{"id":10071,"date":"2019-01-30T22:57:09","date_gmt":"2019-01-31T00:57:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10071"},"modified":"2019-01-30T22:57:09","modified_gmt":"2019-01-31T00:57:09","slug":"eua-sacramentaram-opcao-por-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/01\/30\/eua-sacramentaram-opcao-por-bolsonaro\/","title":{"rendered":"EUA sacramentaram op\u00e7\u00e3o por Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eleonora de Lucena<\/strong> &#8211; Elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 &#8221;opera\u00e7\u00e3o complexa, envolvendo v\u00e1rios atores externos, com o objetivo fundamental de interromper a s\u00e9rie de governos petistas do pa\u00eds&#8221;, diz o cientista pol\u00edtico Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori<\/p>\n<p>Para o cientista pol\u00edtico<b>\u00a0JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI<\/b>, a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro \u00e9 resultado de uma \u201copera\u00e7\u00e3o complexa, envolvendo v\u00e1rios atores externos, com o objetivo fundamental de interromper a s\u00e9rie de governos petistas do pa\u00eds\u201d, uma ofensiva iniciada em 2012\/2013 e que sofreu mudan\u00e7as com a derrota de Hillary Clinton em 2016.<\/p>\n<p>No estilo Trump\/Bolton\/Mattis, Temer foi engavetado, e o ex-presidente Lula passou a ter confinamento militar. \u201cTudo indica que foi s\u00f3 depois da fragmenta\u00e7\u00e3o definitiva das for\u00e7as conservadoras tradicionais que se imp\u00f4s um acordo do comando das For\u00e7as Armadas brasileiras com o sr. Bolsonaro, provavelmente no dia 7 de junho de 2018, um m\u00eas antes de ser sacramentada \u2013com toda certeza\u2013 durante a visita do secret\u00e1rio de Defesa norte-americano, James Mattis, entre os dias 10 e 14 de agosto\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 o que afirma o professor de economia pol\u00edtica internacional da UFRJ, em entrevista ao\u00a0<b>TUTAM\u00c9IA<\/b>. Na avalia\u00e7\u00e3o de Fiori, o governo teol\u00f3gico-militar n\u00e3o representa a solu\u00e7\u00e3o para a crise que atravessa o Brasil. Traz um projeto econ\u00f4mico velho e ultrapassado, que acumula 70 anos de fracassos pelo mundo. E muitos de seus integrantes parecem ter tido \u201cforma\u00e7\u00e3o intelectual quase inteiramente limitada \u00e0 conviv\u00eancia nos templos, nas academias de gin\u00e1stica, e nos churrascos de amigos\u201d.<\/p>\n<p>Ele aponta que \u201cn\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que esta experi\u00eancia brasileira possa provocar um efeito inverso, como j\u00e1 aconteceu na hist\u00f3ria, quando a exaspera\u00e7\u00e3o de uma ideia at\u00e9 o limite da caricatura acaba provocando uma rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, que pode ser, neste caso, das pr\u00f3prias elites que apoiaram este projeto em troca de algumas patacas imediatas, e que depois se d\u00e3o conta das consequ\u00eancias de longo prazo de sua irresponsabilidade hist\u00f3rica\u201d.<\/p>\n<p>Autor, entre outros, de \u201cO Poder Global\u201d (Boitempo, 2007), Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori organizou obras ess\u00eancias para a reflex\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo como \u201cPoder e Dinheiro\u201d (com Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares, 1997) e \u201cO Poder Americano\u201d (Vozes, 2204). Acaba de lan\u00e7ar pela Vozes \u201cSobre a Guerra\u201d, uma colet\u00e2nea de textos de pesquisadores sobre geopol\u00edtica, \u00e9tica, economia e hist\u00f3ria (detalhe da capa do livro ilustra a abertura deste texto).<\/p>\n<p>Ao\u00a0<b>TUTAM\u00c9IA<\/b>, o soci\u00f3logo e cientista pol\u00edtico discorre sobre as mudan\u00e7as radicais na pol\u00edtica externa norte-americano e no tabuleiro de poder onde se destacam China e R\u00fassia. E trata da \u201cguerra ilimitada\u201d \u2013o novo formato de conflito no cen\u00e1rio global, que tamb\u00e9m afeta o Brasil.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2013 Como ser\u00e3o as guerras neste s\u00e9culo 21?<\/b><\/p>\n<p><b>JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI \u2013<\/b>\u00a0Todas as evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas indicam que a guerra, como forma organizada e violenta de solu\u00e7\u00e3o dos conflitos entre os povos, pela imposi\u00e7\u00e3o da vontade de uns sobre os outros, acompanha o\u00a0<i>Homo<\/i>\u00a0<i>sapiens<\/i>\u00a0desde as primeiras civiliza\u00e7\u00f5es e imp\u00e9rios. E n\u00e3o h\u00e1 nenhuma prova consistente de que elas tenham diminu\u00eddo em quantidade ou viol\u00eancia, atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. Pelo contr\u00e1rio, os n\u00fameros indicam que sua intensidade e frequ\u00eancia se mantiveram constantes, e parecem ter aumentado significativamente depois do surgimento do sistema interestatal europeu, em torno dos s\u00e9culos 15 e 16 da era comum. Um fen\u00f4meno que adquiriu ainda maior intensidade depois que a guerra tamb\u00e9m se transformou numa pe\u00e7a central da acumula\u00e7\u00e3o da riqueza capitalista dentro desse sistema e de cada um de seus Estados e economias nacionais. Em particular, no caso das grandes pot\u00eancias que lideraram este sistema de poder europeu, at\u00e9 sua completa universaliza\u00e7\u00e3o, no final do s\u00e9culo 20. Deste ponto de vista, por mais lament\u00e1vel que seja, deve-se prever, de forma realista, que as guerras seguir\u00e3o existindo no s\u00e9culo 21. Mas \u00e9 poss\u00edvel que os Estados mais poderosos se utilizem com mais frequ\u00eancia de instrumentos de guerra econ\u00f4mica, cada vez mais sofisticada, precisa e destruidora, antes de lan\u00e7ar m\u00e3o da guerra cl\u00e1ssica. Onde se fizer inevit\u00e1vel, entretanto, ela dever\u00e1 fazer uso de ex\u00e9rcitos e de armamentos cada vez mais robotizados, hipers\u00f4nicos, qu\u00e2nticos e espaciais. Por isso, se ocorrerem, dever\u00e3o ser multidimensionais, multiespaciais e absolutas.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2013 Alguns analistas falam na volta da Guerra Fria e de uma Terceira Guerra Mundial. Faz sentido pensar nesses termos?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2013<\/b>\u00a0\u00c9 comum a utiliza\u00e7\u00e3o de express\u00f5es antigas, para dar conta de problemas e perplexidades que s\u00e3o novos. O problema \u00e9 que essas express\u00f5es antigas costumam esconder aquilo que mais se quer conhecer, ou seja, o novo, o imprevisto, o desconhecido, que os homens v\u00e3o criando, num caminho aberto e sem nenhum prop\u00f3sito ou teleologia conhecida. A Guerra Fria foi uma competi\u00e7\u00e3o bipolar, ideol\u00f3gica, geopol\u00edtica e econ\u00f4mica, de alcance global, entre duas superpot\u00eancias at\u00f4micas que defendiam e propagavam dois modelos socioecon\u00f4micos e duas vis\u00f5es do mundo opostas e excludentes. Diferentemente disto, a configura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica do mundo atual apresenta pelo menos seis caracter\u00edsticas que s\u00e3o muito diferentes daquele per\u00edodo do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2013 Quais s\u00e3o as diferen\u00e7as?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2013<\/b>\u00a0Em primeiro lugar, \u00e9 preciso lembrar que, no final da Segunda Guerra Mundial, a carta de cria\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas foi assinada por cerca de 60 Estados nacionais independentes. Mas, durante o per\u00edodo da Guerra Fria, entre 1946 e 1991, o sistema internacional expandiu-se aceleradamente, e hoje, na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, existem cerca de 200 Estados nacionais independentes em todo o mundo, n\u00e3o importa qual seja seu grau de soberania relativa. Nesta expans\u00e3o, cabe destacar o caso da China, que transformou sua civiliza\u00e7\u00e3o e seu imp\u00e9rio milenar num Estado nacional e numa economia capitalista, integrando-se plenamente no sistema interestatal capitalista criado pelos europeus, sobretudo depois do fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>A segunda diferen\u00e7a: durante boa parte do per\u00edodo da Guerra Fria at\u00e9 os anos 1970, pelo menos, a China se manteve relativamente \u00e0 parte do eixo central do conflito. Agora ela \u00e9 a segunda maior pot\u00eancia econ\u00f4mica do mundo, j\u00e1 amea\u00e7a a lideran\u00e7a tecnol\u00f3gico-militar norte-americana e \u00e9 considerada a principal advers\u00e1ria dos EUA. Mas, ao contr\u00e1rio da URSS no passado, a China contempor\u00e2nea n\u00e3o se prop\u00f5e a difundir ideologias ou religi\u00f5es nem impor modelos de vida ou organiza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Terceira diferen\u00e7a: a R\u00fassia voltou a ser uma grande pot\u00eancia energ\u00e9tica e militar. Hoje disputa sua zona de influ\u00eancia imediata e o pr\u00f3prio Oriente M\u00e9dio, movida exclusivamente por seus interesses nacionais, sem fazer ou propor nenhum tipo de proselitismo ideol\u00f3gico ou religioso.<\/p>\n<p>Quarta diferen\u00e7a: os EUA abandonaram sua pol\u00edtica do p\u00f3s-Primeira Guerra Mundial de apoio e promo\u00e7\u00e3o ativa de valores, regras e institui\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a multilateral. Adotam agora, como b\u00fassola de sua pol\u00edtica externa, o modelo westfaliano de solu\u00e7\u00e3o dos conflitos internacionais atrav\u00e9s da competi\u00e7\u00e3o e do uso agressivo do poder econ\u00f4mico e da amea\u00e7a militar como instrumento de defesa dos seus interesses nacionais.<\/p>\n<p>Quinta diferen\u00e7a: nessa disputa geopol\u00edtica e geoecon\u00f4mica, ao contr\u00e1rio do per\u00edodo da Guerra Fria, os EUA e a China possuem uma profunda interdepend\u00eancia econ\u00f4mica. E a R\u00fassia disp\u00f5e hoje de uma capacidade tecnol\u00f3gica de resposta at\u00f4mica, caso seja atacada, superior \u00e0 dos EUA.<\/p>\n<p>Sexta diferen\u00e7a:\u00a0 essas tr\u00eas grandes pot\u00eancias que lideram a din\u00e2mica expansiva do sistema mundial na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21 est\u00e3o envolvidas numa luta sem quartel. Mas s\u00e3o orientadas pela mesma b\u00fassola comum do seu interesse nacional e do seu nacionalismo econ\u00f4mico. Ali\u00e1s, \u00e9 a mesma b\u00fassola usada por todos os Estados nacionais que algum dia se propuseram a subir na hierarquia do sistema mundial, ou que se viram desafiados e resolveram defender sua supremacia regional ou global.<\/p>\n<p>Nesse momento, R\u00fassia e China est\u00e3o aliadas em torno do objetivo de impedir a supremacia unipolar dos EUA ao redor do mundo. Depois que se intensificaram, nos \u00faltimos anos, as divis\u00f5es e a luta interna do\u00a0<i>establishment<\/i>\u00a0norte-americano, aumentou o poder pol\u00edtico e decis\u00f3rio dos militares sobre a pol\u00edtica externa dos EUA. Assim mesmo, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio nem prov\u00e1vel que a alian\u00e7a entre China e R\u00fassia dure para sempre. Pelo contr\u00e1rio, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o caleidosc\u00f3pio geopol\u00edtico e geoecon\u00f4mico do sistema internacional gire a partir de agora ao redor desse tri\u00e2ngulo, com configura\u00e7\u00f5es variadas, mas movido por uma mesma competi\u00e7\u00e3o aberta e sem limites que deve provocar um salto tecnol\u00f3gico e militar jamais vivido pela humanidade. Algo inteiramente diferente do que foi a Guerra Fria.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2013 A crise capitalista iniciada em 2008 provoca desdobramentos pol\u00edticos: insatisfa\u00e7\u00f5es crescentes, migra\u00e7\u00f5es, ret\u00f3ricas nacionalistas e a ascens\u00e3o da extrema-direita. \u00c9 poss\u00edvel pensar em um cen\u00e1rio de cont\u00ednua desagrega\u00e7\u00e3o que leve a um aumento nos conflitos pelo mundo?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2013<\/b>\u00a0Do ponto de vista estritamente geopol\u00edtico e geoecon\u00f4mico, a crise de 2008 foi de fato o ponto de partida de algumas mudan\u00e7as fundamentais no cen\u00e1rio internacional. Eu destacaria pelo menos quatro, entre muitas outras:<\/p>\n<p>1.O in\u00edcio de uma escalada do conflito de que est\u00e1vamos falando, entre R\u00fassia, China e EUA, em particular depois da posse dos presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping, em 2012 e 2013, e ainda mais, depois da posse de Donald Trump, em janeiro de 2017. Foi exatamente nesse momento que os EUA decidiram abandonar todo o sistema de regras e institui\u00e7\u00f5es criadas a partir da Segunda Guerra Mundial \u2013por iniciativa ou com o apoio decisivo dos EUA\u2013 com o objetivo de regular e arbitrar os conflitos internacionais. Nesse novo contexto, a guerra ou a amea\u00e7a da guerra volta ser o grande instrumento de resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos entre os Estados.<\/p>\n<p>2. Por outro lado, a integra\u00e7\u00e3o dos mercados e o controle financeiro global criado pelos EUA, a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, e a partir das reformas e regras criadas depois da crise financeira de 2008, provocaram uma concentra\u00e7\u00e3o gigantesca do poder banc\u00e1rio e financeiro \u2013dentro e fora dos EUA\u2013 nas m\u00e3os do Fed, o banco central americano.<\/p>\n<p>3. Mesmo que n\u00e3o tenha sido esse o objetivo imediato e expl\u00edcito das novas regras, elas centralizaram no Fed o controle das opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias do chamado\u00a0<i>money market<\/i>, no qual todo o sistema de cr\u00e9dito e sua vasta rede de pagamentos s\u00e3o testados e resolvidos diariamente, envolvendo todos os recursos mundiais que circulam pelo mercado norte-americano e que estavam sob controle dos bancos privados antes da crise de 2018.<\/p>\n<p>Ou seja, o tempo dos mercados que se autorregulavam ficou para tr\u00e1s, substitu\u00eddo pela atua\u00e7\u00e3o direta e planejada do Fed, que esvaziou at\u00e9 o poder dos bancos europeus e de seu sistema de pagamentos interno, incluindo o Banco da Inglaterra. Com isto, os EUA monopolizaram uma verdadeira arma de guerra, de enorme precis\u00e3o e capaz de atingir pessoas, institui\u00e7\u00f5es e Estados, indiferentemente, at\u00e9 sua rendi\u00e7\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 esta arma que tem sido utilizada nos \u00faltimos anos contra todos os pa\u00edses que se transformam em alvo da hostilidade norte-americana, como no caso do Ir\u00e3, ou mesmo da R\u00fassia.<\/p>\n<p>4. No entanto, o uso do seu poder financeiro, pelos norte-americanos, tem estimulado e apressado a constru\u00e7\u00e3o progressiva, por parte dos concorrentes, de mercados de moedas e circuitos financeiros paralelos. Mercados e circuitos que ainda s\u00e3o muito fr\u00e1geis, mas que apontam de forma expl\u00edcita para a constitui\u00e7\u00e3o de um sistema monet\u00e1rio internacional paralelo ao do d\u00f3lar, que hoje \u00e9 controlado pelos EUA.<\/p>\n<p>Isto ser\u00e1 poss\u00edvel? Algu\u00e9m j\u00e1 disse que uma superpot\u00eancia pode ceder em quase tudo, menos no controle da moeda de refer\u00eancia internacional. Mas, nesse novo contexto mundial, \u00e9 muito dif\u00edcil prever, sobretudo por conta do poder econ\u00f4mico e da gigantesca paci\u00eancia diplom\u00e1tica dos chineses.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2013 Muito se fala da \u201cguerra\u201d comercial entre EUA e China. Quais devem ser seus desdobramentos? A China \u00e9 hoje o principal inimigo dos EUA? O embate pode extrapolar a esfera comercial?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2013<\/b>\u00a0As guerras comerciais s\u00e3o um fen\u00f4meno muito antigo. Mas tamb\u00e9m neste caso o uso de uma express\u00e3o milenar esconde o que h\u00e1 de novo na situa\u00e7\u00e3o atual. Na verdade, a China \u00e9 hoje o principal concorrente econ\u00f4mico dos EUA, mas sua disputa n\u00e3o \u00e9 apenas comercial, \u00e9 uma disputa pelo controle da \u201cponta tecnol\u00f3gica\u201d, sobretudo onde ela afeta de forma imediata o avan\u00e7o militar, no campo da intelig\u00eancia artificial, da computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica e da comunica\u00e7\u00e3o. Esta competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 no campo do com\u00e9rcio, mas no campo dos grandes acordos de investimento e na montagem das cadeias produtivas envolvendo empresas de alta tecnologia e de m\u00faltipla nacionalidade. E se d\u00e1 tamb\u00e9m no campo estrito da espionagem industrial, tecnol\u00f3gica e militar, e na guerra cada vez mais intensa que vem sendo travada pelo controle das redes de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A disputa mais vis\u00edvel pelas tarifas e pelo acesso aos mercados nacionais da China e dos EUA pode diminuir de intensidade atrav\u00e9s de acordos passageiros, mas n\u00e3o existe a menor perspectiva de que os dois pa\u00edses e outros mais envolvidos nessa \u201cguerra tecnol\u00f3gica\u201d possam chegar a algum tipo de acordo definitivo. As tr\u00e9guas passageiras n\u00e3o eliminam a competi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em pleno curso, e aqui reside talvez o maior perigo de um conflito armado entre a China e os EUA, caso estes \u2013que ainda est\u00e3o na frente\u2013 decidam em algum momento cortar o caminho dos chineses provocando um enfrentamento antes de serem ultrapassados pela China, o que dever\u00e1 acontecer em alguns campos cruciais, num per\u00edodo m\u00e1ximo de 10 a 15 anos.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 No terreno militar, a R\u00fassia voltou a ter peso no mundo. Como avaliar a continua\u00e7\u00e3o desse movimento e as rea\u00e7\u00f5es de EUA e China?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0Hans Morgenthau, pai da teoria pol\u00edtica realista americana, escreveu, logo depois da Segunda Guerra Mundial, que a principal causa das guerras era a vontade de revanche das pot\u00eancias derrotadas e decididas a recuperar sua posi\u00e7\u00e3o ou territ\u00f3rio perdido na guerra. Depois de 1991, a R\u00fassia perdeu cerca de 5 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados do seu territ\u00f3rio, e cerca de 150 milh\u00f5es de habitantes, e esta talvez seja uma das causas que explicam a rapidez com que os russos se recuperaram de sua derrota na Guerra Fria, refizeram sua infraestrutura militar e at\u00f4mica, recuperaram seu lugar como megapot\u00eancia energ\u00e9tica e voltaram a ser uma grande pot\u00eancia militar dentro do sistema mundial em apenas 15 anos.<\/p>\n<p>Hoje, al\u00e9m do mais, a R\u00fassia j\u00e1 ultrapassou os EUA no campo da disputa hipers\u00f4nica, e por isso \u00e9 a \u00fanica pot\u00eancia do mundo capaz responder a um ataque militar dos EUA ou da OTAN em poucos minutos e de forma arrasadora. Sua fragilidade, entretanto, reside na sua economia, que n\u00e3o seria capaz neste momento de sustentar uma guerra prolongada contra os norte-americanos. Mas o mais prov\u00e1vel \u00e9 que a R\u00fassia acabe alavancando seu desenvolvimento econ\u00f4mico a partir do seu pr\u00f3prio potencial energ\u00e9tico e de sua luta para manter sua vantagem tecnol\u00f3gica alcan\u00e7ada em alguns campos de sua defesa militar.<\/p>\n<p>Neste momento, a R\u00fassia compartilha com a China v\u00e1rias inciativas econ\u00f4micas e geopol\u00edticas, e n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que os EUA consigam repetir a mesma estrat\u00e9gia \u2013s\u00f3 que invertida\u2013 que seguiram na d\u00e9cada de 1970, aprofundando as diverg\u00eancias entre os dois pa\u00edses e isolando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica at\u00e9 o limite de sua dissolu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que agora para isolar a pr\u00f3pria China que lhes foi extremamente \u00fatil no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 Uma das consequ\u00eancias do golpe no Brasil pode vir a ser o esvaziamento dos Brics. Como China, R\u00fassia, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul reagir\u00e3o a esse novo desenho?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0Num primeiro momento, com surpresa, evidentemente, diante de tamanha cegueira ideol\u00f3gica e econ\u00f4mica dos brasileiros. Mas de fato, para eles, isto afeta muito pouco suas economias nacionais. Quem sai perdendo neste assunto \u00e9 o Brasil, e s\u00f3 o Brasil.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.paste.pics\/fbb6a22c8a2bf17a688d6d54e5681e14.png?w=640&#038;ssl=1\"  \/><em>Pintura \u201cA Rendi\u00e7\u00e3o de Breda ou As Lan\u00e7as\u201d, de Velazquez (1635), \u00e9 usada na capa do livro organizado por Fiori<\/em><\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 No livro, o sr. fala em \u201cguerra ilimitada\u201d: \u201cum tipo de guerra que n\u00e3o envolve necessariamente bombardeios, nem o uso expl\u00edcito da for\u00e7a, porque seu objetivo principal \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o da vontade pol\u00edtica do advers\u00e1rio atrav\u00e9s do colapso f\u00edsico e moral do seu Estado, da sua sociedade e de qualquer grupo humano que se queira destruir. Um tipo de guerra no qual se usa a informa\u00e7\u00e3o mais do que a for\u00e7a, o cerco e as san\u00e7\u00f5es mais do que o ataque direto, a desmobiliza\u00e7\u00e3o mais do que as armas, a desmoraliza\u00e7\u00e3o mais do que a tortura\u201d. Lendo esse trecho, pensei no Brasil dos \u00faltimos tempos. \u00c9 poss\u00edvel dizer que o Brasil \u00e9 agora alvo dessa \u201cguerra ilimitada\u201d? Por qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014\u00a0<\/b>Olhando retrospectivamente, talvez se possa considerar o caso da implos\u00e3o da URSS, nas d\u00e9cadas de 1980\/90, como um caso pioneiro da nova fase de desenvolvimento desse tipo de guerra. Mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que este conceito e estrat\u00e9gia foram sendo aperfei\u00e7oados nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como uma forma de ataque e fragiliza\u00e7\u00e3o por dentro dos pa\u00edses advers\u00e1rios, sobretudo quando o objetivo \u00e9 a mudan\u00e7a de governos e regimes considerados indesej\u00e1veis. Foi assim na Europa Central e nos pa\u00edses \u00e1rabes, e em alguns casos da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Do ponto de vista dos EUA e de alguns pa\u00edses europeus, a Ucr\u00e2nia foi sem d\u00favida o caso mais bem-sucedido de guerra h\u00edbrida que logrou mudar um governo que era aliado da R\u00fassia e que se transformou no seu principal inimigo dentro da Europa central; enquanto que a S\u00edria, do ponto de vista desses mesmos pa\u00edses, talvez seja seu maior fracasso.<\/p>\n<p>Na verdade, hoje a S\u00edria j\u00e1 se transformou no caso paradigm\u00e1tico de uma tentativa fracassada de mudan\u00e7a de regime e de governo que come\u00e7ou em 2011, durante a chamada \u201cprimavera \u00e1rabe\u201d, e logo se transformou numa guerra h\u00edbrida e numa guerra civil que desembocou, finalmente, numa guerra internacional, com v\u00e1rias pot\u00eancias externas utilizando-se de for\u00e7as e grupos \u00e9tnicos e religiosos locais, uns contra os outros sem que estes pa\u00edses tenham conseguido mudar o regime ou governo da S\u00edria. Neste sentido, ali\u00e1s, a S\u00edria tamb\u00e9m se transformou no caso paradigm\u00e1tico de um governo que resistiu e venceu a luta contra a interven\u00e7\u00e3o externa, independente do ju\u00edzo que se fa\u00e7a sobre este governo. Mas isto ao custo da destrui\u00e7\u00e3o quase total do pa\u00eds, meio milh\u00e3o de mortos, um e meio milh\u00e3o de feridos e 5 milh\u00f5es de refugiados.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 O sr. acha que foi isto que tamb\u00e9m aconteceu no Brasil, come\u00e7ando pelas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0Acho que qualquer analista internacional mais ou menos objetivo dir\u00e1 que sim, que foi isto que aconteceu tamb\u00e9m no Brasil na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, ainda que numa escala e numa intensidade muito inferior. Mas, assim mesmo, tudo indica que foi uma opera\u00e7\u00e3o complexa, envolvendo v\u00e1rios atores externos, com o objetivo fundamental de interromper a s\u00e9rie de governos petistas do pa\u00eds, mesmo que n\u00e3o tenha se proposto, desde o in\u00edcio, o final que veio a ter.<\/p>\n<p>A ofensiva come\u00e7ou em 2012\/2013, e sua aposta inicial foi na vit\u00f3ria eleitoral do sr. A\u00e9cio Neves, em 2014. Mas, logo depois da sua derrota, o projeto mudou de estrat\u00e9gia. Foi necess\u00e1rio improvisar um\u00a0<i>impeachment,<\/i>\u00a0que culminou na forma\u00e7\u00e3o de um governo inteiramente inepto e corrupto \u2014 o grande respons\u00e1vel pelo aniquilamento do sistema pol\u00edtico e do estado e pela destrui\u00e7\u00e3o \u00e9tica da sociedade brasileira. E n\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que esta debacle do governo Temer tenha sido acelerada pela derrota e a perda de apoio dos golpistas brasileiros, da parte do governo Obama, depois da derrota dos Clinton nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2016.<\/p>\n<p>Depois disso, a estrat\u00e9gia inicial foi redesenhada, no estilo Trump\/Bolton\/Mattis, com o engavetamento do sr. Temer e a pris\u00e3o e confinamento de tipo militar do ex-presidente Luiz In\u00e1cio da Silva. E, ainda assim, tudo indica que foi s\u00f3 depois da fragmenta\u00e7\u00e3o definitiva das for\u00e7as conservadoras tradicionais que se imp\u00f4s um acordo do comando das For\u00e7as Armadas brasileiras com o sr. Bolsonaro, provavelmente no dia 7 de junho de 2018, um m\u00eas antes de ser sacramentada \u2013com toda certeza\u2013 durante a visita do secret\u00e1rio de Defesa norte-americano, James Mattis, entre os dias 10 e 14 de agosto.<\/p>\n<p>O resto da hist\u00f3ria \u00e9 conhecido, ainda que muitas pessoas ainda se perguntem quem foi que organizou o famoso epis\u00f3dio da faca de Juiz de Fora, ocorrido no dia 6 de setembro de 2018. Uma pobre faca que conseguiu esconder durante dois meses, e at\u00e9 o fim da campanha eleitoral, um candidato a presidente da Rep\u00fablica adulto e com mais de sessenta anos, mas que, segundo seus m\u00e9dicos, n\u00e3o podia falar nem aparecer em p\u00fablico, para n\u00e3o se estressar. Algo impens\u00e1vel se n\u00e3o fosse pelo peso dos seus apoiadores, e pela complac\u00eancia quase carinhosa da imprensa brasileira.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 Isto posto, na sua opini\u00e3o, qual ser\u00e1 j\u00e1 agora, desta elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro para o Brasil e para o mundo?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0Esta elei\u00e7\u00e3o e este governo rec\u00e9m-instalado n\u00e3o representam o fim, nem muito menos a solu\u00e7\u00e3o da crise que o Brasil est\u00e1 atravessando. Pelo contr\u00e1rio, considero que a pantomima eleitoral e o governo teol\u00f3gico-militar que foi instalado no pa\u00eds fazem parte da pr\u00f3pria crise que dever\u00e1 durar muito, talvez uma d\u00e9cada ou duas, antes que o Brasil consiga finalmente construir e definir sua identidade, sua nova forma de conviv\u00eancia interna, e junto com isto, seus verdadeiros objetivos nacionais e soberanos, dentro do sistema internacional.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 E para o mundo?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0Pelo que leio e vejo, o que mais espanta as pessoas mundo afora n\u00e3o \u00e9 a verborragia e o direitismo raivoso dos novos governantes brasileiros, que n\u00e3o \u00e9 original e \u00e9 quase todo copiado de modelos externos. O que elas se perguntam \u00e9 como foi que um grupo t\u00e3o ex\u00f3tico e provinciano conseguiu chegar ao comando de um pa\u00eds t\u00e3o grande e t\u00e3o complexo, e com uma elite t\u00e3o ciosa do seu cosmopolitismo. At\u00e9 porque, de fato, \u00e0s vezes parece que muitos membros do novo governo tiveram sua forma\u00e7\u00e3o intelectual quase inteiramente limitada \u00e0 sua conviv\u00eancia nos templos, nas academias de gin\u00e1stica, e nos churrascos de amigos.<\/p>\n<p>Por isto, o que os analistas internacionais se perguntam \u00e9 como que estas pessoas conseguiram formar uma coaliz\u00e3o teol\u00f3gico-militar que foi capaz de ganhar uma elei\u00e7\u00e3o presidencial num pa\u00eds de 210 milh\u00f5es de habitantes, para depois se colocar a servi\u00e7o de um projeto econ\u00f4mico velho e ultrapassado, que j\u00e1 tem mais de 70 anos de fracassos comprovados e acumulados ao redor de todo o mundo. E que hoje est\u00e1 na contram\u00e3o de tudo o que est\u00e1 sendo feito na economia mundial. Inclusive nos EUA de Donald Trump, que \u00e9 considerado uma figura quase divina por alguns membros mais delirantes do novo governo. E o que \u00e9 mais extraordin\u00e1rio: tudo isto, com o apoio de alguns militares que ainda se consideram nacionalistas.<\/p>\n<p>Assim mesmo, por paradoxal que possa parecer, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que esta experi\u00eancia brasileira possa provocar um efeito inverso, pelo menos dentro do mundo euroc\u00eantrico, sobretudo por conta das dimens\u00f5es do Brasil. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que aconte\u00e7a aqui o que j\u00e1 aconteceu muitas vezes, atrav\u00e9s da hist\u00f3ria, quando a exaspera\u00e7\u00e3o de uma ideia at\u00e9 o limite da caricatura acaba provocando uma rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, que pode ser, neste caso, das pr\u00f3prias elites que apoiaram este projeto em troca de algumas patacas imediatas, e que depois se d\u00e3o conta das consequ\u00eancias de longo prazo de sua irresponsabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 Nesta hist\u00f3ria toda, qual o papel que o sr. atribui ao poder judici\u00e1rio brasileiro, e \u00e0 pr\u00f3pria pris\u00e3o de Lula?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0Meu tema de estudo, h\u00e1 muitos anos, \u00e9 o \u201cpoder\u201d, independentemente das institui\u00e7\u00f5es que o exercem ou deixam de exerc\u00ea-lo. E, deste ponto de vista, ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia pode acreditar que aqueles rapazes e mo\u00e7as de Curitiba fizeram o que fizeram, por si mesmos, sem estar sustentados por um poder superior ao deles, e externo ao pr\u00f3prio poder judici\u00e1rio. E tudo indica que esta mesma for\u00e7a que \u201cempoderou\u201d estes mo\u00e7os de prov\u00edncia, tenha sido aquela que acovardou os senhores da alta c\u00fapula do judici\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n<p>Isto ficou muito mais claro, \u00e9 \u00f3bvio, no caso do julgamento e pris\u00e3o do ex-presidente Lula, at\u00e9 porque o objetivo central de toda esta encena\u00e7\u00e3o, ou melhor, desta guerra de poder, foi exatamente a elimina\u00e7\u00e3o ou exclus\u00e3o da vida pol\u00edtica brasileira do l\u00edder petista. Por que? Por todas raz\u00f5es que j\u00e1 foram abundantemente listadas por quase toda a imprensa internacional, e que eu me permito n\u00e3o repetir aqui. Mas, em particular, porque as for\u00e7as que sustentaram o capit\u00e3o, na fase final da sua campanha, sabiam que seria imposs\u00edvel eleg\u00ea-lo, se Lula estivesse livre. E agora, estas mesmas for\u00e7as temem que o sr. Bolsonaro n\u00e3o consiga manter a compostura e interpretar o papel de governante, caso o ex-presidente apare\u00e7a na sua frente livre, e de volta \u00e0 lideran\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2013 O sr. avalia que o Brasil poder\u00e1 ser instrumento dos EUA para intervir na Venezuela?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0Tudo indica que esta seja uma boa raz\u00e3o para explicar o entusiasmo com que os EUA participaram, e seguem participando, dessa trama teol\u00f3gico-militar brasileira.<\/p>\n<p><b>TUTAM\u00c9IA \u2014 Num dos seus artigos do livro \u201cSobre a Guerra\u201d, o sr. fala da uni-polaridade mundial depois do fim da Guerra Fria e diz que os EUA sofrem hoje de uma \u201cs\u00edndrome de Babel\u201d, havendo decidido abdicar de sua \u201cuniversalidade moral\u201d, abandonando o velho projeto iluminista. O sr. pode explicar melhor essa ideia e suas implica\u00e7\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p><b>FIORI \u2014<\/b>\u00a0O \u201cmito de Babel\u201d conta a hist\u00f3ria dos homens que se multiplicam, depois do Dil\u00favio, unidos por uma mesma linguagem e um mesmo sistema de valores, propondo-se a conquistar o poder de Deus atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o da Torre. E conta como Deus reagiu ao desafio dos homens, dividindo-os e dispersando-os, dando a cada na\u00e7\u00e3o uma l\u00edngua e um sistema de valores diferentes, de forma que n\u00e3o pudessem mais se entender nem se fortalecer conjuntamente. Depois disso, na sequ\u00eancia da mesma narrativa hist\u00f3rico-mitol\u00f3gica, Deus abre m\u00e3o de sua \u201cuniversalidade\u201d e escolhe um \u00fanico povo em particular, como porta-voz de seus des\u00edgnios, como instrumento de sua vontade e realizador de suas guerras contra todos os povos que ele mesmo criou no momento em que decidiu dividir e dispersar a humanidade primitiva, em Babel.<\/p>\n<p>Pois bem, nossa hip\u00f3tese neste artigo do livro \u00e9 que o sistema mundial \u2013os EUA em particular\u2013 est\u00e1 vivendo e enfrentando a mesma \u201cs\u00edndrome\u201d na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21. Expliquemos melhor: a unidade b\u00e1sica de poder do sistema mundial no qual vivemos ainda segue sendo o \u201cEstado nacional\u201d, com suas fronteiras claramente delimitadas e soberania reconhecida pelos demais membros do sistema. Como dissemos anteriormente, esse \u201csistema interestatal\u201d se formou na Europa, mais ou menos entre 1450 e 1650, e desde seu \u201cnascimento\u201d se expandiu de forma cont\u00ednua, para dentro e para fora da pr\u00f3pria Europa, na forma de grandes \u201condas explosivas\u201d que ocorreram, concentradamente, nos s\u00e9culos 16 e 19, e na segunda metade do s\u00e9culo 20. Nesses per\u00edodos, o sistema estatal europeu conquistou e\/ou incorporou o territ\u00f3rio dos demais continentes, imp\u00e9rios e povos, que foram aos poucos adotando as regras de conviv\u00eancia internacional estabelecidas pela famosa Paz de Westf\u00e1lia, assinada em 1648, ap\u00f3s o fim da Guerra dos 30 Anos.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 dissemos numa resposta anterior, na segunda metade do s\u00e9culo 20 esse sistema se universalizou. Contribu\u00edram para isto o fim do colonialismo europeu e a independ\u00eancia dos Estados africanos e asi\u00e1ticos. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que foi exatamente o sucesso dessa universaliza\u00e7\u00e3o e converg\u00eancia normativa do sistema interestatal, junto com o aumento do poder e da unidade dos Estados que questionam a centralidade americana usando suas pr\u00f3prias regras de jogo, que come\u00e7ou a amea\u00e7ar o poder global norte-americano, obrigando os EUA a darem esta guinada de 180 graus anunciada por Donald Trump.<\/p>\n<p>Desafiados nos seus pr\u00f3prios termos, os Estados Unidos decidiram abdicar de sua \u201cuniversalidade moral\u201d dentro do sistema. Mas isto n\u00e3o significa que deixaram de considerar que seus valores nacionais s\u00e3o superiores aos dos demais, nem mesmo que deixaram de se considerar um \u201cpovo escolhido\u201d com direito ao uso unilateral do seu poder, atrav\u00e9s da for\u00e7a e da promo\u00e7\u00e3o ativa da divis\u00e3o e da dispers\u00e3o de seus concorrentes, e do boicote a todo tipo de blocos pol\u00edticos e econ\u00f4micos regionais que possa lhe fazer sombra ou amea\u00e7ar seu poder global.<\/p>\n<p>Ou seja, os Estados Unidos se assumem como um \u201cpovo escolhido\u201d e ao mesmo tempo abdicam de sua \u201cuniversalidade moral\u201d, com o objetivo de consolidar sua condi\u00e7\u00e3o ou pretens\u00e3o a um \u201cimp\u00e9rio militar\u201d de escala global. Ou, pelo menos, essa \u00e9 a hip\u00f3tese que defendemos no referido artigo do livro. Uma hip\u00f3tese hist\u00f3rica e de longa dura\u00e7\u00e3o que n\u00e3o exclui outras formas de olhar para esta mesma mudan\u00e7a da estrat\u00e9gia norte-americana.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Poder-e-ContraPoder\/EUA-sacramentaram-opcao-por-Bolsonaro\/55\/42992<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleonora de Lucena &#8211; Elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 &#8221;opera\u00e7\u00e3o complexa, envolvendo v\u00e1rios atores externos, com o objetivo fundamental de interromper a s\u00e9rie de governos petistas do pa\u00eds&#8221;, diz o cientista pol\u00edtico Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori Para o cientista pol\u00edtico\u00a0JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI, a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro \u00e9 resultado de uma \u201copera\u00e7\u00e3o complexa, envolvendo v\u00e1rios atores externos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10073,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,3],"tags":[75,71,17],"class_list":["post-10071","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geografia","category-internacional","tag-bolsonarismo","tag-geopolitica","tag-trump"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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