{"id":10011,"date":"2019-01-14T11:24:00","date_gmt":"2019-01-14T13:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=10011"},"modified":"2019-01-13T11:26:03","modified_gmt":"2019-01-13T13:26:03","slug":"o-que-e-o-precariado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/01\/14\/o-que-e-o-precariado\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 o precariado?"},"content":{"rendered":"<header class=\"post-header\">\n<p class=\"meta post-meta\"><strong>Giovanni Alves<\/strong> &#8211; Tenho utilizado o conceito de\u00a0<i>precariado<\/i>\u00a0num sentido bastante preciso que se distingue, por exemplo, do significado dado por Guy Standing e Ruy Braga. Para mim, precariado \u00e9 a camada m\u00e9dia do proletariado urbano constitu\u00edda por jovens-adultos altamente escolarizados com inser\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e vida social.<\/p>\n<\/header>\n<div class=\"entry clearfix\">\n<p>Para Guy Standing, autor do livro\u00a0<em>The Precariat: The new dangerous class<\/em>, o precariado \u00e9 uma \u201cnova classe social\u201d (o t\u00edtulo da edi\u00e7\u00e3o espanhola do livro \u00e9 explicito:\u00a0<em>Precariado: una nueva clase social<\/em>). Ruy Braga o critica, com raz\u00e3o, salientando que o precariado n\u00e3o \u00e9 exterior \u00e0 rela\u00e7\u00e3o salarial que caracteriza o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, isto \u00e9, o precariado pertence sim \u00e0 classe social do proletariado, sendo t\u00e3o-somente o \u201cproletariado precarizado\u201d.<\/p>\n<p>Para alguns intelectuais europeus, com o modo de desenvolvimento fordista-keynesiano do p\u00f3s-guerra, o\u00a0<i>proletariado<\/i>\u00a0transformou-se no\u00a0<i>salariado<\/i>, sujeito de direitos portador da cidadania fordista. Deste modo, com o suposto novo modo de produ\u00e7\u00e3o social-democrata, teria desaparecido a luta de classes. Entretanto, com a crise do fordismo ou crise da social-democracia e o desmanche da rela\u00e7\u00e3o salarial \u201cfordista\u201d a partir de meados da d\u00e9cada de 1970, surgiu uma nova classe social: o precariado, a \u201cnova classe perigosa\u201d, segundo Standing, tendo em vista que eles se sentiriam atra\u00eddos por pol\u00edticos populistas e mensagens neofascistas.<\/p>\n<p>Na verdade, a hist\u00f3ria \u00e9 outra: o salariado, a parcela est\u00e1vel do mundo do trabalho nos pa\u00edses capitalistas centrais, parcela da classe trabalhadora inserida na cidadania industrial, n\u00e3o deixou de ser proletariado, tornado-se t\u00e3o-somente uma camada social distinta (os prolet\u00e1rios est\u00e1veis e com garantias, segundo Alain Bihr). O proletariado est\u00e1vel, organizado em grandes sindicatos corporativos e burocratizados, tornaram-se o lastro das pol\u00edticas social-democratas que cultivavam as ilus\u00f5es do consumo e os projetos de realiza\u00e7\u00e3o do bem-estar social nos marcos do capitalismo afluente. Mas, \u00e9 importante observar que, mesmo naquela \u00e9poca de ascens\u00e3o hist\u00f3rica do capital, o proletariado era constitu\u00eddo n\u00e3o apenas pela camada social est\u00e1vel e com garantias, mas tamb\u00e9m por uma camada social precarizada, uma massa flutuante de trabalhadores inst\u00e1veis, constitu\u00edda por uma s\u00e9rie de categorias sociais precarizadas (trabalhadores terceirizados, tempor\u00e1rios, por tempo parcial, estagi\u00e1rios, trabalhadores da \u201ceconomia subterr\u00e2nea etc). Enfim, havia sim um proletariado precarizado nos pa\u00edses capitalistas mais desenvolvidos no auge do fordismo-keynesianismo.<\/p>\n<p>Outra coisa: no per\u00edodo de ascens\u00e3o hist\u00f3rica do capital no imediato p\u00f3s-guerra, vigorava sim o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista no interior da qual existiam duas classes sociais fundamentais: capitalistas e trabalhadores assalariados. A luta de classes nunca deixou de existir naquela \u00e9poca, assumindo, pelo contr\u00e1rio, formas candentes (e ocultas) nas lutas oper\u00e1rias e movimentos sociais das camadas inquietas do proletariado precarizado e pobre. O era do fordismo nunca foi um para\u00edso ou\u00a0<i>golden age<\/i>\u00a0para a toda a classe do proletariado. E para concluir: a crise do fordismo ou a crise da social-democracia\u00a0 que se desenvolve a partir da d\u00e9cada de 1970, foi, de fato, a crise do capitalismo em sua etapa de desenvolvimento fordista-keynesiano.<\/p>\n<p>Portanto, abandonar o horizonte da cr\u00edtica do capitalismo como modo de produ\u00e7\u00e3o e a cr\u00edtica do capital como sistema de controle estranhado do metabolismo social contribuiu para a vis\u00e3o distorcida de Guy Standing e muitos intelectuais europeus que n\u00e3o conseguem ver o precariado como uma camada social da classe do proletariado. Ao n\u00e3o perceberem isto, eles tendem a despreza o valor ontol\u00f3gico da unidade pol\u00edtica do proletariado na luta contra o sistema do capital. Considerar ou n\u00e3o o precariado uma camada social do proletariado n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o-somente um detalhe anal\u00edtico insignificante no plano pol\u00edtico: como camada social da classe do proletariado, o precariado por si s\u00f3 e incapaz de constituir uma alternativa pol\u00edtica radical \u00e0 sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Ao consider\u00e1-los \u201cnova classe social perigosa\u201d, oculta-se a import\u00e2ncia das alian\u00e7as pol\u00edticas no interior da classe do proletariado como tarefa crucial da alternativa radical capaz de enfrentar o neofascismo em ascens\u00e3o. Isolar a camada social do precariado no plano categorial seria conden\u00e1-lo \u00e0 inefic\u00e1cia pol\u00edtica efetiva, tornando-o, deste modo, mero sujeito receptor das pol\u00edticas da economia solid\u00e1ria. Na verdade, a pol\u00edtica radical deve deixar claro, como pressuposto necess\u00e1rio, a import\u00e2ncia crucial da unidade pol\u00edtica e program\u00e1tica da classe do proletariado clivado de segmenta\u00e7\u00f5es sociais que impedem sua efic\u00e1cia hist\u00f3rica no plano da pr\u00e1xis pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Por outro lado, embora Ruy Braga (no livro\u00a0<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2012\/11\/27\/lancamento-boitempo-a-politica-do-precariado-do-populismo-a-hegemonia-lulista-de-ruy-braga\/\"><em>A pol\u00edtica do precariado<\/em><\/a>) esteja correto em sua cr\u00edtica do precariado como classe social exterior \u00e0 rela\u00e7\u00e3o salarial, ele equivoca-se quando identifica o precariado meramente com o \u201cproletariado precarizado\u201d, perdendo, deste modo, a particularidade heur\u00edstica do conceito capaz de dar visibilidade categorial \u00e0s novas contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo global. Pars ele, o \u201cproletariado precarizado\u201d existiria desde os prim\u00f3rdios do capitalismo hist\u00f3rico. Ruy Braga remete-se inclusive a Karl Marx para delimitar o conceito de precariado como sendo a \u201csuperpopula\u00e7\u00e3o relativa\u201d, exclu\u00eddos tanto o lumpemproletariado quanto a popula\u00e7\u00e3o pauperizada. O que significa que, para Ruy Braga, o precariado, nas suas origens hist\u00f3ricas, confunde-se com o pr\u00f3prio conceito de proletariado industrial, que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Deste modo, dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil em Jirau aos infoprolet\u00e1rios dos\u00a0<i>call-center<\/i>\u00a0em S\u00e3o Paulo, o conceito de precariado se dissolveria no impressionismo sociol\u00f3gico cr\u00edtico das rela\u00e7\u00f5es salariais no Brasil. A particularidade hist\u00f3rica da camada social do precariado perderia sua efetividade heur\u00edstica (lembremos que metodologicamente, a categoria de particularidade \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria dial\u00e9tica hist\u00f3rico-materialista).<\/p>\n<p>Portanto, a distin\u00e7\u00e3o categorial de precariado, que n\u00e3o poderia ser considerado t\u00e3o-somente como proletariado precarizado, n\u00e3o \u00e9 insignificante no plano heur\u00edstico: ampliar categorialmente o conceito de precariado, reduzindo-o a \u201cproletariado precarizado\u201d, seria emascular o conceito de sua capacidade de expor as novas contradi\u00e7\u00f5es da ordem burguesa hipertardia que n\u00e3o se circunscreveria hoje t\u00e3o-somente \u00e0 din\u00e2mica pol\u00edtica do lulismo, mas sim, \u00e0 pr\u00f3pria din\u00e2mica do pr\u00f3prio modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista na etapa de crise estrutural do capital.<\/p>\n<p>Portanto, em nossas interven\u00e7\u00f5es criticas, procuramos salientar o precariado como sendo, n\u00e3o uma nova classe social, mas sim uma\u00a0<i>nova camada da classe social do proletariado<\/i>\u00a0com demarca\u00e7\u00f5es categorias bastante precisas no plano sociol\u00f3gico: precariado \u00e9 a camada m\u00e9dia do proletariado urbano precarizado, constitu\u00edda por jovens-adultos altamente escolarizados com inser\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e vida social.<\/p>\n<p>Deste modo, num plano sociol\u00f3gico, o precariado como\u00a0<i>camada social<\/i>\u00a0m\u00e9dia do proletariado urbano precarizado seria constitu\u00eddo, por exemplo, por um conjunto de\u00a0<i>categoriais sociais<\/i>\u00a0imersas na condi\u00e7\u00e3o de proletariedade como, por exemplo, jovens empregados do novo (e prec\u00e1rio) mundo do trabalho no Brasil, jovens empregados ou oper\u00e1rios altamente escolarizados, principalmente no setor de servi\u00e7os e com\u00e9rcio, precarizados nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho, frustrados em suas expectativas profissionais; ou ainda os jovens-adultos rec\u00e9m-graduados desempregados ou inseridos em rela\u00e7\u00f5es de emprego prec\u00e1rio; ou mesmo estudantes de n\u00edvel superior (estudantes universit\u00e1rios s\u00e3o trabalhadores assalariados\u00a0<i>em forma\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0e muitos deles, estudam e trabalham em condi\u00e7\u00f5es de precariedade salarial).<\/p>\n<p>\u00c9 importante salientar que a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho como precariza\u00e7\u00e3o salarial e precariza\u00e7\u00e3o existencial torna-se crucial na delimita\u00e7\u00e3o do conceito de precariado, tanto que dedico a Parte III do meu \u00faltimo livro \u2013\u00a0<em>Dimens\u00f5es da Precariza\u00e7\u00e3o do Trabalho<\/em>\u00a0\u2013 para discutir o enigma do precariado.<\/p>\n<p>Deste modo, a constru\u00e7\u00e3o categorial do conceito de precariado como camada social da classe dos trabalhadores assalariados implica delimit\u00e1-lo, num primeiro momento, pela vari\u00e1vel salarial: trata-se sim do \u201cproletariado precarizado\u201d, mas \u00e9 preciso salientar: um proletariado jovem, altamente escolarizado, frustrado em suas expectativas de ascens\u00e3o profissional e sonhos, anseios e expectativas de consumo. O que significa que, torna-se importante e fundamental incorporar, nesse caso, na delimita\u00e7\u00e3o da nova camada social do proletariado precarizado, as vari\u00e1veis et\u00e1rias e as vari\u00e1veis educacionais propriamente ditas. Este recorte sociol\u00f3gico \u2013 juventude, precariedade salarial e n\u00edvel educacional superior \u2013 torna-se crucial para apreendermos as contradi\u00e7\u00f5es radicais da ordem sociometab\u00f3lica do capital no s\u00e9culo XXI. Enfim, existe algo de podre no reino do capitalismo do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O precariado ou a camada social de prolet\u00e1rios jovens-adultos altamente escolarizados, tende a cultivar um\u00a0<i>ethos<\/i>\u00a0de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d baseado nos anseios de ascens\u00e3o social por meio da carreira profissional e desejo de consumo. Por isso, podemos consider\u00e1-los como pertencendo \u00e0s camadas m\u00e9dias do proletariado urbano. \u00c9 importante salientar que a nova din\u00e2mica do mercado de trabalho no Brasil na d\u00e9cada de 2000 faz com que um contingente de jovens altamente escolarizados fique desempregado ou inserido em rela\u00e7\u00f5es salariais prec\u00e1rias tendo em vista a degrada\u00e7\u00e3o do estatuto salarial (por exemplo, contrato prec\u00e1rio de trabalho e baixa remunera\u00e7\u00e3o salarial). Por exemplo, segundo o jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d de 30\/06\/2013, o sal\u00e1rio m\u00e9dio mensal dos trabalhadores com mais anos de escolaridade recuou entre 2002 e 2011 no Brasil. A m\u00e9dia de sal\u00e1rio dos profissionais com 12 anos ou mais de estudo caiu 8% nesse per\u00edodo, de R$ 3.057 para R$ 2.821 (a varia\u00e7\u00e3o j\u00e1 desconta a infla\u00e7\u00e3o do per\u00edodo). Isso significa que o poder aquisitivo desse grupo caiu em 10 anos.<\/p>\n<p>Na verdade, as camadas mais escolarizadas do mundo do trabalho no Brasil viram aumentar a concorr\u00eancia na \u00faltima d\u00e9cada. Nos \u00faltimos anos, as pessoas ficaram mais tempo na escola e a oferta de profissionais com ensino m\u00e9dio e superior aumentou. Cresceu a fatia dos trabalhadores brasileiros com ensino m\u00e9dio e superior em andamento ou conclu\u00eddo. O crescimento da escolaridade tamb\u00e9m foi impulsionado pelo aumento do n\u00famero de universidades privadas. Enfim, houve mais ofertas de trabalhadores assalariados altamente escolarizados, a maior parte deles jovens rec\u00e9m-graduados. E muitos profissionais podem ter ingressado no n\u00edvel mais elevado de escolaridade, mas com o mesmo sal\u00e1rio, o que reduziu a m\u00e9dia de ganho da categoria. Deste modo, a camada social do precariado possui, em si e para si, um misto de frustra\u00e7\u00e3o de expectativas e insatisfa\u00e7\u00e3o social e, por outro lado, carecimentos radicais que o torna suscept\u00edvel de atitudes de rebeldia.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um celeiro do precariado h\u00e1 algumas d\u00e9cadas \u2013 pelo menos desde a d\u00e9cada de 1980. O precariado como camada social da classe do proletariado n\u00e3o surgiu na d\u00e9cada de 2000, embora tenha assumido dimens\u00f5es expressivas por conta do choque do capitalismo na era do neodesenvolvimentismo. Por exemplo, desde a d\u00e9cada de 1980 tornou-se percept\u00edvel a inflex\u00e3o do padr\u00e3o desenvolvimentista de inser\u00e7\u00e3o ocupacional.<\/p>\n<p>\u00c9 o que observa Adalberto Cardoso no livro\u00a0<em>A constru\u00e7\u00e3o da sociedade do trabalho no Brasil<\/em>: \u201cEm 30 anos (1976-2006), ocorreu uma\u00a0<i>deteriora\u00e7\u00e3o das chances de inser\u00e7\u00e3o ocupacional dos mais qualificados<\/i>. Isto \u00e9, se at\u00e9 1976 a maior escolaridade abria as portas das melhores ocupa\u00e7\u00f5es urbanas, em 2006 esse j\u00e1 n\u00e3o parecia o caso. \u00c9 a isso que denomino\u00a0<i>inflex\u00e3o do padr\u00e3o desenvolvimentista de inser\u00e7\u00e3o ocupacional<\/i>, resultante da opera\u00e7\u00e3o de tr\u00eas vetores principais: o adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho; o desemprego no in\u00edcio das trajet\u00f3rias de vida; e o consequente aumento da competi\u00e7\u00e3o pelas posi\u00e7\u00f5es de mercado. Ou seja, a escola adquiriu cada vez maior centralidade nas chances de inser\u00e7\u00e3o dos jovens, mas\u00a0<i>essas chances tornaram-se muito mais restritas e de acesso mais lento<\/i>\u00a0em compara\u00e7\u00e3o com os jovens de gera\u00e7\u00f5es anteriores.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Adalberto Cardoso, a\u00a0<i>inflex\u00e3o do padr\u00e3o desenvolvimentista de inser\u00e7\u00e3o ocupacional<\/i>ocorrida no final da d\u00e9cada de 1990 se consolidou nos anos seguintes. A universaliza\u00e7\u00e3o do ensino fundamental aumentou a press\u00e3o sobre e estrutura educacional e sobre os estudantes do ensino m\u00e9dio. A maior qualifica\u00e7\u00e3o ainda melhora as chances de mercado vis-\u00e0-vis os menos qualificados, mas vem caindo (em termos salariais) o \u201cpr\u00eamio\u201d daqueles com mais anos de estudo. Al\u00e9m disso, \u00e9 maior o desemprego entre os pessoal com mais de 11 anos de estudo do que entre os com 4 anos ou menos. Diz Cardoso que ter mais escolaridade \u00e9 sempre melhor em termos m\u00e9dios, mas no desenvolvimentismo a diferen\u00e7a entre os mais qualificados (minoria da popula\u00e7\u00e3o) e os outros era imensa. Hoje h\u00e1 mais gente qualificada, mas poucos postos de trabalho para eles, o que aumenta a competi\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores etc. Enfim, embora Adalberto Cardoso n\u00e3o utilize o conceito de precariado, ele est\u00e1 delineando a produ\u00e7\u00e3o do precariado no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Deste modo, com o neodesenvolvimentismo n\u00e3o se alterou a nova din\u00e2mica de precariza\u00e7\u00e3o social do trabalho. Na verdade, ela tornou-se mais vis\u00edvel tendo em vista o crescimento da economia brasileira na d\u00e9cada de 2000.<\/p>\n<p>O precariado constituiu a\u00a0<i>espinha dorsal<\/i>\u00a0dos protestos nas ruas das 353 cidades brasileiras que ocorreram em junho de 2013. Na medida em que cresceram por conta da exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, o\u00a0<i>corpo<\/i>\u00a0das manifesta\u00e7\u00f5es massivas que atingiram as cidades brasileiras inclu\u00edram outras camadas sociais, fra\u00e7\u00f5es e categorias de classe que ocuparam as ruas. Mas o que eu tenho salientado \u00e9 que a espinha dorsal da multid\u00e3o massiva que ocupou as ruas era constitu\u00edda pelo precariado.<\/p>\n<p>De repente, o Movimento do Passe Livre (MPL) deu visibilidade nas ruas brasileiras\u00a0 \u00e0 camada social m\u00e9dia do proletariado precarizado urbano (em contraposi\u00e7\u00e3o, por exemplo, ao \u201csubproletariado pobre\u201d que Andr\u00e9 Singer utilizou para caracterizar a nova base social do lulismo). O precariado seria, deste modo, o filho prodigo do neodesenvolvimentismo que exige mudan\u00e7as sociais na pauta do novo padr\u00e3o de desenvolvimento brasileiro. Por exemplo, no artigo \u201cQue juventude \u00e9 essa\u201d, publicado no jornal \u201cFolha de S\u00e3o Paulo\u201d de 23\/06\/2013, o soci\u00f3logo Marcelo Ridenti descreveu a juventude que ocupou as ruas nas manifesta\u00e7\u00f5es do Outono Quente do seguinte modo: \u201cAo que tudo indica at\u00e9 o momento, s\u00e3o principalmente setores da juventude, at\u00e9 h\u00e1 pouco tida como despolitizada, e que n\u00e3o deixa de expressar as contradi\u00e7\u00f5es da sociedade.\u00a0<i>Parece tratar-se de uma juventude sobretudo das camadas m\u00e9dias, beneficiadas por mudan\u00e7as nos n\u00edveis de escolaridade, mas inseguras diante de suas conseq\u00fc\u00eancias e com pouca forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/i>\u201d (o grifo \u00e9 meu). O que Marcelo Ridenti descreve, sem o saber, \u00e9 o precariado.<\/p>\n<p>Numa pesquisa feita pelo IBOPE sobre o perfil social dos manifestantes de junho de 2013 no Brasil tornou-se claro a presen\u00e7a massiva do precariado nas ruas. Por exemplo, 63% dos manifestantes tinham de 14 a 29 anos e 18% de 30 a 29 anos; 93% dos manifestantes tinham o colegial completo e n\u00edvel superior incompleto\/completo; 76% dizem que trabalham, sendo 15% disseram que ganham at\u00e9 2 (dois) sal\u00e1rio-m\u00ednimos (S.M.); 30% disseram ganhar de 2 a 5 S.M. e 26%, de 5 a 10 S.M.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 importante observar, no plano cultural, que o corte geracional torna a camada social do precariado suscept\u00edvel \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o das redes sociais (facebook e twitter). O precariado \u00e9 constitu\u00eddo pela prolet\u00e1rios nascidos na era digital. Ao mesmo tempo, tendo em vista que o precariado assumiu dimens\u00f5es expressivas na era do neoliberalismo, que aprofundou nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, a imbeciliza\u00e7\u00e3o cultural, a despolitiza\u00e7\u00e3o e o irracionalismo social na sociedade brasileira, o precariado tornou-se bastante suscept\u00edvel \u00e0s atitudes anarco-liberais, anarco-punks, neofascistas e esquerdistas\u00a0<i>tout cort<\/i>, isto \u00e9, atitudes \u201cextremistas\u201d, manipuladas tanto \u00e0 esquerda como \u00e0 direita, principalmente numa conjuntura social inst\u00e1vel e polarizada politicamente. \u00a0Na verdade, partidos e sindicatos que representam as camadas organizadas do proletariado urbano t\u00eam dificuldades em absorver as insatisfa\u00e7\u00f5es sociais, demandas radicais e formas de organiza\u00e7\u00e3o do precariado.<\/p>\n<p>Enquanto camada m\u00e9dia da classe social do proletariado, o precariado tem uma cultura e psicologia social pr\u00f3pria. Por um lado s\u00e3o movidos pela profunda insatisfa\u00e7\u00e3o social. O que significa que a rebeldia do precariado \u00e9 express\u00e3o das novas dimens\u00f5es da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho que ocorre no Brasil. N\u00e3o se trata apenas da\u00a0<i>precariza\u00e7\u00e3o salarial<\/i>\u00a0tendo em vista o desemprego, baixos sal\u00e1rios, rotatividade do trabalho, contratos salariais prec\u00e1rios e frustra\u00e7\u00e3o de expectativas de carreira profissional; mas trata-se tamb\u00e9m da\u00a0<i>precariza\u00e7\u00e3o existencial<\/i>\u00a0que ocorre com a precariedade dos servi\u00e7os p\u00fablicos nas cidades brasileiras \u2013 transporte p\u00fablico, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, espa\u00e7os p\u00fablicos \u2013 e o modo de vida\u00a0<i>just-in-time<\/i>\u00a0(discuto isso no meu \u00faltimo livro \u201cDimens\u00f5es da Precariza\u00e7\u00e3o do Trabalho no Brasil\u201d).<\/p>\n<p>Por outro lado, a camada social do precariado \u00e9 movida por\u00a0<i>carecimentos radicais<\/i>\u00a0\u2013 utilizando o conceito de Agnes Heller. Enfim, a juventude prolet\u00e1ria escolarizada torna-se vulner\u00e1vel ao desalento e ang\u00fastia intr\u00ednsecos ao prosa\u00edsmo da vida burguesa e a incapacidade da sociedade das mercadorias na etapa de capitalismo manipulat\u00f3rio em permitir uma vida plena de sentido. Enfim, o precariado representa, em si e para si, a car\u00eancia de futuridade intr\u00ednseca \u00e0 ordem do capital. \u00c9 por expressarem as contradi\u00e7\u00f5es radicais da ordem burguesa hipertardia que a camada social do precariado \u00e9 suscet\u00edvel a absorver em suas atitudes sociais, formas de irracionalidade que caracterizam a ordem decadente do capital.<\/p>\n<p>\u00c9 importante salientar que o cerne da radicalidade do precariado \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o visceral entre \u201cideais de classe m\u00e9dia\u201d, impulsionados pela educa\u00e7\u00e3o do capital; e a condi\u00e7\u00e3o de proletariedade que caracteriza a situa\u00e7\u00e3o existencial da juventude rebelde (discuti o conceito de condi\u00e7\u00e3o de proletariedade no meu livro hom\u00f4nimo, publicado em 2009). Por isso, os protestos de rua no Brasil n\u00e3o dizem respeito a revolta da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d. Na verdade, a pobreza heur\u00edstica do conceito de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d tende a ocultar a condi\u00e7\u00e3o existencial de classe da multid\u00e3o insatisfeita das ruas, multid\u00e3o de jovens-adultos prolet\u00e1rios altamente escolarizados insatisfeitos socialmente e carentes de uma vida plena de sentido.<\/p>\n<p>A tarefa pol\u00edtica da esquerda radical \u00e9 constituir a alian\u00e7a interna das camadas sociais do proletariado urbano \u2013 o que n\u00e3o ocorre nem na Europa onde as novas dimens\u00f5es da luta de classes alcan\u00e7ou maior desenvolvimento social. De um lado, os movimentos sociais do precariado; e de outro, as manifesta\u00e7\u00f5es das centrais sindicais e sindicatos do proletariado organizado com deforma\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica. Por um lado, as mis\u00e9rias do esquerdismo, e por outro lado, a mis\u00e9ria do burocratismo impedindo a unidade pol\u00edtica do proletariado como classe social capaz de fazer hist\u00f3ria.\u00a0<i>Divide et impera<\/i>\u00a0torna-se hoje, mais do que nunca, nas condi\u00e7\u00f5es da proletariedade universal, o lema da ordem sociometab\u00f3lica do capital.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"dRHUdf7hcU\"><p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/07\/22\/o-que-e-o-precariado\/\">O que \u00e9 o precariado?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;O que \u00e9 o precariado?&#8221; &#8212; Blog da Boitempo\" src=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/07\/22\/o-que-e-o-precariado\/embed\/#?secret=tinAIjF8P1#?secret=dRHUdf7hcU\" data-secret=\"dRHUdf7hcU\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Giovanni Alves &#8211; Tenho utilizado o conceito de\u00a0precariado\u00a0num sentido bastante preciso que se distingue, por exemplo, do significado dado por Guy Standing e Ruy Braga. 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