{"id":10856,"date":"2019-06-13T16:59:58","date_gmt":"2019-06-13T19:59:58","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10856"},"modified":"2019-06-13T12:04:08","modified_gmt":"2019-06-13T15:04:08","slug":"nossa-cultura-tem-medo-do-conflito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/06\/13\/nossa-cultura-tem-medo-do-conflito\/","title":{"rendered":"\u201cNossa cultura tem medo do conflito\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Thiago Domenici<\/strong> &#8211; Pesquisador social da Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta afirma que para viver em democracia \u00e9 preciso fazer as pazes com o conflito e que a avers\u00e3o a ele \u00e9 que cria perigo.<\/p>\n<p>\u201cContraintuitivamente se eu fizesse aquilo que me dava mais medo eu iria, na verdade, me tornar mais seguro\u201d, comenta o brit\u00e2nico Dominic Barter sobre sua experi\u00eancia ao subir os morros cariocas h\u00e1 27 anos. Nome escolhido pelos\u00a0<a href=\"https:\/\/aliados.apublica.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Aliados da<strong>\u00a0P\u00fablica<\/strong><\/a>\u00a0para a entrevista do m\u00eas, Barter trabalha com Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta (CNV),\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cnj.jus.br\/noticias\/cnj\/62272-justica-restaurativa-o-que-e-e-como-funciona\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Media\u00e7\u00e3o de Conflitos e Pr\u00e1ticas Restaurativas<\/a>.<\/p>\n<p>Para ele, di\u00e1logo e escuta emp\u00e1tica s\u00e3o premissas da CNV. \u201cComunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta \u00e9 como se fosse o sistema operacional e media\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a restaurativa s\u00e3o como programas desse sistema\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Colega e pupilo de Marshall Rosenberg, psic\u00f3logo precursor das pesquisas em CNV, Barter avalia que o conflito \u00e9 um aspecto saud\u00e1vel de qualquer rela\u00e7\u00e3o que vale a pena. \u201cSe vale a pena, em algum momento, a gente vai ter conflito\u201d.<\/p>\n<p>Perguntado se \u00e9 poss\u00edvel valorizar a empatia quando o outro n\u00e3o costuma ser prioridade ele diz que a \u00fanica resposta honesta \u00e9 que \u201cn\u00e3o sabemos\u201d. E alerta: \u201cA aus\u00eancia de di\u00e1logo \u2014 com n\u00f3s mesmos, com o outro, na sociedade \u2014 est\u00e1 produzindo formas de viver insustent\u00e1veis. N\u00e3o h\u00e1 futuro coletivo sem di\u00e1logo\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/dominic-barter.jpg?resize=600%2C399&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"925\" height=\"615\" \/><\/p>\n<p><em>Barter: refer\u00eancia na pesquisa e pr\u00e1tica da Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta<\/em><\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta (CNV) e como a define?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um processo de pesquisa e a\u00e7\u00e3o que busca criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que as pessoas possam colaborar e se entender, construindo as condi\u00e7\u00f5es mais prop\u00edcias para a vida, seja na rela\u00e7\u00e3o delas com elas mesmas, seja nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Ou, no terceiro n\u00edvel, seja na nossa atua\u00e7\u00e3o e nossa responsabilidade para criar e manter os sistemas sociais. A CNV \u00e9 uma proposta de ver esses tr\u00eas elementos intimamente interconectados.<\/p>\n<p>Tem alguns termos usados neste universo que acho importante esclarecer. Tem a media\u00e7\u00e3o de conflitos, c\u00edrculos restaurativos e a pr\u00f3prio CNV. Onde se enquadra cada um?<\/p>\n<p>Eu penso que Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta \u00e9 como se fosse o sistema operacional, e media\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a restaurativa s\u00e3o como programas desse sistema.<\/p>\n<p><strong>Como isso chega em voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>O que fa\u00e7o hoje em dia come\u00e7ou antes de conhecer a Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta. Eu tinha chegado no Rio em 1992 e fiquei impressionado como qualquer estrangeiro fica com a beleza, a cultura e com as pessoas. Mas tamb\u00e9m profundamente chocado com a realidade social. Eu lembro que se eu tivesse chegado em Johanesburgo [\u00c1frica do Sul], em 1992, estaria t\u00e3o chocado quanto chegar no Rio. Mas eu sabia o que era\u00a0<em>apartheid<\/em>.<\/p>\n<p>O que me chocou duplamente no Rio era o extremo\u00a0<em>apartheid<\/em>\u00a0social e o discurso das pessoas que encontrei de que n\u00e3o isso n\u00e3o existia. \u201cTem pobreza, tem viol\u00eancia, \u00e9 dif\u00edcil, mas \u00e9 todo mundo junto\u201d. E eu: \u201cmas como assim? N\u00e3o t\u00f4 vendo todo mundo junto, estou vendo terr\u00edveis abismos de entendimento entre diferentes grupos sociais\u201d. Eu vi isso se manifestar de muitas formas mas n\u00e3o sabia o que fazer. Eu n\u00e3o tinha conhecimento, n\u00e3o tinha dinheiro, n\u00e3o tinha ONG, n\u00e3o tinha colegas, n\u00e3o tinha nem segundo grau completo e apenas 40 palavras de portugu\u00eas\u2026<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea fez?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tolerava viver na cidade desse jeito, ent\u00e3o quando meu visto terminou fui embora. E consegui voltar um ano depois com oferta de trabalho por uma temporada pequena. E dessa vez tentei fazer alguma coisa. Mas as pessoas justificavam: \u201colha, al\u00e9m de tudo que a gente falou antes, \u00e9 incrivelmente perigoso. Voc\u00ea vai morrer\u201d. A\u00ed me submeti a esse medo. Anos depois li que quando um jornalista perguntou a Gandhi qual o oposto da n\u00e3o-viol\u00eancia \u2014 talvez pensando que ele iria falar agress\u00e3o, viol\u00eancia, repress\u00e3o \u2014 Gandhi falou: \u201co oposto de n\u00e3o-viol\u00eancia \u00e9 submiss\u00e3o ao medo\u201d. E foi exatamente esse o estado em que eu estava: submetido ao meu medo. O medo da minha incompet\u00eancia, o medo do desespero da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando voltei ao Brasil pela terceira vez em 1995 cheguei mais perto da situa\u00e7\u00e3o que me do\u00eda tanto. Precisava sair dos lugares onde eu tinha andado at\u00e9 ent\u00e3o. E comecei a pegar os \u00f4nibus at\u00e9 o final da linha, pegar o trem at\u00e9 Japeri, e sair para conhecer os lugares onde outras pessoas me disseram: \u201colha, voc\u00ea vai l\u00e1 e pode acontecer alguma coisa\u201d.<\/p>\n<p>Eu queria chegar mais perto porque minha hip\u00f3tese para testar era de que talvez a viol\u00eancia tivesse sido antes meramente um conflito. E antes disso uma tentativa frustrada de dialogar. Pensei que a viol\u00eancia era como se fosse um grito que precisa ter esse volume por causa da dist\u00e2ncia entre as pessoas. Por causa da nega\u00e7\u00e3o do conflito social.<\/p>\n<p>O grito e a viol\u00eancia \u00e9 uma maneira de dizer: \u201cn\u00e3o, eu vou provar pra voc\u00ea que a gente vive juntos. Eu vou provar pra voc\u00ea que nosso bem estar est\u00e1 intimamente entrela\u00e7ado e n\u00e3o existe tranquilidade pra um se n\u00e3o existe tranquilidade pro outro\u201d. Se eu chegar mais perto o grito vai voltar a ser meramente conflito. Mais perto ainda, meramente di\u00e1logo. Ent\u00e3o comecei a subir os morros.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o primeiro morro que voc\u00ea subiu?<\/strong><\/p>\n<p>Santa Marta, depois Vidigal, Tavares, Prazeres\u2026 foi ao longo de uma s\u00e9rie de meses que fui conhecendo diferentes lugares.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00ea subia os morros o que voc\u00ea tinha em mente?<\/strong><\/p>\n<p>Contraintuitivamente se eu fizesse aquilo que me dava mais medo eu iria, na verdade, me tornar mais seguro. Se eu me aproximasse do que era me apresentado como sendo uma amea\u00e7a, conhecendo as pessoas do outro lado, talvez essa amea\u00e7a se transformasse. Queria testar essa hip\u00f3tese.<\/p>\n<p><strong>E deu certo?<\/strong><\/p>\n<p>Foi estranho. Foi desconfort\u00e1vel entrar na comunidade de outras pessoas sem prop\u00f3sito, ou sem o que parece um prop\u00f3sito. As pessoas, normalmente, pensavam que tinha ido l\u00e1 para comprar drogas. Que \u00e9 esse gringo vagando pelo morro? Eu explicava que n\u00e3o estava l\u00e1 para isso e eles me olhavam meio torto e iam embora\u2026 tinham mais o que fazer. Mas um grupo de crian\u00e7as, n\u00e3o. Ficamos sentados l\u00e1 no meio-fio batendo papo comigo. Eu comecei a frequentar mais os lugares e quando o fazia parecia mais um passo de proximidade. Parecia que dava liga. E essa liga estava transformando minha experi\u00eancia de estar no Rio.<\/p>\n<p><strong>E como voc\u00ea foi moldando tudo isso?<\/strong><\/p>\n<p>O desafio maior para mim era vibrar com a perturba\u00e7\u00e3o de uma outra pessoa, ser solid\u00e1rio com uma experi\u00eancia de tens\u00e3o, de amea\u00e7a ou de conflito. Como voc\u00ea se conecta com algu\u00e9m que est\u00e1 passando por alguma dificuldade? E a tentativa de fazer isso, de ouvir essa dificuldade, se desenvolveu nos c\u00edrculos restaurativos, que acabaram sendo a primeira pr\u00e1tica de justi\u00e7a restaurativa brasileira, depois de nove anos de experimenta\u00e7\u00e3o no n\u00edvel comunit\u00e1rio, algo que foi solicitado pelo Minist\u00e9rio de Justi\u00e7a nos primeiros projetos pilotos de justi\u00e7a restaurativa da Secretaria da Reforma do Judici\u00e1rio. E, de repente, a gente estava fazendo isso, algo desenvolvido por mim e essas crian\u00e7as de sete, oito anos, dentro da vara de inf\u00e2ncia, dentro da Funda\u00e7\u00e3o Casa etc.<\/p>\n<p><strong>Como o Marshall Rosenberg, psic\u00f3logo precursor das pesquisas em CNV, surge na sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>No desenvolvimento dos c\u00edrculos restaurativos que conheci o Marshall, mais ou menos um ano e meio depois de come\u00e7ar a passar tempo com esses jovens nos morros. E quando conheci Marshall foi incr\u00edvel, porque ele tinha conceitos, linguagem e 35 anos de pr\u00e1tica fazendo coisas diferentes de mim mas dentro do mesmo campo de pesquisa.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha nada, n\u00e3o tinha experi\u00eancia, nunca tinha ouvido falar de justi\u00e7a restaurativa, n\u00e3o sabia o que era media\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica. Ent\u00e3o conhecer Marshall naquele momento foi uma salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O fato de ser o Rio de Janeiro \u00e9 interessante por ser, em muitos aspectos, uma cidade com muita viol\u00eancia, o que traz esse aspecto negativo\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Negativo e positivo. Eu sempre penso que o Rio \u00e9 o imagin\u00e1rio do Brasil. \u00c9 como se fosse uma fic\u00e7\u00e3o real que a gente tem do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o o conflito \u00e9 um aspecto natural da vida das pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que \u00e9 um aspecto saud\u00e1vel de qualquer rela\u00e7\u00e3o que vale a pena. Se vale a pena, em algum momento, a gente vai ter conflito.<\/p>\n<p><strong>Do que entendi, a sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 at\u00e9 para colocar um olhar positivo sobre o conflito. \u00c9 uma quest\u00e3o cultural evitar o conflito?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 cultural e n\u00e3o \u00e9 limitado ao Brasil. Se voc\u00ea pensar, at\u00e9 muito pouco tempo atr\u00e1s, voc\u00ea vivia sua realidade social de uma forma muito compartilhada. Se surgiam conflitos entre pessoas isso era um acontecimento significativo. Era uma ruptura no tecido social ser\u00edssima. Ent\u00e3o, por bons motivos, a gente aprendeu a considerar conflito como sendo algo muito impactante e potencialmente perigoso.<\/p>\n<p>Hoje em dia nossa realidade social \u00e9 diferente. A gente vive cada vez mais perto mas a lacuna, em termos de nossa experi\u00eancia de mundo, \u00e9 cada vez maior. O tecido social \u00e9 extremamente fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>Para voc\u00ea era golpe ou\u00a0<em>impeachment<\/em>? \u00c9 um mundo com uma diversidade de op\u00e7\u00f5es de opini\u00f5es muito diferentes. Se voc\u00ea quer viver democraticamente voc\u00ea precisa abra\u00e7ar exatamente o surgimento de diferentes ideias. Voc\u00ea precisa cultivar a possibilidade de diferen\u00e7as de diversidade e tudo mais. Voc\u00ea precisa fazer as pazes com o conflito. Conflito n\u00e3o \u00e9 mais um contexto de perigo que anuncia a chegada de viol\u00eancia. \u00c9 o oposto. O conflito \u00e9 aquilo que possibilita que todas as diversidades t\u00eam voz e t\u00eam vez. \u00c9 a avers\u00e3o ao conflito que cria o perigo. Quanto mais distante mesmo vivendo juntos e com saud\u00e1veis diferen\u00e7as de opini\u00e3o, mais alto voc\u00ea tem que falar para compensar a minha dist\u00e2ncia. Ent\u00e3o a gente est\u00e1 usando uma l\u00f3gica que pertence a uma realidade social totalmente distinta daquela que a gente diz que deseja.<\/p>\n<p>A gente tem uma cultura que tem muito medo de conflito. E quem teme conflito tem fantasias totalit\u00e1rias. Quem tem medo de conflito est\u00e1 sonhando ocultamente com a chegada de uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica. De um grande mandante que vai dar um basta, que vai impor ordem, que vai limpar aquilo que \u00e9 sujo, aquilo que \u00e9 confuso. E da\u00ed voc\u00ea come\u00e7a a desejar para o pa\u00eds pol\u00edticas p\u00fablicas que s\u00e3o totalmente totalit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a quest\u00e3o da nossa rela\u00e7\u00e3o com o conflito atualmente \u00e9 realmente uma quest\u00e3o de vida ou morte pensando na realiza\u00e7\u00e3o de um futuro democr\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es os conflitos, as diferen\u00e7as de opini\u00e3o, se acirraram de maneira a promover rompimentos entre familiares e amigos. E a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil est\u00e1 evidente. Voc\u00ea avalia que a elei\u00e7\u00e3o poderia ter sido amenizada se a Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta fosse mais presente no dia a dia das pessoas? Voc\u00ea trabalha pra isso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu mais ou menos trabalho para isso. Por que tem dois aspectos aqui. Um \u00e9 que eu quero a palavra p\u00fablica de volta. Por diferentes motivos hist\u00f3ricos esse poder foi cedido para o Estado e o Estado est\u00e1 demonstrando extrema dificuldade em dar conta dos anseios da popula\u00e7\u00e3o. Quando a gente troca de governo, a gente n\u00e3o espera transforma\u00e7\u00f5es significativas em v\u00e1rias quest\u00f5es b\u00e1sicas de nossa conviv\u00eancia di\u00e1ria. E essa ideia de que o Estado n\u00e3o est\u00e1 dando conta \u00e9 uma das influ\u00eancias por tr\u00e1s desse movimento mais recente na dire\u00e7\u00e3o da direita. A direita vem com esse discurso de diminuir o Estado mas n\u00e3o prop\u00f5e claramente o que vai ficar no lugar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando a gente constr\u00f3i sistemas sociais dial\u00f3gicos como, por exemplo, o sistema comunit\u00e1rio de justi\u00e7a restaurativa ou fazemos uma interven\u00e7\u00e3o dentro da justi\u00e7a formal para colocar mecanismos de di\u00e1logo, estamos em parte respondendo a isso. Eu n\u00e3o estou l\u00e1 como indiv\u00edduo oferecendo ou vendendo meu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 importante para que a Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta n\u00e3o seja cooptada como t\u00e9cnica ou metodologia para facilitar as coisas que n\u00e3o est\u00e3o funcionando. Por que meu prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 fazer com que os conflitos decorrentes das condi\u00e7\u00f5es em que a gente vive v\u00e3o embora. Eu n\u00e3o quero pacificar ou harmonizar aquilo que faz mal. Conflito \u00e9 um mecanismo de\u00a0<em>feedback<\/em>, ele est\u00e1 dando um retorno. Quero promover o di\u00e1logo que leve a mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es sociais dentro do qual essa dor surgiu. Por que os conflitos existem no mundo por um motivo e as dores e brigas est\u00e3o l\u00e1 exatamente pra lembrar a gente de que n\u00e3o estamos vivendo de uma forma sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>O conflito \u00e9 um alerta de uma situa\u00e7\u00e3o de inc\u00f4modo?<\/strong><\/p>\n<p>O conflito \u00e9 um mecanismo de retorno. Um aviso de que alguma coisa mudou e que a situa\u00e7\u00e3o atual est\u00e1 desatualizada. \u00c9 como aquela mensagem que aparece na tela do celular falando: voc\u00ea tem uma atualiza\u00e7\u00e3o, deseja instalar? E voc\u00ea tem um bot\u00e3o sim ou n\u00e3o. Conflito \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p><strong>Poderia contar algum caso que voc\u00ea tenha vivido de uso de Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta?<\/strong><\/p>\n<p>Seria legal dar um exemplo tanto intrapessoal, interpessoal e sist\u00eamico para n\u00e3o deixar as pessoas pensando que \u00e9 apenas um dos tr\u00eas. Ent\u00e3o, intrapessoalmente notei que vivendo aqui, assolado por tanta not\u00edcia desafiante, que se eu n\u00e3o tenho espa\u00e7o para reconectar com o significado que isso tem pra mim, vai come\u00e7ar a acumular em mim.<\/p>\n<p>E, muitas vezes, como resultado disso ou eu viro essa tens\u00e3o para dentro de mim, perco minha f\u00e9, minha esperan\u00e7a e isso me deprime ou come\u00e7o a descontar nas outras pessoas e me torno exatamente aquilo que tanto desgosto nos outros. Ent\u00e3o, uma pr\u00e1tica muito simples de n\u00e3o-viol\u00eancia que fortalece minha capacidade de viver alinhado com os valores que a gente compartilha \u00e9 ter um espa\u00e7o onde eu possa olhar para esses desafios. Por exemplo, posso fazer isso trocando uma certa qualidade de escuta com uma colega. E usando todos os sentimentos que surgem no meu dia a dia como pista para me ajudar a identificar quais s\u00e3o os princ\u00edpios, as necessidades humanas que compartilho com todos que n\u00e3o s\u00e3o atendidos por aquilo que estou vendo.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o que eu tive traz a ideia de que meus sentimentos s\u00e3o criados pelo comportamento dos outros. Ou seja, voc\u00ea me faz feliz, voc\u00ea me irrita. A gente fala essas frases como se realmente elas descrevessem um controle m\u00e1gico que a outra pessoa tem para cuidar do nosso bem estar ou mal estar. Mas isso n\u00e3o \u00e9 fato, a outra pessoa n\u00e3o me faz feliz ou n\u00e3o me irrita. O que me faz feliz \u00e9 quando o comportamento da outra pessoa est\u00e1 alinhado com aquilo que meu organismo precisa para estar bem.<\/p>\n<p>E o que me irrita \u00e9 quando o comportamento do outro sobre o que est\u00e1 acontecendo no mundo n\u00e3o est\u00e1 alinhado com isso.<\/p>\n<p>Interpessoalmente ter essa din\u00e2mica de cuidado comigo, n\u00e3o para fugir do mundo mas para engajar o mundo de uma forma mais sincera, mais completa, \u00e9 uma pr\u00e1tica de n\u00e3o-viol\u00eancia extremamente valiosa.<\/p>\n<p><strong>Pode dar um exemplo recente dessa pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s eu estava junto com duas pessoas que t\u00eam posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas radicalmente diferentes. S\u00e3o pessoas que voc\u00ea v\u00ea na televis\u00e3o, que tomam decis\u00f5es e que mudam a vida que voc\u00ea e eu temos, mas simplesmente n\u00e3o posso te dizer os nomes.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o pol\u00edticos?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o duas pessoas com influ\u00eancia pol\u00edtica. N\u00e3o tem cargo mas tem influ\u00eancia. Eu fiz uma pergunta muito b\u00e1sica, um convite para expressar com mais sinceridade do que o normal alguma coisa que estava mexendo com elas. E para o outro, pedi para ouvir. Normalmente, n\u00e3o queremos s\u00f3 falar, queremos falar e saber que voc\u00ea est\u00e1 me acompanhando, ouvindo, entendendo. E se voc\u00ea est\u00e1 em sil\u00eancio eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea est\u00e1 pensando. Ent\u00e3o pedi para essa pessoa n\u00e3o s\u00f3 ouvir, mas fazer um pequeno resumo do que estava ouvindo o outro dizer em certos momentos. Em 20 minutos, estavam rindo. Em 30 minutos, estavam se emocionando. Em 40 minutos, estavam abra\u00e7ados.<\/p>\n<p>Duvido muito que quando acordaram naquele dia imaginavam que estariam trocando essa qualidade de conex\u00e3o humana com uma pessoa cuja opini\u00e3o \u00e9 t\u00e3o drasticamente oposta ao do outro. Isso n\u00e3o \u00e9 um grande mist\u00e9rio, bruxaria ou t\u00e9cnica oculta. \u00c9 uma coisa que as sociedades humanas conhecem desde sempre, simplesmente a arte de aumentar o grau de sinceridade e de empatia na escuta.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o da empatia \u00e9 fundamental nesse processo da CNV?<\/strong><\/p>\n<p>Tanto o aumento da verdade quanto o aumento da empatia. Um sem o outro cria desequil\u00edbrio. Quando a gente fala de Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta estamos falando no equil\u00edbrio entre os dois. Na CNV, conex\u00e3o \u00e9 o meio e n\u00e3o o fim. O fim \u00e9 a a\u00e7\u00e3o que refor\u00e7a aquilo que serve a vida e transforma aquilo que n\u00e3o serve a vida. A empatia \u00e9 entendida como um dos nossos meios mais poderosos, para criar condi\u00e7\u00f5es para a mudan\u00e7a acontecer.<\/p>\n<p><strong>A sensa\u00e7\u00e3o que tenho, at\u00e9 pelo modo de vida que temos, pelo sistema que nos rege, \u00e9 que a empatia est\u00e1 retra\u00edda. Existe uma dificuldade de exercer a empatia?<\/strong><\/p>\n<p>Quero tomar cuidado com a palavra dificuldade. Parece uma patologia a aus\u00eancia de empatia. Na verdade, acho que \u00e9 uma resposta sensata a uma sociedade punitiva em que assumir seu poder, influ\u00eancia e capacidade de transformar \u00e9 perigoso.<\/p>\n<p><strong>Vou ilustrar: posso falar do n\u00famero de moradores de rua no centro de S\u00e3o Paulo que teve uma aumento substancial. Acabamos normalizando a realidade social. Isso \u00e9 fruto de uma s\u00e9rie de desigualdades que levam \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o. Mas se torna uma realidade em que a empatia se retra\u00ed, afinal, n\u00e3o damos conta de ajudar a todos\u2026<\/strong><\/p>\n<p>A gente se protege contra os sentimentos intensos. Porque o que angustia tanto quem pede esmola quanto quem recebe o pedido de esmola \u00e9 que a esmola \u00e9 pouco para transformar a realidade dessa pessoa. Voc\u00ea sabe que a esmola faz com que a pessoa sobreviva at\u00e9 o novo pedido de esmola. Ent\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o cansa nossa capacidade emp\u00e1tica porque cansa nossa f\u00e9 de que o que se faz est\u00e1 ajudando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta tem no seu terceiro aspecto pr\u00e1tico criar conversas que possibilitam que a gente comece a desenhar os novos conjuntos coletivos necess\u00e1rios para cuidar da nossa vida comunit\u00e1ria, de uma forma que n\u00e3o deixe as pessoas exclu\u00eddas de aprendizagem, de justi\u00e7a, de comida, seja qual for a lacuna sist\u00eamica que est\u00e1 gerando o comportamento que a gente gostaria de transformar.<\/p>\n<p><strong>As manifesta\u00e7\u00f5es pela educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o no foco do debate p\u00fablico. Voc\u00ea tamb\u00e9m trabalha com educa\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea v\u00ea esse momento pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito clara que atual estrat\u00e9gia nas pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o est\u00e1 satisfazendo as pessoas envolvidas. Eu trabalho bastante nas escolas, j\u00e1 fui professor de ensino fundamental, m\u00e9dio, trabalhei com secretaria de educa\u00e7\u00e3o, tenho uma filha. Eu n\u00e3o vejo alunos satisfeitos. N\u00e3o vejo professores saud\u00e1veis, bem cuidados. N\u00e3o vejo diretores de escola descansados e satisfeitos. N\u00e3o vejo tranquilidade nas Secretarias de Educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vejo tranquilidade no MEC. Ou seja, n\u00e3o vejo tranquilidade em ningu\u00e9m envolvido nesse sistema. Algo n\u00e3o est\u00e1 funcionando. As atuais estrat\u00e9gias n\u00e3o est\u00e3o satisfazendo o anseio das pessoas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, gostaria de um maior alinhamento entre esses anseios e o que \u00e9 feito na pr\u00e1tica. E isso s\u00f3 acontece se agente parar e escutar quem est\u00e1 sofrendo, quem est\u00e1 envolvido, quem est\u00e1 impactado. Pessoalmente, gostaria de come\u00e7ar escutando os pr\u00f3prios jovens. Desde o movimento dos secundaristas ocupando as escolas, que foi um fort\u00edssimo exemplo da n\u00e3o-viol\u00eancia levado a pr\u00e1tica, n\u00e3o tenho visto o que eles falaram surtir mudan\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>A justi\u00e7a \u00e9 um elemento de media\u00e7\u00e3o desde que o mundo \u00e9 mundo, praticamente. Por que s\u00f3 agora a puni\u00e7\u00e3o vem sendo repensada, talvez de forma t\u00edmida ainda, no caso da justi\u00e7a restaurativa, que agora deve existir em cada tribunal do pa\u00eds? Como a CNV se relaciona com isso e o que pode representar no longo prazo?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o m\u00faltiplos os fatores que nos levam a experimentar formas dial\u00f3gicas que permitem conflitos dolorosos ou violentos a se expressar sem aumentar sofrimento, mas sim reparando danos e restaurando rela\u00e7\u00f5es. Essa mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 nova. \u00c9 uma das formas que as comunidades ao redor do mundo usam desde sempre para cuidar da seguran\u00e7a e do tecido social.<\/p>\n<p>Hoje a complexidade e diversidade das nossas formas de viver, e a incapacidade do caminho litigioso de dar conta dos conflitos que surgem neste contexto, nos exige desenvolver novas maneiras de fazer o mais simples, que \u00e9 sentar com os envolvidos para entender como estamos, o que houve e o que queremos fazer para sarar os danos e diminuir a chance de algo ruim acontecer de novo.<\/p>\n<p>A Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta teve um papel central no desenvolvimento e implanta\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas restaurativas no Brasil \u2014 mais especificamente com a cria\u00e7\u00e3o de C\u00edrculos Restaurativos, desde sua origem nas favelas do Rio nos anos 1990 at\u00e9 sua implementa\u00e7\u00e3o nos sistemas formais de justi\u00e7a, de educa\u00e7\u00e3o e nas organiza\u00e7\u00f5es. Ela foi central em aprimorar os elementos de um sistema restaurativo, conceituar os participantes para al\u00e9m do bin\u00e1rio v\u00edtima e ofensor, o uso de perguntas, a defini\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo utilizada pelo facilitador e a precis\u00e3o do Plano de A\u00e7\u00e3o em que o C\u00edrculo resulta.<\/p>\n<p><strong>As m\u00eddias sociais s\u00e3o mais reativas do que dial\u00f3gicas, na sua opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Podemos dizer que o formato da maioria das m\u00eddias sociais atuais promove mais a debate do que o di\u00e1logo, sim.<\/p>\n<p><strong>Temos o exemplo das elei\u00e7\u00f5es, em que o formato promovia mais o debate e a n\u00e3o escuta. \u00c9 poss\u00edvel mudar essa l\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p>Precisamos experimentar para saber. As plataformas dominantes t\u00eam promovido um impressionante aumento de express\u00e3o. Resta agora estimularem igualmente a escuta.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel mudar essa l\u00f3gica num sistema em que o outro n\u00e3o costuma ser a prioridade?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez a \u00fanica resposta honesta poss\u00edvel para esta pergunta neste momento \u00e9 que n\u00e3o sabemos. Por\u00e9m, se vamos sobreviver \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e tecnol\u00f3gicas em curso de uma forma ou outra n\u00f3s vamos precisar descobrir. A aus\u00eancia de di\u00e1logo \u2014 com n\u00f3s mesmos, com o outro, na sociedade \u2014 est\u00e1 produzindo formas de viver insustent\u00e1veis. N\u00e3o h\u00e1 futuro coletivo sem di\u00e1logo.<\/p>\n<p>https:\/\/apublica.org\/2019\/06\/dominic-barter-nossa-cultura-tem-medo-do-conflito\/?mc_cid=ec75ae5168&#038;mc_eid=78072acdf5<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Thiago Domenici &#8211; Pesquisador social da Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta afirma que para viver em democracia \u00e9 preciso fazer as pazes com o conflito e que a avers\u00e3o a ele \u00e9 que cria perigo. \u201cContraintuitivamente se eu fizesse aquilo que me dava mais medo eu iria, na verdade, me tornar mais seguro\u201d, comenta o brit\u00e2nico Dominic Barter [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10857,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[54],"class_list":["post-10856","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","tag-comportamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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