{"id":1065,"date":"2016-07-14T12:58:26","date_gmt":"2016-07-14T15:58:26","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1065"},"modified":"2016-07-04T22:20:22","modified_gmt":"2016-07-05T01:20:22","slug":"graeber-assim-multiplicam-se-trabalhos-estupidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/14\/graeber-assim-multiplicam-se-trabalhos-estupidos\/","title":{"rendered":"Graeber: assim multiplicam-se trabalhos est\u00fapidos"},"content":{"rendered":"<p><strong>David Graeber<\/strong> &#8211; Que dizer de uma sociedade que demanda cada vez menos m\u00fasicos e poetas, enquanto multiplica legi\u00f5es de advogados corporativos, contadores e operadores de telemarketing? Por que o capitalismo dominado pelas finan\u00e7as produz este monstrengo?<\/p>\n<p>Em 1930, John Maynard Keynes previu que at\u00e9 o final do s\u00e9culo a tecnologia teria avan\u00e7ado o suficiente, para que pa\u00edses como a Gr\u00e3-Bretanha ou os Estados Unidos implementassem a semana de trabalho de 15 horas. Existem muitas raz\u00f5es para acreditar que ele estava certo e no entanto isso n\u00e3o aconteceu. Ao contr\u00e1rio, a tecnologia foi sendo configurada de maneira a nos fazer trabalhar mais. No intuito de alcan\u00e7ar este objetivo, trabalhos efetivamente in\u00fateis tiveram de ser criados. Ex\u00e9rcitos de pessoas, na Europa e na Am\u00e9rica do Norte em particular, passaram vidas inteiras realizando tarefas que eles no fundo acreditavam serem desnecess\u00e1rias. O dano moral e espiritual deste fato \u00e9 profundo. \u00c9 uma marca em nossa alma coletiva. No entanto, quase ningu\u00e9m fala sobre isso.<\/p>\n<p>Por que a utopia prometida por Keynes nunca se materializou? A resposta mais comum hoje \u00e9 que ele n\u00e3o visualizou o aumento maci\u00e7o do consumismo. Dada a escolha entre menos horas de trabalho ou mais brinquedos e prazeres, escolhemos os \u00faltimos. Isto pode parecer um bom conto moralista, mas um pouco de reflex\u00e3o nos revela que n\u00e3o \u00e9 bem assim. Sim, n\u00f3s temos testemunhado a cria\u00e7\u00e3o de uma variedade infinita de novos empregos e de novas ind\u00fastrias desde os anos 1920, mas muito poucas n\u00e3o t\u00eam a ver com a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de sushi, iPhones ou t\u00eanis extravagantes.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o esses novos postos de trabalho precisamente? Um relat\u00f3rio recente comparando o emprego nos Estados Unidos entre 1910 e 2000, nos d\u00e1 uma boa ideia. No decorrer do \u00faltimo s\u00e9culo, o n\u00famero de \u201ctrabalhadores bra\u00e7ais\u201d na ind\u00fastria e no setor agr\u00edcola diminuiu drasticamente. Ao mesmo tempo, empregos como de gerentes, assistentes, vendedores e outros cresceram de um quarto para tr\u00eas quartos do emprego total. Em outras palavras, trabalhos produtivos foram largamente automatizados como previsto (ainda que voc\u00ea leve em considera\u00e7\u00e3o os trabalhadores da industria de maneira global, incluindo China e \u00cdndia, a porcentagem \u00e9 muito menor do que costumava ser).<\/p>\n<p>Mas em vez de permitir uma redu\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da jornada de trabalho, para que a popula\u00e7\u00e3o mundial tivesse a oportunidade de correr atr\u00e1s seus pr\u00f3prios projetos, prazeres, vis\u00f5es e ideias, temos visto um crescimento n\u00e3o s\u00f3 do setor de \u201cservi\u00e7os\u201d, como do setor administrativo, incluindo a cria\u00e7\u00e3o de novos ramos como o de servi\u00e7os financeiros ou telemarketing, ou a expans\u00e3o sem precedentes de setores como direito corporativo, administra\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e acad\u00eamica, recursos humanos e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Esses n\u00fameros ainda n\u00e3o s\u00e3o suficientes para refletir esse contingente de pessoas cujo trabalho \u00e9 prover apoio administrativo, t\u00e9cnico ou de seguran\u00e7a, pois existe toda uma cadeia de ramos auxiliares (de petshops a pizzarias 24h) que s\u00f3 existem porque todo mundo est\u00e1 gastando muito tempo trabalhando nessa \u201cnova\u201d atividade.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o os que proponho chamar de \u201cempregos de merda.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 como se algu\u00e9m estivesse criando empregos in\u00fateis apenas para nos manter trabalhando. Aqui precisamente reside o mist\u00e9rio. No capitalismo, isto \u00e9 exatamente o que n\u00e3o deveria acontecer. Certamente foi o que aconteceu nos velhos e ineficientes estados socialistas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 pois o emprego era considerado tanto um direito quanto um dever sagrado. O pr\u00f3prio sistema criou tantos empregos quanto considerava necess\u00e1rio (raz\u00e3o pela qual as lojas de departamento na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tinham at\u00e9 tr\u00eas funcion\u00e1rios para vender um peda\u00e7o de carne). Supostamente esse \u00e9 um problema que a competi\u00e7\u00e3o no mercado deveria corrigir. Pelo menos de acordo com a teoria econ\u00f4mica, a \u00faltima coisa que uma empresa com fins lucrativos deveria fazer seria gastar dinheiro com trabalhadores que elas n\u00e3o precisam empregar. Ainda assim, de alguma forma isso acontece.<\/p>\n<p>Se por um lado as corpora\u00e7\u00f5es podem, de tempos em tempos, diminuir de tamanho drasticamente, os cortes e demiss\u00f5es normalmente recaem sobre aqueles que est\u00e3o efetivamente se mexendo, ajustando, pensando e fazendo o neg\u00f3cio girar; atrav\u00e9s de uma estranha alquimia que ningu\u00e9m pode explicar, o n\u00famero de burocratas assalariados est\u00e1 se expandindo e um n\u00famero cada vez maior de empregados encontra-se, n\u00e3o como os trabalhadores da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, \u00e9 claro, trabalhando 40 ou 50 horas por semana, mas efetivamente 15 horas como Keynes havia previsto, desde que passem o resto da semana assistindo, organizando e participando de semin\u00e1rios motivacionais, atualizando seus perfis no Facebook, ou fazendo downloads de s\u00e9ries.<\/p>\n<p>A resposta claramente n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mica: \u00e9 moral e pol\u00edtica. A classe dominante descobriu que uma popula\u00e7\u00e3o feliz, produtiva e com tempo livre dispon\u00edvel \u00e9 um perigo mortal (pense no que ocorreu quando esse sonho se tornou poss\u00edvel nos anos 1960). Por outro lado, o sentimento de que o trabalho \u00e9 um valor moral em si, e de que qualquer um que n\u00e3o esteja disposto a se submeter a uma intensa disciplina de trabalho n\u00e3o merece nada, \u00e9 extremamente conveniente.<\/p>\n<p>Observando o crescimento aparentemente intermin\u00e1vel das responsabilidades administrativas dos departamentos acad\u00eamicos ingleses, eu tive uma poss\u00edvel vis\u00e3o do inferno. O inferno \u00e9 um conjunto de indiv\u00edduos, que est\u00e3o gastando a maior parte de seu tempo trabalhando em uma tarefa de que eles n\u00e3o gostam e em que n\u00e3o se d\u00e3o bem. Digamos que foram contratados porque eram excelentes marceneiros, mas depois chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o de que na verdade boa parte deles deveria passar a maior parte do tempo fritando peixe. Os empregados ent\u00e3o se tornam obcecados e ressentidos ao pensar que alguns de seus colegas de trabalho possam estar gastando mais tempo fazendo arm\u00e1rios e n\u00e3o compartilhando a justa responsabilidade de fritar peixes. Em pouco tempo, pilhas de peixe frito ruim se acumulam e isso \u00e9 tudo o que eles realmente fazem.<\/p>\n<p>Todos os argumentos que eu venha a usar v\u00e3o suscitar imediatamente as seguintes obje\u00e7\u00f5es: \u201cquem \u00e9 voc\u00ea para dizer quais trabalhos s\u00e3o realmente \u2018necess\u00e1rios\u2019? O que \u00e9 \u2018necess\u00e1rio\u2019 afinal? Voc\u00ea \u00e9 um professor de antropologia, qual a \u2018necessidade\u2019 disso?\u201d (leitores de tabloides certamente caracterizariam o meu trabalho como a defini\u00e7\u00e3o de desperd\u00edcio de gastos sociais). Em algum n\u00edvel, isso obviamente \u00e9 verdade. N\u00e3o deve existir nenhuma m\u00e9trica objetiva de valor social.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me atreveria a convencer algu\u00e9m que acredita que est\u00e1 fazendo uma contribui\u00e7\u00e3o importante para o mundo do contr\u00e1rio. Sobre as pessoas que est\u00e3o convencidas de que seus trabalhos n\u00e3o fazem sentido, o que podemos dizer? N\u00e3o faz muito tempo, voltei a ter contato com um amigo do col\u00e9gio que n\u00e3o via desde os doze anos. Fiquei encantado em descobrir que nesse tempo ele se tornou um grande poeta e vocalista de uma banda de indie rock. Eu j\u00e1 tinha ouvido algumas de suas m\u00fasicas no r\u00e1dio sem saber que o conhecia. Ele era obviamente brilhante, inovador, e seu trabalho tinha sem d\u00favida iluminado e melhorado a vida de muitas pessoas. No entanto, depois de dois \u00e1lbuns que n\u00e3o tiveram sucesso, ele perdeu o contrato. Atormentado com d\u00edvidas e um filho rec\u00e9m-nascido, acabou \u201cescolhendo a op\u00e7\u00e3o de muitos que n\u00e3o sabem o que fazer da vida: Direito\u201d. Agora ele \u00e9 um advogado corporativo que trabalha em uma firma proeminente em Nova York. Admitiu que seu trabalho \u00e9 totalmente sem sentido, que n\u00e3o contribui em nada para o mundo e em sua pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria existir.<\/p>\n<p>Este fato estimula a propor in\u00fameras quest\u00f5es. Por exemplo: o que dizer de uma sociedade que parece ter uma demanda extremamente limitada por m\u00fasicos-poetas, mas aparentemente uma demanda infinita por especialistas em leis corporativas? (Resposta: se 1% da popula\u00e7\u00e3o controla a maior parte da riqueza dispon\u00edvel, o que n\u00f3s chamamos de \u201cmercado\u201d reflete o que eles \u2014 n\u00e3o qualquer outra pessoa \u2014 acha \u00fatil). Isso mostra que a maioria das pessoas que ocupam esses cargos, est\u00e3o em \u00faltima an\u00e1lise cientes disso. De fato, eu n\u00e3o me lembro de ter conhecido um advogado corporativo que n\u00e3o considere seu trabalho um trabalho de merda. O mesmo vale para quase todas as novas atividades citadas acima. Existe toda uma classe de assalariados que voc\u00ea ir\u00e1 encontrar em festas. Diga que voc\u00ea faz um trabalho interessante (um antrop\u00f3logo, por exemplo). Eles v\u00e3o evitar falar sobre seus pr\u00f3prios trabalhos. Ofere\u00e7a alguns drinks e em pouco tempo eles far\u00e3o discursos sobre como seus trabalhos s\u00e3o est\u00fapidos e in\u00fateis.<\/p>\n<p>Temos aqui uma viol\u00eancia psicol\u00f3gica profunda. Como algu\u00e9m pode sequer come\u00e7ar a falar sobre dignidade no trabalho quando se pensa que o emprego do outro n\u00e3o deveria existir? Como isso pode n\u00e3o criar uma profunda sensa\u00e7\u00e3o de raiva e ressentimento? No entanto, essa \u00e9 a genialidade um tanto peculiar da nossa sociedade, onde os que ditam as regras descobriram uma maneira, no caso dos fritadores de peixe, de se certificarem de que essa raiva fosse direcionada diretamente para aqueles que fazem o trabalho que importa. Por exemplo: em nossa sociedade parece existir uma regra geral onde quanto mais o seu trabalho beneficia outras pessoas, menos remunera\u00e7\u00e3o voc\u00ea receber\u00e1. De novo, uma medida objetiva \u00e9 dif\u00edcil de encontrar, mas para entender basta perguntar: o que aconteceria se toda essa classe de pessoas simplesmente desaparecesse? Diga o que quiser sobre enfermeiras, catadores de lixo, mec\u00e2nicos, mas se eles desaparecessem do nada, os resultados seriam imediatamente catastr\u00f3ficos. Um mundo sem professores ou estivadores estaria em apuros, e mesmo um mundo sem escritores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou sem m\u00fasicos seria certamente um mundo pior. N\u00e3o est\u00e1 exatamente claro que tipo de problema a sociedade teria se todos os executivos-chefes, lobistas, pesquisadores de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, contadores, operadores de telemarketing, oficiais de justi\u00e7a ou consultores jur\u00eddicos desaparecessem. (Muitos suspeitam que poderia melhorar muito). Tirando alguma exce\u00e7\u00f5es (como por exemplo m\u00e9dicos), a regra parece fazer sentido.<\/p>\n<p>De maneira ainda mais perversa, parece existir um consenso de que \u00e9 assim que as coisas devem ser. Esse \u00e9 um dos pontos fortes do populismo de direita. Perceba como os tabloides mostram os dentes quando funcion\u00e1rios do metr\u00f4 param Londres por conta de negocia\u00e7\u00f5es salariais: eles param Londres porque seu of\u00edcios s\u00e3o necess\u00e1rios, mas isso parece incomodar as pessoas. Isto \u00e9 ainda mais claro nos Estados Unidos, onde os republicanos tiveram sucesso not\u00e1vel na tarefa de mobilizar o ressentimento contra os professores, trabalhadores da ind\u00fastria automobil\u00edstica (mas n\u00e3o contra os administradores das escolas ou gerentes das ind\u00fastrias automobil\u00edsticas, que de fato parecem ser a fonte dos problemas) por causa de seus sal\u00e1rios e benef\u00edcios supostamente elevados. Como se eles estivessem dizendo \u201cmas voc\u00eas s\u00e3o professores! Ou fazem carros! Precisam arrumar empregos de verdade! Voc\u00eas esperam aposentadoria e planos de sa\u00fade de classe m\u00e9dia?\u201d<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m tivesse inventado um regime de trabalho perfeitamente adequado \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do poder do capital financeiro, dificilmente conseguiria obter um maior \u00eaxito. Os trabalhadores \u201creais\u201d e produtivos s\u00e3o implacavelmente explorados. O restante est\u00e1 dividido entre uma por\u00e7\u00e3o aterrorizada (universalmente demonizada) de desempregados e uma outra que \u00e9 basicamente paga para n\u00e3o fazer nada, em postos de trabalho criados para a identifica\u00e7\u00e3o com as perspectivas e sensibilidades da classe dominante (gerentes, administradores, etc)\u200a\u2014\u200ae particularmente com seus avatares financeiros\u200a\u2014\u200amas, ao mesmo tempo, promovem um ressentimento feroz contra aqueles que realizam um trabalho que tem inegavelmente um valor social. Obviamente, o sistema nunca foi conscientemente constru\u00eddo. Ele emergiu de quase um s\u00e9culo de tentativa e erro, mas \u00e9 a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o que encontrei, pela qual a despeito de nossas capacidades tecnol\u00f3gicas, n\u00f3s n\u00e3o estamos trabalhado 3 ou 4 horas por dia.<\/p>\n<p>http:\/\/outras-palavras.net\/outrasmidias\/?p=329867<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>David Graeber &#8211; Que dizer de uma sociedade que demanda cada vez menos m\u00fasicos e poetas, enquanto multiplica legi\u00f5es de advogados corporativos, contadores e operadores de telemarketing? Por que o capitalismo dominado pelas finan\u00e7as produz este monstrengo? 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