{"id":10877,"date":"2019-06-18T15:47:51","date_gmt":"2019-06-18T18:47:51","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10877"},"modified":"2019-06-18T10:54:51","modified_gmt":"2019-06-18T13:54:51","slug":"corporacoes-ja-vivemos-uma-distopia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/06\/18\/corporacoes-ja-vivemos-uma-distopia\/","title":{"rendered":"Corpora\u00e7\u00f5es: j\u00e1 vivemos uma distopia\u2026"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jeremy Lent<\/strong> &#8211; <span style=\"font-size: 16px;\">Poder global das megaempresas manipula pessoas, devasta o meio ambiente e corrompe democracias. Uma amea\u00e7a a exist\u00eancia humana mais devastadora \u2014 e real \u2014 que a Intelig\u00eancia Artificial. Podemos super\u00e1-la?<\/span><\/p>\n<p>Alguns dos principais pensadores de nossos tempos v\u00eam soltando uma s\u00e9rie de alertas sobre a amea\u00e7a da intelig\u00eancia artificial dominar os humanos. Stephen Hawking\u00a0profetizou\u00a0que isso poderia ser \u201co pior acontecimento na hist\u00f3ria de nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, a menos que encontremos uma forma de controlar o seu desenvolvimento. O bilion\u00e1rio Elon Musk\u00a0fundou uma companhia para tentar manter os humanos um passo \u00e0 frente no que ele considera uma amea\u00e7a existencial da Intelig\u00eancia Artificial (IA).<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio que os aterroriza \u00e9 que, apesar das boas inten\u00e7\u00f5es, terminemos criando uma for\u00e7a mais poderosa do que toda a humanidade, com um sistema de valores que n\u00e3o necessariamente incorpora o bem-estar social dos humanos. Quando essa for\u00e7a atingir uma massa cr\u00edtica, ela poder\u00e1 dominar o mundo, controlar as atividades humanas e, essencialmente, sugar toda a vida do planeta, enquanto se otimiza para seus pr\u00f3prios fins. O not\u00e1vel futurista Nick Bostrom nos d\u00e1\u00a0o exemplo\u00a0de uma superintelig\u00eancia projetada para fabricar clipes de papel que poderia transformar toda a Terra em uma grande instala\u00e7\u00e3o industrial produtora de clipes.<\/p>\n<p>Estes futuristas est\u00e3o certos ao falarem de suas preocupa\u00e7\u00f5es, mas se esquecem do fato de que os humanos j\u00e1 criaram uma for\u00e7a que est\u00e1 no caminho de devorar a humanidade e o planeta juntos, exatamente da forma em que eles temem. \u00c9 a Corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u201cGovernado por corpora\u00e7\u00f5es\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Quando as corpora\u00e7\u00f5es foram inicialmente criadas, no s\u00e9culo XVII, seus fundadores \u2014 assim como os engenheiros de\u00a0<em>software<\/em>\u00a0modernos \u2014 acreditavam que agiam com boas inten\u00e7\u00f5es. Os primeiros estatutos corporativos foram feitos apenas para limitar a responsabilidade do investidor \u00e0 quantia de seu investimento, portanto, encorajando-os a financiarem expedi\u00e7\u00f5es arriscadas para a \u00cdndia e para o Sudeste da \u00c1sia. Por\u00e9m, logo surgiu uma consequ\u00eancia imprevista, conhecida pelo seu perigo moral: com vantagens maiores do que os preju\u00edzos, desatou-se um comportamento imprudente, que desencadeou uma s\u00e9rie de grandes fraudes e a fal\u00eancia do mercado. Com isto, as corpora\u00e7\u00f5es foram banidas temporariamente da Inglaterra, em 1720.<\/p>\n<p>Thomas Jefferson e outros l\u00edderes dos Estados Unidos, precavidos pela experi\u00eancia inglesa, desconfiavam profundamente das corpora\u00e7\u00f5es e davam a elas contratos limitados com poderes muito restritos. No entanto, no turbilh\u00e3o da Guerra Civil americana, industriais se aproveitaram da desordem para alavancar e generalizar a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e, assim, expandir sua influ\u00eancia. \u201cEste n\u00e3o \u00e9 mais um governo das pessoas, feito por pessoas e para as pessoas. \u00c9 um governo de corpora\u00e7\u00f5es, feito por e para corpora\u00e7\u00f5es\u201d, lamentou Rutherford Hayes, que virou presidente em 1877.<\/p>\n<p>As corpora\u00e7\u00f5es se aproveitaram completamente de sua nova autoridade e passaram a influenciar legisla\u00e7\u00f5es estatais para que emitissem contratos perp\u00e9tuos que lhes dessem o direito de fazer qualquer coisa que n\u00e3o fosse explicitamente proibida pelas leis. O ponto de inflex\u00e3o em seu trajeto para a domina\u00e7\u00e3o ocorreu em 1886, quando a Corte Suprema denominou corpora\u00e7\u00f5es como \u201cpessoas\u201d com direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da 14\u00aa Emenda, que havia sido aprovada para dar direitos iguais aos antigos escravos, libertos ap\u00f3s a Guerra Civil. Desde ent\u00e3o, a domina\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es s\u00f3 tem sido otimizada pela lei, culminando no conhecido caso do\u00a0<em>Citizen United<\/em>, em 2010, que liberou as restri\u00e7\u00f5es de gastos pol\u00edticos das corpora\u00e7\u00f5es em elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Sociopatas com alcance global<\/strong><\/p>\n<p>Corpora\u00e7\u00f5es, bem como uma Intelig\u00eancia Artificial potencialmente desertora, n\u00e3o possuem interesses intr\u00ednsecos de bem-estar humano e social. S\u00e3o constru\u00e7\u00f5es legais: entidades abstratas, projetadas, acima de tudo, com o objetivo final de maximizar os retornos financeiros para seus investidores. Se corpora\u00e7\u00f5es fossem, de fato, pessoas reais, seriam sociopatas, completamente esvaziados de empatia, que \u00e9 um elemento crucial do comportamento humano normal. Todavia, diferentemente dos humanos, corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o teoricamente imortais, n\u00e3o podem ir para a cadeia e, no caso das maiores multinacionais, n\u00e3o podem ser restringidas pela lei de nenhum pa\u00eds de forma individual.<\/p>\n<p>Com a incalcul\u00e1vel vantagem de seus poderes sobre-humanos, corpora\u00e7\u00f5es dominaram o mundo, literalmente. Cresceram de forma t\u00e3o acentuada que um\u00a0impressionante n\u00famero de 69das 100 maiores economias do mundo n\u00e3o s\u00e3o Estados-na\u00e7\u00f5es, mas entidades corporativas.<\/p>\n<p>Corpora\u00e7\u00f5es t\u00eam conseguido usar seus poderes transnacionais para ditar suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es a qualquer pa\u00eds do mundo. Como resultado de d\u00e9cadas de globaliza\u00e7\u00e3o, corpora\u00e7\u00f5es podem explorar a livre movimenta\u00e7\u00e3o de capitais para construir f\u00e1bricas em pa\u00edses com sindicatos mais fracos ou distribuir plantas poluentes em pa\u00edses com leis ambientais inconsistentes, baseando suas decis\u00f5es somente na maximiza\u00e7\u00e3o dos retornos para seus acionistas. Os governos disputam entre si para tornar seus pa\u00edses o mais atraentes poss\u00edveis para o investimento corporativo.<\/p>\n<p>As corpora\u00e7\u00f5es manejam seus vastos poderes para controlar a mente dos consumidores, seduzindo-os para um estado de consumo sem fim. No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, Edward Bernays, o grande c\u00e9rebro do empoderamento corporativo, apresentou seu audacioso plano de jogo como \u201ca manipula\u00e7\u00e3o consciente e inteligente dos h\u00e1bitos e opini\u00f5es das massas, de forma organizada\u201d. Declarou, amea\u00e7ador, que \u201caqueles que manipulam este mecanismo invis\u00edvel da sociedade constituem um governo invis\u00edvel, que \u00e9 o verdadeiro poder dominante deste pa\u00eds\u201d. As\u00a0tenebrosas palavras\u00a0de Wayne Chilicki, diretor executivo da\u00a0<em>General Mills<\/em>, demonstram como a vis\u00e3o de Bernays tem se perpetuado: \u201cQuando se trata de segmentar consumidores infantis, n\u00f3s da General Mills\u2026 acreditamos em captur\u00e1-los bem cedo e t\u00ea-los conosco para a vida toda\u201d.<\/p>\n<p>O resultado desta apropria\u00e7\u00e3o da humanidade pelas corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 um mundo fora de controle, onde a natureza \u00e9 impiedosamente saqueada para extrair as mat\u00e9rias-primas necess\u00e1rias ao aumento dos retornos dos acionistas num v\u00f3rtex de crescimento econ\u00f4mico infinito, sem se preocupar com a qualidade da vida humana e sem considera\u00e7\u00e3o pelo bem-estar das futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Apropria\u00e7\u00e3o corporativa da governan\u00e7a global<\/strong><\/p>\n<p>Em vez de serem julgados pela sua destrui\u00e7\u00e3o voraz, aqueles que dedicam suas vidas aos importantes senhores das corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o recompensados com riqueza e elevados a cargos com maior poder e prest\u00edgio.\u00a0<em>ExxonMobil<\/em>, por exemplo, foi\u00a0denunciada\u00a0por ter mentido descaradamente sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, sabendo h\u00e1 d\u00e9cadas das suas consequ\u00eancias e, ainda assim, ter ocultado informa\u00e7\u00f5es \u2014 condenando, deste modo, as gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras \u00e0 cat\u00e1strofe. Longe de ir preso, Rex Tillerson (que foi o diretor executivo da ExxonMobil durante grande parte desse per\u00edodo), \u00e9 hoje o Secret\u00e1rio de Estado dos EUA e coordena as rela\u00e7\u00f5es globais do pa\u00eds mais poderoso do mundo.<\/p>\n<p>De fato, o atual gabinete dos Estados Unidos representa a maior domina\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o vista de corpora\u00e7\u00f5es no governo norte-americano, com cerca de 70% dos altos cargos preenchidos por executivos corporativos.\u00a0Nas palavras\u00a0de Robert Weissman, presidente da\u00a0<em>Public Citizen<\/em>(organiza\u00e7\u00e3o liberal progressista de advocacia de direitos do consumidor, fundada em Washington), \u201cno governo Trump, lobistas da ind\u00fastria automobil\u00edstica definem a pol\u00edtica de transporte, a Boeing tem uma posi\u00e7\u00e3o elevada no Minist\u00e9rio de Defesa, Wall Street controla as pol\u00edticas financeiras e as ag\u00eancias regulat\u00f3rias e advogados de defesa corporativa ocupam os cargos-chave no Minist\u00e9rio de Justi\u00e7a\u201d. Corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o entrando em acordos internacionais, com o objetivo de alcan\u00e7arem seus interesses de forma mais eficaz. No F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial de Davos, em 2015, uma nova\u00a0<em>Global Redesign Initiative<\/em>\u00a0(Iniciativa de Reestrutura\u00e7\u00e3o Global, na tradu\u00e7\u00e3o), estabeleceu\u00a0uma agenda\u00a0para que as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais se envolvessem diretamente na governan\u00e7a mundial. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da ONU, apresentados com muito orgulho como uma proposta para reduzir a pobreza, em 2015,\u00a0adotaram essa abordagem\u00a0convidando corpora\u00e7\u00f5es a se sentarem em sua mesa para discutir os impactos das pol\u00edticas da ONU, pedindo mais globaliza\u00e7\u00e3o. Companhias de combust\u00edveis f\u00f3sseis t\u00eam se\u00a0infiltrado\u00a0nas confer\u00eancias anuais das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas para assegurar-se de que n\u00e3o sejam prejudicados por algumas a\u00e7\u00f5es, mesmo com o planeta enfrentando as amea\u00e7as da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>O fato das multinacionais terem assumido a administra\u00e7\u00e3o mundial fez com que o bem-estar social fosse minado em todas partes, na busca do lucro. Sem remorso algum, a Nestl\u00e9\u00a0compra de comunidades rurais\u00a0o dom\u00ednio das reservas de \u00e1gua subterr\u00e2nea para vend\u00ea-la engarrafada, deixando para essas comunidades a conta da limpeza ambiental e o resultado \u00e9 que, em alguns pa\u00edses como a Col\u00f4mbia, os refrigerantes s\u00e3o\u00a0mais baratos\u00a0do que a \u00e1gua. Como resultado dos produtos qu\u00edmicos vendidos por companhias globais de agroneg\u00f3cio, como a Cargill e a Monsanto, a ONU\u00a0estima\u00a0que a camada superior do solo s\u00f3 possa aguentar mais 60 anos de colheitas. Nestes casos, assim como em muitos outros, tanto os humanos como a terra s\u00e3o mera ra\u00e7\u00e3o para o insaci\u00e1vel apetite de uma intelig\u00eancia desumana e amoral, fora de controle.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma sa\u00edda<\/strong><\/p>\n<p>A posse da humanidade pelas corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 t\u00e3o abrangente que fica dif\u00edcil visualizar qualquer outro sistema global poss\u00edvel. Por\u00e9m, existem alternativas. Ao redor do mundo, cooperativas administradas por trabalhadores mostram-se t\u00e3o eficientes quanto corpora\u00e7\u00f5es \u2014\u00a0ou at\u00e9 mais\u00a0\u2014 sem almejar, em primeiro lugar, a riqueza dos acionistas. A\u00a0Cooperativa Mondragon, na Espanha, tem receitas que superam os 12 bilh\u00f5es de euros, demonstrando que este tipo de organiza\u00e7\u00e3o pode dar muito certo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 mudan\u00e7as estruturais que podem ser feitas pelas corpora\u00e7\u00f5es para realinhar seus sistemas de valores ao bem-estar humano. Contratos corporativos podem ser reformados e otimizados, para terem uma\u00a0linha de fundo tripla, com resultados sociais, ambientais e financeiros \u2014 os chamados \u201ctr\u00eas P\u201d, de\u00a0<em>people<\/em>\u00a0(gente),\u00a0<em>planet<\/em>\u00a0(planeta) e\u00a0<em>profit<\/em>\u00a0(lucro). Uma\u00a0certifica\u00e7\u00e3o \u201cben\u00e9fica\u201d ou B-Corp, que mant\u00e9m companhias dentro dos padr\u00f5es de performance social e ambiental, est\u00e1 sendo cada vez mais adotada e, hoje, j\u00e1 \u00e9 tida entre mais de 2 mil corpora\u00e7\u00f5es em torno de 50 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Por fim, se queremos impedir que essa for\u00e7a tome o completo controle da humanidade, essas abordagens alternativas precisam ser sistematizadas para nossa governan\u00e7a nacional e internacional. Imagine um mundo em que contratos corporativos s\u00f3 pudessem ser reconhecidos se adotasse um \u201cfundo de linha triplo\u201d e onde processos judiciais amea\u00e7assem os acionistas cada vez que uma companhia quebrasse uma de suas regras sociais ou ambientais.\u00a0At\u00e9 que isso aconte\u00e7a, pode ser que o \u201cpior acontecimento na hist\u00f3ria de nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o seja o futuro desenvolvimento da Intelig\u00eancia Artificial moderna, e sim a decis\u00e3o de um grupo de pol\u00edticos do s\u00e9culo XVII, que desatou o poder da Corpora\u00e7\u00e3o sobre uma humanidade desavisada.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"gnogusWjO1\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/corporacoes-ja-vivemos-uma-distopia\/\">Corpora\u00e7\u00f5es: j\u00e1 vivemos uma distopia&#8230;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Corpora\u00e7\u00f5es: j\u00e1 vivemos uma distopia&#8230;&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/corporacoes-ja-vivemos-uma-distopia\/embed\/#?secret=I6t21E0BnJ#?secret=gnogusWjO1\" data-secret=\"gnogusWjO1\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jeremy Lent &#8211; Poder global das megaempresas manipula pessoas, devasta o meio ambiente e corrompe democracias. 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