{"id":102,"date":"2016-04-26T18:25:27","date_gmt":"2016-04-26T21:25:27","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=102"},"modified":"2016-04-26T18:25:03","modified_gmt":"2016-04-26T21:25:03","slug":"agrotoxicos-terra-e-dinheiro-a-discussao-que-vem-antes-da-prateleira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/04\/26\/agrotoxicos-terra-e-dinheiro-a-discussao-que-vem-antes-da-prateleira\/","title":{"rendered":"Agrot\u00f3xicos, terra e dinheiro: a discuss\u00e3o que vem antes da prateleira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Aline Naoe<\/strong>\u00a0&#8211;\u00a0A ge\u00f3grafa Larissa Mies Bombardi fala sobre a legisla\u00e7\u00e3o que regula estes produtos no Brasil e defende uma agricultura sem agrot\u00f3xicos<\/p>\n<p>O Brasil ocupa o primeiro lugar na lista de pa\u00edses que mais consomem agrot\u00f3xicos. O uso massivo desses produtos \u00e9 explicado por uma economia que exporta <i>commodities <\/i>em grande escala, em especial a soja, e um modelo de agroneg\u00f3cio baseado em grandes extens\u00f5es de terra produzindo poucas culturas.Nos \u00faltimos cinco anos, a ge\u00f3grafa Larissa Mies Bombardi tem se dedicado a estudar o impacto do uso dos agrot\u00f3xicos no pa\u00eds, em especial a partir do mapeamento dos casos de intoxica\u00e7\u00e3o \u2013 segundo a professora, de 2007 a 2014 foram notificados 1186 casos de morte por intoxica\u00e7\u00e3o com agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Coordenadora do Laborat\u00f3rio de Geografia Agr\u00e1ria da Faculdade de Filosofia Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP, Larissa comenta o Projeto de Lei em tramita\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara que concentra no Minist\u00e9rio da Agricultura o controle do registro dos agrot\u00f3xicos,\u00a0responsabilidade que hoje \u00e9\u00a0compartilhada com \u00f3rg\u00e3os dos Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e do Meio Ambiente. A pesquisadora fala tamb\u00e9m sobre como os recentes casos de microcefalia associados ao v\u00edrus zika podem acabar contribuindo para a aprova\u00e7\u00e3o de medidas que autorizam a pulveriza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanas com agrot\u00f3xicos para o combate ao mosquito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_107944\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-107944 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www5.usp.br\/wp-content\/uploads\/portal20160418_2.jpg?resize=640%2C281\" alt=\"Larissa Mies Bombardi | Foto: Cec\u00edlia Bastos\" width=\"640\" height=\"281\" data-id=\"107944\" \/><b><\/b><\/figure>\n<figure class=\"wp-caption alignnone\"><\/figure>\n<figure class=\"wp-caption alignnone\"><b>Qual o foco da\u00a0sua pesquisa sobre o uso de agrot\u00f3xicos no Brasil?<\/b><\/figure>\n<p><strong>Larissa Bombardi:<\/strong> Minha \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o \u00e9 a geografia agr\u00e1ria, ent\u00e3o tenho discutido uma quest\u00e3o maior do que o agrot\u00f3xico enquanto um elemento de sa\u00fade p\u00fablica. Ela envolve a quest\u00e3o agr\u00e1ria, o papel da agricultura na economia brasileira. Para voc\u00ea ter uma ideia, nossa pauta de exporta\u00e7\u00e3o hoje virou do avesso do que era no final dos anos 90, come\u00e7o dos anos 2000. A gente vinha, durante a ditadura, num processo em que os produtos b\u00e1sicos tinham menor import\u00e2ncia nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras do que os industrializados. Depois, em 1978, 1979, h\u00e1 um marco porque isso come\u00e7a a se inverter e esse processo acontece\u00a0at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 2000, quando h\u00e1 ent\u00e3o uma inflex\u00e3o nas curvas e a gente passa a exportar muito mais produtos b\u00e1sicos do que industrializados. Os b\u00e1sicos n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os produtos agr\u00edcolas, entram a\u00ed tamb\u00e9m min\u00e9rio de ferro, petr\u00f3leo e outras <em>commodities<\/em>, mas a soja \u00e9 o principal produto exportado pelo Brasil. Ent\u00e3o falar de agrot\u00f3xico n\u00e3o se restringe ao \u00e2mbito da agricultura, mas a algo muito maior, porque tem a ver com o modelo de inser\u00e7\u00e3o do Brasil no que a gente chama de economia mundializada. \u00c9 uma escolha, \u00e9 um papel que o Brasil exerce no mundo. Somos o maior exportador mundial de a\u00e7\u00facar, carne, gado, carne de frango, fumo, laranja, caf\u00e9\u2026.esse pacote monocultor, em grande escala, demanda muito agroqu\u00edmico. O Brasil hoje consome um quinto dos agrot\u00f3xicos utilizados no mundo. O\u00a0que eu tenho feito \u00e9 mapeado o uso e os casos de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos para entender o que h\u00e1 por tr\u00e1s desses n\u00fameros, e isso tem uma rela\u00e7\u00e3o direta com o modelo econ\u00f4mico que o pa\u00eds tem adotado.<\/p>\n<p><b>Onde est\u00e3o\u00a0dispon\u00edveis\u00a0os\u00a0dados sobre mortes e intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>Est\u00e3o no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, no Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o (Sinan). De 2007 a 2014 tivemos 1186 casos de morte por intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos, ou seja, 148 por ano, um a cada dois dias e meio. \u00c9 um dado muito alarmante. Se focarmos nas crian\u00e7as, numa faixa et\u00e1ria de zero a 14 anos, nesse mesmo per\u00edodo, tivemos 2181 casos de crian\u00e7as intoxicadas, \u00e9 muita coisa. O que \u00e9 mais grave ainda \u00e9 que dessas, 300 crian\u00e7as entre 10 e 14 anos cometeram tentativa de suic\u00eddio. Temos v\u00e1rios estudos no exterior e no Brasil tamb\u00e9m que mostram a conex\u00e3o entre tentativa de suic\u00eddio e exposi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica a alguns agrot\u00f3xicos. Outro dado chocante que vale a pena mencionar \u00e9 que tamb\u00e9m nesse per\u00edodo de 2007 a 2014 mais de 300 beb\u00eas de zero a menos de um ano foram intoxicados com agrot\u00f3xicos. Quando estamos numa realidade em que beb\u00eas se intoxicam, temos a no\u00e7\u00e3o da ponta do iceberg que \u00e9 essa quest\u00e3o. Como isso \u00e9 poss\u00edvel? Isso tem a ver com a condi\u00e7\u00e3o de trabalho dos pais, com pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, proximidade das casas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas de utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos\u2026<\/p>\n<blockquote><p>Calcula-se\u00a0que para cada caso de intoxica\u00e7\u00e3o no Brasil\u00a0existam\u00a050 outros n\u00e3o notificados<\/p><\/blockquote>\n<p>A Fiocruz [<em>Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz<\/em>] tamb\u00e9m tem esses dados, inclusive ela tem mais dados.\u00a0Ela faz um registro quase que espont\u00e2neo, pois tem um servi\u00e7o de apoio que indica aos profissionais de sa\u00fade como agir em casos de intoxica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 por agrot\u00f3xicos, mas tamb\u00e9m animal pe\u00e7onhento, planta, medicamentos. Ent\u00e3o eles remetem \u00e0 Fiocruz os casos, \u00e9 espont\u00e2neo. E ainda assim \u00e9 a fonte de dados sobre isso mais rica do Brasil.\u00a0Os\u00a0dados da Fiocruz sugerem\u00a0uma m\u00e9dia de um caso de intoxica\u00e7\u00e3o a cada 90 minutos, um quadro muito pior levando em conta a subnotifica\u00e7\u00e3o. Calcula-se\u00a0que para cada caso de intoxica\u00e7\u00e3o no Brasil existam\u00a050 outros n\u00e3o notificados.<\/p>\n<p><b>E partindo desses dados, \u00e9 poss\u00edvel afirmar ser\u00a0incontest\u00e1vel que\u00a0os agrot\u00f3xicos s\u00e3o prejudiciais \u00e0 sa\u00fade humana?<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Mas os dados ainda s\u00e3o insuficientes, h\u00e1\u00a0muita subnotifica\u00e7\u00e3o. O SUS, nas fichas dos pacientes, n\u00e3o\u00a0informa, por exemplo, a profiss\u00e3o da pessoa intoxicada, o que seria fundamental para entender qual o universo que estamos tratando. Veja que o Mato Grosso \u00e9 um estado que sozinho consome 20% de todo agrot\u00f3xico usado no brasil\u00a0e o\u00a0n\u00famero de notifica\u00e7\u00f5es\u00a0\u00e9 pequeno em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero total de casos, ent\u00e3o h\u00e1 um desn\u00edvel entre a realidade e aquilo que \u00e9 notificado. Os n\u00fameros que a gente tem j\u00e1 s\u00e3o muito alarmantes, mas ainda assim\u00a0h\u00e1\u00a0uma subnotifica\u00e7\u00e3o enorme.<\/p>\n<p>Quando olhamos os mapas das pessoas intoxicadas por agrot\u00f3xicos de uso agr\u00edcola no Brasil, se pegamos por munic\u00edpios, \u00e9 vis\u00edvel, por exemplo, o Vale do S\u00e3o Francisco, que tem uma agricultura irrigada com fruta para exporta\u00e7\u00e3o. D\u00e1 para ver as manchas do agroneg\u00f3cio. No Mato Grosso,\u00a0quando voc\u00ea mapeia os munic\u00edpios isso aparece. Uma parte disso est\u00e1\u00a0no\u00a0<em><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1UTVnWM\" target=\"_blank\">Pequeno Ensaio Cartogr\u00e1fico Sobre o Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil<\/a>,\u00a0<\/em>que publiquei pelo\u00a0Laborat\u00f3rio de Geografia Agr\u00e1ria. Uma parte do meu trabalho de ge\u00f3grafa \u00e9 mapear essas informa\u00e7\u00f5es. O mapa \u00e9 uma ferramenta muito importante porque voc\u00ea consegue espacializar o fen\u00f4meno,\u00a0consegue fazer perguntas para a realidade que voc\u00ea n\u00e3o faria sem mapear. E vou lan\u00e7ar em breve um\u00a0<em>Atlas do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil,\u00a0<\/em>que \u00e9 o pr\u00f3ximo passo da minha pesquisa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_107945\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-107945\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www5.usp.br\/wp-content\/uploads\/portal20160418_3.jpg?resize=640%2C234\" alt=\"Foto: Cec\u00edlia Bastos\" width=\"640\" height=\"234\" data-id=\"107945\" \/><\/figure>\n<p><b>Quando falamos nesses casos de intoxica\u00e7\u00e3o e morte estamos principalmente falando de pessoas que vivem no campo?<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>Em geral sim, mas n\u00e3o s\u00f3 a popula\u00e7\u00e3o rural que \u00e9 intoxicada, a popula\u00e7\u00e3o urbana tamb\u00e9m. Mesmo que a pessoa more e trabalhe na cidade, mas em \u00e1reas pr\u00f3ximas de cultivos onde h\u00e1 pulveriza\u00e7\u00e3o, ela est\u00e1 suscet\u00edvel.\u00a0O professor Wanderlei Pignati, da Universidade Federal de Mato Grosso, orientou um estudo sobre contamina\u00e7\u00e3o\u00a0de leite materno com agrot\u00f3xicos. Alguns agrot\u00f3xicos ficam na gordura do nosso corpo, ent\u00e3o uma forma n\u00e3o\u00a0invasiva de mensurar a contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 atrav\u00e9s do leite. Descobriu-se que todas as mulheres pesquisadas, uma amostra importante de m\u00e3es\u00a0que estavam amamentando no munic\u00edpio de Lucas do Rio Verde, tinham agrot\u00f3xicos no leite. Nenhuma delas trabalhava na \u00e1rea rural diretamente na agricultura. Apenas uma delas trabalhava\u00a0na sede de uma fazenda, mas como empregada dom\u00e9stica. Isso ilustra o quanto\u00a0a popula\u00e7\u00e3o urbana, sobretudo das pequenas cidades, est\u00e1 suscet\u00edvel. Al\u00e9m disso, muitas cidades do Brasil permitem no trabalho de jardinagem urbana o uso de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>H\u00e1 um\u00a0novo projeto de lei tramitando para poder\u00a0pulverizar inclusive \u00e1reas urbanas com agrot\u00f3xicos para poder eliminar os mosquitos vetores da dengue, chikungunya e zika. Isso \u00e9 muito temer\u00e1rio. Os casos de microcefalia deram o start dessa como\u00e7\u00e3o, quase uma histeria nacional em torno desse assunto. Isso tem ancorado o aumento do uso desses agrot\u00f3xicos em ambiente urbano. Todos esses venenos que s\u00e3o utilizados, o\u00a0\u201cfumac\u00ea\u201d, s\u00e3o agrot\u00f3xicos. Tem malathion, Pyriproxyfen\u00a0e fenitrothion, os tr\u00eas s\u00e3o cadastrados na Anvisa como agrot\u00f3xicos de uso agr\u00edcola e agora est\u00e3o sendo utilizados na cidades para combater os mosquitos, quando na verdade\u00a0temos\u00a0um problema muito mais grave que \u00e9 de saneamento urbano. Isso sim resolveria a quest\u00e3o dessa epidemia no n\u00edvel em que ela se deu. E os estudos t\u00eam mostrado na verdade que esse uso t\u00e3o intenso de veneno n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o eficaz. Eficaz \u00e9 saneamento b\u00e1sico.<\/p>\n<p>\u00c9\u00a0complicado justificar uma pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea nas cidades por conta disso. O\u00a0\u00faltimo numero da Revista Fapesp mostrou que esses casos de microcefalia aumentaram tanto n\u00e3o porque\u00a0eles aumentaram em si, mas porque at\u00e9 2014 a notifica\u00e7\u00e3o da microcefalia n\u00e3o era obrigat\u00f3ria, at\u00e9 ent\u00e3o a gente n\u00e3o\u00a0tinha dados. Como dizer ent\u00e3o que os casos est\u00e3o aumentando?\u00a0Acho que isso d\u00e1 o tom para entender um pouco o que est\u00e1 por tr\u00e1s desse alarme todo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_107952\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-107952\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www5.usp.br\/wp-content\/uploads\/portal20160418_6.jpg?resize=640%2C264\" alt=\"Ma\u00e7\u00e3s com agrot\u00f3xico e depois de lavadas | Foto: Pedro Bolle \/ USP Imagens\" width=\"640\" height=\"264\" data-id=\"107952\" \/><\/figure>\n<figure class=\"wp-caption alignnone\"><em>Ma\u00e7\u00e3s com agrot\u00f3xico e depois de lavadas<\/em><\/figure>\n<p><b>Por que ainda n\u00e3o proibimos agrot\u00f3xicos que j\u00e1 foram proibidos em outros pa\u00edses, como os da Uni\u00e3o Europeia?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><strong>LB:<\/strong> Primeiramente, o lastro de n\u00e3o proibir \u00e9 essa import\u00e2ncia tremenda que a exporta\u00e7\u00e3o das <em>commodities<\/em> tem na economia brasileira. Politicamente, isso \u00e9 representado na bancada ruralista, do ponto de vista do Legislativo. Do ponto de vista do Executivo, temos uma ministra que \u00e9 representante desse setor.\u00a0A chamada Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria soma mais da metade do numero total de deputados. Ent\u00e3o \u00e9 uma dificuldade\u00a0muito grande. Uma coisa ruim da nossa <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/L7802.htm\" target=\"_blank\">lei de agrot\u00f3xicos<\/a>\u00a0\u00e9 que nossos registros s\u00e3o por tempo indeterminado,\u00a0o registro \u00e9 <em>ad eternum,<\/em>\u00a0n\u00e3o caduca. O\u00a0ingrediente ativo pode vir a ser reavaliado, mas num processo movido pela sociedade civil ou pela comunidade\u00a0cient\u00edfica nacional, mas n\u00e3o h\u00e1 uma reavalia\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. Na Uni\u00e3o Europeia h\u00e1. Eles est\u00e3o neste momento \u00e0s v\u00e9speras de votar a continuidade ou n\u00e3o do uso do glifosato, o\u00a0herbicida mais vendido no Brasil. Grande parte dos cultivos transg\u00eanicos \u00e9 resistente ao glifosato, ent\u00e3o h\u00e1 uma venda casada da semente transg\u00eanica com esse agrot\u00f3xico. No ano passado a\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade\u00a0<a href=\"https:\/\/www.iarc.fr\/en\/media-centre\/iarcnews\/pdf\/MonographVolume112.pdf\" target=\"_blank\">lan\u00e7ou uma nota<\/a> dizendo que o glifosato \u00e9 potencialmente carcinog\u00eanico.<\/p>\n<p>Um exemplo muito claro de agrot\u00f3xico banido na Uni\u00e3o Europeia e permitido aqui \u00e9 o acefato, o quinto ingrediente ativo mais vendido no brasil. Apesar de todas as indica\u00e7\u00f5es da\u00a0Anvisa\u00a0de que ele \u00e9 neurot\u00f3xico, que pode ter efeitos sobre o sistema end\u00f3crino etc, continua sendo permitido. Outro exemplo \u00e9 o paraquat. Acabou de ser feito o processo de avalia\u00e7\u00e3o, a Anvisa reconhece todo o perigo dele, mas continua permitido. Na China que \u00e9 super permissiva do ponto de vista ambiental ele j\u00e1 \u00e9 proibido e aqui n\u00e3o.\u00a0Ent\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, relacionada \u00e0 press\u00e3o da bancada ruralista e das empresas de agrot\u00f3xicos como dos pr\u00f3prios empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio, que querem garantir a continuidade desse modelo.<\/p>\n<p><b>Existe uma movimenta\u00e7\u00e3o no Brasil para proibir a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, que tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 proibida na Uni\u00e3o Europeia?<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>Tem a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.contraosagrotoxicos.org\/index.php\" target=\"_blank\">Campanha Contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida<\/a>, uma campanha nacional da sociedade civil que tem como uma das metas principais\u00a0o fim\u00a0da pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. Acho a pauta at\u00e9 t\u00edmida. A pr\u00f3pria Anvisa, em todas\u00a0as\u00a0avalia\u00e7\u00f5es que faz dos ingredientes ativos, mostra o aumento da quantidade de mortes por c\u00e2ncer no Brasil. Ela reconhece que o avan\u00e7o na utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos\u00a0est\u00e1\u00a0relacionado\u00a0a isso. A pauta dessa campanha \u00e9 banir os banidos, que o que est\u00e1 proibido l\u00e1 seja proibido aqui, quer eliminar a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. Essa pauta ainda \u00e9 t\u00edmida\u00a0e mesmo assim sofre uma tremenda resist\u00eancia. O ideal seria uma agricultura sem agrot\u00f3xicos. \u00c9 uma quest\u00e3o ambiental para a humanidade. N\u00e3o estamos\u00a0nem engatinhando nisso ainda.<\/p>\n<blockquote><p>O ideal seria uma agricultura sem agrot\u00f3xicos.\u00a0\u00c9 uma quest\u00e3o ambiental para a humanidade<\/p><\/blockquote>\n<p><b>H\u00e1 um <a href=\"http:\/\/www.camara.gov.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=1996620\" target=\"_blank\">Projeto de Lei<\/a> em tramita\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados que\u00a0centraliza no Minist\u00e9rio da Agricultura a avalia\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos. Qual sua vis\u00e3o sobre a proposta?<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>Os ganhos que temos no sentido de controlar ou banir os agrot\u00f3xicos t\u00eam a ver com uma postura que coloca em primeiro lugar a sa\u00fade p\u00fablica, a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o e ambiental. E isso, do ponto de vista pol\u00edtico, est\u00e1 representado no Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e, sobretudo, no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.\u00a0O MAPA [<em>Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento<\/em>] est\u00e1 diretamente preocupado com a quest\u00e3o dos ganhos econ\u00f4micos, a quest\u00e3o da sa\u00fade publica \u00e9 secund\u00e1ria. Esse projeto do Covatti Filho j\u00e1 come\u00e7a com os termos\u00a0utilizados. Nossa lei de agrot\u00f3xicos\u00a0reconhece o potencial venenoso desses produtos, por isso se chamam agrot\u00f3xicos, a lei usa essa palavra. Esse Projeto de Lei fala em defensivos fitossanit\u00e1rios, uma\u00a0express\u00e3o eufem\u00edstica que esconde o car\u00e1ter perigoso por tr\u00e1s desses produtos. T\u00e3o perigoso que h\u00e1 o simbolo da caveira, o s\u00edmbolo de veneno em todo r\u00f3tulo. O retrocesso que esse\u00a0projeto representa se for aprovado come\u00e7a por a\u00ed. Tem outras\u00a0quest\u00f5es fundamentais a respeito desse PL. A\u00a0cria\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o vinculada s\u00f3 ao MAPA, ainda que tenham cadeiras para representantes da sa\u00fade, do meio ambiente, n\u00e3o \u00e9 tripartite como \u00e9 hoje. Outro aspecto que\u00a0merece ser comentado \u00e9 que se poder\u00e1 obter a receita do agrot\u00f3xico antes mesmo de haver praga, como se a gente pudesse ter a receita do antibi\u00f3tico antes mesmo de ter uma infec\u00e7\u00e3o. Essa compara\u00e7\u00e3o nem \u00e9 t\u00e3o feliz porque agrot\u00f3xico \u00e9 veneno, n\u00e3o rem\u00e9dio. E al\u00e9m disso, o projeto utiliza a express\u00e3o \u201crisco inaceit\u00e1vel\u201d para decidir pela proibi\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos, uma express\u00e3o que fragiliza a pot\u00eancia que o texto atual tem.<\/p>\n<figure id=\"attachment_107950\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-107950\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www5.usp.br\/wp-content\/uploads\/portal20160418_5.jpg?resize=640%2C264\" alt=\"Foto: Pedro Bolle \/ USP Imagens\" width=\"640\" height=\"264\" data-id=\"107950\" \/><\/figure>\n<p><b>Mesmo hoje com os Minist\u00e9rios da Sa\u00fade e do Meio Ambiente na regula\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil proibir agrot\u00f3xicos?<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>\u00c9 um poder tremendo. H\u00e1 persegui\u00e7\u00e3o a dirigentes da Anvisa que se colocam contra. N\u00e3o \u00e9 simples. O poder econ\u00f4mico \u00e9 tremendo, h\u00e1 uma press\u00e3o direta, amea\u00e7as.<\/p>\n<p><b>Qual a\u00a0rela\u00e7\u00e3o entre transg\u00eanicos e o uso de agrot\u00f3xicos?<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>Quando se tem uma agricultura org\u00e2nica, biodin\u00e2mica, agroecol\u00f3gica, essas formas de agricultura sem agroqu\u00edmicos,\u00a0h\u00e1 um manejo muito manual. Voc\u00ea consorcia v\u00e1rias culturas, que \u00e9 como na natureza, onde n\u00e3o h\u00e1\u00a0homogeneidade no cultivo, sobretudo nos ambientes tropicais. O manejo \u00e9 f\u00edsico, \u00e9 atrav\u00e9s\u00a0da capina, um manejo em que n\u00e3o se usa algo que elimine quimicamente uma determinada esp\u00e9cie. H\u00e1 trabalho f\u00edsico, ou mesmo trabalho com maquin\u00e1rio, mas trabalho. J\u00e1 quando eu tenho uma monocultura, um cultivo de soja, por exemplo, onde nasceria a soja nasceriam tamb\u00e9m outros vegetais, espontaneamente, porque o vento traz sementes etc. Se voc\u00ea\u00a0pulveriza com agrot\u00f3xicos que matam tudo em volta e s\u00f3 resiste a soja isso\u00a0demanda muito menos trabalho, \u00e9 uma agricultura mais barata. Embora n\u00e3o seja desprez\u00edvel o valor do veneno, em larga escala vale a pena, porque demanda muito menos m\u00e3o de obra. Nesse pacote j\u00e1 se vende a semente tal da empresa tal e com ela j\u00e1 vende o glifosato dessa empresa. A semente da soja j\u00e1 \u00e9 resistente a esse veneno, o\u00a0resto todo morre.<\/p>\n<p>A ideia de que os transg\u00eanicos demandariam menos agrot\u00f3xicos na pr\u00e1tica n\u00e3o acontece. Pode usar menos de outros tipos, mas o herbicida \u00e9 muit\u00edssimo utilizado, inclusive aumentou o uso. De 2000 a 2010 aumentou mais de 155% a quantidade de agrot\u00f3xicos por hectare no Brasil. Isso tamb\u00e9m vem na esteira desse aumento\u00a0muito grande dos cultivos de soja, cana. Se formos falar por cultivo, a soja sozinha responde por quase metade de todo agrot\u00f3xico comercializado no Brasil. O milho em segundo lugar, cana em terceiro.<\/p>\n<p><b><\/b><b>Qual a rela\u00e7\u00e3o entre o uso massivo de agrot\u00f3xicos e a\u00a0estrutura fundi\u00e1ria do pa\u00eds?<\/b><\/p>\n<p><b>LB: <\/b>Essa \u00e9 uma pergunta fundamental. O Brasil tem uma das estruturas fundi\u00e1rias mais concentradas do planeta. Nos \u00faltimos anos, ao inv\u00e9s do Brasil ter feito um pacto no sentido da reforma agr\u00e1ria, da soberania alimentar, a gente caminhou num outro sentido. O n\u00famero de assentamentos diminuiu muit\u00edssimo, e avan\u00e7ou o agroneg\u00f3cio. O\u00a0que est\u00e1 por tr\u00e1s desse uso massivo de agrot\u00f3xicos no Brasil s\u00e3o esses cultivos vinculado\u00a0ao\u00a0agroneg\u00f3cio. \u00c9 muito mais f\u00e1cil os insetos enveredarem numa monocultura do que numa agricultura toda consorciada, com variedade de alimentos. Ent\u00e3o vai ser usado mesmo, \u00e9 praticamente inevit\u00e1vel que a monocultura utilize agrot\u00f3xicos, \u00e9 quase imposs\u00edvel produzir em larga escala sem agrot\u00f3xicos, por causa dessa homogeneidade tremenda. Os pequenos agricultores usam tamb\u00e9m? Uma parte sim, mas n\u00e3o \u00e9 isso que explica esse volume imenso. Ele est\u00e1 vinculado a esse modelo agr\u00e1rio. A\u00a0concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, a destina\u00e7\u00e3o\u00a0de grande parte da nossa terra para o agroneg\u00f3cio \u00e9 o que explica essa tremenda utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. Se tiv\u00e9ssemos\u00a0seguido no caminho da reforma agr\u00e1ria,\u00a0no sentido da agroecologia, da soberania alimentar, ter\u00edamos uma outra op\u00e7\u00e3o de inser\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"UecK9F4uBm\"><p><a href=\"https:\/\/www5.usp.br\/noticias\/sociedade\/agrotoxicos-terra-e-dinheiro-a-discussao-que-vem-antes-da-prateleira\/\">Agrot\u00f3xicos, terra e dinheiro: a discuss\u00e3o que vem antes da prateleira<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Agrot\u00f3xicos, terra e dinheiro: a discuss\u00e3o que vem antes da prateleira&#8221; &#8212; USP - Universidade de S\u00e3o Paulo\" src=\"https:\/\/www5.usp.br\/noticias\/sociedade\/agrotoxicos-terra-e-dinheiro-a-discussao-que-vem-antes-da-prateleira\/embed\/#?secret=ND0HE2kvZx#?secret=UecK9F4uBm\" data-secret=\"UecK9F4uBm\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aline Naoe\u00a0&#8211;\u00a0A ge\u00f3grafa Larissa Mies Bombardi fala sobre a legisla\u00e7\u00e3o que regula estes produtos no Brasil e defende uma agricultura sem agrot\u00f3xicos O Brasil ocupa o primeiro lugar na lista de pa\u00edses que mais consomem agrot\u00f3xicos. 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