{"id":10845,"date":"2019-06-11T16:43:38","date_gmt":"2019-06-11T19:43:38","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10845"},"modified":"2019-06-10T22:46:46","modified_gmt":"2019-06-11T01:46:46","slug":"hannah-arendt-e-a-guerra-pela-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/06\/11\/hannah-arendt-e-a-guerra-pela-verdade\/","title":{"rendered":"Hannah Arendt e a guerra pela verdade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Renato Francisquini &#8211; <\/strong>Nazismo \u00e9 de esquerda? Houve golpe em 1964? Revisionismo hist\u00f3rico \u00e9 usado para sustentar governos autorit\u00e1rios. Fil\u00f3sofa explica: \u201cfalsas verdades\u201d s\u00e3o perversas porque nos desorientam no mundo real. Podemos combat\u00ea-las?<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, assistimos at\u00f4nitos \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de um sem n\u00famero de narrativas cuja rela\u00e7\u00e3o com os fatos n\u00e3o passa, para dizer o m\u00ednimo, de pura especula\u00e7\u00e3o. Por certo, n\u00e3o se trata de fen\u00f4meno in\u00e9dito ou exclusivo do contexto atual, marcado pela quebra do monop\u00f3lio da imprensa tradicional na difus\u00e3o de not\u00edcias e na interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. Mas, parece \u00f3bvio que o aparecimento das novas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o, ao permitir que todos os que t\u00eam um teclado na m\u00e3o e uma ideia na cabe\u00e7a possam divulgar a sua vers\u00e3o dos acontecimentos, contribuiu para uma abund\u00e2ncia de verdades sobre os fatos. Longe de mim afirmar que a amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero e da diversidade de pontos de vista seja algo ruim em si.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que se reclamava a quebra do monop\u00f3lio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa e do jornalismo profissional sobre a fun\u00e7\u00e3o de vigiar o poder e dar visibilidade aos conflitos que, de outra sorte, repousariam na obscuridade do mundo privado e suas rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder. A quest\u00e3o que se coloca no presente \u00e9 justamente a de entender em que medida a atual configura\u00e7\u00e3o se equilibra entre a alvissareira pluralidade de olhares e vozes e o uso pol\u00edtico dos novos meios com o intuito de espalhar boatos e mentiras deliberadas.<\/p>\n<p>O espantoso alastramento de not\u00edcias falsas, p\u00f3s e autoverdades<sup>[1]<\/sup>, bem como a sua capacidade de influenciar a forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, tem posto em xeque as percep\u00e7\u00f5es primeiras sobre o impacto, supostamente positivo, das m\u00eddias e redes sociais sobre a comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. S\u00e3o escassas ainda as conclus\u00f5es sobre a vulnerabilidade dos indiv\u00edduos \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o arquitetada para favorecer determinados atores pol\u00edticos e os interesses que representam. Claro est\u00e1, por\u00e9m, que as m\u00eddias e redes sociais s\u00e3o hoje uma das fontes de informa\u00e7\u00e3o mais importantes para a constitui\u00e7\u00e3o de um sentido sobre a realidade, sobretudo entre os jovens<sup>[2]<\/sup>.<\/p>\n<p>Em cen\u00e1rios de forte polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de uso crescente das novas tecnologias, encontramos espa\u00e7o aberto para a propaga\u00e7\u00e3o de conte\u00fados que contradizem aquilo que Hannah Arendt denominou \u201cverdades factuais\u201d<sup>\u00a0[3]<\/sup>. Muito embora n\u00e3o seja poss\u00edvel aferir quantitativamente a magnitude da difus\u00e3o desses conte\u00fados, parece evidente, pelo trabalho de ag\u00eancias de checagem<sup>[4]<\/sup>\u00a0e por seu impacto sobre resultados eleitorais, que se trata de um fen\u00f4meno contempor\u00e2neo central e, por isso tamb\u00e9m, \u00e1rea em que carecemos de pesquisas mais aprofundadas.<\/p>\n<p>Ainda que seja cedo para precisar as consequ\u00eancias da transmiss\u00e3o desse tipo de conte\u00fado, podemos especular sobre o tipo de ambiente comunicativo que tende a se constituir em um cen\u00e1rio infestado por tentativas de reescrever a hist\u00f3ria e subverter os fatos, e quais seriam suas poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es para a democracia que devemos continuamente buscar construir. Notadamente desde a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, esfor\u00e7os semelhantes foram feitos para entender a corrup\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica causada pelo espraiamento de \u201cfatos alternativos\u201d. Boa parte dessas an\u00e1lises lan\u00e7a luz sobre a capacidade dessa a\u00e7\u00e3o em influenciar os eleitores, fomentando agendas e criando enquadramentos que favorecem determinadas for\u00e7as pol\u00edticas nos processos eleitorais (veja, por exemplo, o efeito causado pelo famigerado \u201ckit gay\u201d, que, mesmo tendo sido proibido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), continuou sendo usado pela campanha de Jair Bolsonaro (PSL) nas elei\u00e7\u00f5es de 2018). Gostaria, contudo, de pensar nas consequ\u00eancias mais profundas da propaga\u00e7\u00e3o dessas narrativas sobre o regime democr\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>.\u00a0 .\u00a0 .<\/strong><\/p>\n<p>Os fatos, nos diz Arendt, \u201cs\u00e3o entidades infinitamente mais fr\u00e1geis que os axiomas, as descobertas e as teorias \u2013 ainda que os mais desvairadamente especulativos \u2013 produzidas pelo esp\u00edrito humano\u201d. Esses eventos est\u00e3o \u201cno campo das ocupa\u00e7\u00f5es dos homens, em sempiterna mudan\u00e7a, em cujo fluxo n\u00e3o h\u00e1 nada mais permanente do que a perman\u00eancia, reconhecidamente relativa, da estrutura da mente humana\u201d (Arendt, 2007).<\/p>\n<p>Se reconhecemos a falibilidade da nossa raz\u00e3o, cujo resultado natural \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de uma diversidade de doutrinas e cren\u00e7as, ao mesmo tempo irreconcili\u00e1veis e incomensur\u00e1veis, a fragilidade das verdades factuais torna-se ainda mais evidente. N\u00e3o \u00e9 por mera coincid\u00eancia que boa parte dos esfor\u00e7os para difundir mentiras deliberadas se vale do pluralismo para fazer coincidir as narrativas dos eventos \u00e0 sua interpreta\u00e7\u00e3o, contribuindo para o obscurecimento da linha, j\u00e1 por si mesma t\u00eanue, que demarca a diferen\u00e7a entre verdade e opini\u00e3o.<\/p>\n<p>As verdades dos fatos s\u00e3o os fios que constituem a urdidura da pol\u00edtica em um regime democr\u00e1tico. N\u00e3o \u00e9 por outra raz\u00e3o que o poder autorit\u00e1rio, quando se lan\u00e7a \u00e0 falsifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica em prol de seus interesses, se dirige diretamente a essas verdades. Sem afastar a possibilidade, sempre a nos espreitar, de haver erros hist\u00f3ricos, e por mais problem\u00e1tico que essa afirma\u00e7\u00e3o possa parecer, os fatos se prestam muito menos ao desacordo do que as opini\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es que se fazem sobre eles. Refiro-me aqui a fatos como o de que a Terra \u00e9 redonda, eventos tais como o golpe de 1964, a ditadura civil-militar que perdurou por mais de 20 anos, o Holocausto ou mesmo a orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do nazifascismo, para ficar apenas em exemplos recentes. Diante da profus\u00e3o contempor\u00e2nea de falsifica\u00e7\u00f5es deliberadas, fica a impress\u00e3o de que somos incapazes de compreender certa inflexibilidade inerente \u00e0 verdade factual.<\/p>\n<p>Admitindo que as falsifica\u00e7\u00f5es produzidas refletem quest\u00f5es de inconteste import\u00e2ncia pol\u00edtica, como a natureza de um regime pol\u00edtico ou mesmo o uso contumaz da viol\u00eancia para abafar a oposi\u00e7\u00e3o, torna-se evidente que est\u00e1 posta em d\u00favida a realidade comum, que \u00e9 o ch\u00e3o sobre o qual podemos nos mover no debate p\u00fablico sobre temas do presente e sobre o nosso futuro. Verdades, opini\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es pertencem ao mesmo dom\u00ednio, que \u00e9 o campo propriamente afeito \u00e0 pol\u00edtica, \u00e2mbito do desacordo perene e da constru\u00e7\u00e3o de consensos poss\u00edveis. No entanto, o fato de pertencerem ao mesmo dom\u00ednio n\u00e3o pode nos impedir de estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre elas: afirmar que todos os eventos dependem de uma interpreta\u00e7\u00e3o e que sobre eles pode haver diversas opini\u00f5es e que estas n\u00e3o s\u00e3o, em absoluto, autoevidentes, n\u00e3o constitui raz\u00e3o suficiente para descartar que as interpreta\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es n\u00e3o podem fazer desaparecer por completo a mat\u00e9ria factual sobre a qual s\u00e3o feitas e \u00e0 qual se dirigem.<\/p>\n<p><strong>.\u00a0 .\u00a0 .<\/strong><\/p>\n<p>Embora a verdade dos fatos seja a mat\u00e9ria de que se constituem as opini\u00f5es, ao contr\u00e1rio destas, aquela n\u00e3o \u00e9 discursiva e, por isso, n\u00e3o \u00e9 completamente transparente. Recusa-se a ser iluminada pelo processo comunicativo em que se originam as opini\u00f5es. A opacidade obstinada dos fatos sobrev\u00e9m de n\u00e3o haver uma raz\u00e3o definitiva para serem o que s\u00e3o, ou por sua conting\u00eancia intr\u00ednseca. A verdade factual n\u00e3o \u00e9 mais evidente do que a opini\u00e3o, e talvez por isso muitos dos que sustentam uma opini\u00e3o encontram relativa facilidade em negar os fatos ou equipar\u00e1-los \u00e0 opini\u00e3o (\u00e0 sua opini\u00e3o e \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o que lhes favorece). As evid\u00eancias que conformam a verdade dos fatos s\u00e3o fruto de testemunhos, documentos, obras, monumentos, dos quais sempre se pode duvidar sem que haja uma inst\u00e2ncia superior \u00e0 qual recorrer. Isto \u00e9, a verdade factual n\u00e3o tem uma origem transcendente.<\/p>\n<p>O oposto da verdade dos fatos n\u00e3o \u00e9, portanto, a opini\u00e3o ou a interpreta\u00e7\u00e3o, mas a falsidade deliberada, cuja inten\u00e7\u00e3o \u00e9, via de regra, modificar algo no mundo. O mentiroso se vale da afinidade que existe entre a capacidade tipicamente humana do agir, de transformar a realidade, e a capacidade de mentir, tamb\u00e9m inerentemente humana: \u201co simples fato de podermos mudar as circunst\u00e2ncias sob as quais vivemos se deve ao fato de sermos relativamente livres delas, e dessa liberdade \u00e9 que se abusa, pervertendo-a atrav\u00e9s da mendacidade\u201d (Arendt,\u00a0<em>op. cit.<\/em>).<\/p>\n<p>As falsas narrativas n\u00e3o possuem uma rela\u00e7\u00e3o com os fatos, o que permite ao mentiroso concatenar os argumentos da forma que lhe aprouver. Fica claro, portanto, a sua vantagem sobre quem pretende relatar a verdade, pois, por vezes, a mentira deliberada parecer\u00e1 mais veross\u00edmil, mais l\u00f3gica talvez, do que a sua alternativa. Num contexto de abund\u00e2ncia da falsidade, espraiada pelas redes e m\u00eddias sociais, a nossa capacidade de refuta\u00e7\u00e3o vai se tornando paulatinamente mais fraca, uma vez que se esgar\u00e7a a pr\u00f3pria tessitura factual da realidade \u2013 o que torna, em muitos aspectos, o relato da verdade um ato pol\u00edtico em si.<\/p>\n<p>Quando assistimos aos que ocupam espa\u00e7os no poder pol\u00edtico ultrapassando os limites do Twitter \u2013 onde t\u00eam plena liberdade para expor as mais absurdas mentiras e j\u00e1 h\u00e1 algum tempo as v\u00eam fazendo proliferar organizadamente \u2013 e propondo a substitui\u00e7\u00e3o dos livros de hist\u00f3ria e o cerceamento da produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sociais, adentramos um terreno ainda mais perigoso. Afinal, a que interesses servem afirmar que em 1964 houve um \u201cmovimento\u201d e n\u00e3o um golpe de Estado? O que justifica esconder que esse golpe inaugurou uma ditadura que torturou e assassinou seus opositores, e que sequer foi capaz, at\u00e9 o presente, de assumir os crimes b\u00e1rbaros que cometeu? Por que raz\u00e3o \u00e9 importante sustentar que o nazifascismo pertencia ao espectro ideol\u00f3gico da esquerda? Quem ser\u00e1 beneficiado pelo enfraquecimento dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o de indicadores sociais?<\/p>\n<p>Como nos mostram Steven Levistsky e Daniel Ziblatt (2018), o fenecimento das democracias contempor\u00e2neas n\u00e3o depende mais de tanques nas ruas e da elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos que se op\u00f5em ao governo, ainda que essa estrat\u00e9gia n\u00e3o esteja completamente descartada. A recess\u00e3o democr\u00e1tica que parecemos assistir em pa\u00edses como a Hungria, a Pol\u00f4nia, os EUA e o Brasil, vem \u00e0 tona por meio das pr\u00f3prias regras formais do jogo democr\u00e1tico, por l\u00edderes eleitos em processos que respeitam aparentemente os ritos legais: \u201co paradoxo tr\u00e1gico da via eleitoral para o autoritarismo \u00e9 que os assassinos da democracia usam as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es da democracia \u2013 gradual, sutil e mesmo legalmente \u2013 para mat\u00e1-la\u201d (Levitsky e Ziblatt,\u00a0<em>op. cit<\/em>.).<\/p>\n<p>Governantes que ascendem ao poder se valendo de discursos populistas nem sempre tomam medidas autorit\u00e1rias, mas um sinal claro de que podem faz\u00ea-lo aparece justamente quando prestamos aten\u00e7\u00e3o ao que dizem. A estrat\u00e9gia parece se repetir: Viktor Orb\u00e1n, Jaros\u0142aw Kaczy\u0144ski, Trump ou Bolsonaro atacam a hist\u00f3ria e a verdade dos fatos de modo a favorecer seus interesses pol\u00edticos. Para ficar apenas no caso brasileiro, ao determinar a \u201ccelebra\u00e7\u00e3o\u201d do golpe de 1964<sup>[5]<\/sup>, Bolsonaro pretende reivindicar para si e seu governo o legado de um regime que ele sugere ter salvado a democracia brasileira. Nesse surto de revisionismo hist\u00f3rico, a mentira deliberada \u00e9 apresentada como um fato incontest\u00e1vel, a exigir que os livros de hist\u00f3ria, contaminados pelo espantalho do chamado \u201cmarxismo cultural\u201d, sejam descartados. Tendo a pol\u00edtica uma dimens\u00e3o simb\u00f3lica fundamental, simbolicamente tal estrat\u00e9gia tem consequ\u00eancias nefastas para a toler\u00e2ncia m\u00fatua sobre a qual se erige um regime democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>No longo prazo, esse esfor\u00e7o por substituir a verdade dos fatos por vers\u00f5es falsas, gera uma esp\u00e9cie de cinismo generalizado, que passa a se manifestar em rela\u00e7\u00e3o a qualquer fato ou evento hist\u00f3rico, por mais estabelecido que este tenha sido. Em outras palavras, \u201co resultado de uma substitui\u00e7\u00e3o coerente e total da verdade dos fatos por mentiras n\u00e3o \u00e9 passarem estas a ser aceitas como verdade, e a verdade ser difamada como mentira, por\u00e9m um processo de destrui\u00e7\u00e3o do sentido mediante o qual nos orientamos no mundo real \u2013 incluindo-se entre os meios mentais para esse fim a capacidade de oposi\u00e7\u00e3o entre verdade e falsidade\u201d (Arendt,\u00a0<em>op. cit<\/em>).<\/p>\n<p>Apenas o futuro est\u00e1 aberto \u00e0s consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o humana. O passado e o presente s\u00e3o a for\u00e7a estabilizadora do dom\u00ednio da pol\u00edtica. Quando s\u00e3o tratados como potencialidades, o passado e o presente s\u00e3o deslocados para o futuro, o que faz com que percamos o ponto de partida a partir do qual poder\u00edamos agir. H\u00e1 um caminho muito estreito que devemos tentar seguir, entre a naturaliza\u00e7\u00e3o dos fatos (a sua interpreta\u00e7\u00e3o como um destino manifesto, como na trag\u00e9dia grega) e o risco de tentar simplesmente negar a sua l\u00f3gica ou substitu\u00ed-los por mitos que servem aos nossos interesses pol\u00edticos mais imediatos.<\/p>\n<p><strong>.\u00a0 .\u00a0 .<\/strong><\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o para evitar t\u00e3o indesej\u00e1veis desvios passa necessariamente pelo ato pol\u00edtico de proteger certas narrativas da subvers\u00e3o deliberada dos que ora ocupam o poder. Isso n\u00e3o pode ser realizado sen\u00e3o pela defesa das institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas que desenvolvemos historicamente a fim de produzir conhecimento t\u00e3o fidedigno quanto poss\u00edvel sobre a realidade. N\u00e3o \u00e9 por mero acaso que observamos em nosso tempo um ataque t\u00e3o obstinado \u00e0 imprensa livre, \u00e0s universidades e \u00e0s artes. Elas representam os diques que erguemos contra a substitui\u00e7\u00e3o pura e simples da hist\u00f3ria por falsifica\u00e7\u00f5es decretadas pelos poderes de plant\u00e3o. Tais institui\u00e7\u00f5es fomentam e robustecem o debate p\u00fablico, o que talvez n\u00e3o seja poss\u00edvel no ambiente virtual, em que as pessoas tendem a absorver informa\u00e7\u00f5es e perspectivas que, no mais das vezes, apenas refor\u00e7am os seus pr\u00f3prios pontos de vista.<\/p>\n<p>O dilema \u00e9 que, embora sejam institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas que emergem do reconhecimento, por parte da sociedade, da import\u00e2ncia de haver entidades capazes de fiscalizar, controlar e orientar o poder que estejam fora do dom\u00ednio pol\u00edtico do Estado, para funcionarem a contento, ela dependem de um governo democr\u00e1tico, que respeite as liberdades de express\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o, os direitos \u00e0 dignidade e \u00e0 autonomia. N\u00e3o \u00e9 certo ainda que o governo Bolsonaro ir\u00e1 ultrapassar o dom\u00ednio das palavras transmitidas semanalmente por meio de\u00a0<em>lives<\/em>\u00a0e, de fato, sufocar as universidades p\u00fablicas e as artes e restringir a livre express\u00e3o de ideias e a liberdade de imprensa. Mas a sinaliza\u00e7\u00e3o \u00e9, decerto, preocupante e deveria acender um alerta para a necessidade de se erguer contra o antiliberalismo ora nascente.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o social da realidade \u00e9 maior do que a soma dos fatos e acontecimentos, pois a sua compreens\u00e3o e legitimidade dependem fundamentalmente da maneira pela qual tais eventos nos s\u00e3o apresentados. Os respons\u00e1veis por contar a verdade dos fatos, o jornalista, o historiador, o romancista, s\u00e3o, por excel\u00eancia, contadores de hist\u00f3rias: \u201cA transforma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria-prima de pura ocorr\u00eancia, que o historiador, assim como o ficcionista (\u2026), deve efetivar, \u00e9 bem an\u00e1loga \u00e0 transfigura\u00e7\u00e3o pelo poeta dos estados ou atividades do cora\u00e7\u00e3o \u2013 do pesar em lamento ou do j\u00fabilo em louvor\u201d (Arendt,\u00a0<em>op. cit.<\/em>).<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do narrador, seja qual for o seu papel espec\u00edfico, consiste em apresentar os fatos e nos convencer de sua veracidade. Quando realizada de forma bem-sucedida, essa tarefa nos permite desenvolver adequadamente a capacidade do julgamento, independentemente da interpreta\u00e7\u00e3o que venhamos a fazer dos acontecimentos. Para que isso seja poss\u00edvel, \u00e9 fundamental que o contador de hist\u00f3rias esteja livre das amarras impostas pelo poder pol\u00edtico e pelos poderes sociais.<\/p>\n<p>Apenas respeitando e defendendo os mecanismos respons\u00e1veis pela constitui\u00e7\u00e3o de algo a que possamos chamar de comunidade, teremos condi\u00e7\u00f5es de cerzir o tecido j\u00e1 t\u00e3o esfarrapado das nossas rela\u00e7\u00f5es sociais. A prolifera\u00e7\u00e3o das mentiras deliberadas por meio das novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o no intuito de promover determinados interesses pol\u00edticos, para normalizar um regime que cerceia as liberdades e silencia a oposi\u00e7\u00e3o, faz ruir a pr\u00f3pria comunidade em um mar de cinismo e nega\u00e7\u00e3o. Na aus\u00eancia de um campo comum, do comum que nos mant\u00e9m amalgamados, como afirmou Eliane\u00a0Brum<sup>[6]<\/sup>, torna-se impratic\u00e1vel qualquer forma de a\u00e7\u00e3o, seja para imaginar o futuro, ou mesmo para evitar a trag\u00e9dia no presente.<\/p>\n<p><sup>[1]<\/sup>\u00a0Ver:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/16\/politica\/1531751001_113905.html\">https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/16\/politica\/1531751001_113905.html<\/a>.<\/p>\n<p><sup>[2]<\/sup>\u00a0Regina Marchi (2012) afirma que parte significativa dos jovens norte-americanos com menos de 30 anos n\u00e3o t\u00eam o h\u00e1bito de ler jornais ou se informar por fontes do jornalismo tradicional (embora n\u00e3o haja dados para o Brasil, \u00e9 de se esperar que o fen\u00f4meno seja ainda mais agudo em um contexto de pouco h\u00e1bito de leitura em geral)..<\/p>\n<p><sup>[3]<\/sup>\u00a0Biller, D. 2018. Fake News Risks Plaguing Brazil Elections, Top Fact-Checkers Say. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/\">https:\/\/www.bloomberg.com\/<\/a>\u00a0news \/ articles \/ 2018 \u2013 01 \u2013 09 \/ fake \u2013 news \u2013 risks \u2013 plaguing \u2013 brazil \u2013 elections \u2013 top \u2013 fact \u2013 checkers \u2013 say. Acesso em 27 de mar\u00e7o de 2019.<\/p>\n<p><sup>[4]<\/sup>\u00a0Ver, por exemplo, Ag\u00eancia Lupa (<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/lupa\/\">https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/lupa\/<\/a>), Aos Fatos (<a href=\"https:\/\/aosfatos.org\/\">https:\/\/aosfatos.org\/<\/a>) e Fato ou Fake (<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/fato-ou-fake\/\">https:\/\/g1.globo.com\/fato-ou-fake\/<\/a>).<\/p>\n<p>[5]Ou quando elogia as ditaduras de Augusto Pinochet (Chile), Alberto Fujimori (Peru) e Alfredo Stroessner (Paraguai).<\/p>\n<p><sup>[6]<\/sup>\u00a0https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/10\/opinion\/1554907780_837463.html<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong>:<\/p>\n<p>ARENDT. Hannah. \u201cVerdade e Pol\u00edtica\u201d. In:\u00a0<strong>Entre o passado e o futuro<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2007.<\/p>\n<p>LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel.\u00a0<strong>Como as democracias morrem<\/strong>. (trad. Renato Aguiar). Rio de Janeiro: Zahar, 2018.<\/p>\n<p>MARCHI, Regina. With Facebook, Blogs and Fake News, Teens Reject \u201cJournalism Objectivity.\u00a0<strong>Journal of Communication Inquiry<\/strong>, 36 (3), 2012, pp. 246-262.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"C2TYkgTXgt\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/hanna-arendt-e-a-guerra-pela-verdade\/\">Hannah Arendt e a guerra pela verdade<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Hannah Arendt e a guerra pela verdade&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/hanna-arendt-e-a-guerra-pela-verdade\/embed\/#?secret=6ufoIIxcdr#?secret=C2TYkgTXgt\" data-secret=\"C2TYkgTXgt\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Francisquini &#8211; Nazismo \u00e9 de esquerda? 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