{"id":10335,"date":"2019-03-28T18:38:53","date_gmt":"2019-03-28T21:38:53","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10335"},"modified":"2019-03-24T22:41:19","modified_gmt":"2019-03-25T01:41:19","slug":"a-dificil-arte-de-superar-o-senso-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/03\/28\/a-dificil-arte-de-superar-o-senso-comum\/","title":{"rendered":"A dif\u00edcil arte de superar o senso comum"},"content":{"rendered":"<div class=\"row\">\n<div id=\"single-the-title\" class=\"column large-12 small-12 text-center mb-30\">\n<p><strong>Jos\u00e9 Geraldo Couto<\/strong><strong>\u00a0&#8211;<\/strong> Tr\u00eas novos filmes argentinos atestam qualidade t\u00e9cnica e maturidade narrativa de nossos vizinhos. Dois s\u00e3o convencionais. \u201cMinha obra-prima\u201d questiona consumo e publicidade e desperta centelha de surpresa.<\/p>\n<p>A chegada quase simult\u00e2nea de tr\u00eas filmes argentinos ao circuito exibidor brasileiro ajuda a matizar a express\u00e3o gen\u00e9rica \u201ccinema argentino\u201d, usada com tanta frequ\u00eancia em compara\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis ao \u201ccinema brasileiro\u201d. Vistos em conjunto, os tr\u00eas atestam um padr\u00e3o b\u00e1sico de qualidade t\u00e9cnica e maturidade narrativa daquela produ\u00e7\u00e3o. Observados individualmente, mostram que nem tudo o que se produz ali escapa a um certo ramerrame est\u00e9tico e tem\u00e1tico predominante em boa parte do cinema feito hoje no Brasil e no mundo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<p>Dos tr\u00eas, apenas um,\u00a0<em>Minha obra-prima<\/em>, de Gast\u00f3n Duprat, revela uma marca autoral, uma inquieta\u00e7\u00e3o, uma centelha de surpresa. Os outros dois \u2013\u00a0<em>Um amor inesperado<\/em>, de Juan Vera, e\u00a0<em>Uma viagem inesperada<\/em>, de Juan Jos\u00e9 Jusid \u2013 podem ser enquadrados, apesar de seus t\u00edtulos, na categoria dos filmes c\u00f4modos, confort\u00e1veis, que apenas refor\u00e7am ideias, gostos e sentimentos predominantes no senso comum. Filmes sem assinatura que a gente v\u00ea com prazer e esquece com facilidade, como diria o cr\u00edtico In\u00e1cio Araujo.<\/p>\n<p><strong>Arte e sociedade<\/strong><\/p>\n<p><em>Minha obra-prima<\/em>, primeiro longa assinado individualmente por Gast\u00f3n Duprat, leva adiante a explora\u00e7\u00e3o de um tema constante nos trabalhos que ele codirigiu com Mariano Cohn (<em>El artista<\/em>,\u00a0<em>O homem ao lado\u00a0<\/em>e\u00a0<em>Cidad\u00e3o ilustre<\/em>): as rela\u00e7\u00f5es acidentadas entre arte e sociedade, cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e moral, e tamb\u00e9m, subsidiariamente, entre uma Argentina com pretens\u00f5es modernas e cosmopolitas e uma Argentina popular, mais selvagem e contradit\u00f3ria.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/y-JwQWD54Q0?feature=oembed\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p>Num resumo bastante redutor, \u00e9 a hist\u00f3ria de Renzo Nervi (Luis Brandoni), um pintor irasc\u00edvel e antissocial, que teve seus anos de gl\u00f3ria e hoje nem consegue pagar o aluguel do apartamento, e seu amigo\u00a0<em>marchand<\/em>\u00a0Arturo Silva (Guillermo Francella), que tenta de v\u00e1rios modos salv\u00e1-lo do desprest\u00edgio e da bancarrota.<\/p>\n<p>Narrado retrospectivamente por Arturo, que se apresenta logo de in\u00edcio como \u201cgalerista e assassino\u201d, o filme questionar\u00e1 com leveza e autoironia o lugar da arte no mundo do consumo globalizado e da publicidade onipresente.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo narrativo, por assim dizer, \u00e9 o do \u201csuspense c\u00f4mico\u201d, j\u00e1 presente nas obras anteriores do diretor com Mariano Cohn (que desta vez \u00e9 o produtor), e produz momentos inspirados, como aquele em que artista e galerista, dois homens de idade, invadem o apartamento de uma namoradinha do primeiro para reaver um quadro. A inaugura\u00e7\u00e3o de um mural no sagu\u00e3o da nova sede de uma grande empresa rende outra passagem memor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Outra qualidade dos filmes anteriores da dupla que reaparece aqui \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o privilegiada do espa\u00e7o e dos ambientes, seja o de uma pra\u00e7a de Buenos Aires, de um edif\u00edcio empresarial modernoso, de um ateli\u00ea bagun\u00e7ado, de um restaurante chique ou de um chal\u00e9 nos Andes. Uma das passagens mais marcantes nesse sentido, ao menos para n\u00f3s, \u00e9 a cena que se passa no Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Niter\u00f3i, com suas formas de disco voador em contraste com a esplendorosa paisagem da ba\u00eda da Guanabara. \u00c9 um espa\u00e7o manjado, mas a maneira como Duprat o filma valoriza sua for\u00e7a \u00fanica.<\/p>\n<p>Nada escapa ao olhar cr\u00edtico de Duprat: a imoralidade do mercado de arte, a hipocrisia do mecenato, a ingenuidade de certas causas humanit\u00e1rias, a vacuidade de todas as modas. Se h\u00e1 uma ressalva que pode ser feita \u00e9 justamente a uma certa acidez que beira o cinismo, mas isso de certo modo \u00e9 matizado pela autoironia, como se os pr\u00f3prios realizadores dissessem: isto \u00e9 s\u00f3 um filme, fazemos parte dessa engrenagem, n\u00e3o somos melhores que ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Coprodu\u00e7\u00e3o com a Espanha,\u00a0<em>Minha obra-prima\u00a0<\/em>tem no elenco o madrilenho Ra\u00fal Ar\u00e9valo, que trabalhou, entre outros, em\u00a0<em>Os amantes passageiros<\/em>, de Pedro Almod\u00f3var.<\/p>\n<p><strong>Uma viagem inesperada<\/strong><\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja, formalmente, uma coprodu\u00e7\u00e3o com o Brasil,\u00a0<em>Uma viagem inesperada\u00a0<\/em>come\u00e7a e termina no Rio de Janeiro e tem no elenco a brasileira D\u00e9bora Nascimento. Seu protagonista, o engenheiro Pablo (Pablo Rago), trabalha em plataformas petrol\u00edferas em \u00e1guas fluminenses, mora no Rio e fala um portunhol sofr\u00edvel.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ao_WJBEE9R0?feature=oembed\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p>Fiel \u00e0 f\u00f3rmula \u201cacontecimentos imprevistos colocam o personagem em crise e o levam a reconsiderar seu passado e reinventar sua vida\u201d, tudo acontece ao mesmo tempo: a ex-mulher liga de Buenos Aires para dizer que o filho adolescente dos dois est\u00e1 com problemas graves, a namorada carioca revela que est\u00e1 gr\u00e1vida, a empresa o pressiona com prazos e exig\u00eancias.<\/p>\n<p>A tal viagem inesperada a Buenos Aires e depois a Bol\u00edvar, no interior argentino, ter\u00e1 v\u00e1rios acidentes, surpresas e reviravoltas, mas parece que todos foram concebidos para expressar clich\u00eas e estere\u00f3tipos das rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos, adolescentes e escola (e bullying e sexo e drogas e tecnologia), lavagem de roupa suja de pais separados, conflito entre trabalho e vida privada etc. Para efeito de contraste, o mesmo universo \u00e9 tratado com muito mais rigor e vitalidade no brasileiro\u00a0<em>Ferrugem<\/em>, de Aly Muritiba.<\/p>\n<p>H\u00e1, por tr\u00e1s da aparente turbul\u00eancia do entrecho, uma sistem\u00e1tica reitera\u00e7\u00e3o do senso comum e da corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: as feridas se curam, os ru\u00eddos se amortecem, tudo se ajeita, quase como numa vers\u00e3o ficcional dos livros de autoajuda. Com uma\u00a0<em>mise-en-sc\u00e8ne\u00a0<\/em>convencional e pouco inspirada, n\u00e3o \u00e9 propriamente um filme ruim, mas simplesmente mediano, redundante, dispens\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Um amor inesperado<\/strong><\/p>\n<p>Num patamar bem superior, em termos de compet\u00eancia narrativa e qualidade da encena\u00e7\u00e3o,\u00a0<strong><em>Um amor inesperado <\/em><\/strong>n\u00e3o deixa tamb\u00e9m de acenar com o imprevisto para entregar o que, no final de contas, todos esperam.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hdeFfZVIzms?feature=oembed\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p>H\u00e1 ali tamb\u00e9m um casal de classe m\u00e9dia de meia-idade, o professor universit\u00e1rio Marcos (Ricardo Dar\u00edn) e a psic\u00f3loga Ana (Mercedes Mor\u00e1n), que ficam desorientados quando o filho parte para estudar na Europa. Evidencia-se ent\u00e3o o vazio do casamento, depois de 25 anos, e cada um deles tenta se reinventar no \u201cmundo l\u00e1 fora\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o oscilante do casal, a tens\u00e3o liberdade x seguran\u00e7a afetiva, tudo isso lembra\u00a0<em>O fundo do cora\u00e7\u00e3o<\/em>, s\u00f3 que no filme de Juan Vera (competente produtor de obras de Lucrecia Martel e Pablo Trapero) falta aquilo que transborda no de Coppola: a inven\u00e7\u00e3o visual, o risco do excesso, a paix\u00e3o pelo cinema.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma cena visualmente inspirada, a primeira, em que uma c\u00e2mera alta, vertical, percorre uma biblioteca at\u00e9 chegar ao protagonista, que estava proferindo as frases iniciais do\u00a0<em>Moby Dick<\/em>\u00a0como se falasse de si mesmo. Depois disso, entra-se numa decupagem acomodada, em que tudo se resolve nos di\u00e1logos e no campo\/contracampo.<\/p>\n<p>A exemplo de\u00a0<em>Uma viagem inesperada<\/em>, os problemas surgem s\u00f3 para serem resolvidos em seguida, as a\u00e7\u00f5es dos personagens s\u00e3o aquelas que uma pessoa sensata e civilizada faria, tudo \u00e9 veross\u00edmil, l\u00f3gico e, em \u00faltima an\u00e1lise, agrad\u00e1vel e inofensivo. Mas os atores s\u00e3o bons, os di\u00e1logos, bem escritos. S\u00e3o duas horas que passam de modo indolor, divertem um pouco, n\u00e3o fazem mal a ningu\u00e9m. Para muitos espectadores, \u00e9 o que basta.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"XpxM9qIaXl\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/a-dificil-arte-de-superar-o-senso-comum\/\">A dif\u00edcil arte de superar o senso comum<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A dif\u00edcil arte de superar o senso comum&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/a-dificil-arte-de-superar-o-senso-comum\/embed\/#?secret=dwHAFz0nui#?secret=XpxM9qIaXl\" data-secret=\"XpxM9qIaXl\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Geraldo Couto\u00a0&#8211; Tr\u00eas novos filmes argentinos atestam qualidade t\u00e9cnica e maturidade narrativa de nossos vizinhos. 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