{"id":10609,"date":"2019-04-28T18:09:54","date_gmt":"2019-04-28T21:09:54","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10609"},"modified":"2019-04-27T18:12:53","modified_gmt":"2019-04-27T21:12:53","slug":"nossas-cidades-estao-preparadas-para-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/04\/28\/nossas-cidades-estao-preparadas-para-o-futuro\/","title":{"rendered":"Nossas cidades est\u00e3o preparadas para o futuro?"},"content":{"rendered":"<p><strong>LU\u00cdS MARCELO MARCONDES<\/strong> E <strong>PEDRO VER\u00cdSSIMO FERNANDES<\/strong> &#8211; A ind\u00fastria brasileira gerava 27,4% dos empregos no in\u00edcio dos anos de 1970. Em 2014, esse n\u00famero caiu para 10,9%.<\/p>\n<p>A burguesia s\u00f3 pode existir se revolucionar os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o e, como consequ\u00eancia, as rela\u00e7\u00f5es sociais. Nesse caso a refer\u00eancia veio de Marx e Engles, mas poderia vir de muitos autores liberais que embasaram parte das cren\u00e7as capitalistas. A moda da vez \u00e9 o empreendedorismo. \u201cSeja uma empresa de si mesmo\u201d, dizem. Uma vers\u00e3o 4.0 da ideia de \u201cburguesia revolucion\u00e1ria\u201d. Basta uma volta nas livrarias para constatar que essa ideia est\u00e1 presente na lista dos livros mais vendidos.Acontece que essa transforma\u00e7\u00e3o constante a que somos convocados parece n\u00e3o surtir muito efeito quando tratamos da rela\u00e7\u00e3o entre poder p\u00fablico e desenvolvimento econ\u00f4mico. N\u00e3o \u00e9 de hoje que vemos cidades se arruinarem por n\u00e3o diversificarem sua economia e ficarem ref\u00e9ns de poucas empresas, at\u00e9 mesmo uma, como principal fonte de arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse texto inicia uma s\u00e9rie de tr\u00eas mat\u00e9rias que tratar\u00e3o das mudan\u00e7as recentes do capitalismo e como as cidades v\u00eam se adaptando, ou n\u00e3o, a essa nova l\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>A arrecada\u00e7\u00e3o municipal e nossa falta de planejamento a longo prazo<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo traz em sua raiz a busca incessante por formas de baratear os custos de produ\u00e7\u00f5es e maximizar os lucros. Neste processo surgem novas tecnologias e produtos, bem como a migra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para locais onde o custo da terra e m\u00e3o de obra sejam mais baratas. N\u00e3o faltam exemplos pelo mundo de regi\u00f5es que foram verdadeiros eldorados industriais e que passaram por um processo de decad\u00eancia econ\u00f4mica e social, deteriorando a condi\u00e7\u00e3o de vida de milh\u00f5es de pessoas. Talvez o caso mais emblem\u00e1tico seja o Rust Belt (Cintur\u00e3o de Ferrugem), regi\u00e3o compostas por cidades que at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 lideravam a ind\u00fastria metal-mec\u00e2nica dos EUA, que testemunhou nos \u00faltimos 30 anos a debandada de f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>No Brasil, a desindustrializa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 percept\u00edvel. Em estudo de 2017 que trata desse processo no pa\u00eds, os autores constataram que a participa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial no PIB brasileiro caiu de pouco mais de 35% em 1985 para menos de 15% em 2012. De acordo com o relat\u00f3rio da UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development), de 2016, a ind\u00fastria brasileira gerava 27,4% dos empregos no in\u00edcio dos anos de 1970. Em 2014, esse n\u00famero caiu para 10,9%.<\/p>\n<p>Duas regi\u00f5es do estado de S\u00e3o Paulo exemplificam bem esse drama, mas por raz\u00f5es distintas. A primeira delas \u00e9 o polo t\u00eaxtil de Americana, localizada na regi\u00e3o metropolitana de Campinas, que durante d\u00e9cadas sustentou o t\u00edtulo de principal polo t\u00eaxtil do pa\u00eds at\u00e9 o processo de abertura econ\u00f4mica iniciado pelo ent\u00e3o presidente Fernando Collor de Mello em 1990. A entrada indiscriminada de produto estrangeiro, em especial da China, foi um baque para economia local. Segundo informa\u00e7\u00f5es do Sinditec (Sindicado das Ind\u00fastrias de Tecelagem de Americana, Nova Odessa, Santa B\u00e1rbara D\u2019Oeste e Sumar\u00e9), a alta carga tribut\u00e1ria brasileira e o baixo pre\u00e7o do produto similar importado, justificado por uma carga tribut\u00e1ria menor, al\u00e9m de subs\u00eddio por parte do governo chin\u00eas, t\u00eam sufocado as ind\u00fastrias da regi\u00e3o, que ano ap\u00f3s ano se veem obrigadas a demitir milhares de trabalhadores.<\/p>\n<div class=\"fluidvids\"><iframe loading=\"lazy\" width=\"1060\" height=\"596\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/D6Lb9aei-98?feature=oembed\" data-fluidvids=\"loaded\"><\/iframe><\/div>\n<p>A outra regi\u00e3o que registrou uma brusca transforma\u00e7\u00e3o em sua din\u00e2mica econ\u00f4mica e social foi o Grande ABC, composta por sete munic\u00edpios que integram a regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. Considerada ber\u00e7o da ind\u00fastria nacional, a regi\u00e3o abriga as principais montadoras do pa\u00eds, assim como toda uma rede de empresas que d\u00e3o suporte a essa extensa cadeia produtiva. Recentemente, duas de suas cidades se viram no centro de uma poss\u00edvel crise com a amea\u00e7a de fechamento de duas importantes f\u00e1bricas da regi\u00e3o: a Ford, em S\u00e3o Bernardo do Campo, e General Motors, em S\u00e3o Caetano do Sul. Essa quest\u00e3o levantou debate sobre o quanto a economia da regi\u00e3o, e principalmente dessas cidades, s\u00e3o dependentes da ind\u00fastria automobil\u00edstica, uma das que mais tem sofrido press\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e at\u00e9 dos h\u00e1bitos de consumo, em que o carro est\u00e1 sendo visto cada vez mais como um servi\u00e7o do que como um bem de deprecia\u00e7\u00e3o r\u00e1pida.<\/p>\n<p>A chamada \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o figura como nova categoria de trabalho por acaso. Al\u00e9m da nova rela\u00e7\u00e3o do consumidor com o autom\u00f3vel, esse processo se insere tamb\u00e9m como consequ\u00eancia das transforma\u00e7\u00f5es nos modelos de produ\u00e7\u00e3o. Mas trataremos melhor desse ponto no terceiro texto da s\u00e9rie.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-69561 size-large\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/volkswagen-1024x614.jpg?resize=640%2C384&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/volkswagen-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/volkswagen-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/volkswagen-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/volkswagen.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"384\" \/><\/p>\n<p>Um estudo publicado pelo Conjusc aponta que o PIB industrial da regi\u00e3o encolheu 16% em termos nominais, passando de R$ 28,9 bilh\u00f5es em 2013 para R$ 24,3 bilh\u00f5es em 2016. Em termos reais, ap\u00f3s descontar os efeitos da infla\u00e7\u00e3o, a retra\u00e7\u00e3o foi de aproximadamente 39%, uma queda muito mais acentuada se comparada aos valores registrados no Estado de S\u00e3o Paulo (14,73%) e no Brasil (11,5%). A mesma tend\u00eancia dram\u00e1tica se apresenta nas taxas de desemprego do ABC. A taxa m\u00e9dia de desemprego agregada passou de 10,3%, em 2012, para 17,7%, em 2017. Entre 2014 e 2016, per\u00edodo em que a crise econ\u00f4mica se intensificou no pa\u00eds e especialmente na regi\u00e3o, o n\u00famero de desempregados passou de 126 mil para 243 mil.<\/p>\n<p>Mas diferentemente do que ocorreu com a maioria das cidades do Rust Belt, que viu sua popula\u00e7\u00e3o encolher junto com sua economia, o ABC registra crescimento populacional, ainda que t\u00edmido. Desde o \u00faltimo Censo, em 2010, estimasse que a popula\u00e7\u00e3o cresceu 8,6% at\u00e9 2018, saltando de 2,5 milh\u00f5es de pessoas para 2,7.<\/p>\n<p>A soma desses fatores coloca a regi\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o de fragilidade perante as mudan\u00e7as que t\u00eam ocorrido nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Nem mesmo o esfor\u00e7o do governo estadual, que ofertou um pacote de incentivos para que as montadoras permane\u00e7am onde est\u00e3o, \u00e9 um grande al\u00edvio, uma vez que a qualquer momento, com um plano de restrutura\u00e7\u00e3o debaixo do bra\u00e7o, essas empresas podem deixar a regi\u00e3o em busca de custos menores. A GM afirmou que ir\u00e1 permanecer com sua planta em S\u00e3o Caetano do Sul, apresentando um plano de investimento de R$ 5 bilh\u00f5es nos pr\u00f3ximos 10 anos. J\u00e1 a sa\u00edda da Ford de S\u00e3o Bernardo do Campo faz parte de um plano de reestrutura\u00e7\u00e3o que aos poucos tem transformado sua planta em Cama\u00e7ari na Bahia no principal centro de produ\u00e7\u00e3o da marca no pa\u00eds. Estima-se que com o fechamento da montadora, 2,8 mil funcion\u00e1rios ser\u00e3o demitidos e a cidade deixar\u00e1 de arrecadar R$ 18,5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O papel das pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong><\/p>\n<p>Mas mesmo com a possibilidade de a esfera estadual oferecer incentivos \u00e0 ind\u00fastria automobil\u00edstica prevendo desonera\u00e7\u00f5es em troca de investimento e gera\u00e7\u00e3o de emprego, os munic\u00edpios, entes que lidam diretamente com as externalidades negativas e positivas desse tipo de atividade, deveriam se dedicar na elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que diversifiquem sua matriz econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, por exemplo, pareceria rent\u00e1vel investir na ind\u00fastria automobil\u00edstica, a final de contas, o incentivo ao transporte individual ainda \u00e9 grande e a constru\u00e7\u00e3o de estradas, viadutos e todo tipo de obra urbana sempre foi um bom modelo para dar vaz\u00e3o ao capital excedente. S\u00f3 para se ter uma ideia, \u201cem apenas dois anos, de 2011 a 2012, a China produziu mais cimento que os Estados Unidos em todo o s\u00e9culo XX\u201d. Acontece que a mesma China que investiu pesado em obras urbanas como forma de fazer circular seu capital, tamb\u00e9m vem tomando grande parte do mercado industrial do mundo. N\u00e3o cabe aqui discutir o motivo nem o modelo dessa nova l\u00f3gica, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ar que a circula\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o respeitam uma lei complexa de territorializa\u00e7\u00e3o e reterritorializa\u00e7\u00e3o. Desconsiderar esses fatores \u00e9 arriscar demais em um mundo cada vez mais competitivo.<\/p>\n<p>A realidade das grandes cidades se transforma muito r\u00e1pido, independentemente de estarem planejadas ou n\u00e3o. For\u00e7as est\u00e3o agindo o tempo todo para impor uma din\u00e2mica mais c\u00e9lere e transformadora. E nada mais justo, para discutir tais quest\u00f5es que transformam nossos lugares de viver, que envolver a popula\u00e7\u00e3o nas tomadas de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Pesa sobre o planejamento urbano a pecha de ser tecnicista e verticalizado, em que o poder p\u00fablico determina os destinos. A lei brasileira prev\u00ea mecanismos de participa\u00e7\u00e3o na elabora\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o dos planos diretores, no entanto a assimetria de informa\u00e7\u00e3o e poder entre os atores envolvidos acaba resultando em planos orientados para os grupos mais fortes.<\/p>\n<p>De maneira geral, a transforma\u00e7\u00e3o urbana \u00e9 determinada muito mais por press\u00f5es do mercado do que por orienta\u00e7\u00e3o de um planejamento. N\u00e3o por acaso as plantas de f\u00e1bricas migram ao bel prazer de poucos investidores. O desenvolvimento de uma cidade \u00e9 um processo complexo que demanda o envolvimento de todos os setores interessados e afetados por a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas. \u00c9 preciso planejamento e regras que preveem a revis\u00e3o constante das estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre esse tema que trataremos no nosso pr\u00f3ximo texto. Como o poder p\u00fablico, as empresas e sociedade civil est\u00e3o se organizando para discutir as cidades?<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"mDjQovvQ22\"><p><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/nossas-cidades-estao-preparadas-para-o-futuro\/\">Nossas cidades est\u00e3o preparadas para o futuro?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Nossas cidades est\u00e3o preparadas para o futuro?&#8221; &#8212; CartaCapital\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/nossas-cidades-estao-preparadas-para-o-futuro\/embed\/#?secret=mDjQovvQ22\" data-secret=\"mDjQovvQ22\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LU\u00cdS MARCELO MARCONDES E PEDRO VER\u00cdSSIMO FERNANDES &#8211; A ind\u00fastria brasileira gerava 27,4% dos empregos no in\u00edcio dos anos de 1970. 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