{"id":10827,"date":"2019-06-07T21:31:20","date_gmt":"2019-06-08T00:31:20","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10827"},"modified":"2019-06-07T21:31:20","modified_gmt":"2019-06-08T00:31:20","slug":"o-racismo-da-academia-apagou-a-historia-de-dandara-e-luisa-mahin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/06\/07\/o-racismo-da-academia-apagou-a-historia-de-dandara-e-luisa-mahin\/","title":{"rendered":"O RACISMO DA ACADEMIA APAGOU A HIST\u00d3RIA DE DANDARA E LUISA MAHIN"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ale Santos<\/strong> &#8211; Este texto \u00e9 uma resposta\u00a0<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2019\/06\/03\/dandara-luisa-mahin-panteao-patria\/\">\u00e0 historiadora Ana Lucia Araujo<\/a>, que considera perigosa a inclus\u00e3o\u00a0no Pante\u00e3o da P\u00e1tria\u00a0de\u00a0guerreiras cuja exist\u00eancia n\u00e3o teria sido provada. O projeto, aprovado pelo Senado, ainda depende da aprecia\u00e7\u00e3o do presidente.<\/p>\n<p>A ESCRAVID\u00c3O INTERROMPEU\u00a0a hist\u00f3ria da \u00c1frica e de seus descendentes, roubando s\u00e9culos de produ\u00e7\u00e3o intelectual em troca de trabalho for\u00e7ado. O Brasil s\u00f3 aboliu a escravid\u00e3o h\u00e1 menos de 131 anos e \u00e9 natural ver alguns nomes de her\u00f3is afro-brasileiros sendo reconhecidos cada vez mais no Pante\u00e3o da P\u00e1tria, um memorial c\u00edvico inaugurado em 1986 para homenagear personalidades brasileiras.<\/p>\n<p>No \u201cLivro dos her\u00f3is e hero\u00ednas da p\u00e1tria\u201d, j\u00e1 constam nomes como Lu\u00eds Gama, Anita Garibaldi, Zumbi dos Palmares e Heitor Villa-Lobos. Recentemente, o Senado aprovou a inclus\u00e3o de duas lideran\u00e7as negras: Dandara, l\u00edder quilombola que articulava as estrat\u00e9gias de Palmares ao lado do marido, Zumbi, e Luisa Mahin, considerada uma das maiores lideran\u00e7as negras contra a escravid\u00e3o na Bahia do s\u00e9culo 19, m\u00e3e do abolicionista Lu\u00eds Gama. Ambas s\u00e3o s\u00edmbolos da luta feminina contra a escravid\u00e3o.<\/p>\n<div data-reactid=\"168\">\n<p>Assim como a maior parte dos personagens negros, o nome dessas duas guerreiras \u00e9 envolto em pol\u00eamica. Historiadores desconectados da realidade negra questionam as fontes que comprovam a exist\u00eancia dessas mulheres porque s\u00f3 h\u00e1 relatos esparsos das suas vidas. Ambas acabaram alvos do desinteresse de historiadores da \u00e9poca, e ainda hoje existe uma dificuldade imensa em recuperar suas biografias por n\u00e3o haver um esfor\u00e7o em catalogar e analisar a tradi\u00e7\u00e3o oral como fonte historiogr\u00e1fica. A maior parte da vida de Dandara, por exemplo, sobreviveu na forma de lendas,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.palmares.gov.br\/?p=33387\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">segundo a Funda\u00e7\u00e3o Palmares<\/a>. N\u00e3o h\u00e1 registros do local onde nasceu, tampouco da sua ascend\u00eancia africana.<\/p>\n<p>N\u00e3o sobraram evid\u00eancias f\u00edsicas sobre a Dandara ap\u00f3s o ataque a Palmares.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/537524-descrita-como-heroina-dandara-mulher-de-zumbi-tem-biografia-cercada-de-incertezas?fbclid=IwAR3Yqf7iIeCnkd6xxPhnlG98NLUvb22Gr3QyObu3QmB7hvHq5u_T_eYOk8A\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nos poucos registros<\/a>, sabe-se que ela chegou no quilombo ainda menina e participava tanto das atividades corriqueiras, como ca\u00e7a ou agricultura, quanto das atividades de defesa e combate pelo quilombo. Ao ser presa, em 1694, decidiu que nunca seria escravizada e se jogou de uma pedreira para o abismo.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/06\/ale-03-1559668980.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"size-article-large wp-image-253115 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/06\/ale-03-1559668980.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"ale-03-1559668980\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\"><em>Ilustra\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Gama e sua m\u00e3e Lu\u00edsa Mahin<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>A m\u00e3e de Lu\u00eds Gama \u00e9 tratada da mesma maneira pela hist\u00f3ria. N\u00e3o existem registros oficiais de suas participa\u00e7\u00f5es nos levantes baianos. O primeiro documento que descreve Luisa \u00e9 uma carta do abolicionista endere\u00e7ada ao jornalista L\u00facio de Mendon\u00e7a. A exist\u00eancia de Luisa Mahin \u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/www.africaeafricanidades.com.br\/documentos\/13052011-08.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">comprovada na descri\u00e7\u00e3o de seu filho Lu\u00eds Gama<\/a>.<\/p>\n<p>Segundo a historiadora Ligia Fonseca Ferreira, \u201ca riqueza de detalhes e o testemunho pessoal atribuem veracidade a narra\u00e7\u00e3o de Gama, ampliando as possibilidades de aceita\u00e7\u00e3o da personagem\u201d. Luisa pertencia \u00e0 na\u00e7\u00e3o nag\u00f4-jeje, origin\u00e1ria do Golfo do Benin. Era do povo Mahin, da\u00ed seu sobrenome. Ela sempre negou o batismo e manteve suas tradi\u00e7\u00f5es africanas acima das doutrinas crist\u00e3s. Sua casa teria sido o quartel general da Revolta dos Mal\u00eas em 1835.<\/p>\n<p>A falta desses registros em papel, que nunca seriam obtidos de modo f\u00e1cil ou que sequer existam, gera um questionamento que, a meu ver, \u00e9 a face de um preconceito secular na historiografia, tema abordado em \u201cHist\u00f3ria Geral da \u00c1frica I\u201d por Joseph Ki-Zerbo, um dos mais respeitados historiadores africanos. Segundo Ki-Zerbo, os estere\u00f3tipos raciais criadores de desprezo est\u00e3o t\u00e3o profundamente consolidados que corromperam inclusive os pr\u00f3prios conceitos da historiografia.<\/p>\n<p>A inscri\u00e7\u00e3o dessas duas mulheres no Pante\u00e3o da P\u00e1tria n\u00e3o \u00e9 apenas um reconhecimento das figuras hist\u00f3ricas, mas significa uma pequena ruptura na historiografia com vi\u00e9s colonial, um passo em dire\u00e7\u00e3o a valoriza\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o negra-brasileira como uma entidade hist\u00f3rica. Isso contribui para a constru\u00e7\u00e3o e fortalecimento da consci\u00eancia \u00e9tnica do povo afro-brasileiro. Sem isso, negros e ind\u00edgenas seguir\u00e3o a merc\u00ea da vis\u00e3o de quem os manteve cativos, exatamente como diz um famoso ditado africano: \u201cAt\u00e9 que os le\u00f5es tenham seus pr\u00f3prios historiadores, as hist\u00f3rias de ca\u00e7a seguir\u00e3o glorificando o ca\u00e7ador.\u201d<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/06\/ale-00-1559661214.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-article-large wp-image-253068\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/06\/ale-00-1559661214.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"ale-00-1559661214\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\"><em>Retrato de Machado de Assis<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Negros que n\u00e3o se achavam negros<\/strong><\/p>\n<p>Esses estere\u00f3tipos a que Ki-Zerbo se refere surgiram de forma mais intensa nas produ\u00e7\u00f5es brasileiras do s\u00e9culo 19. Apesar da exist\u00eancia de uma pequena e importante elite intelectual negra, representada por nomes como Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, Joaquim Nabuco e Machado de Assis, ela estava envolta em uma sociedade em busca do branqueamento. Joaquim Nabuco, por exemplo, sequer se considerava negro e dizia que Machado de Assis tamb\u00e9m n\u00e3o era. O racismo influenciou, portanto, toda a produ\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Raimundo Nina Rodrigues \u2013 que d\u00e1 nome at\u00e9 hoje ao IML de Salvador e a um hospital em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o \u2013 se tornou um dos maiores expoentes do preconceito racial. Em sua obra \u201cOs africanos no Brasil\u201d. publicada em 1932, defendeu que, apesar de um mesti\u00e7o ou negro livre parecer inteligente, n\u00e3o se pode esquecer da sua condi\u00e7\u00e3o e realidade social:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cN\u00e3o o pode deter a confus\u00e3o pueril entre o valor cultural de uma ra\u00e7a e as virtudes privadas de certas e determinadas pessoas. Se conhecemos homens negros ou de cor de indubit\u00e1vel merecimento e credores de estima e respeito, n\u00e3o h\u00e1 de obstar esse fato o reconhecimento desta verdade \u2014 que at\u00e9 hoje n\u00e3o se puderam os negros constituir [sic] em povos civilizados.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel encontrar trechos de livros ou mat\u00e9rias de jornais expressando o preconceito de maneira descarada durante toda a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e mesmo depois. \u00c9 muito dif\u00edcil imaginar qualquer autor, historiador e antrop\u00f3logo vivendo no in\u00edcio da Rep\u00fablica ou sendo influenciado por grandes personalidades (eugenistas) brasileiras, sem que tenha absorvido sua apatia, preconceito e desprezo pela produ\u00e7\u00e3o cultural da di\u00e1spora negra \u2013 vide Gilberto Freyre descrevendo de forma fria e quase romantizada as rela\u00e7\u00f5es de estupro e abusos recorrentes durante a coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar disso, ainda podemos festejar o dia 21 de mar\u00e7o de 1997 como um ponto de virada para n\u00f3s, quando Zumbi dos Palmares teve seu nome escrito como her\u00f3i no Pante\u00e3o. Sua inclus\u00e3o n\u00e3o significava apenas a valoriza\u00e7\u00e3o de um dos l\u00edderes da revolta afro-brasileira contra a escravid\u00e3o colonial, mas\u00a0o reconhecimento da import\u00e2ncia das tradi\u00e7\u00f5es orais do povo preto em nossas terras. Zumbi ainda sofre com o fato de a maioria das coisas escritas sobre sua vida venham de quem odiava a resist\u00eancia quilombola. Sua biografia vem de registros em cr\u00f4nicas ou not\u00edcias trazidos por holandeses, um manuscrito chamado de \u201cRela\u00e7\u00e3o das guerras feitas aos Palmares de pernambuco no tempo do governador D. Pedro de Almeida de 1675 a 1678\u201d e uma descri\u00e7\u00e3o em di\u00e1rio de uma expedi\u00e7\u00e3o que teria visitado uma das poss\u00edveis Palmares.<\/p>\n<p>Talvez o racismo dos historiadores de ontem n\u00e3o seja expresso de forma t\u00e3o direta atualmente, mas os estere\u00f3tipos raciais ficaram impregnados na pesquisa hist\u00f3rica e na forma padr\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento historiogr\u00e1fico, constru\u00edda durante a coloniza\u00e7\u00e3o. Ela determinou o que era civilizado e o que era selvagem. Assim, exterminou outras formas de conhecimento. O professor Boaventura de Santos Souza chama isso de \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=URgY9H2NvZM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">epistemic\u00eddio<\/a>\u201d. Para ele, \u201co conhecimento euroc\u00eantrico nas ci\u00eancias sociais e aliado \u00e0s outras ci\u00eancias [\u2026] foi constru\u00eddo para n\u00e3o valorizar essas outras experi\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>Isso impacta diretamente no julgamento de quem olha para a cultura africana sem considerar a tradi\u00e7\u00e3o oral, que \u00e9 a principal forma de manuten\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria popular de quase todo o continente e se contrap\u00f5e \u00e0 historiografia tradicional fundada sobre a escrita. Sem uma tradu\u00e7\u00e3o intercultural, o historiador pode considerar personagens da hist\u00f3ria negra como \u201cmito ou folclore\u201d apenas por n\u00e3o encontrar evid\u00eancias escritas e detalhadas sobre os personagens. Mas \u00e9 preciso levar em conta que, para os povos ancestrais em \u00c1frica, a palavra falada \u00e9 um documento muito mais importante a qualquer outro registro talhado em pedras.<\/p>\n<p>Yna\u00ea Lopes dos Santos, autora de \u201cHist\u00f3ria da \u00c1frica e do Brasil Afrodescendente\u201d, diz que h\u00e1 s\u00e9culos a historiografia ocidental tem grande dificuldade em trabalhar com a tradi\u00e7\u00e3o oral, pois o advento da escrita foi tomado como o grande marco a partir do qual a humanidade passou a ter hist\u00f3ria. \u201cDurante muitos anos, essa perspectiva historiogr\u00e1fica esteve a servi\u00e7o de projetos imperialistas e colonialistas europeus que tomavam a aus\u00eancia da escrita como um sinal de \u2018n\u00e3o desenvolvimento\u2019 dos povos \u00e1grafos, sem considerar que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s grande parte da popula\u00e7\u00e3o da Europa era analfabeta\u201d, disse.<\/p>\n<p>A historiadora acredita que a tradi\u00e7\u00e3o oral de povos africanos, ind\u00edgenas e de regi\u00f5es da \u00c1sia e a Oceania deixou de ser estudada como deveria, pois todas elas receberam \u201cpremissas e perspectivas euroc\u00eantricas\u201d. Al\u00e9m dessa an\u00e1lise comprometida e apressada, esses povos foram reduzidos ao n\u00edvel de \u201cprimitivos\u201d e n\u00e3o despertaram interesses em historiadores formados com base nessas perspectivas tradicionais eurocentradas.<\/p>\n<p>Mas transforma\u00e7\u00f5es nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, diz Santos, como a Escola dos Annales, passou a discutir o quanto inviol\u00e1vel eram os documentos escritos. \u201cPassou-se a questionar que mais do que \u2018contar a verdade\u2019, esses documentos apontavam vers\u00f5es sobre um determinado momento hist\u00f3rico, e que era necess\u00e1rio ampliar o escopo das fontes, cruz\u00e1-las e confront\u00e1-las para que pud\u00e9ssemos ter uma vis\u00e3o mais aproximada de fatos, eventos e personagens do passado\u201d, explica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"PhotoGrid PhotoGrid--2-column PhotoGrid--xtra-large\" data-reactid=\"169\">\n<div class=\"PhotoGrid-rows\" data-reactid=\"170\">\n<div class=\"PhotoGrid-row PhotoGrid-row--2-of-2\" data-reactid=\"171\">\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--1\" data-reactid=\"172\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"427\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/06\/ale-01-1559660080-1000x667.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" alt=\"\" data-reactid=\"173\" \/><\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\"174\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"427\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/06\/ale-02-1559660082-1000x667.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" alt=\"\" data-reactid=\"175\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"PhotoGrid-description\" data-reactid=\"176\"><em><span class=\"PhotoGrid-description-caption\" data-reactid=\"177\">No carnaval carioca de 2019, a Unidos da Tijuca desfilou um navio negreiro com coreografias que remetiam \u00e0 escravid\u00e3o<\/span><\/em><\/p>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"179\">\n<p>Mas modificar um pensamento que moldou a produ\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria por s\u00e9culos e se tornou hegem\u00f4nico \u00e9 um processo intenso e vagaroso. A Unesco, por exemplo, levou mais de tr\u00eas d\u00e9cadas para reunir mais de 350 especialistas, coordenados por 39 historiadores \u2013 um deles Ki-Zerbo \u2013, que revisitaram fontes, perspectivas e colheram fontes de tradi\u00e7\u00e3o oral, manuscritos in\u00e9ditos e promoveram uma discuss\u00e3o sobre a metodologia para\u00a0<a href=\"http:\/\/www.unesco.org\/new\/pt\/brasilia\/about-this-office\/single-view\/news\/general_history_of_africa_collection_in_portuguese_pdf_only\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">contar a hist\u00f3ria da \u00c1frica<\/a>.<\/p>\n<p>A obra, iniciada em 1969, s\u00f3 foi publicada no Brasil em 2010 em uma agenda aberta em 1988, quando a nossa Constitui\u00e7\u00e3o reconheceu, enfim, a desigualdade racial e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.brasil.gov.br\/consciencianegra\/noticias\/constituicao-federal-de-1988-acabou-com-o-mito-da-democracia-racial-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">criminalizou o racismo<\/a>. Com esse feito, o governo abriu a possibilidade de se questionar a exist\u00eancia do racismo em todas as dimens\u00f5es sociais, como na pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Infelizmente, apesar de mantermos uma das maiores popula\u00e7\u00f5es negra do mundo, nosso pa\u00eds n\u00e3o investiu como a Unesco em um projeto para dizimar da historiografia nacional os estere\u00f3tipos raciais e a vis\u00e3o euroc\u00eantrica que a constituiu. Mas a empreitada da Unesco\u00a0<a href=\"http:\/\/www.unesco.org\/new\/pt\/brasilia\/about-this-office\/single-view\/news\/general_history_of_africa_collection_is_available_in_portugu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">foi traduzida ao portugu\u00eas\u00a0<\/a>durante a gest\u00e3o de Fernando Haddad no MEC.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tem crescido os esfor\u00e7os de pesquisadores independentes, com iniciativas isoladas em universidades e institui\u00e7\u00f5es nacionais. Recentemente, a Faculdade Zumbi dos Palmares lan\u00e7ou\u00a0<a href=\"http:\/\/machadodeassisreal.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a campanha \u201cMachado de Assis Real\u201d<\/a>, visando reparar a injusti\u00e7a hist\u00f3rica que branqueou o autor e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. A inclus\u00e3o de Dandara e Luisa Mahin no Pante\u00e3o da P\u00e1tria tamb\u00e9m pode ser encarada como parte da reconstru\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio negado\u00a0a um povo escravizado por s\u00e9culos. A luta segue.<\/p>\n<p>https:\/\/theintercept.com\/2019\/06\/03\/dandara-luisa-mahin-historia\/<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ale Santos &#8211; Este texto \u00e9 uma resposta\u00a0\u00e0 historiadora Ana Lucia Araujo, que considera perigosa a inclus\u00e3o\u00a0no Pante\u00e3o da P\u00e1tria\u00a0de\u00a0guerreiras cuja exist\u00eancia n\u00e3o teria sido provada. 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