{"id":10446,"date":"2019-04-13T13:47:06","date_gmt":"2019-04-13T16:47:06","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10446"},"modified":"2019-04-13T13:47:06","modified_gmt":"2019-04-13T16:47:06","slug":"os-gurus-digitais-criam-os-filhos-sem-telas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/04\/13\/os-gurus-digitais-criam-os-filhos-sem-telas\/","title":{"rendered":"Os gurus digitais criam os filhos sem telas"},"content":{"rendered":"<p><strong>PABLO GUIM\u00d3N<\/strong> &#8211; No Vale do Sil\u00edcio proliferam escolas sem tablets nem computadores e jardins da inf\u00e2ncia onde o celular \u00e9 proibido por contrato.<\/p>\n<p>A professora, armada com giz colorido, acrescenta fra\u00e7\u00f5es no grande quadro-negro, emoldurado em madeira r\u00fastica, que cobre a parede frontal da classe. As crian\u00e7as da quarta s\u00e9rie, 9 e 10 anos, fazem suas contas nas carteiras com l\u00e1pis e cartelas. A sala de aula \u00e9 revestida de pap\u00e9is: mensagens, hor\u00e1rios, trabalhos dos alunos. Nenhum saiu de uma impressora. Nada, nem mesmo os livros did\u00e1ticos, que as pr\u00f3prias crian\u00e7as elaboram \u00e0 m\u00e3o, foi feito por computador. N\u00e3o h\u00e1 nenhum detalhe nesta aula que possa estar fora de sintonia com as mem\u00f3rias escolares de um adulto que frequentou a escola no s\u00e9culo passado. Mas estamos em Palo Alto. O cora\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/silicon_valley\"><strong>Vale do Sil\u00edcio<\/strong><\/a>. Epicentro da economia digital. Habitat daqueles que pensam, produzem e vendem a tecnologia que transforma a sociedade do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Escolas de todo o mundo se esfor\u00e7am para introduzir computadores, tablets, quadros interativos e outros prod\u00edgios tecnol\u00f3gicos. Mas aqui, no\u00a0<a href=\"https:\/\/waldorfpeninsula.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Waldorf of Peninsula<\/a>, uma escola particular onde s\u00e3o educados os filhos de administradores da Apple, Google e outros gigantes tecnol\u00f3gicos que rodeiam esta antiga fazenda na Ba\u00eda de S\u00e3o Francisco, as telas s\u00f3 entram quando eles chegam ao secund\u00e1rio (o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/educacion_secundaria\">ensino m\u00e9dio<\/a>).<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o acreditamos na caixa preta, na ideia de que voc\u00ea coloca algo em uma m\u00e1quina e sai um resultado sem que se compreenda o que acontece l\u00e1 dentro. Se voc\u00ea faz um c\u00edrculo perfeito com um computador, deixa de ter o ser humano tentando alcan\u00e7ar essa perfei\u00e7\u00e3o. O que desencadeia o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/18\/actualidad\/1552896695_886326.html\">aprendizado \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o<\/a>, e s\u00e3o os seres humanos que produzem essa emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o as m\u00e1quinas. Criatividade \u00e9 algo essencialmente humano. Se voc\u00ea coloca uma tela diante de uma crian\u00e7a pequena, voc\u00ea limita suas habilidades motoras, sua tend\u00eancia a se expandir, sua capacidade de concentra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 muitas certezas em tudo isso. Teremos as respostas daqui a 15 anos, quando essas crian\u00e7as forem adultas. Mas queremos correr o risco? &#8220;, pergunta Pierre Laurent, pai de tr\u00eas filhos, engenheiro de computa\u00e7\u00e3o que trabalhou na Microsoft, na Intel e em v\u00e1rias\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/empresas_emergentes\">startups<\/a>, e agora preside o conselho da escola.<\/p>\n<p>Suas palavras ilustram o que est\u00e1 come\u00e7ando a ser um consenso entre as elites do Vale do Sil\u00edcio. Os adultos que melhor entendem a tecnologia dos celulares e dos aplicativos querem que seus filhos se afastem dela. Os benef\u00edcios das telas na educa\u00e7\u00e3o infantil s\u00e3o limitados, argumentam, enquanto o risco de depend\u00eancia \u00e9 alto.<\/p>\n<p>Os pioneiros tinham isso claro desde o in\u00edcio.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/bill_gates\">Bill Gates, criador da Microsoft<\/a>, limitou o tempo de tela de seus filhos. &#8220;N\u00e3o temos telefones na mesa quando estamos comendo e s\u00f3 lhes demos celulares quando completaram 14 anos&#8221;, disse ele em 2017. &#8220;Em casa, limitamos o uso de tecnologia para nossos filhos&#8221;, explicou\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/steve_jobs\">Steve Jobs, criador da Apple<\/a>, em uma entrevista ao\u00a0<em>The New York Times<\/em>\u00a0em 2010, na qual disse que proibia os filhos de usarem o rec\u00e9m-criado iPad. &#8220;Na escala entre doces e crack, isso est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do crack&#8221;, declarou Chris Anderson, ex-diretor da revista\u00a0<em>Wired<\/em>, b\u00edblia da cultura digital, tamb\u00e9m ao\u00a0<em>The New York Times<\/em>.<\/p>\n<p>Laurent, que s\u00f3 deu um celular ao filho mais novo quando ele estava no \u00faltimo ano do ensino b\u00e1sico (14 ou 15 anos), alerta para uma mudan\u00e7a perigos\u00edssima no modelo de neg\u00f3cios, do qual foi testemunha em sua vida profissional. &#8220;Qualquer um que faz um aplicativo quer que seja f\u00e1cil de usar&#8221;, explica. &#8220;\u00c9 assim desde o come\u00e7o. Mas antes quer\u00edamos que o usu\u00e1rio ficasse feliz em comprar o produto. Agora, com\u00a0<em>smartphones<\/em>\u00a0e\u00a0<em>tablets<\/em>, o modelo de neg\u00f3cios \u00e9 diferente: o produto \u00e9 gratuito, mas s\u00e3o coletados dados e colocados an\u00fancios. Portanto, o objetivo hoje \u00e9 que o usu\u00e1rio passe mais tempo no aplicativo, a fim de coletarem mais dados ou colocarem mais an\u00fancios. Ou seja, a raz\u00e3o de ser do aplicativo \u00e9 que o usu\u00e1rio gaste o m\u00e1ximo de tempo poss\u00edvel diante da tela. Eles s\u00e3o projetados para isso.&#8221;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00c3O PODIA CHECAR O TELEFONE EM TODO O MEU DIA DE TRABALHO E AS CRIAN\u00c7AS N\u00c3O PODIAM OLHAR PARA AS TELAS DURANTE O TEMPO EM QUE ESTAVAM COMIGO. \u00c9 UMA LOUCURA\u201d<br \/>\nJANIE MART\u00cdNEZ, BAB\u00c1 DE FAM\u00cdLIA DE EXECUTIVO\n<\/p><\/blockquote>\n<p>O problema da rela\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com a tecnologia \u00e9 que o ritmo vertiginoso em que se transforma dificulta a reflex\u00e3o e o estudo. Uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.commonsensemedia.org\/latino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pesquisa da Common Sense Media<\/a>, organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, \u201cdedicada a ajudar as crian\u00e7as a se desenvolverem em um mundo de m\u00eddia e tecnologia\u201d, d\u00e1 uma ideia da velocidade das mudan\u00e7as: as crian\u00e7as norte-americanas de zero a oito anos passavam em 2017 uma m\u00e9dia de 48 minutos por dia no celular, tr\u00eas vezes mais que em 2013 e 10 vezes mais que em 2011. &#8220;Quando teve in\u00edcio todo esse furor pelos\u00a0<em>smartphones<\/em>?&#8221;, se pergunta Mar\u00eda \u00c1lvarez, vice-presidenta da organiza\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00e3o tem mais que 12 ou 13 anos. E os primeiros\u00a0<em>tablets<\/em>\u00a0ainda menos. \u00c9 preciso ainda muitas pesquisas para determinar qual \u00e9 o impacto que essa exposi\u00e7\u00e3o pode ter nas crian\u00e7as pequenas. Mas h\u00e1 alguns estudos que come\u00e7am a ver uma rela\u00e7\u00e3o entre essa tecnologia e certos marcos na educa\u00e7\u00e3o. Eles oferecem indica\u00e7\u00f5es que os pais precisam levar em conta.\u201d<\/p>\n<p>Um estudo publicado em janeiro deste ano na revista m\u00e9dica\u00a0<em>JAMA Pediatrics<\/em>revelou que um tempo maior diante da tela aos dois e tr\u00eas anos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/09\/26\/ciencia\/1537960453_593059.html\">est\u00e1 associado com atrasos das crian\u00e7as<\/a>\u00a0em atingir marcos do desenvolvimento dois anos depois. Outros estudos relacionam o uso excessivo de telefones celulares por adolescentes com falta de sono, risco de depress\u00e3o e at\u00e9 suic\u00eddios. A Academia de Pediatras dos Estados Unidos publicou algumas recomenda\u00e7\u00f5es em 2016: evitar o uso de telas para crian\u00e7as menores de 18 meses; apenas conte\u00fado de qualidade e visualiza\u00e7\u00f5es na companhia de pais, para crian\u00e7as entre 18 e 24 meses; uma hora por dia de conte\u00fado de qualidade para crian\u00e7as entre dois e cinco anos de idade; e, a partir dos seis anos, limites coerentes no tempo de uso e conte\u00fado.<\/p>\n<p>Acontece que definir limites n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para os pais que trabalham. E isso leva a uma redefini\u00e7\u00e3o do que significa a brecha digital. At\u00e9 recentemente, a preocupa\u00e7\u00e3o era que as crian\u00e7as mais ricas levassem vantagem por acessar a Internet antes. Hoje, segundo a Common Sense Media, 98% dos domic\u00edlios com filhos nos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\">EUA<\/a>\u00a0possuem celulares, ante 52% em 2011. Quando a tecnologia se generalizou, o problema \u00e9 o contr\u00e1rio: as fam\u00edlias com elevado poder aquisitivo t\u00eam mais facilidade para impedir que seus filhos passem o dia na frente de celulares. Enquanto os filhos das elites do Vale do Sil\u00edcio s\u00e3o criados entre lousas e brinquedos de madeira, os das classes baixa e m\u00e9dia crescem colados em telas.<\/p>\n<p>Adolescentes de fam\u00edlias de baixa renda, de acordo com um estudo da Common Sense Media, gastam duas horas e 45 minutos por dia a mais nas telas do que aqueles de fam\u00edlias de alta renda. Outros estudos indicam que crian\u00e7as brancas s\u00e3o significativamente menos expostas a telas do que negras ou hisp\u00e2nicas. A lacuna \u00e9 vista at\u00e9 mesmo dentro do Vale do Sil\u00edcio. Dirigindo 15 minutos para o norte, partindo do Waldorf of Peninsula, institui\u00e7\u00e3o cuja matr\u00edcula \u00e9 de cerca de 30.000 d\u00f3lares por ano (117.000 reais), chega-se \u00e0 escola p\u00fablica Hillview. A primeira s\u00f3 introduz as telas no secund\u00e1rio. A segunda anuncia um programa pelo qual cada aluno tem um iPad. Na primeira, o visitante \u00e9 recebido por um espantalho r\u00fastico, colocado em uma horta que os alunos cultivam. Na segunda, por uma tela de LED que exp\u00f5e os comunicados do dia.<\/p>\n<p>&#8220;Quantas fam\u00edlias trabalhadoras podem se dar ao luxo de deixar seus filhos completamente longe das telas?&#8221;, pergunta \u00c1lvarez, da Common Sense Media. &#8220;N\u00e3o acho que isso seja algo realista para a maioria das fam\u00edlias. Tenho um filho de 12 e outro de 6. N\u00e3o sei quantas vezes eles se jogaram no ch\u00e3o gritando como loucos se eu lhes tirava o\u00a0<em>tablet<\/em>. Estive nessa posi\u00e7\u00e3o como m\u00e3e e sei que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.\u201d<\/p>\n<p>Funcion\u00e1rios das grandes empresas de tecnologia se reuniram no ano passado em uma iniciativa chamada\u00a0<em>A Verdade Sobre a Tecnologia<\/em>. Seu objetivo \u00e9 convencer as empresas da necessidade de introduzir par\u00e2metros \u00e9ticos na concep\u00e7\u00e3o de ferramentas utilizadas diariamente por bilh\u00f5es de pessoas, incluindo crian\u00e7as. &#8220;A engenharia da computa\u00e7\u00e3o foi por muito tempo algo muito t\u00e9cnico, n\u00e3o havia uma ideia clara do impacto que isso teria nas pessoas, e menos ainda nas crian\u00e7as&#8221;, explica Pierre Laurent. &#8220;N\u00e3o havia a consci\u00eancia de que t\u00ednhamos que lidar com a \u00e9tica. Algo que acontece, por exemplo, se voc\u00ea trabalha na ind\u00fastria m\u00e9dica. Na tecnologia nunca houve um c\u00f3digo \u00e9tico claro.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 uma luta desigual. Pais superatarefados contra equipes de engenheiros e psic\u00f3logos que projetam tecnologia para manter seus filhos viciados. Mas algo est\u00e1 come\u00e7ando a mudar. Os gigantes tecnol\u00f3gicos, cada vez mais questionados em suas pol\u00edticas comerciais e de privacidade, come\u00e7am a introduzir mudan\u00e7as em seus produtos, exce\u00e7\u00f5es t\u00edmidas ao sacrossanto princ\u00edpio de captar mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201cQUANTAS FAM\u00cdLIAS TRABALHADORAS PODEM SE DAR AO LUXO DE AFASTAR COMPLETAMENTE SEUS FILHOS DAS TELAS?\u201d<\/i><br \/>\nMAR\u00cdA \u00c1LVAREZ, COMMON SENSE MEDIA\n<\/p><\/blockquote>\n<p>No ano passado, dois grandes investidores da Apple, a Jana Partners ea CalSTRS (fundo de aposentadoria de professores da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/california\">Calif\u00f3rnia<\/a>), detentores em conjunto de cerca de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em a\u00e7\u00f5es (7,8 bilh\u00f5es de reais), enviaram uma carta aberta aos chefes da empresa de Cupertino, pedindo que tomem mais medidas contra o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/24\/tecnologia\/1524577831_486816.html\">v\u00edcio das crian\u00e7as nos celulares<\/a>. &#8220;Analisamos as evid\u00eancias e acreditamos que h\u00e1 uma clara necessidade da Apple de oferecer aos pais mais op\u00e7\u00f5es e ferramentas para ajud\u00e1-los a garantir que os jovens consumidores usem seus produtos da melhor forma&#8221;, escreveram eles.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/apple_computer\">Apple<\/a>\u00a0respondeu apresentando o\u00a0<em>Screen Time<\/em>, uma nova ferramenta que ajuda a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/09\/tecnologia\/1515501343_897911.html\">controlar e limitar o uso<\/a>\u00a0de dispositivos m\u00f3veis. O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/google\">Google<\/a>incorporou uma ferramenta semelhante, a\u00a0<em>Digital Wellbeing<\/em>. Para os cr\u00edticos, s\u00e3o apenas remendos que n\u00e3o atacam o problema subjacente: a natureza viciante dos produtos. At\u00e9 que isso seja abordado, os pais ser\u00e3o respons\u00e1veis por orientar seus filhos neste mundo de potencial incerto.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/sociedad\/imagenes\/2019\/03\/20\/actualidad\/1553105010_527764_1553171987_sumario_normal.jpg?resize=640%2C641&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/sociedad\/imagenes\/2019\/03\/20\/actualidad\/1553105010_527764_1553171987_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/sociedad\/imagenes\/2019\/03\/20\/actualidad\/1553105010_527764_1553171987_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/sociedad\/imagenes\/2019\/03\/20\/actualidad\/1553105010_527764_1553171987_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Plantas, m\u00f3veis de madeira, l\u00e1pis e uma lousa se destacam na sala de aula no col\u00e9gio Waldorf of Peninsula do Vale do Sil\u00edcio\" width=\"640\" height=\"641\" \/><\/p>\n<p><em>Plantas, m\u00f3veis de madeira, l\u00e1pis e uma lousa se destacam na sala de aula no col\u00e9gio Waldorf of Peninsula do Vale do Sil\u00edcio<\/em><\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s incentivamos os pais a serem mais proativos quando se trata de procurar conte\u00fado&#8221;, conclui \u00c1lvarez. &#8220;A chave \u00e9 como aprendemos a equilibrar, a tirar proveito, a limitar o uso e a saber que, para sua sa\u00fade f\u00edsica e mental, \u00e9 preciso haver momentos na fam\u00edlia em que nada disso seja usado. Temos uma campanha que convida as pessoas a comer e jantar sem celulares, sem um dispositivo constantemente interrompendo com notifica\u00e7\u00f5es. Recomendamos tamb\u00e9m o uso compartilhado dos dispositivos e conversar com as crian\u00e7as sobre o que elas veem. E \u00e9 importante que sejamos um modelo para os nossos filhos. Se estamos olhando compulsivamente para o celular, justificando que \u00e9 para o trabalho, que mensagem estamos passando?&#8221;<\/p>\n<p><strong>SOBRE ESTE PROJETO<\/strong><\/p>\n<p>Esta reportagem \u00e9 a primeira parte do Crescer Conectados, uma s\u00e9rie de artigos que explora a vida de crian\u00e7as e adolescentes em um mundo digital. Os c\u00f3digos mudaram, as crian\u00e7as aprendem, brincam e interagem atrav\u00e9s de redes e telas, cercadas por algoritmos e big data, de modo natural em ambientes em que adultos se movimentam com desconforto. O Crescer Conectados reflete sobre os desafios que enfrentam e as possibilidades que se abrem para estas gera\u00e7\u00f5es. O que as crian\u00e7as e adolescentes fazem, onde est\u00e3o e como usam a tecnologia? T\u00eam entre 3 e 18 anos: elas ser\u00e3o nossos guias.<\/p>\n<p><strong>O CELULAR DAS BAB\u00c1S, PROIBIDO POR CONTRATO<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/03\/20\/actualidad\/1553105010_527764_1553607594_sumario_normal.jpg?resize=640%2C359&#038;ssl=1\" alt=\"Uma sala de aula no col\u00e9gio Waldorf of Peninsula do Vale do Sil\u00edcio\" width=\"640\" height=\"359\" \/><\/p>\n<p><em>Uma sala de aula no col\u00e9gio Waldorf of Peninsula do Vale do Sil\u00edcio<\/em><\/p>\n<p>A obsess\u00e3o no Vale do Sil\u00edcio por afastar as crian\u00e7as da tecnologia transcende as paredes da sala de aula. Quando as crian\u00e7as saem da escola, tentam fazer com que continuem sem tocar ou ver as telas. A pr\u00e1tica de exigir que as bab\u00e1s assinem &#8220;contratos sem uso do telefone celular&#8221; est\u00e1 se generalizando nas fam\u00edlias de altos executivos de empresas de tecnologia no Vale.<\/p>\n<p>&#8220;Trabalhei em casas em que tinha de deixar o telefone na guarita da resid\u00eancia toda vez que entrava&#8221;, disse Janie Mart\u00ednez, que passou 15 anos como bab\u00e1 na regi\u00e3o. &#8220;Eu n\u00e3o podia olhar o telefone durante todo o meu dia de trabalho, e as crian\u00e7as n\u00e3o podiam ver telas durante o tempo que estavam comigo. \u00c9 uma loucura.&#8221;<\/p>\n<p>Mart\u00ednez trabalhou para fam\u00edlias &#8220;de alto perfil&#8221; no mundo da tecnologia, incluindo a de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, afirma. Trabalhos que, nos casos mais extremos, podem ser remunerados com at\u00e9 100.000 d\u00f3lares por ano (390.000 reais). &#8220;Quanto maior o perfil das fam\u00edlias, mais se preocupavam com essa quest\u00e3o&#8221;, diz ela. &#8220;N\u00e3o queriam que seus filhos olhassem para uma tela e, por contrato, impediam que eu usasse o telefone. Isso era frustrante para mim. Como cuidadoras, precisamos do telefone para uma emerg\u00eancia. N\u00e3o s\u00f3 para que os pais das crian\u00e7as nos localizem, mas tamb\u00e9m para nossas pr\u00f3prias fam\u00edlias.\u201d<\/p>\n<p>Syma Latif, diretora da ag\u00eancia de bab\u00e1s Bay Area Sitters, que coloca 200 cuidadoras na regi\u00e3o do Vale do Sil\u00edcio, confirma essa tend\u00eancia. &#8220;H\u00e1 cada vez mais fam\u00edlias que incluem essas cl\u00e1usulas nos contratos. Sem d\u00favida \u00e9 algo muito comum&#8221;, diz. &#8220;Quando falamos sobre tempo de tela e bab\u00e1s, h\u00e1 dois aspectos a considerar: seu pr\u00f3prio tempo de tela e o da crian\u00e7a. Os contratos normalmente incluem algo relacionado a ambos. Mas uma coisa \u00e9 dizer: &#8216;Este \u00e9 meu filho e o tempo de tela s\u00f3 \u00e9 permitido em determinadas horas&#8217;. Tudo bem, porque voc\u00ea trabalha para essa pessoa. A zona cinzenta come\u00e7a quando o seu tempo de tela \u00e9 determinado. O empregador tem o direito de te dizer que voc\u00ea n\u00e3o pode estar no telefone? E se voc\u00ea tiver um filho na escola e necessitar de acesso ao telefone, caso precise ser localizado, ou um pai ou um m\u00e3e em casa que precisem de ajuda?\u201d<\/p>\n<p>Alguns pais v\u00e3o ainda mais longe. Eles se dedicam a passear pelos parques em busca de bab\u00e1s que est\u00e3o de olho em seus celulares enquanto cuidam dos filhos dos outros. Quando acreditam ter encontrado alguma, fotografam e as denunciam em grupos de m\u00e3es na Internet. S\u00e3o os &#8220;espi\u00f5es das bab\u00e1s&#8221;. Existem sites como\u00a0<i>Eu Vi a Sua Bab\u00e1\u00a0<\/i>em que essas fotos s\u00e3o compartilhadas.<\/p>\n<p>&#8220;Acontece muito nos parques&#8221;, explica Anita Castro, com 10 anos de experi\u00eancia como cuidadora de crian\u00e7as na regi\u00e3o. &#8220;Eles nem sequer nos conhecem, tiram uma foto, colocam nas redes sociais e perguntam: &#8216;Essa \u00e9 sua bab\u00e1?&#8217;. Mas n\u00e3o sabem que podemos estar nos comunicando com os pais. E nem se eu sou a bab\u00e1 ou uma parente. \u00c9 uma invas\u00e3o da privacidade. Em alguns trabalhos eu me sentia observada. Percebi que tinham c\u00e2meras na casa. E at\u00e9 as crian\u00e7as me vigiavam: olhava a hora e elas me perguntaram se eu estava enviando mensagens e para quem. Ent\u00e3o, eu sabia que haviam tido essa conversa com seus pais, que pediram para lhes contar se eu estivesse no telefone\u201d.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/20\/actualidad\/1553105010_527764.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PABLO GUIM\u00d3N &#8211; No Vale do Sil\u00edcio proliferam escolas sem tablets nem computadores e jardins da inf\u00e2ncia onde o celular \u00e9 proibido por contrato. A professora, armada com giz colorido, acrescenta fra\u00e7\u00f5es no grande quadro-negro, emoldurado em madeira r\u00fastica, que cobre a parede frontal da classe. 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