{"id":10241,"date":"2019-03-12T12:49:43","date_gmt":"2019-03-12T15:49:43","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10241"},"modified":"2019-03-10T19:28:25","modified_gmt":"2019-03-10T22:28:25","slug":"cresce-dependencia-da-industria-de-alta-tecnologia-por-importado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/03\/12\/cresce-dependencia-da-industria-de-alta-tecnologia-por-importado\/","title":{"rendered":"Cresce depend\u00eancia da ind\u00fastria de alta tecnologia por importado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marta Watanabe<\/strong> &#8211; Um total de 60 classes industriais importou, em 2016, pelo menos um ter\u00e7o dos insumos e componentes utilizados no seu processo produtivo. O grupo representa menos de um quarto do total de 258 classes industriais existentes no pa\u00eds, mas contempla 48 segmentos respons\u00e1veis por cerca de dois ter\u00e7os da produ\u00e7\u00e3o industrial brasileira de alta e m\u00e9dia-alta tecnologia.<\/p>\n<p>O quadro n\u00e3o \u00e9 pontual e resulta de um longo processo que acentuou a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica da ind\u00fastria brasileira de insumos e componentes mais elaborados e sofisticados. No bi\u00eanio 2003\/2004, a parcela de insumos importados em rela\u00e7\u00e3o ao total aplicado na produ\u00e7\u00e3o brasileira era de 16,5%, fatia que aumentou para 24,4% dez anos depois. O avan\u00e7o maior concentrou-se nos setores mais intensivos em tecnologia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-101-marta-a3.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-10242\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-101-marta-a3.jpg?resize=640%2C894\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"894\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-101-marta-a3.jpg?w=755&amp;ssl=1 755w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-101-marta-a3.jpg?resize=215%2C300&amp;ssl=1 215w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-101-marta-a3.jpg?resize=733%2C1024&amp;ssl=1 733w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Enquanto o coeficiente de importa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de baixa e m\u00e9dia-baixa tecnologia cresceu de 10,8% para 13,6% no per\u00edodo, o da alta e m\u00e9dia-alta tecnologia saltou mais de doze pontos percentuais, de 26,3% para 38,7%. Os dados s\u00e3o de levantamento do economista e pesquisador Paulo C\u00e9sar Morceiro, do N\u00facleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de S\u00e3o Paulo (Nereus\/USP). O pesquisador teve acesso a dados n\u00e3o publicados da Pesquisa Industrial Anual Empresa (PIA-E) do IBGE e avaliou as 258 classes industriais existentes no pa\u00eds. Ele explica que classe industrial \u00e9 a desagrega\u00e7\u00e3o mais detalhada das estat\u00edsticas de atividade do pa\u00eds. Parte das informa\u00e7\u00f5es integrou a tese de doutorado apresentada por Morceiro na Faculdade de Economia e Administra\u00e7\u00e3o (FEA\/USP).<\/p>\n<p>Para mensurar o grau de importa\u00e7\u00e3o, Morceiro usou o Coeficiente Importado de Insumos e Componentes Comercializ\u00e1veis, que capta mat\u00e9rias-primas, insumos, partes, pe\u00e7as e componentes utilizados no processo de produ\u00e7\u00e3o industrial. Na compara\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o do indicador foram usados pre\u00e7os constantes de 2013\/2014. O pesquisador explica que o coeficiente capta apenas as importa\u00e7\u00f5es diretas. Ou seja, n\u00e3o reflete as importa\u00e7\u00f5es indiretas embutidas nos insumos e componentes comprados no Brasil e produzidos com itens importados. Com isso, o conte\u00fado importado provavelmente \u00e9 maior do que o mostrado.<\/p>\n<p>Mais do que revelar a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao fornecedor externo, o coeficiente de importa\u00e7\u00e3o, diz Morceiro, \u00e9 um indicador do esgar\u00e7amento do tecido industrial. Ou seja, da perda de densidade produtiva, situa\u00e7\u00e3o na qual os produtores dom\u00e9sticos respondem pela maioria dos insumos e componentes, com cada segmento vinculado a uma rede de fornecedores nacionais diretos e indiretos entrela\u00e7ados entre si. Quanto menor a rede de entrela\u00e7amentos, menos denso \u00e9 o segmento e mais esgar\u00e7ado est\u00e1 o tecido industrial.<\/p>\n<p>Por setores, avalia Morceiro, os que possuem coeficientes de insumos intermedi\u00e1rios importados muito elevados s\u00e3o inform\u00e1tica, eletr\u00f4nicos e \u00f3pticos; farmac\u00eautica; outros equipamentos de transporte e qu\u00edmica.<\/p>\n<p>O setor de inform\u00e1tica, eletr\u00f4nicos e \u00f3pticos \u00e9 o mas esgar\u00e7ado. Das 11 classes do setor, dez est\u00e3o entre as 60 com maior coeficiente de importa\u00e7\u00e3o em 2016 e representaram praticamente a produ\u00e7\u00e3o total do setor. A maioria dessas classes produz bens finais, com cadeias produtivas longas, mas os encadeamentos de fornecimento dom\u00e9stico s\u00e3o fracos porque o n\u00edvel de importa\u00e7\u00e3o \u00e9 elevado. V\u00e1rias classes desse setor importaram mais de 70% dos insumos e componentes comercializ\u00e1veis. &#8220;Do ponto de vista do grau de transforma\u00e7\u00e3o industrial, dois ter\u00e7os do setor n\u00e3o apresentam diferen\u00e7as significativas de uma ind\u00fastria maquiladora e o outro ter\u00e7o est\u00e1 bem pr\u00f3ximo disso&#8221;, destaca.<\/p>\n<p>Mas o caso brasileiro, diz ele, n\u00e3o \u00e9 de uma maquila t\u00edpica. Segundo Morceiro seria uma &#8220;maquila reversa&#8221;, que importa muito e n\u00e3o exporta. O ponto em comum com a ind\u00fastria maquiladora refere-se, diz, aos processos produtivos em que predominam opera\u00e7\u00f5es de montagem a partir de insumos e componentes importados e uso de m\u00e3o de obra mais barata do que a que seria utilizada caso houvesse maior transforma\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-102-marta-a3.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-10247\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-102-marta-a3.jpg?resize=640%2C799\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"799\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-102-marta-a3.jpg?w=755&amp;ssl=1 755w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/arte06bra-102-marta-a3.jpg?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O segundo setor mais esgar\u00e7ado \u00e9 o farmac\u00eautico, aponta Morceiro. A principal classe do setor, a de &#8220;medicamentos para uso humano&#8221;, representa 90% da produ\u00e7\u00e3o industrial nessa atividade e importou mais de 60% dos insumos intermedi\u00e1rios usados na produ\u00e7\u00e3o. Morceiro explica que o pa\u00eds importa, principalmente, o princ\u00edpio ativo farmoqu\u00edmico para a produ\u00e7\u00e3o de medicamentos. Trata-se de estrat\u00e9gia de suprimento das empresas que d\u00e3o prioridade a insumos mais elaborados e competitivos do exterior.<\/p>\n<p>O setor &#8220;outros equipamentos de transporte&#8221; \u00e9 composto por produ\u00e7\u00e3o de aeronaves, embarca\u00e7\u00f5es navais, motocicletas e equipamentos ferrovi\u00e1rios, os quais s\u00e3o essencialmente bens finais. A classe de &#8220;aeronaves&#8221; importou mais de 90% de todos os insumos e componentes comercializ\u00e1veis. Apesar disso, avalia Morceiro, essa classe n\u00e3o caracteriza uma &#8220;maquila&#8221; porque o segmento no Brasil emprega m\u00e3o de obra de elevada remunera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a montagem de aeronaves envolve protocolos de seguran\u00e7a e exigem profissionais qualificados. A Embraer, cita Morceiro, apesar de importar componentes importantes, lidera a cadeia produtiva ao desenhar avi\u00f5es, gerencia a rede de suprimentos e comercializa as aeronaves, tarefas que lhe possibilitam capturar uma fatia do valor agregado maior.<\/p>\n<p>No setor qu\u00edmico o estudo destaca as classes &#8220;defensivos agr\u00edcolas&#8221;, &#8220;adubos e fertilizantes&#8221; e &#8220;intermedi\u00e1rios para fertilizantes&#8221;, que importaram, em 2016, respectivamente 70,6%, 69,3% e 55,4% do total de insumos e componentes aplicados na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No panorama mais geral, o levantamento de Morceiro mostra que no bi\u00eanio 2013\/2014, dentre 258 classes da ind\u00fastria, a maioria &#8211; 146 &#8211; encontra-se inserida em denso tecido industrial. Esse parcela responde por metade produ\u00e7\u00e3o industrial e por 71% do pessoal ocupado no setor. Respons\u00e1veis por 57% da exporta\u00e7\u00e3o total de bens industriais, essas 146 classes responderam por menos de 21% da importa\u00e7\u00e3o de manufaturados.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, o menor adensamento industrial concentrou-se em 65 classes respons\u00e1veis por 31% do valor bruto da produ\u00e7\u00e3o industrial. Dentro desse grupo, 45 s\u00e3o setores classificados como de m\u00e9dia-alta e alta tecnologia. Embora com alguma mudan\u00e7a na classifica\u00e7\u00e3o entre as classes, o predom\u00ednio dos segmentos mais tecnol\u00f3gicos entre as classes com os mais altos coeficientes de importa\u00e7\u00e3o se manteve nos dados de 2016. Esse \u00e9 um fator preocupante, diz Morceiro, porque s\u00e3o segmentos que contribuem para o desenvolvimento tecnol\u00f3gico, empregam m\u00e3o de obra qualificada e pagam sal\u00e1rios comparativamente mais elevados. Al\u00e9m disso, tendem a crescer mais rapidamente devido \u00e0 maior elasticidade-renda da demanda e maior dinamismo no com\u00e9rcio internacional. Para ele, o quadro indica que pol\u00edticas futuras deveriam focalizar incentivos nas classes mais esgar\u00e7adas e que provavelmente continuar\u00e3o com demanda elevada, como as que fornecem insumos qu\u00edmicos destinados \u00e0 agricultura e as produtoras de insumos farmac\u00eauticos.<\/p>\n<p>https:\/\/www.valor.com.br\/brasil\/6146711\/cresce-dependencia-da-industria-de-alta-tecnologia-por-importado<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marta Watanabe &#8211; Um total de 60 classes industriais importou, em 2016, pelo menos um ter\u00e7o dos insumos e componentes utilizados no seu processo produtivo. 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