{"id":10796,"date":"2019-06-02T13:31:22","date_gmt":"2019-06-02T16:31:22","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10796"},"modified":"2019-06-01T19:33:50","modified_gmt":"2019-06-01T22:33:50","slug":"%ef%bb%bfbem-vindo-ao-deserto-da-precarizacao-o-mundo-do-trabalho-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/06\/02\/%ef%bb%bfbem-vindo-ao-deserto-da-precarizacao-o-mundo-do-trabalho-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"\ufeffBem-vindo ao deserto da precariza\u00e7\u00e3o: o mundo do trabalho no s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ricardo Antunes<\/strong> &#8211; O mundo do trabalho vem passando nas \u00faltimas d\u00e9cadas por substanciais mudan\u00e7as, seja no seu epicentro europeu, seja na periferia do capitalismo, onde se situam pa\u00edses como o Brasil, todos sendo conduzidos em dire\u00e7\u00e3o a precariza\u00e7\u00e3o desse mundo. Segundo Giovanni Alves, \u201co processo de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e a constitui\u00e7\u00e3o do prec\u00e1rio mundo do trabalho s\u00e3o tra\u00e7os do novo s\u00f3cio-metabolismo do capital nas condi\u00e7\u00f5es da mundializa\u00e7\u00e3o financeira\u201d.\u00a0(Giovanni Alves. Dimens\u00f5es da Reestrutura\u00e7\u00e3o Produtiva: Ensaios de Sociologia do Trabalho. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Editora Praxis, 2007).<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cS\u00e3o tempos de desemprego estrutural, de trabalhadores e trabalhadoras empreg\u00e1veis no curto prazo, atrav\u00e9s das (novas) e prec\u00e1rias formas de contrato, onde terceiriza\u00e7\u00e3o, informalidade, precariza\u00e7\u00e3o, materialidade e imaterialidade s\u00e3o mecanismos vitais, tanto para a preserva\u00e7\u00e3o quanto para a amplia\u00e7\u00e3o da sua l\u00f3gica.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em>\u201cO neoliberalismo transformou profundamente o capitalismo, transformando profundamente as sociedades.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Pierre Dardot e Christian Laval<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Essa \u201cmundializa\u00e7\u00e3o financeira\u201d \u00e9 conduzida pelo neoliberalismo que tem provocado significativas avarias no tecido social da sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o deixando inc\u00f3lumes nem mesmo os pa\u00edses que se situam no centro do capitalismo, acertando em cheio os direitos sociais, no cerne dos quais se encontram os direitos trabalhistas. Jorge N\u00f3voa, comentando o livro da dupla de pensadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval, assevera o seguinte:<\/p>\n<p><em>\u201cPor m\u00faltiplos caminhos, o neoliberalismo se imp\u00f4s como a nova raz\u00e3o do mundo, n\u00e3o deixando inc\u00f3lume nenhuma esfera da vida. O que se acha em causa \u00e9 a forma de exist\u00eancia na modernidade \u00faltima. Sua norma fundamental \u00e9 a competi\u00e7\u00e3o mort\u00edfera modelando tudo da vida social introjetada na subjetividade dos indiv\u00edduos pelo capital e seu mercado<\/em>\u201d. (Pierre Dardot e Christian Laval. A Nova Raz\u00e3o do Mundo \u2013 Ensaio sobre a Sociedade Neoliberal. Boitempo Editorial, 2016).<\/p>\n<p>O neoliberalismo vem promovendo historicamente uma desagrega\u00e7\u00e3o do tecido social, enfraquecendo as mobiliza\u00e7\u00f5es coletivas, submetendo todos \u00e0 l\u00f3gica da concorr\u00eancia em todos os n\u00edveis. Assim, segundo Pierre Dardot e Christian Laval:<\/p>\n<p>\u201c<em>As formas de gest\u00e3o na empresa, o desemprego e a precariedade, a d\u00edvida e a avalia\u00e7\u00e3o, s\u00e3o poderosas alavancas de concorr\u00eancia interindividual e definem novos modos de subjetiva\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. (Pierre Dardot e Christian Laval. A Nova Raz\u00e3o do Mundo \u2013 Ensaio sobre a Sociedade Neoliberal. Boitempo Editorial, 2016).<\/p>\n<p>O processo de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, portanto, vem como conseq\u00fc\u00eancia dessa onda neoliberal, que tem varrido o mundo nas \u00faltimas d\u00e9cadas e aportou entre n\u00f3s, de modo expl\u00edcito e despudorado, a partir do in\u00edcio dos anos 90, com o governo de FHC, e acentuou-se com as famigeradas privatiza\u00e7\u00f5es promovidas por ele, nos fins dessa d\u00e9cada, as quais j\u00e1 foram objeto de muitas cr\u00edticas e de suspeitas graves de prevarica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de uma d\u00e9cada e meia de avan\u00e7os na seara dos direitos sociais, cujo per\u00edodo mais promissor se deu entre os anos de 2003-2010, o Brasil, a partir do governo ileg\u00edtimo do presidente Temer, retomou, de forma a\u00e7odada, a pauta neoliberal com ataques sistem\u00e1ticos aos direitos sociais, produzindo estragos de monta aos direitos trabalhistas, com a edi\u00e7\u00e3o de leis que suprimiram ou feriram de morte muitos desses seculares direitos. A Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho foi erigida \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de vil\u00e3, a ela sendo atribu\u00edda a pecha de arcaica, atrasada, ultrapassada e corporativa.<\/p>\n<p>O direito do trabalho resultou de uma longa hist\u00f3ria de lutas e reivindica\u00e7\u00f5es, que se travaram nos mais diferentes pa\u00edses, cujos prim\u00f3rdios se situam no bojo da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, em enfrentamento \u00e0s delet\u00e9rias e degradantes condi\u00e7\u00f5es de trabalho e vida, a que era submetida a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Registra-se no Brasil, igualmente, um passado de embates, enfrentamentos, reivindica\u00e7\u00f5es e conquistas dos trabalhadores brasileiros, cujo \u00e1pice foi a institui\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 40 do s\u00e9culo passado, de uma legisla\u00e7\u00e3o (CLT) protetiva da classe trabalhadora, que apesar de cr\u00edticas procedentes que possam a ela ser dirigidas, n\u00e3o lhe podemos retirar os inumer\u00e1veis m\u00e9ritos, que possu\u00eda e possui ainda hoje.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito, determinados setores empresariais v\u00eam dirigindo ataques reiterados ao arcabou\u00e7o legal de prote\u00e7\u00e3o aos direitos da classe trabalhadora, assumindo uma posi\u00e7\u00e3o de \u201c\u2019v\u00edtimas\u201d face \u00e0 suas normas, as quais \u201cinviabilizariam\u201d, segundo alegam, o exerc\u00edcio de suas atividades. Sabemos que o conflito Capital X Trabalho tem suas ra\u00edzes mergulhadas nas origens do Capitalismo e vem acompanhando todas as suas fases, c\u00edclicas e sazonais.<\/p>\n<p>O governo Temer assumiu o compromisso com o desmonte desse arcabou\u00e7o legal de prote\u00e7\u00e3o aos direitos sociais trabalhistas, devendo promover seu desmantelamento na maior brevidade poss\u00edvel, devido ao pouco tempo que teria a sua disposi\u00e7\u00e3o para tal mister. No seu ex\u00edguo e, paradoxalmente, intermin\u00e1vel mandato, Michel Temer, contando com o servil apoio do parlamento brasileiro, t\u00e3o devotado \u00e0 causa dos poderosos, conseguiu produzir avarias substanciais aos aludidos direitos.<\/p>\n<p>Sua primeira ofensiva contra os direitos dos trabalhadores foi a edi\u00e7\u00e3o da Lei 13.429\/2017, que transformou a \u201cterceiriza\u00e7\u00e3o\u201d, at\u00e9 ent\u00e3o restrita \u00e0s \u201catividades meio\u201d das empresas, em regra para contrata\u00e7\u00e3o de empregados para suas \u201catividades fim\u201d. A terceiriza\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 fora, h\u00e1 d\u00e9cadas, objeto de criticas, mesmo quando restrita \u00e0s \u201catividades meio\u201d das empresas, passou a gozar de irrestrita exist\u00eancia desde a entrada em vigor da in\u00edqua lei, supra mencionada.<\/p>\n<p>A terceiriza\u00e7\u00e3o, nos moldes da lei anterior (Lei 6019\/74), j\u00e1 produzia em elenco de resultados perversos e nocivos aos trabalhadores. Como constatam Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck:<\/p>\n<p>\u201c<em>As informa\u00e7\u00f5es levantadas por pesquisas realizadas em todo o pa\u00eds nos \u00faltimos 20 anos evidenciam de forma un\u00e2nime a indissociabilidade entre terceiriza\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, tanto em investiga\u00e7\u00f5es de natureza qualitativa, atrav\u00e9s de estudos de casos, quanto quantitativas, com o uso de estat\u00edsticas de fontes oficiais ou de institui\u00e7\u00f5es sindicais e do direito do trabalho<\/em>\u201d. (Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck. A terceiriza\u00e7\u00e3o sem limites: a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho como regra. O Social em Quest\u00e3o \u2013 Ano XVIII \u2013 n\u00ba 34 \u2013 2015).<\/p>\n<p>Agora, nos moldes irrestritos autorizados pela Lei 13.429\/2017, os efeitos nocivos ser\u00e3o agravados e amplificados, extraordinariamente, levando mais \u00e1gua ao moinho da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. Nessa linha de racioc\u00ednio informam-nos Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck :<\/p>\n<p>\u201c<em>Em todas as dimens\u00f5es e tipos de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil, a terceiriza\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente como fen\u00f4meno central, atrav\u00e9s do qual se demonstram as diferentes faces da precariza\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. (Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck. A terceiriza\u00e7\u00e3o sem limites: a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho como regra. O Social em Quest\u00e3o \u2013 Ano XVIII \u2013 n\u00ba 34 \u2013 2015).<\/p>\n<p>A terceiriza\u00e7\u00e3o ainda tem como efeito colateral exacerbar a instabilidade das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, como denunciam Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck:<\/p>\n<p>\u201c<em>O tempo de perman\u00eancia na empresa, isto \u00e9, a rotatividade, cujas taxas no Brasil para todos os trabalhadores \u00e9 uma das mais altas do mundo, no caso dos terceirizados em \u201cservi\u00e7os tipicamente terceiriz\u00e1veis\u201d, a m\u00e9dia de perman\u00eancia \u00e9 de 2 anos e 7 meses, enquanto para os demais trabalhadores \u00e9 de 5 anos e 8 meses<\/em>\u201d. (Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck. A terceiriza\u00e7\u00e3o sem limites: a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho como regra. O Social em Quest\u00e3o \u2013 Ano XVIII \u2013 n\u00ba 34 \u2013 2015).<\/p>\n<p>Contudo, Temer teve tempo ainda, infelizmente, de afligir outro golpe, quase mortal, aos direitos dos trabalhadores, com a aprova\u00e7\u00e3o da desditosa \u201cReforma Trabalhista\u201d, por meio da Lei 13.467\/2017.<\/p>\n<p>Dentre as \u201cnovidades\u201d dessa reforma est\u00e1 a institui\u00e7\u00e3o do \u201ctrabalho intermitente\u201d. Aludida p\u00e9rola da perversidade criativa est\u00e1 disciplinada no artigo 443 da CLT.<\/p>\n<p>Na verdade n\u00e3o se pode culpar o governo Temer e seus ac\u00f3litos de criatividade, quando viabilizaram entre n\u00f3s a malfazejo \u201ctrabalho intermitente\u201d. Foram buscar inspira\u00e7\u00e3o no centro do capitalismo neoliberal, como nos informa Ricardo Antunes:<\/p>\n<p>\u201c<em>A instabilidade e a inseguran\u00e7a s\u00e3o tra\u00e7os constitutivos dessas novas modalidades de trabalho. Vide a experi\u00eancia brit\u00e2nica do zero hour contract [contrato de zero hora], o novo sonho do empresariado global. Trata-se de uma esp\u00e9cie de trabalho sem contrato, no qual n\u00e3o h\u00e1 previsibilidade de horas a cumprir nem direitos assegurados. Quando h\u00e1 demanda, basta uma chamada e os trabalhadores e as trabalhadoras devem estar on-line para atender o trabalho intermitente.<\/em>\u201d (Ricardo Antunes. O privil\u00e9gio da servid\u00e3o: O novo proletariado de servi\u00e7o na era digital. Boitempo Editorial, 2018).<\/p>\n<p>As les\u00f5es aos direitos dos trabalhadores, materializadas na Lei 13.467\/97, n\u00e3o se restringem ao execr\u00e1vel \u201ctrabalho intermitente\u201d. Abre-se, igualmente, com essa legisla\u00e7\u00e3o, a possibilidade de mulheres gestantes trabalharem em ambientes insalubres, a teor do consignado no seu artigo 394-A. S\u00e3o apenas dois exemplos execrandos, em meio a muitos outros, disseminados pelo texto legal. V\u00e1rios princ\u00edpios e regras, que t\u00eam dado sustenta\u00e7\u00e3o a tais direitos dos trabalhadores, foram terrivelmente maculados. A correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre Capital e Trabalho foi terrivelmente abalada, com a legisla\u00e7\u00e3o atual pendendo, com impudor e ostensivamente, em favor do capital. A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista sempre teve um claro vi\u00e9s de prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador. Todavia, inverte-se essa equa\u00e7\u00e3o com a edi\u00e7\u00e3o dessa injusta lei.<\/p>\n<p>A pilhagem aos direitos dos trabalhadores ganhou novo f\u00f4lego com a ascens\u00e3o ao poder do governo Bolsonaro e seu projeto ultraliberal, gerido e conduzido pelo \u201cSuper Ministro\u201d da Economia Paulo Guedes, mais conhecido como um dos \u201cChicago Boys\u201d.<\/p>\n<p>Na seara do trabalho, que nos ocupa por ora, o desmonte come\u00e7ou pela extin\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho, \u00f3rg\u00e3o com d\u00e9cadas de exist\u00eancia, tendo sobrevivido at\u00e9 mesmo \u00e0 ditadura militar. H\u00e1 todo um simbolismo por detr\u00e1s de uma medida como essa. Esse minist\u00e9rio incomodava muita gente, como os elefantes daquela can\u00e7\u00e3o, principalmente aqueles \u201cempres\u00e1rios\u201d, not\u00f3rios e contumazes transgressores da legisla\u00e7\u00e3o obreira. Geralmente seus nomes figuram nas listas dos socialites, dos cidad\u00e3os honor\u00e1rios e, igualmente, na lista \u201cTIP\u201d, que elenca as piores formas de trabalho infantil. Tamb\u00e9m costumam figurar na lista dos que se utilizam de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o. \u00a0Como se pode v\u00ea, gente da melhor estirpe.<\/p>\n<p>Para que um \u201cMinist\u00e9rio do Trabalho\u201d? Ele era apenas um \u00f3rg\u00e3o administrativo federal, respons\u00e1vel por regulamentar e fiscalizar todos os aspectos referentes \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de trabalho no Brasil, aplicando multas aos infratores das normas trabalhistas! Ora! Pol\u00edcia para quem precisa de pol\u00edcia, Minist\u00e9rio do Trabalho para quem precisa defender direitos dos trabalhadores! Realmente \u00e9 in\u00f3cuo e dispendioso, fazendo a Uni\u00e3o desembolsar polpuda verba or\u00e7ament\u00e1ria para sua manuten\u00e7\u00e3o, a qual seria mais bem aplicada nos interesses no sacrossanto empresariado nacional. Agora, que n\u00e3o temos mais direito do trabalho, n\u00e3o faz mesmo nenhum sentido, realmente, mantermos tal minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Como nos ensinam Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck:<\/p>\n<p><em>\u201cAssim, a informalidade deixa de ser a exce\u00e7\u00e3o para tendencialmente tornar-se a regra, e a precariza\u00e7\u00e3o passa a ser o centro da din\u00e2mica do capitalismo flex\u00edvel, se n\u00e3o houver contraposi\u00e7\u00e3o forte a este movimento tendencial de escala global.\u201d<\/em>(Ricardo Antunes e Gra\u00e7a Druck. A terceiriza\u00e7\u00e3o sem limites: a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho como regra. O Social em Quest\u00e3o \u2013 Ano XVIII \u2013 n\u00ba 34 \u2013 2015).<\/p>\n<p>O voc\u00e1bulo \u201cflexibilidade\u201d ganhou status de vedete do neoliberalismo sic\u00e1rio, produzindo corpos male\u00e1veis, trabalhadores transformados em ex\u00edmios contorcionistas pela sobreviv\u00eancia. Como nos ensina Sadi Dal Rosso:<\/p>\n<p>\u201c<em>A flexibilidade transformaria os momentos da vida, sem necessariamente diminuir a dura\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho. Os neg\u00f3cios desejam trabalhadores flex\u00edveis para melhor se estruturar, para ajustar desencontros entre oferta e procura, para elevar o n\u00edvel de intensidade laboral com vistas a al\u00e7ar o rendimento do trabalho e assim superar a competi\u00e7\u00e3o, para impedir tempos perdidos e evitar gastos de contrata\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra em tempo cont\u00ednuo, para produzir, mediante o emprego de trabalho flex\u00edvel, muito mais valor do que alcan\u00e7ava com o emprego de trabalho em jornadas longas, fixas, repetitivas, de tempo integral.<\/em>\u201d (Sadi Dal Rosso. O Ardil da Flexibilidade \u2013 Os Trabalhadores e a Teoria do Valor. Editora Boitempo, 2017).<\/p>\n<p>Com a gradativa e cont\u00ednua destrui\u00e7\u00e3o do trabalho formal, com carteira assinada e os direitos sociais dela decorrentes, o que sobra \u00e9 uma desoladora precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e exist\u00eancia da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Parece-nos que o governo Bolsonaro, dando continuidade ao trabalho inescrupuloso de seu antecessor, se mostra predisposto a nos fazer viajar em busca daquele tempo perdido dos prim\u00f3rdios da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, de triste mem\u00f3ria, dando curso e aprofundando a aniquila\u00e7\u00e3o dos direitos sociais trabalhistas e previdenci\u00e1rios.<\/p>\n<p>Tristemente palavras como flexibiliza\u00e7\u00e3o, terceiriza\u00e7\u00e3o, informalidade, tornam-se cada vez mais freq\u00fcentes no mundo do trabalho contempor\u00e2neo e, principalmente, no Brasil.<\/p>\n<p>Ricardo Antunes nos p\u00f5e em contato com a desoladora realidade vivenciada hoje no mundo do trabalho, propiciada pelo neoliberalismo triunfante, na sua veste financeirizada, com a qual se apresenta de um tempo a essa parte, com um potencial devastador para aqueles que vivem e dependem do trabalho para viver:<\/p>\n<p>\u201c<em>As corpora\u00e7\u00f5es se aproveitam: expande-se a \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d, amplia-se a \u201cpejotiza\u00e7\u00e3o\u201d, florescendo uma nova modalidade de trabalho: o escravo digital. Tudo isso para disfar\u00e7ar o assalariamento. Apesar de defender a \u201cresponsabilidade social e ambiental\u201d, incont\u00e1veis corpora\u00e7\u00f5es praticam mesmo a informalidade ampliada, a flexibiliza\u00e7\u00e3o desmedida, a precariza\u00e7\u00e3o acentuada e a destrui\u00e7\u00e3o cronometrada da natureza. A exce\u00e7\u00e3o vai se tornando regra geral. Aqui e alhures.\u201d<\/em>(Ricardo Antunes. O privil\u00e9gio da servid\u00e3o: O novo proletariado de servi\u00e7o na era digital. Boitempo Editorial, 2018).<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio a conclus\u00e3o a que chega Ricardo Antunes n\u00e3o \u00e9 nada alentadora:<\/p>\n<p>\u201c<em>Um grupo cada vez mais minorit\u00e1rio estar\u00e1 no topo dos assalariados. Entretanto, a instabilidade poder\u00e1 lev\u00e1-lo a ruir face a qualquer oscila\u00e7\u00e3o do mercado, com seus tempos, movimentos, espa\u00e7os e territ\u00f3rios em constante muta\u00e7\u00e3o. A esses se somam ainda uma massa de \u201cempreendedores\u201d, uma mescla de burgu\u00eas-de-si-pr\u00f3prio e prolet\u00e1rio-de-si-mesmo.<\/em>\u201d (Ricardo Antunes. O privil\u00e9gio da servid\u00e3o: O novo proletariado de servi\u00e7o na era digital. Boitempo Editorial, 2018).<\/p>\n<p>O quadro esbo\u00e7ado at\u00e9 aqui tem \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a l\u00f3gica econ\u00f4mica do neoliberalismo, reitere-se mais uma vez, que est\u00e1 a impor aos trabalhadores, em escala planet\u00e1ria, sacrif\u00edcios que p\u00f5em em risco sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Somos levados a crer, como sociedade, n\u00e3o sem uma grande dose de ideologia na veia, que sacrif\u00edcios s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rios para manter a competitividade econ\u00f4mica e a conserva\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o social subjacente \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho j\u00e1 atinge os pa\u00edses centrais do capitalismo financeiro. Haja vista os protestos dos \u201ccoletes amarelos\u201d que seguem incendiando a Fran\u00e7a. A pauta social das reivindica\u00e7\u00f5es neste pa\u00eds, como aqui, converge para a defesa de v\u00e1rios direitos sociais que viam sendo solapados pela onda neoliberal.<\/p>\n<p>O psicanalista Christophe Dejours, h\u00e1 duas d\u00e9cadas, j\u00e1 identificava o sofrimento causado \u00e0 classe trabalhadora com o implemento das pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais:<\/p>\n<p>\u201c<em>O sofrimento aumenta porque os que trabalham v\u00e3o perdendo gradualmente a esperan\u00e7a de que a condi\u00e7\u00e3o que hoje lhes \u00e9 dada possa amanh\u00e3 melhorar. Os que trabalham v\u00e3o cada vez mais se convencendo de que seus esfor\u00e7os, sua dedica\u00e7\u00e3o, sua boa vontade, seus \u201csacrif\u00edcios\u201d pela empresa s\u00f3 acabam por agravar a situa\u00e7\u00e3o. Quando mais d\u00e3o de si, mais s\u00e3o \u201cprodutivos\u201d, e quanto mais procedem mal para com seus companheiros de trabalho, mais eles os amea\u00e7am, em raz\u00e3o mesmo de seus esfor\u00e7os e de seu sucesso. Assim, entre as pessoas, comuns, a rela\u00e7\u00e3o para com o trabalho vai-se dissociando paulatinamente da promessa de felicidade e seguran\u00e7a compartilhadas: para si mesmo, primeiramente, mas tamb\u00e9m para os colegas, os amigos e os pr\u00f3prios filhos.<\/em>\u201d (Christophe Dejours. A Banaliza\u00e7\u00e3o da Injusti\u00e7a Social. Editora Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2007).<\/p>\n<p>Em decorr\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o que estamos a descrever, que afeta de morte o mundo do trabalho, tem aumentado, epidemicamente, os adoecimentos de trabalhadores, aqui e alhures, com graves consequ\u00eancias f\u00edsicas e ps\u00edquicas. Para ilustrar tal assertiva nos valemos, mais uma vez, da an\u00e1lise do psicanalista Christophe Dejours: \u201cIndubitavelmente, quem perdeu o emprego, quem n\u00e3o consegue empregar-se (desempregado prim\u00e1rio) ou reempregar-se (desempregado cr\u00f4nico) e passa pelo processo de dessocializa\u00e7\u00e3o progressivo, sofre. \u00c9 sabido que esse processo leva \u00e0 doen\u00e7a mental e f\u00edsica, pois ataca os alicerces da identidade. Hoje, todos partilham um sentimento de medo \u2013 por si, pelos pr\u00f3ximos, pelos amigos ou pelos filhos \u2013 diante da amea\u00e7a de exclus\u00e3o\u201d. (Christophe Dejours. A Banaliza\u00e7\u00e3o da Injusti\u00e7a Social. Editora Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2007).<\/p>\n<p>Com o fim do trabalho formal, como conhec\u00edamos at\u00e9 aqui, v\u00e3o surgindo em substitui\u00e7\u00e3o a ele formas delet\u00e9rias do mesmo, que mascaram o que a pouco concluir\u00edamos ser formas de trabalho subordinado, com todos os seus consect\u00e1rios.<\/p>\n<p>Um dos exemplos mais vis\u00edveis das metamorfoses da rela\u00e7\u00e3o de trabalho, travestida de autonomia e empreendedorismo, \u00e9 o do Uber, que se disseminou, em met\u00e1stase, por todo o mundo ocidental, em todas as suas principais cidades do ocidente.<\/p>\n<p>O momento em que vivemos, nada alvissareiro, marcado pela hegemonia do neoliberalismo e de suas pr\u00e1ticas, de sua l\u00f3gica e de suas consequ\u00eancias mal\u00e9volas para o homem e a sociedade, para o trabalho e o trabalhador, n\u00e3o nos pode impedir de encar\u00e1-lo sob um perspectiva hist\u00f3rica. A hist\u00f3ria \u00e9 pendular, levando as sociedades, no seu movimento, para espectros antag\u00f4nicos do arco ideol\u00f3gico. Sendo assim, as coisas s\u00e3o passiveis de mudan\u00e7as. Para tanto se faz necess\u00e1rio que desenvolvamos uma capacidade coletiva de articula\u00e7\u00e3o, que incida sobre a pol\u00edtica, atrav\u00e9s de lutas, de movimentos, de experi\u00eancias, da tomada de consci\u00eancia, que nos conduza a um sistema de pr\u00e1ticas que se oponham \u00e0 \u201cracionalidade neoliberal\u201d, que estaria na raiz das metamorfoses pela quais passa o conturbado mundo do trabalho nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Como disse certa vez Martin Luther King Jr.: \u201cPrecisamos come\u00e7ar rapidamente a mudan\u00e7a de uma sociedade voltada para as coisas para uma sociedade voltada para as pessoas. Quando as m\u00e1quinas e os computadores, fins lucrativos e direitos de propriedade s\u00e3o considerados mais importantes do que as pessoas, \u00e9 imposs\u00edvel derrotar os trig\u00eameos gigantes do racismo, do materialismo e do militarismo\u201d. (Beyond Vietnam, 1967. In: Naomi Klein. N\u00e3o basta dizer n\u00e3o. Bertrand Brasil, 2017).<\/p>\n<p>http:\/\/www.justificando.com\/2019\/02\/27\/bem-vindo-ao-deserto-da-precarizacao-o-mundo-do-trabalho-no-seculo-xxi\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Antunes &#8211; O mundo do trabalho vem passando nas \u00faltimas d\u00e9cadas por substanciais mudan\u00e7as, seja no seu epicentro europeu, seja na periferia do capitalismo, onde se situam pa\u00edses como o Brasil, todos sendo conduzidos em dire\u00e7\u00e3o a precariza\u00e7\u00e3o desse mundo. 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