João Cezar de Castro Rocha* – Leia trecho de “A era de Ricardo III”, de João Cezar de Castro Rocha, que trata do avanço da extrema direita e do adoecimento que isso gera no planeta
Um fantasma ronda não apenas a Europa, mas todo o mundo: o avanço transnacional da extrema direita, cuja truculência, orgulhosa de sua explicitude, é um desafio à compreensão do mundo contemporâneo. A guerra cultural como método e a desfaçatez como espelho: eis bem a definição sucinta das memórias do subsolo do tempo presente. No segundo capítulo, ampliarei o estudo da guerra cultural, mas, desde já, ofereço uma definição deliberadamente telegráfica: trata-se da mais poderosa máquina de desinformação jamais elaborada na história do Homo sapiens.
(Paro por aqui: espero que tenha ficado curioso.)
No Maio de 1968, os estudantes rebelados lançavam mão da imaginação literária para expressar seu descontentamento com os poderes estabelecidos. Numa explosiva mescla de marxismo e surrealismo, determinados mais uma vez a tomar o céu de assalto, inscreviam nos muros de Paris, “Soyez réalistes, demandez l’impossible” [Sejam realistas, exijam o impossível]. Numa perversa inversão de perspectiva, aliás, uma das principais estratégias defendidas por Steve Bannon no seu exitoso receituário do caos, a extrema direita adotou o lema, embora com os sinais invertidos.
A sucessão de silogismos improváveis, que brota sem trégua de sua retórica vertiginosa, pretende forjar a realidade enquanto puro desassossego, como ocorre nas décadas iniciais do século 21. Entropia como móvel, destruição como gênesis: o ômega literalmente se torna o alfa, o último desde sempre foi o primeiro – Apocalipse sem a justificativa do Anticristo, que não mais procura dissimular seus propósitos. A utopia de mundos outros e o desejo de formas inéditas de subjetividade cederam lugar à distopia da predação suicida da natureza e da uberização, não apenas do trabalho, mas também da vida, cuja precarização mimetiza imprudentemente as condições do planeta adoecido pela ação humana.
(Antropoceno: conceito-sintoma da crise mais grave da forma-capitalismo, que discutiremos no primeiro capítulo.)
A negação da tradição (e da ruptura)
Num estudo clássico sobre as vanguardas históricas das décadas iniciais do século 20, “A teoria da vanguarda”, Peter Bürger decodificou o procedimento que transformou a transgressão em norma, num autêntico moto contínuo acionado pela sucessão de choques provocados como estratégia estética. Na expressão maliciosa de Octavio Paz, “La tradición de la ruptura implica no sólo la negación de la tradición sino también de la ruptura…”.
Entenda-se a ironia: se romper todas as regras vira a norma, já não haverá um fundo estável contra o qual rebelar-se. Bürger identificou o paradoxo vingativo que selou a melancolia do futuro – justamente a dimensão temporal em que se apostaram todas as fichas do movimento. O que as vanguardas conceberam como rebeldia, a indústria cultural rapidamente converteu em mercadoria – a rima é pobre, mas o resultado é a miséria nossa de cada dia.
Pensemos na domesticação da proposta mais revolucionária: fundir a tal ponto arte e vida que a própria arte enquanto instituição, separada do cotidiano pelos muros de museus e pelas salas de aula das Escolas de Belas Artes, perderia sua razão de ser. O projeto se cumpriu, mas de ponta-cabeça: na visão vanguardista, a estética da existência levaria à plenitude da experiência vital, tornada um palco inesperado de estranhamentos em série.
No mundo das redes sociais, em narcíseas linhas do tempo de uma tediosa civilização da selfie, quanto maior o número de postagens, mais esvaziado se encontra qualquer conteúdo potencialmente perturbador – o rumor não é inimigo, porém apenas indistinto. Pior: indiferente.
Seria esse fantasma também fruto de um modernismo reacionário?
(O insucesso das vanguardas históricas antecipou a crise contemporânea? A extrema direita é uma mutação inesperada de um modernismo reacionário, definidora da ideologia reacionária de um Steve Bannon?)
O mais inquietante é o método empregado pela extrema direita para chegar ao poder. Não se trata da oratória bélica na língua certeira dos fuzis ou de argumentos intolerantes apoiados por tanques nas ruas. Numa atualização involuntária de Étienne de La Boétie, no universo digital surgiu uma forma nova de submissão coletiva. Ensaio escrito em 1548, quando o autor contava apenas 18 anos, o “Discurso sobre a servidão voluntária” foi motivado pela derrota política do povo francês, que foi obrigado a aceitar novos impostos, considerados injustos e por isso contestados, porém sem sucesso.
A questão se impôs: se o povo é muito mais numeroso do que eventuais tiranos, por que a servidão é possível? Não bastaria o mero paralelo numérico para desfavorecer governos autoritários, que perderiam sua sustentação, por assim dizer, aritmeticamente? A história demonstra exatamente o oposto, e os exemplos de tirania se multiplicam em épocas distantes e em culturas as mais distintas – de Nero a Trump, de Átila a Bukele, de Calígula a Milei. Haveria causas estruturais para dar conta dessa recorrência? La Boétie identificou três motivos; concentro-me no terceiro, pois ele abre caminho para uma ponte inesperada entre o século 16 e os dias atuais. A passagem-colagem que proponho é iluminadora:
Chego agora a um ponto que, na minha opinião, é a fonte principal e o segredo da dominação, o apoio e o fundamento de toda a tirania. […]
[…] não são as armas que defendem um tirano, mas sempre […] quatro ou cinco homens que o apoiam e que sujeitam o país inteiro. Sempre foi assim: cinco ou seis […].
Os seis têm a seu serviço seiscentos, que são corrompidos tanto quanto é o tirano. Desses seiscentos dependem seis mil […].
Grande é o que vem depois. E quem quiser desenrolar o fio verá que, não seis mil, mas cem mil, e milhões se apegam ao tirano por essa corrente ininterrupta que o solda e prende.
Esquema Ponzi muito avant la lettre, a tirania é um mecanismo que aciona o contágio mimético do poder pelos benefícios prometidos a seus cúmplices – como o Ricardo III shakespeariano fez com o Duque de Buckingham; como os líderes autocráticos da extrema direita repetem com a comercialização infinita da retórica do ódio. Pirâmide autoritária que recorda o modelo de monetização de um produto de nicho que domina as redes sociais: a radicalização ideológica.
O alcance inédito proporcionado pelo universo digital dessa corrente ininterrupta é potencializado ao máximo pelas grandes plataformas que descobriram no ressentimento a forma de uma mercadoria que literalmente solda e prende centenas de milhões de pessoas ao redor do globo. A exploração do vício em dopamina barata, propiciada pela escalada aos extremos da violência simbólica, foi importada da economia digital para o terreno da política, e seus efeitos são desastrosos para a ordem democrática em todo o mundo.
Panorama sombrio que exige reformular o cálculo do qual partimos. Nessa cadeia de interesses, “aqueles a quem a tirania parece proveitosa são quase tão numerosos quanto aqueles a quem a liberdade agradaria”.
Os exemplos são legião.
Monetização
Donald J. Trump realizou a proeza de transformar sua derrota eleitoral em 2020 numa máquina de fazer dinheiro: um pouco mais de 200 milhões de dólares em aproximadamente 60 dias! O artifício foi simplório: o presidente derrotado iniciou uma campanha de arrecadação de fundos para melhor contestar o resultado das urnas; afinal, sem recursos, como insuflar a militância “to fight like hell” [a lutar com todas as forças]? No Brasil, em chave modesta, quase ao rés do chão, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro recebeu 17,2 milhões de reais em doações após seu insucesso eleitoral. Não satisfeito, lançou uma série de produtos da “Franquia Bolsonaro”, incluindo um calendário com fotos do ex-presidente.
(Metonímia involuntária: assim funcionam as pirâmides financeiras: o tempo da malandragem sempre se esgota e advém o colapso.)
Na Argentina, em fevereiro de 2025, o presidente em exercício, Javier Milei, envolveu-se num negócio nebuloso no lançamento de uma criptomoeda, $LIBRA, que se revelou uma fraude grosseira. Crime financeiro que estampa as digitais de um presidente, numa metáfora selvagem da “servidão voluntária” dos milhões de apoiadores da extrema direita. Em Nova York, iniciou-se um processo judicial que inclui o nome de Milei num caso de estelionato envolvendo a criptomoeda que promoveu em suas redes sociais.
Na véspera de assumir seu novo mandato, Donald e Melania Trump também lançaram suas criptomoedas, como se não fosse possível resistir às afinidades eletivas entre a forma-capitalismo e as pirâmides financeiras.
Em tal horizonte, que constrange pela expansão do contágio mimético, políticos como Viktor Orbán, Donald J. Trump, Giorgia Meloni, Jair Messias Bolsonaro, Javier Milei, Marine Le Pen e Nayib Bukele aprenderam a conquistar corações e mentes, sobretudo das gerações mais jovens – os deserdados de futuro do neoliberalismo predador do século 21. Desse modo, vencem eleições livres e democráticas e, uma vez empossados, tornam-se arquitetos de uma engenharia institucional monotemática, cujo objetivo é a corrosão interna da democracia que os elegeu. Bem-sucedidos, perpetuam-se no cargo e, passo a passo, convertem seus países em maldisfarçadas autocracias.
(Numa manhã, ao despertarmos de sonhos intranquilos, nos demos conta de que deixamos de viver numa democracia. E nem é preciso que tenhamos sido caluniados, pois o ritmo desse processo é definido por múltiplas metamorfoses.)
Um personagem shakespeariano permite decifrar a Esfinge da extrema direita, que, embora vencida, segue devorando seus adversários. Entra em cena uma inovação ousada do teatro elisabetano, o Duque de Gloucester. No papel inédito do vilão que não oculta seus propósitos, antes ostenta seu repertório de vilanias com destemor, o futuro rei Ricardo III anuncia orgulhosamente o papel que assumirá em sua ascensão meteórica: “I am determined to prove a villain” [Estou decidido a provar-me um vilão]. Fala emblemática da primeira cena do primeiro ato – momento inaugural. Cena de origem do século 21? Arqueologia impensada do presente?
Em seu caminho ao centro do poder, o homem “cheated of feature by dissembling nature, / Deformed, unfinished, sent before my time” anuncia as desfaçatezes de que será capaz e, ainda assim, triunfa. Estamos longe da forma-Iago, ou seja, do vilão dissimulado, pois, até o final da peça, Iago é visto por todos como virtuoso e leal. O equívoco do outro é urdido no ardil e na sutileza do prestidigitador da boa-fé alheia. No mundo contemporâneo, um tipo oposto virou protagonista do espetáculo da política.
Estamos no universo da forma-Ricardo III, que se regozija com as maldades que planeja, goza com a perspectiva da anarquia que precisa instaurar para sentar-se no trono. Arquiteta crueldades e assassinatos como quem participa de banquete em sua homenagem. Mais ou menos como se tornar senhor da guerra para sequestrar o Prêmio Nobel da Paz.
(E nem assim o vilão deixa de abrir seu meticuloso livro do desassossego, embora permaneça pouco tempo no poder. Pelo menos o Ricardo III shakespeariano. Só ele?)
Em primeiro lugar, o Duque de Gloucester vence pelo aço de sua espada. A seguir, conquista pela promessa de poder que associa a suas ações violentas. Recusar o papel de cúmplice poderia levar à escrita precoce do próprio epitáfio. Com base nessa retórica particularmente persuasiva, o futuro rei pavimenta o acidentado rumo que o conduzirá ao trono. No entanto, o que dizer de Trump e tutti quanti que, embora adeptos da vilania-ostentação “biltre” precisamente para sublinhar a novidade do texto shakespeariano de Ricardo III, dependem do apoio indispensável de futuras vítimas, os eleitores, inegavelmente seduzidos pela revelação de propósitos que costumavam permanecer ocultos?
(Você se recorda: “Não há nada encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido”.17)
Entra em jogo a atração fatal da servidão voluntária, aprofundada pelo narrador anônimo de “Memórias do subsolo”. Ressentido no limite da insensatez, ele desenvolve aqui e ali reflexões de lucidez desconcertante. Uma questão move sua escrita: como entender que, na maior parte das vezes, escolhemos o que nos prejudicará? Como aceitar que milhões de eleitores optem por caminhos que se bifurcam, mas que convergem nos malefícios que lhes causarão? Como calcular essa aritmética pouco precisa que apreende o movimento da sociedade com a argúcia que parece faltar às explicações sociológicas e filosóficas?
Nas palavras do narrador: “E se acontecer que, em certos casos, o lucro para o ser humano não apenas pode como até deve consistir, justamente, alguma vez, em desejar para si algo ruim e não vantajoso?”. A resposta para essa questão articula dois fatores que lançam luz sobre os desafios do presente.
O personagem que emerge daquele prazer masoquista é antes de tudo um personagem coletivo, fruto do contágio que molda a psicologia das massas e conforma o temível eu-nós-mesmos, sempre disposto a combater a promessa do eu-nós-outros. Ao mesmo tempo, esse personagem-legião, visto sob um prisma positivo, recusa a redução do indivíduo a um simples logaritmo. Sim, essa é a palavra a que Dostoiévski recorre, e, ao ler a novela, a leitora talvez acredite ter lido algoritmo.
(Numa crônica de Machado de Assis sobre o censo de 1872, um enigmático “senhor algarismo” assume papel decisivo. Viva o anacronismo!)
A imaginação literária como alternativa
Você já se deu conta do que proponho neste ensaio. Diante da perplexidade causada pelos dilemas contemporâneos, arrisco a hipótese que nos ocupará nas próximas páginas: a imaginação literária oferece uma alternativa única para inteligirmos o que de outra forma nos escapa. No fundo, estamos todos convocados ao papel de pequenos Édipos do cotidiano que desentendemos.
De Corinto a Tebas a travessia é perigosa, porém promissora: abraça o planeta. O dilema da Esfinge tornou-se nosso presente, cifrado nos arcanos da guerra cultural, cuja insensatez parece ser a razão direta de seu êxito perturbador.
(Como cogitar o xeque-mate sem antes montar todas as peças no tabuleiro?)
*Capítulo de apresentação de “A era de Ricardo III – Guerra cultural como método”, mais recente livro do historiador, ensaísta e professor de literatura comparada da Uerj João Cezar de Castro Rocha, que acaba de ser publicado pela editora Autêntica. Aqui, o texto foi levemente adaptado para se adequar aos padrões do Amado Mundo, com, por exemplo, intertítulos que não constam da edição nas livrarias e pequenas alterações gráficas.
Fonte: Um fantasma (truculento, caótico, predador) ronda o mundo – Link da matéria: https://amadomundo.com/ricardo-iii-joao-cezar-guerra-cultural-fantasma/


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