{"id":10653,"date":"2019-05-04T14:57:10","date_gmt":"2019-05-04T17:57:10","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10653"},"modified":"2019-05-04T23:01:46","modified_gmt":"2019-05-05T02:01:46","slug":"um-menino-manchado-de-petroleo-agencia-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/05\/04\/um-menino-manchado-de-petroleo-agencia-publica\/","title":{"rendered":"Um menino manchado de petr\u00f3leo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Joseph Z\u00e1rate<\/strong> &#8211; Em 2016, depois de um vazamento de 500 mil litros de petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia peruana, a empresa Petroper\u00fa pagou a ind\u00edgenas para recolh\u00ea-lo. Numa comunidade t\u00e3o pobre, muitas fam\u00edlias viram no desastre uma oportunidade para melhorar sua vida.<\/p>\n<p>Se Deus pudesse lhe conceder um desejo, Osman Cu\u00f1ach\u00ed, um menino ind\u00edgena awaj\u00fan, pediria um smartphone. Ou uma bola de futebol. Ou trocar seus chinelos de pl\u00e1stico por umas alpargatas fosforescentes. No entanto, se ele pensasse um pouco mais, pediria uma casa de cimento e tijolos como as que viu uma vez em Lima, capital do Peru, mais resistentes \u00e0s tormentas que as cabanas de madeira e teto de folhas que abundam em Nazareth, onde vive. Por isso Osman, 11 anos, magrinho como um cabo de vassoura, camiseta desbotada do Homem-Aranha, pensa em se mudar para a capital para estudar arquitetura, ter uma esposa e um s\u00f3 filho, pois sabe que criar tr\u00eas, quatro ou cinco, como \u00e9 comum em sua aldeia, significa passar fome e necessidade. Isso foi o que lhe disse seu pai, um professor aposentado que alimenta cinco bocas com a sua aposentadoria mensal de 400<em>\u00a0soles<\/em>, uns US$ 130: nem a metade do sal\u00e1rio m\u00ednimo. O pai prefere que Osman seja engenheiro qu\u00edmico para que saiba tudo sobre petr\u00f3leo e assim tenha um futuro melhor que ele. Porque, desde que um enorme oleoduto corro\u00eddo derramou cerca de 500 mil litros desse combust\u00edvel aqui, neste peda\u00e7o na selva \u00famida e montanhosa do Amazonas, a segunda regi\u00e3o mais empobrecida do pa\u00eds, alguns adultos dizem que um m\u00eas limpando o petr\u00f3leo do rio paga sete vezes mais que um m\u00eas cultivando a terra. Apesar de temerem estar envenenados.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/01-chiriaco-002.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" \/><\/p>\n<p><em>\u2018Zona zero\u2019 do derrame de Chiriaco. Os trabalhadores levaram quase um m\u00eas para fechar o gasoduto, instalado h\u00e1 42 anos<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma tarde chuvosa de junho de 2016, seis meses depois de ter mergulhado em um rio cheio de petr\u00f3leo, e Osman Cu\u00f1ach\u00ed, membro da na\u00e7\u00e3o ind\u00edgena mais numerosa da floresta ao norte do Peru, faz uma careta e se sente esquisito ao ver o seu rosto em um enorme cartaz pendurado no muro da casa comunal. \u00c9 o lugar onde os awaj\u00fan discutem assuntos importantes sobre a vida da aldeia: eleger uma autoridade, construir um caminho, castigar um ladr\u00e3o. O letreiro anuncia uma campanha de sa\u00fade, realizada pela Coordenadora Nacional de Direitos Humanos e outras ONGs, para avaliar 25 meninos e meninas que asseguram estar doentes por haver recolhido petr\u00f3leo em troca de dinheiro. Na imagem, Osman, metro e meio de estatura, tem manchados de negro o rosto, os bra\u00e7os, os p\u00e9s, a camiseta vermelha que leva em letras brancas a palavra \u201cPeru\u201d. O menino sorri enquanto carrega um balde sujo.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea saiu bem feio \u2013 zomba um amigo, de cabelos espetados, bola debaixo do bra\u00e7o, camiseta do Bar\u00e7a, e Osman esconde o rosto com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>A foto que o envergonha e os peruanos e a imprensa internacional comentariam com indigna\u00e7\u00e3o foi tirada por uma vizinha com o seu celular no dia em que Nazareth deixou de ser a maior comunidade do estado de Bagua, com seus 4 mil habitantes, seu rio marrom e milh\u00f5es de \u00e1rvores altas rasgando o c\u00e9u, para protagonizar \u201co pior desastre ecol\u00f3gico da \u00faltima d\u00e9cada\u201d, como descreveram os jornais.<\/p>\n<p><strong>Os engenheiros<\/strong><\/p>\n<p>Na tarde em que se manchou com petr\u00f3leo, Osman Cu\u00f1ach\u00ed praticava tiros livres com um amigo, quando dois engenheiros da Petroper\u00fa, a companhia estatal mais rent\u00e1vel do pa\u00eds, chegaram a Nazareth em uma caminhonete branca 4\u00d74. Desde cedo um vapor \u00e1cido se expandia desde a margem do rio Chiriaco e se colava \u00e0s cabanas de madeira como uma nuvem invis\u00edvel de gasolina. Uma fissura de 11 cent\u00edmetros em um trecho corro\u00eddo do Oleoduto Norteperuano \u2013 uma serpente de cobre que transporta petr\u00f3leo da floresta para a costa ao longo de mais de 800 quil\u00f4metros \u2013 havia derramado em uma ravina pr\u00f3xima petr\u00f3leo suficiente para encher quase meia piscina ol\u00edmpica. Nativos contratados pela Petroper\u00fa improvisaram uma barreira de troncos e lonas de pl\u00e1stico que conteve o \u00f3leo por alguns dias, mas ningu\u00e9m calculou que a viol\u00eancia de uma tormenta durante a madrugada faria com que transbordasse rio abaixo, espalhando-se como um catarro negro que no caminho tragava insetos, ra\u00edzes de \u00e1rvores, canoas, cultivos de banana, cacau e amendoim. Os animais fugiam da corrente. As m\u00e3es se lamentavam junto \u00e0s suas ch\u00e1caras arruinadas. Cad\u00e1veres de peixes flutuavam sobre a \u00e1gua escura. Catorze vazamentos de petr\u00f3leo contaminaram a selva peruana em 2016 devido a essa cobra met\u00e1lica que se dessangrava com regularidade. Nazareth era s\u00f3 o primeiro elo de uma cadeia de desastres.<\/p>\n<p>No seu livro de ci\u00eancias de sexta s\u00e9rie, Osman Cu\u00f1ach\u00ed havia lido que o petr\u00f3leo \u00e9 uma subst\u00e2ncia pr\u00e9-hist\u00f3rica, feita do mesmo material que os f\u00f3sseis de dinossauro. E, em algum epis\u00f3dio de\u00a0<em>Tom e Jerry<\/em>, ele o havia visto brotar das profundidades da terra como um jorro negro e irrefre\u00e1vel que fazia saltar de alegria o sortudo que o encontrasse. S\u00f3 soube recentemente que o petr\u00f3leo valia dinheiro, na tarde do derramamento, quando os engenheiros da Petroper\u00fa chegaram em seu jipe para anunciar \u00e0s fam\u00edlias que pagariam a quem ajudasse a recolher o combust\u00edvel do rio.<\/p>\n<p>Se um agricultor de banana ganhava normalmente uns 20\u00a0<em>soles<\/em>\u00a0di\u00e1rios \u2013 U$$ 6 \u2013, agora, juntando petr\u00f3leo em um balde, podia ganhar 150\u00a0<em>soles<\/em>, o dobro do sal\u00e1rio de um m\u00e9dico da regi\u00e3o Amazonas. Em uma zona onde sete em cada dez pessoas s\u00e3o pobres, onde n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua pot\u00e1vel nem banheiros, onde as mulheres ficam doentes de anemia por desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, onde \u00e9 mais frequente que uma crian\u00e7a menor de 5 anos morra de mal\u00e1ria do que pela picada de uma cobra, onde ventanias frias e secas inesperadas tornam mais dif\u00edcil encontrar terra f\u00e9rtil para cultivar, o valor oferecido pela Petroper\u00fa era mais do que qualquer awaj\u00fan jamais tinha imaginado ganhar em uma semana.<\/p>\n<p>Os engenheiros n\u00e3o avisaram que seria perigoso. N\u00e3o deram trajes especiais nem disseram quem podia faz\u00ea-lo e quem n\u00e3o podia. Naquela tarde houve fam\u00edlias que foram ao rio recolher todo o petr\u00f3leo poss\u00edvel.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/02-chiriaco-001.jpg?resize=1920%2C1282&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/02-chiriaco-001.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/02-chiriaco-001.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/02-chiriaco-001.jpg?resize=1600%2C1068&amp;ssl=1 1600w\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1282\" \/><\/p>\n<p><em>Trabalhadores, principalmente do grupo \u00e9tnico Awaj\u00fan, observam a \u00e1rea do vazamento em Chiriaco, Peru<\/em><\/p>\n<p>Quando Osman Cu\u00f1ach\u00ed e seus tr\u00eas irm\u00e3os chegaram ao rio contaminado, viram crian\u00e7as, m\u00e3es gr\u00e1vidas, av\u00f3s e meninos submersos na \u00e1gua ou montados em canoas juntando o petr\u00f3leo em baldes e garrafas de pl\u00e1stico. O mesmo rio onde costumavam banhar-se e em cujas margens constru\u00edam castelos de barro, onde haviam aprendido a nadar e a pescar bagres e curimat\u00e3s agora emanava um odor met\u00e1lico que lhes dava n\u00e1useas. Co\u00e7ava a garganta. Os olhos choravam. Roycer, seu irm\u00e3o de 4 anos, se rendeu primeiro. Depois Omar, o de 7, e Naith, sua irm\u00e3 de 14. Submerso na corrente, Osman decidiu ficar at\u00e9 encher o seu balde, ignorando que esse l\u00edquido inflam\u00e1vel que grudava nas suas m\u00e3os \u00e9 o que permite que as cidades funcionem.<\/p>\n<p>Quase nunca prestamos aten\u00e7\u00e3o ao petr\u00f3leo, exceto pelo cheiro acre que flutua nos postos de gasolina quando enchemos o tanque do carro. Mas o petr\u00f3leo n\u00e3o \u00e9 algo que possamos separar de n\u00f3s mesmos ao sairmos de perto da bomba de gasolina e tapar o nariz. Gra\u00e7as ao petr\u00f3leo e \u00e0s ind\u00fastrias derivadas, durante o \u00faltimo s\u00e9culo constru\u00edmos todo o nosso sistema de vida baseado em seu poder. Esquentar nossos pr\u00e9dios e fazer funcionar nossas m\u00e1quinas e ve\u00edculos \u2013 pensemos em uma f\u00e1brica de televis\u00f5es ou no avi\u00e3o que tomamos para sair de f\u00e9rias \u2013 consome 84% do petr\u00f3leo que se extrai anualmente no mundo. Os 16% restantes se transformam em insumos para fabricar milh\u00f5es de coisas. Sem o ouro negro \u2013 e essa alquimia moderna chamada petroqu\u00edmica \u2013, seria imposs\u00edvel mascar um chiclete ou dirigir um carro, n\u00e3o existiriam as alpargatas, nem a pasta de dentes, nem o desodorante, nem as lentes de contato, nem as estradas asfaltadas, nem os pneus, nem a mala com rodinhas, nem os perfumes, nem o batom, nem os \u00f3culos de sol, nem o detergente, nem o enxaguante bucal, nem o creme hidratante, nem as pr\u00f3teses dent\u00e1rias, nem as meias de n\u00e1ilon, nem as panelas de teflon, nem o gel de cabelo, nem o esmalte de unhas, nem o bloqueador solar, nem o guarda-chuva, nem o saco de lixo, nem as v\u00e1lvulas card\u00edacas, nem as aspirinas, nem os rem\u00e9dios para c\u00e2ncer, nem os fertilizantes agr\u00edcolas, nem os conservantes de alimentos, nem os copinhos de poliestireno, nem o lubrificante \u00edntimo, nem as vitaminas em c\u00e1psulas, nem a fibra \u00f3tica, nem o cimento, nem a escova de dentes, nem o xampu, nem as cortinas de chuveiro, nem as mangueiras, nem os laptops, nem o papel fotogr\u00e1fico, nem o sabonete, nem a tinta de cabelos, nem as canetas, nem a tinta impressa nos livros, nem os aparelhos de raio X, nem as garrafas de \u00e1gua mineral, nem as flores artificiais, nem as toalhas de mesa, nem os tapetes, nem a cola, nem as perucas, nem os f\u00f3sforos, nem os extintores, nem o colete salva-vidas, nem a dinamite, nem os c\u00edlios posti\u00e7os, nem a tampa do vaso sanit\u00e1rio, nem os CDs de m\u00fasica, nem os fones de ouvido, nem as banheiras, nem os bot\u00f5es da camisa, nem o papel higi\u00eanico, nem os preservativos, nem quase tudo que \u00e9 feito de pl\u00e1stico: desde pe\u00e7as de naves espaciais at\u00e9 uma Barbie; desde as bolas de futebol at\u00e9 qualquer dos quase 3 bilh\u00f5es de smartphones que existem no mundo, como aquele que Osman Cu\u00f1ach\u00ed, crian\u00e7a awaj\u00fan, pensava em comprar com o dinheiro que os engenheiros da Petroper\u00fa haviam lhe prometido pelo seu balde de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/03-chiriaco-014.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" \/><\/p>\n<p><em>Balde cheio de \u00f3leo no sal\u00e3o comunal da cidade de Nazar\u00e9, como prova de que os colonos foram contratados pela Petroper\u00fa sem qualquer prote\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Era noite quando Osman e seus irm\u00e3os regressaram \u00e0 sua casa de madeira. Ao v\u00ea-los, a m\u00e3e brigou com eles por terem sa\u00eddo sem permiss\u00e3o. Ent\u00e3o correram para o p\u00e1tio, onde as roupas s\u00e3o estendidas para secar e as galinhas cacarejam, e tentaram tirar o petr\u00f3leo do corpo com \u00e1gua e sab\u00e3o, mas n\u00e3o conseguiram. Usaram detergente e n\u00e3o funcionou. Esfregaram o rosto, os bra\u00e7os, as pernas com um esfreg\u00e3o e sab\u00e3o em p\u00f3. Mas nada. At\u00e9 que um primo, que tamb\u00e9m havia estado no rio, disse que se lavassem com gasolina de moto. Naquela noite, Osman n\u00e3o p\u00f4de dormir bem pela coceira e o ardor de tanto ter esfregado o corpo. Na manh\u00e3 seguinte, os engenheiros da Petroper\u00fa voltaram a Nazareth no seu 4\u00d74. O ar ainda fedia a gasolina. Uns 30 awaj\u00fan esperavam com seus baldes cheios de petr\u00f3leo ao lado da estrada. Haviam oferecido a eles 150\u00a0<em>soles<\/em>, US$ 46, por recipiente. Mas no final, apesar das reclama\u00e7\u00f5es das pessoas, os engenheiros s\u00f3 pagaram 20\u00a0<em>soles<\/em>, ou US$ 6. Osman se lembra de que um engenheiro perguntou a sua idade, anotou seu nome em uma caderneta e lhe deu 2\u00a0<em>soles<\/em>, sessenta centavos de d\u00f3lar, como gorjeta pelo balde que ele tinha juntado: o recipiente, disse o engenheiro, tinha mais \u00e1gua que petr\u00f3leo. Osman, cujo nome significa \u201caquele que \u00e9 d\u00f3cil como um pombo\u201d, n\u00e3o protestou como as outras crian\u00e7as. Quando voltou \u00e0 sua casa, deu uma moeda para a sua mam\u00e3e e, com a outra, foi com amigos comprar uma Pepsi e uns biscoitinhos com desenhos de animais.<\/p>\n<p><strong>Virou not\u00edcia<\/strong><\/p>\n<p>E um dia, de repente, voc\u00ea \u00e9 uma crian\u00e7a que vira not\u00edcia. Todo mundo se interessa por voc\u00ea, mas quase nada sabe sobre voc\u00ea.<\/p>\n<p>Jornais, canais de TV e comitivas de ONGs viajam 26 horas por estrada desde Lima, cruzam os Andes, percorrem curvas vertiginosas e vales quentes ladeados por muralhas de vegeta\u00e7\u00e3o at\u00e9 chegar a Nazareth, a comunidade ind\u00edgena onde voc\u00ea nasceu. Querem conhecer voc\u00ea. Olham, perguntam: \u201cTeve medo? Como mergulhou no rio? Onde est\u00e1 a sua roupa manchada de petr\u00f3leo? Pode mostrar?\u201d.<\/p>\n<p>Parecem competir para ver quem conta algo mais terr\u00edvel, sabendo que essas trag\u00e9dias interessam sobretudo a quem n\u00e3o as viveu, a quem mora nas cidades viciadas em pl\u00e1stico, aliviado por n\u00e3o ser voc\u00ea. O menino manchado de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>\u2013 Meu papai diz que as pessoas s\u00f3 v\u00eam aqui quando acontecem coisas ruins \u2013, diz Osman Cu\u00f1ach\u00ed enquanto olha a sua foto no cartaz da campanha de sa\u00fade na aldeia. \u2013 Eu quero que me vejam defendendo gols, n\u00e3o quero que tenham pena de mim.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/04-chiriaco-013.jpg?resize=1920%2C1282&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/04-chiriaco-013.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/04-chiriaco-013.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/04-chiriaco-013.jpg?resize=1600%2C1068&amp;ssl=1 1600w\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1282\" \/><\/p>\n<p><em>Os irm\u00e3os Cu\u00f1ach\u00ed \u2013 Osman, Omar e Segundo \u2013 trabalharam para a Petroper\u00fa coletando petr\u00f3leo bruto sem qualquer prote\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s seis da tarde o c\u00e9u sobre Nazareth se aproxima do p\u00farpura mais escuro. Dizer que chove seria pouca coisa: a chuva aqui acontece como jatos de \u00e1gua irrefre\u00e1veis que, misturados com trov\u00f5es, estremecem os jambos. Na casa comunal, gotas grossas se filtram pelo teto de chapa met\u00e1lica e formam pequenas po\u00e7as no ch\u00e3o. Por um defeito no gerador, n\u00e3o h\u00e1 luz el\u00e9trica, mas nessa penumbra o m\u00e9dico Fernando Osores, um quarent\u00e3o alto e robusto, for\u00e7a a vista: recolhe amostras de sangue e urina e corta mechas do cabelo de 25 meninos e meninas awaj\u00fan, de 6 a 15 anos, que recolheram petr\u00f3leo no rio.<\/p>\n<p>Enquanto os pais assinam autoriza\u00e7\u00f5es, seus filhos passam, um a um, a uma barraca de campanha levantada dentro da casa. O m\u00e9dico de Lima recolhe as amostras que logo enviar\u00e1 ao laborat\u00f3rio do Instituto Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica do Quebec, no Canad\u00e1, onde ser\u00e3o analisadas. De acordo com as leis de sa\u00fade, m\u00e9dicos do Estado peruano deveriam ter feito esse trabalho no dia seguinte ao vazamento. J\u00e1 se passaram seis meses \u2013 em breve passar\u00e1 um ano e mais outro \u2013 e nada. \u201cCom certeza est\u00e3o muito ocupados\u201d, me diz o m\u00e9dico Osores, que d\u00e1 um sorriso fingido. Logo um menininho esqu\u00e1lido foge do consult\u00f3rio, horrorizado pelas agulhas. Seu pai grita algo em awaj\u00fan e sai correndo atr\u00e1s dele. O m\u00e9dico, empapado em suor, pede que algu\u00e9m ilumine com a lanterna de um celular para que ele possa continuar o trabalho.<\/p>\n<p>Osman Cu\u00f1ach\u00ed n\u00e3o \u00e9 do tipo de menino que espera sentado. Quando a chuva para, aguarda a sua vez junto aos amigos e seu cachorro negro, Lucky, em um descampado de terra ca\u00e7ando escorpi\u00f5es e outros bichos, que logo queimar\u00e1 vivos com um f\u00f3sforo. A alguns metros dali, Jaime Cu\u00f1ach\u00ed, pai de Osman, de 66 anos, passa o dia sentado em um banco de madeira, tecendo uma rede de pesca. Um chap\u00e9u cinza cobre a calv\u00edcie. Suas cal\u00e7as verdes curtas deixam ver um toco onde antes havia a perna direita. Faz dois anos que a amputaram por uma gangrena agravada pela diabete, uma doen\u00e7a frequente entre os awaj\u00fan e dif\u00edcil de tratar devido \u00e0 dieta pobre e \u00e0 falta de rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tenho perna, mas sim uma boa mem\u00f3ria \u2013 ri o senhor Cu\u00f1ach\u00ed, antigo chefe de Nazareth, com os poucos dentes que lhe sobram, enquanto espanta os mosquitos do rosto com um trapo.<\/p>\n<p>Diz que o campo de futebol onde agora o filho est\u00e1 brincando \u00e9 um antigo cemit\u00e9rio de m\u00e1quinas e tubos usados no final dos anos 1960 para construir o Oleoduto Norteperuano, umas das maiores obras de engenharia da hist\u00f3ria do Peru. A ditadura militar do general Juan Velasco Alvarado investiu cerca de US$ 1 bilh\u00e3o e o trabalho de 2 mil homens no projeto que levaria o Peru ao Primeiro Mundo, essa promessa de sempre.<\/p>\n<p>Em Nazareth, alguns anci\u00e3os awaj\u00fan j\u00e1 conheciam o petr\u00f3leo de tempos passados. Respeitados pelo seu car\u00e1ter guerreiro \u2013 os primeiros cronistas os chamavam de\u00a0<em>j\u00edbaros<\/em>\u00a0\u201credutores de cabe\u00e7as\u201d \u2013, foram uma de tantas na\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas que nem os incas nem os soldados espanh\u00f3is puderam conquistar. Permaneceram isolados durante centenas de anos at\u00e9 que, em meados do s\u00e9culo 20, as ind\u00fastrias extrativas e os apach muun, homens brancos, chegaram com m\u00e1quinas gigantes para perfurar o subsolo.<\/p>\n<p>O senhor Cu\u00f1ach\u00ed era um menino que n\u00e3o sabia castelhano quando chegou o oleoduto por ali. Nazareth era ent\u00e3o um punhado de cabanas de madeira e folhas espalhadas entre a floresta e um rio marrom que se precipitava por um leito de pedras lisas e enormes. Os awaj\u00fan vestiam t\u00fanicas marrons de algod\u00e3o e colares de sementes. Pintavam o rosto com a tinta vermelha das sementes de urucum. Tomavam ayahuasca para comunicar-se com os esp\u00edritos da selva. A gente dos Andes, desde s\u00e9culos atr\u00e1s, os chamava \u201caguarunas\u201d: do qu\u00e9chua\u00a0<em>awajruna<\/em>, \u201chomem que tece\u201d. Mas eles, no seu idioma, sempre se definiram como\u00a0<em>lia\u00e9nts<\/em>: \u201cos verdadeiros homens\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cEu me banhei no rio Chiriaco e tudo bem\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Um dia uns engenheiros chegaram com suas fam\u00edlias e levantaram um acampamento para construir um trecho do oleoduto. O senhor Cu\u00f1ach\u00ed costumava ca\u00e7oar dos forasteiros com os seus filhos: as crian\u00e7as brancas. Trocava mam\u00f5es por carrinhos de pl\u00e1stico, zarabatanas de ca\u00e7a por estilingues de borracha. Aprendia castelhano. Quando a constru\u00e7\u00e3o do oleoduto come\u00e7ou, helic\u00f3pteros militares vinham todos os dias carregando enormes tubula\u00e7\u00f5es. Enquanto os adultos abriam trilhas a fac\u00e3o para dar passagem \u00e0s m\u00e1quinas, as crian\u00e7as awaj\u00fan corriam e brincavam de esconde-esconde dentro das tubula\u00e7\u00f5es ainda por instalar.<\/p>\n<p>Quando as obras terminaram, a empresa estadunidense Williams, a cargo da constru\u00e7\u00e3o, decidiu sepultar todo o material restante debaixo do campo de futebol onde agora brincam Osman e os amigos, pois ficava mais barato enterr\u00e1-lo do que transport\u00e1-lo. Um dia os engenheiros se foram. Ent\u00e3o, um grupo de fam\u00edlias deixou o monte para assentar-se no acampamento abandonado, repleto de formigas negras que devoravam ratos e afugentavam as cobras. Ali fundaram a sua primeira escola.<\/p>\n<p>Logo chegariam a estrada, a luz el\u00e9trica, a televis\u00e3o a cabo, o posto m\u00e9dico e centenas de ind\u00edgenas e forasteiros atra\u00eddos pela aparente prosperidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/05-chiriaco-016.jpg?resize=1920%2C1282&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/05-chiriaco-016.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/05-chiriaco-016.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/05-chiriaco-016.jpg?resize=1600%2C1068&amp;ssl=1 1600w\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1282\" \/><\/p>\n<p><em>O rio Chiriaco \u2013 um afluente do rio Maran\u00f3n \u2013 conecta-se diretamente com a Amaz\u00f4nia<\/em><\/p>\n<p>Quase meio s\u00e9culo depois, Nazareth \u00e9 uma aldeia de pescadores, agricultores, pequenos comerciantes e mototaxistas que fazem a sua vida ao redor do rio Chiriaco. Agora mesmo, como qualquer crian\u00e7a awaj\u00fan, Osman Cu\u00f1ach\u00ed poderia estar pescando ou banhando-se ali. Mas n\u00e3o deve. Desde o vazamento, as autoridades ambientais proibiram essa atividade pela quantidade de chumbo e c\u00e1dmio que h\u00e1 nas \u00e1guas e nos peixes. O chumbo \u00e9 um veneno que, mesmo em n\u00edveis baixos de exposi\u00e7\u00e3o, pode afetar o desenvolvimento do c\u00e9rebro das crian\u00e7as e causar anemia, hipertens\u00e3o e efeitos irrevers\u00edveis no sistema nervoso central. O c\u00e1dmio pode danificar os rins, ossos e pulm\u00f5es e causar c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Os awaj\u00fan dizem que esses metais t\u00f3xicos prov\u00eam do petr\u00f3leo. A Petroper\u00fa diz que o petr\u00f3leo tem quantidades rid\u00edculas desses metais. Germ\u00e1n Vel\u00e1squez, comandante aposentado da Pol\u00edcia Nacional, assessor de empresas e por esses dias presidente da companhia, assegura que os metais s\u00e3o provenientes do esgoto e do lixo \u2013 garrafas de pl\u00e1stico, fraldas descart\u00e1veis sujas, baterias usadas, \u00f3leo de motor \u2013 que os povos pr\u00f3ximos jogam nas margens do rio Chiriaco.<\/p>\n<p>\u2013 Se algu\u00e9m ali tem a op\u00e7\u00e3o de receber algum tipo de indeniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, dir\u00e1 que o petr\u00f3leo lhes faz chorar \u2013 me disse Vel\u00e1squez, um cinquent\u00e3o grisalho, numa tarde em um caf\u00e9 de Lima, enquanto acomodava meio sorriso abaixo dos seus \u00f3culos tartaruga. \u2013 Eu investiguei: para que o petr\u00f3leo contamine, voc\u00ea teria que ter estado metido em um barril por tr\u00eas ou quatro dias. Eu me banhei no rio Chiriaco e tudo bem.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o oficial, a empresarial, \u00e9 otimista. A da ci\u00eancia n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Quem disser que o petr\u00f3leo \u00e9 inofensivo mente \u2013 me diria semanas depois o m\u00e9dico Fernando Osores, enquanto descansava, depois de atender durante dez horas seguidas meninos e meninas das comunidades afetadas.<\/p>\n<p>Osores \u00e9 especialista em toxicologia ambiental e doen\u00e7as tropicais. H\u00e1 20 anos trata casos de contamina\u00e7\u00e3o causada por minas e empresas de g\u00e1s e petr\u00f3leo no Peru. Quando ocorre um vazamento \u2013 explica \u2013, milh\u00f5es de mol\u00e9culas de hidrocarbonetos evaporam e se expandem rapidamente como gases venenosos. Basta que algu\u00e9m as respire durante uns minutos para ter dor de cabe\u00e7a, tontura ou dor no abd\u00f4men. Se algu\u00e9m se exp\u00f5e ao petr\u00f3leo sem prote\u00e7\u00e3o durante dias, \u00e9 ainda pior: aparecem alergias na pele, irrita\u00e7\u00e3o na garganta, dificuldades para respirar. O petr\u00f3leo \u00e9 uma mistura complexa de centenas de hidrocarbonetos. Alguns deles, como o benzeno e o xileno, podem danificar o sistema nervoso e, com o passar dos anos, causar c\u00e2ncer. O petr\u00f3leo derramado na correnteza de um rio \u00e9 outro problema. Ele se divide em gotas min\u00fasculas que se misturam com part\u00edculas de barro e se sedimentam no leito do rio. Assim come\u00e7a a rea\u00e7\u00e3o em cadeia: as part\u00edculas contaminadas alimentam as bact\u00e9rias; as bact\u00e9rias contaminam min\u00fasculos organismos aqu\u00e1ticos chamados pl\u00e2nctons; os pl\u00e2nctons, os peixes; os peixes, os humanos. Quando passa o tempo, a contamina\u00e7\u00e3o pelo petr\u00f3leo \u00e9 impercept\u00edvel \u00e0 vista. N\u00e3o tem forma, nem cheiro, nem som. \u00c9 incorp\u00f3rea como \u00e1tomos invis\u00edveis. Os nossos sentidos n\u00e3o servem para perceber o dano.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Osores pode resumir tudo em uma frase:<\/p>\n<p>\u2013 Estamos diante de um desastre qu\u00edmico.<\/p>\n<p><strong>\u201cEsterco do dem\u00f4nio\u201d<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/06-chiriaco-009.jpg?resize=1000%2C668&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/06-chiriaco-009.jpg?w=1000&amp;ssl=1 1000w, https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/06-chiriaco-009.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1 800w\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"668\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p><em>Um caminh\u00e3o-tanque cheio de petr\u00f3leo que foi recuperado do vazamento, pronto para ser transferido para a refinaria de Talara, na costa norte do Peru<\/em><\/p>\n<p>Os \u00faltimos 150 anos de consumo global de petr\u00f3leo s\u00e3o apenas o presente e o passado imediato de um v\u00ednculo t\u00e3o antigo como os mitos pr\u00e9-hisp\u00e2nicos. O petr\u00f3leo \u2013 do latim\u00a0<em>petroleum<\/em>, \u00f3leo de pedra \u2013 foi descoberto e aproveitado em muitas \u00e9pocas e lugares com fins pr\u00e1ticos, festivos, religiosos ou m\u00e1gicos. Na Am\u00e9rica, a subst\u00e2ncia teve pelo menos dois nomes com genealogia registrada. Os astecas o chamaram\u00a0<em>choppotli<\/em>. O segundo nome nasceu dos po\u00e7os de breu, um petr\u00f3leo viscoso, que existiam na costa norte do Peru. Os antigos peruanos chamavam\u00a0<em>cop\u00e9<\/em>\u00a0essas po\u00e7as fedidas e perdidas nos confins do deserto, cuja origem remontava a uma era ainda mais antiga, a idade dos gigantes, personagens que, segundo as lendas, haviam escavado esses po\u00e7os inexplic\u00e1veis.<\/p>\n<p>O historiador Pablo Macera destacou essa vis\u00e3o supersticiosa do petr\u00f3leo: subst\u00e2ncia misteriosa, desconhecida, qui\u00e7\u00e1 por isso maligna. Era chamada de \u201cesterco do dem\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, v\u00e1rios s\u00e9culos e guerras e avan\u00e7os cient\u00edficos depois, nossa depend\u00eancia do petr\u00f3leo alcan\u00e7a uma dimens\u00e3o t\u00e3o escandalosa que se tornou um tema de debate frequente entre pol\u00edticos e ambientalistas. Em 2007, durante o Congresso Mundial de Energia, se anunciou que a Terra armazenava reservas de petr\u00f3leo para mais um ou dois s\u00e9culos. \u201cO mundo n\u00e3o tem que se preocupar por muito tempo com o fim do petr\u00f3leo\u201d, assegurou Abdallah S. Jumah, ent\u00e3o presidente da Saudi Aramco, companhia petrol\u00edfera estatal saudita, a maior do planeta.<\/p>\n<p>Apesar de toda essa confian\u00e7a empresarial, a Ag\u00eancia Internacional de Energia, que monitora as reservas energ\u00e9ticas da Terra, prognosticou que o mundo necessitar\u00e1 do equivalente \u00e0s reservas petrol\u00edferas de seis Ar\u00e1bias Sauditas para cobrir a demanda at\u00e9 2030. Fatih Birol, especialista em energia e diretor executivo da ag\u00eancia, implora: \u201cDevemos abandonar o petr\u00f3leo antes que ele nos abandone\u201d.<\/p>\n<p>O Peru foi pioneiro na Am\u00e9rica Latina em explorar o ouro negro comercialmente. Em 1924, quando a Venezuela debutava como na\u00e7\u00e3o petroleira, o Peru j\u00e1 era l\u00edder na regi\u00e3o. Quase um s\u00e9culo depois, a Venezuela produz 1 milh\u00e3o e meio de barris di\u00e1rios, informa a Organiza\u00e7\u00e3o de Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo. O Peru gera quase 3% dessa quantidade. O sonho nacionalista de ser uma pot\u00eancia petrol\u00edfera acabou em fiasco: hoje o Oleoduto Norteperuano funciona com 10% de sua capacidade. O petr\u00f3leo dispon\u00edvel \u2013 que se extrai da Amaz\u00f4nia peruana onde vivem os awaj\u00fan e outras etnias, e que \u00e9 mais denso e caro de refinar do que o do Oriente M\u00e9dio \u2013 se esgota, mas a popula\u00e7\u00e3o aumenta e, com ela, o consumo de combust\u00edvel. O Peru est\u00e1 entre os 20 pa\u00edses \u201cmais viciados\u201d em petr\u00f3leo, segundo a publica\u00e7\u00e3o Relat\u00f3rio Estat\u00edstico da Energia Mundial, publicada pela British Petroleum. E \u00e9 o quarto pa\u00eds de Am\u00e9rica mais vulner\u00e1vel aos danos causados pelo aquecimento global e o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Com o petr\u00f3leo ocorre o mesmo que com a ind\u00fastria da carne: os pa\u00edses ricos ganham muito mais por consumi-lo do que os pa\u00edses pobres por produzi-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma necess\u00e1ria obviedade dizer que a multimilion\u00e1ria ind\u00fastria do petr\u00f3leo \u00e9 uma das mais sujas que existem. Mas que a sua energia tenha substitu\u00eddo a tra\u00e7\u00e3o humana e animal \u00e9 uma melhora extraordin\u00e1ria, um dos grandes inventos deste mundo. Os cientistas, no entanto, insistem: se, para a segunda metade do s\u00e9culo 21, os pa\u00edses n\u00e3o mudarem suas fontes de energia para outras menos destrutivas para o planeta, \u00e9 muito prov\u00e1vel que a natureza e o sistema econ\u00f4mico atual colapsem.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o vai al\u00e9m do tema ecol\u00f3gico e est\u00e1 condicionada pela for\u00e7a da realidade: o petr\u00f3leo que nos sustenta acabar\u00e1 e n\u00e3o poderemos evitar.<\/p>\n<p><strong>Os amigos n\u00e3o queriam brincar com ele<\/strong><\/p>\n<p>Osman Cu\u00f1ach\u00ed entende pouco de pol\u00edtica ambiental e nunca escutou o senhor Birol, mas sabe como \u00e9 dif\u00edcil tirar o petr\u00f3leo do corpo quando se fica manchado com ele. Pouco depois de ter recolhido o \u00f3leo e arranc\u00e1-lo da pele com gasolina de motocicleta, Osman desmaiou enquanto marchava em um desfile escolar. Sua professora contou aos pais que o menino estava deitado na carteira e dormindo na aula. Durante dias ele vinha sentindo intensas dores de cabe\u00e7a e enjoos. Tinha irrita\u00e7\u00f5es nos bra\u00e7os e nas pernas, e n\u00e3o parava de se co\u00e7ar. Por esses dias tinha viralizado nas redes sociais a sua foto. \u201cO pior desastre ecol\u00f3gico da \u00faltima d\u00e9cada\u201d, diziam. A Petroper\u00fa lamentava o ocorrido, mas negava ter contratado crian\u00e7as para esse trabalho. Mas a foto de Osman era uma prova que afundava a empresa no esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Um dia, dois engenheiros dessa companhia foram busc\u00e1-lo em casa. Com autoriza\u00e7\u00e3o do senhor Cu\u00f1ach\u00ed e acompanhado pela tia, levaram Osman a uma cl\u00ednica privada de Piura, regi\u00e3o da costa norte do pa\u00eds, sede da principal refinaria da Petroper\u00fa. Analisaram seu sangue. Tiraram radiografias. Levaram-no para passear pela pra\u00e7a. Para comer frango na brasa. Hospedaram-no em um hotel que tinha um computador no qual ele podia jogar Zumbis vs. Plantas, um de seus games favoritos. Uma semana e meia depois, ele voltou para casa com umas vitaminas, umas cartelas de paracetamol, um unguento para a erup\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea e um certificado de sa\u00fade. O menino, dizia o m\u00e9dico, s\u00f3 tinha anemia.<\/p>\n<p>De volta a Nazareth, Osman procurou os amigos, mas n\u00e3o queriam mais brincar com ele.<\/p>\n<p>\u2013 Por que a empresa s\u00f3 atende voc\u00ea? \u2013 um reclamou. \u2013 N\u00f3s tamb\u00e9m recolhemos petr\u00f3leo e ningu\u00e9m vem nos buscar. Com certeza te deram dinheiro.<\/p>\n<p>Osman esteve triste por v\u00e1rios dias. At\u00e9 que Yolanda, sua m\u00e3e, lhe deu umas moedas e ele comprou doces para os amigos. Assim se reconciliaram.<\/p>\n<p>Yolanda Yampis tem uns 30 anos, o cabelo negro longo at\u00e9 a cintura, e sorri toda vez que fala, como se estivesse com vergonha. Como a maioria dos awaj\u00fan, Yolanda tem uma risada aguda, r\u00edtmica, contagiante \u2013\u00a0<em>jijijijiiiii<\/em>\u00a0\u2013, como se cantasse ou imitasse o canto de uma ave desconhecida. Ela conta que, durante os dias seguintes ao vazamento, v\u00e1rios adultos de Nazareth e de outras comunidades pr\u00f3ximas abandonaram suas ch\u00e1caras para trabalhar para a Petroper\u00fa.<\/p>\n<p>Yolanda tamb\u00e9m trabalhou. O ano escolar estava por come\u00e7ar e ela necessitava do dinheiro. Depois de a terem contratado, os engenheiros da Petroper\u00fa a vestiram como nos filmes de cat\u00e1strofes radioativas: um macac\u00e3o branco de pl\u00e1stico, um capacete laranja, \u00f3culos protetores, botas de borracha, luvas e uma m\u00e1scara dessas que os enfermeiros usam, mas que n\u00e3o evitava que respirasse os gases t\u00f3xicos que emanavam do petr\u00f3leo. Durante um m\u00eas, junto a dezenas de homens e mulheres, Yolanda escavou com uma p\u00e1 a terra contaminada. Arrancou os restos da vegeta\u00e7\u00e3o manchada de petr\u00f3leo e guardou em sacos. Assim ela ganhou quase 4 mil\u00a0<em>soles<\/em>, US$ 1.500, dez vezes a aposentadoria que recebe o marido. Com o dinheiro comprou uma geladeira para vender refrigerantes e cervejas, material escolar para os quatro filhos, um tronco de \u00e1rvore para construir mais um quarto na sua casa e pagou pe\u00f5es para colher a banana da sua ch\u00e1cara, de quase meio hectare.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/07-chiriaco-004.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p><em>Os limpadores pegam o \u00f3leo do rio em baldes e o colocam juntos em barris<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Mas o dinheiro termina \u2013 me disse ela, a voz fininha, o castelhano com sotaque.<\/p>\n<p>Yolanda estava de p\u00e9 na casa comunal junto com outros pais, com os bra\u00e7os cruzados. O riso de antes tinha virado um gesto duro de l\u00e1bios apertados. Observava nervosa o m\u00e9dico Osores, na penumbra, que tirava amostras de sangue de Osman, o segundo dos seus filhos.<\/p>\n<p>\u2013 O derramamento me deu oportunidade, mas para qu\u00ea, se ao final voc\u00ea fica contaminada? Talvez meus filhos estejam doentes. Talvez eu tamb\u00e9m. N\u00f3s n\u00e3o sabemos.<\/p>\n<p>Por juntar petr\u00f3leo em um balde, diz a m\u00e3e, Osman Cu\u00f1ach\u00ed tem irrita\u00e7\u00f5es nas pernas e nos bra\u00e7os. Seu irm\u00e3o Omar, o terceiro de quatro, tem dores de cabe\u00e7a e diarreia. Assim como eles, v\u00e1rias crian\u00e7as de Nazareth come\u00e7aram a sentir mal-estar depois de terem recolhido petr\u00f3leo do rio. Em uma assembleia convocada uma semana depois do vazamento, a comunidade enviou um comunicado ao ent\u00e3o presidente Ollanta Humala e ao ministro da Sa\u00fade reclamando aten\u00e7\u00e3o imediata. Inclu\u00eda uma lista com os nomes das crian\u00e7as que se encontravam doentes depois de terem recolhido petr\u00f3leo. Somente nesta comunidade eram mais de 50. A Petroper\u00fa doou toneladas de v\u00edveres e \u00e1gua engarrafada e come\u00e7ou campanhas de sa\u00fade para atend\u00ea-los. No entanto, at\u00e9 janeiro 2017, um ano depois do vazamento, ningu\u00e9m neste peda\u00e7o de floresta tinha um certificado m\u00e9dico do Estado que provasse se tinha sido contaminado ou n\u00e3o pelo contato com petr\u00f3leo. O governo nunca foi at\u00e9 Nazareth ou \u00e0s outras comunidades afetadas para examinar rigorosamente a sa\u00fade das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>\u2013 Parece que as autoridades est\u00e3o esperando que passem dez, 20 anos, at\u00e9 que as pessoas morram, para vir averiguar o que aconteceu de fato \u2013 me disse o m\u00e9dico Osores enquanto fechava em caixas com gelo seco as amostras de cabelo, sangue e urina a serem enviadas de avi\u00e3o a um laborat\u00f3rio no Canad\u00e1 naquela mesma noite.<\/p>\n<p>Essas provas seriam a primeira tentativa de averiguar o n\u00edvel de contamina\u00e7\u00e3o dos meninos de Nazareth. Por\u00e9m, com o passar dos meses, o petr\u00f3leo derramado afetaria n\u00e3o s\u00f3 a sa\u00fade das pessoas, mas tamb\u00e9m os pensamentos de alguns. Sobretudo desde quando, para al\u00e9m de espalhar temor, o desastre lhes ofereceu a possibilidade de ganhar algum dinheiro.<\/p>\n<p><strong>\u201cUm sal\u00e1rio que nunca na vida v\u00e3o encontrar\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Um homem awaj\u00fan sem o bra\u00e7o esquerdo vigia o acampamento da Petroper\u00fa, pr\u00f3ximo \u00e0 ravina onde ocorreu o vazamento. Se trata de uma fila de barracas azuis e verdes plantadas ao lado de uma estrada asfaltada que leva at\u00e9 o centro de Chiriaco, o maior povoado da regi\u00e3o, a dez minutos de Nazareth em motot\u00e1xi. Dentro das barracas h\u00e1 oper\u00e1rios consultando mapas, algumas engenheiras analisando arquivos de Excel nos seus laptops, uma m\u00e9dica novinha muito maquiada e entediada morrendo de calor diante de dois ventiladores el\u00e9tricos a toda velocidade. Essa \u00e9 a equipe que planeja a limpeza do vazamento. A maioria \u00e9 de Lima ou de outras cidades da costa.<\/p>\n<p>Na entrada, um enorme letreiro vermelho com letras brancas, garrafais, adverte:<\/p>\n<p>PROIBIDA A CONTRATA\u00c7\u00c3O DE MENORES DE IDADE<\/p>\n<p>\u00c9 uma medida da companhia, explicam, para evitar \u201co falat\u00f3rio na imprensa\u201d.<\/p>\n<p>\u2013 Aqui na Petroper\u00fa n\u00f3s fazemos as coisas direito.<\/p>\n<p>O engenheiro da Petroper\u00fa que supervisiona a limpeza do derramamento em Chiriaco \u00e9 um cinquent\u00e3o de nariz afilado e fala eloquente, que me lembra a cada 20 minutos de n\u00e3o mencionar seu nome nessa hist\u00f3ria porque tem medo de perder o emprego. Viajamos em uma furgoneta cheia de sacos de arroz, feij\u00e3o, latas de atum e garrafas de \u00e1gua. S\u00e3o doa\u00e7\u00f5es da empresa para algumas escolas de dez comunidades que, antes, se abasteciam das \u00e1guas do rio agora contaminado.<\/p>\n<p>\u00c9 uma manh\u00e3 calorenta que provoca uma pregui\u00e7a \u00famida, agoniante. O engenheiro an\u00f4nimo me conta que fizeram todo o poss\u00edvel para deixar tudo como era antes e que os trabalhos de limpeza est\u00e3o para terminar.<\/p>\n<p>\u2013 Demos trabalho a mais de 800 pessoas, com um sal\u00e1rio que nunca na sua vida v\u00e3o encontrar.<\/p>\n<p>Sentada ao meu lado, Yesenia Gonzales, a assistente do engenheiro, diz que \u00e9 verdade e me conta tudo o que conseguiu trabalhando para a Petroper\u00fa. Yesenia vive em Chiriaco, mas nasceu em Pi\u00fara, cidade da costa norte do Peru, de onde vieram homens e mulheres nas \u00faltimas d\u00e9cadas para trabalhar nas ro\u00e7as e nos com\u00e9rcios da selva peruana. Ela tem 24 anos, o corpo esbelto por causa do trabalho f\u00edsico e um rosto no qual brilham dois olhos negros e vigilantes.<\/p>\n<p>Quando ocorreu o derramamento, Yesenia vivia em um quartinho alugado com o marido pedreiro e as duas filhas. Trabalhava em um carrinho de sucos e ganhava 20 soles, US$ 3, por 12 horas de trabalho. Uma tarde, uma amiga avisou que a Petroper\u00fa estava contratando oper\u00e1rios para limpar o vazamento. Durante dez dias, ela e o marido se levantaram de madrugada para ir ao acampamento onde meia centena de pessoas, entre nativos e forasteiros, esperavam uma oportunidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 faz tr\u00eas meses que ela est\u00e1 trabalhando na empresa e j\u00e1 fez de tudo: recolheu petr\u00f3leo submersa no rio, carregou sacos com terra contaminada, limpou pedra por pedra com jatos de \u00e1gua a press\u00e3o. \u00c0s vezes, por curiosidade, colhia um pouco de petr\u00f3leo entre os dedos: observava sua cor estranha, sentia a sua viscosidade, como a de um chiclete negro derretido pelo sol. Para cada dia de trabalho, das sete da manh\u00e3 at\u00e9 as seis da tarde, ganhou 150\u00a0<em>soles<\/em>, US$ 46, e o dobro aos domingos. Yesenia ganha mais que um professor da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Ningu\u00e9m paga assim aqui \u2013 diz, abrindo os olhos. \u2013 Eu estou muito agradecida \u00e0 Petroper\u00fa porque trabalhando no petr\u00f3leo consegui ganhar meu dinheiro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/10-chiriaco-011.jpg?resize=1920%2C1282&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/10-chiriaco-011.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/10-chiriaco-011.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/10-chiriaco-011.jpg?resize=1600%2C1068&amp;ssl=1 1600w\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1282\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p><em>A pele de um trabalhador \u00e9 limpa com cuidado para evitar a contamina\u00e7\u00e3o da pele<\/em><\/p>\n<p><strong>Tesouro nas entranhas<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi a primeira vez que essa ideia do petr\u00f3leo como um generoso barril sem fundo aparecia nesta regi\u00e3o. O entusiasmo de Yesenia lembra outro entusiasmo mais antigo: de quando se imaginava a selva peruana como o espa\u00e7o onde a promessa de prosperidade se cumpriria gra\u00e7as ao recurso que escondia nas entranhas.<\/p>\n<p>Na primeira vez que se explorou um po\u00e7o de petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia peruana, em 17 de novembro de 1971, a capa do<em>\u00a0El Comercio<\/em>\u00a0\u2013 o principal jornal do pa\u00eds, na \u00e9poca expropriado pelo governo militar \u2013 anunciava:<\/p>\n<p><em>\u201cBanharam-se em petr\u00f3leo\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>500 oper\u00e1rios que trabalham na regi\u00e3o Trompeteros [na floresta de Loreto, norte do Peru] com equipamentos pertencentes \u00e0 empresa petroleira do Estado, cantaram, dan\u00e7aram e se banharam com petr\u00f3leo, arrebatados pela alegria de haver realizado (\u00e0s 7h15 da manh\u00e3, precisamente) uma descoberta de import\u00e2ncia transcendental para a economia do nosso pa\u00eds. Durante toda a manh\u00e3 houve uma grande festa em Trompeteros [\u2026]. A par do sucesso, o presidente da Rep\u00fablica, general da Divis\u00e3o EP Juan Velasco Alvarado, expressou telefonicamente suas felicita\u00e7\u00f5es a quem havia tornado poss\u00edvel o referido jorro petrol\u00edfero.<\/em><\/p>\n<p>Em um surto de confian\u00e7a, o presidente da Petroper\u00fa de ent\u00e3o, Marco Fern\u00e1ndez Baca, general do regime, jurava: \u201cO futuro econ\u00f4mico do Peru est\u00e1 garantido\u201d.<\/p>\n<p>Desde a metade do s\u00e9culo 20, com o auge sangrento da borracha, a selva peruana nunca havia sido t\u00e3o cobi\u00e7ada. As sociedades amaz\u00f4nicas sempre haviam produzido tudo o que necessitavam: ca\u00e7avam, pescavam, coletavam, faziam a terra germinar. N\u00e3o dependiam do exterior para seu sustento. Nem podiam ter acesso a produtos que n\u00e3o produziam. Anos mais tarde, a corrida do petr\u00f3leo e a constru\u00e7\u00e3o do Oleoduto Norteperuano causaram uma enorme demanda por m\u00e3o de obra. Com os sal\u00e1rios das empresas, os \u00edndios compravam r\u00e1dios, espingardas, rem\u00e9dios. N\u00e3o eram poucos os que gastavam tudo com cerveja e prostitutas. Comunidades nativas inteiras deixaram de ser autossuficientes para depender do dinheiro ganho das companhias de petr\u00f3leo. Mudaram-se para as cidades, para os acampamentos de trabalhadores em busca de um futuro melhor. Alguns esqueceram sua l\u00edngua e seus costumes. Na cidade, acreditaram, poderiam ser algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Quatro d\u00e9cadas depois dessa explos\u00e3o petroleira, enquanto caminhamos nas ruas encharcadas de Chiriaco, se escutam os sons de um povoado em movimento. Motores de \u00f4nibus buscando passageiros. Vozes de garotas com jeans justos vendendo comida na rua. Discos piratas de reggaeton tocando em barracas de camel\u00f4, na TV a cabo. Louvores \u00e0 porta de uma igreja evang\u00e9lica. Golpes secos de trabalhadores sem camisa partindo pedras para construir uma casa. Beb\u00eas chorando nos bra\u00e7os das m\u00e3es enquanto fazem fila fora de um banco. Autofalantes anunciando a cada dez minutos: \u201cPrecisa-se de duas pessoas para descarregar um caminh\u00e3o. Apresentar-se \u00e0 loja Rosita\u201d. Desde o dia do vazamento, Chiriaco se parece com qualquer bairro popular de Lima: cada vez mais barulhento, cada vez mais cheio de cimento. \u201cTrabalhar no petr\u00f3leo\u201d duplicou o n\u00famero de motot\u00e1xis, lojas e barracas de comida. Encheu de clientes as lanchonetes, pens\u00f5es e puteiros. H\u00e1 trabalhadores que, enquanto bebem cerveja em um bar, brincam com a ideia de \u201cfazer um furo no oleoduto\u201d para que o emprego n\u00e3o acabe. O trabalho que centenas de nativos e camponeses conseguiram aqui limpando o petr\u00f3leo p\u00f4s dinheiro nos bolsos de todos. Ou quase.<\/p>\n<p>Yesenia Gonzales conta que v\u00e1rios de seus amigos trabalharam recolhendo petr\u00f3leo e resolveram seus problemas. Um deles operou a vista. Uma amiga levou a filha a Lima para operar o cora\u00e7\u00e3o. Outra, m\u00e3e solteira, comprou um apartamento em Chiclayo, uma das cidades mais povoadas da costa, famosa por suas praias de cart\u00e3o-postal.<\/p>\n<p>\u2013 Apesar dos danos, tem gente que se sente feliz pelo que passou.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poderia pensar que \u00e9 oportunismo.<\/p>\n<p>Um economista diria \u201cexternalidade positiva\u201d.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o, me diz Gonzales: \u00e9 sobreviver.<\/p>\n<p>Ao meio-dia o calor esmaga tudo neste peda\u00e7o da floresta amaz\u00f4nica. A furgoneta da Petroper\u00fa na qual percorremos o povoado faz sua \u00faltima entrega de v\u00edveres. Estacionamos \u00e0s margens do rio, em frente \u00e0 comunidade awaj\u00fan de Wachapea, uma das dez que o Estado apontou como afetadas pelo derramamento. Para a limpeza, al\u00e9m da coleta manual e extra\u00e7\u00e3o com motobombas, os oper\u00e1rios usam um produto biodegrad\u00e1vel chamado Orange \u2013 pelo cheiro que tem da fruta \u2013 que faz com que o petr\u00f3leo restante se dissolva sobre a superf\u00edcie do rio, aparentemente. O engenheiro an\u00f4nimo me diz que por isso toda esta zona que vemos j\u00e1 est\u00e1 limpa, que qui\u00e7\u00e1 h\u00e1 \u201cligeiras manchas inofensivas, como se uma gota de \u00f3leo ca\u00edsse em todo o rio\u201d.<\/p>\n<p>Na margem do rio Chiriaco, uma mulher branca e grisalha nos recebe com um crucifixo de madeira no peito. \u00c9 Rosa Villar, diretora do col\u00e9gio Fe y Alegr\u00eda 62 San Jos\u00e9, um internato para meninas mesti\u00e7as e filhas de fam\u00edlias awaj\u00fan. Ela pergunta se suas alunas j\u00e1 podem se banhar e brincar no rio.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 que algumas tomam banho de qualquer jeito \u2013 diz a religiosa. \u2013 Imagine, s\u00e3o mais de 500 jovenzinhas. Depois do almo\u00e7o, l\u00e1 v\u00e3o. O rio \u00e9 o seu mundo.<\/p>\n<p>\u2013 Isso eu n\u00e3o posso dizer, voc\u00ea j\u00e1 sabe \u2013 responde o engenheiro.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 algum tempo, eu teria mergulhado 40 vezes no rio! Agora, se ainda h\u00e1 part\u00edculas de petr\u00f3leo nas ra\u00edzes das \u00e1rvores, que mais eu posso fazer? Virar a ravina de ponta-cabe\u00e7a?<\/p>\n<p>A religiosa, preocupada, contorce a boca. N\u00e3o diz nada. O engenheiro tenta convenc\u00ea-la com boas inten\u00e7\u00f5es corporativas. Mas n\u00e3o tem dinheiro que conserte um ecossistema ferido de um dia para o outro. Seria necess\u00e1rio esperar d\u00e9cadas e d\u00e9cadas, segundo especialistas, para um vale contaminado por um vazamento se recuperar naturalmente. Seria necess\u00e1rio esperar para saber como e quanto a sa\u00fade das pessoas seria afetada no futuro. Esperar e esperar. S\u00f3 que a vida humana \u00e9 mais curta.<\/p>\n<p><strong>Dez anos de sal\u00e1rio em quatro meses<\/strong><\/p>\n<p>Depois da entrega de v\u00edveres, regressamos por uma avenida de terra at\u00e9 o acampamento da Petroper\u00fa. Yesenia Gonzales, a assistente do engenheiro, aponta uma casa enorme de cimento e telhado de duas \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u2013 Olha, essa \u00e9 a minha casa! As pessoas me dizem que, se aos 24 anos j\u00e1 tenho casa pr\u00f3pria, mais para a frente o que n\u00e3o vou ter!<\/p>\n<p>Em quatro meses de trabalho na Petroper\u00fa, Yesenia e o marido constru\u00edram a sua casa. Receberam juntos cerca de 30 mil soles, cerca de US$ 9 mil. Para ganhar o mesmo no carrinho de sucos no mercado, ela teria que trabalhar dez anos seguidos e guardar cada centavo. Com o sal\u00e1rio do petr\u00f3leo pagaram tamb\u00e9m as d\u00edvidas, compraram uma tev\u00ea de tela plana, um som, um congelador, um motot\u00e1xi. Compraram bonecas e\u00a0<em>scooters<\/em>\u00a0para as duas filhas. Agora ela tem sua pr\u00f3pria barraquinha de suco.<\/p>\n<p>Quando a visitei, me contou que um amigo de seu marido acabava de avisar de um derramamento em outra \u00e1rea do Oleoduto Norperuano que cruza a ravina de Uchichiangos, outra comunidade awaj\u00fan a duas horas de dist\u00e2ncia. Um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o de Avalia\u00e7\u00e3o e Fiscaliza\u00e7\u00e3o Ambiental, encarregada de investigar a causa do vazamento, avaliou que havia sido provocado \u201cpor terceiros\u201d, com um corte de motosserra. Yesenia pensava que, como j\u00e1 tinha experi\u00eancia, podia conseguir trabalho ali e assim economizar para terminar o quintal da casa.<\/p>\n<p>\u2013 As pessoas me dizem: \u201cN\u00e3o v\u00e1 at\u00e9 o petr\u00f3leo, ali voc\u00ea vai morrer. Esperem quatro ou cinco anos e ver\u00e3o, v\u00e3o morrer!\u201d \u2013 me disse Yesenia com seu sorriso t\u00edmido. \u2013 Eu os escuto, mas n\u00e3o tenho medo. Ao contr\u00e1rio, estou contente. Olhe para mim, estou sadia, nada d\u00f3i! E agora tenho tudo o que sempre sonhei.<\/p>\n<p><strong>Terra arrasada<\/strong><\/p>\n<p>Edith Guerrero, amante dos bambus e professora de nutri\u00e7\u00e3o, diz que jamais esquecer\u00e1 da vez que um engenheiro da Petroper\u00fa tentou convenc\u00ea-la de que o petr\u00f3leo era bom para sua planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela est\u00e1 de p\u00e9 debaixo da chuva, sobre a desembocadura da ravina Inayo, onde o petr\u00f3leo manchou o Chiriaco, o rio dos Awaj\u00fan. At\u00e9 o dia do derramamento, Edith tinha aqui 800 p\u00e9s de bambu, vacas pastando, ameixeiras e altos louros, e um riacho limpo onde os awaj\u00fan tamb\u00e9m pescavam. Mas quatro meses ap\u00f3s o acidente seu s\u00edtio de 40 hectares parecia ter sido arrasado por uma d\u00fazia de escavadeiras. As \u00e1rvores mais altas foram cortadas pelos trabalhadores para fazer pontes. Todas as mudas de bambu foram arrancadas durante o processo de limpeza do solo. Seu plano para plantar arroz foi arruinado. Ele teve que levar suas vacas para outras pastagens vizinhas. A \u00e1gua da ravina, que costumava irrigar e dar de beber ao seu gado, est\u00e1 contaminada. Vista do c\u00e9u, a ravina se estende como uma cicatriz profunda e oleosa em meio aos seus dom\u00ednios.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/08-chiriaco-007.jpg?resize=2000%2C1335&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/08-chiriaco-007.jpg?w=2000&amp;ssl=1 2000w, https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/08-chiriaco-007.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i1.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/08-chiriaco-007.jpg?resize=1600%2C1068&amp;ssl=1 1600w\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"1335\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p><em>Sacos cheios de folhas e terra morta devido ao derramamento armazenado perto do rio Chiriaco<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Os nativos n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos afetados \u2013 reclama a agricultora de pernas longas e olhos saltados, nascida na serra de Cajamarca, enquanto caminhamos pelo barro. \u2013 A chuva transformou o terreno nu em um enorme charco laranja, onde as botas afundam, atolam. Os trabalhadores arrancaram meus bambus sem permiss\u00e3o. Me diziam: \u201cN\u00e3o se preocupe, senhora, a Petroper\u00fa vai pagar\u201d.<\/p>\n<p>Edith conta que, apesar das suas reclama\u00e7\u00f5es, e diferentemente de outros agricultores que foram indenizados, a empresa at\u00e9 este momento n\u00e3o reconheceu o seu preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Um dia de fevereiro, uma semana depois de o petr\u00f3leo derramado ter arruinado sua ch\u00e1cara, Edith foi ao acampamento da Petroper\u00fa pedir explica\u00e7\u00f5es. Mas a engenheira que a atendeu disse n\u00e3o saber de nada.<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m n\u00e3o sabe onde est\u00e3o recolhendo o petr\u00f3leo? \u2013 preguntou Edith com ironia.<\/p>\n<p>\u2013 Na ravina \u2013 respondeu a engenheira. \u2013 E a ravina \u00e9 do Estado.<\/p>\n<p>Edith engoliu a raiva. Saiu do acampamento e subiu na sua motocicleta. Ao chegar ao seu terreno, gritou com todos os trabalhadores da empresa. No dia seguinte, regressou muito cedo com o marido. Fecharam o caminho com arames farpados. Quando os trabalhadores chegaram, Edith os esperava com um pau e galhos de urtiga, longos como chicotes. Depois de uma semana, um engenheiro da Petroper\u00fa a visitou. Ela insistiu que ele assinasse um documento no qual a empresa prometeu pagar todas as despesas, embora n\u00e3o especificasse valor ou data.<\/p>\n<p>Agora, sobre o terreno cheio de po\u00e7as, h\u00e1 800 cilindros com o \u00f3leo recolhido da ravina, cobertos com lonas de pl\u00e1stico azul. Alguns homens com botas de borracha e capacetes laranja v\u00eam e v\u00e3o recolhendo o pouco que ainda restou do petr\u00f3leo. H\u00e1 uma pilha de sacos de terra e mato contaminado. Umas barreiras amarelas de pl\u00e1stico atravessam o canal e ret\u00eam os restos do petr\u00f3leo: s\u00e3o como pel\u00edculas de azeite na superf\u00edcie da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Edith se lembra de que, quando as autoridades ambientais chegaram para ver o dano, recolheram amostras do solo contaminado com luvas especiais. Usaram m\u00e1scaras porque diziam que o cheiro era t\u00f3xico. N\u00e3o era a primeira vez que enfrentavam um caso assim. Entre 2011 e 2018, os \u00faltimos sete anos de vida do oleoduto, houve 61 vazamentos de petr\u00f3leo e outros hidrocarbonetos: cerca de 60% deles causados por corros\u00e3o ou falhas operativas e 40% por sabotagens. S\u00f3 em 2016, contando o desastre de Nazareth, ocorreram 14, segundo o Organismo de Avalia\u00e7\u00e3o e Fiscaliza\u00e7\u00e3o Ambiental. Naquele ano, o ministro do Meio Ambiente, Manuel Pulgar Vidal, denunciou que a Petroper\u00fa continuava bombeando petr\u00f3leo quando estava proibido que fizesse isso, enquanto fazia manuten\u00e7\u00e3o do sistema. \u201cO oleoduto est\u00e1 obsoleto\u201d, criticou o ministro na televis\u00e3o. Dias depois, o presidente da Petroper\u00fa apresentaria sua ren\u00fancia e um balan\u00e7o am\u00e1vel da sua gest\u00e3o: a empresa havia faturado US$ 5 bilh\u00f5es no ano dos vazamentos. No informe, n\u00e3o havia uma s\u00f3 linha sobre a cat\u00e1strofe ambiental.<\/p>\n<p>Segundo os peritos da ag\u00eancia estatal que fiscaliza o oleoduto, este n\u00e3o recebe manuten\u00e7\u00e3o integral e adequada desde 1998. A empresa diz que isso se deve a \u201cpol\u00edticas de austeridade\u201d, que n\u00e3o conv\u00e9m mudar todo o duto porque seria muito caro. Em um cen\u00e1rio turvo e fedorento como o do petr\u00f3leo, n\u00e3o \u00e9 despropositado pensar que v\u00e1 ocorrer outro derramamento.<\/p>\n<p>Naquela vez que fui visit\u00e1-la, Edith me contou que a Petroper\u00fa havia ligado para negociar com ela. A empresa necessitava construir uma estrada que atravessaria a sua ch\u00e1cara para tirar os 800 barris que est\u00e3o armazenados ali. Os nativos de Yangunga, a comunidade awaj\u00fan localizada na frente de suas terras, na outra margem do rio, tentaram convenc\u00ea-la: construir a estrada lhes traria emprego, poderiam colocar um ponto de motot\u00e1xis e inclusive transportar mais r\u00e1pido suas bananas para vender na cidade. Mas Edith lhes disse que n\u00e3o ia permitir que a estrada passasse pelas suas terras se a Petroper\u00fa n\u00e3o pagasse 70 mil\u00a0<em>soles<\/em>, mais de US$ 21 mil, que \u00e9 o que ela est\u00e1 pedindo pelo que perdeu.<\/p>\n<p>\u2013 Do contr\u00e1rio, sou capaz de atirar os barris no rio, para ver se assim eles entendem, esses sem-vergonha!<\/p>\n<p>\u2013 E o que o \u00faltimo engenheiro que veio te buscar falou? \u2013 perguntei.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cN\u00e3o sabe, senhora, que o petr\u00f3leo \u00e9 fertilizante para o seu arroz?\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/09-chiriaco-015.jpg?resize=1920%2C1282&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/09-chiriaco-015.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/09-chiriaco-015.jpg?resize=800%2C534&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i2.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/09-chiriaco-015.jpg?resize=1600%2C1068&amp;ssl=1 1600w\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1282\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p><em>Antonio Pujupat, 71, observa sua planta\u00e7\u00e3o de banana afetada pelo vazamento<\/em><\/p>\n<p><strong>Inaugura\u00e7\u00e3o de banheiros<\/strong><\/p>\n<p>Enfeitado com um colar de sementes e o rosto pintado com linhas vermelhas, Tatsuya Kabutan, embaixador do Jap\u00e3o no Peru, segue o ritmo dos tambores com lerdeza. Cercado por mulheres e crian\u00e7as awaj\u00fan com saias e coroas de penas, o sr. Kabutan \u2013 empertigado e arrumad\u00edssimo, de camisa branca e cal\u00e7a preta \u2013 acaba de chegar a Epemimu, uma regi\u00e3o montanhosa da comunidade de Nazareth, na outra margem do Chiriaco.<\/p>\n<p>Nesta manh\u00e3 de julho, sete meses depois do vazamento, a ira do sol n\u00e3o impede que seja um dia de festa: a rua de terra est\u00e1 adornada com flores alaranjadas, folhas de palmeiras, globos brancos e vermelhos por causa do m\u00eas patri\u00f3tico, em que o Peru celebra sua independ\u00eancia da Espanha. Cerca de cem pessoas \u2013 moradores, funcion\u00e1rios, policiais \u2013 acompanham o sr. Kabutan e Francisco Dumler, ministro de Habita\u00e7\u00e3o, at\u00e9 um pequeno palco para inaugurar uma obra que suas institui\u00e7\u00f5es constru\u00edram em equipe: mais de cem banheiros com privadas novinhas, chuveiros e uma rede de canos que transportariam a \u00e1gua de um c\u00f3rrego para cada uma das 180 fam\u00edlias que moram aqui. A compara\u00e7\u00e3o com a cidade era inevit\u00e1vel: os nativos n\u00e3o teriam mais que andar longas dist\u00e2ncias para coletar \u00e1gua em baldes ou garrafas de pl\u00e1stico. Agora bastava abrir o cano para beber \u00e1gua, lavar roupa ou tomar banho.<\/p>\n<p>\u2013 No come\u00e7o deste governo, apenas um em cada tr\u00eas peruanos em comunidades ind\u00edgenas ou \u00e1reas rurais tinha acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel \u2013 informa de cima do palco o ministro Dumler, robusto, com um rosto largo e um bigode bem cuidado. Sua voz retumba por alguns autofalantes. \u2013 Agora acabaremos o ano com dois em cada tr\u00eas!<\/p>\n<p>Palmas e mais palmas. Minutos depois, baixam para cortar uma faixa rubro-branca, o ato de inaugura\u00e7\u00e3o. Depois, ao lado de algumas crian\u00e7as, o ministro bebe \u00e1gua pot\u00e1vel do novo encanamento. \u201cEst\u00e1 deliciosa\u201d, diz. O embaixador Kabutan, ao seu lado, seca o suor do rosto com um len\u00e7o. Olha para o ministro, mas n\u00e3o se anima a beber. Sorri, isso sim, para a foto oficial. Palmas e mais palmas, por favor.<\/p>\n<p>Quando o evento termina, pergunto ao ministro sobre o rio contaminado, se ele sabe quando poder\u00e1 ser usado de novo. \u201cDeixe eu conversar com o ministro da Sa\u00fade, vou fazer chegar a ele essa preocupa\u00e7\u00e3o\u201d, responde de passagem, e um de seus guarda-costas o leva ao seu jipe, onde o espera o sr. Kabutan. A assessora de imprensa \u2013 com o cabelo tingido de loiro, \u00f3culos de sol, botas negras \u2013 marca meus dados no seu iPhone com uma capa da Starbucks. Antes de ir, promete enviar a resposta do seu chefe por WhatsApp. Nunca chegou.<\/p>\n<p>A enfermeira Janet Tuyas, que observava o ato do outro lado da rua de terra, protegida do sol por um guarda-chuva, me dir\u00e1 que \u201cTudo \u00e9 encena\u00e7\u00e3o\u201d, que desconfia das obras do governo. Janet \u00e9 uma awaj\u00fan de olhos rasgados e figura atl\u00e9tica que trabalha no centro de sa\u00fade de Nazareth. Para ela, que vive aqui desde adolescente, \u00e9 preocupante que at\u00e9 agora ningu\u00e9m saiba quando voltar\u00e3o a usar o rio.<\/p>\n<p>\u2013 Podemos ter tudo isso, \u00e1gua, esgoto encanado, mas o nosso rio est\u00e1 praticamente morto \u2013 diz a enfermeira, com tristeza. \u2013 Faz meses que ningu\u00e9m toma banho aqui\u2026 bom, quase ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Janet tira da sua mochila um caderno de controle e confirma: alguns meses depois do derramamento de petr\u00f3leo, atendeu 35 pacientes com febre, problemas para respirar, inflama\u00e7\u00e3o nas am\u00edgdalas, ardor na garganta, urtic\u00e1ria, fungos. Ela tratou tamb\u00e9m de tr\u00eas garotas cujos corpos estavam cheios de pontos vermelhos, como picadas de mosquitos. Quase todos admitiram ter mergulhado e comido peixes do rio.<\/p>\n<p><strong>Doen\u00e7a de petr\u00f3leo<\/strong><\/p>\n<p>Nesta tarde, Janet deve cumprir a sua ronda de vacina\u00e7\u00e3o de beb\u00eas e crian\u00e7as. Vamos em um motot\u00e1xi que chacoalha por um caminho \u00edngreme de terra e pedra. Enquanto subimos a montanha, a cada tanto aparecem entre as cabanas e arbustos grupos de tr\u00eas ou quatro meninos descal\u00e7os, com roupas empoeiradas, brincando com paus ou bolas ou garrafas pl\u00e1sticas. Alguns, ao me verem, me apontam \u2013 \u00a1apach muun, apach muun! \u2013 e riem de mim. Por muito tempo, a comunidade parece habitada apenas por crian\u00e7as. Ou por jovenzinhas trazendo beb\u00eas nos bra\u00e7os ou amarrados \u00e0s costas com uma manta, como se fossem uma mochila. Na selva peruana, tr\u00eas de cada dez mulheres ficam gr\u00e1vidas ou t\u00eam um filho antes de ter um documento de identidade.<\/p>\n<p>\u2013 Eu quis outra coisa para mim \u2013 diz Janet, de 39 anos, sem filhos. \u2013 Nem todas t\u00eam essa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Nazareth, me conta, os homens awaj\u00fan se recusam a usar camisinha e tamb\u00e9m n\u00e3o deixam as parcerias usarem contraceptivos. Dizem que n\u00e3o querem que suas mulheres os traiam. \u201cN\u00e3o precisamos disso\u201d \u2013 brincam quando a enfermeira insiste \u2013, \u201cn\u00f3s vamos cuidar melhor\u201d. Mas para Janet isso nem \u00e9 o mais grave: desde o dia do vazamento, al\u00e9m dos casos de doen\u00e7as como dermatite, febres e diarreias, aumentaram os casos de HIV.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o do Amazonas onde est\u00e1 Nazareth tem a maior popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena infectada por esse v\u00edrus: segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, de 35 casos em 2011 passou para 240 em 2017. Entre eles, 46 eram mulheres adolescentes. Janet diz que, al\u00e9m da falta de informa\u00e7\u00e3o, isso se deve a que muitos homens, quando t\u00eam mais dinheiro no bolso, v\u00e3o a bares e bord\u00e9is da cidade ou de comunidades vizinhas. Ali se contagiam e, ao voltar, contagiam as suas mulheres. O problema \u00e9 mais grave porque h\u00e1 homens infectados que desconfiam da ci\u00eancia: n\u00e3o est\u00e3o doentes, juram, foram alvo de bruxaria.<\/p>\n<p>Um colega de Janet, enfermeiro em Lima, contou que, depois de ele ter revelado o diagn\u00f3stico, um casal n\u00e3o aceitou o tratamento com retrovirais e ainda o amea\u00e7ou de morte: pensaram que era um bruxo que tinha \u201cjogado feiti\u00e7o\u201d. O enfermeiro teve que pedir transfer\u00eancia para outro centro de sa\u00fade. Por isso, diz Janet, agora s\u00e3o muito cuidadosos com as explica\u00e7\u00f5es. Por precau\u00e7\u00e3o, protegem a identidade dos pacientes, usam nomes-chave.<\/p>\n<p>Os enfermeiros chamam isso de C\u00f3digo Branco.<\/p>\n<p>Os awaj\u00fan dizem\u00a0<em>jata<\/em>\u00a0<em>susamu<\/em>, o que est\u00e1 enfeiti\u00e7ado.<\/p>\n<p>Assim como os v\u00edrus, invis\u00edveis no seu ataque, o mal que deixou o petr\u00f3leo tamb\u00e9m n\u00e3o se pode ver. \u201c\u00c9 como se algo se tivesse metido na terra, na \u00e1gua, no ar.\u201d Alguns anci\u00e3os awaj\u00fan, diz Janet, acreditam que se trata de \u201cum esp\u00edrito mau\u201d. Nas suas revela\u00e7\u00f5es com ayahuasca viram: s\u00e3o seres negros que se movem sobre a \u00e1gua, como uma mancha de \u00f3leo.<\/p>\n<p>\u2013 Na cosmovis\u00e3o amaz\u00f4nica, o esp\u00edrito do petr\u00f3leo sempre existiu \u2013 me explicou o antrop\u00f3logo italiano Emanuele Fabiano, que passou seis anos convivendo com ind\u00edgenas urarinas na selva do rio Corrientes, no norte do Pero, para estudar o impacto dos derramamentos nessas aldeias. \u2013 Esses esp\u00edritos eram \u201cbons vizinhos\u201d quando ningu\u00e9m os importunava. Mas com as atividades das petroleiras e os derramamentos, esses acordaram, ficaram bravos, sa\u00edram dos seus territ\u00f3rios tradicionais. Agora vivem nas comunidades.<\/p>\n<p>Os urarinas \u2013 que, como os awaj\u00fan, t\u00eam sido m\u00e3o de obra barata para limpar os derramamentos de petr\u00f3leo do Oleoduto Norteperuano \u2013 dizem que o esp\u00edrito do petr\u00f3leo se enrosca no corpo como uma serpente. Se trabalhar limpando o combust\u00edvel do rio, ele seguir\u00e1 voc\u00ea at\u00e9 a sua casa. Ent\u00e3o adoecer\u00e1 a sua mulher e seus filhos, vai fazer surgirem erup\u00e7\u00f5es na pele, sua cabe\u00e7a vai doer, voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 capaz de respirar bem. Com o tempo voc\u00ea perder\u00e1 a vontade de trabalhar, de estar em fam\u00edlia. Voc\u00ea pode ter dinheiro, alertam os urarinas, mas ficar\u00e1 doente de tristeza.<\/p>\n<p><strong>Deus \u00e9 grande<\/strong><\/p>\n<p>Em Nazareth, o mototaxista que nos leva, Asterio Pujupat, pai de nove filhos, que rejeita os contraceptivos, me diria depois que tem v\u00e1rios conhecidos assim e que \u00e9 f\u00e1cil reconhecer aqueles que fizeram bom proveito do sal\u00e1rio da Petroper\u00fa. Diante de sua cabana feita de folhas e paus, me mostrou uma casa tr\u00eas vezes maior, de dois andares, feita com t\u00e1buas de madeira novas e folhas de flandres. Uma pequena antena de televis\u00e3o a cabo coroava o telhado. \u201cEsse trabalhou com petr\u00f3leo\u201d, disse Asterio com o pouco castelhano que sabe. Lamentava-se por n\u00e3o haver conseguido um posto nos trabalhos de limpeza porque tinha perdido seu documento de identidade. Outros awaj\u00fan que conheceria com o passar dos dias \u2013 uns 60 adultos de Nazareth foram contratados pela Petroper\u00fa \u2013 teriam mais sorte. Ou talvez n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Meus filhos agora v\u00e3o estudar na cidade. E estou construindo a minha casa, j\u00e1 comprei o piso \u2013 diz Am\u00e9rico Taij\u00edn, pedreiro, que passou tr\u00eas meses limpando a ravina com mangueiras de press\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Antes fazia s\u00f3 uns trabalhinhos, de repente chega o vazamento e nos deu oportunidades. Se mais tarde eu vou ficar doente, n\u00e3o sei \u2013 duvida Abel Wanputsang, soldador, que montou um bar com luzes de discoteca, um aparelho de som e uma geladeira para vender cervejas.<\/p>\n<p>\u2013 Deus \u00e9 grande porque aqui est\u00e1vamos sofrendo, n\u00e3o t\u00ednhamos trabalho. O cacau n\u00e3o dava bem e a banana tampouco \u2013 lembra Nino Cu\u00f1ach\u00ed, agricultor, que com o que ganhou fez em sua casa uma loja de roupas que trouxe do Gamarra, uma loja de Lima.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o chamaria isso de oportunidade, n\u00e3o \u00e9 um trabalho saud\u00e1vel. Disse para meu filho n\u00e3o ir, mas ele n\u00e3o me ouviu \u2013lamenta-se Salom\u00f3n Awanansh, dirigente awaj\u00fan e admirador de Che Guevara. Seu filho agora tem um motot\u00e1xi, refrigerador e uma tev\u00ea de tela plana de 36 polegadas.<\/p>\n<p>\u2013 Limpamos o petr\u00f3leo com um produto especial, mas meus professores dizem que o \u00f3leo s\u00f3 se assentou no rio. Eu parei porque comecei a sentir enjoo, fraqueza \u2013 conta Lenin Taij\u00edn, estudante do 5\u00ba ano de engenharia ambiental, que assim pagou a universidade e terminou de construir um quarto para seu futuro filho.<\/p>\n<p>\u2013 O derramamento nos deu trabalho, mas agora quero fazer um exame m\u00e9dico, quero saber se eu tenho algo. Eu vi dois amigos desmaiarem \u2013 preocupa-se Leonardo Pujupat, agricultor de bananas, que comprou sementes, uma motosserra, pintou sua casa de azul e fez o teto com folha de flandres.<\/p>\n<p>\u2013 Meu companheiro n\u00e3o tinha trabalho, mas agora ganha bem \u2013 me conta a enfermeira Janet Tuyas, enquanto avan\u00e7amos pela picada na sua ronda de vacina\u00e7\u00e3o. \u2013 Agora constru\u00edmos uma casinha. O problema \u00e9 que teve que chafurdar l\u00e1.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, quando o marido regressava do trabalho de juntar petr\u00f3leo no rio, Janet notava que o traje de prote\u00e7\u00e3o dado pela Petroper\u00fa n\u00e3o servia para nada: sua roupa estava toda manchada de negro. Assim, para n\u00e3o se sujar, ele come\u00e7ou a usar a roupa de prote\u00e7\u00e3o sem nada por baixo, apenas a cueca. Todas as noites chegava em casa cheirando a combust\u00edvel. Janet diz que agora o marido quer ir limpar outro derramamento, em Morona, na selva de Loreto, a alguns dias de barco. Cerca de 300 mil litros de petr\u00f3leo contaminaram esse vale pelo desgaste de outro trecho do oleoduto. O marido quer juntar dinheiro para p\u00f4r portas e janelas na casa deles.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 espero que ele n\u00e3o tenha algo gen\u00e9tico por estar todo dia no petr\u00f3leo \u2013 suspira a enfermeira, que n\u00e3o desistiu do desejo de ser m\u00e3e em alguns anos. \u2013 Imagina, e se meu filho nasce doente?<\/p>\n<p>Depois das seis da tarde, a lanterna de nossos celulares apenas serve para evitar as po\u00e7as do caminho. Assim, depois de termos visitado algumas fam\u00edlias, Janet e eu chegamos \u00e0 \u00faltima casa: a de um C\u00f3digo Branco.<\/p>\n<p>Dentro da cabana de madeira coberta de folhas, um par de velas ilumina tudo desde um canto e projeta sobre o ch\u00e3o de terra nossas sombras distorcidas. H\u00e1 um fog\u00e3o a lenha. H\u00e1 uma estante enferrujada com pratos e panelas. H\u00e1 uma mala com comprimidos em uma mesa de pl\u00e1stico vermelha. H\u00e1 uma plataforma de madeira com um colch\u00e3o e, sobre ela, uma menina. Uma cortina de gaze branca nos separa e protege dos mosquitos. Um rec\u00e9m-nascido dorme ao lado do peito. Algumas mulheres cuidam dela, suas vizinhas, que conversam em awaj\u00fan com a enfermeira. Na penumbra, apenas d\u00e1 para ver o rosto abatido da jovem, seu corpo pequeno. Sua voz \u00e9 um sussurro. Faz cinco dias que deu \u00e0 luz, me diz Janet. Tem 17 anos. N\u00e3o devo escrever seu nome.<\/p>\n<p>Antes de chegarmos, a enfermeira me contou do seu caso. O marido, um awaj\u00fan que trabalhou limpando o petr\u00f3leo, deixou-a gr\u00e1vida e contaminada. Depois de ter pegado o sal\u00e1rio da Petroper\u00fa, desapareceu. As amigas da jovem juram que ele fugiu com outra mulher para a cidade. Janet diz \u00e0 jovem m\u00e3e que n\u00e3o d\u00ea de mamar ao beb\u00ea para n\u00e3o contagi\u00e1-lo. Mas, alguns minutos depois de falar com ela, a enfermeira lamenta.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 deu o peito ao nen\u00e9m. Ela diz que n\u00e3o tem nada mais para dar a ele.<\/p>\n<p>De noite, quando caminh\u00e1vamos de volta ao centro de sa\u00fade onde deixaria a mochila com as vacinas, Janet pensava nas alternativas existentes para ajudar o seu povo. Com o vazamento de petr\u00f3leo, muitas coisas haviam mudado, algumas para melhor, mas os problemas que j\u00e1 existiam somente se agravaram. Diante da precariedade de muitas fam\u00edlias e da indiferen\u00e7a do Estado, na selva de Nazareth estavam alteradas at\u00e9 mesmo as formas de amar e sobreviver.<\/p>\n<p>Da \u00faltima vez que a vi, Janet me contou que algumas vezes, quando visitava m\u00e3es e av\u00f3s awaj\u00fan, elas lhe davam bagres ou curimat\u00e3 assado, que pescavam no Chiriaco, o rio contaminado. Para n\u00e3o ser mal-educada, a enfermeira mentia: prometia comer o peixe em casa, mas o jogava fora. Antes, pedia que elas esperassem que o rio estivesse limpo de novo, at\u00e9 que uma delas, cansada, disse: \u201cE o que vamos comer ent\u00e3o se n\u00e3o temos dinheiro?\u201d. Desde ent\u00e3o a enfermeira Janet, que ganha pouco, mas o suficiente para comprar peixes na cidade, decidiu calar-se.<\/p>\n<p><strong>Meninos envenenados<\/strong><\/p>\n<p>O Chiriaco \u00e9 uma extensa estrada de \u00e1gua cor de barro. Preocupa que oito meses depois do derramamento, em um domingo ensolarado de setembro, haja alguns moradores pescando aqui, que ainda possam viver de peixes aqui, neste rio contaminado. Pessoas lavam roupa, se banham ao largo dos seus mais de 10 quil\u00f4metros. O Chiriaco serpenteia imperturb\u00e1vel e sobre ele correm canoas, algumas manchadas de negro, e deslizam peda\u00e7os de troncos e sacos pl\u00e1sticos e o corpo morto de algum pequeno animal.<\/p>\n<p>Osman Cu\u00f1ach\u00ed, crian\u00e7a awaj\u00fan, olha para o rio e admite que tem saudade, mas desde o dia do vazamento n\u00e3o se atreve a mergulhar. \u00c0 primeira vista, n\u00e3o h\u00e1 rastro do petr\u00f3leo na \u00e1gua. Mas at\u00e9 que as autoridades o anunciem de maneira oficial, seu pai proibiu. Ou vai castig\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Alguns comem o peixe porque n\u00e3o t\u00eam onde comer. Na minha casa n\u00e3o se come isso, mesmo que seja de presente. Agora tenho que comer mais verduras, e n\u00e3o gosto.<\/p>\n<p>\u201cComer mais verduras\u201d, diz Osman, \u00e9 uma recomenda\u00e7\u00e3o entre tantas outras que o m\u00e9dico deu essa manh\u00e3 para sua m\u00e3e, depois de ter explicado a ela o que estava acontecendo com seu corpinho magro de 11 anos por ter tido contato com o petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Como tinha prometido, o m\u00e9dico Fernando Osores regressava a Nazareth com uma comitiva de Coordenadora Nacional de Direitos Humanos e o Centro Amaz\u00f4nico de Antropologia e Aplica\u00e7\u00e3o Pr\u00e1tica para dar os resultados dos exames analisados em Quebec, Canad\u00e1: as amostras de sangre, urina e cabelo de 25 meninos e meninas que recolheram petr\u00f3leo no rio.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises do laborat\u00f3rio revelaram o que Osores, especialista nesse tipo de desastre, suspeitava: os menores avaliados tinham c\u00e1dmio, chumbo, ars\u00eanico e merc\u00fario no organismo. Em uma assembleia reservada somente para fam\u00edlias awaj\u00fan, Osores explicou a situa\u00e7\u00e3o: o normal \u00e9 que nenhum ser humano tenha no sangue uma part\u00edcula sequer desses metais t\u00f3xicos, mas esses resultados indicam que essas crian\u00e7as t\u00eam mais do que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade estabelece como limite m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>\u2013 Agora o Estado deve fazer um acompanhamento profundo e determinar se a nossa conclus\u00e3o \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o pontual ou persistente \u2013 me explicaria Osores mais tarde. \u2013 Se \u00e9 persistente, ent\u00e3o essas pessoas est\u00e3o envenenadas.<\/p>\n<p>Se se comprovar a hip\u00f3tese do m\u00e9dico, quando se tornarem jovens, talvez em cinco ou dez anos, essas crian\u00e7as \u2013 sobretudo os debilitados pela anemia e a desnutri\u00e7\u00e3o \u2013 poderiam sofrer danos em seu sistema nervoso e na sua capacidade para aprender, ter hipertens\u00e3o, insufici\u00eancia renal e tamb\u00e9m c\u00e2ncer ao chegar \u00e0 idade adulta. Diante dessa possibilidade, o Estado deveria avaliar o perigo e tomar medidas imediatas. Mas o passar dos meses demonstraria que pouco ou nada se faria para atender a essa emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Enquanto isso acontecia em Nazareth, a mais de mil quil\u00f4metros dali, em sua sede \u2013 um edif\u00edcio brutalista no centro financeiro de Lima, que imita a forma de uma plataforma de petr\u00f3leo \u2013, os diretores da Petroper\u00fa tentavam dar explica\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa. Em comunicados oficiais, a empresa afirmava que dos 14 vazamentos ocorridos na Amaz\u00f4nia em 2016 \u2013 a maior quantidade da \u00faltima d\u00e9cada \u2013, nove foram causados por sabotagens de terceiros. Sugeriam a possibilidade de que nativos gananciosos fossem os respons\u00e1veis por causar rupturas no oleoduto com serras.<\/p>\n<p>Mas uma comiss\u00e3o do Congresso que investigou esses derramamentos em 2017 concluiu, entre outras coisas, que n\u00e3o existiam ind\u00edcios razo\u00e1veis para responsabilizar as comunidades ind\u00edgenas pelos derramamentos. Ao contr\u00e1rio: havia evid\u00eancia de \u201cposs\u00edveis delitos e atos de corrup\u00e7\u00e3o ou pelo menos uma inadmiss\u00edvel incapacidade dos funcion\u00e1rios da Petroper\u00fa\u201d. O relat\u00f3rio final \u2013 enviado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico para ser investigado \u2013 reconhecia que a raiz do problema era a falta de manuten\u00e7\u00e3o do oleoduto.<\/p>\n<p>E dava um dado: nos \u00faltimos nove anos, essa serpente de \u00f3leo havia derramado pelo menos 4 milh\u00f5es de litros de petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia. \u00c9 como se tivessem esvaziado duas piscinas ol\u00edmpicas desse combust\u00edvel nos rios e nos vales onde vivem milhares de fam\u00edlias como os awaj\u00fan.<\/p>\n<p>Que perverso esse paradoxo do desenvolvimento: que algo t\u00e3o terr\u00edvel como um vazamento de petr\u00f3leo e a morte de um rio se converta em algo temporariamente proveitoso para uma comunidade. \u00c9 uma realidade que n\u00e3o costuma aparecer nas not\u00edcias, que causa curtos-circuitos, que nos deixa diante de nossas contradi\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria de Nazareth \u00e9 s\u00f3 um pequeno espelho no qual podemos nos ver refletidos.<\/p>\n<p>Enquanto deixamos o Chiriaco para tr\u00e1s e vemos a sua casa, Osman me conta que o m\u00e9dico falou com a sua m\u00e3e e que a deixou muito preocupada. Ele n\u00e3o entendeu muito bem o que ele disse, nem sua m\u00e3e. Osman s\u00f3 entende que tem \u201calguma coisa, uma doen\u00e7a\u201d, mas agora n\u00e3o se sente mal.<\/p>\n<p>\u2013 E o que voc\u00ea falou a sua mam\u00e3e? \u2013 pergunto.<\/p>\n<p>\u2013 Se eu tiver uma doen\u00e7a e morrer, eu morro, u\u00e9 \u2013 sorri Osman, antes de ir brincar com os amigos.<\/p>\n<p>A ideia da morte ainda \u00e9 distante para ele.<\/p>\n<p>E n\u00e3o poderia ser diferente.<\/p>\n<p>Na \u00faltima vez que nos falamos, em fevereiro de 2017, um ano depois do vazamento, Osman Cu\u00f1ach\u00ed acabava de fazer 12 anos. No celular de seu pai, me contava que j\u00e1 come\u00e7ara as aulas do fundamental 2. Continuava levantando \u00e0s cinco da manh\u00e3 para montar na sua bicicleta e sair para o col\u00e9gio. Regressava \u00e0 uma da tarde para almo\u00e7ar, brincar com os seus cachorros Lucky, Bobby e Micky, fazer a li\u00e7\u00e3o de casa, ajudar a mam\u00e3e com a ro\u00e7a, ver\u00a0<em>Dragon Ball<\/em>\u00a0na televis\u00e3o com os irm\u00e3os, ca\u00e7ar escorpi\u00f5es com os amigos. J\u00e1 n\u00e3o sentia tantas tonturas: s\u00f3 restavam pequenas cicatrizes nos bra\u00e7os e nas pernas por ter se co\u00e7ado tanto. \u201cS\u00f3 quero estar saud\u00e1vel como qualquer menino, n\u00e3o ter medo de um tumor\u201d, me disse. Ainda queria se mudar para Lima algum dia e seguir seus planos: ser arquiteto ou goleiro profissional. Aprender carat\u00ea. Tomar banho de mar. Ir ao cinema. Ser menos t\u00edmido com as meninas. Ter, enfim, seu pr\u00f3prio\u00a0<em>smartphone<\/em>.<\/p>\n<p>Tem 12 anos.<\/p>\n<p>Tem ainda, deveria ter, toda uma vida pela frente.<\/p>\n<p>https:\/\/apublica.org\/2019\/05\/um-menino-manchado-de-petroleo\/?mc_cid=b51f39ba31&#038;mc_eid=78072acdf5<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joseph Z\u00e1rate &#8211; Em 2016, depois de um vazamento de 500 mil litros de petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia peruana, a empresa Petroper\u00fa pagou a ind\u00edgenas para recolh\u00ea-lo. Numa comunidade t\u00e3o pobre, muitas fam\u00edlias viram no desastre uma oportunidade para melhorar sua vida. 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