{"id":1077,"date":"2016-07-13T15:51:49","date_gmt":"2016-07-13T18:51:49","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1077"},"modified":"2016-07-05T17:56:15","modified_gmt":"2016-07-05T20:56:15","slug":"exaustos-e-correndo-e-dopados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/13\/exaustos-e-correndo-e-dopados\/","title":{"rendered":"Exaustos-e-correndo-e-dopados"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eliane Brum<\/strong> &#8211; Na sociedade do desempenho, conseguimos a fa\u00e7anha de abrigar o senhor e o escravo no mesmo corpo<\/p>\n<p>Nos achamos t\u00e3o livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar na internet, lutamos pelas causas mesmo de pa\u00edses do outro lado do planeta, participamos de protestos globais e mal percebemos que criamos uma p\u00f3s-submiss\u00e3o. Ou um tipo mais perigoso e insidioso de submiss\u00e3o. Temos nos esfor\u00e7ado livremente e com grande afinco para alcan\u00e7ar a meta de trabalhar 24X7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana. Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcan\u00e7a em qualquer lugar, a qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o de trabalho e espa\u00e7o de lazer, n\u00e3o h\u00e1 nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as fronteiras tamb\u00e9m do mundo interno, que agora \u00e9 um fora. Estamos sempre, de algum modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando n\u00e3o perder nada, principalmente a not\u00edcia ordin\u00e1ria. Consumimo-nos animadamente, ao ritmo de emoticons. E, assim, perdemos s\u00f3 a alma. E alcan\u00e7amos uma fa\u00e7anha in\u00e9dita: ser senhor e escravo ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Como na \u00e9poca da acelera\u00e7\u00e3o os anos j\u00e1 n\u00e3o come\u00e7am nem terminam, apenas se emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia que ainda era mar\u00e7o. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condi\u00e7\u00e3o humana dessa \u00e9poca. E j\u00e1 percebemos que essa condi\u00e7\u00e3o humana um corpo humano n\u00e3o aguenta. O corpo ent\u00e3o virou um atrapalho, um ap\u00eandice inc\u00f4modo, um n\u00e3o-d\u00e1-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em p\u00e2nico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade n\u00e3o humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque s\u00f3 dopados para continuar exaustos-e-correndo. Pelo menos at\u00e9 conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema \u00e9 que o corpo n\u00e3o \u00e9 um outro, o corpo \u00e9 o que chamamos de eu. O corpo n\u00e3o \u00e9 limite, mas a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. O corpo \u00e9.<\/p>\n<blockquote><p>Os cliques da internet s\u00e3o os remos das antigas gal\u00e9s. Remem&#8230; Cliquem&#8230;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas gal\u00e9s. Remem remem remem. Cliquem cliquem cliquem para n\u00e3o ficar para tr\u00e1s e morrer. Mas o presente, nessa velocidade, \u00e9 um pret\u00e9rito cont\u00ednuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e milhares de quil\u00f4metros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clich\u00ea e alguns an\u00fancios publicit\u00e1rios, nosso mundo interno ficou a oceanos de n\u00f3s. Conectados ao planeta inteiro, estamos desconectados do eu e tamb\u00e9m do outro. Incapazes da alteridade, o outro se tornou algu\u00e9m a ser destru\u00eddo, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito, mas sozinhos. Escassas s\u00e3o as conversas, a rede tornou-se em parte um intermin\u00e1vel discurso autorreferente, um del\u00edrio narcisista. E narciso \u00e9 um eu sem eu. Porque para existir eu \u00e9 preciso o outro.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Talvez parte do que consideramos ativismo seja um novo tipo de passividade<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>H\u00e1 tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque nos falta contempla\u00e7\u00e3o, nos falta o vazio que impele \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, nos falta sil\u00eancios. Nos falta at\u00e9 o t\u00e9dio. Sem experi\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo seja uma ilus\u00e3o de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser ativismo seja, ao contr\u00e1rio, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de certezas e de pontos de exclama\u00e7\u00e3o. Os espasmos tornaram-se a rotina e, ao se viver aos espasmos, um espasmo anula o outro espasmo que anula o outro espasmo. Quando tudo \u00e9 grito n\u00e3o h\u00e1 mais grito. <a href=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Sociedade\/eliane-brum\/noticia\/2013\/04\/e-urgente-recuperar-o-sentido-de-urgencia.html\">Quando tudo \u00e9 urg\u00eancia nada \u00e9 urg\u00eancia.<\/a>Ao final do dia que n\u00e3o acaba resta a ilus\u00e3o de ter lutado todas as lutas, intervindo em todos os processos, protestado contra todas as injusti\u00e7as. Os espasmos esgotam, exaurem, consomem. Mas n\u00e3o movem. Apaziguam, mas n\u00e3o movem. Entorpecem, mas ser\u00e1 que movem?<\/p>\n<p>Sobre esse tema h\u00e1 um pequeno livro, precioso, chamado sugestivamente de<em>Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em> (Editora Vozes). Seu autor \u00e9 o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han, um coreano radicado na Alemanha que se tornou professor universit\u00e1rio de filosofia e estudos culturais em Berlim. Neste livro, Han faz um di\u00e1logo cr\u00edtico com pensadores como Alain Ehrenberg, Giorgio Agamben, Michel Foucault, Hanna Arendt, Walter Benjamin e Friedrich Nietzsche, entre outros. J\u00e1 meu di\u00e1logo com ele \u00e9 por minha pr\u00f3pria conta e risco.<\/p>\n<p>Sobre nossa nova condi\u00e7\u00e3o, Han diz:<\/p>\n<p>\u201cA sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho n\u00e3o s\u00e3o sociedades livres. Elas geram novas coer\u00e7\u00f5es. A dial\u00e9tica do senhor e escravo est\u00e1, n\u00e3o em \u00faltima inst\u00e2ncia, para aquela sociedade na qual cada um \u00e9 livre e que seria capaz tamb\u00e9m de ter tempo livre para o lazer. Leva, ao contr\u00e1rio, a uma sociedade do trabalho, na qual o pr\u00f3prio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho \u00e9 que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, v\u00edtima e agressor. Assim, acabamos explorando a n\u00f3s mesmos. Com isso, a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mesmo sem senhorio\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Os aut\u00f4nomos s\u00e3o aut\u00f4matos, programados para chicotear a si mesmos<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Chegamos a isso: a explora\u00e7\u00e3o mesmo sem patr\u00e3o, j\u00e1 que o introjetamos. Quem \u00e9 o pior senhor se n\u00e3o aquele que mora dentro de n\u00f3s? Em nome de palavras falsamente emancipat\u00f3rias, como empreendedorismo, ou de eufemismos perversos como \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d, cresce o n\u00famero de \u201caut\u00f4nomos\u201d, os tais PJs (Pessoas Jur\u00eddicas), livres apenas para se matar de trabalhar. Os aut\u00f4nomos s\u00e3o aut\u00f4matos, programados para chicotear a si mesmos. E mesmo os empregados se \u201cautonomizam\u201d porque a jornada de trabalho j\u00e1 n\u00e3o acaba. Todos trabalhadores culpados porque n\u00e3o conseguem produzir ainda mais, numa autoimagem partida, na qual sup\u00f5em que seu desempenho s\u00f3 \u00e9 limitado porque o corpo \u00e9 um inconveniente.<\/p>\n<p>Para este fil\u00f3sofo, a sociedade do s\u00e9culo 21 n\u00e3o \u00e9 mais disciplinar, como na constru\u00e7\u00e3o de Foucault (1926-1984). Mas uma sociedade de desempenho. Tamb\u00e9m seus habitantes n\u00e3o se chamam mais \u201csujeitos de obedi\u00eancia\u201d, mas \u201csujeitos de desempenho e de produ\u00e7\u00e3o\u201d. S\u00e3o empres\u00e1rios de si mesmos.<\/p>\n<p>Se a sociedade disciplinar era uma sociedade de negatividade, a desregulamenta\u00e7\u00e3o crescente vai abolindo-a. A afirma\u00e7\u00e3o <em>Yes, we can,<\/em> segundo Han, expressa o car\u00e1ter de positividade da sociedade de desempenho. No lugar de \u201cproibi\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cmandamento\u201d ou \u201clei\u201d, entram \u201cprojeto\u201d, \u201ciniciativa\u201d e \u201cmotiva\u00e7\u00e3o\u201d. Assim, n\u00e3o \u00e9 um acaso que a depress\u00e3o \u00e9 a doen\u00e7a dessa \u00e9poca. A sociedade disciplinar \u00e9 dominada pelo \u201cn\u00e3o\u201d. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, para a qual ter\u00edamos \u201cevolu\u00eddo\u201d, ao contr\u00e1rio, produz depressivos e fracassados. A sociedade de desempenho, nas palavras de Han, produz infartos ps\u00edquicos.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;O depressivo \u00e9 o inv\u00e1lido da guerra internalizada da sociedade do desempenho&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O depressivo seria o <em>animal laborans<\/em>que explora a si mesmo. \u00c9 agressor e v\u00edtima ao mesmo tempo. A depress\u00e3o irromperia no momento em que o sujeito de desempenho <em>n\u00e3o pode mais poder<\/em>. Afinal, se tudo \u00e9 poss\u00edvel, como eu n\u00e3o posso? O imperativo do tudo \u00e9 poss\u00edvel \u00e9, paradoxalmente, aniquilador. Porque, obviamente, tudo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Nada mais limitante do que acreditar n\u00e3o ter limites. E viver como se <em>poder poder<\/em> dependesse apenas da (livre) iniciativa de cada um. E n\u00e3o <em>poder poder<\/em>, ter limites, portanto, fosse um fracasso pessoal.<\/p>\n<p>Han sugere que a depress\u00e3o \u00e9 um cansa\u00e7o de fazer e de poder. S\u00f3 uma sociedade que acredita que tudo \u00e9 poss\u00edvel \u00e9 capaz de engendrar a lam\u00faria depressiva de que nada \u00e9 poss\u00edvel. \u201cN\u00e3o mais <em>poder poder<\/em> leva a uma autoacusa\u00e7\u00e3o destrutiva e a uma autoagress\u00e3o\u201d, diz o fil\u00f3sofo. \u201cO sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo \u00e9 o inv\u00e1lido dessa guerra internalizada.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;A autoexplora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais eficiente do que a explora\u00e7\u00e3o do outro, porque caminha de m\u00e3os dadas com o sentimento de liberdade&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>A depress\u00e3o, portanto, seria o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. \u201cO sujeito de desempenho est\u00e1 submisso apenas a si mesmo. \u00c9 nisso que ele se distingue do sujeito de obedi\u00eancia. A queda da inst\u00e2ncia dominadora n\u00e3o leva \u00e0 liberdade. Ao contr\u00e1rio, faz com que liberdade e coa\u00e7\u00e3o coincidam. Assim, o sujeito de desempenho se entrega \u00e0 livre coer\u00e7\u00e3o de maximizar o desempenho. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexplora\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 mais eficiente que uma explora\u00e7\u00e3o do outro, pois caminha de m\u00e3os dadas com o sentimento de liberdade. O explorador \u00e9 ao mesmo tempo o explorado. Agressor e v\u00edtima n\u00e3o podem mais ser distinguidos.\u201d<\/p>\n<p>E, assim, estamos cada mais livres para trabalhar 24X7 \u2013 ou atuar 24X7. Alcan\u00e7amos a paradoxal liberdade de sermos escravos. Como o corpo se rebela, manifestando-se em depress\u00f5es, ins\u00f4nias, crises de ansiedade e de p\u00e2nico, dopa-se o corpo. Mas o corpo n\u00e3o \u00e9 uma outra coisa, n\u00e3o \u00e9 sequer a casa da alma. O corpo \u00e9. Assim, ao mesmo tempo que denunciamos a opress\u00e3o, a calamos. Como a rela\u00e7\u00e3o senhor-escravo n\u00e3o pode ser questionada, menos ainda se ambos ocupam a mesma pessoa, o doping cumpre a fun\u00e7\u00e3o de censurar os protestos do mundo interior \u2013 ou dos escombros que restam dele. Cumpre, no n\u00edvel interno, o papel das bombas de g\u00e1s e das balas de borracha da PM nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua contra o status quo. Mas, aqui, \u00e9 o mesmo indiv\u00edduo, o que reprime, censura e silencia, e o que \u00e9 reprimido, censurado e silenciado.<\/p>\n<p>Ser multitarefa, uma outra dimens\u00e3o do mesmo fen\u00f4meno, \u00e9 visto como uma capacidade neste momento hist\u00f3rico, uma esp\u00e9cie de ganho evolutivo que tornaria a pessoa mais bem adaptada \u00e0 sua \u00e9poca. \u00c9 pergunta de question\u00e1rios, qualidade apresentada por pessoas vendendo a si mesmas, exig\u00eancia apontada pelos gurus do sucesso. Logo se tornar\u00e1 altamente subversivo, desorganizador, algu\u00e9m ter a ousadia de afirmar: \u201cN\u00e3o, eu n\u00e3o sou multitarefa. Me dedico a uma coisa de cada vez\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;Ser multitarefa \u00e9 retroceder a um estado selvagem&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Han, assim como outros fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos, discorda dessa ideia \u2013 ou dessa propaganda. Ou, ainda, dessa armadilha. Para ele, a t\u00e9cnica temporal e de aten\u00e7\u00e3o multitarefa n\u00e3o representa nenhum progresso civilizat\u00f3rio. Trata-se, sim, de um retrocesso. O excesso de positividade se manifesta tamb\u00e9m como excesso de est\u00edmulos, informa\u00e7\u00f5es e impulsos. Modifica radicalmente a estrutura e a economia da aten\u00e7\u00e3o. Com isso, fragmenta e destr\u00f3i a aten\u00e7\u00e3o. A t\u00e9cnica da multitarefa n\u00e3o \u00e9 uma conquista civilizat\u00f3ria atingida pelo humano deste tempo hist\u00f3rico. Ao contr\u00e1rio, est\u00e1 amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem:<\/p>\n<p>\u201cUm animal ocupado no exerc\u00edcio da mastiga\u00e7\u00e3o da sua comida tem de ocupar-se, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele pr\u00f3prio n\u00e3o acabe comido. Ao mesmo tempo ele tem que vigiar sua prole e manter o olho em seu\/sua parceiro\/a. Na vida selvagem, o animal est\u00e1 obrigado a dividir sua aten\u00e7\u00e3o em diversas atividades. Por isso, n\u00e3o \u00e9 capaz de aprofundamento contemplativo \u2013 nem no comer nem no copular. O animal n\u00e3o pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si, pois tem de elaborar, ao mesmo tempo, o que tem atr\u00e1s de si\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;Por falta de repouso, nossa civiliza\u00e7\u00e3o caminha para a barb\u00e1rie&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>A contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 civilizat\u00f3ria. E o t\u00e9dio \u00e9 criativo. Mas ambos foram eliminados pelo preenchimento ininterrupto do tempo humano por tarefas e est\u00edmulos simult\u00e2neos. Voc\u00ea executa uma tarefa e atende ao celular, responde a um WhatsApp enquanto cozinha, come assistindo \u00e0 Netflix e xingando algu\u00e9m no Facebook, pergunta como foi a escola do filho checando o Twitter, dirige o carro postando uma foto no Instagram, faz um trabalho enquanto manda um email sobre outro e assim por diante. Duas, tr\u00eas&#8230; v\u00e1rias tarefas ao mesmo tempo. Como se isso fosse um ganho \u2013 e n\u00e3o uma perda monumental, uma involu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltamos ao modo selvagem. Nietzsche (1844-1900), ainda na sua \u00e9poca, j\u00e1 chamava a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a vida humana finda numa hiperatividade mortal se dela for expulso todo elemento contemplativo: \u201cPor falta de repouso, nossa civiliza\u00e7\u00e3o caminha para uma nova barb\u00e1rie\u201d.<\/p>\n<p>Frente \u00e0 vida desnuda, aponta Han, reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o. A agudiza\u00e7\u00e3o hiperativa da atividade faz com que essa se converta numa hiperpassividade. Aderimos a todo e qualquer impulso e est\u00edmulo. Em vez da liberdade, novas coer\u00e7\u00f5es. S\u00f3 por meio da negatividade do parar interiormente, o sujeito de a\u00e7\u00e3o pode dimensionar todo o espa\u00e7o da conting\u00eancia que escapa a uma mera atividade. Vivemos, diz ele, num mundo muito pobre de interrup\u00e7\u00f5es, pobre de entremeios e tempos interm\u00e9dios.<\/p>\n<p>Assim, o que parece movimento pode ser apenas ades\u00e3o e paralisia. O ativo, ou o hiperativo, talvez seja de fato um hiperpassivo. Se h\u00e1 um tempo s\u00f3, o do acontecimento, ou se tudo \u00e9 acontecimento, nada de fato acontece. Em parte, explica a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 ef\u00eamero, de que o espasmo de um segundo atr\u00e1s, que produziu gritos e f\u00farias, tornou-se distante, substitu\u00eddo por outro que tamb\u00e9m produz gritos e f\u00farias, e que um segundo adiante j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1. E logo n\u00e3o se sabe exatamente pelo que se grita e pelo que se enfurece, mas o imperativo \u00e9 seguir gritando e se enfurecendo.<\/p>\n<p>Nessa atualidade hist\u00e9rica, a irrita\u00e7\u00e3o substitui a ira. Voltando \u00e0s palavras de Han: \u201cA ira \u00e9 uma capacidade que est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo estado. Hoje, cada vez mais, ela cede lugar \u00e0 irrita\u00e7\u00e3o ou ao enervar-se, que n\u00e3o podem produzir nenhuma mudan\u00e7a decisiva\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_8|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">H\u00e1 que se escutar o mal-estar \u2013 e n\u00e3o cal\u00e1-lo<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>A positividade dessa \u00e9poca tem, no meu modo de ver, um desdobramento nessa crise t\u00e3o particular do Brasil. Temos sido instados a ser \u201cotimistas\u201d ou a escolher este ou aquele lado \u201cpara recuperar o otimismo\u201d. Como se a quest\u00e3o se desse em torno do otimismo\/pessimismo, ou como se o otimismo fosse uma qualidade moral. Essa positividade tamb\u00e9m me parece aqui ganhar uma rela\u00e7\u00e3o com a esperan\u00e7a, <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/12\/21\/opinion\/1450710896_273452.html\">como j\u00e1 escrevi neste espa\u00e7o.<\/a> Como se o esperan\u00e7oso tivesse uma qualidade moral a mais, o que o colocaria um ou v\u00e1rios patamares acima de todos os outros. E como se esse momento fosse uma quest\u00e3o de esperan\u00e7a ou de resgate da esperan\u00e7a, para al\u00e9m das manipula\u00e7\u00f5es marqueteiras mais \u00f3bvias. Pouco importa o otimismo\/pessimismo, pouco importa a esperan\u00e7a. O buraco \u00e9 muito mais fundo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/12\/22\/opinion\/1419251053_272392.html\">H\u00e1 que se escutar o mal-estar \u2013 e n\u00e3o cal\u00e1-lo.<\/a> Viv\u00ea-lo num processo de interroga\u00e7\u00e3o, viv\u00ea-lo como movimento. Carregar os limites, sem confundir ter limites com estar paralisado. N\u00e3o h\u00e1 pot\u00eancia total, n\u00e3o h\u00e1 tudo \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 <em>Yes, we can.<\/em> N\u00e3o ter pot\u00eancia total n\u00e3o \u00e9 o mesmo que ser impotente. A ilus\u00e3o da pot\u00eancia total \u00e9 que acaba levando \u00e0 impot\u00eancia. H\u00e1 pot\u00eancia em dizer n\u00e3o \u2013 e h\u00e1 pot\u00eancia em n\u00e3o fazer. Como Bartleby, o personagem de Herman Melville intuiu, \u201cprefiro n\u00e3o fazer\u201d pode ser um ato de resist\u00eancia e de reconex\u00e3o com a pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<section id=\"sumario_9|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;O computador \u00e9 burro porque n\u00e3o \u00e9 capaz de hesitar&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Em mais um paralelo com as crises do Brasil atual, chama a aten\u00e7\u00e3o a necessidade de respostas imediatas, de explica\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas, de certezas. Em alguns momentos mais agudos, uma parcela da pr\u00f3pria imprensa parece ter se esquecido de fazer perguntas. A exig\u00eancia de respostas imediatas, respostas que n\u00e3o passem pela investiga\u00e7\u00e3o e pela interroga\u00e7\u00e3o, leva \u00e0 resposta nenhuma. Porque n\u00e3o h\u00e1 pergunta. Porque o pensamento est\u00e1 ausente, foi substitu\u00eddo pelo reflexo e pelo imperativo de preencher o vazio com palavras. N\u00e3o h\u00e1 m\u00e9rito na velocidade, nadas imediatos continuam sendo nadas. Ou coisa pior.<\/p>\n<p>Como aponta Han, apesar de todo o seu desempenho, o computador \u00e9 burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar. Se o computador conta de maneira mais r\u00e1pida que o c\u00e9rebro humano e acolhe uma imensid\u00e3o de dados \u00e9 tamb\u00e9m porque est\u00e1 livre de toda e qualquer alteridade. \u00c9, por excel\u00eancia, uma m\u00e1quina positiva. Tornar essa positividade uma qualidade a ser imitada \u00e9 uma estupidez a qual temos aderido.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos ouvimos tantos repetindo por a\u00ed: \u201cEstou cansad@\u201d. O cansa\u00e7o, diz Han, \u00e9 mais do menos eu. Mas a trag\u00e9dia \u00e9 que \u201co menos no eu se expressa como um mais para o mundo\u201d. E, assim, a sociedade do cansa\u00e7o, enquanto uma sociedade ativa, desdobra-se lentamente numa sociedade do doping. E leva a um \u201cinfarto da alma\u201d.<\/p>\n<p>Senhor e escravo ao mesmo tempo, temos uma chance enquanto houver tamb\u00e9m um rebelde. Escut\u00e1-lo \u00e9 preciso. Anestesi\u00e1-lo n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/07\/04\/politica\/1467642464_246482.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eliane Brum &#8211; Na sociedade do desempenho, conseguimos a fa\u00e7anha de abrigar o senhor e o escravo no mesmo corpo Nos achamos t\u00e3o livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar na internet, lutamos pelas causas mesmo de pa\u00edses do outro lado do planeta, participamos de protestos globais e mal percebemos que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1078,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1077","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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