e9 a mais profunda da hist\u00f3ria da humanidade, sendo not\u00f3ria a concentra\u00e7\u00e3o crescente do dinheiro global nas m\u00e3os das\u00a0<strong>grandes corpora\u00e7\u00f5es do capital<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Deslocamentos compuls\u00f3rios<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dos deslocamentos compuls\u00f3rios no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0\u00e9 um exemplo disso. Ocorrem, no campo e na cidade, \u00e0 margem de qualquer participa\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es atingidas, que muitas vezes n\u00e3o t\u00eam sequer a possibilidade de decidir sobre os rumos das suas pr\u00f3prias vidas, diante da falta de informa\u00e7\u00e3o sobre os processos de remo\u00e7\u00f5es e desalojamentos for\u00e7ados \u2014 e quando determinados setores atingidos s\u00e3o informados, n\u00e3o raro passam a ser cooptados para atender aos interesses do poder p\u00fablico. Os\u00a0<strong>locais de reassentamento<\/strong>\u00a0n\u00e3o lhes oferecem as mesmas condi\u00e7\u00f5es de vida que existiam antes dos deslocamentos e as repara\u00e7\u00f5es pecuni\u00e1rias chegam a ser esdr\u00faxulas, considerando-se o valor indenizado, a forma e o objeto da indeniza\u00e7\u00e3o. Considerando que o desenvolvimento includente requer a garantia do exerc\u00edcio dos direitos civis, c\u00edvicos e pol\u00edticos por meio de uma gest\u00e3o democr\u00e1tica, \u00e9 poss\u00edvel concluir que existe uma grande dist\u00e2ncia entre o desenvolvimento social, includente e propagador de direitos e o desenvolvimento colocado em pr\u00e1tica, alheio a uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/532341-democracia-participativa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">democracia participativa<\/a>, direta, capaz de criar melhores condi\u00e7\u00f5es para o debate dos assuntos de interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A l\u00f3gica global que for\u00e7a as pessoas a migrarem por quest\u00f5es econ\u00f4micas \u00e9 a mesma que for\u00e7a os deslocamentos no espa\u00e7o urbano? Como isso ocorre? Quais as semelhan\u00e7as e distin\u00e7\u00f5es nesses dois cen\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0Diferentemente do\u00a0<strong>conceito tradicional de migrante<\/strong>, que, segundo a\u00a0<strong>ONU<\/strong>, \u00e9 \u201ca pessoa que se deslocou a uma dist\u00e2ncia m\u00ednima especificada pelo menos uma vez durante o intervalo de migra\u00e7\u00e3o considerado\u201d e que parece relegar a migra\u00e7\u00e3o a um mero ato de vontade, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/558057-os-refugiados-e-migrantes-forcados-da-america-latina-entrevista-especial-com-roberto-jaramillo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">deslocado compuls\u00f3rio<\/a>\u00a0\u00e9 aquele que n\u00e3o escolheu a migra\u00e7\u00e3o, mas foi atingido por fatores externos que o levaram a isso, como guerras, conjunturas sociopol\u00edticas e econ\u00f4micas e fatores estruturais na cidade e no campo. Quando o deslocamento ocorre dentro das fronteiras do mesmo pa\u00eds, a situa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria pode ainda se agravar, se consideradas as aus\u00eancias ou\u00a0<strong>defici\u00eancias de pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong>\u00a0destinadas a salvaguardar os interesses dessa categoria de\u00a0<strong>migrantes n\u00e3o estrangeiros<\/strong>.<\/p>\n<p>Os deslocamentos no\u00a0<strong>espa\u00e7o urbano<\/strong>\u00a0est\u00e3o diretamente relacionados \u00e0 aus\u00eancia de interesse por parte dos Estados em atender aos problemas de quem \u00e9 obrigado a se deslocar em decorr\u00eancia da infraestrutura urbana. S\u00e3o milhares de pessoas atingidas por remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, ou seja, que s\u00e3o obrigadas a deixar suas casas em prol de obras de\u00a0<strong>desenvolvimento urbano<\/strong>, mesmo que tais obras firam diretamente a dignidade dessas pessoas. Esse modelo gera uma s\u00e9rie de problemas de ordem infraestrutural no\u00a0<strong>espa\u00e7o urbano<\/strong>, formando esse grupo de pessoas involuntariamente deslocadas dos seus lugares de identifica\u00e7\u00e3o e pertencimento, o que se verifica de forma bastante evidente na gest\u00e3o das grandes cidades, especialmente no que tange \u00e0\u00a0<strong>quest\u00e3o habitacional<\/strong>\u00a0e de\u00a0<strong>regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria<\/strong>, onde se pode vislumbrar claramente a segrega\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Dessa forma, v\u00e1rios aspectos devem ser considerados tendo em vista as causas e consequ\u00eancias do deslocamento for\u00e7ado, bem como as viola\u00e7\u00f5es de direitos dos atingidos pelo deslocamento. A aus\u00eancia de uma pol\u00edtica de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria possibilita a\u00a0<strong>grilagem de terras<\/strong>\u00a0e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588214-gentrificacao-resposta-radical-em-berlim\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">gentrifica\u00e7\u00e3o<\/a>. Al\u00e9m disso, o uso e o aproveitamento da terra e do espa\u00e7o urbano para fomento do\u00a0<strong>capitalismo<\/strong>, com a realiza\u00e7\u00e3o de empreendimentos de m\u00e9dio e grande porte, sup\u00f5em uma situa\u00e7\u00e3o de anormalidade para o exerc\u00edcio do\u00a0<strong>direito \u00e0 terra<\/strong>,\u00a0<strong>\u00e0 moradia<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>\u00e0 cidade<\/strong>\u00a0dos atingidos.<\/p>\n<p>Essas concentra\u00e7\u00f5es e dispers\u00f5es populacionais, compuls\u00f3rias ou n\u00e3o, foram marcadas por mudan\u00e7as comportamentais diretamente relacionadas \u00e0\u00a0<strong>acumula\u00e7\u00e3o de capital<\/strong>, bens e servi\u00e7os, bem como ao consumo, inserindo-se diretamente na\u00a0<strong>l\u00f3gica urban\u00edstica de desenvolvimento capitalista<\/strong>. Isso repercutiu diretamente nas rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia da economia internacional, na reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, na precariza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, al\u00e9m das altera\u00e7\u00f5es relativas ao lugar das atividades no espa\u00e7o do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Fluxos migrat\u00f3rios<\/strong><\/p>\n<p>Os\u00a0<strong>fluxos migrat\u00f3rios<\/strong>\u00a0est\u00e3o diretamente relacionados, pois, com a presen\u00e7a do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/557367-o-papel-do-estado-na-economia-critica-a-escola-austriaca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Estado na regula\u00e7\u00e3o da economia<\/a>\u00a0e na defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de desenvolvimento, quase sempre posicionadas estrategicamente a favor do\u00a0<strong>capital<\/strong>, ainda que isso importe na precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e na\u00a0<strong>flexibiliza\u00e7\u00e3o das legisla\u00e7\u00f5es administrativas e tribut\u00e1rias<\/strong>. A possibilidade de crescimento econ\u00f4mico, motiva\u00e7\u00e3o principal dos movimentos migrat\u00f3rios volunt\u00e1rios, parece que tem sido motivo de segrega\u00e7\u00e3o de muitas pessoas, que, n\u00e3o raro, encontram-se na contram\u00e3o das realiza\u00e7\u00f5es dos projetos de desenvolvimento adotados por determinados Estados.<\/p>\n<p>Como vimos, h\u00e1 muitas semelhan\u00e7as em ambos os cen\u00e1rios, mas as distin\u00e7\u00f5es s\u00e3o fulcrais: enquanto a\u00a0<strong>migra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria<\/strong>\u00a0n\u00e3o pressup\u00f5e necessariamente a desterritorializa\u00e7\u00e3o das pessoas migrantes (a impossibilidade de se construir e exercer efetivo controle sobre seus territ\u00f3rios e sobre suas vidas), o\u00a0<strong>deslocamento compuls\u00f3rio<\/strong>\u00a0\u00e9 em si mesmo uma esp\u00e9cie de desterritorializa\u00e7\u00e3o, marcada por processos de profunda exclus\u00e3o socioecon\u00f4mica \u2014 contexto esse que influi diretamente no tipo de rela\u00e7\u00e3o das pessoas com o espa\u00e7o em que se inserem. O fato de que estes grupos sofrem com a precariza\u00e7\u00e3o das suas condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de vida, do acesso aos recursos b\u00e1sicos da cidade, assim como com a nega\u00e7\u00e3o de sua express\u00e3o simb\u00f3lico-cultural, significa que sofrem com a desterritorializa\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o necessariamente condiz com a mobilidade, mas, antes disso, com a opress\u00e3o que esses grupos enfrentam.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; De que forma podemos relacionar as ocupa\u00e7\u00f5es, especialmente de \u00e1reas urbanas, com o longo processo de viola\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos \u00e0 moradia e \u00e0 cidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0A aus\u00eancia de\u00a0<strong>infraestrutura b\u00e1sica<\/strong>\u00a0(saneamento, atendimento \u00e0 sa\u00fade, seguran\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o) em diversos espa\u00e7os da cidade, a aus\u00eancia de controle sobre os\u00a0<strong>pre\u00e7os do aluguel<\/strong>, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579597-minha-casa-minha-vida-piorou-cidades-e-alimentou-especulacao-imobiliaria-diz-ex-secretaria-do-governo-lula\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/a>\u00a0e a exposi\u00e7\u00e3o de diversas regi\u00f5es a riscos ambientais, como de deslizamentos e enchentes, \u00e9 diretamente associada ao\u00a0<strong>d\u00e9ficit de moradia<\/strong>\u00a0e de cidade que ora mencionei, e comp\u00f5e um contexto de vulnerabilidade generalizado que exige a firma\u00e7\u00e3o de um programa p\u00fablico que atenda as pessoas atingidas nesse contexto. As\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7516-o-abismo-da-moradia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ocupa\u00e7\u00f5es de \u00e1reas urbanas<\/a>surgem para preencher esta aus\u00eancia do Estado e costumam ocorrer em pr\u00e9dios vazios e subutilizados, bem localizados nas cidades, que j\u00e1 foram moradia ou espa\u00e7os comerciais. Esses locais, que n\u00e3o est\u00e3o habilitados para produzir moradia, acabam constituindo\u00a0<strong>vazios urbanos<\/strong>\u00a0e servindo ao\u00a0<strong>capital especulativo<\/strong>, \u00e0 margem do Estado.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">As ocupa\u00e7\u00f5es de \u00e1reas urbanas surgem para preencher esta aus\u00eancia do Estado &#8211; Karina Fernandes<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Da mesma forma, h\u00e1 muitos territ\u00f3rios populares nas cidades, que foram autoconstru\u00eddos e que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de serem habilitados para moradia, mas em que o Estado n\u00e3o chega para cumprir seu dever. Nesses lugares, as ocupa\u00e7\u00f5es assumem o papel do Estado e realizam pol\u00edtica urban\u00edstica para as pessoas que vivem ali, garantindo moradia, acesso \u00e0 cidade, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao saneamento b\u00e1sico, \u00e0 cidadania e \u00e0 cultura conforme assegurado pela\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o Federal da Rep\u00fablica<\/strong>Federativa do Brasil de 1988 e por tratados dos quais o Estado brasileiro \u00e9 signat\u00e1rio, como o\u00a0<strong>Pacto de San Salvador<\/strong>.<\/p>\n<p>Como exemplo de benef\u00edcios trazidos por uma ocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 o acesso ao centro da cidade, que representa, invariavelmente, significativas melhorias na condi\u00e7\u00e3o de vida das pessoas ocupantes, que passam a ter condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 rede municipal de servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, bem como aos transportes p\u00fablicos. Outro benef\u00edcio significativo est\u00e1 em propiciar a forma\u00e7\u00e3o de uma rede de solidariedade e participa\u00e7\u00e3o social na cidade, conforme a autogest\u00e3o dos moradores e sua organiza\u00e7\u00e3o para que a ocupa\u00e7\u00e3o seja considerada um espa\u00e7o de debate e de\u00a0<strong>uso coletivo da cidade<\/strong>. Em uma ocupa\u00e7\u00e3o, \u00e9 comum ocorrer um empoderamento das pessoas que antes viviam em situa\u00e7\u00e3o de abandono e exclus\u00e3o e que passam n\u00e3o s\u00f3 a ter consci\u00eancia de seus direitos e habilidades, como a defend\u00ea-los.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2019\/Eventos\/cartaz_a3_novo-01.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><em>Campanha Uni S\u00e3o Leo Cidad\u00e3: Comunidade Steigleder Sem Fome<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual o papel do Estado e da sociedade no caso das ocupa\u00e7\u00f5es urbanas? Como conceber alternativas que v\u00e3o al\u00e9m da remo\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0O\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0tem o dever de aliviar as tens\u00f5es inerentes \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es urbanas e auxiliar na composi\u00e7\u00e3o de todos os interesses envolvidos. Com o advento da\u00a0<strong>Lei n\u00ba. 13.465\/17<\/strong>\u00a0(<strong>Lei da Regulariza\u00e7\u00e3o Fundi\u00e1ria<\/strong>, tamb\u00e9m conhecida como\u00a0<strong>Reurb<\/strong>), cabe ao Estado identificar n\u00facleos urbanos informais, criar unidades imobili\u00e1rias compat\u00edveis com o planejamento urbano, priorizar a perman\u00eancia dos ocupantes no local, prevenir a forma\u00e7\u00e3o de novos n\u00facleos urbanos informais, conceder direitos reais, e possibilitar a participa\u00e7\u00e3o dos interessados nas etapas da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. Com a\u00a0<strong>Reurb<\/strong>, a remo\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias passa a ser o \u00faltimo caso a ser considerado em um processo que prioriza a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Xob7x1Ys2jw\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Reurb<\/strong><\/p>\n<p>Esta lei opera sob duas modalidades:\u00a0<strong>Reurb-S<\/strong>, de interesse social, aplic\u00e1vel aos n\u00facleos ocupados predominantemente por popula\u00e7\u00e3o de baixa renda e assim declarados em ato do\u00a0<strong>Poder Executivo municipal<\/strong>, e\u00a0<strong>Reurb-E<\/strong>, aplic\u00e1vel aos n\u00facleos urbanos ocupados por popula\u00e7\u00e3o com outra qualifica\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso de ocupa\u00e7\u00f5es de propriedades privadas. Tanto os benefici\u00e1rios quanto o\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0(Minist\u00e9rio P\u00fablico, Defensoria P\u00fablica, Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica direta e indireta) e at\u00e9 mesmo os propriet\u00e1rios privados podem requerer a Reurb e h\u00e1 uma s\u00e9rie de instrumentos jur\u00eddicos que podem ser utilizados na sua aplica\u00e7\u00e3o. A\u00a0<strong>legitima\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria<\/strong>, a compra e venda, a doa\u00e7\u00e3o, a usucapi\u00e3o, a desapropria\u00e7\u00e3o por interesse social ou em favor dos possuidores, o direito de preemp\u00e7\u00e3o, a concess\u00e3o de uso especial para fins de moradia, a concess\u00e3o de direito real de uso, s\u00e3o exemplos de instrumentos jur\u00eddicos que podem ser destinados \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria nos termos da Lei, o que explica que o\u00a0<strong>papel do Estado<\/strong>\u00a0exige uma postura ativa que\u00a0<strong>regularize as ocupa\u00e7\u00f5es urbanas<\/strong>\u00a0da melhor forma poss\u00edvel aos moradores. \u00c0 sociedade, al\u00e9m do conhecimento dos instrumentos jur\u00eddicos e pol\u00edticos que est\u00e3o ao dispor da salvaguarda do direito \u00e0 moradia a todos e todas, cabe ampliar os espa\u00e7os de reflex\u00e3o e debate acerca da import\u00e2ncia dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/575672-da-cidade-que-desrespeita-a-cidadania-ao-direito-a-cidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">direitos \u00e0 cidade<\/a>\u00a0e \u00e0\u00a0<strong>moradia<\/strong>, al\u00e9m de promover o respeito e a prote\u00e7\u00e3o desses direitos, como fazem diversas organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A senhora pesquisou o impacto de megaeventos, como a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas, na viola\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos \u00e0 moradia e \u00e0 cidade. Nesse sentido, o que essas duas experi\u00eancias relegaram para as cidades brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0N\u00e3o se pode dizer que estas experi\u00eancias deixaram um significativo legado urban\u00edstico. Al\u00e9m de alguns projetos vi\u00e1rios e de infraestrutura relacionados com os deslocamentos necess\u00e1rios para esses eventos, o que a\u00a0<strong>Copa<\/strong>\u00a0e as\u00a0<strong>Olimp\u00edadas<\/strong>\u00a0deixam nas cidades \u00e9 o \u00f4nus das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/543246-olimpiadas-a-nova-justificativa-para-as-remocoes-no-rio-de-janeiro-entrevista-especial-com-gerardo-silva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas<\/a>\u00a0de comunidades e assentamentos que se encontravam h\u00e1 d\u00e9cadas nos locais marcados para o desenvolvimento de obras de infraestrutura. Esse impacto foi mais sentido no\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>, sede de ambos os\u00a0<strong>megaeventos esportivos<\/strong>, mas outras cidades, como\u00a0<strong>Porto Alegre<\/strong>, tamb\u00e9m foram afetadas. A expuls\u00e3o de setores de menor renda das \u00e1reas mais urbanizadas e o crescimento de periferias desqualificadas, sem urbanidade e condi\u00e7\u00f5es de vida razo\u00e1veis para a popula\u00e7\u00e3o, levou ao aumento da quantidade de pessoas morando na rua e sem teto. N\u00e3o h\u00e1 outros\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/557432-30-dias-para-as-olimpiadas-dividas-e-violencia-contra-a-populacao-ja-e-legado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">legados<\/a>\u00a0do ponto de vista urban\u00edstico que possam ser mencionados. A\u00e7\u00f5es esperadas, como a\u00a0<strong>despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara<\/strong>\u00a0e a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de saneamento gerais da cidade, n\u00e3o foram realizadas. Por outro lado, para a implanta\u00e7\u00e3o desses projetos de infraestrutura foi necess\u00e1rio remover comunidades e assentamentos que se encontravam naqueles locais h\u00e1 d\u00e9cadas sem que uma alternativa adequada de moradia tenha sido oferecida. Para as pessoas diretamente atingidas, ao inv\u00e9s de um legado, a Copa deixa um \u00f4nus.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 importante considerar que a mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil em resistir e defender as\u00a0<strong>conquistas jur\u00eddicas<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>pol\u00edticas relativizadas pelo Estado em nome do capital<\/strong>(como as remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, a privatiza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos, a repress\u00e3o generalizada) representa um dos poucos impactos positivos dos processos de realiza\u00e7\u00e3o dos\u00a0<strong>megaeventos no Brasil<\/strong>. Se o poder p\u00fablico desrespeita os direitos historicamente conquistados pela popula\u00e7\u00e3o, essa tem o direito e o dever de defend\u00ea-las, resistindo e enfrentado as viola\u00e7\u00f5es perpetradas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em que medida o mercado, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, contribui para exclus\u00e3o e d\u00e9ficit habitacional? Como enfrentar esse problema?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0\u00c9 necess\u00e1rio dizer que o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579445-raquel-rolnik-a-captura-da-politica-habitacional-pela-logica-financeira-e-perversa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">capital financeiro<\/a>\u00a0\u00e9 determinante na forma\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>d\u00e9ficit habitacional<\/strong>. Conforme demonstram pesquisas do\u00a0<strong>Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada &#8211; Ipea<\/strong>\u00a0e da\u00a0<strong>Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo &#8211; Fiesp<\/strong>, atualmente, o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0enfrenta um\u00a0<strong>d\u00e9ficit habitacional<\/strong>\u00a0de mais de\u00a0<strong>6,2 milh\u00f5es de moradias<\/strong>, indicador evidenciado quando ocorre pelo menos uma de quatro situa\u00e7\u00f5es: domic\u00edlios prec\u00e1rios (r\u00fasticos ou improvisados); situa\u00e7\u00e3o de coabita\u00e7\u00e3o (fam\u00edlias conviventes com inten\u00e7\u00e3o de se mudar ou residentes em c\u00f4modos); domic\u00edlios cujo valor do aluguel \u00e9 superior a 30% da renda domiciliar total (excedente de aluguel); e domic\u00edlios alugados com mais de tr\u00eas habitantes utilizando o mesmo c\u00f4modo (adensamento excessivo). Das\u00a0<strong>regi\u00f5es do Brasil<\/strong>, o\u00a0<strong>d\u00e9ficit habitacional<\/strong>\u00a0mais cr\u00edtico se encontra na regi\u00e3o Sudeste (2.562.117 domic\u00edlios), seguindo-se Nordeste (1.867.563 domic\u00edlios), Sul (658.360 domic\u00edlios), Norte (631.586 domic\u00edlios) e Centro-Oeste (478.668 domic\u00edlios).<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">O capital financeiro \u00e9 determinante na forma\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit habitacional &#8211; Karina Fernandes.<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>D\u00e9ficit habitacional<\/strong><\/p>\n<p>O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/578872-a-cidade-como-negocio-e-a-crise-habitacional-entrevista-especial-com-francisco-de-assis-comaru\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">d\u00e9ficit habitacional<\/a>\u00a0\u00e9 um indicador que contribui para a formula\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>pol\u00edtica habitacional<\/strong>, orientando especialmente os governos das cidades na especifica\u00e7\u00e3o das necessidades das moradias. O objetivo do indicador \u00e9 orientar os agentes p\u00fablicos respons\u00e1veis pela pol\u00edtica habitacional na constru\u00e7\u00e3o de programas capazes de suprir a demanda explicitada na estima\u00e7\u00e3o do indicador nas esferas municipal, estadual e federal.<\/p>\n<p>Para afirmar que o\u00a0<strong>d\u00e9ficit habitacional<\/strong>\u00a0tem liga\u00e7\u00e3o direta com a\u00a0<strong>financeiriza\u00e7\u00e3o do capital<\/strong>\u00a0\u00e9 importante localizar o leitor na chamada\u00a0<strong>mercantiliza\u00e7\u00e3o da moradia<\/strong>, que \u00e9 a transmuta\u00e7\u00e3o do valor social da moradia em ativo financeiro, fen\u00f4meno fortemente presente em economias capitalistas. A\u00a0<strong>mercantiliza\u00e7\u00e3o da moradia<\/strong>\u00a0ocorre pela cria\u00e7\u00e3o de um mercado secund\u00e1rio de hipotecas \u2014 composto por institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou semip\u00fablicas de habita\u00e7\u00e3o \u2014 e conectou sistemas regionais e globais de circula\u00e7\u00e3o de capital, alavancando o cr\u00e9dito e n\u00edveis jamais pensados antes. Esta conex\u00e3o dos sistemas financeiros de habita\u00e7\u00e3o \u00e0s finan\u00e7as tem na a\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0n\u00e3o apenas o papel de regula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de constru\u00e7\u00e3o da hegemonia pol\u00edtica da casa como mercadoria e ativo financeiro. Isso sem perder de vista o impacto enorme das mudan\u00e7as nas\u00a0<strong>pol\u00edticas habitacionais<\/strong>\u00a0e na\u00a0<strong>regula\u00e7\u00e3o urban\u00edstica<\/strong>\u00a0na constru\u00e7\u00e3o das cidades e da paisagem urbana.<\/p>\n<p>O investimento na<strong>\u00a0especula\u00e7\u00e3o de ativos financeiros<\/strong>\u00a0se mostrou como uma possibilidade mais fact\u00edvel de materializa\u00e7\u00e3o dos lucros: entre investimento na produ\u00e7\u00e3o de baixo lucro e em tomada de empr\u00e9stimos a taxas baixas ou inexistentes de juros em um pa\u00eds com a possibilidade de investimento do capital emprestado a altos \u00edndices de cobertura em outro, a segunda op\u00e7\u00e3o parecia bem mais interessante. A expans\u00e3o dos\u00a0<strong>excedentes de capital<\/strong>\u00a0ao n\u00edvel global permitiu a amplia\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito a n\u00edveis extremos, criando e inflando as chamadas bolhas predecessoras das crises e da ressurrei\u00e7\u00e3o do capital. Em uma<strong>\u00a0l\u00f3gica de endividamento<\/strong>\u00a0e investimento que pressup\u00f5e a especula\u00e7\u00e3o de ativos e tem como consequ\u00eancia a explos\u00e3o da d\u00edvida, o surgimento dos mais sofisticados mercados de derivativos e a forma\u00e7\u00e3o de bolhas e crises como meios de absor\u00e7\u00e3o de grande quantidade de capital excedente, desenvolve-se a pr\u00e1tica de<strong>\u00a0financeiriza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0da tend\u00eancia da crise, express\u00e3o utilizada por\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/573994-todos-devemos-participar-de-um-processo-revolucionario-que-nos-distancie-da-loucura-do-capitalismo-entrevista-com-david-harvey\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">David Harvey<\/a>\u00a0para expor a aus\u00eancia de limites na circula\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>capital financeiro<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PW_ejJOR0tM\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como analisa as lutas sociais pela busca do direito \u00e0 moradia? De que forma a resist\u00eancia pode tensionar transforma\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0A\u00a0<strong>moradia<\/strong>\u00a0\u00e9 uma plataforma de luta pol\u00edtica que re\u00fane diversas pautas sociais, mas que necessariamente reivindica cidade. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/512496-direito-de-resistencia-a-luta-pelo-direito-a-moradia-entrevista-especial-com-natalia-castilho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">luta pela moradia<\/a>\u00a0\u00e9 uma\u00a0<strong>luta territorial<\/strong>, de disputa dos espa\u00e7os representados e apropriados pela articula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e da economia na vida das pessoas. O territ\u00f3rio, nessa perspectiva, \u00e9 a luta essencial, \u00e9 o desafio \u00e0\u00a0<strong>dimens\u00e3o econ\u00f4mico-social<\/strong>\u00a0que envolve a propriedade, administra\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gias defensivas do direito \u00e0 moradia. Quando um movimento social se forma ou se articula em torno da defesa desse direito, da organiza\u00e7\u00e3o de pessoas atingidas pela viola\u00e7\u00e3o desse direito, da conscientiza\u00e7\u00e3o coletiva sobre sua import\u00e2ncia e seu impacto social, toda a sociedade se movimenta com ele \u2014 parafraseando a famosa fala de\u00a0<strong>Angela Davis<\/strong>: \u201cquando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o\u00a0<strong>territ\u00f3rio<\/strong>\u00a0\u00e9 um espa\u00e7o que possibilita o desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas sociais que proporcionem poder: individual, correlacional, multidimensional, material e imaterial, da mesma forma que \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o localizada no contexto hist\u00f3rico e geogr\u00e1fico, uma vez que pode ser local, global, pode ser articulador de conex\u00f5es em redes \u2014 de maneira que sempre corresponder\u00e1 \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de controle entre espa\u00e7o e poder. O mosaico de caracter\u00edsticas componentes do territ\u00f3rio o constitui enquanto significante de identidade nos processos ativos de identifica\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, em uma esp\u00e9cie de milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Tal perspectiva implica reconhecer que a\u00a0<strong>luta pela cidade e pela moradia<\/strong>, em suas dimens\u00f5es jur\u00eddica e espacial, \u00e9 composta por discursos e materialidades mutuamente relacionados. Em outras palavras, os significados pol\u00edticos atribu\u00eddos aos corpos e discursos, al\u00e9m de inerentes entre si mesmos, s\u00e3o diversos, de modo que a rua se mostra como a met\u00e1fora do espa\u00e7o em que se localizam os sujeitos de direito. Analisar, explicitar e debater o territ\u00f3rio requer, diante de seus diversos significados, um olhar amplo que considere a corporalidade e o discurso intr\u00ednsecos \u00e0s no\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica, geografia, direito e sociologia relacionadas a tais lutas. Ter a consci\u00eancia de que as lutas pela cidade e pela moradia, em ess\u00eancia, reivindicam territ\u00f3rio, implica em consider\u00e1-las de modo mais amplo e significativo, porque representam um desafio \u00e0 l\u00f3gica homog\u00eanea global.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais os maiores desafios para o problema da falta de moradia no Brasil de hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0O problema da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/188-noticias\/noticias-2018\/578549-a-queda-do-predio-ocupado-e-a-moradia-o-mercado-nao-resolvera-e-isso-pode-voltar-a-ocorrer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">falta de moradia<\/a>\u00a0resulta na an\u00e1lise da combina\u00e7\u00e3o entre a forma jur\u00eddica e a forma econ\u00f4mica. A partir disso, temos o encontro do direito com a realidade concreta, o que demonstra que o direito, sob o discurso da lei e da ordem como express\u00f5es da vontade geral ou do \u201cinteresse p\u00fablico\u201d, \u00e9 utilizado como um instrumento de estrat\u00e9gia de classe na produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano. Em outras palavras, a\u00a0<strong>legisla\u00e7\u00e3o urban\u00edstica<\/strong>\u00a0\u00e9 utilizada como um instrumento privilegiado para racionalizar o uso do espa\u00e7o em benef\u00edcio das classes dominantes. Isso, conforme os ensinamentos de\u00a0<strong>Roberto Lyra Filho<\/strong>, cria uma zona de antidireito, de oposi\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o ao direito em si.<\/p>\n<p><strong>Ordem urbana, desordem material<\/strong><\/p>\n<p>A suposta\u00a0<strong>ordem urbana<\/strong>, assim, \u00e9 camuflagem para a desordem material e concreta, permitida e incentivada pelo Estado, que dirige seus recursos, suas aten\u00e7\u00f5es, seus instrumentos jur\u00eddicos ao desenvolvimento do capital e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os destinados \u00e0s classes m\u00e9dias e altas na cidade. Enquanto isso, vazios pol\u00edticos se reproduzem nos\u00a0<strong>espa\u00e7os segregados<\/strong>\u00a0por essa ordem de prioridades e sustentam o discurso ideol\u00f3gico utilizado pelo pr\u00f3prio Estado no planejamento urbano: inseguran\u00e7a, caos e atraso. A\u00a0<strong>cidade tomada pelo capital<\/strong>\u00a0\u00e9 produzida e destinada a poucos.<\/p>\n<p>Diante disso, \u00e9 poss\u00edvel considerar que os principais desafios para o problema da\u00a0<strong>falta de moradia no Brasil<\/strong>\u00a0de hoje est\u00e3o, ainda hoje, no cumprimento da\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0e da lei quanto \u00e0 pol\u00edtica urbana, bem como na realiza\u00e7\u00e3o de um\u00a0<strong>programa nacional de habita\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0que atenda \u00e0s necessidades emergenciais das popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 moradia. Isso significa dizer que \u00e9 fundamental um esfor\u00e7o muito maior do Estado e da sociedade civil em realizar a\u00a0<strong>regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria<\/strong>\u00a0de assentamentos irregulares e de ocupa\u00e7\u00f5es de pr\u00e9dios urbanos, utilizando-se dos instrumentos de direito urban\u00edstico oferecidos pelo\u00a0<strong>Estatuto da Cidade<\/strong>\u00a0e, mais recentemente, pela lei da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. No \u00e2mbito cultural, um dos grandes desafios que fica \u00e9 o da amplia\u00e7\u00e3o do debate sobre o problema da falta de moradia e o modo como as pessoas que t\u00eam este direito violado s\u00e3o atingidas e se posicionam na sociedade, a fim de acabar com o estigma que geralmente acompanha o tema em diversos aspectos.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">O projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o do Cais Mau\u00e1 se trata de uma realidade espec\u00edfica de interven\u00e7\u00e3o urbana que n\u00e3o leva em conta os elementos sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos da cidade como um todo &#8211; Karina Fernandes<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que as disputas em torno da recupera\u00e7\u00e3o do Cais Mau\u00e1, em Porto Alegre, podem nos revelar acerca do direito \u00e0 cidade? E como, nesse caso em espec\u00edfico, compreender as l\u00f3gicas das colonialidade em territ\u00f3rios urbanos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/548213-o-cais-maua-e-as-barreiras-entre-o-guaiba-e-a-cidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o do Cais Mau\u00e1<\/a>\u00a0se trata de uma realidade espec\u00edfica de interven\u00e7\u00e3o urbana que n\u00e3o leva em conta os elementos sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos da cidade como um todo. Sob o discurso da\u00a0<strong>moderniza\u00e7\u00e3o<\/strong>, o\u00a0<strong>Poder P\u00fablico<\/strong>\u00a0apresenta as necessidades priorit\u00e1rias na gest\u00e3o do espa\u00e7o urbano e justifica, assim, o modo pelo qual busca atender a essas prioridades: o\u00a0<strong>caso do Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0demonstra a forma\u00e7\u00e3o de um vazio urbano como algo in\u00fatil a ser capitalizado por meio de uma parceria com a iniciativa privada que, como \u201csalvadora da p\u00e1tria\u201d, realizaria todos os investimentos que a prefeitura n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de realizar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lmheI6wwS5o\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Nessa perspectiva, as\u00a0<strong>leis urban\u00edsticas<\/strong>\u00a0s\u00e3o manipuladas de modo a conferir um cen\u00e1rio de legalidade sobre verdadeiros abusos pol\u00edticos que os gestores p\u00fablicos realizam nas cidades. Um exemplo disso est\u00e1 na quest\u00e3o das contrapartidas do caso do\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1<\/strong>, que n\u00e3o foram apresentadas na manifesta\u00e7\u00e3o de interesse, na licita\u00e7\u00e3o ou no projeto vencedor como pagamentos ou retornos efetivos ao er\u00e1rio municipal, mas como elementos pro forma, garantias financeiras de que o empreendimento que altera os \u00edndices construtivos da regi\u00e3o sair\u00e1 do papel e de que os impactos regionais de tr\u00e2nsito ser\u00e3o diminu\u00eddos; entretanto, nove anos passaram entre a realiza\u00e7\u00e3o do certame e o seu cancelamento sem que nenhuma obra tivesse sido conclu\u00edda, al\u00e9m de a ideia apresentada no projeto para desafogar o tr\u00e2nsito [ou reduzir o seu impacto] ser aparentemente mais prejudicial do que ben\u00e9fica \u00e0 coletividade \u2014 a\u00a0<strong>obra do t\u00fanel da rua Anita Garibaldi<\/strong>, contrapartida \u00e0 expans\u00e3o do\u00a0<strong>Shopping Iguatemi<\/strong>, \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o disso.<\/p>\n<p>Quando afirmo que as contrapartidas deveriam ser tomadas como pagamentos ou retornos efetivos ao er\u00e1rio p\u00fablico municipal, n\u00e3o me refiro ao dinheiro em esp\u00e9cie que deixa de entrar nos cofres p\u00fablicos, mas \u00e0 aus\u00eancia de um equil\u00edbrio econ\u00f4mico na medida em que o empreendedor se beneficia gratuitamente com a altera\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>regime urban\u00edstico<\/strong>\u00a0do local onde realizar\u00e1 seu empreendimento, beneficia-se dos recursos que o investimento atrair\u00e1 e se beneficia da permissividade do uso do espa\u00e7o p\u00fablico j\u00e1 investido pela gest\u00e3o municipal.<\/p>\n<p><strong>Cais Mau\u00e1 e a reivindica\u00e7\u00e3o pela cidade<\/strong><\/p>\n<p>O caso da interven\u00e7\u00e3o sobre o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/547831-cais-maua-o-espaco-simbolico-e-historico-mais-importante-de-porto-alegre-entrevista-com-tiago-holzmann-da-silva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cais Mau\u00e1<\/a>\u00a0revela um exemplo perfeito de\u00a0<strong>reivindica\u00e7\u00e3o pela cidade<\/strong>. N\u00e3o obstante as tentativas de\u00a0<strong>triunfo do mercado<\/strong>\u00a0e dos interesses privados, a disputa pela diversidade de usos da cidade, pelo acesso universal dos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s aos espa\u00e7os da cidade emergiu das lutas dos movimentos sociais articulados nesse sentido. A inclus\u00e3o do Cais Mau\u00e1 na pauta dos movimentos de reivindica\u00e7\u00e3o dos usos da cidade \u00e9 um ato especificamente territorial. Foram d\u00e9cadas de lutas e de resist\u00eancia ao projeto oficial de interven\u00e7\u00e3o, denominado de revitaliza\u00e7\u00e3o (cujo intento \u00e9 modificar a atividade anteriormente no lugar a ser modificado), das quais se resultou em duas situa\u00e7\u00f5es distintas e paradoxais: a) o projeto oficial, inacess\u00edvel ao debate p\u00fablico e impregnado de irregularidades administrativas sob a perspectiva urban\u00edstica, nunca foi concretizado; b) o certame licitat\u00f3rio que conferia uma apar\u00eancia de legalidade ao projeto foi, finalmente, cancelado pelo rec\u00e9m eleito governador do estado,\u00a0<strong>Eduardo Leite<\/strong>, criando, assim, uma lacuna a ser preenchida pelos setores mais diversos da sociedade, diferentemente do que ocorrera no processo anterior de licita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A persist\u00eancia da luta do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/547831-cais-maua-o-espaco-simbolico-e-historico-mais-importante-de-porto-alegre-entrevista-com-tiago-holzmann-da-silva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cais Mau\u00e1 de Todos<\/a>\u00a0demonstra que o territ\u00f3rio \u00e9 capaz de imunizar espa\u00e7os necess\u00e1rios \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser privatizadas, mas que devem ser incorporadas \u00e0s lutas urbanas por uma cidade mais democr\u00e1tica e inclusiva. A contesta\u00e7\u00e3o e a resist\u00eancia operadas pelos\u00a0<strong>movimentos defensores do Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0podem ser vistas como um desdobramento em enfrentamentos \u00e0 l\u00f3gica colonial da produ\u00e7\u00e3o da cidade em torno do poder do capital. Historicamente, outras conjunturas demonstram a efic\u00e1cia da luta territorial em\u00a0<strong>Porto Alegre<\/strong>: a exist\u00eancia de quilombos urbanos na cidade, a exist\u00eancia de movimentos comunit\u00e1rios de resist\u00eancia e defesa de seus territ\u00f3rios na cidade (como \u00e9 o caso da\u00a0<strong>comunidade remanescente da Ilhota<\/strong>) e a exist\u00eancia de uma mem\u00f3ria coletiva ligada aos tempos democr\u00e1ticos da\u00a0<strong>Frente Popular<\/strong>, do\u00a0<strong>Or\u00e7amento Participativo<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>F\u00f3rum Social Mundial<\/strong>.<\/p>\n<p>Enquanto o discurso hegem\u00f4nico de progresso e uma cidade para todos, de\u00a0<strong>endividamento p\u00fablico<\/strong>\u00a0como justificativa para contrata\u00e7\u00f5es privadas dissociadas da lei e da sociedade, os movimentos e coletivos desafiam esta ordem do discurso apresentando propostas alternativas e reivindicando sua participa\u00e7\u00e3o nos processos de modifica\u00e7\u00e3o da cidade. Nesse espa\u00e7o de disputas, os movimentos que defendem a cidade e o direito ao seu uso democr\u00e1tico, plural, includente e equilibrado agem em uma l\u00f3gica de pluralidade na ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, de pertencimento coletivo e de valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva que, por si, representam grandes\u00a0<strong>conquistas anti-hegem\u00f4nicas e anticapitalistas<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como compreender os avan\u00e7os e os retrocessos nesse processo de recupera\u00e7\u00e3o do Cais Mau\u00e1? Quais as quest\u00f5es de fundo? O que est\u00e1 em jogo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0O processo de interven\u00e7\u00e3o sobre o\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0est\u00e1 inserido em um contexto de anos de afastamento do interesse p\u00fablico com a mem\u00f3ria e o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico da cidade, sobretudo pela falta de investimentos que incentivem o\u00a0<strong>melhor uso da cidade<\/strong>. Esse afastamento levou a uma aliena\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao cais do porto, um de seus cart\u00f5es postais e que conecta a cidade ao seu bem natural mais caro: o\u00a0<strong>rio Gua\u00edba<\/strong>.<\/p>\n<p>O afastamento da popula\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico e da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, somado ao descaso do poder p\u00fablico, cria um cen\u00e1rio de urg\u00eancia que serve aos interesses privados, propiciando tomadas de decis\u00f5es obscuras, n\u00e3o raro negligenciadas da esfera p\u00fablica e, por isso, levadas a efeito de maneira arbitr\u00e1ria. Nessa perspectiva, a\u00a0<strong>participa\u00e7\u00e3o popular<\/strong>\u00a0\u00e9 relegada a segundo plano, relativizando-se, assim, a legitimidade de qualquer projeto em que se pretenda modificar formas de uso da cidade.<\/p>\n<p>Em 2010, o governo estadual, na gest\u00e3o de<strong>\u00a0Yeda Crusius<\/strong>, abriu licita\u00e7\u00e3o para uma\u00a0<strong>parceria p\u00fablico-privada<\/strong>\u00a0para remodelar o\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1<\/strong>, sem que houvesse ocorrido qualquer tipo de consulta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. O certame exigia uma garantia financeira de 400 milh\u00f5es de reais \u00e0s empresas interessadas e possibilitava uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es ambientais de alto impacto na\u00a0<strong>paisagem urbana de Porto Alegre<\/strong>, de maneira que o cons\u00f3rcio vencedor da licita\u00e7\u00e3o (autodenominado C<strong>ais Mau\u00e1 do Brasil S.A.<\/strong>) passava a ter o poder de decidir, de acordo com seus interesses, quais seriam as diretrizes de uso do espa\u00e7o. Ao longo dos anos, as garantias financeiras n\u00e3o foram regularmente demonstradas, os licenciamentos ambientais ocorreram apenas oito anos depois da licita\u00e7\u00e3o e o projeto detalhado nunca foi apresentado.<\/p>\n<p>Entretanto, um esbo\u00e7o do projeto que seria o vencedor da licita\u00e7\u00e3o apresentava a\u00a0<strong>ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o<\/strong>\u00a0com um<strong>\u00a0shopping center<\/strong>, 4.000 vagas de estacionamento, torres de mais de 100 metros de altura (alterando o regime urban\u00edstico previsto pelo\u00a0<strong>Plano Diretor<\/strong>\u00a0para altura m\u00e1xima de constru\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o, de 55 metros), a derrubada do\u00a0<strong>Armaz\u00e9m A7<\/strong>, \u00fanico n\u00e3o protegido pelos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos de defesa e prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico, al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o de um t\u00fanel vi\u00e1rio que deveria desafogar o tr\u00e2nsito na regi\u00e3o, mas que foi proposto desacompanhado de qualquer estudo s\u00e9rio sobre o impacto desse tipo de constru\u00e7\u00e3o no anel vi\u00e1rio de uma regi\u00e3o altamente movimentada como a \u00e1rea que engloba o espa\u00e7o central da\u00a0<strong>Rodovi\u00e1ria<\/strong>, do\u00a0<strong>Mercado P\u00fablico<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>Gas\u00f4metro de Porto Alegre<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Opera\u00e7\u00e3o Gatekeepers<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo do processo, diversas irregularidades foram descobertas pela\u00a0<strong>Pol\u00edcia Federal<\/strong>\u00a0em opera\u00e7\u00f5es financeiras ligadas ao processo de\u00a0<strong>remodela\u00e7\u00e3o do Cais Mau\u00e1<\/strong>: em abril de 2018, a empresa\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1 do Brasil<\/strong>\u00a0esteve envolvida com uma investiga\u00e7\u00e3o realizada pela Pol\u00edcia Federal sobre fraudes em fundos de investimento. Denominada\u00a0<strong>Opera\u00e7\u00e3o Gatekeepers<\/strong>, a investiga\u00e7\u00e3o teve por objeto a averigua\u00e7\u00e3o de um esquema de um fundo de investimentos com representa\u00e7\u00f5es em Porto Alegre e no\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>, segundo o qual teriam aplicados valores em obras p\u00fablicas sem que estas fossem efetivamente executadas, o que teria ocasionado o desvio dos investimentos em benef\u00edcio dos pr\u00f3prios administradores do fundo (FLECK, 2018a; GOMES; FLECK, 2018). Em abril de 2018, o delegado respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o,\u00a0<strong>Eduardo Bollis<\/strong>, informou em coletiva de imprensa que administradores do fundo investigado tinham liga\u00e7\u00e3o com o cons\u00f3rcio Cais Mau\u00e1 do Brasil S.A. e que a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o investigava as [inexistentes] obras do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/548581-a-cidade-rebelde-da-modernidade-tardia-contra-a-cidade-fordista-industrial-entrevista-especial-com-milton-cruz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cais Mau\u00e1<\/a>, sem que isso, no entanto, fosse descartado, diante da multiplicidade de pessoas f\u00edsicas e jur\u00eddicas envolvidas e dos elevados valores correspondentes (FLECK, 2018a).<\/p>\n<p>Em nota oficial, divulgada em 19 de abril de 2018, a\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1 do Brasil<\/strong>\u00a0informou que os fatos investigados pela\u00a0<strong>Opera\u00e7\u00e3o Gatekeepers<\/strong>\u00a0s\u00e3o anteriores ao per\u00edodo em que a\u00a0<strong>REAG Investimentos<\/strong>\u00a0assumiu a administra\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o da empresa\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>Fundo de Investimento em Participa\u00e7\u00f5es Cais Mau\u00e1 do Brasil Infraestrutura<\/strong>\u00a0[entidade respons\u00e1vel pela capta\u00e7\u00e3o de recursos para a garantia das obras] e que, por isso, n\u00e3o t\u00eam nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a atual gest\u00e3o do fundo. A mesma reportagem questionou a\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1 do Brasil<\/strong>\u00a0sobre o montante atualizado de recursos j\u00e1 captados naquela ocasi\u00e3o, assim como acerca da ocorr\u00eancia de alguma modifica\u00e7\u00e3o cadastral, ao que o cons\u00f3rcio silenciou. Em que pese o sil\u00eancio oficial, o site da<strong>Comiss\u00e3o de Valores Imobili\u00e1rios &#8211; CVM<\/strong>\u00a0apresenta quadro de informa\u00e7\u00f5es que demonstra que o Fundo de Investimento em Participa\u00e7\u00f5es Cais Mau\u00e1 do Brasil Infraestrutura, registrado no Cadastro Nacional de Pessoa Jur\u00eddica &#8211; CNPJ pelo n\u00ba. 17.213.821\/0001-09, esteve sob a administra\u00e7\u00e3o da empresa\u00a0<strong>LAD Capital Gestora de Recursos Ltda<\/strong>., CNPJ n\u00ba. 28.376.231\/0001-13, e dire\u00e7\u00e3o executiva de\u00a0<strong>Andr\u00e9 Luis de Souza Fernandes<\/strong>\u00a0no per\u00edodo compreendido entre janeiro e setembro de 2018. A empresa\u00a0<strong>REAG Investimentos<\/strong>\u00a0est\u00e1 inscrita no CNPJ n\u00ba. 10.452.416\/0001-02, distinto ao da empresa LAD, o que indica haver uma coparticipa\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o do cons\u00f3rcio que n\u00e3o \u00e9 aberta \u00e0 sociedade. O patrim\u00f4nio l\u00edquido do fundo foi declarado nas quantias milion\u00e1rias de R$ 191.246.449,64, resultado da soma das 18.129,50765264 cotas integralizadas ao valor unit\u00e1rio de R$ 10.548,90476400 [janeiro-mar\u00e7o de 2018], R$ 190.462.496,84, correspondente a 18.129,50765264 cotas integralizadas no valor unit\u00e1rio de R$ 10.505,66294955 [abril-junho de 2018], e R$ 189.825.178,29, correspondente a 18.129,50765264 cotas integralizadas no valor unit\u00e1rio de R$ 10.470,50928944 [3].<\/p>\n<p>Todas essas circunst\u00e2ncias levam a crer que o que estava em jogo eram os\u00a0<strong>interesses financeiros<\/strong>\u00a0e de<strong>\u00a0circula\u00e7\u00e3o do capital especulativo<\/strong>. A realiza\u00e7\u00e3o do processo a despeito da participa\u00e7\u00e3o popular e sem a preced\u00eancia de estudos qualificados sobre os impactos da interven\u00e7\u00e3o no Cais Mau\u00e1 \u00e0 cidade de Porto Alegre gerou um contexto em que os movimentos populares contestadores do projeto oficial eram mais do que necess\u00e1rios e, neste momento de cancelamento da licita\u00e7\u00e3o, t\u00eam sua fun\u00e7\u00e3o reavivada na esfera pol\u00edtica da cidade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que rela\u00e7\u00f5es podemos estabelecer entre os projetos de recupera\u00e7\u00e3o do Cais Mau\u00e1, em Porto Alegre, e do Cais Estelita, em Recife?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karina Fernandes &#8211;<\/strong>\u00a0O discurso contestador do\u00a0<strong>Ocupa Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0se fez mediante a realiza\u00e7\u00e3o de palestras, protestos, escrachos, blocos de carnaval, interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, difus\u00e3o de v\u00eddeos, panfletos, cartazes, abaixo-assinados, assim como atuou em uma frente institucional de impugna\u00e7\u00f5es judiciais, requerimentos de informa\u00e7\u00f5es oficiais e tentativa de di\u00e1logo com as for\u00e7as institucionais. Naquele momento, o\u00a0<strong>Ocupa Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0estabeleceu um di\u00e1logo prof\u00edcuo com outros movimentos e coletivos de Porto Alegre, o que ganhou for\u00e7a com a articula\u00e7\u00e3o estabelecida com o movimento\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/541940-ocupe-estelita-e-o-novo-ativismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ocupe Estelita<\/a>, que se opunha ao\u00a0<strong>Projeto Novo Recife<\/strong>\u00a0[4], em mobiliza\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas \u00e0s realizadas em\u00a0<strong>Porto Alegre<\/strong>\u00a0quanto ao chamamento da popula\u00e7\u00e3o para a ocupa\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0e, assim, para a reflex\u00e3o sobre o processo de revitaliza\u00e7\u00e3o que, tal qual em Recife, ocorria a portas fechadas e sem possibilidade de participa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Em 2014, o embrion\u00e1rio movimento\u00a0<strong>Ocupa Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0se transformou no coletivo\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1 de Todos<\/strong>, especialmente em decorr\u00eancia do fechamento dos acessos ao Cais pelo cons\u00f3rcio, impedindo novas a\u00e7\u00f5es de ocupa\u00e7\u00f5es. Sem a possibilidade de ocupar a \u00e1rea, o movimento, que prezava, sobretudo, pelo debate pac\u00edfico, criou-se o Cais Mau\u00e1 de Todos, com os fundamentos, insurg\u00eancias e integrantes anteriores, mas acrescido de novos atores, institui\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias: a frente institucional passava a ser considerada uma nova e mais n\u00edtida possibilidade de a\u00e7\u00e3o, que se inseria nas tr\u00eas esferas principais: comunica\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica e jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Inspirado no\u00a0<strong>Ocupe Estelita<\/strong>\u00a0e na sua abordagem institucional, o\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1 de Todos<\/strong>\u00a0via no Estado um agente construtor de pol\u00edticas p\u00fablicas e, por isso, um agente positivo nas formas de resist\u00eancia ao empreendimento. O manifesto de cria\u00e7\u00e3o do movimento, a carta aberta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, emitida pelo Cais Mau\u00e1 para Todos por meio da m\u00eddia e das redes sociais do coletivo, declarava \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>Porto Alegre<\/strong>\u00a0o desejo de ver o Cais reintegrado \u00e0 cidade, apresentando suas contesta\u00e7\u00f5es ao empreendimento oficial e sinalizando o tom das atividades do grupo na defesa da imediata rescis\u00e3o de contrato do Cons\u00f3rcio\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1 S.A<\/strong>., assim como da participa\u00e7\u00e3o popular e ouvida da sociedade civil, a abertura de concurso p\u00fablico de projetos e a realiza\u00e7\u00e3o de nova licita\u00e7\u00e3o de concess\u00e3o.<\/p>\n<p>O movimento seguiu a convocar a popula\u00e7\u00e3o para atos de ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos para encontros art\u00edsticos de car\u00e1ter, na linha do que j\u00e1 ocorria quando do\u00a0<strong>Ocupa Cais Mau\u00e1<\/strong>, transformando o uso daquele espa\u00e7o com atividades alternativas de cultura e lazer. As trajet\u00f3rias dos processos do\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>Cais Jos\u00e9 Estelita<\/strong>\u00a0se conectam nos movimentos contestadores de ambos os processos, cuja base urban\u00edstica possibilita o aprofundamento da compreens\u00e3o da dimens\u00e3o do pol\u00edtico diante da\u00a0<strong>crise da democracia brasileira<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Na grafia sugerida por\u00a0<strong>Marcelo Lopes de Souza<\/strong>\u00a0(2016) e que emprega o sentido da materialidade das duas palavras que est\u00e3o contra\u00eddas: o social, como o conjunto de rela\u00e7\u00f5es sociais que forma a sociedade, e o ambiental, como o meio ambiente a ser preservado em qualquer espa\u00e7o. (Nota da entrevistada)<\/p>\n<p>[2] No livro \u201c<strong>O Enigma do Capital<\/strong>\u201d (2011),\u00a0<strong>David Harvey<\/strong>\u00a0explica que o Relat\u00f3rio de Desenvolvimento do Banco Mundial de 2009 colocou a produ\u00e7\u00e3o total de bens e servi\u00e7os na economia mundial em 56,2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, U$ 15,2 trilh\u00f5es a mais do que em 2003, U$ 40,2 trilh\u00f5es a mais do que em 1973, U$ 50,9 trilh\u00f5es a mais do que em 1950 e U$ 53,5 trilh\u00f5es a mais do que em 1913, e que, ao longo da hist\u00f3ria do capitalismo, a taxa composta de crescimento real foi cerca de 2,25% ao ano. Entretanto, o consenso atual entre os economistas \u00e9 que uma taxa \u201csaud\u00e1vel\u201d de crescimento representa 3% de expans\u00e3o anual. Menos do que isso significa um crescimento econ\u00f4mico lento e abaixo de 1% significa recess\u00e3o e crise. (Nota da entrevistada)<\/p>\n<p>[3] Informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis\u00a0<a href=\"http:\/\/cvmweb.cvm.gov.br\/SWB\/Sistemas\/SCW\/CPublica\/InfoTrim\/CPublicaInfTrimV2.aspx?PK_PARTIC=126584&amp;TpConsulta=24&amp;TpPartic=73\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>. Acesso em: 6 jan. 2019. (Nota da entrevistada)<\/p>\n<p>[4] Formado por advogados, arquitetos, soci\u00f3logos, artistas, professores, engenheiros, estudantes, m\u00e9dicos, administradores, publicit\u00e1rios, jornalistas, designers e antrop\u00f3logos, entre outros, o movimento\u00a0<strong>Ocupe Estelita<\/strong>\u00a0foi criado em 2012, na luta contra a destrui\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Cais Jos\u00e9 Estelita<\/strong>, \u00e1rea de aproximadamente 101,7 mil metros quadrados, com p\u00e1tio ferrovi\u00e1rio e uma s\u00e9rie de armaz\u00e9ns de a\u00e7\u00facar abandonados pelo Poder P\u00fablico, mas que representa um dos principais cart\u00f5es postais de\u00a0<strong>Recife<\/strong>. O Cons\u00f3rcio Novo Recife, formado pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galv\u00e3o, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos, em 2008, comprou em leil\u00e3o a \u00e1rea da antiga Rede Ferrovi\u00e1ria Federal (RFFSA) por R$ 55 milh\u00f5es, e apresentou projeto de \u201crevitaliza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, que objetivava construir mais de 12 torres residenciais e comerciais de alto padr\u00e3o com at\u00e9 40 andares e unidades edil\u00edcias que seriam vendidas entre R$ 400 mil e R$ 1 milh\u00e3o, al\u00e9m de estacionamentos para cerca de cinco mil ve\u00edculos.<\/p>\n<p>O plano causou indigna\u00e7\u00e3o em grande parte da popula\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou a se mobilizar para acompanhar as reuni\u00f5es do\u00a0<strong>Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU)<\/strong>\u00a0da prefeitura de Recife, reivindicando mais di\u00e1logo e participa\u00e7\u00e3o popular no andamento do projeto. O movimento questiona uma s\u00e9rie de irregularidades ou pontos equivocados no\u00a0<strong>projeto Novo Recife<\/strong>\u00a0[que v\u00e3o desde o procedimento de leil\u00e3o da \u00e1rea at\u00e9 os desdobramentos que o sucederam, contemplando a integralidade do projeto apresentado, que privilegia determinados setores da popula\u00e7\u00e3o e fecha este importante espa\u00e7o do uso pleno e irrestrito da popula\u00e7\u00e3o de Recife], e o faz reivindicando o exerc\u00edcio da cidadania na ocupa\u00e7\u00e3o do cais nos limites da lei, al\u00e9m da inclus\u00e3o popular no desenho das oportunidades para a \u00e1rea, do respeito ao meio ambiente e do investimento imobili\u00e1rio respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma s\u00e9rie de eventos que obtiveram grande ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, interessada no estabelecimento de um debate amplo sobre o projeto, a construtora Moura Dubeux deu in\u00edcio \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o do cais, na madrugada do dia 21 de junho de 2014, em opera\u00e7\u00e3o que foi interrompida pela press\u00e3o popular (PINTO, 2014), que montou acampamento no local durante 58 dias e teve grande repercuss\u00e3o nacional. Diante disso, houve a paralisa\u00e7\u00e3o do processo de demoli\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de a\u00e7\u00f5es culturais e art\u00edsticas que chamaram mais aten\u00e7\u00e3o para o caso.<\/p>\n<p>Em 2015, ap\u00f3s uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal para apurar fraudes no leil\u00e3o que permitiu a compra do terreno do\u00a0<strong>Cais Jos\u00e9 Estelita<\/strong>, foram ajuizadas a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a Estadual e na Justi\u00e7a Federal, que questionam o projeto, o leil\u00e3o e o Plano Urban\u00edstico municipal que legaliza o\u00a0<strong>Projeto Novo Recife<\/strong>. Dessas a\u00e7\u00f5es, a Justi\u00e7a Federal teve senten\u00e7a que determinou a anula\u00e7\u00e3o do leil\u00e3o, mas que foi revogada pelo TRF-5, em 2017, e fez a construtora Moura Dubeux divulgar a data de mar\u00e7o de 2019 como marco do in\u00edcio das obras das torres residenciais do projeto, denominadas\u00a0<strong>Mirante do Cais<\/strong>. No site da construtora h\u00e1 o an\u00fancio de apartamentos do empreendimento por valores iniciais de R$ 1.799.000,00, na torre norte, e R$ 1.550.000,00, na torre sul. Independentemente do curso do processo de privatiza\u00e7\u00e3o do Cais Jos\u00e9 Estelita, as atividades do movimento\u00a0<strong>Ocupe Estelita<\/strong>inspiraram mobiliza\u00e7\u00f5es em outras \u00e1reas da cidade do Recife, al\u00e9m de tamb\u00e9m ter contribu\u00eddo determinantemente para o percurso de luta do\u00a0<strong>Cais Mau\u00e1<\/strong>, com o contato estabelecido entre integrantes do\u00a0<strong>Ocupa Cais Mau\u00e1<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>Ocupe Estelita<\/strong>, em 2014, ensejando a elabora\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias e atividades de fundamental import\u00e2ncia na luta por um Cais Mau\u00e1 de todos. (Nota da entrevistada)<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/590575-o-capital-financeiro-e-determinante-na-formacao-do-deficit-habitacional-entrevista-especial-com-karina-macedo-fernandes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Vitor Santos &#8211; Apesar de o\u00a0direito \u00e0 &#8211; a\u00a0estar assegurado na\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o Federal\u00a0brasileira, \u201catualmente o\u00a0Brasil\u00a0enfrenta um\u00a0d\u00e9ficit habitacional\u00a0de mais de 6,2 milh\u00f5es de moradias\u201d, diz\u00a0Karina Macedo Fernandes\u00a0na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a\u00a0IHU On-Line. \u201cDas\u00a0regi\u00f5es do Brasil, o\u00a0d\u00e9ficit habitacional\u00a0mais cr\u00edtico se encontra na regi\u00e3o\u00a0Sudeste(2.562.117 domic\u00edlios), seguindo-se\u00a0Nordeste\u00a0(1.867.563 domic\u00edlios),\u00a0Sul\u00a0(658.360 domic\u00edlios),\u00a0Norte\u00a0(631.586 domic\u00edlios) e Centro-Oeste (478.668 domic\u00edlios)\u201d, informa. 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